terça-feira, 7 de março de 2017

Nem todas as vidas são iguais

Aos 30 e quebrados (mais para uns, menos para outros), vejo que meus amigos já estão cansados, precisando, mas sem muita disposição para recomeçar.
Alerta: eu ando com o "baixo clero", gente de classe média baixa, classe média média, que vem superando os pais em escolaridade.
Meu amigo de 32 anos diz que se lenhou muito fazendo a faculdade, que não tem mais energia para recomeçar. E se fosse só a questão da profissão... A depender da sua configuração social, você vai sofrer duas vezes para conseguir, quem sabe, chegar lá, materialmente e subjetivamente. Não é só o ônibus de Lauro de Freitas ao Canela que cansa, mas ser invisível e subestimado de tantas formas.
Daí, quando você considera as dificuldades para se chegar a determinado objetivo (porque já está, afinal, cansado de ter subido outras "ladeiras"), sempre tem um escroto que vai dizer que quem quer, consegue. Sim, consegue, se houver uma determinação descomunal e ainda uma pitada de sorte. Mas, me diga, quem tem coração para sustentar, 40, 50 anos, assim? O corpo é de carne e a carne envelhece, se desgasta, cansa. Tem gente que não sabe o que fala. Ou melhor, não sabe nada da realidade ao redor.
A gente ignora coisas básicas como, por exemplo, que as qualidades não são exatamente dons de nascença. Elas precisam de contexto para florescer. Aprendi isso no trabalho, a propósito. Coragem, por exemplo, não é uma coisa para todos. Cada um tem uma situação na vida. Ali, no trampo, eu era corajosa porque não tinha apego demasiado ao trabalho, possuía a capacidade de ver os maus feitos e não tinha nenhum dependente pra sustentar. Para outras pessoas seria mais arriscado e, para outras, inconveniente. Outros eram incapazes de reconhecer os problemas.
Ser doce. Isso depende não só da personalidade, mas de condição social. A vida dura não produz muita gente meiga porque exige força, persistência resistência.
Não é possível que seja coincidência que mais gente violenta nasça na periferia que na classe média. Isso não é coincidência, é um problema, um padrão.
Só não vê quem não quer.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Deixem Ivete Sangalo em paz

Quase todo mundo gosta de Ivete Sangalo, mesmo quem acha um saco ela viver em cima do muro e desconfia que, como empresária, seja meio predadora pelas histórias que circulam por aí. É que ela tem carisma e, no meu caso, chama também a minha atenção a lucidez dela, que eu acho rara num meio em que as pessoas são vaidosas e sem noção.
Mas o Brasil pira a cada ato banal da cantora. Eu não entendo, porque acho natural fazer coisas normais, ainda que você seja rica e famosa. Isso não é ser especial, é ser lúcida, normal, equilibrada. Como muitas vezes acontece, a histeria fala mais sobre o histérico do que do objeto que a impulsionou. O brasileiro acha que poder não deve rimar com simplicidade, que quem tem dinheiro e fama nunca pode agir naturalmente. Não é só se ver nela (na condição de "pobre", hoje), mas reconhecer, ainda que inconscientemente, que, uma vez no lugar dela, não agiria do mesmo jeito que hoje. Ai, Brasil!...
Na moral, a única coisa que me choca em Ivete é ela ter tanta paciência com gente. Isso, sim, é impressionante para os dias atuais (risos).

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Nada a ver (ou O que querem as mulheres)

Mulheres, como os homens falam merda sobre a gente. Impressionante!... Estava lendo um texto bacana sobre o tal macho alfa e quanto homem falando babaquice nos comentários.
Homem se ilude que dinheiro e fama vão atrair qualquer mulher, por mais babaca que ele seja. Não é bem assim. Mulher que segura essa onda - pra mim, pelo menos, seria um martírio - quer um "homem troféu" assim como esse homem quer uma "mulher troféu". Parece que muitos cristalizam os traumas da adolescência. Mas muito do que eles nos acusam a gente também sofre. Você pode ser a melhor das mulheres, que se não tiver atrativos físicos vai dançar. Eu vejo muito mais mulheres com caras inferiores a elas que o contrário. O pior homem terá uma mulher, no mínimo, melhor partido que ele. É que nós nos esforçamos mais. Aliás, se a coisa não estivesse tão fácil para eles, elas não se sentiriam tão pressionadas a alcançar a perfeição.
Lógico, no começo da vida, quando você é adolescente e está tentando se testar, você vai ligar pra gente que é mais apreciada socialmente, querendo sugar esse prestígio. Mas, com o amadurecimento você percebe que isso conta pouco, que o que vale é a pessoa te valorizar, é o encaixe de personalidades e expectativas. Tá certo que eu sou um ser que tende a uma lógica pouco popular na sociedade, mas mesmo quando era adolescente, o modo como me tratava era preponderante para me despertar sentimentos. Olha, por um par de vezes eu percebi que despertei sentimentos em rapazes considerados bonitos, um deles era bastante disputado na escola, acho até que era o mais disputado (esse é o lado A de ser uma mulher estranha: a maioria não vai ter olhos para você, mas quem tem se impacta porque justamente há algo diferente ali que não se encontra fácil). Eu achei legal, claro, desse último eu até gostei muito, mas não fui atrás porque não demonstraram fazer questão de mim, além de não saber muito o que fazer nessas situações até hoje, confesso. Você pode dizer que isso é antiquado, mas para mim é muito importante. Sempre observei que, num relacionamento, as mulheres costumam tomar à frente depois que o namoro começa, então se um homem não está disposto nem a dar o primeiro passo, que posso esperar dele?
Não posso falar por todas, obviamente, mas creio que, como canta Tina Turner, o que toda mulher quer é "a little reaction". É ação, vontade de estar junto. Isso não tem nada a ver com agressividade, com ansiedade, com ser chato ou fake. Seja você mesmo, mas esteja presente. Apenas isso. Um homem bacana, que demonstre amar sua companheira, responsável e com quem ela possa contar. Simples assim (lembrando que a questão da química física também é importante, não dá pra ficar com quem você não sente tesão e ninguém é obrigado a isso, né?). Mulher, via de regra, se excita percebendo que atrai o homem. Bem, se a mulher é competitiva, vai gostar de tomar a iniciativa e, principalmente, de disputar o macho com outra. E isso tá mais para vaidade que para amor. Se for do meu clube, vai interpretar a falta de atitude como falta de interesse e vai brochar com isso, afinal, quem te quer de verdade não te põe em dúvida, em bola dividida.
Enfim, a coisa não tem e tem segredo ao mesmo tempo. Mas se nem todos são agraciados com beleza e status, a maioria pode se tornar charmosa, se se despuser a isso, claro.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Manifesto 08 de março

