quinta-feira, 21 de junho de 2018

Amor e sexo


Acho que todo mundo cresceu ouvindo que homens sabem separar amor de sexo. Basta dar uma olhada ao redor para ver que, apesar de toda a liberação, para as mulheres ainda não é assim, e, portanto, é meio difícil de acreditar que eles realmente operem tão racionalmente, compartimentando as coisas. 
O caso é que uma série de conversas tem me dado a real de que isso não é lenda, acontece de verdade. Amigos apaixonados por seus pares dizem que vão buscar sexo na rua como quem vai na academia, como uma necessidade fisiológica e que, inclusive, na comparação com o/a "pegante" do dia, ficam até mais apaixonados por quem dividem a vida. E eu senti que essa afirmação foi sincera. Me sensibilizou, me deixou reflexiva, mas não me convenceu 100%. O caso é que algo ainda me cheira a esperteza e egoísmo nesse discurso, na maioria das vezes que o ouço. Primeiro, se é tão natural, tão explicável assim, por que isso causaria transtornos emocionais caso o/a parceiro/a também praticasse a mesma infidelidade? Porque eu aposto que não seria encarado racionalmente como eles mesmo encaram o próprio comportamento. Outra coisa, mesmo admitindo sexo casual como uma necessidade fisiológica, há gradações e limites. Por exemplo, é muito diferente ter sexo com alguém por algumas horas e nunca mais ver a criatura de ter um caso. Quando se sente necessidade de vínculo com outra pessoa, algo não está rolando direito no casal. Outra coisa que ninguém discute é o descompasso de libido dentro de um casal. Como resolver? E se você der azar de gostar muito de sexo e amar uma pessoa pouco a fim disso?
Isso não quer dizer que eu seja contra, apenas não acho positivo nesse contexto. Do jeito que as coisas ainda funcionam, essa separação serve quase sempre muito bem a quem não se vincula (já falamos sobre isso aqui) e a quem não tem muito bom caráter (que, em alguns casos pontuais, pode até gostar de quem está traindo, mas é um gostar duvidoso a meu ver; se gostasse pra valer, admitiria a liberdade, também, do outro lado). Essa cisão psíquica seria interessantíssima num ambiente mais maduro. Imagine o quanto seria mais fácil a vida se as pessoas pudessem se aproximar das outras sem ter esse peso do relacionamento, de corresponder a sentimentos, só por atração, por escolha de passar alguns momentos juntos. O meu problema é que a maioria é imatura e homens, especialmente, tendem a tratar mulheres, nessas circunstâncias, como um buraco pra enfiar o pinto, como a mulher número 50 que comeu, por mais que nem ele admita. Eu posso abrir mão de ser amada, mas nunca de ser respeitada. Afinal, uma coisa não muda: sou um ser humano e tenho sentimentos. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

Fuga e dependência

Rossandro Klinjey fala umas coisas fortes nesse vídeo, nem todas tão verdadeiras, mas provocam uma reflexão.

sábado, 9 de junho de 2018

Eu quero é que faleça!

Sim, eu tô na vibe Clodovil: se não me trata bem, eu quero mais é que faleça! (risos)
Cansei de conciliar, de engolir sapo em nome do conjunto. Quem quer, faz por onde.

Cada vez mais acredito que generosidade a gente só deve ter com quem é maduro ou com desconhecidos, que a generosidade só faz sentido para causas sociais. Ser humano é, geralmente, muito FDP.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Mais uma portaria deste blog

De agora em diante, será feito o que tiver que ser feito, sem se importar em ser compreensiva com os outros.
Grata. De nada.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Às vezes a gente percebe que é feito de carne e osso

