domingo, 9 de fevereiro de 2025

C´est compliqué

O comment da semana foi em cima da fala de Maria Rita Kehl sobre os identitários. Primeiro e antes de tudo: que saco essa esquerda branca (incluindo WG que tem alma de) falando dos identitários por minuto. Está quase empatada com os discursos repetitivos dos próprios identitários.

Dito isso, no corte que peguei da entrevista dela, não achei nada de mais. Ela falou o que é óbvio e vai acontecer: os movimentos identitários, especialmente o negro, estão puxando tanto a corda, que uma hora ela vai arrebentar. Some a isso que as forças opositoras ainda estão no topo, e a rebordosa só vem. É questão de data.  As pessoas desses movimentos (assim como os demais segmentos políticos, inclusive a "racional e informada" esquerda e a avassaladora extrema direita) não gostam de ouvir isso, jogam tudo na gaveta do ressentimento e do preconceito, mas é fato. 

Pra mim é nítido que as pessoas hoje se acusam do que elas mesmas fazem. A esquerda vence pelo beiço de uma pulga. Apesar dos mil problemas, ainda defende valores que pra mim são caros e que deveriam ser universais, mas não são. A única frase de um espírita que dei crédito nos últimos tempos é que o umbral está vazio porque os perturbados estão todos aqui. Boto fé. 

Veja, os movimentos identitários são importantes. É uma porta afetiva que serviria para chamar as pessoas para a política - e quem mais é vulnerável socialmente é quem mais precisa de política. O problema é o ser humano. Pessoas, de um modo geral, não lidam bem com poder. Qualquer micro poder e, como sempre disse minha mãe, a pessoa sobe no tijolo achando que já tá no palanque e faz discurso. 

Eu tenho especial ranço do movimento negro porque é onde vejo as maiores distorções e malabarismos retóricos, isso sem falar da repetição daquilo que eles mesmos criticam na branquitude. Isso sem citar como arreganham os dentes quando um branco rico chega como "aliado". É, dos movimentos, na minha percepção, o que mais exemplifica outra máxima que amo: "Na prática, a teoria é outra." Não acredito em um movimento em que, no fundo, a meta é tomar o lugar do opressor (há exceções, claro, mas quem está mais no topo geralmente não é melhor do que aqueles que critica). A dor do racismo é real e legítima, mas quem vem se apropriando dela a título de luta muitas vezes não. Fora que existe uma linha fina entre esse aquilombamento que afaga e o que aliena. Sabe clube do bolinha, onde os caras ficam se elogiando pra receber elogio de volta e se sentirem confirmados? Sabe famoso que só tem adulador em volta e ninguém diz nada que não seja positivo? Pois é, coisa boa pro ego, mas quem vive assim também não percebe outros fatos, não cresce - e eventualmente ainda passa vergonha achando que tá arrasando só porque a claque bateu palmas. 

Agora, voltando a Kehl, apesar dela ter falado verdades (o que escrevi aqui mesmo seria motivo de cancelamento automático, embora eu saiba que minha opinião é lúcida, pois é respaldada em casos reais vistos nos últimos 25 anos), demonstrou o ressentimento que ela tanto estudou. Deu pra perceber no subtexto dela, na cara e no tom de voz, que tem ali uma dorzinha nela, sempre considerada uma voz importante, virar desimportante. Ela branca, rica, culta, sempre chamando atenção pra si, estava chateada, com uma dor de cotovelo ali. É humano, claro. Mas não deixa de ser engraçado que uma psicanalista não se aperceba disso. 

Azedo

Esta semana, mais um homem saiu em defesa de Claudia Leitte na polêmica da música "Corda de caranguejo". Repare, eu tenho certeza que ela não é gente ruim. Pessoas que conheço e que já estiveram com ela elogiam. Todas essas pessoas que defenderam ela disseram que não é racista, que é boa pessoa, etc. Mas não ter a intenção não quer dizer que não fez algo. Uma coisa não implica na outra. Posso ser boa pessoa e fazer algo ruim. Posso nem sonhar que fiz e ter feito. Assim como a obra de arte nem sempre reflete a intenção do artista, o ato nem sempre reflete a intenção do ser humano. Podia ser pêlo em ovo da militância racial? Podia. Já criaram fanfic até de que não podia falar mais criado mundo porque tinha a ver com a escravidão, e alguém foi atrás e pesquisou que isso é mentira. A histeria coletiva é uma possibilidade. Mas uma boa pessoa reflete quando recebe uma crítica e evita futuros eventos semelhantes quando percebe que isso incomoda muita gente. Ela sonsamente insiste. E eu duvido que ela ficaria com a cara de paisagem que está agora se substituíssem "Jesus" por "Exu" em alguma letra cristã que ela gosta. Então, se Claudia não quer isso pra religião dela, por que fazer com a dos outros?

Por outro lado, o tribunal da internet falha miseravelmente em uma coisa em particular: proporção. Estão tratando a criatura como se ela tivesse matado alguém. Não é pra tanto. A reação tem que ser proporcional, senão é violência também. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Eu sabendo, duvido e vendo, continuo não acreditando



Ai, o ser humano!... Era melhor ter mantido os dinossauros.

Sempre achei que cada um sabe, no fundo, quem é e o que faz. Talvez porque comigo seja assim, sou muito reflexiva. Rumino tanto as coisas, que quando passa o tempo e eu não mudei de ideia, tenho convicção que tô na pista certa. Frequentemente, mesmo que secretamente, mudo de ideia, por isso se o contraditório não me pesca, eu sei que tô certa na questão. Mas ando me dando conta que as pessoas não querem saber quem são e nem reconhecer as merdas que fazem. Isso é um defeito geral, mas que se apresenta com uma dose extra de arrogância no caso dos homens.  

Outro dia dois amigos brigaram do nada. Na verdade, um deles viu pêlo em ovo e caçou o rompimento. Não falei nada porque ando evitando entrar em confusão até em causa própria. Mas depois fiquei de cara quando esse que brigou veio no privado me falar várias coisas sobre o agora ex-amigo que em nada batiam com a realidade. E olha que não sou de encobrir os defeitos dos meus amigos. Meu trabalho é o contrário: disfarçar que não estou vendo. O caso é que eu acho que algo que o outro disse, embora não tenha dito nada de mais, bateu errado em algum complexo de inferioridade deste moço, ele surtou, não quis sair por baixo e inventou pra si mesmo uma desculpa pra sair por cima. O que me espanta é que tudo isso foi feito sem que ele tivesse consciência disso. E aqui que entra a questão de gênero. Muitas mulheres, assim como eu, ruminam, então a chance de cair a ficha é maior, embora vivamos todos numa época em que todo mundo se acha acima do bem e do mal. Mas, enfim, mulher tem baixa autoestima, então tende a considerar se está errada. Homens têm "autoestima" patológica. É uma certeza de que é foda que merece ser estudada pela Psicologia (e estão cada vez mais medíocres, coitados. Deve ser mecanismo de proteção de ego, só pode.). Em uma situação em que são contrariados, mesmo com todas as evidências apontando contra eles, ficam com ódio de quem expôs a situação. Ouvi um podcast na Radionovelo com um exemplo desse, em que a moça saiu de ruim na história porque expôs o namorado canalha. Ele tá de boa, protegido pelos amigos, e ela não.  