Fiz um teste hoje que perguntava qual era o meu tipo junguiano. Deu "o rebelde". Bem, se você olhar pela descrição clássica, estereotipada da coisa, não vou ter nada a ver com isso. Mas se considerar que eu sempre me esforço a pensar por conta própria e sigo um caminho bastante próprio, apesar das cartilhas sociais... Nada mais subversivo nesse século 21 de performances sem substância e repetitivas facilmente aplaudidas nas redes sociais e de confrontos de "facções" ideológicas.
Eu vejo dois grupos distintos, basicamente, disputando o palco da esfera pública, atualmente: um, dito mais progressista, defende avanços nos Direitos Humanos e quer parecer civilizado; o outro deseja preservar as tradições e quer soar sério, sólido e imaculado, à prova de "modismos". Dá vontade de dizer aos "apocalipticos" que a liberdade também tem as suas armadilhas, como tudo na vida, e que é um processo, portanto não adianta querer que as coisas aconteçam de uma hora para outra. Mesmo as pessoas de coração aberto vão levar tempo, porque, a propósito, não existe desconstrução, como andam dizendo por aí. Existe é a construção de novos pensamentos e valores e isso não se faz usando varinha de condão, mas aprendendo, confrontando saberes e assimilando aos poucos os novos hábitos. Dá vontade de lembrar, ainda, que defender ideais de liberdade não faz ninguém automaticamente melhor, até porque tem um monte de gente "desfilando nesse bloco" sem saber quem é e o que quer, apenas seguindo a manada porque, justamente, estar nesse roll confere uma aura de civilização, sofisticação, um selo que vale muito para quem quer fazer parte de alguns meios e ser considerado por um certo tipo de gente. Olhando algumas dessas pessoas atentamente, é impossível não notar que, na prática, a teoria é outra. Para o grupo que anda mais magoado, ressentido e deprimido (pela recente exposição das suas mesquinharias e agressões ao longo da História... Bem, um dia a casa tinha que cair mesmo...), o recado é mais breve: Migos, ninguém quer mexer com vocês, não pirem na batatinha achando que há complô gayzista, cristofóbico, maconheiro e feminazi. Ninguém estaria nem aí para vocês se não quisessem tanto atrapalhar as decisões dos OUTROS, que nada tem a ver com vocês. Acho bem razoável que cada um viva como quer. Problema seu se os seus valores estão caindo em desuso e parecem menos atraentes ao longo do tempo, se seus privilégios estão diminuindo, como, aliás, tem que ser. Você não deveria se indignar tanto quando uma minoria aponta a sua opressão histórica, as vantagens que arrancou à força, porque essa história não é só dos privilegiados, mas dos oprimidos e, portanto, é bastante razoável que eles tenham o direito de contá-la. Uma dica: faz parte da experiência humana, é pra frente que se anda (às vezes), mesmo que seja pra dar topada. Assim como pra turma dos "apocaliptícos", é conveniente destacar que ser um "integrado" não te faz automaticamente uma pessoa melhor, séria e respeitável. Isso é conquista de uma vida, um esforço contínuo e existem vários modos de viver uma determinada faceta, não há fórmula pronta como vocês acham que existe.
Minha sensação é que estou entre dois mundos. Porque eu tenho valores e sentimentos que são considerados anacrônicos, antiquados, segundo a cartilha dos civilizados. Sabe, acho legal ser vegano, mas não vou me violentar, se eu sinto falta de produtos de origem animal, para parecer um ser humano melhor, até porque - ok, parabéns para quem consegue - não é isso que faz alguém ser melhor. Por outro lado, acho doentio esse apego ao passado, à tradição, vejo mais sentido em lutar pelo que ainda não se experimentou - embora a mudança pela mudança às vezes não seja interessante, não represente ganho - do que ficar abraçado ao que está limitado, por costume, por medo, por teimosia. Só sei que eu já aceitei que não adianta me forçar a nada. As coisas vão acontecer no meu tempo e do meu jeito. Eu gosto muito de pensar com a minha própria cabeça, odeio me ver pressionada a ser como alguém (ns) espera(m).
E é isso que para mim é ser uma pessoa do meu tempo. É, diante da gama de informações e possibilidades, saber pensar por conta própria e agir conforme a minha cabeça/natureza. Só assim, acho, poderei dar alguma contribuição, criar algo, transformar as coisas, nem que seja só para mim mesma - há muito tempo eu já me liberei da utopia de salvar o mundo; se conseguir só comigo, já haverá tido revolução e das grandes.
No Dia Internacional da Mulher, numa época em que está tão em voga a questão do empoderamento das minorias, eu gostaria que as mulheres saíssem um pouco do "discurso pronto de caixinha" e se conectassem mais com as suas almas e, através dessa singularidade, fossem mais solidárias às buscas e recusas das outras e outros. Outro dia, conversando sobre isso com uma amiga, ela reproduziu uma interessante observação feita por uma amiga dela, que disse mais ou menos assim: "Quando eu passei batom vermelho, as pessoas comentaram que eu estava empoderada, elogiaram. Mas no dia em que eu saí sem batom, sem maquiagem, ninguém comentou meu empoderamento". Tá vendo aí como até gente que se acha "pra frentex" pode ter uma visão óbvia, decepcionante? Um mundo livre é um mundo onde todo mundo tem a mesma dignidade, qualquer que seja o "cardápio" escolhido. Como se vê, estamos bem longe disso. Por isso, meu povo, é "lutai e vigiai" sempre, até as hierarquias se afrouxarem de vez. Com sorte e perseverança, quem sabe daqui a uns três séculos a gente chega lá.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Minha eterna desconfiança das multidões