Duas amizades minhas estão quase surtando por causa de amores não correspondidos. Uma delas está perto mesmo de um surto psicótico, o que me deixou bem triste quando soube; foi quase inacreditável. O que mais me assusta é que é gente até então equilibrada, sensata, mas que não tá conseguindo mais controlar a situação, lidar com os próprios sentimentos. Amor, assim como o ódio, é tóxico. Por isso mesmo, pela potência da coisa, não é pra resistir, é pra aceitar. E aceitar não quer dizer valorizar, dar atenção, dar vazão em alguns casos. É como perder o braço ou o pai: não se controla, só nos resta conviver com o fato mesmo. Aceitar e não "lutar por" ou "lutar contra".
Mas somos tão pressionados a vivermos como se fossemos de ferro, que esquecemos que somos feitos de carne, como dizia Freud. Pire aí, as pessoas estão adoecendo porque estão amando, estão surtando porque não sabem o que fazer com os próprios sentimentos, estão abaladas porque não se amam e não aguentam que o outro também não. Que louco, rei!...
Se sofrer é a merda das merdas, há pelo menos algo bonito que às vezes resulta disso: a gente se humaniza ao atravessar essas portas. A gente entende mais os outros quando sente na própria carne.

sábado, 2 de junho de 2018

O que não tem remédio

... Remediado está, já dizia alguém, provavelmente a vizinha.
Quanto mais eu vejo, mais certeza eu tenho que não tem jeito, não: o ser humano é egoísta; como disse a entidade pra José Medrado, não é à toa que só se coça pra dentro (risos). Há um pouco de amargura nessa minha frase, mas já foi mais. Tá mais pra constatação mesmo. É uma das coisas que a gente precisa aceitar, embora seja amargo pra burro, a fim de não morrer de desgosto com falsas expectativas. É como aceitar que a vida não te deve nada e que tudo que nos acontece é um tanto aleatório.
Eu hoje não acredito mais (majoritariamente) em certas coisas. Algumas desonestidades eu já aceitei que estão banais. Mas algumas delas eu lamento mesmo que tenham sido naturalizadas, não por uma questão moral, mas por uma questão estética da vida. Nobreza de alma é um treco que enfeita a vida. Olhar pra trás e ver que se agiu com o coração (ser egoísta tá longe disso), que houve mesmo mistura com os outros, com a sua comunidade, com os seus, com o seu tempo. Mas também aprendi que, num mundo em que cada vez mais se estimula o exibicionismo, quantidade e não qualidade ditam o ritmo. E não dá pra fugir da realidade. E só vai ser generoso quem realmente tem isso na essência, apesar de tudo conspirar contra.

sábado, 19 de maio de 2018

O que é bom é facinho

Esse texto, de Ivan Martins, foi um divisor de águas na minha compreensão sobre a vida. O que for pra ser da gente pode até nos exigir energia e coragem, mas nunca insistência, humilhação. Vai chegar quando tiver que chegar.

E por falar nesta coluna, revendo alguns textos dela - ele acaba de lançar um blog -, me deparei com um que me rendeu outra epifania: se por um lado as pessoas não me enxergam por uma ilusão de que estão fazendo isso, criada pelo egoísmo, eu também não as enxergo, sempre as vejo melhores do que são (para a minha conveniência), pela lente deformada da generosidade. Dr. Gikovate tinha razão: as duas características são farinha do mesmo saco. Segue o link: https://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2016/07/que-tal-olhar-para-o-outro.html


Casamento e separações

2018: o ano em que todo mundo resolveu se separar, menos o Harry e a Meghan, que não estão no Canadá, mas casaram na capital do ex-império hoje.
Tomara que dure, mas, mesmo que não, o importante é que seja bom. E que aprendam com o que não foi.
A vida é assim: início, meio e fim. Pena que as pessoas achem que um casal é fusão de dois em um. Acho que é isso que estraga tudo. Não deveríamos desumanizar quem dizemos amar. Por mais tentador que seja, especialmente se você adora comédias românticas, não seja essa pessoa, senão você vai ter dois problemas ao se separar.

domingo, 13 de maio de 2018

... Ainda exista amor pra recomeçar!

Para Felipe, Luísa e Beatriz, a quem eu desejo alegria e resiliência para atravessar essa vida.

