quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Woman On Top



Post dedicado a meu amigo-irmão Alex, fã da mais nova musa de Paglia - Daniela Mercury - e um dos cabras menos machistas que conheço.

Esse tópico vai abordar o poder feminino. Bem, não gosto muito da expressão. Provavelmente porque não gosto da palavra "poder", ao menos no sentido usualmente empregado, que é o de alguém subjugado a outro alguém. Além da idéia ser desagradável, esse poder terceirizado é uma fábula: só existe porque o dominado crê que o seu dominador tem algo de especial. Gosto do poder quando ele significa domínio sobre si mesmo - ainda assim, com algumas restrições. Ah, isso sim é legal!
É desse tipo de poder feminino que falarei no texto a seguir.

Terminei de ler, há poucos dias, "Vamps e Vadias", de Camille Paglia [não se deixem impressionar pelo título, que o conteúdo é beeem mais light do que esse faz parecer]. Numa dessas vontades súbitas que me acometem, me aborreci com o escasso material sobre a acadêmica americana e ícone [polêmico] do feminismo, na internet, e resolvi encomendar um livro seu.
Antes de entrar no assunto propriamente, acho que valem alguns comentários sobre Paglia. Não sei se lembram disso, mas há uns 13 meses mais ou menos, postei uma entrevista, em inglês, dela para a Playboy americana, publicada em 1995. Fiquei de traduzir, mas bateu, pra variar, aqueeela preguiça [olhem nos posts de dezembro de 2007].
Na entrevista e no livro, o que se vê é uma mistura de pensadora com astro pop. Camille é rock´n´roll: seu meio de comunicação com o público é o barulho. Alguns acham que o seu "som" é original, é o máximo; outros, um lixo, um ruído. Aparando algumas arestas do seu discurso "espetaculoso", compro suas teorias.
O que mais me deixa feliz quando me deparo com gente como ela é a ousadia em sair do clichê, ainda que às vezes, no intuito de chocar, ela diga umas coisas "nada-a-ver". Mas faz parte do pacote. Ser original sem posar de excêntrico é quase uma missão impossível. Só alguém que quer ser diferente pode dizer algo diferente.
Senti-me unida a ela pelo "trauma" de ser incompreendida e "vítima" de patrulha ideológica e lulus histéricas. Adorava [e adoro] minhas coleguinhas de escola, mas uma coisa que me deixava uma arara era a "profundidade" das opiniões nos debates realizados em sala. Sei que sou um tanto veemente, digamos, quando decido defender um ponto de vista, mas certas opiniões deveriam ser proibidas, assim como os narizes-de-cera são no Jornalismo. Haja saco!... O que me incomoda não é o conteúdo da opinião, mas a falta de conteúdo de quem a reproduz, aposto!, quase sempre sem refletir um pingo sobre o que disse. Se você perguntar "Por quê?", a criatura se embanana para responder...
Lembro de um debate específico sobre o aborto. Sou contra o aborto, mas defendi abertamente minha posição pró-legalização. Por um motivo óbvio: com ou sem isso, eles vão continuar acontecendo - nem mais nem menos, creio, e os estudos confirmam a hipótese. Então, se inevitavelmente uma vida vai se perder, por que não salvar a outra [da mãe], propiciando a mulher que o faça com alguma segurança? Quem se ferra nessa são as mulheres pobres, que apelam ou para chumbinho [em casos extremos de desgosto com a gravidez] ou para Citotec. As meninas não quiseram compreender meu ponto de vista e vieram com aqueles argumentos óbvios mas que não contribuem em nada com o crescimento e esclarecimento da questão. Nessas horas, faço das palavras de WG as minhas: "Eu não preciso concordar com você, mas pelo menos me convença". Uma amiga, mãe adolescente de uma menina de 2 anos, vendo meu isolamento, ao final do debate comentou mais ou menos assim: "Ou elas são ignorantes ou são hipócritas. Só quem passou por isso sabe: o primeiro pensamento de todo mundo que engravida sem poder ter a criança é o aborto. Depois, com calma, você desiste, até porque a família te apóia e você relaxa e começa a gostar da idéia de ter o bebê". É nessas horas que a gente percebe como honestidade intelectual faz falta, viu...
Lógico, tem mulher que é cruel, ruim mesmo, que tira o feto como quem tira uma unha encravada, mas penso que para a maioria é uma experiência muito ruim, psicologicamente falando. Faz quem se encontra numa situação extrema, eu acho. Uma pessoa que aborta já está suficientemente punida pela própria consciência; não precisa de mim ou do Estado para lembrá-la do que fez. É uma situação sem comparação, mas vou forçar um paralelo com o soldado que vai para a guerra. Depois de ter visto a morte de perto e ter matado um monte de gente, vale mandá-lo para a cadeia, ou o inferno que viveu já não é suficiente?! Lógico que dentro da guerra há os sanguinários que se alistam justamente para isso. Eu não tenho a pretensão de ter minha opinião ovacionada, claro, mas é inegável que uma coisa que é única não existe, ou seja, que uma única resposta para a questão - quando não se trata de ciências naturais - é essencialmente errada, está fadada à lata de lixo.
Particularmente, tenho problemas com idealizações e, por tabela, com quem vive em cima delas. Mesmo quando eu nego a realidade, faço questão de conhecê-la e ter em mente como ela é - até para não sofrer com expectativas frustradas. Falta de Ar no mapa astral?! Falta de imaginação?! Falta de paciência para viver "no mundo da imaginação"?! Pode ser. Na verdade, apesar de ter o hábito da "vida como ela é", creio apenas que algumas idealizações são úteis e outras não.
No discurso de Camille Paglia vi o que eu julgo uma sincera vontade de detonar com certas idealizações sobre a condição feminina que de nada fortalecem as mulheres. Pelo contrário: as fragilizam, as tornam histéricas e personas não gratas na arena social, que usam a sua agressividade não para libertar a mulher, mas para coagir a mulher e o homem.
"Vamps e Vadias" foi, de certo modo, um alívio intelectual. Eu sempre me senti deslocada dentro do tema "feminismo" porque nem concordo com a visão conservadora nem com essa atual, essa pseudoemancipação. Ainda não chegamos lá. "Eu não vi nada; eu não percebi nada" [by Serafim... Adivinha para quem ele disse isso? Ganha um doce quem acertar! haha]

Camille Paglia defende, em linhas gerais, que a mulher não é a vítima indefesa do homem, como o feminismo faz crer, mas que ela é na verdade, "a dona do pedaço", que apenas está condicionada a crer, culturalmente, que não é. Sabe aquela historinha do elefantinho que ignora a sua própria força? Mais ou menos isso... Ela ressalta algo bastante óbvio, mas que curiosamente poucos vêem: homem e mulher funcionam, fisiologicamente, diferentemente, portanto o olhar que a mulher deseja que o homem tenha sobre ela nunca será o desejado porque são seres com corpos distintos. [Tem uma passagem até engraçada em que ela diz que sabe exatamente como a mente de um homem funciona porque ela é lésbica e se declara totalmente solidária a eles nas suas revoltas com a emissão de "sinais confusos" por parte da mulherada.]
A mulher está, de fato, no topo porque comanda duas das três esferas das relações interpessoais: as esferas privada e sentimental, deixando, até há pouco tempo, apenas a esfera pública para o homem dominar. Paglia argumenta que a tão desejada paridade no mercado de trabalho nunca vai acontecer porque para algumas profissões a mulher não está disposta; que enquanto elas gostam dos escritórios, os homens se arriscam mais em trabalhos perigosos ou nojentos. Também alega que a Ciência não tem muitos nomes femininos porque elas carecem da obsessão, condição que julga importante para triunfar nesse meio e que é natural no gênero masculino. Há, claro, problemas nessas duas hipóteses, que de tão óbvios nem vale a pena comentar. Só para dar uma "palhinha": E a questão dos salários para homens e mulheres que exercem a mesma função? Como fica?
Vamos à parte que, a meu ver, é a mais interessante do discurso: a cultura feminista [ou antipatriarcal] como fragilizadora da mulher. Paglia defende a tese de que o feminismo agiu contra a mulher, no passado, abafando o seu lado mãe-esposa, e que atualmente continua prejudicando as mulheres ao incentivar que vivam o papel de vítima, desviando-lhes do seu verdadeiro papel: de donas das suas próprias histórias ou melhor dizendo, de deusas pagãs, numa tradução mais "poética".
O politicamente correto e a patrulha ideológica, produtos da luta feminista [e das minorias como um todo], a seu ver, serviram, até agora, para constranger a mulher que optou por um papel mais conservador [por exemplo, aquelas que largam os empregos para cuidarem da família] e também o homem, que acuado por leis e discursos inflamados, tornou-se "menos homem".
Paglia foi, para mim, na mosca, quando disse algo tão simples quanto verdadeiro: é impossível legislar a psique humana; é inviável criar leis que cubram todas as possibilidades do comportamento humano, o que faz do discurso atual do feminismo - ávido por leis de proteção e privilegios de minoria - um esforço coletivo improdutivo. O mundo é o mundo e é preciso que a mulher saiba se posicionar diante dos perigos que ele traz e que assuma a sua responsabilidade, ou melhor, os frutos do seu poder feminino - diz C.P., em linhas gerais.
Para provar o seu ponto de vista, ela compara a absorção do discurso feminista nas classes baixas e nas classes altas americanas. Nas camadas mais baixas, onde as moças crescem menos protegidas e estão mais vulneráveis às "sombras da alma humana", o discurso de vítima não pega, simplesmente porque as moças entendem que "na selva" não há tempo para pedir socorro: é preciso saber se precaver e se defender das ameaças. No que ela classifica como o "ambiente artificialmente seguro" em que crescem as moças da classe alta, o discurso cola perfeitamente, o que ela acha perigoso, pois vem criando uma geração de jovens mulheres, nos EUA, que sabem gritar, que estão paranóicas, mas são incompetentes, assim como crianças de 12 anos, para lidarem com o mundo e, claro, com o sexo.
Católica por formação e ateísta confessa [embora seja defensora das religiões], Paglia defende uma abordagem pagã da sexualidade feminina. Tal concepção retiraria as mulheres da autovitimização e as colocaria no comando, tornando-as menos reprimidas e mais conscientes de si mesmas, do poder feminino, e, claro, mais maduras e responsáveis em seus atos.

