sábado, 15 de fevereiro de 2025

Afetos Clarice Lispector: quem eu quero não tem rosto



Essa frase é pretensiosa e no fundo sei que não tem o menor sentido, mas é inevitável, ainda hoje, pensar que parece que essa vida quer me ver triste. Cada vez menos tenho predisposição a obedecê-la neste sentido graças a Deus, mas parece que não encontro o que vai me fazer sorrir novamente. Olha, se não fosse eu dando a mão a mim mesma, estava lenhada.

É com pesar que digo essa outra frase, mas é um fato após 44 anos de vida: sozinha eu vou melhor. Acho que meu subconsciente sabe que me saboto muito junto aos outros e acaba me botando perto de gente cuja relação não vai prosperar. Só não precisava exagerar tanto.

Parece que o que quero não tem rosto. Nome até que tem: amizade, amor, lealdade, compromisso, integridade. Mas parece que ninguém tem isso para dar. Ou pra me dar (mas acho que pode ser algo geral porque já ouvi essa queixa de outras pessoas). Acho as amizades em Salvador, pelo menos as que cruzaram meu caminho, muito sem consistência, sem via de mão dupla, pensando na utilidade que o outro tem. As pessoas te buscam pra tapar buraco e pra que você seja útil a elas. Quando acabou a utilidade, beijo e até quando precisar de você de novo. Não vou mentir: com gente que já saquei que a dinâmica é essa e que convivo porque não tem muito jeito, eu tô fazendo o mesmo. Daí quando você muda, ainda é criticado, ninguém se autoquestiona.

Os primeiros 45 dias deste ano me deram boas amostras da desconsideração de pessoas que eu gosto, mas confesso que venho gostando cada vez menos a cada vez que percebo a falta de cuidado. E fico triste comigo que ainda permaneço de junto e me iludo, quando de onde menos se espera, daí que não sai nada mesmo. Acho que deveria me mudar de Salvador porque aqui já virou um ciclo vicioso e eu admito que não sou assertiva e não sei romper ciclos porque não sustento a gritaria que isso traz.

A “variação” disso, pero no mucho, aconteceu na virada do ano. De década em década, um supostamente bom rapaz fica a fim de mim, mas nunca é claro ou chega junto, quando não bota outra no páreo pra ver se eu sim luto pelo princeso, e se chateia comigo me evitando, de uma hora pra outra, e me “dá o troco” arrumando outra na sequência (até quem nunca arrumava ninguém). Nas primeiras vezes que isso aconteceu, achei que a falha fosse minha, me senti péssima e até tentei ficar amiga de qualquer jeito. No fundo me achando um lixo, não vou mentir, por não merecer nem uma conversa. Eu não era o lado apaixonado, os caras sim, e mesmo assim eu tinha que ser punida por não ter seguido o script desejado. Por mais que racionalize, é inevitável não me sentir usada, humilhada, agredida e azarada. Falam da puxada de tapete feminina, mas nada se compara ao cara que quer botar pra fuder em cima de você. Eles sabem pegar pesado, eles sabem usar a violência. 

O sujeito da caixa de som do trabalho fez a mesma coisa porque manifestei que não estava curtindo um desrespeito que acontecia há meses. Ver o lado do outro?! Pra quê?! E a isso ainda segue uma tentativa de me punir. Neste caso, ele não fala mais comigo e eu vou ficar bem com minha cara de paisagem fingindo que não tô percebendo. Mas, no fundo, essa violência me choca e me assusta, porque é uma coisificação do outro, que não tem querer, que não tem identidade. É uma falta de respeito de ser humano pra ser humano. Eu só presto se me submeter sem ser também um indivíduo, sem ter as minhas questões postas. E neste caso não fiz nada além de levantar e passar a me sentar em outro lugar. Eu tinha que ficar do lado ouvindo um trio elétrico no meu pé do ouvido que não me deixava trabalhar direito?! É brutal como o bicho homem hétero nem disfarça (ser ruim é do ser humano, mas dobra de potência neste gênero e identidade sexual). Lobo em pele de cordeiro quando interessa, mas joga a pele pra bem longe e uiva assim que se vê contrariado. Nunca falha. Anota aí na agenda: nem os “bons” são bacanas de verdade.

É triste demais que nem mulheres em relações longas acreditem que estão com alguém legal mesmo, que o homem vai ficar. Todo mundo conta com a possibilidade de abandono a qualquer momento. Que entrega você é capaz de fazer em uma relação assim?! 

Mas hoje, pessoa crescida, só acho que a criatura não queria. Até pizza, quando a gente quer comer, a gente pede. O povo deseja e ainda quer pedir "delivery" por telepatia?! Se gostando está assim, imagine quando não mais gostar? Te chuta, né? Aliás, chuta antes disso, quando chega a primeira frustração. E acho que Deus me livrou de mais uma. Sabe, uma hora esse lado egoísta e pirracento viria à tona, então melhor mesmo antes de começar, porque depois que você já idealizou e se apaixonou, dói demais. Se de amigo já dói, imagina de par.   

No meu mundo, amigos formam comunidades e o que todo mundo quer importa igualmente. As pessoas se olham, se percebem e se cuidam. Tempo é questão de prioridade e mesmo havendo situações e situações, as pessoas arranjam algum espaço, algum dia pras outras de quem dizem gostar.

No meu mundo, se alguém se apaixona por você, não vai criar dúvidas e nem vai ficar fazendo joguinhos e muito menos vai querer “dar o troco” pra sair por cima (levando inclusive outra pessoa nos lugares que você mais gosta, inclusive perto da sua casa. Isso não é buscar a própria felicidade, é querer atiçar o outro, descontar; é violento). A pessoa é direta, íntegra e generosa. Eu não tô pedindo e muito menos contando com a perfeição, mas eu prezo demais quem gasta energia tentando acertar. Isso faz toda a diferença pra mim.

Nunca me deparei com esse tipo de pessoa que desejo encontrar. Mudando um pouco o que disse Clarice, quem eu quero não tem rosto. Mas, por enquanto, eu não me emendo e continuo acreditando em Jung, que diz que o amor custa caro e é uma péssima ideia faze-lo barato. As pessoas podem sair por cima, mas não vejo como isso pode trazer felicidade.

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