A vida bate forte.
Às vezes, bate muito forte, tanto que a gente nem acha que vai aguentar. Vez ou outra, a gente beija a lona e nem dá vontade de levantar pra poupar uma nova viagem de volta ao chão. Eu não poderia falar sobre como parar de doer, mas acho que posso falar de como aguentar. Ô!... Só eu e Deus sabemos.
Para aguentar e atravessar o desespero, é preciso se gostar, achar que você vale a pena. A gente só luta por algo que tem relevância, valor. O caso é que a maioria de nós depende muito, excessivamente do retorno externo. Não somos estimulados ao fortalecimento interno, não vemos graça nas vitórias ocultas, sem plateia. É a senha para a baixa autoestima, para o cinismo, para a descrença em si, para a vontade de desistir e até para maldade em alguns casos.
Somos seres sociais, eu também sou, mas, desde criancinha, a última palavra, a que realmente conta é a minha. Mesmo quando eu era elogiada, se aquele elogio não passasse pelo meu próprio crivo, entrava por um ouvido e saia pelo outro. Passei por muitas provações, sofri muitas decepções, passei fases duríssimas sem uma viva alma para me dar suporte - pelo contrário, nessas horas ainda descobri a indiferença de quem eu mais esperava acolhimento. Poderia ter feito muita coisa ruim, com os outros ou comigo, a partir disso, mas resisti. Resisti e persisti porque produzi uma relação de admiração comigo mesma, eu acho que valho a pena e sinto que, um dia, o que eu plantei, vou colher - e plantei coisas bonitas, eu sei. Eu ainda não tenho "resultados", mas eu tenho valores e uma coleção de boas atitudes para me orgulhar - e um diferencial: eu cuido das pessoas. Quem me tiver na vida, tem sorte. Pena que pouquíssima gente se toca disso - justamente porque as pessoas vão atrás de quem vai "agregar ao camarote", do externo, do status -, mas hoje sei que isso é problema delas, não meu (confesso que também demorei). Bato a cabeça no travesseiro e sei que ser humano eu sou, e basta por hora.
Admirar a pessoa que eu me tornei não tem a ver com perfeição. Não preciso ser só qualidades para ser digna da minha própria estima ou do amor de qualquer pessoa. Tentar de verdade, ter boa intenção e buscar o aprendizado, enfim, estar na direção da positividade já dá lastro para isso. O ótimo não pode ser inimigo do bom, sacou?
Se admirar também não tem a ver com o que os outros acham de você, porque muitas vezes isso é reflexo deles e não o resultado de uma atenção de fato a quem você é. Quantas pessoas do seu entorno realmente tem olhos pra você? Digo, gente que sabe ver sua luz e sua sombra? Pouca gente mesmo vai ter condição de te dar um feedback. Saiba filtrar, não se impressione com qualquer opinião, boa ou ruim. 
Mas ter a consciência de si não é algo rápido nem fácil. É o investimento de uma vida inteira, é a construção de uma relação de respeito, amor e paciência para consigo mesmo, a única pessoa que não rende elogios nas redes sociais nem testemunho da nossa grandeza. Integridade, nesta sociedade de hoje, não rende plateia. E é difícil ver luz interna especialmente nos momentos de dificuldade, quando tudo parece ruim, inclusive a gente. Bem, não vai ter tapinhas nas costas, mas na hora do aperto, quando você lembrar quem é você, vai sentir que um histórico assim não é de se jogar fora, muito menos no lixo. Vai ter fé em um final feliz pra essa heroína do dia a dia. Vai ter orgulho de ser você até nos piores dias.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A falácia do bom rapaz (a máscara que esconde um machistão)