* Muito antes dessas leituras, uma vez vi um filme americano, que se passava numa universidade, cuja visão sobre o estupro me causou estranheza. A história é assim: uma caloura vai para uma festa, e lá rola um clima com um colega de universidade. Os dois vão para o quarto e começam a transar. Lá pelo meio da penetração ela muda de idéia e pede para o cara parar, no que ele desobedece. Depois disso, ela o acusa de estupro, com o total apoio dos colegas de campus. Olha, não foi gentil o que ele fez, mas não foi estupro, não. Era o caso dela dar um gelo no cidadão, mas não acusá-lo de estupro, que implica num estigma social para o rapaz acusado. Paglia fala sobre isso e eu concordo: se você chega ao ponto de deitar na cama com um homem, deve contar com a possibilidade de que ele vai querer sexo com você. Ela consentiu na penetração e depois diz que é estupro?! Quando vi esse filme, me senti uma ogra por pensar diferente do que estava ali. Até discuti o assunto com a minha irmã mais velha, que, para o meu alívio, concordou comigo. Olha, no Brasil, o apoio a ela seria zero. Eis uma das vantagens do subdesenvolvimento: a gente cresce mais realista, mais preparado, em certas coisas, para a vida. Fora que a justiça aqui é tão lenta que a impunidade nos agride menos que essa leseira do Judiciário, a depender. hehe


As Brumas de Avalon

Há alguns anos, as opiniões de Paglia não teriam me agradado tanto. Quer dizer, não sem, num primeiro momento, me causarem algum espanto.
Alguns livros têm a hora certa, na vida, de serem lidos. Assim como "O apanhador no campo de centeio", lamentei não ter lido "Vamps e Vadias" na adolescência. Teria me poupado anos de divagações sobre certos temas. Ou não... Talvez me faltasse cabeça para absorver o conteúdo, naquela idade... Ou não. [risos]
Mas nem tudo são flores. Tenho minhas críticas a Miss Paglia. Uma delas é que a mulher que ela defende como ideal, plena, é na verdade um homem com peitos grandes. Afinal, o que é a Madonna senão um homem com vulva?!
Nesse mesmo fio de raciocínio, ela argumenta que essas mulheres sofrem na sociedade e inevitavelmente em seus relacionamentos amorosos porque são fortes e destemidas demais. Em parte, concordo. Em parte, discordo dela e concordo com a sociedade e com os parceiros dessas mulheres. Deve ser esquisito namorar um "travesti" às avessas - aliás, alguns travestis são mais femininos que muito mulherão "de nascença". Eu, particularmente, digo que a feminilidade e a masculinidade têm seu lugar e devem ser preservados [palavras de quem resistiu muito até começar a assumir sua própria feminilidade]. Mulheres devem ser fortes, mas devem ser sensíveis. Homens devem ser sensíveis, mas que não percam a masculinidade. Boa parte da atração reside na diferença e no reconhecimento dos papéis clássicos de cada gênero. Eu não quero para mim um homem que tenha mais medo de baratas do que eu, ora! rsrs
Paglia admira o que chamo de "mulheres-tanque de guerra", como Hillary Clinton, Sarah Bernhardt e a prima donna do pop, Madonna. Eu até gosto delas, as admiro bastante, mas não são meu modelo feminino. Ficaria com mulheres que seguiram o "caminho do meio", como Susan Sarandon, Eva Wilma, Isabel Allende, Patrícia Pillar, e cia.
Uma mulher inteligente não precisa estar na primeira fileira, viver em combate aberto, "ser mais que o homem". O maior trunfo feminino é justamente a sutileza. Claro, se preciso for, deve-se usar a agressividade, partir para o confronto aberto, sem culpa. Mas a sabedoria feminina chega lá sem criar conflitos, sem dividir. Nossas avós, nossas bisavós eram/são mulheres muito inteligentes. Concorda comigo, dona Ingrid? :)
Hillary [que Paglia tanto adora] e Doris Day [que detesta] são apenas lados opostos da mesma moeda. Na condição de lésbica, claro, Camille vai simpatizar com a primeira, com a tribo das dominatrixes.

Mas muito antes da feminista americana e suas idéias progressistas, li um livro que me abriu a mente para o poder feminino: "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley. Quem não leu, leia, que vale a pena!
Para não perder o hábito, vou fazer um parêntese antes de comentar o livro.

A saga das feiticeiras de Avalon mostrou-me novas perspectivas sobre o papel da mulher. Essa questão sempre foi meio espinhosa na minha cabeça. Fui criada numa família muito conservadora, mas vivi entre amigos progressistas. Ficava entre as "mulheres-tanque de guerra" e as "mulheres-pom pom". Não conseguia vislumbrar o tal caminho do meio, aquele que conciliaria um pouco das duas.
As mais pudicas tinham um comportamento passivo demais, masoquista. Atraíam homens dominadores, o que me desanimava bastante. As mais ousadas eram igualmente desequilibradas, e muitas vezes travavam relações sádicas com o sexo oposto, o que me desanimava igualmente [acho que por isso me interesso tanto pelos casais da ficção, onde tudo pode ser como a gente idealiza!Na vida real, os casais são muito problemáticos ou sem vida, em sua maioria]. As opções eram, na minha interpretação, se ferir ou ferir o outro. Eu pensava, cá com os meus botões, que deveria haver um modo de ser livre, espontânea, sem ferir a dignidade alheia e muito menos a minha [esse é o xis da questão!...].
Lendo a série de quatro livros de Bradley, comecei a conjecturar sobre um caminho do meio através da conciliação da natureza [paganismo, numa perspectiva meio reduzida, mas é isso] sem precisar abrir mão dos princípios básicos de convivência [civilização].
Eu quero ser livre, natural, mas não uma besta-fera. Provavelmente, um dia desses vou descobrir que o meu preciosismo me fez perder muito, muito tempo, mas enquanto esse dia não chega, continuo acreditando nas atitudes e escolhas consistentes. Pois é, acabei de dar um exemplo daquilo que disse mais atrás sobre as idealizações que valem a pena sustentar. Eis uma idealização e tanto que, ao ser posta em prática, torna-se um desafio maior que os moinhos de vento de um Dom Quixote [que idealizou - e enlouqueceu - para não morrer]: ser livre sem apelar para a barbárie. Tudo é muito lindo enquanto a coisa vai bem, mas há muito sei que o verdadeiro desafio não é cultivar a virtude mas perseverar nas convicções pessoais quando o mundo nos é desagradável. Muita gente boa [e de caráter fraco] migra para "o lado negro da força" quando se frustra feio com a vida ou com alguém. Essa parte da civilização, do respeito mútuo, me interessa cultivar, em qualquer situação da minha vida, e acho que deveria ser preservada, sim, por todos nós. Impor-se a qualquer custo é para amadores. Uma coisa é tão certa como a lua: haverá sempre um idiota para tentar tirar a nossa fé no caminho. Aplicando essa máxima à "Guerra dos Sexos", a mulher lúcida deve contar com o homem [e a mulher, também] imbecil, como "a pedra no meio do caminho" de Drummond, e ter em mente o que disse o Che: "Hay que endurecir, pero sin perder la ternura jamás".
Quem disse que a fidelidade [a si mesmo/a] é coisa fácil?!

"As Brumas de Avalon" conta o nascimento do cristianismo na Bretanha, ou melhor, narra o fim da cultura pagã na região, ou melhor, conta a história de Camelot sob a perspectiva feminina.
Ao invés de Deus, o povo do norte da Europa cultua uma Deusa. Existe o Merlin e ele é muito respeitado em Avalon, mas a senhora de lá é uma mulher.
O livro é tão ousado que até um ménage à trois rola lá pelo meio da trama, entre dois homens e uma mulher - Alosa deve estar salivando com essa informação, aposto! :P
As feiticeiras de Avalon atuam nos bastidores do reino, tramando quedas e ascensões, às vezes manipulando as pessoas enquanto essas se iludem achando que estão no comando ou, em outras situações, manipulando-as abertamente, em nome da Deusa.
Tudo vai relativamente bem até o dia em que Gwenhwyfar se casa com o Rei Arthur. Esse não é um velhote, mas um moço bonito, de sangue tanto real quanto pagão e primo de Lancelot. Falta a Gwen aquilo que sobra nas feiticeiras: atitude e autoconhecimento. Mas como é linda e vive se metendo em perigo, logo arruma quem lhe proteja [e se apaixone por ela]: Lancelot. Acontece que a futura Senhora de Avalon, Morgana, viu o bofe primeiro e fica morta de ciúmes dele com a rainha cristã. Entonces nem preciso narrar o estrago que esse triângulo causou ao futuro da Bretanha, não é? [risos]
O que pessoalmente destaco nessa fábula é a celebração ao paganismo e ao feminismo, tratando-os como movimentos aliados e concomitantes. Enquanto as mulheres serviram à natureza [e respeitaram os seus instintos femininos e a sabedoria que vem do ambiente natural] se mantiveram no comando. Quando Gwen, representante da civilização trazida pelo cristianismo - que enterrou as religiões pagãs, classificando-as como coisas do demônio - entra em cena, ela entrega essa liderança aos homens, de bandeja, movida pelas restrições e culpas provenientes da moral católica.
Camelot não desaparece, segundo Marion, porque houve um dia, no reino, uma rainha despudorada, como faz crer a versão mais conhecida. É justamente o contrário: é a covardia e a autorepressão dessa rainha que levam o reino ladeira abaixo, ao derrubar seu sustentáculo: a cultura pagã. Ao negar a Deusa, Gwen enterrou a liderança feminina, na região, para sempre... Ou pelo menos até Elizabeth.

Gwen é a mulher que Camille Paglia hostiliza: inconsciente de si mesma, indefesa diante dos perigos naturais da vida em sociedade, portanto, manipulável.