Estou há dois dias com ressaca moral por ter dito algumas coisas a um amigo que é militante, mas que tem os lados A e B da "geração tombamento": a audácia e a arrogância. Nem houve desrespeito ou coisa do tipo, não foi nada de mais. Eu apenas comentei com ele sobre um texto de um blog que detonava o oba oba da cibermilitância negra diante do comercial da Avon que, supostamente, celebrava a "diversidade". Confesso que me solidarizei imediatamente porque achei ridículo um caso parecido, o oba oba em cima da abertura do último "Amor & Sexo". Ok, é um feedback valioso para a luta, mas bater palminhas para quem abraça a causa depois que ela vira algo comercialmente interessante é demais para meu Tico e meu Teco, na boa.
Claro, há pontos no texto do blog que são dispensáveis, mas há outros interessantes, sem dúvida, que não são nada de outro mundo, mas que a militância se recusa a aceitar, como qualquer crítica vinda de fora (nem sei se são capazes de fazer críticas entre eles, de tão doutrinados que parecem às vezes). Vi esse texto numa lista com vários militantes e os contra argumentos se resumiam a: "Lá vem o homem branco querendo nos ensinar a como pensar e agir" e "Mas a luta de classes é inerente à luta racial (porque o autor da crítica basicamente defende que isso é o cerne da questão, a luta de classes, e que o Movimento Negro já fica de sorriso de orelha a orelha apenas por ser percebido como consumidor, o que ele julga como uma reação medíocre). Meias verdades, né, mores? Nada fora do comum nessa época de "pós-verdades". E o pior: ditas com a convicção absoluta de quem, a despeito da capacidade intelectual (que eu considero alta, o que aumenta a decepção), se acha a régua do mundo, em especial dessa causa. Eu vejo algumas explicações para isso, mas falarei mais a respeito adiante.
Meu amigo me ignorou em alta, ficou no silêncio absoluto, como se eu não tivesse dito nada a ele, reação típica de quando ele discorda, mas não quer aparentar que ficou afetado. Contracenei com ele fingindo que não havia notado o texto contido no silêncio  dele - sim, a ausência de texto é obviamente um texto em si - e desse jeito "la nave va", né?
Eu tenho uma relação ambígua com a cibermilitância (de certo modo, são os mesmos problemas da militância, mas pelo menos a galera do mundo físico tá gastando gogó e suor, tirando a bunda do sofá e isso eu respeito, até porque eu deveria me engajar mais também, embora eu eventualmente participe das reuniões e passeatas). Por um lado, eu acho massa que as pessoas estejam discutindo e que, por conta disso, estejam exercendo pressão e causem efeitos relevantes. Do outro, vejo muita gente se comportando que nem criança e se achando a régua do mundo, o próximo Martin Luther King. Nesse último ponto, três coisas me irritam em particular: a) O comportamento de manada, de todo mundo repetir o mesmo discurso, me levando à suspeita de que não pararam sequer para refletir sobre ele; b) A violência com que tratam qualquer tentativa de argumentação contrária; c) A autopromoção de algumas pessoas que usam essas bandeiras como se fossem uma roupa de grife e você percebe claramente que a criatura não estaria nesse fogo todo se não fosse chique ser engajado socialmente em alguns círculos sociais. Levantar certas bandeiras, reproduzir determinados discursos confere uma aura de civilidade 0800 a qualquer figura, ainda mais quando a criatura tem o "fisique du role".
Tive uma colega na turma de pós-graduação que ancora a identidade dela em cima do Movimento Feminista. Sério: se você soprar isso, só sobram os óculos e o cabelo (mas, para deixar bem claro, pra não dar uma impressão contrária e inverídica, eu diria que ela é uma boa pessoa, uma moça esforçada, apesar do lado B que vou relatar a seguir). A jovem tem 22 anos, é um exemplar típico da classe média que faz parte da "geração tombamento" e é seguida por vários pares nas redes sociais, onde praticamente ela fala só disso: de feminismos, empoderamento e de solidariedade e reconhecimento das minorias. Houve um dia, em uma disciplina que falava sobre África, no qual ela, moça branca, sinalizou que sempre quis muito perguntar algo ao povo do Movimento Negro, no entanto morreu na praia, apesar da afetuosa insistência do grupo, em especial daqueles mais competentes para responder esse tipo de questão (no MN, confesso, eu gosto das mulheres mais velhas, aquelas que aprenderam com a vida, que deram a cara pra bater quando isso marginalizava de fato uma pessoa. Havia algumas delas na minha sala, para a nossa sorte! <3). A moça repetia, com muita ênfase, que tinha medo de magoar alguém. Mas eu saquei logo o personagem, que a razão principal para a hesitação era outra: o medo de parecer menos esclarecida e arranhar a imagem de "moça desconstruída" que ela tanto se esforça para consolidar, especialmente nas redes sociais e que traz reações fortes e apaixonadas de seus seguidores. Enfim, ela perdeu uma oportunidade de aprender para preservar a imagem de engajada. Sim, meus caros, porque é falando (eventualmente) besteira e principalmente sendo humilde que a gente aprende. Faz parte, como cantava Raulzito, "dizer agora o oposto do que eu disse antes". Por que, aliás, disse lá em cima que aquela conversa com meu amigo me deu ressaca moral? Porque além do gelo dele, que indicou uma recusa em conversar comigo (e o motivo real nunca saberei, embora tenha desconfianças), admito que realmente posso não estar vendo algo importante e falando besteira. Mas como saber sem testar, sem questionar, sem me lançar? Enfim, a dúvida gera angústia, ainda mais quando você se preocupa em pensar "certo", em ser o mais justo possível...e em ter um argumento melhor do que o seu opositor mediano, para quem você não quer perder a discussão, hehe.
Mas, olha, a militância é a minha implicância mais light quanto a grupos. Pois é, eu percebo que minha desconfiança é, na verdade, voltada à merda em potencial quando há muita gente junta; a muito comportamento parecido, o que não é nada natural, obviamente; de muita boa intenção, na quantidade mais que suficiente para encher o inferno duas vezes. Eu sempre acho que em muitos casos há algo por trás, uma grande motivação que não quer se fazer evidente, sob a capa da civilidade, da moral e dos bons sentimentos. Pode culpar o meu Mercúrio na casa 8, descrito pelos textos astrológicos como "cônscio da motivação", na falta de explicação mais satisfatória e lógica.
Não é por nada não, apenas sou humana e como ser humano - do tipo que escrafuncha a própria sombra - eu sei que sempre existe um lado B e verdades internas que, na melhor das hipóteses, nem nós mesmos reconhecemos. Não é um cenário belo o das segundas intenções, mas é plenamente humano. Por que as pessoas se recusam tanto a admiti-lo? É tão útil, apesar de doloroso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Tudo serve para alguma coisa (ou a alegria no dia a dia)