Minha geração de mulheres é uma geração de transição. Foi a gente que inaugurou o ficar de modo massivo, no início dos anos 1990, e naturalizou o ser mais livre nas relações amorosas. Mas a gente também foi criada com uma visão bem tradicional sobre os relacionamentos. O resultado é que crescemos e vivemos com "mixed emotions".
A gente ainda tem na mente os modelos de "mulher para casar" e do "bom rapaz". Eu, por exemplo, demorei à beça para perceber a esparrela contida nesses tipos e algumas de nós nem vislumbra que se trata de uma armadilha. Conheço várias mulheres esclarecidas que botam fé na boa mocice delas e na cara falsa de bom rapaz deles. Oh, coitadas!...
A tal mulher pra casar e os homens. Na juventude, aquele olhar comedor, que olha e examina de cima a baixo, que também admira a conduta, mas, sabe como é, "na volta a gente compra", não é hora pra isso. A boa moça é aquela com quem não se esculhamba, pois com essas o sujeito não se casa, só curte a vida. A boa moça é aquela que, depois do cara se lambuzar com tudo que a liberdade sexual tem para oferecer a um macho alfa, se ela ainda estiver por aí, ele casa. Ou isso, ou o cara já quer casar com ela com 20, para garantir... E ela vai cuidar dele e dos filhos, afinal, as boas mulheres são para isso; é a recompensa pelo favor do casamento, esse sacrifício feito pelo homem.
Eu passei muito tempo achando que isso era bom, que ser a "mulher pra curtir" era ser desumanizada pelos homens, mas percebi que, quando se trata do cara errado, não existe respeito seja lá o que faça uma mulher.
O bom rapaz que procura a mulher para casar não vê nela um outro ser humano igual a ele - quiça porque nem ele se vê como ser humano -, mas uma aquisição. Ele é incapaz de amá-la, pois, justamente, não consegue reconhecer a humanidade dela. Sabe cão de estimação? Pois é, a mulher é isso: um ser fofinho, amável, mas a serviço do dono sempre. É como um carro: atende uma expectativa do dono, significa um status social e é, sobretudo, uma posse. Não é lisonjeiro ser a mulher pra casar ou qualquer mulher de homem machista. É bem triste.
Agradeço às deusas nunca ter ido adiante com nenhum bom rapaz. :)

PS.: A boa moça também não existe, é deformação cultural, tipo pé de bailarina esmagado pela sapatilha apertada.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Eu ainda gosto de Daniel Cleaver


Eu sempre torci por Darcy, mas continuo me encantando com Daniel Cleaver - quem conhece Bridget Jones me entenderá.
Não amadureci tanto assim, pelo visto. Mas cafas, como Daniel, não são tão ruins como parece. Eles dão algo à mulher pelo menos: um pouco de romance, charme, fantasia, enfim, mentiras sinceras. Reclamava-se deles, mas hoje os homens igualmente não prestam, porém nem dão nada.
Sempre pode piorar.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Antipatia aos dois extremos

Percebi que tenho antipatia a dois tipos de pessoas:

1) As que acham que todo mundo tem que dar conta, sem direito a fraquejar de vez em quando ou desistir. No c* é refresco, né, santa?!
2) Gente autoindulgente que não sabe se dizer "Não". Desculpa, você é um mimado e vai se lascar se continuar assim, porque a vida exige, em alguns momentos, disciplina e resiliência.

sábado, 31 de março de 2018

I´m not dog, no...

... Pra viver nesse meio jornalístico onde só tem tapado!
Deus me defenda e me livre desse povo e ligeiro!

Eu NÃO aguento mais:

- Ir pras reuniões e o povo ficar se gabando, num estilo quase American Pie, de umas trepadas meia boca e de umas cachaças decadentes não sei onde e com não sei quem, quando não ficam comentando das trepadas e cachaças dos outros. O papo é só isso, sem quase variação.

- Os discursos politizados de quem não consegue nem ser generoso com quem tá do lado, nem com os próprios "amigos" e companheiros. Mas a pessoa jura que é consciente e vai salvar o mundo.

- Gente que trabalha em condições horrorosas, quando muito ganha 3 mil reais, mas finge que está no melhor emprego do mundo. Finge porque, longe das redes sociais, abre o verbo e admite que é uma desgraça, que só não sai porque não tem outra coisa.

- Todo mundo bancando o digital influencer nas redes sociais, pra ver se ganha de graça. Affff!...

