quinta-feira, 13 de março de 2025

Falsa humildade (o ser humano, não sei não...)

Outro dia uma amiga me contou que uma ex-amiga disse a ela que tinha vontade de me dizer algumas coisas sobre o nosso rompimento, mas que tinha medo da minha reação. Claro, depois de sete anos, o que ela tem pra me dizer é justamente uma grande passada de pano a favor dela mesma, anulando minha raiva e decepção pra ela sair de boa na história. Isso elimina a culpa dela (que ela sente, não a que eu atribuo) e joga o problema no meu colo. Maravilha, né? O ser humano é inacreditável. E a pessoa ainda acha que está sendo ótima e humilde fazendo uma dessa. 

A criatura passa quase uma década produzindo episódios de desconsideração, que você pontua (saindo de megera) e que nunca cessam, pelo contrário. No acumulado dos anos, você fica puta e no vácuo quando reclama disso mais uma vez (e sempre vista como "a problemática"), e resolve desistir de vez após ficar no vácuo "pra variar" (porque quem procurava era sempre eu). Eu sei as qualidades dessa pessoa, eu não sou injusta ou ingrata. Mas uma coisa é a pessoa ser boa, outra diferente é ela ser boa com você. Justamente por ponderar tudo, quando eu saio, é porque já dei crédito em cima de crédito. Você tem todo o direito de me expulsar da sua vida e eu vou respeitar isso, mas você só vai fazer isso comigo uma vez. De uma coisa eu me auto acuso: sempre fico muito mais do que deveria e essa é metade da minha raiva nessas situações. É comigo mesma, pode ter certeza. 

Quem se importa, se incomoda com o que fez e conserta a merda na hora, não deixa o tempo passar; não é negligente ou covarde. Errar é humano e perceber que a pessoa não quis te magoar ou que sinceramente se arrependeu é crucial pra mim. Das poucas vezes em que vi isso, não tive nem como sustentar a minha raiva. A regra é clara: quem gosta de você vai sentir dor ao te machucar. Depois que você já sofreu, enterrou a pessoa em vida, do que adianta? Estava em crise?! Eu passei a minha vida assim e nunca deixei de ser cobrada pelas pessoas mesmo estando fragilizada ou mesmo deixei de me cobrar e correr atrás de fazer o certo. Se o tempo passa e a pessoa quer falar com você, raramente vai ser pra reconhecer a própria responsabilidade na situação. Vai ser por consciência pesada, pra fingir que quis resolver e você que é difícil e não quis "perdoar". O velho truque de querer a paz às custas de quem se ferrou na situação. 

Olha, me poupe. 

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Invejosa


"Invejosa" ou "Envidiosa" é uma série, uma comédia romântica argentina da Netflix.
É bobinha, a protagonista por vezes é caricaturizada e repetitiva, mas a história flui, os personagens são legais e, no meio desse besterol todo, há pontos bem interessantes de serem discutidos. 
Vicky é uma mulher de 40 anos bem padrão e com uma autoestima baixíssima, que se sente pressionadíssima pela idade a casar e ter filhos (enfim, a fazer o checklist da fêmea alfa), porque, afinal, no entorno dela só falta ela mesmo. Vicky tem um noivo de dez anos (Dan), que emocionalmente é tão imaturo quanto ela e é autocentrado, e por isso a coisa não anda. E é este o pontapé inicial da trama: o pé na bunda que ela leva de Dan.
A primeira temporada é ela, após esses dez anos de enrolation, olhando pra dentro e se descobrindo. Ela amarga ver Dan, que ela achava sem sal (mas era garantia de um casamento até então), casando com outra, pra quem faz tudo que não fazia por ela; se envolve com o chefe sonho de consumo e se ilude de que vai ter um namorado top; mas se apaixona por um sujeito gente fina que é o contrário do que ela desejou e por isso fica se amarrando pra assumi-lo. 
Essa primeira temporada é ótima pra mostrar as expectativas que a sociedade cola nas mulheres. Vicky, a invejosa, o é justamente porque a sociedade faz isso com a gente, nos estimula pra que estejamos sempre competindo porque não há lugar para todas serem as mulheres alfa. 
A mãe dela foi vítima de um tempo em que a vida da mulher era mais triste ainda, controlada, mas teve coragem de jogar tudo pra cima e viver como queria. Porém, até ela contar a parte dela na história, todo mundo pensava nela como a esposa que foi abandonada e que é triste por causa disso (e a véia tocando o terror escondido). A amiga, em troca da imagem de casamento perfeito, fechou os olhos pra falta de caráter do marido e terminou a temporada se dando muitíssimo mal. Uma outra quase fez isso. Enfim, eu achei a série muito feminista porque mostra como os relacionamentos podem ser uma armadilha pras mulheres, que escolhem mal por se basearem em critérios falsos, por estarem inconscientes nas suas escolhas. Menção de honra pra psicóloga de Vicky, que dá as melhores lapadas nela. 
A segunda temporada é menos vibrante, mas se na primeira as pessoas do entorno influenciam mais o destino e as atitudes de Vicky, nesta, a briga é dela com ela. A invejosa começa a tomar consciência de que sabota suas felicidades e dá muita ênfase aos seus "fracassos". Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

A maldição das passivas ameaça a humanidade

 




Há uma polêmica no mundo gay masculino que é o excesso de passivas. Todo mundo na passividade, ninguém na atividade. Todas querendo ser comidas. Todas ameaçadas pelo mapa da fome. Há quem fale, inclusive, de um golpe derivado dessa carência de ativos no mercado sexual. O cara se diz desta equipe, nos aplicativos, mas na hora H, vira o bundão pra ser comido. Drama: o Procon não atende esse tipo de reclamação. O que fazer? 
Coisa semelhante ameaça o mundo hétero. Na hora em que as mulheres se cansarem de tomar a iniciativa e cruzarem os braços, o mundo hétero morre. Todos passivos, homem já não se mexe. Com H? Tem, mas acabou.  

Entrevidas

Acho que estou na menopausa. Meus hormônios estão lá embaixo. Graças a Deus, até agora, nada de fogacho, e que assim continue. Mas estou uma pamonha, manhosa, irritada com tudo. Nossa Senhora da Reposição Hormonal, me ajude! 🙏

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Afetos Clarice Lispector: quem eu quero não tem rosto



Essa frase é pretensiosa e no fundo sei que não tem o menor sentido, mas é inevitável, ainda hoje, pensar que parece que essa vida quer me ver triste. Cada vez menos tenho predisposição a obedecê-la neste sentido graças a Deus, mas parece que não encontro o que vai me fazer sorrir novamente. Olha, se não fosse eu dando a mão a mim mesma, estava lenhada.

É com pesar que digo essa outra frase, mas é um fato após 44 anos de vida: sozinha eu vou melhor. Acho que meu subconsciente sabe que me saboto muito junto aos outros e acaba me botando perto de gente cuja relação não vai prosperar. Só não precisava exagerar tanto.