Quando viajei pra prestar o TRT 20, em Sergipe, fiz amizade com uma fisioterapeuta concurseira chamada Carla. Fomos e voltamos conversando muito sobre isso.
Confidenciei que detestava estudar Informática, que não entendia como aquilo ainda era cobrado em concursos. Ela falou algo interessante: apesar de todo mundo saber mexer com computador, a matéria otimiza o seu tempo nele. E arrematou: "Eu aprendi um monte de atalhos que nem imaginava. O lance é esse: procurar o lado bacana de cada matéria, ter interesse no que está aprendendo".
Isso serve para a vida. Por pior que seja, tudo traz algum aprendizado. E se não podemos vencer o inimigo...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Dez lições de HIMYM


É madrugada, eu zapeio a tv e lá está a série passando... Como não assistir, ainda que com uma dublagem horrorosa? <3
Há uma sabedoria sobre a vida, por trás da bobajada cômica de HIMYM, que me cativa. Não acredita? Vou provar com esse post. Take a look:

1- Não dá pra ser o que éramos antes porque simplesmente a gente muda, a vida anda.
Essa foi a lição do episódio que assisti ontem de madrugada. Ted e Marshall, esse último recém casado com Lily, se recordam das viagens que faziam de NY a Chicago só para comer a pizza favorita, nas quais cometiam atos insanos, na época de faculdade. Com ciúmes do casamento do amigo e usando como pretexto o fechamento da tal pizzaria, Ted convida Marshall pra ir até lá, mas além de carregar a esposa a tiracolo (fusão que incomoda demais Ted, já que esse é um programa de "bros"), ele ainda muda a programação da viagem para adequá-la às expectativas dela. Ted, revoltado, sequestra o amigo, mas a viagem é um fiasco: nem eles se divertem como antes e nem a pizza valia mais a pena. Enfim, é melhor aceitar que as coisas mudaram do que se frustrar tentando que sejam as mesmas de novo.

2 - Amar é ceder.
Lily foi odiada por alguns fãs da série depois que Marshall desistiu de uma vaga de juiz para acompanhá-la até a Itália a trabalho (a carreira dela nas Artes é nada promissora; ela tem o sonho, mas não possui talento suficiente). Eles brigaram feio, mas Marshall cedeu porque entendeu que isso era muito importante para Lily, que teve poucas boas chances profissionalmente. De volta aos EUA, ele conseguiu ser juiz e, então, houve happy end.
Ted também deu uma lição nesse sentido ao fazer o possível para que o casamento de Robin (o eterno crush) e Barney (seu amigo) desse certo por entender que eles se amavam e que isso era importante para os dois. Enfim, quem te ama vai levar em conta, no frigir dos ovos, o que te faz feliz.

3- Nada de bom acontece depois das 2 da manhã.
Essa é a máxima da mãe de Ted frequentemente repetida e comprovada durante as nove temporadas.

4 - Às vezes, é mais adequado ser estratégico que correto.
Quando (quase) se casou com Stella, uma mãe solo, Ted desobedeceu um pedido da noiva, de que os exs dos dois não fossem convidados para a cerimônia, pois poderiam trazer à tona sentimentos desagradáveis ou adormecidos. Mas Ted não conseguiu dispensar a presença de Robin e por isso mesmo se sentiu na obrigação de convidar o ex-marido e pai da filha de Stella. Resultado: perdeu a noiva para o sujeito porque eles reataram o casamento ali mesmo. Ou seja, às vezes, mais do que fazer o que seria "correto" ou agradável, devemos ser estratégicos nas nossas decisões.

 5- É impressionante a força que as coisas têm quando precisam acontecer.
Mas a série também ensina, em vários momentos, que o que tem que ser seu vai ser seu, ainda que não pelo caminho que você esperava. Não adianta querer controlar o destino. O exemplo mais marcante é o que dá nome ao seriado. Ted só conhece a mãe quando decide parar de correr desesperadamente atrás de qualquer garota na esperança de encontrar a mulher da vida dele e ser tão feliz quanto Lily e Marshall. Quando ele se desapegou dessa obsessão, o destino imediatamente passou a agir a favor e, sem esperar, acabou conhecendo a mãe do título, com quem foi muito feliz.

6- Há momentos em que é preciso abrir mão para ficar bem.
Essa é outra lição recorrente no seriado, que se passa em boa parte durante os anos da recessão americana. Vários episódios retratam a dificuldade dos personagens de realizar os sonhos, especialmente os profissionais. Em um deles, Lily, que queria ser artista mas acaba como professora do Jardim de Infância, aconselha Ted a mudar os rumos da profissão, já que as frustrações nessa área estavam lhe fazendo muito infeliz. Até Marshall, que sonhava em defender o meio ambiente, entende que, casado e em início de carreira, terá que, temporariamente, abstrair certos ideais em nome das contas a pagar.
Enfim, se o plano A não deu certo, tente o B, C, D, etc, mas procure um jeito de ficar bem.

7 - Não adianta ir contra a própria natureza.
Composta de cinco pessoas, a turma de HIMYM tem personagens para todos os gostos. Barney e Robin, os desapegados emocionalmente, por um tempo, quando se apaixonaram, acharam que poderiam mudar, serem "como todo mundo", mas se separaram quando entenderam que não tinham essa aptidão para a vida a dois, que se nem por amor conseguiram mudar, tinham que se aceitar como são. E isso não significa ter uma vida inferior em qualidade: Barney se preencheu com a paternidade e Robin, com a carreira.

8 - A sociedade encara muito diferente homens e mulheres.
Há uma situação interessante em HIMYM: se por um lado temos Barney, o "pegador" clássico, temos, por outro lado, Robin, uma mulher que pouco se vincula aos homens com que se relaciona, terminando relacionamentos sem sofrer muito e tocando a vida adiante. Barney apenas é "grosse", sem noção, mas Robin é frequentemente incompreendida por seu jeito de ser, que não causaria estranheza caso fosse um homem. A começar pelos fãs. Muitos não aceitam bem as negativas da repórter às investidas de Ted. Mas o que ela tem de errado, afinal? Ao contrário de Barney, ela não engana pessoas só para tirar vantagens pessoais. É apenas uma mulher tranquila, que namora quem ela quer, gosta de beber, não quer se casar e ter filhos, prefere a companhia de seus cachorros e investir na profissão e curte esportes. Robin é melhor pessoa que Barney, porém é mais julgada e passa por mais crises só por ser mulher.