Uma figura lá do trabalho tem a prática sem noção de ouvir som alto no autofalante (todos nós usamos fone). Eu saí da bancada e fui pra outra porque, entre outros motivos, não aguentava mais aquilo, afinal preciso de sossego para trabalhar justamente com áudios. E outra colega já sinalizou, inclusive, que ele tem a prática de ouvir o som tão alto que ela pensa que é o rádio da sala ligado. Você acha que a criatura parou e avaliou que foi mal educada comigo e com os colegas? Que nada. E a consideração que tinha por ele caiu muito quando percebi essa falta de humildade e autocrítica (daí você vê que o ar "deboassa" de certas figuras é fake e despenca quando são contrariadas). Tá fechado, no mínimo achando que eu fui isso e aquilo. Ele não tem a mínima noção de que ele sim foi desrespeitoso. Certeza que ele não tem.  E sei que ele faz algo parecido com colegas do outro trabalho dele. Não é pessoa ruim não, é muito extrovertido inclusive. Mas usa essa corrupção afetiva, digamos, pra desrespeitar os outros e fazer o que quer. Aqui no Brasil a pretensa alegria de certas pessoas é como um KY pra elas enfiarem no seu c* e você não ter o direito de reclamar. Muitos homens se fazem de legais justamente pra serem abusivos sem repercussão pra si mesmos. E quando alguém os constrange, vem a violência (que não precisa ser física, claro). Jogar nas costas do outro um ônus que é seu é violência pra caramba. Realmente, tem gente que acha que está certa mesmo fazendo merda atrás de merda. Gente assim se picando da minha vida é livramento, não tenho dúvida. Pra mim é. Quero perto de mim gente recíproca, que queira pra mim o mesmo que quer pra si, que seja justa mesmo quando isso não a favorece. 

Justiça

Esse conceito, na minha opinião, tem a ver com proporção. Certo e errado são dificeis de definir porque sempre há as circunstâncias e a medida da ofensa para serem consideradas na resposta a ela. Uma boa reparação exige medida; nem mais, nem menos do merecido. Exemplo 1: fui ver um júri de tentativa de feminicídio, em que o júri deu tudo que podia dar pra condenar o réu e o juiz abrandou demais a pena final. Minha amiga ficou injuriada. Eu também, mas compreendi o juiz: se ele desse a pena máxima, ele ia colocar um cara que tem dois filhos pra criar, trabalha e nunca mais depois disso criou problema por anos entre bandidos da pior espécie. Ele não seria só punido, mas sairia de lá com graduação em crime, isto é, se saísse vivo. Eu não queria estar na pele daquele juiz, que tinha que dar uma resposta à vítima (até pra constranger violências futuras) e à sociedade, mas sem pesar a mão demais e produzir mais um marginal. 

Exemplo 2: o filme "Jurado número 2". Uma mulher morreu "de morte matada". O namorado abusivo a colocou numa situação de vulnerabilidade, em que era muito fácil isso acontecer. Um completo estranho, sem querer, matou ela atropelada. Quem tem mais culpa? Eu chego a pensar que o namorado é mais responsável que a pessoa que a atropelou. Só não sei como alguém vive normalmente tendo matado outra pessoa, mesmo sem querer. Nem tanto assim, no caso do filme, porque o cara era alcoolotra e esse era um risco presumido. 

Definitivamente, não consigo entender certas mentalidades humanas. Não sou perfeita, mas pelo menos tento acertar. A galera, de um modo geral, tá jogando pra cima, "sem pecado, sem juízo". Oremos. 


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Tá vendo quando eu digo que é difícil?




Tenho vários colegas psicoterapeutas e psicólogos nas minhas redes sociais, por conta dos cursos que fiz. Alguns deles são pessoas bem inteligentes e tal, mas vira e mexe os vejo escorregando numa casca de banana: todo mundo fala de transformação como se fosse caso de jogar um pó de pirlimpimpim em si mesmo, mas ninguém fala de onde vem/ virá a força psíquica (por vezes hercúlea) que uma superação de vida exige. 

O caso é que a gente não é o que quer, é o que consegue ser. Freud mesmo, em O mal-estar na civilização, afirmou que há pessoas mais talhadas para viver neste mundo que outras. Essa superação do meio ambiente e das experiências ruins do início da vida não depende só da decisão do indivíduo (mas, sim, acredito que tomada esta decisão, algum nível de melhoria a pessoa vai alcançar ainda que não o almejado). A transformação, essa alquimia do chumbo em ouro, depende da personalidade, do nível de energia psíquica que a pessoa consegue mobilizar e também - e nenhum terapeuta ressalta isso - do meio ambiente. Uma pessoa que teve um início difícil, uma construção do eu problemática, se ela cresce e continua num ambiente tóxico e recebendo porta na cara, sem a estima e valorização dos outros, dificilmente vai ter a força psíquica necessária para virar o jogo. Há seres excepcionais, mas a sociedade nem de longe é feita deles. Precisamos pensar as soluções para as pessoas ordinárias mesmo. 
A vida é a arte dos encontros, e precisamos deles também para mobilizar tanto as transformações externas quanto também as internas. Essa história de que sozinho a gente faz e acontece é mentira pura. Assisti, ontem, o penúltimo episódio de A amiga genial e a trajetória de Lila é um exemplo disso. Ela era genial, linda e destemida, mas foi esmagada pelas circunstâncias da vida, uma atrás da outra - e não foi por falta de tentativas de se reinventar e sair adiante. Ela deu muito azar nos encontros que teve. Do primeiro, com um pai abusivo, ela nunca conseguiu se desvencilhar, tornando-se um pouco como ele. A trajetória de Lenu foi muito mais branda, ainda que ela não fosse uma força da natureza como Lila.  
Frases do tipo "Você pode mudar a sua vida", "A raiva faz a sua vibração energética ficar baixa", etc, são bem intencionadas e podem até funcionar para algumas pessoas, mas são facas de dois gumes que podem também levar mais culpa e majorar a sensação de incompetência pessoal do indivíduo, quando há sobretudo um problema social. É como dizer que pessoas positivas superam o câncer. Se não consigo "vencer" a doença, escutando isso fico duas vezes fodido, me culpando por não ter sido positivo o suficiente. Sacou a problemática?
Essas frases feitas só funcionam pra gente no cume do desespero e dispostas a acreditar em qualquer coisa, em se enganar. Eu bem sei disso porque já joguei umas frases assim e deu certo com gente desse perfil aí. Mas dá certo momentaneamente, uma hora a realidade bate de novo à porta. 
Tá vendo aí porque eu digo que ser terapeuta é uma das coisas mais difíceis? Porque não basta ser inteligente, tem que ser sensível e também pragmático. Tem que aprender a sair da experiência particular para pensar a vivência personalíssima do cliente. A pessoa pode saber como viver pra ela, mas será que ela consegue pegar as pistas e racionar a vida alheia, dentro das questões daquela pessoa? É difícil conseguir alguém assim. Tem que ter a inteligência dos livros (sim, é preciso muito estudo) e de alma - de preferência, não ter religião porque isso queira ou não produz pré-julgamentos morais. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Que Xou da Xuxa é esse?

Tenho pensado nos últimos dias que não tenho nada mais a fazer aqui. Sério mesmo, sem depressão, sem dor, é só constatação franca. Eu tenho essa sensação desde nova, nunca tive um gancho com a vida, com o mundo, algo pra querer estar aqui mesmo. Sempre achei tudo meio bleh, sem intensidade, superficial, falso e principalmente sem graça. Mas fui ficando por curiosidade, inventando umas coisas pra passar o tempo. Quem sabe, né? Mas nada mudou e tenho quase certeza que nem vai mudar. O caso é que penso que não tenho mais nada pra ver ou fazer aqui. Minha criatividade em inventar as coisas cessou. Eu estava me questionando esta semana qual era a diferença de ter ido há 20 anos. O que eu teria perdido de significativo? Talvez ter conhecido meus sobrinhos e as viagens que fiz, e olhe lá. Isso não justifica uma existência, o trabalho que dá viver. Vou escrever algo que pode chocar, mas é verdade: se morrer daqui a dois meses ou amanhã, não partiria triste, não. Acho que ia me sentir livre das obrigações que estar vivo impõe e que nunca cessam. Ia ficar na minha nuvenzinha, lendo as coisinhas, vendo uns filminhos, fazendo uns cursos pra desenvolver alguns talentos e assistindo as fofocas daqui de camarote. Ia ser legal poder descansar, enfim.