Parece que o que quero não tem rosto. Nome até que tem: amizade, amor, lealdade, compromisso, integridade. Mas parece que ninguém tem isso para dar. Ou pra me dar (mas acho que pode ser algo geral porque já ouvi essa queixa de outras pessoas). Acho as amizades em Salvador, pelo menos as que cruzaram meu caminho, muito sem consistência, sem via de mão dupla, pensando na utilidade que o outro tem. As pessoas te buscam pra tapar buraco e pra que você seja útil a elas. Quando acabou a utilidade, beijo e até quando precisar de você de novo. Não vou mentir: com gente que já saquei que a dinâmica é essa e que convivo porque não tem muito jeito, eu tô fazendo o mesmo. Daí quando você muda, ainda é criticado, ninguém se autoquestiona.

Os primeiros 45 dias deste ano me deram boas amostras da desconsideração de pessoas que eu gosto, mas confesso que venho gostando cada vez menos a cada vez que percebo a falta de cuidado. E fico triste comigo que ainda permaneço de junto e me iludo, quando de onde menos se espera, daí que não sai nada mesmo. Acho que deveria me mudar de Salvador porque aqui já virou um ciclo vicioso e eu admito que não sou assertiva e não sei romper ciclos porque não sustento a gritaria que isso traz.

A “variação” disso, pero no mucho, aconteceu na virada do ano. De década em década, um supostamente bom rapaz fica a fim de mim, mas nunca é claro ou chega junto, quando não bota outra no páreo pra ver se eu sim luto pelo princeso, e se chateia comigo me evitando, de uma hora pra outra, e me “dá o troco” arrumando outra na sequência (até quem nunca arrumava ninguém). Nas primeiras vezes que isso aconteceu, achei que a falha fosse minha, me senti péssima e até tentei ficar amiga de qualquer jeito. No fundo me achando um lixo, não vou mentir, por não merecer nem uma conversa. Eu não era o lado apaixonado, os caras sim, e mesmo assim eu tinha que ser punida por não ter seguido o script desejado. Por mais que racionalize, é inevitável não me sentir usada, humilhada, agredida e azarada. Falam da puxada de tapete feminina, mas nada se compara ao cara que quer botar pra fuder em cima de você. Eles sabem pegar pesado, eles sabem usar a violência. 

O sujeito da caixa de som do trabalho fez a mesma coisa porque manifestei que não estava curtindo um desrespeito que acontecia há meses. Ver o lado do outro?! Pra quê?! E a isso ainda segue uma tentativa de me punir. Neste caso, ele não fala mais comigo e eu vou ficar bem com minha cara de paisagem fingindo que não tô percebendo. Mas, no fundo, essa violência me choca e me assusta, porque é uma coisificação do outro, que não tem querer, que não tem identidade. É uma falta de respeito de ser humano pra ser humano. Eu só presto se me submeter sem ser também um indivíduo, sem ter as minhas questões postas. E neste caso não fiz nada além de levantar e passar a me sentar em outro lugar. Eu tinha que ficar do lado ouvindo um trio elétrico no meu pé do ouvido que não me deixava trabalhar direito?! É brutal como o bicho homem hétero nem disfarça (ser ruim é do ser humano, mas dobra de potência neste gênero e identidade sexual). Lobo em pele de cordeiro quando interessa, mas joga a pele pra bem longe e uiva assim que se vê contrariado. Nunca falha. Anota aí na agenda: nem os “bons” são bacanas de verdade.

É triste demais que nem mulheres em relações longas acreditem que estão com alguém legal mesmo, que o homem vai ficar. Todo mundo conta com a possibilidade de abandono a qualquer momento. Que entrega você é capaz de fazer em uma relação assim?! 

Mas hoje, pessoa crescida, só acho que a criatura não queria. Até pizza, quando a gente quer comer, a gente pede. O povo deseja e ainda quer pedir "delivery" por telepatia?! Se gostando está assim, imagine quando não mais gostar? Te chuta, né? Aliás, chuta antes disso, quando chega a primeira frustração. E acho que Deus me livrou de mais uma. Sabe, uma hora esse lado egoísta e pirracento viria à tona, então melhor mesmo antes de começar, porque depois que você já idealizou e se apaixonou, dói demais. Se de amigo já dói, imagina de par.   

No meu mundo, amigos formam comunidades e o que todo mundo quer importa igualmente. As pessoas se olham, se percebem e se cuidam. Tempo é questão de prioridade e mesmo havendo situações e situações, as pessoas arranjam algum espaço, algum dia pras outras de quem dizem gostar.

No meu mundo, se alguém se apaixona por você, não vai criar dúvidas e nem vai ficar fazendo joguinhos e muito menos vai querer “dar o troco” pra sair por cima (levando inclusive outra pessoa nos lugares que você mais gosta, inclusive perto da sua casa. Isso não é buscar a própria felicidade, é querer atiçar o outro, descontar; é violento). A pessoa é direta, íntegra e generosa. Eu não tô pedindo e muito menos contando com a perfeição, mas eu prezo demais quem gasta energia tentando acertar. Isso faz toda a diferença pra mim.

Nunca me deparei com esse tipo de pessoa que desejo encontrar. Mudando um pouco o que disse Clarice, quem eu quero não tem rosto. Mas, por enquanto, eu não me emendo e continuo acreditando em Jung, que diz que o amor custa caro e é uma péssima ideia faze-lo barato. As pessoas podem sair por cima, mas não vejo como isso pode trazer felicidade.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

O peso do céu


Fui assistir ao filme da Nicole Kidman. Gostei, muita gente não gostou, mas é que não é um filme pra todo mundo mesmo. Achei Nicole corajosa. Queria que ela tivesse essa mesma coragem pra diminuir o botox. Numa cena, a personagem da filha até brinca com isso. Mas nada se compara a cara estática em The undoing. 

O filme é a cara do pessoal da psicanálise. Tive vários insights enquanto assistia, mas acho que, agora, não vou conseguir lembrar de metade.

No filme, ela é uma mulher muito bem sucedida, mãe de duas filhas e aparentemente bem casada com Antonio Banderas (uma escalação que não perdoo, porque não se faz sofrer Antonio Banderas, hehe). Mas o marido não chega junto, apesar de comparecer no sexo. Ele está na altaria, ela quer baixaria. Traduzindo, como diria dr. Gikovate (saudades!), amor é altaria, sexo é baixaria. Então chega um jovem na empresa, estagiário, que saca essa carência dela, que ela está muito sozinha neste lugar de comando e de perfeição e que está precisando de uma safadeza, de uma humilhada, de acionar o lado fêmea/cadela porque o excesso de racionalidade está lhe fazendo mal. Muita atividade mental nos afasta dos nossos instintos e ela estava desesperada pelos dela. 

Uma vez, uma conhecida, psicanalista, falou algo que gravei. Segundo ela, as pessoas se protegem da proximidade da morte regredindo à época em que foram mais potentes e felizes. Por isso, segundo ela, é comum homens mais velhos namorarem meninas na velhice, largando muitas vezes a esposa da vida inteira. Pra quem detém poder - caso dos homens - essa perda que a velhice traz deve ser especialmente angustiante. Por esse motivo, achei o título genial, porque realmente ela regride a quase uma mocinha quando está com o amante. Mas descobri que essa é uma gíria americana pra homens jovens bonitinhos ou aqueles que são mais fofos. 