9 - A gente perde muito tempo se iludindo que o que a gente quer é melhor do que o que a gente tem.
O melhor exemplo disso é quando Lily termina o noivado com Marshall para ir atrás de uma bolsa de artes plásticas em São Francisco, achando que com o casamento iria perder toda a diversão e aprendizado que poderia ter na vida. Na prática, ela confessa depois, nunca esteve tão infeliz e deslocada do que durante esse período e ter rompido com o noivo não acrescentou nada a ela pessoalmente ou profissionalmente.
Ted é outro caso de autoilusão. Passou o seriado inteiro querendo ser Marshall, casar logo e ser feliz pra sempre, o que acabou acontecendo mais tarde pra ele e por outro caminho. Cada um dos dois, a seu modo, teve uma boa vida. Enfim, não adianta querer a vida dos outros porque cada um terá uma receita de felicidade.

10 - A infelicidade é péssima conselheira.
Há um episódio no qual a turma observa que toda vez que Ted se dá mal, está infeliz com a própria vida, cai na tentação de voltar para ex namoradas problemáticas, o que nunca acaba bem. É aquela coisa: a pessoa tá tão na merda, por baixo, que prefere estar mal amada, mas recebendo alguma migalha para o seu ego, do que só. O ápice disso é o relacionamento dele com Robin: passou nove temporadas dando errado, mas toda vez que ele estava carente, sem ninguém, caía na tentação de tentar mais uma vez conquistar a amiga, sem sucesso, lógico. O seriado, aliás, terminou assim (mas não sabemos se dessa vez o milagre Ted & Robin finalmente aconteceu).

Bônus track - 11: O grunge nasceu no Canadá.
Uma das melhores partes do seriado são os flashbacks da carreira de pop star adolescente de Robin no Canadá. Há ótimas sacadas dos roteiristas!

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

É mais fácil admitir a existência de uma doença do que a existência do mal

Contardo Calligaris
FSP 19.01.2017

Em junho de 2015, em Charleston (Carolina do Sul, EUA), Dylann Roof, 21 anos, atirou nos fiéis, todos negros, que estavam rezando na Emanuel African Methodist Episcopal Church, uma igreja antiga e gloriosa para a comunidade negra norte-americana –desde o tempo da escravatura até a época da luta pelos direitos civis. Foi por essa relevância simbólica que Roof escolheu o lugar do seu ataque.
Balanço: nove mortos e três feridos. No primeiro depoimento, Roof confessou sua matança rindo. E disse que pensava ter matado só quatro ou cinco, no máximo. Quando soube que eram mais, pareceu satisfeito.
Roof declarou ter agido na esperança de iniciar e fomentar assim, pelo seu ato, uma guerra racial.
Uma das vítimas lhe perguntou por que ele estava atirando. Roof o matou respondendo: "Vocês estupram nossas mulheres e estão assumindo o controle do nosso país. Vocês tem que ir embora".
Em dezembro de 2016, Roof foi reconhecido culpado por um tribunal federal. Em janeiro começou a segunda fase do processo, em que seria decidida a pena.
Nessa fase, Roof pediu para ser o advogado de si mesmo, porque não queria que seus defensores atenuassem sua culpa alegando sua insanidade mental. Contra a vontade de Roof, a defesa pediu que ele fosse declarado doente e incapaz de ser advogado de si mesmo.
Numa nota de seu diário, Roof escreveu: "Quero declarar que sou moralmente oposto à psicologia. É uma invenção judaica, que só inventa doenças e diz às pessoas que elas têm problemas que elas não têm".
Robert Dunham, que dirige o Death Penalty Information Center (centro de informação sobre a pena de morte) comentou: "Imaginemos que o júri enxergue Roof como mau, ou seja, como alguém que fez a escolha consciente e racional de matar pessoas inocentes e devotas, e isso, na intenção de fomentar o ódio racial. Nesse caso, a condenação de Roof à pena de morte é muito mais provável do que se o júri acreditasse que ele é uma pessoa jovem e profundamente doente, que agiu sob a influência de crenças racistas delirantes".
Ora, Roof não quer que suas ideias e motivações sejam consideradas doentias. Em 4 janeiro, na abertura da segunda fase do processo, ele disse aos jurados:
"Vocês devem ter ouvido que a razão pela qual eu escolhi ser advogado de mim mesmo é para evitar que meus advogados me apresentem de maneira errada. Isso é absolutamente correto."
"Eu me represento, não vou mentir sobre mim mesmo. Meus advogados me obrigaram a passar por duas audiências de capacidade mental, não porque eu teria um problema. ["¦] O ponto é que eu não vou mentir para vocês ["¦] Não há nada de errado comigo psicologicamente."
Entendemos facilmente de onde vem o horror que essa declaração nos inspira. Em síntese, para nós, é mais fácil admitir a existência de uma doença ou do erro do que a existência do mal.
Preferimos pensar que Roof esteja errado (mal-informado, extraviado pelas redes sociais etc.) ou, então, que seu erro seja efeito de uma tremenda neurose familiar ou de uma psicose a pensar que ele seja "apenas" alguém que pensa diferente de nós.
Imaginamos ser "tolerantes" e abertos, mas, no fundo, preferimos imaginar que quem pensa diferente de nós esteja doente. Numa briga, o último recurso do ódio é um "Vai se tratar", que condena tudo o que o outro diz e faz à irrelevância.
Enfim, onde estaria a doença de Roof?
1) Ele seria doente pelo que acredita e que motiva sua ação. OK, mas distinguir o "certo" do delirante não é simples. Muitas de nossas crenças são extravagantes quanto as de Roof; só não percebemos sua extravagância porque as compartilhamos com muitos outros. Um delírio coletivo não parece mais um delírio (pense nos dogmas religiosos, por exemplo).
2) Ele seria doente por causa da certeza absoluta, que o impede de discutir e mudar de opinião. De fato, na clínica, a sensação de certeza incontestável é a marca do delírio. Mas essa certeza se tornou hoje um sintoma social banal: é por isso que, na internet, parece que todos procuram apenas o que confirma suas crenças.
Em suma, Roof pode ser louco, mas não é fácil dizer por quê.
Agora, para Roof, ser considerado doente implicaria a irrelevância de seus pensamentos e de seu ato, como "coisa de louco". Seria melhor e mais digno ser condenado à morte, como ele foi em 13 de janeiro. A execução, como sempre acontece, vai levar tempo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Provas de autovalor

