quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Woman On Top



Post dedicado a meu amigo-irmão Alex, fã da mais nova musa de Paglia - Daniela Mercury - e um dos cabras menos machistas que conheço.

Esse tópico vai abordar o poder feminino. Bem, não gosto muito da expressão. Provavelmente porque não gosto da palavra "poder", ao menos no sentido usualmente empregado, que é o de alguém subjugado a outro alguém. Além da idéia ser desagradável, esse poder terceirizado é uma fábula: só existe porque o dominado crê que o seu dominador tem algo de especial. Gosto do poder quando ele significa domínio sobre si mesmo - ainda assim, com algumas restrições. Ah, isso sim é legal!
É desse tipo de poder feminino que falarei no texto a seguir.

Terminei de ler, há poucos dias, "Vamps e Vadias", de Camille Paglia [não se deixem impressionar pelo título, que o conteúdo é beeem mais light do que esse faz parecer]. Numa dessas vontades súbitas que me acometem, me aborreci com o escasso material sobre a acadêmica americana e ícone [polêmico] do feminismo, na internet, e resolvi encomendar um livro seu.
Antes de entrar no assunto propriamente, acho que valem alguns comentários sobre Paglia. Não sei se lembram disso, mas há uns 13 meses mais ou menos, postei uma entrevista, em inglês, dela para a Playboy americana, publicada em 1995. Fiquei de traduzir, mas bateu, pra variar, aqueeela preguiça [olhem nos posts de dezembro de 2007].
Na entrevista e no livro, o que se vê é uma mistura de pensadora com astro pop. Camille é rock´n´roll: seu meio de comunicação com o público é o barulho. Alguns acham que o seu "som" é original, é o máximo; outros, um lixo, um ruído. Aparando algumas arestas do seu discurso "espetaculoso", compro suas teorias.
O que mais me deixa feliz quando me deparo com gente como ela é a ousadia em sair do clichê, ainda que às vezes, no intuito de chocar, ela diga umas coisas "nada-a-ver". Mas faz parte do pacote. Ser original sem posar de excêntrico é quase uma missão impossível. Só alguém que quer ser diferente pode dizer algo diferente.
Senti-me unida a ela pelo "trauma" de ser incompreendida e "vítima" de patrulha ideológica e lulus histéricas. Adorava [e adoro] minhas coleguinhas de escola, mas uma coisa que me deixava uma arara era a "profundidade" das opiniões nos debates realizados em sala. Sei que sou um tanto veemente, digamos, quando decido defender um ponto de vista, mas certas opiniões deveriam ser proibidas, assim como os narizes-de-cera são no Jornalismo. Haja saco!... O que me incomoda não é o conteúdo da opinião, mas a falta de conteúdo de quem a reproduz, aposto!, quase sempre sem refletir um pingo sobre o que disse. Se você perguntar "Por quê?", a criatura se embanana para responder...
Lembro de um debate específico sobre o aborto. Sou contra o aborto, mas defendi abertamente minha posição pró-legalização. Por um motivo óbvio: com ou sem isso, eles vão continuar acontecendo - nem mais nem menos, creio, e os estudos confirmam a hipótese. Então, se inevitavelmente uma vida vai se perder, por que não salvar a outra [da mãe], propiciando a mulher que o faça com alguma segurança? Quem se ferra nessa são as mulheres pobres, que apelam ou para chumbinho [em casos extremos de desgosto com a gravidez] ou para Citotec. As meninas não quiseram compreender meu ponto de vista e vieram com aqueles argumentos óbvios mas que não contribuem em nada com o crescimento e esclarecimento da questão. Nessas horas, faço das palavras de WG as minhas: "Eu não preciso concordar com você, mas pelo menos me convença". Uma amiga, mãe adolescente de uma menina de 2 anos, vendo meu isolamento, ao final do debate comentou mais ou menos assim: "Ou elas são ignorantes ou são hipócritas. Só quem passou por isso sabe: o primeiro pensamento de todo mundo que engravida sem poder ter a criança é o aborto. Depois, com calma, você desiste, até porque a família te apóia e você relaxa e começa a gostar da idéia de ter o bebê". É nessas horas que a gente percebe como honestidade intelectual faz falta, viu...
Lógico, tem mulher que é cruel, ruim mesmo, que tira o feto como quem tira uma unha encravada, mas penso que para a maioria é uma experiência muito ruim, psicologicamente falando. Faz quem se encontra numa situação extrema, eu acho. Uma pessoa que aborta já está suficientemente punida pela própria consciência; não precisa de mim ou do Estado para lembrá-la do que fez. É uma situação sem comparação, mas vou forçar um paralelo com o soldado que vai para a guerra. Depois de ter visto a morte de perto e ter matado um monte de gente, vale mandá-lo para a cadeia, ou o inferno que viveu já não é suficiente?! Lógico que dentro da guerra há os sanguinários que se alistam justamente para isso. Eu não tenho a pretensão de ter minha opinião ovacionada, claro, mas é inegável que uma coisa que é única não existe, ou seja, que uma única resposta para a questão - quando não se trata de ciências naturais - é essencialmente errada, está fadada à lata de lixo.
Particularmente, tenho problemas com idealizações e, por tabela, com quem vive em cima delas. Mesmo quando eu nego a realidade, faço questão de conhecê-la e ter em mente como ela é - até para não sofrer com expectativas frustradas. Falta de Ar no mapa astral?! Falta de imaginação?! Falta de paciência para viver "no mundo da imaginação"?! Pode ser. Na verdade, apesar de ter o hábito da "vida como ela é", creio apenas que algumas idealizações são úteis e outras não.
No discurso de Camille Paglia vi o que eu julgo uma sincera vontade de detonar com certas idealizações sobre a condição feminina que de nada fortalecem as mulheres. Pelo contrário: as fragilizam, as tornam histéricas e personas não gratas na arena social, que usam a sua agressividade não para libertar a mulher, mas para coagir a mulher e o homem.
"Vamps e Vadias" foi, de certo modo, um alívio intelectual. Eu sempre me senti deslocada dentro do tema "feminismo" porque nem concordo com a visão conservadora nem com essa atual, essa pseudoemancipação. Ainda não chegamos lá. "Eu não vi nada; eu não percebi nada" [by Serafim... Adivinha para quem ele disse isso? Ganha um doce quem acertar! haha]