(Pior que não dá nem pra ter esse papo com alguém. As pessoas morrem de medo de admitir isso, de olhar pra própria miséria e encenação)

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Abaixo a racionalidade

 Eu gosto da racionalidade até a segunda página. Racionalidade demais não funciona. Amo outra máxima: "Na prática, a teoria é outra". Pois é, nada mais verdadeiro que isso. 

A racionalidade é sempre do plano do que deveria, não cobre totalmente o que existe. Há sempre uma esfera do inapreensível e ocorre uma primazia das emoções sobre o mental. Aliás, por falar nelas, às vezes o excesso de racionalidade vira frieza, insensibilidade com o outro. 




segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Tempo é questão de prioridade

Ouvi essa frase uma vez e adotei: tempo é questão de prioridade. Mesmo que você realmente não tenha tempo agora, se for uma prioridade, uma hora a fila anda e a vez daquela meta chegará. Eu mesma sou assim. Se algo está verdadeiramente nos meus planos, vai entrar na pauta assim que der. 

Por isso que não acredito nisso de amizades de baixa manutenção. Não que todo mundo tenha que andar grudado, mas você esquecer que a pessoa existe e só falar com ela de caju em caju não é amizade. Isso tem outros nomes: simpatia, coleguismo, etc. Eu me lembro que antes de trabalhar em jornal, havia amigos que, pra qualquer convite, respondiam que não podiam por causa do trabalho. Entrei no jornal e realmente era uma rotina puxada, mas não deixei de ir pra nada que fosse importante pra mim. Quase nunca faltei nos eventos em que era convidada. Daí vi que era desculpa, não era realidade. Tempo é questão de prioridade. 

Hoje, na hora do jantar, uma amiga veio com o argumento de que entende as amigas com filhos que desaparecem. Olha, mantenho minha máxima, viu? Nos dois, três primeiros anos até dá pra entender o sumiço da pessoa porque um bebê é extremamente dependente, mas depois de crescida a criança, é escolha mesmo. Os amigos não fazem falta. No caso das mulheres, o papel de mãe é muito poderoso na cultura e possui um apelo imenso à psique. Não é de surpreender que a mulher fique absorvida 100% por essa função, inclusive em termos de relacionamentos. Muita mulher escanteia inclusive os maridos (não estou falando dos casos em que há egoísmo masculino e a esposa se vê obrigada a assumir tudo sozinha), justamente pela sedução do papel onipotente da mãe. Se a pessoa quiser delegar a vida, ainda mais se for mulher, a maternidade é o contexto perfeito. Você vive a vida do outro quase sem ser criticada. Aliás, só as muito atentas não vão cair nesse canto da sereia. 

Ninguém é obrigado a manter contato com ninguém, mas o que eu acho ruim nesse tipo de situação - muitíssimo comum - é que parece que as amizades pré-maternidade eram tapas-buracos. Não gosto de relações por interesse. Obviamente, todas as amizades são "interesseiras", mas num sentido de afinidades. Não gosto dessa coisa de usar os outros para obter coisas ou tapar buracos. "Cheguei onde queria, então não preciso mais dessas pessoas." Mulheres são mestres em fazer isso quando migram de status de relacionamento ou quando se tornam mães.  Vejo muito as pessoas "fazendo contas" até nos relacionamentos mais íntimos. "Ah, eu não me dou com os meus irmãos, mas privilegio eles porque é quem vai ficar comigo a vida inteira". Já ouvi essas coisas. Agora, me diz, se as pessoas partem de segundas intenções (ainda que muitas vezes nem percebam), como é que algo de bom e de duradouro pode florescer? O amor (de qualquer espécie) é caro, meus caros, não dá pra torná-lo barato, como dizia Junguinho. 


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Sucession


Silvio Santos morreu em agosto aos quase 94 anos. Uma figura controversa, com muitos feitos grandiosos pro bem e pro mal, mas alguém que deixou um legado. Gente como ele está indo embora e sem substituição. 

Há tempos, até antes do fenômeno influencer, que venho observando que as pessoas estão perdendo o sentido de legado. Da minha idade pra baixo, a maioria quer ser suficientemente famoso pra poder ganhar dinheiro fazendo publis nas redes sociais e frequentar festas badaladas. Eu posso citar vários famosos nessa pegada. Alguns teriam potencial pra uma carreira rica em bons trabalhos, mas falta a disposição de dar um algo a mais para ter esses resultados. Sim, não tem como fazer coisas extraordinárias sem esse esforço a mais, sem suar pra valer a camisa. 

Estão todos no Bloco do Prazer, mas não é nada que honre Dionísio. É só acomodação e imediatismo mesmo. Eu sinto pena dos casos em que há muito talento envolvido, mas... E saúde mental virou a desculpa de muita gente para largar o corpo e não fazer nada. Equilíbrio é tudo, até nisso. A vida é um eterno intercalar entre relaxamento e tensão. Tanta gente marombeira neste Brasil e ninguém se liga nisso, que a musculatura, pra se desenvolver, precisa de esforço e descanso, no corpo e na alma. 

Curiosamente, durante as Olimpíadas de Paris, eu percebi que talvez os esportes sejam a última arena das pessoas que estão a fim de se jogar numa missão e produzir legado. Provavelmente porque o tempo de um atleta é curto e não há muito tempo para, como Adele e Rihanna, tirar férias por prazo indeterminado. É agora ou nunca de fato. E mesmo assim vemos grandes atletas preferindo mais ser uma celebridade vazia que um atleta que marcou história e viveu todo o seu potencial. Temos um exemplo mesmo aqui no Brasil, que dispensa citação. 

O que me preocupa nisso tudo (por esse blog, dá pra perceber que várias pequenas coisas me preocupam no plano mental) é que se as pessoas não estão querendo se sacrificar nem pra escrever a melhor história para si mesmas, o que será das coletividades quando vários sacrifícios individuais forem requeridos? Tivemos um "trailer" desastroso disso durante a pandemia, mas conseguimos nos safar. Neste sentido, estou muito pessimista quanto ao futuro. 

O peso do passado, a leveza das pessoas maravilhosas que não conhecemos (e que não nos conhecem também)


Por culpa de Hollywood, sempre achei bacana a imagem dos amigos que se conhecem desde a infância. Eu não os tenho, mas mantenho os da adolescência em diante. Uma dessas amizades já tem 20 e poucos anos. Como é uma pessoa assídua na minha vida, que eu conheço a família, o contexto, etc, eu já consigo antecipar as cenas dos próximos capítulos, perceber quando está falando da boca pra fora e por aí vai. Não é culpa dela. Dificilmente os seres humanos são imprevisíveis. Uma amiga em comum até dá risada dos meus comentários premonitórios. Essa semana, me caiu a ficha de que pra ela, e pra todo mundo que passa por isso, deve ser um porre ter gente assim ao redor.

Explico: tem horas em que a gente enjoa da gente e quer se ver diferente e também ser vista de um outro modo pelas pessoas. Eu já reparei que essa amiga mesma vende uma versão diferente dela pras novas amizades. Eu achava infantilidade, mas vejo que tem razão de ser. E por que não? Que coisa chata deve ser essa cristalização. Também não gosto quando as pessoas me enquadram, ou dizendo algo que não sou (o mais comum), ou falando como se não pudesse mudar (tão bleh quanto). Ficcionar-se é preciso, e vamos deixar nossos velhos conhecidos em paz com isso, né? 

domingo, 22 de setembro de 2024

Interpretando um sonho

 


Ontem, fui dormir reflexiva sobre uma situação estranha durante o dia. De noite, sonhei. Este sonho dá um belo exemplo de como interpretar sonhos. 