Neste caso, seria uma piada. O rapaz que faz o amante de Nicole tem mesmo cara de PA (pós-adolescente), mas é puro suco de masculinidade tóxica. Passei o filme todo com a mão no queixo pensando como, apesar da beleza, ela se interessava por aquilo ali. O cara não tinha charme, só beleza e juventude mesmo (quem viu Brando em "Um bonde chamado desejo" sabe do que tô falando). Depois de tantas agressões psicológicas masculinas e das coisas que já vi, estou a um passo da misandria (e sem um pingo de culpa e com uma pilha de razões), portanto, esse personagem, como diz a geração Z, me deu gatilho. Apesar disso, o garoto teve bons saques. Gostei quando ele falou pra ela que estava querendo usar ele como desculpa pra jogar tudo pro alto. 

Gostei também da piscina (e da casa toda de Nicole. Meu Deus, aquela sala!...) e da solutio que ela evoca, dessa coisa de se dissolver, de estar imerso em algo maior representado pela água. Não é à toa que é uma das imagens da divulgação do filme. 

E não consegui em nenhum momento julgar a personagem de Nicole. Talvez porque ela faz algo que me desperta empatia: tenta. Ela tentou muito ser perfeita para todos, ela tentou resistir, ela tentou desistir, ela tentou fazer dar certo de novo. Mas como dizia meu boy tóxico preferido (risos), o Jung, tem que trazer a sombra pra perto, antes que ela lhe aplique uma rasteira pra dizer que está ali e que, aliás, manda na zorra toda.

 

Não é bloqueio criativo, é cansaço


 

Ando muito cansada e metade do meu estresse vem do medo de, por causa desse cansaço, não dar conta das coisas. E quando a gente está assim, vamos pro piloto automático e damos menos atenção ao lúdico. Tanta coisa que gostaria de fazer, mas por agora não tenho como.

Outro dia, comprei livros pela internet (fazia séculos que não comprava livro físico por causa da falta de espaço aqui em casa) e me emocionei pegando neles. Livro me emociona, não tem jeito. Sabe aquele trecho de Paul McCartney: "May I never miss the thrill of being near you...". Eu e os livros. Que eu nunca perca mesmo essa emoção. 

Mas a gente vai perdendo várias emoções, de modo a executar as coisas do dia a dia no modo sobrevivência. E daí eu comecei a olhar as pessoas ao meu redor... Raramente a gente acha alguém interessante, mas quantos de nós somos desinteressantes por não termos mesmo vida interior movimentada (acontece) e quantos estamos sendo tirados de nós mesmos na luta pela sobrevivência? Há muitos potenciais que ficaram pelo caminho, hoje eu sei. Só tendo um amor muito grande mesmo pra não deixar se anestesiar pelos dias. 

C´est compliqué

O comment da semana foi em cima da fala de Maria Rita Kehl sobre os identitários. Primeiro e antes de tudo: que saco essa esquerda branca (incluindo WG que tem alma de) falando dos identitários por minuto. Está quase empatada com os discursos repetitivos dos próprios identitários.

Dito isso, no corte que peguei da entrevista dela, não achei nada de mais. Ela falou o que é óbvio e vai acontecer: os movimentos identitários, especialmente o negro, estão puxando tanto a corda, que uma hora ela vai arrebentar. Some a isso que as forças opositoras ainda estão no topo, e a rebordosa só vem. É questão de data.  As pessoas desses movimentos (assim como os demais segmentos políticos, inclusive a "racional e informada" esquerda e a avassaladora extrema direita) não gostam de ouvir isso, jogam tudo na gaveta do ressentimento e do preconceito, mas é fato. 

Pra mim é nítido que as pessoas hoje se acusam do que elas mesmas fazem. A esquerda vence pelo beiço de uma pulga. Apesar dos mil problemas, ainda defende valores que pra mim são caros e que deveriam ser universais, mas não são. A única frase de um espírita que dei crédito nos últimos tempos é que o umbral está vazio porque os perturbados estão todos aqui. Boto fé. 

Veja, os movimentos identitários são importantes. É uma porta afetiva que serviria para chamar as pessoas para a política - e quem mais é vulnerável socialmente é quem mais precisa de política. O problema é o ser humano. Pessoas, de um modo geral, não lidam bem com poder. Qualquer micro poder e, como sempre disse minha mãe, a pessoa sobe no tijolo achando que já tá no palanque e faz discurso. 

Eu tenho especial ranço do movimento negro porque é onde vejo as maiores distorções e malabarismos retóricos, isso sem falar da repetição daquilo que eles mesmos criticam na branquitude. Isso sem citar como arreganham os dentes quando um branco rico chega como "aliado". É, dos movimentos, na minha percepção, o que mais exemplifica outra máxima que amo: "Na prática, a teoria é outra." Não acredito em um movimento em que, no fundo, a meta é tomar o lugar do opressor (há exceções, claro, mas quem está mais no topo geralmente não é melhor do que aqueles que critica). A dor do racismo é real e legítima, mas quem vem se apropriando dela a título de luta muitas vezes não. Fora que existe uma linha fina entre esse aquilombamento que afaga e o que aliena. Sabe clube do bolinha, onde os caras ficam se elogiando pra receber elogio de volta e se sentirem confirmados? Sabe famoso que só tem adulador em volta e ninguém diz nada que não seja positivo? Pois é, coisa boa pro ego, mas quem vive assim também não percebe outros fatos, não cresce - e eventualmente ainda passa vergonha achando que tá arrasando só porque a claque bateu palmas. 

Agora, voltando a Kehl, apesar dela ter falado verdades (o que escrevi aqui mesmo seria motivo de cancelamento automático, embora eu saiba que minha opinião é lúcida, pois é respaldada em casos reais vistos nos últimos 25 anos), demonstrou o ressentimento que ela tanto estudou. Deu pra perceber no subtexto dela, na cara e no tom de voz, que tem ali uma dorzinha nela, sempre considerada uma voz importante, virar desimportante. Ela branca, rica, culta, sempre chamando atenção pra si, estava chateada, com uma dor de cotovelo ali. É humano, claro. Mas não deixa de ser engraçado que uma psicanalista não se aperceba disso. 

Azedo

Esta semana, mais um homem saiu em defesa de Claudia Leitte na polêmica da música "Corda de caranguejo". Repare, eu tenho certeza que ela não é gente ruim. Pessoas que conheço e que já estiveram com ela elogiam. Todas essas pessoas que defenderam ela disseram que não é racista, que é boa pessoa, etc. Mas não ter a intenção não quer dizer que não fez algo. Uma coisa não implica na outra. Posso ser boa pessoa e fazer algo ruim. Posso nem sonhar que fiz e ter feito. Assim como a obra de arte nem sempre reflete a intenção do artista, o ato nem sempre reflete a intenção do ser humano. Podia ser pêlo em ovo da militância racial? Podia. Já criaram fanfic até de que não podia falar mais criado mundo porque tinha a ver com a escravidão, e alguém foi atrás e pesquisou que isso é mentira. A histeria coletiva é uma possibilidade. Mas uma boa pessoa reflete quando recebe uma crítica e evita futuros eventos semelhantes quando percebe que isso incomoda muita gente. Ela sonsamente insiste. E eu duvido que ela ficaria com a cara de paisagem que está agora se substituíssem "Jesus" por "Exu" em alguma letra cristã que ela gosta. Então, se Claudia não quer isso pra religião dela, por que fazer com a dos outros?