Homem, o sexo frágil

Bradley e Paglia parecem concordar que o mundo é das mulheres. Acontece é que, fora dos livros, nós mulheres sentimos o oposto disso na pele.
Uma das idéias que Paglia defende é de que a pornografia é boa e que é uma prova palpável do poder feminino. Ok, fazer o sexo oposto babar pode ser um tipo de poder e a idéia que temos sobre o sexo é basicamente cultural, mas eu creio que ainda num contexto liberal hipotético e ideal, a pornografia continuaria possivelmente agressiva para a maioria das mulheres. Não culpem os contos-de-fada! É que não rola de achar uma mulher em posição de frango assado algo massa. Camille não se ofende porque é lésbica e excêntrica, ora![risos]
Mas o feminismo com alma de feirante não encontrou eco à toa [o Nazismo está aí para provar que nada vem do nada]. Eu sei que as mulheres, a seu modo, também agridem e acuam os homens, mas eles são muito mais competentes que a gente quando o assunto é agressão. Nunca esqueço daquela fala de Julia Roberts, quando leva um soco do sócio de Edward, em "Uma linda mulher": "Nossa, vocês sabem como acertar uma garota! O que é, hein?! Eles ensinam isso para vocês na escola, é?!". No maxilar ou na reputação, tanto faz...
"Momento Confessionário": vivi isso na pele, há alguns meses. Um certo jornalista me mandou um postal de Paris com um casal se beijando na escada. Nos dizeres, esse recado: "Inspire-se na imagem e divirta-se um pouco". Um ano depois, me aventurei no safári da carne de Senhor do Bonfim: o Forró do Sfrega. Mandei ao amigo um link para as fotos do meu São João. Só porque me viu sandyamente abraçada a um moço de braços fortes, calças justas e pele morena, se indignou comigo: "Mas tá toda uma periguete, hein?!"... Meu querido, decida-se! [risos]
Ao ler o livro do dr. Flávio Gikovate, "Homem, o sexo frágil", me deparei com umas teorias bem interessantes sobre a intimidade do sexo oposto [o título me atraiu e, além do mais, não vou negar que me interesso pelo tema. Criada numa família majoritariamente de mulheres, inclusive entre duas irmãs mais velhas, careço de informações sobre a ala masculina. Fato!]. Uma das teorias dele é de que o machismo, o jeito agressivo de alguns homens se referirem às mulheres, é fruto da inveja e da raiva por não despertarem nas mulheres o mesmo desejo intenso que elas despertam neles, o que ocorre por meras razões fisiológicas.
Dentro dessa hipótese, ele apresenta duas observações que julgo interessantes. Uma delas é de que se a pílula emancipou as mulheres, a pornografia, por outro lado, deu a liberdade aos homens, que antes dela dependiam da "boa vontade feminina" para ver um pedaço de pele. A segunda é de que o cafajeste é um sujeito que atrai a mulherada não necessariamente pelo charme da sua malandragem. A esperteza do cafajeste está em sacar o mecanismo fundamental que dispara o desejo feminino: sentir-se desejada. É a falta de vergonha em demonstrar seu interesse pela mulher que o faz tão bem-sucedido, ponto no qual o tímido "empaca", acreditando que se fizer isso, vai estar sendo desrespeitoso. [Isso me fez pensar que talvez a pornografia masculina só faça sucesso entre os gays porque para as mulheres o que interessa é o nu masculino "personalizado", o desejo masculino provocado por ela. Hummm... :P]

***

Tema controverso e interessante, não? Eu acho!
A partir de toda essa conversa, dessas leituras, cheguei à seguinte conclusão sobre o dito poder feminino: poderia ter poupado minha visão, minha grana e o meu tempo se tivesse prestado mais atenção nas "Spice Girls" [a culpa é da Posh, que me assustava com aquele dente de ouro biiiiizaaaaarrooo!]!! hahaha



* É algo óbvio, mas é bom ressaltar: a exposição de idéias que se seguiu é fruto do meu entendimento dos textos dos autores. Quem pensar diferente, por favor, deixe um comentário.
** Na foto, a atriz Mae West, uma mulher que sempre soube como se manter no topo!

David Copperfield


"Amanhã é 23
São 8 dias para o fim do mês
Faz tanto tempo
Que eu não te vejo"
(Kid Abelha)


Depois de amanhã é que é 23, mas resolvi antecipar meu post de homenagem ao 28º aniversário de dr. Davi Lemos Mas Não Entendemos! hehe [piadinha velha de "Comunicação & Tecnologia", pero yo no resisti!]. Essa letra do Kid e o apelido que pus em Davi [David Copperfield] caíram como uma luva para a nossa amizade. Vê-lo é quase um truque de mágica, realmente [o que me leva a pensar que essa história de que "palavra é vida" não é crendice, não].
Para comemorar a data, elaborei um top 5 daquilo que é o nosso forte enquanto dupla: pagar micos!!!

TOP 5

5 - "Esperando Mamede"
Uma das coisas mais idiotas que fizemos juntos foi ter passado a tarde inteira, desesperados por causa do nosso site [ou melhor, por causa do possível zero nesse módulo!], tentando fazer contato, via e-mail, com Mamede até descobrirmos, já na hora de irmos embora, que ele estava na sala ao lado.
Aquele Campus do Canela é coisa do Diabo ou, uma coisa é certa, não vai nem um pouco com a nossa cara! Após dois anos sem vê-lo, sabem como fomos nos encontrar?! Na esquina da banca de frutas com a Caixa. Nos batemos de frente, no melhor estilo "comédia pastelão". Fica a crítica registrada: Davi poderia ser mais molinho, viu! Doeu!... risos

4 - Comunistas, "graças a Deus"
Fizemos dupla no trabalho final de "Cinema Brasileiro". Por uma leitura equivocada do professor, que entendeu que éramos anticomunistas, fomos parar na final da disciplina. Fizemos a tal prova, mas meio contrariados. O professor ficou com cara de paisagem, pediu desculpas pelo mal entendido, mas ainda assim não nos dispensou. Quem merece?!

3 - "O ET de Vargínia"
Quando fomos para o Intercom de Minas, um dia estávamos em frente ao hotel, andando e conversando, quando me distraio por dois segundo e, ao voltar à nossa conversa, percebo que Davi sumiu. "ET de Vargínia abduziu Davi?!". Hummm... A resposta veio horas depois: meu atrapalhado parceiro de viagem havia sido chamado para um jogo no Mineirão e picou a mula, na certeza de que avisar-me era coisa desnecessária. Ainda bem que sou cuca-fresca... hehe
Bizarro, também, foi o episódio em que uma mulher, cruzando com Davi na rua, adivinhou que ele é baiano só pelo caminhar, sem que ele desse uma palavra!

2 - Le Mosqué
Fomos Claudio, Davi e eu atrás de uma palestra de João Ubaldo, há exatos cinco anos, na Ilha de Itaparica. Chegando lá, o aviso: palestra cancelada. Normal. Aproveitamos para almoçar no único restaurante da redondeza, que pela quantidade incomum de moscas e a precariedade do atendimento, apelidamos sarcasticamente de "Le Mosqué". Um viadinho, com todo o jeito, se aproximou da gente. Ou melhor, dos moços que me acompanhavam. Altas miradas para o morador de Mont Serrat, que não deu bola, mas mesmo assim foi convidado pelo anfitrião da Ilha a ir numa das próximas festas de lá. Fiquei lá, tentando comer a gororoba e segurando a vela do casal. "How romantic".

1 - Top less
No bendito congresso em BH, Raquel, colega de Facom, e eu tivemos a honra de ver um desfile de langerie do dr. Davi, que exibiu todo o seu shape num samba-canção do Esporte Clube Bahia [eu sou tão desinformada em futebol que pensei que o símbolo do clube fosse o Super-Homem simplesmente; não associei uma coisa a outra]. Não preciso dizer que Davi virou o muso da galera gay, from UCSal, da excursão, né?! hahaha... Pois é, na volta para SalvaCity, um calor da peste na estrada e lá foi Davi, novamente, fazer "exposição da figura", para delírio da ala rainbow do busú. Lembrei do episódio no hotel e brinquei: "O engraçado é que Davi tem mais cabelo embaixo que na cabeça", me referindo, claro, à barriga. Percebi o climão entre os gays, mas pensei que fosse por causa da falta de graça da piada. Seis meses depois, fazendo algo ordinário como cortar papel, lembrei do episódio e entendi o que se passou na cabeça deles. Putz!... Ô vontade de cavar um buraco e me enterrar nele!
Mas essas são coisas típicas que acontecem quando estamos em dupla. Fazer o quê?! Depois que passa, até que fica engraçado! hehe

Feliz aniversário, Davis!!!
Principalmente, feliz vidaa!!!

***

Eu realmente gosto desse rapaz, apesar de termos muito pouco em comum. Acho que é porque Davi tem duas qualidades bem raras de se ver: é idealista e não é malicioso. Davi é especial pela sua honestidade - que Deus a conserve!




terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Frase da Semana

"Veja a frase ´O Brasil não é para principiantes´. Isso supõe que a nossa malandragem nos torna especiais e só interpretáveis por especialistas. Pelo contrário: o Brasil é para amadores e principiantes. Porque pagar e corromper é muito fácil. O difícil é construir uma coletividade em que haja leis, institucionalidade. O difícil é ser moral. Ser imoral é que é para principiantes. A malandragem é uma conduta moral de uma criança de 9 anos. O difícil é crescer. Governar pagando o cara para votar comigo é que é amador. O profissional é construir um discurso que convença, é falar com o outro"

(Contardo Calligaris, psicanalista)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

domingo, 18 de janeiro de 2009

Alosa & Eu


"A vida e o amor ao lado do pior amigo do mundo"
Alosa, em versão canina, fazendo cara de "Ó pra isso, Juli!"