No sonho, eu estava na sala da minha casa - uma super sala, do jeitinho que eu sonho - e a luz estava baixa, eu acho que estava mexendo nos livros. Do lado de fora, uma piscina comprida, belíssima, de água cristalina, e algumas pessoas andavam por ela ou pilotando jet-ski ou sendo puxados por uma corda. Eu olhava e percebia que as pessoas estavam aproveitando lá fora e eu não. Fui, em determinada hora, no início da piscina, e havia crianças botando colete e andando nela. 

Como interpretamos isso?

Tem dois modos, um ao pé da letra e outro que depende de outros sonhos prévios. 

No primeiro modo, a casa, na linha junguiana, representa a psique. A água, as emoções. Como aqui é uma piscina, podemos falar de água contida, um curso artificial. Adultos passam por ela correndo, audazmente, e parecem se divertir. Crianças começam pela beirada, com coletes. Nesta interpretação, me ressinto de não saber brincar com essa água represada/ falsa. Eu estou no conforto da minha casa. Tipicamente introvertida. 

Mas eu acho que faz mais sentido a segunda, de que a piscina significa lazer e leveza. 

Acho que meu inconsciente está me mandando pegar leve. Nesta mesma semana, sonhei que Ivete Sangalo estava batendo papo comigo e com pessoas da minha família na sala de casa. Ela sentada no chão e de camiseta e calça. Vejo ela todo dia no Instagram, então não foi uma imagem do dia. Ivete é conhecida pela descontração. 

Tentarei.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Heróis do dia a dia

 



Cresci ouvindo minha mãe e o seu bordão “Dá a César o que é de César”. E é preciso dar a César, Maria, Pedro e etc o que é deles, os heróis do dia a dia, aquelas pessoas que a partir de muito pouco ou quase nada fazem bem mais do que a princípio poderiam, que conseguem ir adiante mesmo com uma moral baixíssima, mesmo ninguém aplaudindo, mesmo tendo um dia triste atrás do outro, mesmo sendo criticadas e tratadas como invisíveis ao mesmo tempo. Aliás, fiscais de obras prontas nunca faltam, mas pra reconhecer os bons feitos não aparece um. 

O Instagram e o Tik-Tok não deixam dúvidas da necessidade humana de atenção e de reconhecimento. Portanto é muito duro, árido passar uma vida sem esse reforço positivo, sem ser visto devidamente nas suas conquistas e méritos. Pessoas que pertencem a uma minoria, em especial, sabem (e sofrem os efeitos perversos) disso. Pude ver essa questão de um lugar privilegiado, de fora pra dentro, na minha curtíssima experiência como psicoterapeuta. Muitas vezes, em um processo terapêutico, nós temos que provocar as lembranças do passado (que muitos não lembram, o que é comum em situações traumáticas, inclusive). Apesar da sensação de fracasso pessoal que todos, sem exceção, carregavam ali, eu via pontos "heróicos" na trajetória da pessoa, que tocou uma vida funcional apesar das várias faltas, rejeições e tristezas. Imagine o que é você vir de um lar desunido, tumultuado e quando consegue passar no concurso que era o sonho da sua vida, descobre que vai ficar cego e tem que aprender uma nova profissão pra sustentar a família, e ainda viver de novo num lar tumultuado, mas ousar sair de lá mesmo sendo tudo que tem e estando na meia-idade. Agora imagine o que é você perder pessoas importantes da sua vida ainda pequena, crescer, lutar pra ter uma vida com dignidade e se separar de um marido que você não ama, mas que faz chantagem emocional usando a sua carência e enquanto isso você ainda vê sua mãe, a única pessoa que sobrou, definhando e morrendo de câncer. Essas pessoas ainda conseguiam tocar a vida pra frente, serem boas, algumas delas até alegres e todas estavam ali na terapia tentando se reinventar na vida mesmo com tudo contra. Isso não é pra qualquer um. Não mesmo. E eu tinha que ficar ali, frisando essas conquistas que pareciam tão banais aos olhos do mundo e tão aplausíveis naquelas histórias de vida, para que o próprio indivíduo tivesse consciência disso. E esse exercício de autopercepção, naquela uma hora de terapia, ajudava a pessoa a florescer. Sério, é chocante ver como um pouco de escuta impulsiona. Somos seres relacionais, não há como negar.  

Mas o ser humano consegue ser tão estreito na visão de mundo que, como disse o Pequeno Príncipe, o essencial acaba ficando invisível aos olhos. A gente prefere dar likes, carinho e enriquecer gente vazia, mas que tem os signos sociais de distinção do que fazer um elogio a alguém em posição social mais baixa e de características admiráveis. Gente rica, branca, jovem e dentro do padrão fazendo qualquer coisa emociona mais. Nada disso tira os méritos de quem os tem, porém é diferente você dirigir um carro de fazer o mesmo trajeto de sandálias Havaianas. Admitir isso é uma questão de honestidade intelectual. Sinto falta dessa distinção. Sabe a ginástica olímpica, em que a nota leva em conta a dificuldade da apresentação e a execução dela? Esses critérios deveriam reger os julgamentos sociais. 

Eu percebi nitidamente essa violência estudando na Facom. Uma colega era esforçada e ativa. Rica, ela cursava duas faculdades na maior tranquilidade, com toda a estrutura possível, sendo valorizada em cada conquista, enquanto uma outra, que fazia as mesmas coisas, administrava poucos recursos, se sacrificava em longas viagens de ônibus e ainda botava dinheiro em casa era invisibilizada. As duas faziam a mesma coisa, mas só uma era alvo de atenção. Sorte que a pobre foi resiliente e essa história teve um meio feliz, mas nem todo mundo tem essa super força interna - até porque a gente precisa também do reforço externo. Há inegavelmente uma linha que separa quem é considerado humano ou não para a sociedade - e não adianta ficar bravo comigo, que não fui eu quem inventei isso. Na sociedade brasileira, há a crença de que o pobre precisa se sacrificar além do limite da dignidade - e não estará fazendo nada além da obrigação - e com quem é privilegiado é o contrário, e até os esforços e qualidades que deveriam ser básicos viram dignos de exclamações e palmas. No fundo, até essas pessoas são desumanizadas.

Observo que como ninguém presta atenção a atitudes, mas em coisas, todo mundo teme as situações de superação (pelo contexto de vulnerabilidade que representam) e se voltam para as de bonança, mesmo que quem viva isso não tenha feito nada, como se só por estar perto dessas pessoas suas condições fossem contagiosas. A gente anda confundindo inspiração com alienação: olhamos quem a gente gostaria de ser e perdemos a capacidade de apreciar o bom que já somos, nós e os nossos próximos. Como a maioria não está no círculo do privilégio, isso além de ser perverso com o outro, também é consigo mesmo, porque nunca reparamos, validamos e nos fortalecemos olhando para os iguais ou mais resilientes na luta. Em vez disso, alimentamos ressentimentos, inveja e principalmente uma sensação de fracasso baseada na comparação com quem a gente nunca viu a "cozinha".

Isso também me lembra outra paciente que, deficiente física, idealizava a vida de quem não era deficiente. Na visão dela, a vida seria perfeita se não fosse deficiente e ela se socializava basicamente pelo Instagram. Quando sugeri que seguisse, naquela rede, pessoas como ela, ficou furiosa e ofendida. O que uma pessoa que reage assim pensa de si? Mas essa autorrejeição não foi uma construção espontânea; ela aprendeu se socializando, vendo como o mundo social funciona. E uma sociedade capitalista não tem interesse na diversidade, que dá mesmo muito trabalho pra satisfazer, pra comercializar. Cabe a nós hackear esse sistema e uma das ferramentas pra isso, sem dúvida, é o auto amor, que aqui entende-se como a capacidade de ser amigo de si mesmo. Soa simples, mas isso requer uma sofisticação a ser trabalhada por toda vida.


