quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Adoção

Ouço muita gente falando em adotar. Cléo Pires, mesmo, disse a Istoé Gente dessa semana que deseja criar uma criança. Lindo. Nobre. Mas fico me perguntando se essas pessoas realmente sabem o que significa esse ato.
Convivi bem de perto, na infância, com duas famílias que adotaram - adoções irregulares, vale dizer, coisa muito comum até pouco tempo. Foram experiências difíceis. Delas, tirei uma conclusão: (parafraseando um pouco Djalma Argollo) "Se você quer ser feliz através da adoção, não adote; mas se você quer fazer alguém feliz através da adoção, então adote".
Porque ter um filho adotivo é diferente de ter um natural. Em uma ou duas coisinhas, é verdade, mas esse par de coisas são muito mais significativas do que as pessoas imaginam.

Um desses meninos adotados que conheci quando criança foi encontrado em um banco de ônibus por uma senhora, que o entregou a filha, à época casada e mãe de dois filhos. Perto dos 18 anos, teve uma crise psicótica. Nessa hora, a mãe adotiva sentiu a dificuldade que é tratar da saúde de alguém cujo passado é desconhecido (ouvi dizer que ela tentou encontrar a mãe biológica, mas não conseguiu).
Essa é a primeira coisinha que é preciso ter em mente quando se decide pela adoção: você está  lidando com alguém sem passado, de origem desconhecida e isso pode fazer falta em algum momento (eu sei que, por exemplo, sofro risco de morrer de infarto, pois na família paterna algumas pessoas já morreram assim. Sei o que tenho que cuidar e o que não preciso me preocupar em relação a minha saúde). Qualquer coisa pode vir daquele novo membro da família.
O mesmo aconteceu com a garota adotada pela outra família que conheci em Brasília. Aos 15 anos, disseram-lhe que era adotada. Ela não digeriu direito a descoberta. Desde então, é uma pessoa transtornada. Esse caso é um pouco diferente, pois a família adotiva conheceu, de relance por assim dizer, a mãe da garota. Sabia-se que ela tinha transtornos mentais. O garoto da outra família também apresentou problemas, não só psiquiátricos como psicológicos. Mesmo tendo sido criado com todo o amor e atenção, sempre foi uma criança chorona, com problemas de fala, muito dependente pra tudo dos pais, enfim, parecia ter uma espécie de retardo. Não saberia dizer se um recém-nascido é capaz de reter esse tipo de memória, mas sempre foi visível, para mim, que o abandono marcou muito esse menino, que ficou registrado no inconsciente dele aquele episódio do ônibus.
Essa é a segunda coisinha que as pessoas que pensam em adoção devem ter em mente: não raro, uma mãe que abandona um filho tem problemas mentais ou com drogas. Os traumas passados devem ser levados em consideração. Ser abandonado pelas duas pessoas que mais deveriam querer-lhe na vida não é algo fácil para muitas das crianças adotadas. Lógico, todas as crianças dão trabalho aos seus pais e representam um desafio de convivência. Mas filhos biológicos trazem problemas mais ou menos previsíveis e é inegável que há certas transferências automáticas de afeto, realizadas, por exemplo, quando se percebe que a filha tem o jeito da esposa, que o filho tem os traços da pai, o humor do avô, etc. Até muitos dos defeitos você é obrigado a "engolir calado" porque a criança puxou justamente a você. A paternidade biológica sai à frente "com um nariz de vantagem".
Uma terceira coisinha que se deve levar em conta é a possibilidade da criança adotada não se adaptar ao novo lar. Sabe esse menino adotado? Pois antes dele, havia chegado uma outra criança naquele lar. Houve rejeição mútua entre o garoto e o filho caçula da mulher. Não falo de birra entre crianças, mas de alergia. A criança foi encaminhada a um abrigo. Entregar uma criança a um abrigo, ainda que ela não seja sua, deve ser ruim, deve render aquela culpa, aquela dúvida sobre o que vai ser daquela pessoa dali por diante. Deve-se estar preparado para essa possibilidade antes de embarcar nesse tipo de experiência.
Há algum tempo, li uma matéria excelente de um jornal internacional falando sobre a adoção de crianças estrangeiras. No texto, histórias de famílias americanas que adotaram crianças originárias de regiões em guerra ou em dificuldade econômica. As famílias têm perfis variados. Em comum, o trauma de devolver uma criança. Alguns pais adotivos passaram o inferno com o filho adotivo e sofreram muito até reconhecerem que não poderiam continuar com a criança.
Não quero dizer com isso que a adoção seja uma experiência fadada ao fracasso. Conheço casos de sucesso, que transcorreram com muita harmonia. Esse menino, mesmo, que teve o surto psicótico foi justamente quem cuidou do pai adotivo quando esse esteve doente, foi a mão na cabeceira do pai até a morte dele. O ponto é que adotar um filho não é como levar um cão abandonado para casa. Gente é muito complexa. Adotar é um ato de amor incondicional a um completo estranho. A pergunta é: sinceramente, você é capaz de doar-se a outra pessoa dessa maneira?

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