- Todo mundo só ler, ouvir e assistir as mesmas coisas validadas pelos pares. É impressionante esta "coincidência"...

- As piadas altamente sem graça dos machos dessa profissão. Gente, quando é que vocês vão aprender que chamar o outro de "viado" não é engraçado, que substituir o "u" pelo "ivis" é sem graça de chorar e que ninguém mais suporta comentários do tipo, quando aparece uma foto dos "ômi" reunidos: "Isso é formação de quadrilha". Um bocado de menino amarelo e é formação de quadrilha?! Se compreendam! Tá mais pra Clube Cremogema!...

- As selfies diárias de uma certa turma nas redes sociais.

- As histórias sem graça de uma mulherada que trata os filhos como a coisa mais interessante da galáxia, sendo que são crianças absolutamente comuns, sem nada de especial.

- Gente superficial, que não tá nem aí pra você, que provavelmente vai descer a madeira em você assim que virar as costas e, pior, que ainda acha que está te enganando ao se fingir de legal, de amigo. Ô, gente!... Além de chatos, pretensiosos. Pior raça.

Não está sendo fácil. Preciso passar em um concurso urgentemente.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Nem tudo é sobre você

Ok, lendo as colunas antigas de Ivan Martins, caiu a minha ficha de que o egoísmo é a regra nas relações sociais e que nós, brasileiros, como ele bem disse no texto "Brutalidade afetiva", agimos movidos por sentimentos, não por valores (frase perfeita! tô quase tatuando...). Mas uma expressão quase nunca percebida desse egoísmo me dá uma agonia secreta, que é achar que é tudo sempre sobre si mesmo, o famoso egocentrismo.
Exemplo: todo mundo acha que está sendo o tempo todo invejado, agredido, sabotado pelos outros. Partindo do pressuposto que é verdade, mesmo assim, nem sempre o sofrimento do próximo tem a ver com você. Às vezes você é apenas o fio condutor de outra coisa, um mero catalizador, na verdade, não passa de um coadjuvante nessa história.
Desde a adolescência, eu sei quando minha mãe quer realmente me atingir ou quando ela faz isso por uma questão de oportunidade, ou seja, não poder descontar no alvo e acaba descontando em mim, a pessoa mais próxima. Mas esse não é bem o exemplo do que eu quero falar...
Vejamos um exemplo melhor: quando fiz vestibular pra Jornalismo, minha melhor amiga na época e uma outra amiga em comum fizeram também. De nós três, a minha melhor amiga era a mais a fim da carreira, pois o pai era jornalista, e foi justo ela que não passou nem na primeira fase da UFBA. Fiquei sabendo que ela ligou pra outra amiga pra desejar os parabéns, mas para mim não disse nada. Pelo contrário, ainda fingiu não ter me visto numa festa três dias depois do resultado só pra não ter que me dar os parabéns. Eu forcei ela a me ver, hehe. Lógico que essa situação revelou algo sobre a nossa "amizade": ela não me considerava nem o suficiente para disfarçar o orgulho ferido e fazer o que tinha que ser feito, que era me cumprimentar. Ou seja, a amizade era unilateral, era minha, a afeição dela era bem fraca. Mas, ali, o sofrimento principal era ela se achar burra, era ela mais uma vez ficando para trás de mim academicamente, só que agora valia algo que ela queria muito. Era o complexo dela, iniciado com os pais, que sempre compararam ela com a irmã, que ela achava mais inteligente (mas só passava colando), bonita, e etc. Era ela se confirmando burra, coisa que ela sempre pensou de si mesma.
Agora vai: sabe aquela pessoa que toda vida foi gorda e que, com perseverança, perde 25 kg e a galera mais próxima começa a detonar, dizendo que a pessoa tá exagerando, que isso e aquilo? É isso, as pessoas não estão exatamente bravas com você, mas com o que o seu exemplo fez elas verem sobre elas mesmas. O azedume não é com você, é interno, com a própria falta de decisão, de força de vontade. Isso, claro, mostra a falta de generosidade delas com você, mas, aceite, não é sobre você. Não se dê tanta importância. É igualmente feio e egoísta.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Cultura brasileira de descaso