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Equilibrio Distante (Simone Biles + Rebeca Andrade feat Divertidamente)

 




Quanto mais eu envelheço, mais acredito num ponto médio para a maioria das coisas. Urge que a gente trabalhe nisso, especialmente em relação as nossas dores. Não acredito em gente que não sente nada, os pseudo super bem resolvidos. Pela experiência de vida que tenho até agora, dores ocultas se manifestam de qualquer jeito, apenas migram pra outro lugar. Mas acho que a gente não deve se impressionar com as próprias dores. Eu falei impressionar e não ignorar. A gente precisa olhar pra os nossos traumas, mas não muito pra não ser devorado por eles. Equilíbrio distante? Mas acho que vale a pena tentar. 

Simone Biles e Rebeca, a meu ver, conseguiram fazer isso que estou falando. Elas sabem o que aconteceu com elas e dão nome às coisas ruins pelas quais passaram, mas não foram tomadas por isso. A dor virou um localizador, não uma morada definitiva. Sabe aquele papo esotérico de que a vítima não prospera? Pois é, ninguém está nem ai, a gente só se prejudica. Mas o caso é que é muito fácil cair nesta cilada, e ficar querendo reparação, solidariedade, etc. Porque quando você sofre injustiças, um dos pontos de dor é saber que tinha gente vendo, havia quem pudesse impedir e ninguém fez nada. E daí você fica sangrando, esperando que essas pessoas vejam e façam a devida reparação (que não virá) e passa a acreditar que não tem valor. Penso que uma coisa que atrapalha também é a falsa sensação de azar, de que as coisas ruins só acontecem com a gente. E eu acho que é esse o pulo do gato: compreender que não existe vida sem frustração, injustiça, dor, etc. Sofremos não por sermos menos merecedores das coisas boas, mas porque estar na vida é isso aí mesmo. Inclusive, uma das coisas que me incomodam em quem pertence as minorias (e aqui tenho super lugar de fala) é que as pessoas fantasiam que aqueles que não pertencem a sua minoria têm uma vida maravilhosa. Podem ter uma vida menos difícil, mas a vida é complicada pra todo mundo. Marilinha tinha razão: todo mundo vai sofrer. 

É uma pena que o que não falte no século XXI seja gatilho pra disparar a nossa ansiedade.

Por isso que gostei dos dois Divertidamente, aliás uma tradução muito ruim de "de dentro pra fora". O primeiro filme frisa que todos os sentimentos são importantes. A Alegria, que se acha a melhor, tenta de tudo, mas quem resolve a parada é a desprezadíssima Tristeza. O segundo filme deixa bem claro aos jovens que a Ansiedade é do mal (não ela, a bichinha, mas o descontrole dela). No final todos se ajustaram e aprenderam inclusive a acolher a Ansiedade (sentadinha na cadeira de massagem com direito a xícara de chá. genial! haha), mas a mensagem foi passada: a energia que flui quando se é fiel aos próprios valores ajuda muito mais do que a ansiedade de querer se precaver do futuro. A propósito, amei a associação da Ansiedade com a Inveja e com o Medo. Este último toda hora virava pra Alegria: "É, a Ansiedade saberia o que fazer". E não sabia, só armou encrenca pra pobre da Riley. São vários os caminhos, mas no fundo a demanda de todo mundo é a mesma: amor. Não adianta se acabar, se torturar, criar um personagem, competir com os outros, porque esse bem-estar é um lugar dentro da gente que construímos (lógico, o ambiente e as pessoas interferem nisso) com muita perseverança, trabalho, fé e rezando pra ter sabedoria no processo. Afinal, somos os maiores interessados em morar lá. 
 

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Dissidentes

 Voltando ao tema da ansiedade, outro dia ouvi um especialista falando algo que já observei aqui: não é a tela que está produzindo uma geração ansiosa (afinal, televisão e cinema existem há anos), mas sim as redes sociais, que promovem a comparação (mentirosa ainda por cima). 

A comparação lasca tudo, ainda mais quando se é muito jovem. Deus me deu a graça de não ser adolescente na era das redes sociais. 

E o caso é que cada dissidência da norma pede uma competência que a compense aos olhos da sociedade. Aí é que ferra. Com a quantidade de coisas que a gente vê de errado na gente a partir dessa vizinhança do tamanho do mundo que é a rede social, forma-se uma lista enorme de competências que temos que ter pra compensar nossa incompetência existencial. Não bate essa conta e isso nunca ocorrerá. 

Na verdade, apesar de ser um condicionamento muito difícil (afinal, queremos ser amados), temos que largar os "tem que" que a sociedade joga pra cima da gente. 'Tem que" viver o melhor possível (o que pressupõe reconhecer limites e necessidades), e pronto. 

domingo, 9 de junho de 2024

Viver a vida

 




Viver a vida está cada dia mais caro. E não pagamos mais por isso apenas financeiramente, mas no corpo e na alma. 

Muita gente credita isso ao trabalho. De fato, no mundo de hoje não dá mais pra trabalhar 44 horas por semana, de segunda a sábado. Isso é querer matar a pessoa, porque com essa jornada é impossível cuidar da saúde, que dirá viver no sentido da alma. Você vai apenas acordar, tomar gagau, trabalhar, tomar gagau e dormir, como diz Helga de "Abafabanca". Neste modus operandi, quem vai conseguir se aposentar aos 65 anos? Morreremos ou adoeceremos seriamente antes disso.

Mas acredito que o problema transcende a questão do trabalho. Precisamos de mais tempo pra viver? Sim! Mas precisamos ter vida fora do trabalho e a maioria de nós está sendo roubado (e virando robô) pelos mil "tem que" e tecnologias. Tem que ficar sarado e bonito (o que leva muito tempo e dinheiro), tem que ter vida social (e nessa você vai até pra o que você não gosta só pra não ficar em casa e mostrar que está "vivendo"), tem que zerar as séries, tem que interagir com as pessoas no WhatsApp (incluindo o povo do trabalho) e Instagram e em meio a tantas tarefas e tempo e dinheiro escassos, há uma enorme carga mental planejando e administrando isso tudo. Multiplique por dois (três ou mais) se tiver filhos ou pais dependentes. Quem vive num esquema desse? Aquele vídeo da Luana Piovani falando que o Brasil não deixa ela postar foto de biquini é ridículo, é hilário, mas infelizmente é certeiro. Cada vez mais eu entendo os meus parentes mais velhos que decidiram se enfiar na roça. 

Eu estou tentando ao máximo cortar tarefas e necessidades, mas mesmo assim tenho muita coisa pra fazer. Tenho conseguido me salvar de me afundar, mas não de me cansar. E eu tô só nos "tem que", ainda usufruo muito pouco do meu tempo e dinheiro, pois por hora estou fazendo o que tenho que fazer, o que é prioritário para a minha manutenção neste mundo, neste País difícil pra caramba (a sociedade em que se vive precisa entrar nesta conta, pois é fator decisivo, embora ninguém se lembre disso. Tenho plena ciência que não estaria neste sufoco caso tivesse nascido no Norte global, na Suíça ou na Austrália, por exemplo). Eu não tenho condição de gerir ninguém além de mim. Caso quisesse ser mãe, seria uma tragédia, porque eu não teria condição ou traria alguém a esse mundo sob um custo altíssimo pra mim. Eu quero vida, não tá valendo a pena transmitir a outra criatura o legado da nossa miséria, como disse Machado de Assis. Aliás, ele como homem negro, teve um trampo danado pra chegar a um nível razoável de vida. Quando a gente nasce na prateleira de baixo, só a gente sabe quanto custa sobreviver! 