Camille Paglia defende, em linhas gerais, que a mulher não é a vítima indefesa do homem, como o feminismo faz crer, mas que ela é na verdade, "a dona do pedaço", que apenas está condicionada a crer, culturalmente, que não é. Sabe aquela historinha do elefantinho que ignora a sua própria força? Mais ou menos isso... Ela ressalta algo bastante óbvio, mas que curiosamente poucos vêem: homem e mulher funcionam, fisiologicamente, diferentemente, portanto o olhar que a mulher deseja que o homem tenha sobre ela nunca será o desejado porque são seres com corpos distintos. [Tem uma passagem até engraçada em que ela diz que sabe exatamente como a mente de um homem funciona porque ela é lésbica e se declara totalmente solidária a eles nas suas revoltas com a emissão de "sinais confusos" por parte da mulherada.]
A mulher está, de fato, no topo porque comanda duas das três esferas das relações interpessoais: as esferas privada e sentimental, deixando, até há pouco tempo, apenas a esfera pública para o homem dominar. Paglia argumenta que a tão desejada paridade no mercado de trabalho nunca vai acontecer porque para algumas profissões a mulher não está disposta; que enquanto elas gostam dos escritórios, os homens se arriscam mais em trabalhos perigosos ou nojentos. Também alega que a Ciência não tem muitos nomes femininos porque elas carecem da obsessão, condição que julga importante para triunfar nesse meio e que é natural no gênero masculino. Há, claro, problemas nessas duas hipóteses, que de tão óbvios nem vale a pena comentar. Só para dar uma "palhinha": E a questão dos salários para homens e mulheres que exercem a mesma função? Como fica?
Vamos à parte que, a meu ver, é a mais interessante do discurso: a cultura feminista [ou antipatriarcal] como fragilizadora da mulher. Paglia defende a tese de que o feminismo agiu contra a mulher, no passado, abafando o seu lado mãe-esposa, e que atualmente continua prejudicando as mulheres ao incentivar que vivam o papel de vítima, desviando-lhes do seu verdadeiro papel: de donas das suas próprias histórias ou melhor dizendo, de deusas pagãs, numa tradução mais "poética".
O politicamente correto e a patrulha ideológica, produtos da luta feminista [e das minorias como um todo], a seu ver, serviram, até agora, para constranger a mulher que optou por um papel mais conservador [por exemplo, aquelas que largam os empregos para cuidarem da família] e também o homem, que acuado por leis e discursos inflamados, tornou-se "menos homem".
Paglia foi, para mim, na mosca, quando disse algo tão simples quanto verdadeiro: é impossível legislar a psique humana; é inviável criar leis que cubram todas as possibilidades do comportamento humano, o que faz do discurso atual do feminismo - ávido por leis de proteção e privilegios de minoria - um esforço coletivo improdutivo. O mundo é o mundo e é preciso que a mulher saiba se posicionar diante dos perigos que ele traz e que assuma a sua responsabilidade, ou melhor, os frutos do seu poder feminino - diz C.P., em linhas gerais.
Para provar o seu ponto de vista, ela compara a absorção do discurso feminista nas classes baixas e nas classes altas americanas. Nas camadas mais baixas, onde as moças crescem menos protegidas e estão mais vulneráveis às "sombras da alma humana", o discurso de vítima não pega, simplesmente porque as moças entendem que "na selva" não há tempo para pedir socorro: é preciso saber se precaver e se defender das ameaças. No que ela classifica como o "ambiente artificialmente seguro" em que crescem as moças da classe alta, o discurso cola perfeitamente, o que ela acha perigoso, pois vem criando uma geração de jovens mulheres, nos EUA, que sabem gritar, que estão paranóicas, mas são incompetentes, assim como crianças de 12 anos, para lidarem com o mundo e, claro, com o sexo.
Católica por formação e ateísta confessa [embora seja defensora das religiões], Paglia defende uma abordagem pagã da sexualidade feminina. Tal concepção retiraria as mulheres da autovitimização e as colocaria no comando, tornando-as menos reprimidas e mais conscientes de si mesmas, do poder feminino, e, claro, mais maduras e responsáveis em seus atos.