Outro dia estava lendo uma resenha sobre o filme “Marley & Eu”. Adorei! Lembrei-me dos tempos em que tinha uma casa cheia de cães. Só quem tem ou teve um totó em casa sabe o quanto que esses pequenos seres podem se tornar especiais para a gente, para a nossa família. Eu tive uma bruta sorte com os meus bichanos.
Ah, dá um trabalho da zorra, mas ter bicho é bom demais! Eles são desordeiros, eles são interesseiros, eles são brincalhões e são sensíveis. É incrível a capacidade que o bicho tem de identificar quando o dono está precisando daquela lambida, daquela arranhadinha no pé. O bicho retribui o carinho que você lhe dá, o que nem sempre ocorre entre humanos. Camila, a daschund zero que viveu por 14 anos e meio aqui em casa, sem dúvida é a mais especial de todos. Chorei três dias seguidos quando ela morreu, coisa que não aconteceu nem quando minha avó faleceu. Acontece que a vó era alguém que eu via esporadicamente, muito de vez em quando mesmo. Camila foi minha companhia por mais da metade da minha vida, até então. Sinto muita, muita saudade dela. Coração – como a chamava quando ninguém nos via [risos] – é insubstituível. Por que ela morreu?! VACA! [risos... Não liguem não, que ela e eu sempre fomos “entre tapas e beijos”]
Dentre os meus amigos, há alguns com alma de cão. Não levem a mal tal comparação. Trata-se de um elogio. Como disse Milan Kundera, os cães são o nosso elo com o Paraíso. Na verdade, eu daria tudo para ser menos complicada e ter alma de cão; tem gente que acha o máximo ser caótica, que enche a boca para se dizer complexa [geralmente, esses não são; fingem ser porque vêem glamour nessa imagem – santa ignorância!...], mas eu acho um saco, não vejo a mínima graça nisso!
Os cachorros são sempre felizes, se divertem com qualquer coisa. Eles perdoam fácil, mas têm dignidade [faça uma crueldade com um e veja se ele vai te dar moral! Só chega perto novamente se você sinalizar que mudou de humor, que vai tratá-lo bem]. Comem e dormem bastante e sem culpas. É divertido vê-los tremendo diante da bacia de água, na hora do banho. Topam tudo por um carinho e não tem um pingo de constrangimento de pedir. Nunca se esquecem de se espreguiçar quando acordam. Sabem ser leais. Tem na coleira seu melhor amigo; adoram passear. São lindos. São malandros. Seus focinhos são geladinhos. São crianças de quatro patas!
Ninguém que eu conheça tem mais alma de cão que Alosa. Aliás, há sim: Val tá pau a pau com o filho de Pernambués, mas essa é outra história e, além do mais, Val não é jornalista, o que faz muita diferença. Essa leveza que encontro na companhia de André, só sinto igual quando leio “Caras”. hahaha
Eu conheci dr. Alosa há uns oito anos, junto com a turma dele da Facom, na disciplina de Impresso. Antes disso, na verdade, já havia batido um papo com ele. Trabalhava no G Barbosa e era aluno de Semiótica. Externou sua preocupação com a disciplina. Pensei, cá com os meus botões: “Ihhh, esse é o tipo de cidadão que WG adora reprovar”. Mas André passou. Nos próximos anos, esse tipo de “milagre”, vindo de Alosa, não mais me chocaria. Já ouviu falar em corpo fechado? Pois é, eis um caso agudo...
Posso dizer que o conheço desde a época em que era branco [by Cláudio Leal]. A primeira vez que realmente o percebi em Impresso foi quando fez uma reportagem sobre um terreiro e levou não lembro o quê de lá para o laboratório, o que rendeu um esporro daqueles de Elias [“Mas tu tá doido?! Leva essa macumba pra lá, rapaz!”]. Alosa ficou batido, coitado... hahaha
Depois disso, entramos na pesquisa de Carmem juntos. Foi uma época muito boa da vida. Subíamos aquela ladeira infeliz do Calabar e conversávamos à beça sobre novelas e sobre o futuro, tomávamos aquele chá de maçã que Solange [a empregada de Carmem, com quem Alosa brigou, no final!haha] trazia e, por fim, até fizemos um curso de informática, juntos, que foi engraçado à beça. Passei minha primeira grande raiva com essa criatura ali: paguei quase o dobro que ele pelo curso. Grrr...
Um pouco mais adiante, nos separamos. Sentia muita saudade da companhia dele, mas volta e meia nos reuníamos novamente em algum evento/disciplina/projeto. Era massa! Quer dizer, eu me reunia a Alosa. Eis um dado importante sobre a nossa relação: eu sou amiga de Alosa e não ele que é meu amigo. Alosa não me dá um telefonema!...
Claudinho brinca que sou o tipo de pessoa que, se pudesse, simularia a própria morte só para ver quem iria ao meu enterro ou não. Olha, não vou negar que a idéia já me passou pela cabeça [risos]. Alosa, claro, seria um dos mais observados. Pena que estragaria minha farsa, de qualquer jeito. Se fosse e ainda por cima se chorasse, eu não iria me agüentar e acabaria pulando detrás da árvore para lhe dar um abraço. Se não, ia lhe dar aquele esporro via Embratel ["Mas como eu morro e você não vai ao meu enterro, Alosa?! Que absurdo! Que falta de consideração! Quando eu morrer de verdade, você vai ver: toda noite, vou puxar o teu pé!"].
No começo, eu ficava chateada com essa falta de atenção dele. Muito mesmo. Afinal, passamos mais de um ano grudados. Mas depois vi que essa seria uma constante na vida, que ou aprendia a lidar com isso, ou iria sofrer muito e sempre.
Vale para o afeto a mesma regra do dinheiro: dê isso aos outros ou quando você sabe que o retorno é garantido ou, em caso de dúvida sobre isso, por sua conta e risco, já sabendo que as chances de “calote” são grandes. Não vejo isso, de dar sem receber, como falta de amor-próprio; não necessariamente. Tem gente que é egoísta, mas tem gente que é capaz de dar pouco realmente. É preciso apenas se ligar na diferença. Esse tipo de orgulho é besta; penso que afeto retido é quase tão prejudicial ao coração quanto a rejeição. Mas para ser capaz de fazer isso é preciso ter “mucho corazón” e ser maduro para se responsabilizar pela escolha. Claro, não é por qualquer pessoa que podemos agir assim. De algum modo, ela tem que te compensar e você tem que sentir que não está sendo usado/a. "Cortesia afetiva", babies.
Então, há muito decidi que no bloco do meu coração, Alosa é um dos que ganham cortesia. Cá entre nós, ele é um bom folião. Um dos melhores abraços, um grande sorriso. Uma presença e tanto “ao vivo”. E isso é tudo que espero dele e, por mim, já está de bom tamanho.
Às vezes, ele até que me surpreende. Na apresentação do meu TCC, fiquei com medo de pagar mico e não falei sobre isso com ninguém. Mas eu me saí bem e a determinada altura, fiquei chateada por não ter testemunha para aquele momento. Quem entra pela porta?! O próprio, com um sorriso de orgulho de orelha a orelha, parecendo uma mãe de miss. rsrsrs... Também foi um dos poucos que foram na minha missa de formatura. Quando resolve aparecer, Alosa sabe ser fofo!... :)
Já tivemos os nossos pega-pra-capá. Ô!... Uma vez, discuti com ele em JOL. Fiquei 30 segundos pensando em algo que pudesse ofendê-lo e ao mesmo tempo que possibilitasse a nossa reconciliação mexicana, em seguida. Chamei-o de “baiano” e ele ficou ofendido como se eu tivesse dito o pior dos xingamentos. Foi ali que percebi o quanto ele é impressionável. :D
André me deu o troco semanas depois, quando fomos para a Bienal da UNE em Pernambuco, representando o Ponto de Vista, programinha de tv que fazíamos pela Produtora Jr. Ele sabe me irritar como ninguém, tem plena consciência disso e tira partido de seu “dom” sem dó nem piedade da minha pessoa.
Dizem que essas viagens aproximam as pessoas. Voltamos brigados!
Alosa já me irritou na apresentação do vídeo, quando apareceu na frente da platéia com a camisa do Bahia [isso é lugar para desfilar com camisa de time?!]. Quase infartei.
A baixaria, mesmo, aconteceu no show de Alceu Valença, no penúltimo dia. Quem já foi, sabe: esses eventos estudantis são supercansativos; você acorda cedão e volta pra casa bem tarde. No sexto dia, eu já tava quebrada! Num cantinho do ginásio, onde houve o show, vi uma galerinha encostada, dormindo. Não resisti e fui tirar uma pestana com eles, crente que ali só tinha gente morta de cansaço como eu [depois que me toquei que a galera tava chapadaça de tanta maconha. Santa inocência, Batman!rsrs... Ok, foi altamente brown da minha parte dormir no cantinho do ginásio, mas eu consigo resistir a qualquer coisa, menos ao meu sono. Se eu fosse a ricaça ingênua de novela, essa seria a oportunidade da vilã me passar a perna pedindo para assinar um documento dando-lhe plenos poderes: quando estou caindo de sono].
O povo me procurou e não me encontrou. Acordei e perguntei por eles a um segurança que estava perto de mim. O Fulano me disse que os havia visto e que tinham ido em tal direção. Levantei e fui procurar a galera no tal lugar. Nesse meio tempo, voltaram para me buscar. Séculos depois, encontrei com Alosa e as meninas do PDV. O sacana do segurança havia dito a eles que eu tinha acabado de sair de lá, carregada por dois caras. A versão era supermentirosa, claro, e todo mundo sabia disso, mas Alosa se agarrou nela com unhas e dentes!
Àquela altura, eu já estava p. da vida com a galera que tinha vindo com a gente no ônibus. Disseram-me que viajaríamos com o povo de Design da Uneb, mas viajei foi com um monte de viciados em maconha [para vocês terem uma idéia, eles fumaram todo o estoque da droga só na ida a PE. Para não passar mal no busú, fui de Salvador a Recife cheirando limão!]. Eu notei, a determinada altura do evento, que eles estavam muito eufóricos com o lugar ["a melhor maconha do Brasil"] e que corria o risco de não conseguir voltar a tempo, afinal, o ônibus era deles e eu não havia me programado para voltar de outro jeito. Percebendo isso, Alosa começou a me perturbar ["Olha, eu ouvi dizer que eles só vão voltar na segunda"]. Eu comecei a ficar nervosa. Ele, vendo que eu já estava a meio metro de perder a paciência de vez e ir tomar satisfações com aquele povo, desmentiu tudo. Mas eu já tinha perdido o meu bom humor àquela altura. Isso é um amigo ou um espírito obsessor?!!!
Vocês acham que isso foi tudo?! Ohhh, meu Pai!... Alosa me apunhalou no ônibus, na volta para casa!! Me negou três vezes e me entregou aos judeus!... Nem Jesus foi traído, assim, por uma única pessoa... Tá certo que não foi nada inteligente da minha parte falar mal do povo da Juventude Socialista dentro de um ônibus cheio deles [mas, claro, eu não sabia disso], mas Alosa, como amigo, deveria ter botado panos quentes, me defendido. Quá, quá, quá!... Ele passou pro lado inimigo, endossou o coro da maioria e ainda me entregou num episódio, ocorrido na Bienal, que piorou ainda mais as coisas. Ô raiva!... Se não tivesse tanta gente querendo me esganar ali, teria pulado no pescoço de André. Como se não bastasse, os maconheiros-socialistas roubaram os meus chinelos e a água dele enquanto dormíamos, e eu tive que voltar pra casa arrastando uma sandália - que quebrou - e uma mala pesadérrima. Só perdoei Alosa porque ele me ajudou a carregar a mala.
Enfim, é ou não é um cachorro esse meu amigo?! rsrs... Se tivéssemos a oportunidade de conviver 12 anos, certamente também escreveria as nossas memórias, "Alosa & Eu". Quem sabe até não faríamos o mesmo sucesso em Hollywood, hein?! ;)
Ai, Alosa!... Ai, como sofro! "Apesar de colher as batatas da terra, com Alosa vou até pra guerraaaa!...".