Por outro lado, o tribunal da internet falha miseravelmente em uma coisa em particular: proporção. Estão tratando a criatura como se ela tivesse matado alguém. Não é pra tanto. A reação tem que ser proporcional, senão é violência também. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Eu sabendo, duvido e vendo, continuo não acreditando



Ai, o ser humano!... Era melhor ter mantido os dinossauros.

Sempre achei que cada um sabe, no fundo, quem é e o que faz. Talvez porque comigo seja assim, sou muito reflexiva. Rumino tanto as coisas, que quando passa o tempo e eu não mudei de ideia, tenho convicção que tô na pista certa. Frequentemente, mesmo que secretamente, mudo de ideia, por isso se o contraditório não me pesca, eu sei que tô certa na questão. Mas ando me dando conta que as pessoas não querem saber quem são e nem reconhecer as merdas que fazem. Isso é um defeito geral, mas que se apresenta com uma dose extra de arrogância no caso dos homens.  

Outro dia dois amigos brigaram do nada. Na verdade, um deles viu pêlo em ovo e caçou o rompimento. Não falei nada porque ando evitando entrar em confusão até em causa própria. Mas depois fiquei de cara quando esse que brigou veio no privado me falar várias coisas sobre o agora ex-amigo que em nada batiam com a realidade. E olha que não sou de encobrir os defeitos dos meus amigos. Meu trabalho é o contrário: disfarçar que não estou vendo. O caso é que eu acho que algo que o outro disse, embora não tenha dito nada de mais, bateu errado em algum complexo de inferioridade deste moço, ele surtou, não quis sair por baixo e inventou pra si mesmo uma desculpa pra sair por cima. O que me espanta é que tudo isso foi feito sem que ele tivesse consciência disso. E aqui que entra a questão de gênero. Muitas mulheres, assim como eu, ruminam, então a chance de cair a ficha é maior, embora vivamos todos numa época em que todo mundo se acha acima do bem e do mal. Mas, enfim, mulher tem baixa autoestima, então tende a considerar se está errada. Homens têm "autoestima" patológica. É uma certeza de que é foda que merece ser estudada pela Psicologia (e estão cada vez mais medíocres, coitados. Deve ser mecanismo de proteção de ego, só pode.). Em uma situação em que são contrariados, mesmo com todas as evidências apontando contra eles, ficam com ódio de quem expôs a situação. Ouvi um podcast na Radionovelo com um exemplo desse, em que a moça saiu de ruim na história porque expôs o namorado canalha. Ele tá de boa, protegido pelos amigos, e ela não.  

Uma figura lá do trabalho tem a prática sem noção de ouvir som alto no autofalante (todos nós usamos fone). Eu saí da bancada e fui pra outra porque, entre outros motivos, não aguentava mais aquilo, afinal preciso de sossego para trabalhar justamente com áudios. E outra colega já sinalizou, inclusive, que ele tem a prática de ouvir o som tão alto que ela pensa que é o rádio da sala ligado. Você acha que a criatura parou e avaliou que foi mal educada comigo e com os colegas? Que nada. E a consideração que tinha por ele caiu muito quando percebi essa falta de humildade e autocrítica (daí você vê que o ar "deboassa" de certas figuras é fake e despenca quando são contrariadas). Tá fechado, no mínimo achando que eu fui isso e aquilo. Ele não tem a mínima noção de que ele sim foi desrespeitoso. Certeza que ele não tem.  E sei que ele faz algo parecido com colegas do outro trabalho dele. Não é pessoa ruim não, é muito extrovertido inclusive. Mas usa essa corrupção afetiva, digamos, pra desrespeitar os outros e fazer o que quer. Aqui no Brasil a pretensa alegria de certas pessoas é como um KY pra elas enfiarem no seu c* e você não ter o direito de reclamar. Muitos homens se fazem de legais justamente pra serem abusivos sem repercussão pra si mesmos. E quando alguém os constrange, vem a violência (que não precisa ser física, claro). Jogar nas costas do outro um ônus que é seu é violência pra caramba. Realmente, tem gente que acha que está certa mesmo fazendo merda atrás de merda. Gente assim se picando da minha vida é livramento, não tenho dúvida. Pra mim é. Quero perto de mim gente recíproca, que queira pra mim o mesmo que quer pra si, que seja justa mesmo quando isso não a favorece. 

Justiça

Esse conceito, na minha opinião, tem a ver com proporção. Certo e errado são dificeis de definir porque sempre há as circunstâncias e a medida da ofensa para serem consideradas na resposta a ela. Uma boa reparação exige medida; nem mais, nem menos do merecido. Exemplo 1: fui ver um júri de tentativa de feminicídio, em que o júri deu tudo que podia dar pra condenar o réu e o juiz abrandou demais a pena final. Minha amiga ficou injuriada. Eu também, mas compreendi o juiz: se ele desse a pena máxima, ele ia colocar um cara que tem dois filhos pra criar, trabalha e nunca mais depois disso criou problema por anos entre bandidos da pior espécie. Ele não seria só punido, mas sairia de lá com graduação em crime, isto é, se saísse vivo. Eu não queria estar na pele daquele juiz, que tinha que dar uma resposta à vítima (até pra constranger violências futuras) e à sociedade, mas sem pesar a mão demais e produzir mais um marginal. 

Exemplo 2: o filme "Jurado número 2". Uma mulher morreu "de morte matada". O namorado abusivo a colocou numa situação de vulnerabilidade, em que era muito fácil isso acontecer. Um completo estranho, sem querer, matou ela atropelada. Quem tem mais culpa? Eu chego a pensar que o namorado é mais responsável que a pessoa que a atropelou. Só não sei como alguém vive normalmente tendo matado outra pessoa, mesmo sem querer. Nem tanto assim, no caso do filme, porque o cara era alcoolotra e esse era um risco presumido. 

Definitivamente, não consigo entender certas mentalidades humanas. Não sou perfeita, mas pelo menos tento acertar. A galera, de um modo geral, tá jogando pra cima, "sem pecado, sem juízo". Oremos. 


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Tá vendo quando eu digo que é difícil?




Tenho vários colegas psicoterapeutas e psicólogos nas minhas redes sociais, por conta dos cursos que fiz. Alguns deles são pessoas bem inteligentes e tal, mas vira e mexe os vejo escorregando numa casca de banana: todo mundo fala de transformação como se fosse caso de jogar um pó de pirlimpimpim em si mesmo, mas ninguém fala de onde vem/ virá a força psíquica (por vezes hercúlea) que uma superação de vida exige. 