* Muito antes dessas leituras, uma vez vi um filme americano, que se passava numa universidade, cuja visão sobre o estupro me causou estranheza. A história é assim: uma caloura vai para uma festa, e lá rola um clima com um colega de universidade. Os dois vão para o quarto e começam a transar. Lá pelo meio da penetração ela muda de idéia e pede para o cara parar, no que ele desobedece. Depois disso, ela o acusa de estupro, com o total apoio dos colegas de campus. Olha, não foi gentil o que ele fez, mas não foi estupro, não. Era o caso dela dar um gelo no cidadão, mas não acusá-lo de estupro, que implica num estigma social para o rapaz acusado. Paglia fala sobre isso e eu concordo: se você chega ao ponto de deitar na cama com um homem, deve contar com a possibilidade de que ele vai querer sexo com você. Ela consentiu na penetração e depois diz que é estupro?! Quando vi esse filme, me senti uma ogra por pensar diferente do que estava ali. Até discuti o assunto com a minha irmã mais velha, que, para o meu alívio, concordou comigo. Olha, no Brasil, o apoio a ela seria zero. Eis uma das vantagens do subdesenvolvimento: a gente cresce mais realista, mais preparado, em certas coisas, para a vida. Fora que a justiça aqui é tão lenta que a impunidade nos agride menos que essa leseira do Judiciário, a depender. hehe