Ontem rolou a polêmica no grupinho (e graças a Deus, dessa vez não tô no meio): até que ponto é brincadeira zoar com uma característica de um amigo, algo que a pessoa tem bem latente? Há de acrescentar que essa zoeira está acontecendo no trabalho e que gente de fora do grupo já tá brincando com o sujeito, que está visivelmente incomodado, mas para não ser desagradável, fica quieto. Minha teoria é de que isso está acontecendo com ele não porque tenha algo a mais para ser criticado que o restante do grupo. É uma mistura de senso crítico (afinal, o que dizem não é mentira) com malícia (sabem que a pessoa fica mexida) e covardia (sim, porque o alvo da brincadeira não vai reagir. Esse tipo de coisa não acontece com quem reage). A pergunta que eu fiz foi simples: se o jogo virar, se ele começar a atacar o teto alheio (porque o de todo mundo é de vidro), vocês vão aguentar a brincadeira? Frequentemente quem brinca não gosta de ser alvo de brincadeira. E quando você é menosprezado, a consequência é, se não sair de perto, desenvolver desprezo por quem lhe molestou. E daí começam as críticas, que minam o afeto. Perceba que por trás de toda mulher que esculhamba o marido existe uma esposa deixada às moscas, menosprezada...
No entanto, cá entre nós, a atitude do coleguinha que tá sofrendo bullying gera um certo desprezo porque é falta de autoestima empanada em vaidade. As pessoas se irritam com mentiras e sempre haverá quem queira desmascará-las. Ele simplesmente se autoelogia por qualquer coisa. Tá fazendo algo banal e acha que tá botando pra foder. Fica visivelmente deslumbrado com elogios. Eu sinceramente acho que a gente tem que fazer bem feito e ficar feliz com o próprio sucesso, porque custa suor e não acontece todo dia, mas se você se deslumbra, você não tá fazendo isso pra você mas para os outros. E essa é uma armadilha perigosa à beça, além de ser uma forma de perder a dignidade.
A certa altura, esse amigo admite que se sente assim porque hoje ocupa um espaço que não imaginava ocupar, ele que vem de uma família de pouco dinheiro. Eu entendo e meu entendimento até extrapola o lado pessoal dele, isso tem uma dimensão política e social no grupo do qual ele pertence.
Mas um amigo em comum, de perfil semelhante, falou algo que é a chave dessa situação, quando disse que ele nunca se colocou nesse lugar, de quem nunca seria nada. Pelo visto, o outro amigo está deslumbrado porque jamais se imaginou nesse lugar que ocupa hoje, no qual qualquer um vê que ele tem competência para estar. Não precisa pirar com isso. No fundo, é tudo uma questão do lugar que você mesmo se coloca. Se você não concorda quando te subestimam, os outros não vão poder fazer muita coisa contra você.
Claro, quem não é ingênuo ou hipócrita sabe que se você não é rico, branco, homem, jovem, magro e hétero, tudo que você fizer vai ser subvalorizado e não é fácil lidar com isso. Eu percebo isso desde criança, mesmo em situações em que eu levava a vantagem. Sempre fui inteligente e responsável, sempre gostei de artes, mas eu só me preocupei com o meu boletim quando percebi que era a senha para ser bem tratada pelos professores. Mas nunca fiz disso o que eu sou. No fundo, sempre tive raiva daquela frase, do tipo "Ah, ela é inteligente". Onde fica o ser humano, né? Aliás, joguei pra cima quando percebi que tinham me resumido a isso, no segundo grau, mas, por azar, fiz isso quando precisava mais que nunca ser assim, na Facom.
Então, se você não faz parte do grupo naturalmente valorizado, você tem que ter em mente que esse é um problema do mundo e não seu. O que sempre me segurou, apesar de ter passado por coisas muito duras e desde cedo, foi saber quem eu sou e sacar as intenções dos outros, as limitações das pessoas. Não é todo mundo que a gente tem que ouvir, nem todo mundo tem inteligência ou olhos para a gente (mas isso não quer dizer que só devemos ouvir quem nos elogia; há quem saiba criticar o que deve ser resolvido). Lógico que a violência produz efeitos e eu tive e tenho que lidar com eles, saná-los, mas você tem que saber quem você é e não entregar essa resposta para os outros que, inclusive, podem usar essa fragilidade para fazer perversidade e, na melhor das hipóteses, vão te ver pela perspectiva deles. A sociedade não é criada para lidar com as diferenças, mas para hierarquizá-las.
Somos seres relacionais, nos confirmamos através dos outros, mas se você está em um grupo e percebe que é mais ou menos bem tratado de acordo com o que você ostenta, esse grupo não é seu. Amor que é amor vê graça até nos "defeitos" (só aprendi isso recentemente com a minha sobrinha). Se pique, porque vai ser esforço em vão, frustração constante. Cada vez mais me convenço que o que é bom vem de graça, você não precisa se esforçar, se podar, correr atrás. A reciprocidade apenas acontece. Qual a finalidade de querer entrar em clubes que não te aceitam? Isso é autossabotagem. Meu amigo Anderson só anda com gente parecida com ele e as coisas fluem. Talvez seja essa a chave do sucesso nas relações: buscar quem tem natural afinidade.
Mas ninguém ensina isso pra gente quando somos muito jovens. A gente acha que tem que caber nos espaços mais "legais" custe o que custar. Ensinam que o que é bom tem que ser batalhado (blá, blá, blá). E depois vê que perdeu um tempo enorme, um tempo no qual poderia estar procurando a própria turma. A gente leva tempo demais até perceber que o que nos preenche são os afetos e não o status.