O caso é que a gente não é o que quer, é o que consegue ser. Freud mesmo, em O mal-estar na civilização, afirmou que há pessoas mais talhadas para viver neste mundo que outras. Essa superação do meio ambiente e das experiências ruins do início da vida não depende só da decisão do indivíduo (mas, sim, acredito que tomada esta decisão, algum nível de melhoria a pessoa vai alcançar ainda que não o almejado). A transformação, essa alquimia do chumbo em ouro, depende da personalidade, do nível de energia psíquica que a pessoa consegue mobilizar e também - e nenhum terapeuta ressalta isso - do meio ambiente. Uma pessoa que teve um início difícil, uma construção do eu problemática, se ela cresce e continua num ambiente tóxico e recebendo porta na cara, sem a estima e valorização dos outros, dificilmente vai ter a força psíquica necessária para virar o jogo. Há seres excepcionais, mas a sociedade nem de longe é feita deles. Precisamos pensar as soluções para as pessoas ordinárias mesmo. 
A vida é a arte dos encontros, e precisamos deles também para mobilizar tanto as transformações externas quanto também as internas. Essa história de que sozinho a gente faz e acontece é mentira pura. Assisti, ontem, o penúltimo episódio de A amiga genial e a trajetória de Lila é um exemplo disso. Ela era genial, linda e destemida, mas foi esmagada pelas circunstâncias da vida, uma atrás da outra - e não foi por falta de tentativas de se reinventar e sair adiante. Ela deu muito azar nos encontros que teve. Do primeiro, com um pai abusivo, ela nunca conseguiu se desvencilhar, tornando-se um pouco como ele. A trajetória de Lenu foi muito mais branda, ainda que ela não fosse uma força da natureza como Lila.  
Frases do tipo "Você pode mudar a sua vida", "A raiva faz a sua vibração energética ficar baixa", etc, são bem intencionadas e podem até funcionar para algumas pessoas, mas são facas de dois gumes que podem também levar mais culpa e majorar a sensação de incompetência pessoal do indivíduo, quando há sobretudo um problema social. É como dizer que pessoas positivas superam o câncer. Se não consigo "vencer" a doença, escutando isso fico duas vezes fodido, me culpando por não ter sido positivo o suficiente. Sacou a problemática?
Essas frases feitas só funcionam pra gente no cume do desespero e dispostas a acreditar em qualquer coisa, em se enganar. Eu bem sei disso porque já joguei umas frases assim e deu certo com gente desse perfil aí. Mas dá certo momentaneamente, uma hora a realidade bate de novo à porta. 
Tá vendo aí porque eu digo que ser terapeuta é uma das coisas mais difíceis? Porque não basta ser inteligente, tem que ser sensível e também pragmático. Tem que aprender a sair da experiência particular para pensar a vivência personalíssima do cliente. A pessoa pode saber como viver pra ela, mas será que ela consegue pegar as pistas e racionar a vida alheia, dentro das questões daquela pessoa? É difícil conseguir alguém assim. Tem que ter a inteligência dos livros (sim, é preciso muito estudo) e de alma - de preferência, não ter religião porque isso queira ou não produz pré-julgamentos morais. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Que Xou da Xuxa é esse?

Tenho pensado nos últimos dias que não tenho nada mais a fazer aqui. Sério mesmo, sem depressão, sem dor, é só constatação franca. Eu tenho essa sensação desde nova, nunca tive um gancho com a vida, com o mundo, algo pra querer estar aqui mesmo. Sempre achei tudo meio bleh, sem intensidade, superficial, falso e principalmente sem graça. Mas fui ficando por curiosidade, inventando umas coisas pra passar o tempo. Quem sabe, né? Mas nada mudou e tenho quase certeza que nem vai mudar. O caso é que penso que não tenho mais nada pra ver ou fazer aqui. Minha criatividade em inventar as coisas cessou. Eu estava me questionando esta semana qual era a diferença de ter ido há 20 anos. O que eu teria perdido de significativo? Talvez ter conhecido meus sobrinhos e as viagens que fiz, e olhe lá. Isso não justifica uma existência, o trabalho que dá viver. Vou escrever algo que pode chocar, mas é verdade: se morrer daqui a dois meses ou amanhã, não partiria triste, não. Acho que ia me sentir livre das obrigações que estar vivo impõe e que nunca cessam. Ia ficar na minha nuvenzinha, lendo as coisinhas, vendo uns filminhos, fazendo uns cursos pra desenvolver alguns talentos e assistindo as fofocas daqui de camarote. Ia ser legal poder descansar, enfim.

(Pior que não dá nem pra ter esse papo com alguém. As pessoas morrem de medo de admitir isso, de olhar pra própria miséria e encenação)

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Abaixo a racionalidade

 Eu gosto da racionalidade até a segunda página. Racionalidade demais não funciona. Amo outra máxima: "Na prática, a teoria é outra". Pois é, nada mais verdadeiro que isso. 

A racionalidade é sempre do plano do que deveria, não cobre totalmente o que existe. Há sempre uma esfera do inapreensível e ocorre uma primazia das emoções sobre o mental. Aliás, por falar nelas, às vezes o excesso de racionalidade vira frieza, insensibilidade com o outro. 




segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Tempo é questão de prioridade

Ouvi essa frase uma vez e adotei: tempo é questão de prioridade. Mesmo que você realmente não tenha tempo agora, se for uma prioridade, uma hora a fila anda e a vez daquela meta chegará. Eu mesma sou assim. Se algo está verdadeiramente nos meus planos, vai entrar na pauta assim que der. 

Por isso que não acredito nisso de amizades de baixa manutenção. Não que todo mundo tenha que andar grudado, mas você esquecer que a pessoa existe e só falar com ela de caju em caju não é amizade. Isso tem outros nomes: simpatia, coleguismo, etc. Eu me lembro que antes de trabalhar em jornal, havia amigos que, pra qualquer convite, respondiam que não podiam por causa do trabalho. Entrei no jornal e realmente era uma rotina puxada, mas não deixei de ir pra nada que fosse importante pra mim. Quase nunca faltei nos eventos em que era convidada. Daí vi que era desculpa, não era realidade. Tempo é questão de prioridade. 

Hoje, na hora do jantar, uma amiga veio com o argumento de que entende as amigas com filhos que desaparecem. Olha, mantenho minha máxima, viu? Nos dois, três primeiros anos até dá pra entender o sumiço da pessoa porque um bebê é extremamente dependente, mas depois de crescida a criança, é escolha mesmo. Os amigos não fazem falta. No caso das mulheres, o papel de mãe é muito poderoso na cultura e possui um apelo imenso à psique. Não é de surpreender que a mulher fique absorvida 100% por essa função, inclusive em termos de relacionamentos. Muita mulher escanteia inclusive os maridos (não estou falando dos casos em que há egoísmo masculino e a esposa se vê obrigada a assumir tudo sozinha), justamente pela sedução do papel onipotente da mãe. Se a pessoa quiser delegar a vida, ainda mais se for mulher, a maternidade é o contexto perfeito. Você vive a vida do outro quase sem ser criticada. Aliás, só as muito atentas não vão cair nesse canto da sereia. 

Ninguém é obrigado a manter contato com ninguém, mas o que eu acho ruim nesse tipo de situação - muitíssimo comum - é que parece que as amizades pré-maternidade eram tapas-buracos. Não gosto de relações por interesse. Obviamente, todas as amizades são "interesseiras", mas num sentido de afinidades. Não gosto dessa coisa de usar os outros para obter coisas ou tapar buracos. "Cheguei onde queria, então não preciso mais dessas pessoas." Mulheres são mestres em fazer isso quando migram de status de relacionamento ou quando se tornam mães.  Vejo muito as pessoas "fazendo contas" até nos relacionamentos mais íntimos. "Ah, eu não me dou com os meus irmãos, mas privilegio eles porque é quem vai ficar comigo a vida inteira". Já ouvi essas coisas. Agora, me diz, se as pessoas partem de segundas intenções (ainda que muitas vezes nem percebam), como é que algo de bom e de duradouro pode florescer? O amor (de qualquer espécie) é caro, meus caros, não dá pra torná-lo barato, como dizia Junguinho. 