A luta pela sobrevivência é diretamente proporcional ao crescimento do vazio interior. E você acaba mergulhando na luta também para escapar desse vazio, pra não pensar no que está faltando e no que virá, nos seus medos. Sem ócio, como você vai sequer se (re)conhecer? Vez ou outra você se conecta através de uma paixão inesperada, mas o normal é se conectar primeiro pra se apaixonar, porque simplesmente você não vai ver fora o que não existe por dentro. 

E por isso estamos todos adoecendo. Eu não lembro na geração de meus pais de tanta gente doente. Claro, eles tinham problemas, o sofrimento humano é coisa antiga, mas as pessoas não adoeciam em bando com 40 ou menos como agora. Eu tenho pelo menos duas mãos de gente 40- que tiveram câncer ou mal súbito, gente inclusive aparentemente saudável, que malha, cuida da dieta, faz check-up, etc. Uma coisa que aprendi naquela minha experiência como terapeuta é que seguir na vida não depende de fazer força, do famoso "aguentar firme". Se você for nessa, uma hora vai faltar gasolina, você morre na beira da estrada, seu motor pifa. São o amor e o prazer que trazem impulso de vida, que nos fazem seguir adiante. Quando você está sofrendo muito, não é fazer força que vai fazer passar por isso. No máximo você vai conseguir ir no modo zumbi, que é pior que morrer. Você precisa parar, respirar, fazer algo prazeroso, que te conecte com o bom da vida, que vai fazer se reenergizar e conseguir força pra seguir em frente. Parar e respirar. Não há prazer de fato em fazer sexo com todo mundo, comer dez pizzas seguidas, se endividar pra caramba por causa de coisas que você não precisa. Isso é desespero e é justamente essa a intenção desse sistema que te mantém na corrida do ratinho: acordando, tomando gagau, trabalhando e dormindo, pra acordar de novo e repetir o ciclo. É a ansiedade, o desespero e a angústia que vão fazer a gente tomar atitudes desesperadas e depois se acabar pra arcar com as consequências delas. 

Comer, rezar e amar não é só o título de um filme, são necessidades humanas. Só quero ver quando é que a gente vai descobrir isso, coletivamente, e se rebelar contra o sistema. É pra ontem! É pra já!

sábado, 1 de junho de 2024

O vínculo fantasma


A psicanalista junguiana Tatiana Paranaguá está lançando um livro sobre o vínculo fantasma, uma prática que ela vem observando na clínica dela. As pessoas, imaturas e muito focadas nelas mesmas, se relacionam com as outras pra satisfazer suas carências momentâneas, e quando a relação pede mais, essa pessoa, já abastecida, vai embora. Tatiana observa que as pessoas estão se relacionando com os outros se esquecendo que o outro não é um objeto e é um ser humano com sentimentos iguais. O outro, nos dias de hoje, é simplesmente uma experiência, como uma série de televisão. 

(e eu não usei tanto "pessoas" no parágrafo anterior à toa...)

Essa é a tônica do nosso tempo em tudo, mas é mais dramático quanto aos laços sentimentais porque, afinal, a pertença e o vínculo, como já disse aqui mil vezes, são as necessidades mais básicas. Discordo de Maslow. Já vi gente jogar a sobrevivência pro alto pra correr atrás de um sonho ou de um laço. Todo mundo quer ser independente pra mostrar força, mas ninguém que está sob esse sol pode prescindir dos outros, do vínculo. A gente definha, morre, não dá.

E eu acho que isso tem a ver com o uso excessivo das tecnologias, porque muita coisa a gente não diria cara a cara, justamente porque o olho no olho faz a gente ter a dimensão da humanidade do outro. Digo isso com o respaldo de quem viveu o início do uso da internet, em que acontecia absolutamente o contrário: sentíamos o contato à distância como se fosse próximo, porque a nossa maior experiência até então era a do cara a cara. Sabe aquela conversa das mães de que o hábito de casa vai pra rua? Pois é, o outro virou um totem de autoatendimento, onde você escolhe, paga, pega e vai embora.  

Mas eu tenho que dizer que se a coisa é geral, independente do gênero, sexualidade ou modalidade de relacionamento entre dois seres humanos - e estou falando de todas: amor, amizade, trabalho, aluguel, etc -, é mais aguda quando se trata dos relacionamentos amorosos com os homens (heteros ou gays). Eu acho que esse tipo de prática virou arma de guerra contra o feminismo e as queixas das mulheres. Sério, eles querem nos enfraquecer através do abandono e da solidão, porque eles sabem que a gente foi criada pro vínculo. Lembra muito a dinâmica da tourada, tão perverso quanto (você "vence" o touro não por ser melhor ou mais forte que ele, mas por ser desleal, atraindo, apunhalando e sangrando ele até que perca a força). Eles são programados pra esse individualismo exacerbado, pra suprimir as emoções, pra pensar a relação em termos sexuais e são super beneficiados, neste sentido, pela internet e novas tecnologias. Quem quiser jogar esse jogo estéril no século 21 tem recursos pra dar e vender. 

Por mais que a gente tenha se liberado, a mulher foi criada pro extremo oposto disso. Acredito que até de uma forma muito doentia, que leva à dependência emocional e à repressão. Mas se os dois lados são criados muito mal, acho que as mulheres pelo menos estão na pista certa, do vínculo, da parceria, do cuidado, etc. Mas, por agora, a gente está tomando muiiita porrada, no corpo e na alma. Eles se acham vencedores, coitados, de uma competição que existe na cabeça deles. Mulher não quer vencer o homem, mas ter o lugar dela também, ser respeitada, mas isso é interpretado, por quem não quer abandonar privilégios de poder, como tentativa de superioridade... Os homens são doentes que não percebem os próprios sintomas. A maioria acha que está arrasando, mas está só se desumanizando e machucando as pessoas. As mulheres sabem que estão sendo lesadas, que foram antes e mesmo reclamando, ainda são agora. E o mais triste disso é que essas situações geram traumas que te impedem de viver a oportunidade de bons vínculos quando eles aparecem. Essa é a nossa lesão de guerra. Amar homem anda muito insalubre, somos um exército de veteranas com deficiências adquiridas nesta guerra. Muita gente tá parando de lutar. Que bom, mas é triste, porque poderia ser outra coisa e bem melhor. 

Quero só saber até quando o ser humano vai aguentar isso? Eu acho que o ponto de virada está próximo. Uma hora, de tanta dor, vamos ter que amadurecer. Essa, alias, é a única coisa para a qual o sofrimento serve.

domingo, 26 de maio de 2024

Saber amar é saber deixar alguém te amar...

 


Este é Anthony Bourdain, chef americano, que se suicidou em 2018. Era uma figura célebre da tv americana, que curiosamente não chegou por aqui. Acabei de assistir "Road Runner: um filme sobre Anthony Bourdain". 

Vinte minutos de documentário foram suficientes pra achar Bourdain um gato e ficar com uma puta inveja da vida dele, da vibe dele. Mas, como disse Martha Medeiros na crônica sobre o ilustre chef, "A Fome", mesmo os bem-sucedidos têm direito a uma alma tortuosa. 

Lembrei na hora de uma conversa que tive ontem com um amigo. Se Deus tem seus preferidos - eu acredito nisso, meu amigo acha que é tudo de fato aleatório -, mesmo esses tendo tudo que querem, não estão completamente bem. Ninguém está. É da condição humana uma ponta de insatisfação, como é a do tapete persa, o mais desejado do mundo, ter um fio de imperfeição. 