As Brumas de Avalon

Há alguns anos, as opiniões de Paglia não teriam me agradado tanto. Quer dizer, não sem, num primeiro momento, me causarem algum espanto.
Alguns livros têm a hora certa, na vida, de serem lidos. Assim como "O apanhador no campo de centeio", lamentei não ter lido "Vamps e Vadias" na adolescência. Teria me poupado anos de divagações sobre certos temas. Ou não... Talvez me faltasse cabeça para absorver o conteúdo, naquela idade... Ou não. [risos]
Mas nem tudo são flores. Tenho minhas críticas a Miss Paglia. Uma delas é que a mulher que ela defende como ideal, plena, é na verdade um homem com peitos grandes. Afinal, o que é a Madonna senão um homem com vulva?!
Nesse mesmo fio de raciocínio, ela argumenta que essas mulheres sofrem na sociedade e inevitavelmente em seus relacionamentos amorosos porque são fortes e destemidas demais. Em parte, concordo. Em parte, discordo dela e concordo com a sociedade e com os parceiros dessas mulheres. Deve ser esquisito namorar um "travesti" às avessas - aliás, alguns travestis são mais femininos que muito mulherão "de nascença". Eu, particularmente, digo que a feminilidade e a masculinidade têm seu lugar e devem ser preservados [palavras de quem resistiu muito até começar a assumir sua própria feminilidade]. Mulheres devem ser fortes, mas devem ser sensíveis. Homens devem ser sensíveis, mas que não percam a masculinidade. Boa parte da atração reside na diferença e no reconhecimento dos papéis clássicos de cada gênero. Eu não quero para mim um homem que tenha mais medo de baratas do que eu, ora! rsrs
Paglia admira o que chamo de "mulheres-tanque de guerra", como Hillary Clinton, Sarah Bernhardt e a prima donna do pop, Madonna. Eu até gosto delas, as admiro bastante, mas não são meu modelo feminino. Ficaria com mulheres que seguiram o "caminho do meio", como Susan Sarandon, Eva Wilma, Isabel Allende, Patrícia Pillar, e cia.
Uma mulher inteligente não precisa estar na primeira fileira, viver em combate aberto, "ser mais que o homem". O maior trunfo feminino é justamente a sutileza. Claro, se preciso for, deve-se usar a agressividade, partir para o confronto aberto, sem culpa. Mas a sabedoria feminina chega lá sem criar conflitos, sem dividir. Nossas avós, nossas bisavós eram/são mulheres muito inteligentes. Concorda comigo, dona Ingrid? :)
Hillary [que Paglia tanto adora] e Doris Day [que detesta] são apenas lados opostos da mesma moeda. Na condição de lésbica, claro, Camille vai simpatizar com a primeira, com a tribo das dominatrixes.

Mas muito antes da feminista americana e suas idéias progressistas, li um livro que me abriu a mente para o poder feminino: "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley. Quem não leu, leia, que vale a pena!
Para não perder o hábito, vou fazer um parêntese antes de comentar o livro.

A saga das feiticeiras de Avalon mostrou-me novas perspectivas sobre o papel da mulher. Essa questão sempre foi meio espinhosa na minha cabeça. Fui criada numa família muito conservadora, mas vivi entre amigos progressistas. Ficava entre as "mulheres-tanque de guerra" e as "mulheres-pom pom". Não conseguia vislumbrar o tal caminho do meio, aquele que conciliaria um pouco das duas.
As mais pudicas tinham um comportamento passivo demais, masoquista. Atraíam homens dominadores, o que me desanimava bastante. As mais ousadas eram igualmente desequilibradas, e muitas vezes travavam relações sádicas com o sexo oposto, o que me desanimava igualmente [acho que por isso me interesso tanto pelos casais da ficção, onde tudo pode ser como a gente idealiza!Na vida real, os casais são muito problemáticos ou sem vida, em sua maioria]. As opções eram, na minha interpretação, se ferir ou ferir o outro. Eu pensava, cá com os meus botões, que deveria haver um modo de ser livre, espontânea, sem ferir a dignidade alheia e muito menos a minha [esse é o xis da questão!...].
Lendo a série de quatro livros de Bradley, comecei a conjecturar sobre um caminho do meio através da conciliação da natureza [paganismo, numa perspectiva meio reduzida, mas é isso] sem precisar abrir mão dos princípios básicos de convivência [civilização].
Eu quero ser livre, natural, mas não uma besta-fera. Provavelmente, um dia desses vou descobrir que o meu preciosismo me fez perder muito, muito tempo, mas enquanto esse dia não chega, continuo acreditando nas atitudes e escolhas consistentes. Pois é, acabei de dar um exemplo daquilo que disse mais atrás sobre as idealizações que valem a pena sustentar. Eis uma idealização e tanto que, ao ser posta em prática, torna-se um desafio maior que os moinhos de vento de um Dom Quixote [que idealizou - e enlouqueceu - para não morrer]: ser livre sem apelar para a barbárie. Tudo é muito lindo enquanto a coisa vai bem, mas há muito sei que o verdadeiro desafio não é cultivar a virtude mas perseverar nas convicções pessoais quando o mundo nos é desagradável. Muita gente boa [e de caráter fraco] migra para "o lado negro da força" quando se frustra feio com a vida ou com alguém. Essa parte da civilização, do respeito mútuo, me interessa cultivar, em qualquer situação da minha vida, e acho que deveria ser preservada, sim, por todos nós. Impor-se a qualquer custo é para amadores. Uma coisa é tão certa como a lua: haverá sempre um idiota para tentar tirar a nossa fé no caminho. Aplicando essa máxima à "Guerra dos Sexos", a mulher lúcida deve contar com o homem [e a mulher, também] imbecil, como "a pedra no meio do caminho" de Drummond, e ter em mente o que disse o Che: "Hay que endurecir, pero sin perder la ternura jamás".
Quem disse que a fidelidade [a si mesmo/a] é coisa fácil?!