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Sucession


Silvio Santos morreu em agosto aos quase 94 anos. Uma figura controversa, com muitos feitos grandiosos pro bem e pro mal, mas alguém que deixou um legado. Gente como ele está indo embora e sem substituição. 

Há tempos, até antes do fenômeno influencer, que venho observando que as pessoas estão perdendo o sentido de legado. Da minha idade pra baixo, a maioria quer ser suficientemente famoso pra poder ganhar dinheiro fazendo publis nas redes sociais e frequentar festas badaladas. Eu posso citar vários famosos nessa pegada. Alguns teriam potencial pra uma carreira rica em bons trabalhos, mas falta a disposição de dar um algo a mais para ter esses resultados. Sim, não tem como fazer coisas extraordinárias sem esse esforço a mais, sem suar pra valer a camisa. 

Estão todos no Bloco do Prazer, mas não é nada que honre Dionísio. É só acomodação e imediatismo mesmo. Eu sinto pena dos casos em que há muito talento envolvido, mas... E saúde mental virou a desculpa de muita gente para largar o corpo e não fazer nada. Equilíbrio é tudo, até nisso. A vida é um eterno intercalar entre relaxamento e tensão. Tanta gente marombeira neste Brasil e ninguém se liga nisso, que a musculatura, pra se desenvolver, precisa de esforço e descanso, no corpo e na alma. 

Curiosamente, durante as Olimpíadas de Paris, eu percebi que talvez os esportes sejam a última arena das pessoas que estão a fim de se jogar numa missão e produzir legado. Provavelmente porque o tempo de um atleta é curto e não há muito tempo para, como Adele e Rihanna, tirar férias por prazo indeterminado. É agora ou nunca de fato. E mesmo assim vemos grandes atletas preferindo mais ser uma celebridade vazia que um atleta que marcou história e viveu todo o seu potencial. Temos um exemplo mesmo aqui no Brasil, que dispensa citação. 

O que me preocupa nisso tudo (por esse blog, dá pra perceber que várias pequenas coisas me preocupam no plano mental) é que se as pessoas não estão querendo se sacrificar nem pra escrever a melhor história para si mesmas, o que será das coletividades quando vários sacrifícios individuais forem requeridos? Tivemos um "trailer" desastroso disso durante a pandemia, mas conseguimos nos safar. Neste sentido, estou muito pessimista quanto ao futuro. 

O peso do passado, a leveza das pessoas maravilhosas que não conhecemos (e que não nos conhecem também)


Por culpa de Hollywood, sempre achei bacana a imagem dos amigos que se conhecem desde a infância. Eu não os tenho, mas mantenho os da adolescência em diante. Uma dessas amizades já tem 20 e poucos anos. Como é uma pessoa assídua na minha vida, que eu conheço a família, o contexto, etc, eu já consigo antecipar as cenas dos próximos capítulos, perceber quando está falando da boca pra fora e por aí vai. Não é culpa dela. Dificilmente os seres humanos são imprevisíveis. Uma amiga em comum até dá risada dos meus comentários premonitórios. Essa semana, me caiu a ficha de que pra ela, e pra todo mundo que passa por isso, deve ser um porre ter gente assim ao redor.

Explico: tem horas em que a gente enjoa da gente e quer se ver diferente e também ser vista de um outro modo pelas pessoas. Eu já reparei que essa amiga mesma vende uma versão diferente dela pras novas amizades. Eu achava infantilidade, mas vejo que tem razão de ser. E por que não? Que coisa chata deve ser essa cristalização. Também não gosto quando as pessoas me enquadram, ou dizendo algo que não sou (o mais comum), ou falando como se não pudesse mudar (tão bleh quanto). Ficcionar-se é preciso, e vamos deixar nossos velhos conhecidos em paz com isso, né? 

domingo, 22 de setembro de 2024

Interpretando um sonho

 


Ontem, fui dormir reflexiva sobre uma situação estranha durante o dia. De noite, sonhei. Este sonho dá um belo exemplo de como interpretar sonhos. 

No sonho, eu estava na sala da minha casa - uma super sala, do jeitinho que eu sonho - e a luz estava baixa, eu acho que estava mexendo nos livros. Do lado de fora, uma piscina comprida, belíssima, de água cristalina, e algumas pessoas andavam por ela ou pilotando jet-ski ou sendo puxados por uma corda. Eu olhava e percebia que as pessoas estavam aproveitando lá fora e eu não. Fui, em determinada hora, no início da piscina, e havia crianças botando colete e andando nela. 

Como interpretamos isso?

Tem dois modos, um ao pé da letra e outro que depende de outros sonhos prévios. 

No primeiro modo, a casa, na linha junguiana, representa a psique. A água, as emoções. Como aqui é uma piscina, podemos falar de água contida, um curso artificial. Adultos passam por ela correndo, audazmente, e parecem se divertir. Crianças começam pela beirada, com coletes. Nesta interpretação, me ressinto de não saber brincar com essa água represada/ falsa. Eu estou no conforto da minha casa. Tipicamente introvertida. 

Mas eu acho que faz mais sentido a segunda, de que a piscina significa lazer e leveza. 

Acho que meu inconsciente está me mandando pegar leve. Nesta mesma semana, sonhei que Ivete Sangalo estava batendo papo comigo e com pessoas da minha família na sala de casa. Ela sentada no chão e de camiseta e calça. Vejo ela todo dia no Instagram, então não foi uma imagem do dia. Ivete é conhecida pela descontração. 

Tentarei.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Heróis do dia a dia

 



Cresci ouvindo minha mãe e o seu bordão “Dá a César o que é de César”. E é preciso dar a César, Maria, Pedro e etc o que é deles, os heróis do dia a dia, aquelas pessoas que a partir de muito pouco ou quase nada fazem bem mais do que a princípio poderiam, que conseguem ir adiante mesmo com uma moral baixíssima, mesmo ninguém aplaudindo, mesmo tendo um dia triste atrás do outro, mesmo sendo criticadas e tratadas como invisíveis ao mesmo tempo. Aliás, fiscais de obras prontas nunca faltam, mas pra reconhecer os bons feitos não aparece um. 

