O comment da semana foi em cima da fala de Maria Rita Kehl sobre os identitários. Primeiro e antes de tudo: que saco essa esquerda branca (incluindo WG que tem alma de) falando dos identitários por minuto. Está quase empatada com os discursos repetitivos dos próprios identitários.
Dito isso, no corte que peguei da entrevista dela, não achei nada de mais. Ela falou o que é óbvio e vai acontecer: os movimentos identitários, especialmente o negro, estão puxando tanto a corda, que uma hora ela vai arrebentar. Some a isso que as forças opositoras ainda estão no topo, e a rebordosa só vem. É questão de data. As pessoas desses movimentos (assim como os demais segmentos políticos, inclusive a "racional e informada" esquerda e a avassaladora extrema direita) não gostam de ouvir isso, jogam tudo na gaveta do ressentimento e do preconceito, mas é fato.
Pra mim é nítido que as pessoas hoje se acusam do que elas mesmas fazem. A esquerda vence pelo beiço de uma pulga. Apesar dos mil problemas, ainda defende valores que pra mim são caros e que deveriam ser universais, mas não são. A única frase de um espírita que dei crédito nos últimos tempos é que o umbral está vazio porque os perturbados estão todos aqui. Boto fé.
Veja, os movimentos identitários são importantes. É uma porta afetiva que serviria para chamar as pessoas para a política - e quem mais é vulnerável socialmente é quem mais precisa de política. O problema é o ser humano. Pessoas, de um modo geral, não lidam bem com poder. Qualquer micro poder e, como sempre disse minha mãe, a pessoa sobe no tijolo achando que já tá no palanque e faz discurso.
Eu tenho especial ranço do movimento negro porque é onde vejo as maiores distorções e malabarismos retóricos, isso sem falar da repetição daquilo que eles mesmos criticam na branquitude. Isso sem citar como arreganham os dentes quando um branco rico chega como "aliado". É, dos movimentos, na minha percepção, o que mais exemplifica outra máxima que amo: "Na prática, a teoria é outra." Não acredito em um movimento em que, no fundo, a meta é tomar o lugar do opressor (há exceções, claro, mas quem está mais no topo geralmente não é melhor do que aqueles que critica). A dor do racismo é real e legítima, mas quem vem se apropriando dela a título de luta muitas vezes não. Fora que existe uma linha fina entre esse aquilombamento que afaga e o que aliena. Sabe clube do bolinha, onde os caras ficam se elogiando pra receber elogio de volta e se sentirem confirmados? Sabe famoso que só tem adulador em volta e ninguém diz nada que não seja positivo? Pois é, coisa boa pro ego, mas quem vive assim também não percebe outros fatos, não cresce - e eventualmente ainda passa vergonha achando que tá arrasando só porque a claque bateu palmas.
Agora, voltando a Kehl, apesar dela ter falado verdades (o que escrevi aqui mesmo seria motivo de cancelamento automático, embora eu saiba que minha opinião é lúcida, pois é respaldada em casos reais vistos nos últimos 25 anos), demonstrou o ressentimento que ela tanto estudou. Deu pra perceber no subtexto dela, na cara e no tom de voz, que tem ali uma dorzinha nela, sempre considerada uma voz importante, virar desimportante. Ela branca, rica, culta, sempre chamando atenção pra si, estava chateada, com uma dor de cotovelo ali. É humano, claro. Mas não deixa de ser engraçado que uma psicanalista não se aperceba disso.
Azedo
Esta semana, mais um homem saiu em defesa de Claudia Leitte na polêmica da música "Corda de caranguejo". Repare, eu tenho certeza que ela não é gente ruim. Pessoas que conheço e que já estiveram com ela elogiam. Todas essas pessoas que defenderam ela disseram que não é racista, que é boa pessoa, etc. Mas não ter a intenção não quer dizer que não fez algo. Uma coisa não implica na outra. Posso ser boa pessoa e fazer algo ruim. Posso nem sonhar que fiz e ter feito. Assim como a obra de arte nem sempre reflete a intenção do artista, o ato nem sempre reflete a intenção do ser humano. Podia ser pêlo em ovo da militância racial? Podia. Já criaram fanfic até de que não podia falar mais criado mundo porque tinha a ver com a escravidão, e alguém foi atrás e pesquisou que isso é mentira. A histeria coletiva é uma possibilidade. Mas uma boa pessoa reflete quando recebe uma crítica e evita futuros eventos semelhantes quando percebe que isso incomoda muita gente. Ela sonsamente insiste. E eu duvido que ela ficaria com a cara de paisagem que está agora se substituíssem "Jesus" por "Exu" em alguma letra cristã que ela gosta. Então, se Claudia não quer isso pra religião dela, por que fazer com a dos outros?
Por outro lado, o tribunal da internet falha miseravelmente em uma coisa em particular: proporção. Estão tratando a criatura como se ela tivesse matado alguém. Não é pra tanto. A reação tem que ser proporcional, senão é violência também.