"As Brumas de Avalon" conta o nascimento do cristianismo na Bretanha, ou melhor, narra o fim da cultura pagã na região, ou melhor, conta a história de Camelot sob a perspectiva feminina.
Ao invés de Deus, o povo do norte da Europa cultua uma Deusa. Existe o Merlin e ele é muito respeitado em Avalon, mas a senhora de lá é uma mulher.
O livro é tão ousado que até um ménage à trois rola lá pelo meio da trama, entre dois homens e uma mulher - Alosa deve estar salivando com essa informação, aposto! :P
As feiticeiras de Avalon atuam nos bastidores do reino, tramando quedas e ascensões, às vezes manipulando as pessoas enquanto essas se iludem achando que estão no comando ou, em outras situações, manipulando-as abertamente, em nome da Deusa.
Tudo vai relativamente bem até o dia em que Gwenhwyfar se casa com o Rei Arthur. Esse não é um velhote, mas um moço bonito, de sangue tanto real quanto pagão e primo de Lancelot. Falta a Gwen aquilo que sobra nas feiticeiras: atitude e autoconhecimento. Mas como é linda e vive se metendo em perigo, logo arruma quem lhe proteja [e se apaixone por ela]: Lancelot. Acontece que a futura Senhora de Avalon, Morgana, viu o bofe primeiro e fica morta de ciúmes dele com a rainha cristã. Entonces nem preciso narrar o estrago que esse triângulo causou ao futuro da Bretanha, não é? [risos]
O que pessoalmente destaco nessa fábula é a celebração ao paganismo e ao feminismo, tratando-os como movimentos aliados e concomitantes. Enquanto as mulheres serviram à natureza [e respeitaram os seus instintos femininos e a sabedoria que vem do ambiente natural] se mantiveram no comando. Quando Gwen, representante da civilização trazida pelo cristianismo - que enterrou as religiões pagãs, classificando-as como coisas do demônio - entra em cena, ela entrega essa liderança aos homens, de bandeja, movida pelas restrições e culpas provenientes da moral católica.
Camelot não desaparece, segundo Marion, porque houve um dia, no reino, uma rainha despudorada, como faz crer a versão mais conhecida. É justamente o contrário: é a covardia e a autorepressão dessa rainha que levam o reino ladeira abaixo, ao derrubar seu sustentáculo: a cultura pagã. Ao negar a Deusa, Gwen enterrou a liderança feminina, na região, para sempre... Ou pelo menos até Elizabeth.

Gwen é a mulher que Camille Paglia hostiliza: inconsciente de si mesma, indefesa diante dos perigos naturais da vida em sociedade, portanto, manipulável.