O Instagram e o Tik-Tok não deixam dúvidas da necessidade humana de atenção e de reconhecimento. Portanto é muito duro, árido passar uma vida sem esse reforço positivo, sem ser visto devidamente nas suas conquistas e méritos. Pessoas que pertencem a uma minoria, em especial, sabem (e sofrem os efeitos perversos) disso. Pude ver essa questão de um lugar privilegiado, de fora pra dentro, na minha curtíssima experiência como psicoterapeuta. Muitas vezes, em um processo terapêutico, nós temos que provocar as lembranças do passado (que muitos não lembram, o que é comum em situações traumáticas, inclusive). Apesar da sensação de fracasso pessoal que todos, sem exceção, carregavam ali, eu via pontos "heróicos" na trajetória da pessoa, que tocou uma vida funcional apesar das várias faltas, rejeições e tristezas. Imagine o que é você vir de um lar desunido, tumultuado e quando consegue passar no concurso que era o sonho da sua vida, descobre que vai ficar cego e tem que aprender uma nova profissão pra sustentar a família, e ainda viver de novo num lar tumultuado, mas ousar sair de lá mesmo sendo tudo que tem e estando na meia-idade. Agora imagine o que é você perder pessoas importantes da sua vida ainda pequena, crescer, lutar pra ter uma vida com dignidade e se separar de um marido que você não ama, mas que faz chantagem emocional usando a sua carência e enquanto isso você ainda vê sua mãe, a única pessoa que sobrou, definhando e morrendo de câncer. Essas pessoas ainda conseguiam tocar a vida pra frente, serem boas, algumas delas até alegres e todas estavam ali na terapia tentando se reinventar na vida mesmo com tudo contra. Isso não é pra qualquer um. Não mesmo. E eu tinha que ficar ali, frisando essas conquistas que pareciam tão banais aos olhos do mundo e tão aplausíveis naquelas histórias de vida, para que o próprio indivíduo tivesse consciência disso. E esse exercício de autopercepção, naquela uma hora de terapia, ajudava a pessoa a florescer. Sério, é chocante ver como um pouco de escuta impulsiona. Somos seres relacionais, não há como negar.  

Mas o ser humano consegue ser tão estreito na visão de mundo que, como disse o Pequeno Príncipe, o essencial acaba ficando invisível aos olhos. A gente prefere dar likes, carinho e enriquecer gente vazia, mas que tem os signos sociais de distinção do que fazer um elogio a alguém em posição social mais baixa e de características admiráveis. Gente rica, branca, jovem e dentro do padrão fazendo qualquer coisa emociona mais. Nada disso tira os méritos de quem os tem, porém é diferente você dirigir um carro de fazer o mesmo trajeto de sandálias Havaianas. Admitir isso é uma questão de honestidade intelectual. Sinto falta dessa distinção. Sabe a ginástica olímpica, em que a nota leva em conta a dificuldade da apresentação e a execução dela? Esses critérios deveriam reger os julgamentos sociais. 

Eu percebi nitidamente essa violência estudando na Facom. Uma colega era esforçada e ativa. Rica, ela cursava duas faculdades na maior tranquilidade, com toda a estrutura possível, sendo valorizada em cada conquista, enquanto uma outra, que fazia as mesmas coisas, administrava poucos recursos, se sacrificava em longas viagens de ônibus e ainda botava dinheiro em casa era invisibilizada. As duas faziam a mesma coisa, mas só uma era alvo de atenção. Sorte que a pobre foi resiliente e essa história teve um meio feliz, mas nem todo mundo tem essa super força interna - até porque a gente precisa também do reforço externo. Há inegavelmente uma linha que separa quem é considerado humano ou não para a sociedade - e não adianta ficar bravo comigo, que não fui eu quem inventei isso. Na sociedade brasileira, há a crença de que o pobre precisa se sacrificar além do limite da dignidade - e não estará fazendo nada além da obrigação - e com quem é privilegiado é o contrário, e até os esforços e qualidades que deveriam ser básicos viram dignos de exclamações e palmas. No fundo, até essas pessoas são desumanizadas.

Observo que como ninguém presta atenção a atitudes, mas em coisas, todo mundo teme as situações de superação (pelo contexto de vulnerabilidade que representam) e se voltam para as de bonança, mesmo que quem viva isso não tenha feito nada, como se só por estar perto dessas pessoas suas condições fossem contagiosas. A gente anda confundindo inspiração com alienação: olhamos quem a gente gostaria de ser e perdemos a capacidade de apreciar o bom que já somos, nós e os nossos próximos. Como a maioria não está no círculo do privilégio, isso além de ser perverso com o outro, também é consigo mesmo, porque nunca reparamos, validamos e nos fortalecemos olhando para os iguais ou mais resilientes na luta. Em vez disso, alimentamos ressentimentos, inveja e principalmente uma sensação de fracasso baseada na comparação com quem a gente nunca viu a "cozinha".

Isso também me lembra outra paciente que, deficiente física, idealizava a vida de quem não era deficiente. Na visão dela, a vida seria perfeita se não fosse deficiente e ela se socializava basicamente pelo Instagram. Quando sugeri que seguisse, naquela rede, pessoas como ela, ficou furiosa e ofendida. O que uma pessoa que reage assim pensa de si? Mas essa autorrejeição não foi uma construção espontânea; ela aprendeu se socializando, vendo como o mundo social funciona. E uma sociedade capitalista não tem interesse na diversidade, que dá mesmo muito trabalho pra satisfazer, pra comercializar. Cabe a nós hackear esse sistema e uma das ferramentas pra isso, sem dúvida, é o auto amor, que aqui entende-se como a capacidade de ser amigo de si mesmo. Soa simples, mas isso requer uma sofisticação a ser trabalhada por toda vida.


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Equilibrio Distante (Simone Biles + Rebeca Andrade feat Divertidamente)

 




Quanto mais eu envelheço, mais acredito num ponto médio para a maioria das coisas. Urge que a gente trabalhe nisso, especialmente em relação as nossas dores. Não acredito em gente que não sente nada, os pseudo super bem resolvidos. Pela experiência de vida que tenho até agora, dores ocultas se manifestam de qualquer jeito, apenas migram pra outro lugar. Mas acho que a gente não deve se impressionar com as próprias dores. Eu falei impressionar e não ignorar. A gente precisa olhar pra os nossos traumas, mas não muito pra não ser devorado por eles. Equilíbrio distante? Mas acho que vale a pena tentar. 

Simone Biles e Rebeca, a meu ver, conseguiram fazer isso que estou falando. Elas sabem o que aconteceu com elas e dão nome às coisas ruins pelas quais passaram, mas não foram tomadas por isso. A dor virou um localizador, não uma morada definitiva. Sabe aquele papo esotérico de que a vítima não prospera? Pois é, ninguém está nem ai, a gente só se prejudica. Mas o caso é que é muito fácil cair nesta cilada, e ficar querendo reparação, solidariedade, etc. Porque quando você sofre injustiças, um dos pontos de dor é saber que tinha gente vendo, havia quem pudesse impedir e ninguém fez nada. E daí você fica sangrando, esperando que essas pessoas vejam e façam a devida reparação (que não virá) e passa a acreditar que não tem valor. Penso que uma coisa que atrapalha também é a falsa sensação de azar, de que as coisas ruins só acontecem com a gente. E eu acho que é esse o pulo do gato: compreender que não existe vida sem frustração, injustiça, dor, etc. Sofremos não por sermos menos merecedores das coisas boas, mas porque estar na vida é isso aí mesmo. Inclusive, uma das coisas que me incomodam em quem pertence as minorias (e aqui tenho super lugar de fala) é que as pessoas fantasiam que aqueles que não pertencem a sua minoria têm uma vida maravilhosa. Podem ter uma vida menos difícil, mas a vida é complicada pra todo mundo. Marilinha tinha razão: todo mundo vai sofrer. 

É uma pena que o que não falte no século XXI seja gatilho pra disparar a nossa ansiedade.