Estrelas


Ó, não é foto de, não. É clic de profissional com profissional.
Só faltou Angélica aí. rsrs

sábado, 17 de janeiro de 2009

´Cause everybody´s living in a material world


"... And I, I´m a material girl"

É mentira. É mentira, seu Ratinho!
Bem, meu mapa astral me chama de pistoleira, mas até ele mesmo concorda que a minha missão nessa terra é sair da esfera espiritual e ser mais materialista. I have to learn how to be "a material girl". Tio Patinhas eu já sou [não mais que Nandy, que daí é difícil...]. Só me falta aprender a atrair o vil metal e lidar com os aspectos mundanos da matéria.

Vivemos num mundo onde tudo tem que ser revertido em vantagem material. Sabe, nem todas as vezes em que agimos assim, cultivamos uma intenção dura, pragmática ou até mesmo perversa. Por trás de desejos até ingênuos de sucesso e crescimento, esconde-se nossa alma coletiva materialista.

Conheci, fuçando o Orkut, um rapaz muito bonito [well, as "novelas" do Orkut estão bem mais interessantes que as da tv, viu?]. Quer dizer, eu o conheci, mas ele não me conhece. Até já o vi pessoalmente, indo para uma academia do bairro do Garcia [pena que não deu para ouvir a voz, mas ele tem charme. Deu um olhar de soslaio que foi show!]. A página dele é cheia de amigos [ou melhor, de amigas... Se jogar um kilo de milho, ali, não sobra é nada!]; o guapo tem até comunidade no Orkut. Também pudera: a plástica do cidadão é perfeita. Atrevo-me a dizer que é um dos rapazes mais bonitos que já vi em Salvador [fecha totalmente com o meu gosto]. Ele até que age de maneira simples diante do alvoroço que as moças fazem em torno dele [é, meus caros, tão pensando o quê?! Que essa vida de OB - "omem bjeto" - é para qualquer um?! Nananinanão!... Tem que absorver tudo, ser capaz de ir fundo na coisa! hahaha].
Quando o vi, pensei cá com os meus botões: "Esse sujeito, numa novela do Lombardi, seria um estouro, as mulheres ficariam histéricas com ele!".
O caso é que o moço em questão passa longe do meio artístico. E só porque quer. Médico recém-formado, 28 anos, ele faz o estilo roots. Adora o interior onde nasceu; adora ficar no meio do mato. De uns meses pra cá, namora. A moça, apesar de bonita, é riponga, o que já é um sinal de personalidade da parte dele, já que muitos se sentiriam inseguros em andar com uma moça que não fosse patricinha, um troféu.

Mas chega de falar do dr. Gatão [ah, já ia esquecendo de comentar: além do sobrenome Tanajura em comum, ele tem muita semelhança física com a irmã de Ticiana Villas-Boas, Mariana. Devem ser parentes distantes]. O ponto onde quero chegar é: por que toda vez que nos deparamos com um dom, não podemos apenas admirá-lo e deixar quieto? Por que sempre pensamos que ele só faz jus a si mesmo quando traz ao dono alguma vantagem material?

Outro dia, estava eu lendo um texto de um terapeuta de quem gosto muito, e me deparei com uma fala interessante para a reflexão, que era mais ou menos assim: "Na minha época [ele deve estar se referindo aos anos 60 e 70], via-se muitas moças bonitas no ponto de ônibus. Hoje em dia, elas são uma paisagem rara. Parece que as moças se tornaram menos idealistas e se deram conta de que podem tirar vantagem da sua beleza, não mais esperando o ônibus mas saindo com os rapazes que podem lhes proporcionar algum conforto".
Nem adianta os homens rirem dessa afirmação do doutor [até porque ele esqueceu de um detalhe: de uns anos para cá, as mulheres também trabalham e dirigem]. Cada dia mais, os moços andam menos desavergonhados também; estão aprendendo a tirar vantagem material das moças sem a menor culpa. Ó sina!... Não se fazem mais homens com "H", viu?...

A melhor amiga de minha irmã do meio tem duas filhas que além de lindas são espertas. Eu já me peguei sugerindo que as levasse para a publicidade. Depois me arrependi. Lembrei da história que contam sobre a modelo Fernanda Tavares. Diziam que a mãe nem permitia que brincasse muito na rua, quando criança, para que não acumulasse as famosas perebas de infância. Dando-se conta da beleza de Fernanda, a criatura já visava uma futura carreira de modelo para a filha. É mole?!... Mas fazer o quê?! Nossa cabeça está sempre voltada para a obtenção de vantagens. Eu não sei mais o que dizer sobre o tema, mas acho que se trata algo digno de uma reflexão. E coletiva.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Claudio´s Day



Dia 09 de janeiro é aniversário de meu amigo Claudio Leal. Segundo a sua Revolução Solar para os próximos 12 meses e a numerologia da data, esse será um ano muito favorável para os relacionamentos e o lazer! Uhuuuuu!... hahaha
Nossa, o tempo passa muito depressa! Outro dia mesmo esse rapazinho tinha apenas 18 anos e, diziam as mais diversas línguas de 2000.1, mantinha um romance com uma estudante de Enfermagem. Lembro de ter achado tal informação - a primeira que tive a seu respeito - bem kitsch, na época! [risos]... Mas é incrível como ele não mudou nada! Mantém as mesmas tiradas debochadas de sempre, o mesmo cabelo, a mesma roupa [risos] e, graças a Deus, o mesmo espírito camarada [vixe, isso soou que nem aquela música de "A Praça é Nossa": "A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim..."!hahaha]. Claudio é alguém que não hesito em chamar de amigo, até porque já me deu algumas provas bem contundentes de amizade. Sim, sim, eis uma pessoa que honra o próprio sobrenome. Cacau é realmente le[g]al!!! "Entããão", Claudinho, "sabe, turururu, eu gosto muito de vocêêêê, oh yeah!" [by Juju Bochecha]... Joyeux anniversaire, ma cherie!!!!!!!

Feliz Aniversário

A conversa passava dos quinze minutos quando Pereira me disse, abruptamente: "Claudio". Longo silêncio. "Hoje é meu aniversário". Notem que ele usou apenas cinco palavras para exprimir um sentimento mais fundo. A alma infantil do meu amigo pedia, implorava, um presente dentro do sapatinho exposto na janela.
Foi há um ano atrás. Neste 16 de julho, volta a aniversariar e tudo isto o cansa e esfalfa. Juliana Brito, doce espírito espinhoso, costuma afirmar que uma nuvenzinha negra sempre o acompanha. Nasceu assim, e provo. Pereira era um bebê tão reacionário que esperou 48 horas para saber se a queda da Bastilha era mesmo irreversível.
Afeito a polêmicas, quem acompanha nossas discussões pensa que somos inimigos. De fato, somos inimigos da coletividade, de qualquer multidão. Mas, ao contrário de mim, Pereira ficaria contra a execução de Maria Antonieta. Enquanto abomino a queima de Joana D'Arc, ele delira ao imaginar o fogo lambendo o nariz da heroína. Em Nuremberg, Pereira não esperaria a pena de morte. Tomaria o veneno de Goering feito danoninho. De colher.
Com o passar do tempo, esta personalidade temerária tornou-se vagabunda e lamentável. Eu e ele matamos o tempo em baianas de acarajé, bibliotecas deficitárias, na leitura de jornais indignos e a falar mal dos outros, inclusive de você que me lê. Nada o anima mais do que comprar pão em delicatessen. Sem ter o que fazer, acompanhei-o numa ida à Padaria Favorita, a Daslu do trigo importado: "O melhor pão da cidade, segundo a revista Veja".
Pereira pediu uma dúzia - dá três de presente a mendigos da região - e me estimulou a comprar também (falávamos muito mal de algum roqueiro). Comi dois pães franceses a caminho do ponto de ônibus. "Então, então? Não é bom?", perguntou-me. A massa não tinha gosto de nada, entretanto me lembrei daquele telefonema de 16 de julho: o menino voltava a implorar um elogio. Que não faço pelo amigo? O melhor pão da cidade! O melhor pão da cidade! Fui cuspindo pelo caminho.
Claudio.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

2009


Feliz Ano-Novo, meu povoooo!!!!!!! Que 2009 seja gostoso que nem Didigo [ai, que vontade de dar umas mordidas nesse pintinho! Mas a mãe dele é brava, tenho medo dela! hehe]! :D

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Sixteen candles




Aquele dezembro de 1992 foi bizarro: fiz a pior prova de português da minha vida [que quase me levou para a recuperação]; Letícia Sabatella teve sua primeira filha aos seis meses de gestação e ninguém sabia se o feto/bebê iria sobreviver; um menino de 5 anos foi assassinado num ritual de magia negra em Goiás; e a mais terrível de todas: a atriz Daniela Perez foi assassinada a facadas pelo seu colega de elenco, Guilherme de Pádua e a esposa desse "cidadão", Paula Thomaz.
Daniela tinha apenas 22 anos e quatro meses na época. Era casada e havia acabado de explodir no seu primeiro grande papel, a Yasmin de "De corpo e alma" [título infeliz se levarmos em consideração o que se sucedeu na noite do dia 28 daquele mês de dezembro]. Era muito bonita, muito vivaz, muito querida e naquela época, muito famosa... Uma vida é uma vida de qualquer jeito, mas esses dados aumentam o drama do seu brutal assassinato.
Foi brutal não só pela violência do ato [duas pessoas contra uma e dezenas de facadas!], mas pela autoria do crime [Guilherme só foi Guilherme porque a mãe de Daniela lhe deu a oportunidade de estar naquela novela], pelo seu "motivo" [depois de muito interrogatório, chegou-se a conclusão de que ela morreu por conta da paranóia de Pádua, que teria ficado furioso por não ter aparecido em APENAS dois capítulos da trama] e das mentiras que se sucederam a ele.
Eu tenho uma crítica aqui, outra acolá a Glória Perez. Mas acima de tudo, tenho muito respeito por ela como pessoa. Dos três filhos que teve, resta apenas um. Não deve ser fácil... Ela aparenta estar sempre bem, mas é claro que isso ninguém supera. Uma vez, na tevê, a vi num raro desabafo de mãe: "Depois da morte de Dani, vivo de pequenas felicidades possíveis".

Outro dia li um conto maravilhoso que falava sobre o peso de ser. O personagem andava à toa, pela cidade, com um pacote nos braços, procurando um lugar que ele não sabia ao certo onde era e no qual deveria depositar aquele peso. Vivemos em busca dos destinatários dos nossos pacotes. Encontrá-los é de um alívio indescritível. Mas esse tipo de tragédia é duplamente trágica porque condena quem fica a carregar o peso para sempre - da ausência da pessoa querida, do amor que ficou "retido" e do rancor contra o criminoso -, pois não há onde depositá-lo.
E daí haja braço, coluna vertebral e força mental para andar com essa "carga pesada" vida afora.