Essas coisas que nos matam por dentro

Ontem finalmente eu assisti "A Escolha de Sofia". Enrolei porque sabia que ficaria arrasada. E fiquei. O filme é de lenhar: bom roteiro, excelente direção de atores, enfim, bem feito (soube que supera o livro, que divide opiniões).
(SPOILER) No final, a gente sabe que a escolha de Sofia foi entre deixar o filho ou a filha ir para a câmara de gás. Se ela não decidisse, ambos iriam. Ainda teve a presença de espírito de pensar rápido e optou pelo garoto, mais velho, com mais chance de sobreviver, que ela nunca mais viu. A menina, apavorada, tadinha, berrou assustadoramente. Fiquei preocupada porque aquela atriz mirim não estava interpretando; ela estava realmente assustada. Aliás, soube que Meryl Streep se recusou a filmá-la outra vez e disse que, como mãe, seria uma tortura.
Eu, no lugar de Sofia, também optaria (e era optar ou ver os dois morrerem. Qualquer mãe tentaria salvar pelo menos um), mas provavelmente pela menina, que estava no colo, era mais frágil e estava muito assustada, o que não adiantaria muito, porque uma criança pequena tem menos chance de sobreviver. E ficaria fodida pelo resto da vida, porque não tem como não morrer em espírito depois de uma dessa. O nazista teria tido mais misericórdia matando logo os três. Mas ele sabia o que estava fazendo.
Pois é, há situações em que dificilmente dá pra gente ser humano de novo. O filme explora muito esses aspectos psicológicos, que no caso de Sofia são bem complexos: além das violências física e simbólica do holocausto, ela tinha uma relação ruim com pai, a quem odiava, mas ao mesmo tempo seguia. Quando os judeus estavam sendo levados da Polônia, país dela, não se importou. Até que aconteceu com ela, que ficou ainda tentando se distinguir dos demais, pra cair fora, alegando que não era judia, entre o desespero e a arrogância. E ainda sofria violência do namorado americano, que também é um personagem rico psicologicamente.
Sofia conseguiu sobreviver, mas estava sem nada daquilo que pra ela tinha significado. Culpada por ter sobrevivido e os filhos, não. Sem conseguir esquecer a filha que entregou aos nazistas, mesmo sem ter tido culpa.
Como as pessoas conseguem sobreviver a certas coisas? Eu me impressiono.
O mal também pode nos atingir - Há uma coisa interessante nesse filme: Sofia não é uma pobre inocente, ela é uma personagem ambígua. Primeiro que o pai dela era um acadêmico do Direito, católico, que defendia o extermínio dos judeus. Não que ela fosse exatamente como o pai, a quem odiava, mas foi criada assim e, covarde que era, no fundo ficava aliviada porque enquanto levavam os judeus, a guerra não a atingia. Até recusou ajuda a um amante judeu e à irmã dele, que roubaram uns documentos da Gestapo e pediram que ela os traduzisse do alemão, alegando que poderia pôr em perigo a família dela. Os dois morreram e pegaram a família dela inteira, inclusive o pai antisemita, do mesmo jeito.
Moral da história: você se omite achando que não é com você, mas quando o fascismo toma conta, sobra pra todo mundo.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Um ano ímpar na minha vida!

Perdão pela piadinha de segunda, hehe, mas analisando os fatos de ontem, eu concluí que há chances deste ser um ano importante.
Vejamos: os anos em que começo pagando vexame são anos de mudanças na minha vida. O último assim foi 2010, quando fui cortar o cabelo com uma pessoa qualquer que me deixou feito um Playmobil, sobrando pra Mônica consertar o estrago e então ela acabou fazendo o melhor corte que já tive - apesar do baque, num primeiro momento, de ter o cabelo na altura da nuca.
Naquele ano, eu inaugurei o hábito de viajar e entrei no jornal, o que reconfigurou toda a minha vida profissional.
Ontem, pulei elétrica, que nem o coelho da Raiovac, de tão bêbada, deixei o celular cair no mar e terminei a noite abraçada ao vaso sanitário. Tá confirmado: estou com sorte!

How I Met Your Mother - finalmente o final

Após nove temporadas, finalmente me despedi de HIMYM. Tá sendo agridoce. Eu precisava mesmo perder o vício - assisti as nove temporadas em um mês -, mas vou sentir uma saudade da zorra dos personagens.
A série não é nada de mais, mas é redondinha, muito bem feita, bem amarrada e não caiu de qualidade, o que é um grande feito pra quem ficou nove anos no ar. Em alguns aspectos HIMYM lembra Friends, mas eu a considero até superior porque tem mais drama. Se o espectador prestar atenção, ela traz muitas lições boas sobre a vida, sobre se tornar adulto, sobre as pessoas, o destino e as necessidades de cada um. Tô sofrendo agora, admito.
Acabei de ver o episódio final e apesar dele fazer muito sentido, racionalmente, na boa (contém SPOILER), não entendo o casal ficar junto no final. Quer dizer, entendi a intenção dos autores. Ted sempre quis ter uma família; Robin sempre focou na carreira, sempre quis sair pelo mundo e não pode ter filhos. Então, para finalmente ficarem juntos, seria preciso que cada um se realizasse primeiro - e que Robin finalmente percebesse que ama Ted, ao contrário do que pensava até ele se casar.
Mas se Ted  fosse meu amigo, ficaria preocupada. Olha, tem que ter um grande coração, realmente, para ainda correr atrás de Robin. Porque por mais que você entenda e tenha carinho pela outra pessoa, vários episódios acumulados de rejeição não são pouco abalo para uma relação, não digo nem de amizade, porque até dá, com o tempo, para recupera-la, mas de amor. No mínimo, agora seria a vez de Robin ir atrás dele. Enfim, ou Ted é "awesome" ou houve ali muita ficção.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Esotérica