Brutalidade afetiva


Não estamos acostumados a tratar o outro com o cuidado com que queremos ser tratados


Ivan Martins

Vistos de perto, somos uma gente descuidada e bruta no trato íntimo. Há pessoas preocupadas com os sentimentos dos outros, mas são minoria. No atacado, oferecemos um show coletivo de descaso e grosserias. A regra principal, que parece única, é assim: se eu estiver interessado, apaixonado ou com tesão, corro atrás e me desvelo. Se não estiver, ou se não estiver mais, azar. O outro será ignorado ou destratado.
Não estou fazendo uma queixa, embora pudesse. É mais uma autocrítica, inspirada pelas conversas com gente que vive fora do Brasil ou se relaciona com estrangeiros. As histórias que me contam fazem notar que temos por aqui pouca atenção e pouco respeito pelo outro – mesmo por pessoas que dividem seu corpo, seu tempo e seus sentimentos conosco. Achamos que a atenção e o carinho que recebemos são uma espécie de direito natural. Logo, não precisam ser retribuídos. Isso torna as delicadezas supérfluas.
Uma amiga que mora na Holanda foi transar com um cara de uns 40 anos – depois de saírem duas vezes – e, quando a noite se aproximava do desfecho, ele perguntou, delicadamente, se estaria bem para ela que fosse apenas sexo casual. Ele vinha de um relacionamento, ainda estava ligado a outra mulher e, embora muito atraído pela minha amiga, não queria magoá-la ou criar expectativas falsas. Um fofo, me disse ela. Transaram.
A parte cômica da história é que ela mesma não tinha vontade alguma de namorar, mas nem lhe passou pela cabeça dar o mesmo aviso. Na mentalidade brasileira, é cada um por si. A gente não diz coisas que possam atrapalhar nossos planos imediatos. Pegamos o que precisamos e o outro que se vire com os sentimentos dele. Se o holandês de minha amiga estivesse apaixonado e cheio de boas intenções, azar dele. Descobriria no dia seguinte que ela tinha outros planos.
Acho que isso revela um traço da cultura do país. Somos movidos por sentimentos, não por valores. Se eu gosto de alguém, se estiver apaixonado, faço por ele ou por ela o que estrangeiros não fariam. Sempre como um ato emocional. Mas, se os sentimentos não se manifestam, achamos não ter obrigação alguma para com o outro. eja amante, vizinho ou transeunte. Nossa famosa cordialidade é interessada, interesseira. Aparece quando queremos algo do outro. Sexo ou amor, frequentemente.
Esse modo de agir torna a brutalidade afetiva uma moeda corrente. Se saímos com alguém e não nos apaixonamos, o padrão de tratamento desaba. Antes, um príncipe. Depois, um desaparecido. Ou uma ogra de unhas vermelhas. A gente diz que vai telefonar e não telefona. A gente ignora mensagens diretas nas redes sociais. A gente cancela encontros na última hora. A gente trata mal, enfim. Tem gente que aparece com uma pessoa nova na frente daquela com quem estava até ontem, numa demonstração espantosa de descaso. Se alguém reclama, é mimimi. A coisa só fica séria quando fazem tudo isso com a gente. Então é intolerável.
Não estou dizendo – vejam bem – que a gente nunca vai desapontar ninguém e que toda transa deve terminar em relacionamento ou namoro. Isso seria impossível. O que estou dizendo é que as pessoas merecem nossa atenção e nosso cuidado mesmo quando não as desejamos mais, ou não estamos apaixonados por elas. O que estou dizendo, além disso, é que os sentimentos que são claros deveriam ser comunicados ao outro, sobretudo quando são contrários aos sentimentos que ele ou ela manifesta. Se a moça está ficando paixonada e você não, avise. Do contrário é sacanagem.
Na selvageria relacional em que vivemos, a sinceridade tem valor baixo. O que passa entre nós por gentileza é muitas vezes uma forma de enganar o outro. Na hora de seduzir, você não diz que está emocionalmente indisponível, apaixonado por outra mulher. Na hora de ficar com o cara gato, que é meio ingênuo mas tem bom coração, você finge que ele é o homem mais interessante do mundo. A verdade não faz parte cotidiana de nossa existência sexual e afetiva. Coisas que não são lisonjeiras (e podem afastar o outro da gente) são mencionadas apenas em momentos de crise. A gente só diz a verdade sob pressão.
Queremos tanto que gostem da gente que não nos importamos em iludir para sermos amados. Depois, quando o afeto dele ou dela não importa mais, nos tornamos francos. Quer dizer, insensíveis e até grosseiros.
Como toda cultura afetiva, a nossa deve ter vantagens e desvantagens. Talvez europeus e americanos sejam menos apaixonados do que nós. Talvez nossa intimidade seja mais rica. Não sei. Mas parece que eles têm códigos de conduta mais claros, que valem para todos os estados emocionais.
Lembro de uma amiga brasileira que vive na Itália contando que levou broncas em seus primeiros anos por lá. Dizia que telefonaria e não telefonava. Dizia que apareceria e não aparecia. Agia como apaixonada, sem estar. As pessoas ficavam bravas com ela. Não estão acostumadas a isso.
Aqui, é o contrário. Sofremos e praticamos todo tipo de desatenção. Na verdade, não estamos acostumados a tratar o outro com o cuidado com que desejamos ser tratados.