Por isso que gostei dos dois Divertidamente, aliás uma tradução muito ruim de "de dentro pra fora". O primeiro filme frisa que todos os sentimentos são importantes. A Alegria, que se acha a melhor, tenta de tudo, mas quem resolve a parada é a desprezadíssima Tristeza. O segundo filme deixa bem claro aos jovens que a Ansiedade é do mal (não ela, a bichinha, mas o descontrole dela). No final todos se ajustaram e aprenderam inclusive a acolher a Ansiedade (sentadinha na cadeira de massagem com direito a xícara de chá. genial! haha), mas a mensagem foi passada: a energia que flui quando se é fiel aos próprios valores ajuda muito mais do que a ansiedade de querer se precaver do futuro. A propósito, amei a associação da Ansiedade com a Inveja e com o Medo. Este último toda hora virava pra Alegria: "É, a Ansiedade saberia o que fazer". E não sabia, só armou encrenca pra pobre da Riley. São vários os caminhos, mas no fundo a demanda de todo mundo é a mesma: amor. Não adianta se acabar, se torturar, criar um personagem, competir com os outros, porque esse bem-estar é um lugar dentro da gente que construímos (lógico, o ambiente e as pessoas interferem nisso) com muita perseverança, trabalho, fé e rezando pra ter sabedoria no processo. Afinal, somos os maiores interessados em morar lá. 
 

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Dissidentes

 Voltando ao tema da ansiedade, outro dia ouvi um especialista falando algo que já observei aqui: não é a tela que está produzindo uma geração ansiosa (afinal, televisão e cinema existem há anos), mas sim as redes sociais, que promovem a comparação (mentirosa ainda por cima). 

A comparação lasca tudo, ainda mais quando se é muito jovem. Deus me deu a graça de não ser adolescente na era das redes sociais. 

E o caso é que cada dissidência da norma pede uma competência que a compense aos olhos da sociedade. Aí é que ferra. Com a quantidade de coisas que a gente vê de errado na gente a partir dessa vizinhança do tamanho do mundo que é a rede social, forma-se uma lista enorme de competências que temos que ter pra compensar nossa incompetência existencial. Não bate essa conta e isso nunca ocorrerá. 

Na verdade, apesar de ser um condicionamento muito difícil (afinal, queremos ser amados), temos que largar os "tem que" que a sociedade joga pra cima da gente. 'Tem que" viver o melhor possível (o que pressupõe reconhecer limites e necessidades), e pronto. 

domingo, 9 de junho de 2024

Viver a vida

 




Viver a vida está cada dia mais caro. E não pagamos mais por isso apenas financeiramente, mas no corpo e na alma. 

Muita gente credita isso ao trabalho. De fato, no mundo de hoje não dá mais pra trabalhar 44 horas por semana, de segunda a sábado. Isso é querer matar a pessoa, porque com essa jornada é impossível cuidar da saúde, que dirá viver no sentido da alma. Você vai apenas acordar, tomar gagau, trabalhar, tomar gagau e dormir, como diz Helga de "Abafabanca". Neste modus operandi, quem vai conseguir se aposentar aos 65 anos? Morreremos ou adoeceremos seriamente antes disso.

Mas acredito que o problema transcende a questão do trabalho. Precisamos de mais tempo pra viver? Sim! Mas precisamos ter vida fora do trabalho e a maioria de nós está sendo roubado (e virando robô) pelos mil "tem que" e tecnologias. Tem que ficar sarado e bonito (o que leva muito tempo e dinheiro), tem que ter vida social (e nessa você vai até pra o que você não gosta só pra não ficar em casa e mostrar que está "vivendo"), tem que zerar as séries, tem que interagir com as pessoas no WhatsApp (incluindo o povo do trabalho) e Instagram e em meio a tantas tarefas e tempo e dinheiro escassos, há uma enorme carga mental planejando e administrando isso tudo. Multiplique por dois (três ou mais) se tiver filhos ou pais dependentes. Quem vive num esquema desse? Aquele vídeo da Luana Piovani falando que o Brasil não deixa ela postar foto de biquini é ridículo, é hilário, mas infelizmente é certeiro. Cada vez mais eu entendo os meus parentes mais velhos que decidiram se enfiar na roça. 

Eu estou tentando ao máximo cortar tarefas e necessidades, mas mesmo assim tenho muita coisa pra fazer. Tenho conseguido me salvar de me afundar, mas não de me cansar. E eu tô só nos "tem que", ainda usufruo muito pouco do meu tempo e dinheiro, pois por hora estou fazendo o que tenho que fazer, o que é prioritário para a minha manutenção neste mundo, neste País difícil pra caramba (a sociedade em que se vive precisa entrar nesta conta, pois é fator decisivo, embora ninguém se lembre disso. Tenho plena ciência que não estaria neste sufoco caso tivesse nascido no Norte global, na Suíça ou na Austrália, por exemplo). Eu não tenho condição de gerir ninguém além de mim. Caso quisesse ser mãe, seria uma tragédia, porque eu não teria condição ou traria alguém a esse mundo sob um custo altíssimo pra mim. Eu quero vida, não tá valendo a pena transmitir a outra criatura o legado da nossa miséria, como disse Machado de Assis. Aliás, ele como homem negro, teve um trampo danado pra chegar a um nível razoável de vida. Quando a gente nasce na prateleira de baixo, só a gente sabe quanto custa sobreviver! 

A luta pela sobrevivência é diretamente proporcional ao crescimento do vazio interior. E você acaba mergulhando na luta também para escapar desse vazio, pra não pensar no que está faltando e no que virá, nos seus medos. Sem ócio, como você vai sequer se (re)conhecer? Vez ou outra você se conecta através de uma paixão inesperada, mas o normal é se conectar primeiro pra se apaixonar, porque simplesmente você não vai ver fora o que não existe por dentro. 

E por isso estamos todos adoecendo. Eu não lembro na geração de meus pais de tanta gente doente. Claro, eles tinham problemas, o sofrimento humano é coisa antiga, mas as pessoas não adoeciam em bando com 40 ou menos como agora. Eu tenho pelo menos duas mãos de gente 40- que tiveram câncer ou mal súbito, gente inclusive aparentemente saudável, que malha, cuida da dieta, faz check-up, etc. Uma coisa que aprendi naquela minha experiência como terapeuta é que seguir na vida não depende de fazer força, do famoso "aguentar firme". Se você for nessa, uma hora vai faltar gasolina, você morre na beira da estrada, seu motor pifa. São o amor e o prazer que trazem impulso de vida, que nos fazem seguir adiante. Quando você está sofrendo muito, não é fazer força que vai fazer passar por isso. No máximo você vai conseguir ir no modo zumbi, que é pior que morrer. Você precisa parar, respirar, fazer algo prazeroso, que te conecte com o bom da vida, que vai fazer se reenergizar e conseguir força pra seguir em frente. Parar e respirar. Não há prazer de fato em fazer sexo com todo mundo, comer dez pizzas seguidas, se endividar pra caramba por causa de coisas que você não precisa. Isso é desespero e é justamente essa a intenção desse sistema que te mantém na corrida do ratinho: acordando, tomando gagau, trabalhando e dormindo, pra acordar de novo e repetir o ciclo. É a ansiedade, o desespero e a angústia que vão fazer a gente tomar atitudes desesperadas e depois se acabar pra arcar com as consequências delas. 

Comer, rezar e amar não é só o título de um filme, são necessidades humanas. Só quero ver quando é que a gente vai descobrir isso, coletivamente, e se rebelar contra o sistema. É pra ontem! É pra já!