Homem, o sexo frágil

Bradley e Paglia parecem concordar que o mundo é das mulheres. Acontece é que, fora dos livros, nós mulheres sentimos o oposto disso na pele.
Uma das idéias que Paglia defende é de que a pornografia é boa e que é uma prova palpável do poder feminino. Ok, fazer o sexo oposto babar pode ser um tipo de poder e a idéia que temos sobre o sexo é basicamente cultural, mas eu creio que ainda num contexto liberal hipotético e ideal, a pornografia continuaria possivelmente agressiva para a maioria das mulheres. Não culpem os contos-de-fada! É que não rola de achar uma mulher em posição de frango assado algo massa. Camille não se ofende porque é lésbica e excêntrica, ora![risos]
Mas o feminismo com alma de feirante não encontrou eco à toa [o Nazismo está aí para provar que nada vem do nada]. Eu sei que as mulheres, a seu modo, também agridem e acuam os homens, mas eles são muito mais competentes que a gente quando o assunto é agressão. Nunca esqueço daquela fala de Julia Roberts, quando leva um soco do sócio de Edward, em "Uma linda mulher": "Nossa, vocês sabem como acertar uma garota! O que é, hein?! Eles ensinam isso para vocês na escola, é?!". No maxilar ou na reputação, tanto faz...
"Momento Confessionário": vivi isso na pele, há alguns meses. Um certo jornalista me mandou um postal de Paris com um casal se beijando na escada. Nos dizeres, esse recado: "Inspire-se na imagem e divirta-se um pouco". Um ano depois, me aventurei no safári da carne de Senhor do Bonfim: o Forró do Sfrega. Mandei ao amigo um link para as fotos do meu São João. Só porque me viu sandyamente abraçada a um moço de braços fortes, calças justas e pele morena, se indignou comigo: "Mas tá toda uma periguete, hein?!"... Meu querido, decida-se! [risos]
Ao ler o livro do dr. Flávio Gikovate, "Homem, o sexo frágil", me deparei com umas teorias bem interessantes sobre a intimidade do sexo oposto [o título me atraiu e, além do mais, não vou negar que me interesso pelo tema. Criada numa família majoritariamente de mulheres, inclusive entre duas irmãs mais velhas, careço de informações sobre a ala masculina. Fato!]. Uma das teorias dele é de que o machismo, o jeito agressivo de alguns homens se referirem às mulheres, é fruto da inveja e da raiva por não despertarem nas mulheres o mesmo desejo intenso que elas despertam neles, o que ocorre por meras razões fisiológicas.
Dentro dessa hipótese, ele apresenta duas observações que julgo interessantes. Uma delas é de que se a pílula emancipou as mulheres, a pornografia, por outro lado, deu a liberdade aos homens, que antes dela dependiam da "boa vontade feminina" para ver um pedaço de pele. A segunda é de que o cafajeste é um sujeito que atrai a mulherada não necessariamente pelo charme da sua malandragem. A esperteza do cafajeste está em sacar o mecanismo fundamental que dispara o desejo feminino: sentir-se desejada. É a falta de vergonha em demonstrar seu interesse pela mulher que o faz tão bem-sucedido, ponto no qual o tímido "empaca", acreditando que se fizer isso, vai estar sendo desrespeitoso. [Isso me fez pensar que talvez a pornografia masculina só faça sucesso entre os gays porque para as mulheres o que interessa é o nu masculino "personalizado", o desejo masculino provocado por ela. Hummm... :P]

***

Tema controverso e interessante, não? Eu acho!
A partir de toda essa conversa, dessas leituras, cheguei à seguinte conclusão sobre o dito poder feminino: poderia ter poupado minha visão, minha grana e o meu tempo se tivesse prestado mais atenção nas "Spice Girls" [a culpa é da Posh, que me assustava com aquele dente de ouro biiiiizaaaaarrooo!]!! hahaha



* É algo óbvio, mas é bom ressaltar: a exposição de idéias que se seguiu é fruto do meu entendimento dos textos dos autores. Quem pensar diferente, por favor, deixe um comentário.
** Na foto, a atriz Mae West, uma mulher que sempre soube como se manter no topo!

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