Ahhhh!... O Anthony!...

De vez em quando, assisto a reprise de "Mulheres Apaixonadas". Continuo gostando da novela, o que nem sempre acontece em reprises. As histórias de Lomba, por exemplo, têm essa limitação a meu ver [tio Leo me bateria se lesse isso!hehe].
As tramas de "Maneco" sempre me mobilizam. Nossa relação é "entre tapas e beijos" [risos]. Lembro de quando peguei matéria sobre novela com Carmem, na Facom, e "Laços de Família" estava no ar. Não preciso dizer que virei a atração da disciplina! Minhas análises sobre Capitu eram extensas e inflamadas, dignas de um júri. [risos]Não só as fazia na faculdade como na lista de novela. Quem me conhece, sabe: quando eu pego um osso, sai de baixo!... :D
Dei essa volta toda para comentar sobre o meu par preferido na novela: Heloísa [Giulia Gam] e Sérgio [Marcelo Anthony]. Continuo gostando muito deles.
Eu curto ouvir histórias de casais. Entretanto, uma coisa que nunca me entrou na cabeça são os amores perfeitamente explicáveis. Sabe aquela gente que dá explicações altamente racionais sobre o seu relacionamento e a escolha do parceiro, tipo a personagem de Rebecca Hall no recente filme de Woody Allen?! Acho estranho, mecânico... Broxante, para ser franca.
Comparo o amor [de qualquer tipo e não apenas entre casais; até mesmo o amor por uma atividade] com a experiência da obra de arte: trata-se de algo compreensível, ou melhor, apreensível até um certo ponto. Mas há sempre uma parte que é secreta, ininteligível, misteriosa e por isso mesmo, divina. É justamente ali que reside a beleza da coisa.
Sérgio e Helô de "Mulheres Apaixonadas" são o exemplo disso na ficção, mas, claro, pintados com tintas fortes, diria até melancólicas. Os personagens vivem um "amor ruim" mas verdadeiro, que pode ser seguramente classificado como tal porque o encantamento consegue sobreviver a essa má qualidade da relação.
Não vejo tanta graça na Helô, exceto pelo fato de ser interpretada pela talentosa e carismática Giulia Gam*. A ex-mulher de Pedro Bial inspira uma natural simpatia na minha geração de noveleiros, afinal ela foi a heroína de uma das novelas que marcaram a nossa infância, "Que Rei Sou Eu?!".
O "tchan" do par está em Sérgio. Apesar do style playboy de praia, do colar ridículo, da molecagem de flertar com Deus e o mundo, o cunhado de Helena é um princípe. Meio torto, mas é.
Ele ama a esposa incondicionalmente. Contra a sua vontade, o que é bastante interessante. Como diz o fantástico (!) Alexey D.M., se a paixão é gostar por causa de, o amor é apesar de. O personagem do Marcelo Anthony em "Mulheres Apaixonadas" é assim: ama a mulher apesar de. Na verdade, a novela tem um título equivocado. Quem ama ali, no duro, são os homens da trama ["Mulheres Apaixonadas" é mais atrativo comercialmente que "Homens Apaixonados". Ali o título deveria ser "Mulheres Entediadas", viu? O amor em "MA", em quase todos os seus casais, é mais um meio da mulher tapar o vazio interior que realmente um sentimento genuíno. Aliás, suspeito que as mulheres ganharam a fama de mais amorosas porque tiveram menos o que fazer ao longo da história. Mulher mais cisma do que realmente ama - e tenho dito!].
Heloísa é um porre: escandalosa, obsessiva, egoísta, ciumenta, infantil, desconfiada... Por ele, ela estaria muito longe, quem sabe em Marte. Sente uma mágoa grande dela. Inclusive, porque a caçula da família Moraes ainda se recusa a realizar o sonho dele de ser pai, para "não ter que dividir o marido." A compulsão pelo flerte é proveniente dessa raiva; é quando ele consegue dar 1 x 0 nela. Ele ameaça mas nunca vai embora. É leal a esposa, involuntariamente.
O desfecho deles, no último capítulo, é uma boa amostra da dinâmica dos personagens. Eles se encontram casualmente numa festa. Helô acabou de ter alta do tratamento e eles estão separados há algum tempo. Sérgio a olha e fala com ela sem conseguir disfarçar o encantamento. Ela finge que não está percebendo, que não está nem aí, mas, claro, gosta de notar que ainda mexe com o ex-marido. Fica claro que ali ainda vai dar em samba. [risos]
Simpatizei com Anthony de cara, bem antes de Sérgio. Gostava do papel dele no início de "O Rei do Gado". Para quem não lembra, ele era o irmão bonzinho de Letícia Spiller, aquele que a salvava da vigilância dos outros dois irmãos truculentos e do pai, que facilitava seu namoro com Leonardo Brício.
A bondade vai muito bem com aquele par de grandes olhos azuis, de cílios grandes. "Lânguida face".
Vou confessar um "pecado capital": adoro-o mesmo quando interpreta o vilão. Gostava do André de "Belíssima". Imagine um canalha que se ofendia sinceramente quando alguém lhe chamava de mau caráter(!!!). Cara, aquilo fazia cócegas na minha [estranha] alma!!! hahaha
Gostei muito do final do personagem. Perto da morte, já agonizando, ele tem a primeira e última conversa sincera com a esposa, Júlia. Foi tocante.

Ahhh, Marcelo Anthony!... Se não fosse pela maconha, pela aliança no dedo e as pernas finas, você seria perfeito, viu?! [risos]

* Pessoalmente, gosto mais ainda da Giulia Gam por ter sido casada com Gerald Thomas. E mais: adorei quando ela admitiu, entre risos, que "deu" para participar de uma peça de GT. Disse: "Ué, gente, vocês não sabem que para trabalhar com Gerald tem que dar pra ele?!". hahaha... Eu piro com aquele cara! Não é todo dia que vemos, na "fauna humana", um judeu que perde dinheiro, sem constrangimentos ou pesar, em nome da arte, até porque judeus adoram é ganhar dinheiro através disso - que o digam os figurões de Hollywood e Silvio Santos! Gerald é o único bissexual declarado, segundo Ruy Castro, que nunca foi visto com um homem! Muiito doido o Gerald! rsrs... Nunca vi uma peça dele, mas desconfio que ele é um exemplar vivo da teoria de Oscar Wilde de que artistas medíocres transportam a excepcionalidade que não conseguem exprimir na arte para as suas próprias vidas, e vice-versa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Thin Lyne




Vou abrir uma exceção, aqui, e falar de cinema. Dificilmente abordo o tema, mas não porque não goste dele; é que não sinto que saiba o suficiente sobre. Setaro já tentou mil vezes me ilustrar com seus textos [pra ser exata, Setaro não faz nada; o esforço é meu a partir do conhecimento dele. hehe]. Já li o bastante, garanto-lhes. É fato: não consigo reter nada de teoria cinematográfica na minha mente. Mistééério! [by Dona Milú]... Acho que a mídia me intimida. Não deveria porque é prima-irmã da tevê, que eu tanto adoro [ou um dia adorei, sei lá]. É até intrigante: tecnicamente, a música é muito mais difícil de analisar que o cinema, mas esse último assunto me parece mais obscuro, digamos, que a música. Ah, vá saber! Só sei que empaco ao pensar cinematograficamente.

Bem, dentre os excelentes diretores ingleses, existe um campeão de bilheteria, pra quem a mídia não dá muita bola [eu, ao menos, não percebo], de quem eu sou fã: Adrian Lyne. Não sabe de quem se trata? Ele é o diretor [e às vezes roteirista também] de filmes como "Flashdance", “9 Semanas e 1/2 de Amor”, “Atração Fatal”, "Proposta Indecente", "Lolita" [versão anos 90, pois existe uma versão de Kubrick] e "Infidelidade".

O que me liga ao cinema de Lyne é a vontade e a inegável habilidade que tem de jogar com a moral da platéia, de confundir com o que há por trás do "biombo".

Pois é, minha metáfora do biombo não foi à toa, não. Além de brincar com as aparências das situações, Lyne gosta de imprimir uma atmosfera erótica em seus dramas. Aquele cinema que sugere mais do que mostra, sabe? Quer prova? Algumas das cenas mais sensuais do cinema são de autoria dele: Mickey Rourke passando os alimentos da geladeira no corpo de Kim Basinger, enquanto ela está de olhos fechados [“9 Semanas e 1/2 de Amor”]; Jennifer Beals tirando o sutiã por debaixo da blusa, enquanto encara maliciosamente o namorado [“Flashdance”]; Woody Harrelson e Demi Moore transando no chão da cozinha [“Proposta Indecente”]. Quem não conhece essas cenas? Melhor: quem também não se lembra das trilhas delas?! “No Ordinary Love”, de Sade, é um clássico por causa do filme estrelado pela ex-mulher de Bruce Willis. "Slave to love" e "What a feeling" tocam bem nas rádios até hoje! [Nota: agora me lembrei de Lyne contando, na tevê, como dirigiu essa cena da cozinha. Disse que ficava batendo com a mão no chão, gritando e instigando os atores, como se faz numa briga de galo, principalmente com Demi. Deve ser "massa" ficar pelada num estúdio, rodeada de uma equipe quase toda de homens, com um cara pelado em cima de você e um outro gritando no seu ouvido e batendo no chão! Mulher sofre, viu!...]

O outro motivo d´eu ter usado o biombo como metáfora é porque a constante nos filmes do inglês é, como disse antes, que nada é exatamente como pareceu ser num primeiro momento. Lyne é o que se chama advogado do diabo: uma hora, você acha que a coisa é por ali; depois você começa a achar que não, que é o contrário e, por fim, sai do cinema sem saber o que pensar. Eu, particularmente, acho isso genial! Tá aí: acho que não retenho coisas sobre teoria cinematográfica porque nunca me interessei por linguagem audiovisual, propriamente. Do filme, quero a idéia; me interessa a cabeça do personagem.