A fala de uma amiga de Anthony Bourdain me partiu o coração, não só por ele, mas por ser o resumo das histórias de muitos de nós (se não da esmagadora maioria). Ela disse algo mais ou menos assim: "Ele era amado por muita gente, mas acho que ele não acreditava nisso". Como fazer alguém se sentir amado, se reconhecer amado? Eis a pergunta de um milhão de dólares, que ajuda até com a mais famosa questão, sobre qual é o sentido da vida.  

Pelo que pude captar, Bourdain era rebelde de nascença. Buscou, buscou, buscou sem de fato se sentir pertencente por mais que um bom período. Nem a paternidade foi capaz de cessar isso. Foi estrangeiro na própria pele, o pior exílio que tem. Não conseguiu preencher a mais básica necessidade humana que é a de se sentir pertencente, adequado, amado. Bourdain fala muito disso nas cenas do documentário, de se sentir normal. No fundo, mesmo quem luta pra ser especial, apenas quer se sentir adequado, visto, aceito.  

Martha terminou a bela crônica dela sobre a morte de Bourdain dizendo que se a comida, assim como a vida, é energia e sobrevivência, é fato que a fome, pra nosso espanto, às vezes acaba. Aliás, esse é um dos maiores medos que eu tenho e que qualquer ser humano pensante deveria ter: o de perder a graça na vida completamente. Sem a fome, do que adianta ter o garfo e a faca? 

Mas não acho que isso responda à questão do suicídio. Até acredito que cobre o caso de Bourdain, que deu sinais e ninguém levou a sério. Mas, se fosse assim sempre, até que seria mais fácil, porque a perda da fome é algo que é possível reconhecer enquanto acontece; dá sinais. A questão do suicídio é que ele também pode ser um impulso (frequentemente resultado de uma longa história) que em minutos produz uma condição da qual não é possível voltar. Assim como muita coisa que a gente faz na vida, só que não gostamos de nos dar conta disso. 

domingo, 5 de maio de 2024

Alinhando os chakras com Madonna

 


O show de Madonna no Rio foi emocionante demais, tanto que demorei a dormir depois disso. Não só porque foi ela revisitando 40 anos de carreira e estava feliz como há muito não via, como também foi uma volta no tempo pro público... e pra mim. 

Eu realmente me senti muito feliz, ontem, de ter nascido nos anos 80 e ter vivido a cultura pop que vivi. As músicas de Madonna foram trilha sonora da minha vida. Lembro desde as canções de True Blue, que tocava lá em casa no vinil, ao clipe de Rain, que eu achava a coisa mais linda. Muitas lembranças boas!...

Também foi poderoso politicamente. Ver a comunidade gay, depois de tanto ter sido humilhada, tendo um dia de catarse foi lindo. A semana inteira foi espetacular com todo mundo feliz, rindo, brincando, num carnaval fora de época. Esse é o Brasil que gosto. E Madonna sendo carinhosa com a Pablo? Ela não dá ousadia pra ninguém, mas dela gostou e era visível.

Madonna fez algo quase espiritual usando a nossa bandeira e aquela maldita camisa da seleção, botando as fotos de um monte de gente foda no telão, que foi difamada pelo bolsonarismo... botou gay, botou preto, estava todo mundo que foi massacrado pela extrema direita lá em cima, sendo exaltado. Que me desculpem as baianas, mas nem um banho de pipoca limparia as energias assim. 

Foi massa também vê-la se emocionando com o carinho do público. É super importante dar flores em vida. Ela estava se divertindo, feliz no palco... Uma senhora de quase 66 anos pulando que nem menina. Dói pensar, não vou mentir, que essa turma não vai estar aqui daqui a pouco. E foi um pouco melancólico lembrar que ela é a única que viveu para contar 40 anos de carreira entre os grandes pioneiros do pop (a parte de Michael Jackson deu um pouco de tristeza por causa disso). 



sexta-feira, 3 de maio de 2024

Quando Madonna sorria

 


Alguma página de fãs publicou essa foto do início dos anos 90, de Madonna com Almodóvar. Alguém comentou que nessa época a cantora sorria. 

A juventude não é fácil, mas eu acho que o corpo ajuda e a gente ainda espera, acredita. Acho que isso ajuda a sorrir. Há uns cinco anos, como disse aqui outras vezes, eu tenho a sensação de que tudo se repete. Pelo que "pesco" em Madonna, somente os filhos a motivam. E olha que estamos falando de um ser humano bem sucedido em vários nichos da vida. 

E no fundo, a proximidade com o fim deve influir. 

Fora que a vida é mais difícil pra quem é inteligente. O povo pensa que é o contrário, mas não. Você percebe mais que a média, não é tão otimista. 

É, Madonna, eu te entendo. Ainda mais com o calor que está fazendo no Brasil. 

sábado, 27 de abril de 2024

Ana Suy e Winnicott

 



Uma vez, quando eu era repórter de Economia, fiz uma matéria que saiu na edição do domingo e fez sucesso; as pessoas do jornal me pararam pra elogiar na segunda-feira. A pauta era trivial, mas o enfoque não, e eu acho que isso conectou os leitores. Era uma matéria sobre como recuperar as finanças, só que, graças a Deus, conversei com um economista que não repetiu o mesmo lenga lenga de sempre e enfatizou que o essencial é aquilo que você elege como indispensável, que pode ser desde pagar a escola particular para os filhos até fazer uma boa academia. Muito simples, né? Ele respeitou que cada um tem um desejo, uma necessidade e não ficou cuspindo receita de bolo, impondo o que deve ser prioritário ou não, não foi moralista nem austero e deu dicas possíveis. Veja como um economista que lembra que o leitor é gente já faz a diferença.

Ana Suy, psicanalista, em uma live disse que não é a favor de terapia para todos, até porque é preciso escolher bem com quem vai fazer terapia. Entendi o que ela quis dizer. Realmente, há quem consiga se encontrar na vida com coisas terapeuticas e que não são terapia. Sobretudo, cair nas mãos de um terapeuta chinfrin às vezes pode fazer mais mal do que ficar sofrendo no próprio canto. Mesmo bons terapeutas podem fazer merda. Eu já fiz uma vez e não porque era novata, mas porque tem duas coisas que são muito difíceis na atividade de terapeuta: não julgar o paciente e seguir a linha de raciocínio dele e não a nossa própria. Por isso é preciso estudar muito e fazer supervisão. Muito, muito. Só sensibilidade e inteligência não resolvem, você tem que saber separar o seu do dos outros. É fundamental.

Eu tive boas terapeutas (no plural, porque foi mais de uma), mas elas sempre escorregaram nisso: sinto que analisam segundo os valores delas, a cabeça delas e não seguindo a minha linha de raciocínio e que, como as questões que eu coloco não são fáceis de resolver, acabam me dando sugestões óbvias, que é claro que eu já tentei e não deu certo ou, em outros casos, eu não consigo fazer, e o que é bloqueio brabo você não vai resolver na tora; tem que ir por outros caminhos, bolar outras estratégias personalizadas. Mas elas não conseguem pensar comigo outros jeitos. E o pior, não dizem "Eu não sei", ficam nervosas e jogam pra mim a culpa da não solução. Ora, se eu soubesse o caminho pra resolver, não estaria pedindo ajuda na terapia. Me sinto completamente só e desamparada de novo nessas horas. É foda. 

Não digo que vou desistir da terapia, mas a minha última sessão me jogou em desalento.  Já vinha perdendo a crença de que isso funciona pra mim e a última sessão foi uma pá de cal. Antes de continuar, vale abrir uns parênteses. Não vou dizer nada de novo, mas é oportuno relembrar antes de continuar.  