Que meda!

Um amigo meu foi demitido do A TARDE. Profissional bom, vai fazer falta, mas quem demitiu tá zero preocupada com isso. Foi aquela choradeira. Quando eu saí, não chorei. Acho que não desenvolvi uma conexão emocional com os meus empregos no jornalismo até então. Sei que quando a gente fala isso, parece que é "o" maduro, "o" foda, mas não é o caso. Se a pessoa analisar direitinho o que eu disse, vai ver que é falta de conexão com a profissão. As pessoas choram porque estão deixando o sonho pra trás. Quando eu saí do jornal, já não era mais meu sonho. Na verdade, eu temia ter que sobreviver do jornalismo, medo que persiste até hoje. Deus me ajude a encontrar solução pra isso.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Angústia

Tenho uma amiga que é terapeuta. Nós estávamos conversando sobre o caso da mãe de um amigo meu, sobre o equívoco de certas mulheres de se ferirem pra atingir o ex parceiro, quando, na verdade, faz-se uma grande homenagem ao traste. Concordamos que a melhor resposta é ser feliz. Quer deixar um ex puto? Viva feliz sem ele. Mata qualquer pessoa de recalque. Só cuidado porque ele pode querer voltar. Nesta hora, é bom apelar à lucidez pra não se iludir que isso é amor (spoiler: é posse, egoísmo puro). Quem ama, faz por onde... antes, não depois.
Minha amiga, que, claro, também atende homens, afirma que é outra cabeça, bem mais objetiva e pragmática. E isso às vezes dá angústia nela, pois a mulher é criada pra ficar super interpretando, perdoando (Quem nunca? Caí numa dessa para nunca mais. O pior é ver que se, na época, tivesse autoestima, isso nunca teria acontecido. Amor próprio salva a gente de tanta coisa ruim...). Contou o caso de uma paciente super apaixonada pelo namorado, já comprando tudo pra ir morar com a criatura, se gabando que ele cuidava dela e minha amiga, em conversa com ele, descobriu que o fulano não tá nem aí pra namorada. O cara disse, com todas as letras, que só é namorado dela, que não tem a ver com os problemas da criatura. O pai da mulher já sacou e briga com ela por causa do namorado furada, mas quem diz que ela quer acreditar? E minha amiga, que é a terapeuta, não pode contar, daí a angústia.
Eu conheço essa angústia. Quantas amigas, tias, primas, irmãs já caíram numa dessa, e não por falta de aviso, mas por falta de amor próprio mesmo? É angustiante você ver a criatura se diminuindo, sumindo pra caber na falta de grandeza do cara, comemorando migalha que o sujeito joga de vez em quando, se iludindo que é amor, que um dia vai mudar... Você quer até alertar, mas vai ser inútil. Temos, urgentemente, que aprender a usar a inteligência e a objetividade neste tipo de situação. Isso só gera dor, perda de tempo e a aniquilamento da autoestima. Temos que ter responsabilidade afetiva com os outros, mas principalmente com a gente. Quando as mulheres vão acordar, meu Deus? Espero estar viva pra ver esse dia.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Não sei opinar