Há sempre uma linha fina, tênue, entre o desejo sexual e o desequilíbrio emocional nas tramas do cineasta britânico. Talvez ele não concordasse com o que vou supor aqui, mas há tempos que penso que o sexo não é assunto das partes inferiores. Saber lidar com ele é condição sine qua non para manter-se em equilíbrio na “ala superior”. Ao contrário do que nossa cultura hedonista prega, a relação sexual não é só uma via para se encontrar, mas também para se perder. É uma via para se soltar mas pode também ser uma prisão. Trata-se da nossa parte mais animal, né? Só que ao contrário dos nossos irmãos irracionais, temos ego, capacidade de planejar, e isso complica – e muito – as coisas. Que o diga o personagem de Michael Douglas e a quase facada que ele recebe da louca interpretada por Glenn Close em “Atração Fatal”... O filme mais “light”, dirigido por ele, nesse aspecto, é “Flashdance”. Mas se é verdade que a dança é a expressão vertical de um desejo horizontal, torna-se relativa a afirmação anterior. O mais pesado? Ficaria entre “Atração Fatal” e “Lolita”.

A versão cinematográfica do clássico da literatura russa é desesperadora no seu “miolo”. Até a parte em que eles se envolvem e ela está aparentemente no comando, a coisa é nojenta, mas como ela aparenta estar usando o sujeito, você meio que se conforma. Mas chega uma hora em que ele começa a se humilhar à beça e ela começa a sofrer com aquele assédio... Dá uma angústia!...

Ao menos “Lolita” está mais distante do mundo real do espectador. Não se pode dizer o mesmo de “Proposta Indecente” por exemplo. Ok, é quase impossível que um milionário ofereça a alguma mulher $ 1 milhão por uma noite e que, além disso, ele também tenha as duas toneladas de charme do Robert Redford. Mas quem nunca se viu em uma situação em que qualquer uma das saídas seria insatisfatória, onde se teve que escolher entre o menos pior?!E a gente torce pelo casal, depois fica com raiva do marido por ter deixado ela transar com o ricaço, depois torce pelo Redford, depois fica com pena do marido por ter que carregar o par de chifres... "Demi, criatura, se decida logo e me tire de problema!!!" [risos]


Dizem que para quem tem bom senso, não há necessidade de regras. Sei não... Minha experiência de vida e os filmes de Adrian Lyne me provaram que certas situações são como icebergs existenciais: não dá para se guiar pela ponta que está aparente, porque há um monte daquilo submerso, num lugar quase impossível de se alcançar. Aí, meu amigo, só mergulhando!

While my eyes...

"... go looking for flying sources in the sky"

Elogiam Gil, babam por Chico, mas eu prefiro Caetano.
Alosa se gaba de fazer aniversário na mesma semana que o mais ilustre filho de Santo Amaro. The Fraud não andou verificando o calendário direito: tá mais perto de Ney Matogrosso que de Caê. Hummmm!... hahahaha
Mas deixemos Alosa para uma outra hora...

Para variar, estava pensando à toa [preciso, urgentemente, aprender a meditar!]. Pensava sobre esse tal de livre-arbítrio. Já acreditei muito nisso, mas, sinceramente, hoje acho que isso não tem nada de arbítrio muito menos de livre - eu, pelo menos, sinto que apito pouquíssimo nesse jogo.
Viver não é uma experiência a la carte assim como dizem. Não mesmo.
Às vezes você quer, faz uma força dos diabos e morre na praia. E quando você força a barra e consegue, paga mais na frente. Enfim, temos liberdade mas não somos livres. "Os deuses vendem quando dão. Melhor saber...".
A melhor metáfora da vida em que já pensei é a Porta dos Desesperados do programa do Sérgio Mallandro. Ahhh, eu achooo! Sem tirar nem pôr!... Você tá lá, com uma platéia barulhenta e imbecil na sua frente [a sociedade], um apresentador presepeiro do seu lado [a consciência] e três portas cara a cara com você, das quais podem sair desde uma tevê de plasma até um macaco horroroso. As portas são iguais; sua única ferramenta de escolha é a intuição. [Chamem os reclames do plim-plim!]
Eu queria deixar de mão e, como pregava Osho, viver somente no presente, sem esperar, sem julgar, sem desejar. Mas me disseram que eu tenho que fazer alguma coisa com a minha vida. E essa alguma coisa presume um plano. Esse plano, estratégias e metas. E essas estratégias e metas, ação, algum domínio da situação e expectativas. Mas se eu faço isso, às vezes sou impedida [em certas horas, vê-se claramente a mão do destino te desviando do seu plano], quando não também desiludida. E se eu não tenho mais ilusão, como ter expectativa? E se eu não tenho mais isso, como entrar em ação? Alguém me explica como alguém faz para agir sem esperar nada, eliminando o ego e a ansiedade?

Racionalmente, poderia despejar aqui um monte de frases que suportariam essa afirmação acima. Mas sendo realista, acho quase impraticável. Osho, Chico Xavier, Buda, todos esses caras, aposto!, não viveram plenamente o que pregaram. Eles são, acima de tudo, humanos, e portanto, não são muito melhores que eu ou você. Até Jesus Cristo resmungou contra Deus na cruz!... Complicado! Tá difícil... O despojamento da individualidade é, dizem, a chave da felicidade, porém essa é, definitivamente, uma modalidade existencial cronicamente inviável.

O que, afinal, Deus espera de mim, de nós?

É. A vida é feita para não-humanos – e tenho dito!




domingo, 21 de dezembro de 2008

Um país sem valores

Justificar

Não, talentos não nos faltam, basta ver o Kaká, o Cielo, a Maurren, a Fofão, o Giba. Só faltam valores


JUCA KFOURI

A MELHOR imagem do Brasil em 2008 é a pior imagem do Brasil em 2008: a imagem do roubo de mantimentos enviados para socorrer os flagelados de Santa Catarina.
Até então, quem sabe, a melhor imagem era a de César Cielo emocionado no lugar mais alto do pódio em Pequim. Ou a de Maurren Maggi, na mesma altura. A das meninas do vôlei também era forte candidata, por tudo o que significava de virada, assim como a da saltadora. Mas não.
Nada mais revelador da alma brasileira do que aquele pessoal surrupiando o fruto da generosidade de alguns em proveito próprio. E, não tenha dúvida, na complexidade da alma brasileira, alguns dos larápios seriam também capazes de fazer doações para serem apropriadas por outros semelhantes. Ora, afinal, pensou um deles, "este tênis aqui é bacana demais para dar para um desabrigado que está precisando mesmo é de uma galocha".
Já o outro achou que "esta camisa é muito elegante para quem não tem nem onde morar e dá pena pensar em vê-la toda amarfanhada. Nem vai durar...". Mais ou menos como achar legal ganhar um jogo com gol de mão, em impedimento e no último minuto.
Ou não se importar que as pessoas se perpetuem no poder, ainda mais se fizerem algo de bom, mesmo que roubem. Porque fazem, né não? Pois não é que neste país se assiste num ano ao escândalo do Pan-2007 e se aplaude a candidatura olímpica na temporada seguinte? Até se bajula a filha do cartola que virou cartolinha para fazer a Copa do Mundo com o nosso dinheiro!
Talvez por isso a melhor frase do esporte nacional em 2008 tenha ficado praticamente inédita até hoje, dita, em Pequim mesmo, pelo jornalista Roberto Salim, da ESPN Brasil, ao ministro do Esporte, Orlando Silva Jr.: "Você envergonha a sua raça, o seu partido, o esporte brasileiro e todos os que acreditaram em você".
Porque também são raros os brasileiros capazes de externar sua indignação com tamanha clareza. A regra é ficar inconformado com o que houve em Santa Catarina, mas fechar os olhos quando em troca de um privilégio, seja de que ordem for, algo que os meios de comunicação também fazem.
Tanto que, por exemplo, Dunga apanha mais por suas qualidades do que por seus defeitos, embora tenha trocado algumas delas para sobreviver na função. E que ninguém imagine que aqui esteja sendo feita a apologia do brasileiro perfeito, ou do homem perfeito, porque certas ilusões, nestas alturas, não cabem mais.
Apenas se constata que de nada adiantam surtos de indignação quando a prática diária é a de empulhação. A de levar vantagem. A de mentir. De se juntar com quem não presta para se dar bem, porque o mundo é assim mesmo. A de querer o cara no time, não para casar com a filha. Só que esses caras são tão envolventes em sua falta de compromissos morais que terminam se casando com as filhas dos espertos e acabam por fazer um país. Um país de Macunaímas.

Que Deus é este?

Especial Artigo Reinaldo Azevedo

"Em Auschwitz, no Gulag ou em Darfur, vê-se, sem dúvida,
a dimensão trágica da liberdade: a escolha do Mal. E isso
quer dizer, sim, a renúncia a Deus. Mas também se
assiste à dramática renúncia ao homem"

Boa parte das nações e dos homens celebra, nesta semana, o nascimento do Cristo, e uma vez mais nos perguntamos, e o faremos eternidade afora: qual é o lugar de Deus num mundo de iniqüidades? Até quando há de permitir tamanha luta entre o Bem e o Mal? Até Ele fechou os olhos diante das vítimas do nazismo em Auschwitz, dos soviéticos que pereceram no Gulag, da fome dizimando milhões depois da revolução chinesa? E hoje, "Senhor Deus dos Desgraçados" (como O chamou o poeta Castro Alves)? Darfur, a África Subsaariana, o Oriente Médio... Então não vê o triunfo do horror, da morte e da fúria? Por que um Deus inerme, se é mesmo Deus, diante das "espectrais procissões de braços estendidos", como escreveu Carlos Drummond de Andrade? Que Deus é este, olímpico também diante dos indivíduos? Olhemos a tristeza dos becos escuros e sujos do mundo, onde um homem acaba de fechar os olhos pela última vez, levando estampada na retina a imagem de seu sonho – pequenino e, ainda assim, frustrado...

Até quando haveremos de honrá-Lo com nossa dor, com nossas chagas, com nosso sofrimento? Até quando pessoas miseráveis, anônimas, rejeitadas até pela morte, murcharão aos poucos na sua insignificância, fazendo o inventário de suas pequenas solidões, colecionando tudo o que não têm – e o que é pior: nem se revoltam? Se Ele realmente nos criou, por que nos fez essa coisa tão lastimável como espécie e como espécimes? Se ao menos tirasse de nosso coração os anseios, os desejos, para que aprendêssemos a ser pedra, a ser árvore, a ser bicho entre bichos... Mas nem isso. Somos uns macacos pelados, plenos de fúrias e delicadezas (e estas nos doem mais do que aquelas), a vagar com a cruz nos ombros e a memória em carne viva. Se a nossa alma é mesmo imortal, por que lamentamos tanto a morte, como observou o latino Lucrécio (séc. I a.C.)? Se há um Deus, por que Ele não nos dá tudo aquilo que um mundo sem Deus nos sonega?