Minha vida não foi fácil. Eu sei que a de ninguém é, que a esmagadora maioria das pessoas se sentassem aqui e começassem a falar da própria vida sinceramente, iam lamentar e chorar (e quem não, desconfio que está alienado). Mas no meu caso, eu tô por conta própria (emocionalmente nem se fala...) desde que me entendo por gente, cresci e tenho vivido em um ambiente que me fragilizou muito e sou cobrada, apesar das pessoas ao meu redor me darem muito pouco ou nada. Ninguém nunca me perguntou de verdade como eu me sinto, ou tentou entender o meu lado ou pegou na minha mão pra me ajudar nos momentos de crise (se eu não pedir, ninguém me oferece ajuda); nunca recebi flores; e há 25 anos ganhei meu último bolo de aniversário. Eu prefiro cactos a flores e escolho e compro minha própria fatia de bolo, mas isso aí é pra descrever o nível de delicadeza, atenção e carinho que as pessoas ao meu redor têm tido comigo durante a vida. Sempre tive a sensação de que recebo menos do que dou. E não acho mesquinho falar em dar e receber, porque ninguém é saco furado e o nome da coisa é "relação", o que pressupõe bilateralidade e não um só doando. Teria dado um braço pra ter tido, ao longo da vida, alguém que fosse um suporte afetivo seguro, perene, teria sido muito agradecida por essa pessoa na minha vida (só pra olhar pra cara e saber que tem alguém por mim), mas isso não veio. Pelo menos, em fases mais agudas, sempre apareceu gente (pessoas que não eram próximas, geralmente) pra dar um socorro, e eu agradeço a elas, mas não foram pessoas com quem desenvolvi um laço forte; elas chegaram e foram embora. As que eram mais próximas, eu nunca fui prioridade delas. Sabe aquela coisa meio BBB, de não estar no podium de ninguém?... Em momentos críticos, a sensação que eu tinha é que a vida me mandava a ajuda necessária pra me manter viva fisicamente, mas nunca mandou o que eu precisava pra viver de fato. Tem sido foda.  

E claro que isso jogou um peso enorme nas minhas costas e me deixou desconfiada dos laços humanos. Muito da confiança que desenvolvemos na gente vem da valorização e do apoio do entorno. Não existe autoestima sem a participação dos outros, sem reconhecimento externo, pois somos seres relacionais. De tempos em tempos, falta combustível, o carro não quer andar de jeito nenhum e eu faço uma força hercúlea pra empurrar o dito cujo e seguir em frente. Sabe aquela brincadeira de "Estou fazendo o mínimo, mas este é meu máximo"? Esse "seguir em frente" vai todo capenga, esse carro tá todo barreado já, mas ele segue indo como dá. E não tem um cristão pra me dar o devido crédito, pelo contrário, é como se a minha luta fosse invisível. Se dão, fazem em silêncio e isso pra mim não serve de nada. Só eu sei. As pessoas não têm ideia do quanto me custou chegar relativamente sã e salva até aqui. Acho que elas pensam que é fácil demais pra mim, que tudo me cai do céu, que eu não me preocupo ou sou acomodada com as coisas. E apesar disso eu sou uma boa pessoa, ética, solidária, afetuosa, esforçada. Pelo que eu recebi da vida, não era nem pra ser. É porque é da minha natureza mesmo, mas por outro lado, não tenho muito mais pra dar porque não tenho de onde me alimentar. Inclusive, de tanto dar aos outros na esperança de receber, acabei gastando uma energia vital que já era pouca e hoje faz falta pra mim. Infelizmente, não conheço uma versão descansada minha desde os meus 13 anos. Sou sempre essa versão estressada aqui, em hipervigilância, preocupadíssima em sobreviver e com medo que isso não aconteça em algum momento. Neste filme, não tem príncipe, nem espada mágica, nem rei, nem fada madrinha. Só minha roupa de sapo mesmo.

Desde a eleição de Bolsonaro e da pandemia, que coincidiram com o meu processo de envelhecimento, isso ficou pior. Vem me custando mais achar graça nas coisas, fazer esse exercício de criatividade que é viver a vida, como eu sempre fiz. É como se eu já tivesse visto de tudo e as coisas ficassem repetidas, sem atrativo, sem vínculo. É como se eu estivesse mesmo perdendo o combustível e isso, óbvio, me deixa abalada. Lembrando: neste filme, não tem príncipe, nem espada mágica, nem rei, nem fada madrinha. Só minha roupa de sapo mesmo. E se eu não puder dar mais meus pulos, como é que vai ficar? 

E num desses períodos de fragilidade extrema, que vem e vai, eu gastei um dinheiro que não tinha pra chamar a terapeuta. Mas foi uma sessão desastrosa. Eu precisava de uma coisa e veio tudo ao contrário. Eu queria acolhimento, veio culpabilização e bronca; eu queria uma luz, veio clichê, senso comum... Ana Suy falou e disse. Mas onde estão essa meia dúzia de pessoas que entendem os outros? Winnicott tinha razão: É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado. Quem me ajuda a me procurar?

sexta-feira, 19 de abril de 2024

É possível mesmo crescer e superar os traumas de infância?

Acho que já contei isso aqui, mas uma vez, durante uma viagem, papo vai, papo vem e uma médica venezuelana, que tinha feito um trabalho na comunidade, disse que acreditava que autoestima é uma coisa que ou é trabalhada na infância ou já era.

Será? É uma dúvida sincera minha. 

Eu sempre acho que a gente pode fazer alguma coisa, mas estou considerando que podemos menos do que pensamos, ou melhor, do que a sociedade da produtividade prega. Eu vejo tantos adultos machucados, sem conseguir se desvencilhar dos traumas passados, dos traumas de origem, do início da vida... Existe vida após uma infância de traumas?

domingo, 7 de abril de 2024

Pais e filhos

Ontem, pela milésima vez, estava com amigos (sem filhos), numa mesa do shopping e nos demos conta de como não é fácil ser pai e mãe. Tem que desejar muito mesmo. Estamos em um mundo que impõe tantas tarefas que uma vida só já gera B.O. demais, que dirá ser responsável por outra vida.

Da minha parte, além de estar nessa corrida do ratinho aí, eu já gastei energia psíquica demais com os outros, e de um modo improdutivo, com todas as pessoas erradas que eu podia eleger pra isso (péssima filha de Oxossi), sem falar nas que desde que nasci brotaram no meu caminho, e agora sinto que essa energia tem que se voltar pra mim, porque eu estou me devendo. Me devendo tanto que estou esgotada, quebrando a cabeça pra descobrir como essa energia pode voltar pra mim... Mas isso é outro papo. 

Lamento bastante que muita gente (leia-se mulheres, que são a maioria com esse perfil) não faça qualquer autoanálise antes de ter filho. Vejo muita gente, bem intencionada inclusive, jogando suas carências nas crianças. Essa ideia de educação respeitosa - que eu acho boa - camufla muita gente traumatizada e não tratada que acha que educar é nunca causar frustração ou desconfoto ao filho. Ô, Deus... Eu conto ou você conta? Como diz uma amiga, a coisa que a vida mais nos impõe é limite e frustração. Melhor aprender a lidar com isso desde casa, de forma amorosa, do que com estranhos e rispidamente. Numa coisa eu concordo 1000%: a infância é a base. Cada vez ando mais cética quanto a reverter totalmente os efeitos de uma infância ruim ou capenga. 

Mas essa falta de segurança e maturidade dos pais não tá boa, não. Chega a ser triste de ver. De outro modo, produziremos mais uma geração com problemas de base pro resto da vida. 

Troca-se a geração, mudam-se os métodos e o problema continua o mesmo: adultos que não olham pra dentro e jogam seu lixo emocional nas pobres das crianças. Estou curiosa pra saber no que vai dar isso no futuro.