Mais ou menos.
Eu tenho tido menos certezas, mas ainda tenho opinião, claro. Mas cada vez mais, acho que não devo externa-la. Primeiro, que as pessoas não ouvem quando se trata das vidas delas. Segundo, elas não têm empatia, quando não se trata das vidas delas, do que acontece com elas. Estão cada vez mais autocentradas, incapazes de trocar. E já percebi que eu não funciono bem em situações assim. Eu só me animo na troca. Sentir que é de mão única me dá um efeito kriptonita.

domingo, 18 de março de 2018

Pensamento político

Cada vez mais direita e esquerda se alinham em desonestidade e autoritarismo, mas eu ainda pendo à esquerda, pois ainda vejo um projeto coletivo. Na direita a mensagem é: salve-se quem puder. Como não acredito em meritocracia nem em uma sociedade só feita de gente excepcional, fico à esquerda mesmo.
Mas, no reino das fakes news, ando perdendo a esperança de que as pessoas tenham interesse na verdade. Meta: deixar esse tipo de discussão pra lá, não adianta tentar, insistir. Ou, como diz dona Jô, não adianta sentar cachorro em banco. Precisamos mesmo abraçar o fundo do poço. Eu agora tô pra jogo. Ah, chega!...

sábado, 17 de março de 2018

Zen ni mim

Eu tenho um amigo que diz que, em Salvador, das duas, uma: ou você surta ou vira zen.
(Ele também adora repetir uma frase de Edifício Master: "A gente tenta ir de Piaget, mas, se não der, vamos de Pinochet". hehehe... Maravilhoso!)
Eu acho que tô ficando zen. Mentira, não é bem assim. Mas acho que estou ficando mais calma. Eu tive um bom teste essa semana e acho que me sai legal. Acontece tanta merda ao mesmo tempo que você acaba reagindo, como aqueles bonequinhos num videogame, mas eu tô conseguindo reagir com mais serenidade. Tô feliz com isso. Uma coisa que me frustrava muito era ser reativa e nervosa. Eu tô reativa e calma, falando num tom bom, mas continuo levando papo reto, o que não acho que é defeito; eu acho é que as pessoas se infantilizaram demais e não conseguem lidar mais com coisas que não sejam agradáveis. Nunca achei que tenho a obrigação de mentir para agradar (claro, nem todo contexto pede sinceridade), apenas de ser educada. Parto do pressuposto de que estou lidando com gente adulta, capaz de ouvir, processar e fazer autocrítica. Uma coisa que tô largando de mão aos poucos é de interferir quando acho que a pessoa está entrando numa roubada, mas não abro mão de me posicionar se esse algo está interferindo na minha vida. É meu direito. Quem não quer ser criticado, não faça merda (porque às vezes as pessoas estão conscientes de que estão sendo folgadas, mas esperam que você não aponte isso nelas, que seja educada. Ah, vá!...).
Meu próximo passo será jogar pra cima. Uma boa parte de eu ser reativa é porque me cobro uma resposta, uma eficiência, embora as pessoas façam solicitações às vezes difíceis, desgastantes e sem necessidade disso. Eu quero aprender a deixar essas pessoas na mão, pois acho que só assim elas aprendem e eu me poupo. Quero apertar o foda-se. Um dia meu eu superior chega lá, hehe.