Galeria Doria Pamphilj/divulgação

Vida e arte
As cenas das mulheres de Darfur fugindo com suas crianças, empurradas pela barbárie, remetem, é inevitável, à fuga de Maria e do Menino Jesus para o Egito, retratada por Caravaggio (1571-1610)

Evito, leitor, tratar aqui do mistério da fé, que poderia, sim, responder a algumas perplexidades. O que me interessa neste texto é a mensagem do Cristo como uma ética entre pessoas, povos e até religiões. Não pretendo, com isso, solapar a dimensão mística do Salvador, mas dar relevo a sua dimensão humana. O cristianismo é o inequívoco fundador do humanismo moderno porque é o criador do homem universal, de quem nada se exigia de prévio para reivindicar a condição de filho de Deus e irmão dos demais homens. É o fundamento religioso do que, no mundo laico, é o princípio da democracia contemporânea. Não por acaso, a chamada "civilização ocidental" é entendida, nos seus valores essenciais, como "democrática" e "cristã". Isso tudo é história, não gosto ou crença.

Falo das iniqüidades porque é com elas que se costuma contrastar a eventual existência de uma ordem divina. Segundo essa perspectiva, se o Mal subsiste, então não pode haver um Deus, que só seria compatível com o Bem perpétuo. Ocorre que isso tiraria dos nossos ombros o peso das escolhas, a responsabilidade do discernimento, a necessidade de uma ética. Nesse caso, o homem só seria viável se isolado no Paraíso, imerso numa natureza necessariamente benfazeja e generosa. O cristianismo – assim como as demais religiões (e também a ciência) – existe é no mundo das imperfeições, no mundo dos homens. Contestar a existência de Deus segundo esses termos corresponde a acenar para uma felicidade perpétua só possível num tempo mítico. E as religiões são histórias encarnadas, humanas.

Em Auschwitz, no Gulag ou em Darfur, vê-se, sem dúvida, a dimensão trágica da liberdade: a escolha do Mal. E isso quer dizer, sim, a renúncia a Deus. Mas também se assiste à dramática renúncia ao homem. Esperavam talvez que se dissesse aqui que o Mal Absoluto decorre da deposição da Cruz em favor de alguma outra crença ou convicção. A piedade cristã certamente se ausentou de todos esses palcos da barbárie. Mas, com ela, entrou em falência a Razão, humana e salvadora.

Fé e Razão são categorias opostas, mas nasceram ao mesmo tempo e de um mesmo esforço: entender o mundo, estabelecendo uma hierarquia de valores que possa ser por todos interiorizada. As cenas das mulheres de Darfur fugindo com suas crianças, empurradas pela barbárie, remetem, é inevitável, à fuga de Maria e do Menino Jesus para o Egito, retratada por Caravaggio (1571-1610) na imagem que ilustra este texto – o carpinteiro José segura a partitura para o anjo. As representações dessa passagem, pouco importam pintor ou escola, nunca são tristes (esta vem até com música), ainda que se conheça o desfecho da história. É o cuidado materno, símbolo praticamente universal do amor de salvação, sobrepondo-se à violência irracional que o persegue.

Nazismo, comunismo, tribalismos contemporâneos tornados ideologias... São movimentos, cada um praticando o horror a seu próprio modo, que destruíram e que destroem, sem dúvida, a autoridade divina. Mas nenhum deles triunfou sem a destruição, também, da autoridade humana, subvertendo os valores da Razão (afinal, acreditamos que ela busca o Bem) e, para os cristãos, a santidade da vida. Todas as irrupções revolucionárias destruíram os valores que as animaram, como Saturno engolindo os próprios filhos. O progresso está com os que conservam o mundo, reformando-o.

Pedem-me que prove que um mundo com Deus é melhor do que um mundo sem Deus? Se nos pedissem, observou Chesterton (1874-1936), pensador católico inglês, para provar que a civilização é melhor do que a selvageria, olharíamos ao redor um tanto desesperados e conseguiríamos, no máximo, ser estupidamente parciais e reducionistas: "Ah, na civilização, há livros, estantes, computador..." Querem ver? "Prove, articulista, que o estado de direito, que segue os ritos processuais, é mais justo do que os tribunais populares." E haveria uma grande chance de a civilização do estado de direito parecer mais ineficiente, mais fraca, do que a barbárie do tribunal popular. Há casos em que é mais fácil exibir cabeças do que provas. A convicção plena, às vezes, é um tanto desamparada.

Este artigo não trata do mistério da fé, mas da força da esperança, que é o cerne da mensagem cristã, como queria o apóstolo Paulo: "É na esperança que somos salvos". O que ganha quem se esforça para roubá-la do homem, fale em nome da Razão, da Natureza ou de algum outro Ente maiúsculo qualquer? E trato da esperança nos dois sentidos possíveis da palavra: o que tenta despertar os homens para a fraternidade universal, com todas as suas implicações morais, e o que acena para a vida eterna. O ladrão de esperanças não leva nada que lhe seja útil e ainda nos torna mais pobres de anseios.

O cristianismo já foi acusado de morbidamente triste, avesso à felicidade e ao prazer de viver, e também de ópio das massas, cobrindo a realidade com o véu de uma fantasia conformista, que as impedia de ver a verdade. Ao pregar o perdão, dizem, é filosofia da tibieza; ao reafirmar a autoridade divina, acusam, é autoritário. Pouco afeito à subversão da autoridade humana, apontam seu servilismo; ao acenar com o reino de Deus, sua ambição desmedida. Em meio a tantos opostos, subsiste como uma promessa, mas também como disciplina vivida, que não foge à luta.

Precisamos do Cristo não porque os homens se esquecem de ter fé, mas porque, com freqüência, eles abandonam a Razão e cedem ao horror. Sem essa certeza, Darfur – a guerra do forte contra o indefeso, da criança contra o fuzil, do bruto contra a mulher –, uma tragédia que o mundo ignora, seria ainda mais insuportável.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Madonna mia!

Alexandre Xavier
De São Paulo

Sabe quando tem festa do peão de rodeio em cidade do interior? Todo mundo tem que ir pra ver e ser visto, é o evento social do ano e a cidade inteira comenta.

Pois a Madonna é a nossa festa de rodeio. É quando Rio e São Paulo mostram que são provincianas. Porque essa "babação de ovo", "lambeção de saco" (com o perdão do termo) em torno da Madonna é injustificável.

O vídeo que mostra o Sérgio Cabral tietando a "diva" resume a ópera (coloque no YouTube: madonna, governor, rio). É vergonhoso, pra não dizer patético. Ela o agradece por ter desviado o trânsito para a equipe dela. E ele se orgulha. E a presenteia com uma camiseta do Ronaldinho (futebol e subserviência, somos mestres!).

A Madonna é chefe de Estado? A Madonna nem gosta de futebol. E pergunta se o prefeito de Amsterdã parou o trânsito para a Madonna ir até a Arena do Ajax se apresentar. Não parou.

Somos um povo estranho. Tem hora que somos ufanistas sem limites, tem hora que endeusamos os gringos sem o menor comedimento.

No Brasil, ou é Galvão ou é Madonna. Meio termo ou bom-senso é bobagem.

"Karina Bacchi 'persegue' Madonna em shows"
Olha essa manchete aí em cima! Como assim? O tombo no palco é notícia, os dois mil energéticos que ela pediu é notícia, o divórcio é notícia, o panaca que ficou duas horas em frente ao Copacabana Palace esperando ela sair na janela é notícia...

Não é injusto que a mídia embarque nessa turnê caça-níquel da Madonna quando tem um monte de banda brasileira boa por aí que não ganha nem uma resenhazinha na imprensa?

Falaram à exaustão até dos caras que armaram barraca no portão do estádio. Cadê a notícia? Até os fãs do Iron Maiden (que já veio 3742 vezes pro Brasil) acampam toda vez pra conseguir ficar na grade. Não tem nada de novo aí.

Mas o espírito "festa do peão" foi bem disseminado. Um amigo meu vai levar a mãe no Morumbi só porque ela quer ver do que se trata esse fuzuê. Ela conhece umas 5 músicas famosinhas, mas topou pagar R$100 num ingresso. Os VIPs também vão, mas de graça, porque os patrocinadores querem que os fãs os vejam. Ou querem que os fotógrafos os vejam com a camisa dos patrocinadores... É muita sofisticação, ave maria.

Cadê a música?
Não é ranzinzisse. A Madonna tem um monte de fã, é justo que ela lote o Morumbi. Mas trata-se de um evento de música onde o que menos interessa é a música. Ela é uma cantora e o que menos se falou nesses dias foi da voz dela (que não é mais a mesma). É a realidade do oba-oba de massa, da sociedade oca do espetáculo. Mesma coisa no rodeio. O peão de boiadeiro, dane-se. O que importa para a maioria é estar presente na "festa".

Se bem que o caso da Madonna é mais provinciano ainda. A "diva pop" (título que, pense bem, não quer dizer nada) pára o trânsito, fecha hotel, exige mundos e fundos e cobra um fortuna pra cantar "La Isla Bonita" e "Hung Up" e as pessoas vão em peso. E a mídia acha bonito.

É bom lembrar que o último CD dela nem é grande coisa. O "Back to Black" da Amy Winehouse (que, diga-se, canta mais que a Madonna) vendeu mais que o dobro que o "Hard Candy" esse ano.

Like a virgin
Por outro lado, há de se reconhecer. O show que vi da Madonna ano passado foi divertido, ela daria uma boa cheerleader.

A ressalva no tocante à apresentação da "diva" é só que você não sabe de onde vem o som. É tanta parafernália visual no palco que a banda fica em segundo plano (se é que a "banda" toca alguma coisa mesmo). E fica patente que ela usa um monte de playback durante o show inteiro. Mas quem for vê-la no Morumbi vai ter um "good time".

Minha indignação é apenas que não há nada que justifique o auê social e midiático em torno de uma cinquentenária que não faz mais as músicas que fazia nos anos 80 (quando ela tinha razão de ser).

E o fato de ter sobrado ingresso para todos os setores no segundo dia da turnê no Maraca prova que esse oba-oba é exagerado.

A primeira apresentação da Madonna em solo estrangeiro foi no Haçienda, em Manchester, Inglaterra. Tinha umas 200 pessoas lá em 1983. Foi histórico, não tinha puxa-saco, ela não era ainda um produto pop e fazia música do fundo da alma. Mal sabia ela que um dia iria transformar São Paulo e Rio numa Barretos.