Esse foi um ano, digamos, esotérico. Porque, diante de caminhos nebulosos, só o trabalho e a fé salvam. Sério. 🙌(Nessa hora eu sinto falta dos emotions do meu celular, na boa. :( )
A parada espiritualista, na verdade, tinha tido início no ano passado, por causa das meninas da pós-graduação. Pois bem, a coisa foi mais profunda em 2016. Vamos à retrospectiva:
- Jogo de tarô: influenciada por Terena, entrei num curso para aprender a jogar com os arcanos maiores. Isso foi em abril. Engraçado que no final de 2015, enquanto procurava um livro pro aniversário de Flavimir, vi um livro que ensina a jogar tarot e o comprei.
- Iluminati: uma boa ideia que por diversas razões não foi pra frente. Mas nos dois meses em que fiz parte da empresa aprendi sobre umbanda, magia, meditação, tarot e até banhos. Meditação guiada funciona. E banho de alecrim é bom para restaurar a alegria.
- Festa de Oxóssi: em maio, fui pela primeira vez na umbanda (que pretendo voltar um dia, mas dependo de encontrar um lugar confiável - isso é de extrema importância - e de comprar um carro, pois essa galera se mete em cada lugar, que Deus é mais!...). Logo na festa do meu orixá. A entidade me mandou jogar flores brancas no mar... Um amigo disse que isso é coisa de Oxum. Suspense: serei eu filha de Oxum e não de Yemanjá?!😕
- Jogo de búzios: Oxum, Oxóssi e Omolu me acompanham. Bem, enfim, eu sou das águas. Espero que Oxum me perdoe por eu já ter dito que ela é superestimada. 😬
- Cigana: Voltando para casa com uma nova colega umbandista, que tem uma cigana que a acompanha (e que ela incorpora tão sutilmente que mal dá pra perceber, quando está jogando cartas ou lendo mãos), pedi a ela para ler a minha mão. Ela disse que vê um casamento para mim e que numa vida passada meu matrimônio terminou em morte (não soube dizer se minha ou do meu esposo). Falou que perto dos 40 minha vida ia mudar positivamente, que seria como uma nova encarnação dentro dessa encarnação.
- São João, Cruz das Almas: tive um sonho muito louco, mas que me deixou intrigada. O mesmo Oxóssi que eu vi na festa me mandava o recado. Era pra eu entregar meu violão a um homem e eu brigava com a entidade, que mandava que eu não resistisse e obedecesse. Cortava para uma imagem que aparecia a data de 12.08. Corte: um homem moreno, um pouco mais velho que eu e com pinta de empresário surgia. O sonho teve outros desdobramentos envolvendo pessoas conhecidas e que pegariam mal aqui, hehe. Uma pessoa mais espiritualista interpretou como um homem de Oxóssi vindo por aí... Mas eu não tenho nada a ver com empresário, gente! Ih... 😲
- Dia 12.08 eu recebi um torpedo da Uneb dizendo que havia sido aprovada em Direito. Eu não tinha índice para isso e nem me lembrava de ter feito essa escolha no Sisu.
- 11 de dezembro: estava ansiosa e sonhei com o resultado da etapa final da seleção do mestrado. A tela do meu computador, no meu sonho, aparecia turva. Tinha a impressão de ter visto meu nome, mas por ela estar dobrada, não conseguia ver. Acordei sem saber se tava ou não na lista. Na quarta, abri a lista e não estava. Na sexta, após recurso, estava lá.
- Hoje: sonhei que procurava apartamento e encontrava um legal na Federação. Dessa vez para morar sozinha. Estava acompanhada de amigos, que me ajudaram a escolher o apê.


PNL

E aqui estou eu, no último dia de 2016, dez anos, um mês e 25 dias após a criação desse blog. :)
Sim, sou feliz em escrever, mesmo que seja para falar das mesmas coisas por mais de dez anos, hehe...
Esse foi um ano em que me despedi do passado, mas ainda não dei olá ao futuro - e isso é muito difícil, acreditem, porque produz um vazio dos diabos. Trabalho por um amanhã melhor às cegas, na fé de que uma hora vou colher os frutos. Foi um ano de muita introspecção, de solidão, que eu encarei com uma dignidade que me impressiona até agora. I´m a survivor, como diz Beyoncé.
E numa época em que eu achei que a depressão ia me pegar feio novamente, por acaso, descobri as palestras do Dr. Helio Couto no Youtube. Ele é uma espécie de precursor da PNL (Programação Neurolinguística). Comecei a ouvir os áudios dele sobre diferentes temas (autoestima, coragem, determinação, prosperidade, relacionamentos, etc) e, de forma impressionante, notei mudanças, sutis mas ainda assim significativas. Eu me tornei mais resiliente, mais calma, mais focada e mais confiante. Não ainda nas doses necessárias, of course, mas houve uma melhoria que foi o suficiente para botar antigos planos em andamento: consegui, depois de 13 anos, finalmente fazer um projeto de mestrado (e passei!); consegui mudar a alimentação e fazer exercícios, eliminando sete quilos; consegui, depois de quatro anos, começar a estudar para concurso. Até consegui assistir A Sete Palmos, que Anderson havia me emprestado há mais de um ano. Troquei a melancolia pela ação e recomendo a todos. Mas talvez isso, essa força de vontade, só surja quando você se sente de algum modo pressionado pela vida a agir. Me senti demais em 2016 e, graças a Deus, dessa vez consegui reagir.
Já tinha ouvido falar de PNL. Meu ex-terapeuta, Djalma Argollo, já havia me indicado um livro, A Qualidade Começa em Mim, de Tom Chung. Mas naquele turbulento 2013, eu nem prestei atenção. A gente nunca acha que tem tempo para novas ações. Em tempos de dificuldades, a gente costuma seguir no piloto automático, esperando que a vida nos salve. Mas dificilmente isso acontece. Então às vezes a vida precisa tirar tudo que te distrai para que você tome providências e mude de rota. Essa foi a minha vida em 2016.
A PNL trabalha com a lógica de que o mapa não é o território, ou seja, as suas crenças não são você, portanto você pode mudá-las, atraindo a vida que você merece. E o primeiro trabalho de "limpeza" deve ser o do autoamor, do autoperdão. Se eu errei, era o que eu tinha condição de fazer naquela situação. Paciência. O passado não volta. O que temos é o presente, então foquemos nele. ;)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ted também não ama Robin (How I Met Your Mother)

Muitos fãs concordarão que a repórter canadense de How I Met Your Mother não ama Ted, que passou nove temporadas eventualmente atrás dela. O que poucas pessoas (ou nenhuma) percebem é que Ted também não ama Robin. Vejamos: quando ele está feliz com alguém, ela é só uma amiga. Quando ele está carente ou ela está séria com outra pessoa, tende a correr atrás dela. Ted deseja desesperadamente encontrar uma Lily e acha que, por se darem bem como amigos (e Robin não fazer questão dele, o que frequentemente é instigante), é só questão de conseguir o amor da amiga que a vida amorosa se resolverá. Isso não vai acontecer com ninguém até que ele pare de agir ansiosamente. Robin não é a mulher da vida dele só porque tiveram um romance mal resolvido. Isso tem nome: autossabotagem.
Barney também não gosta tanto assim de Robin. É que ela é a única que não espera nada dele e é a única que o deixa seguro justamente por causa disso. Se ela fosse grudenta-esposinha como Lily, ele sairia correndo. Robin, na verdade, é a versão feminina e sem egotrip de Barney. Eles são muito iguais para darem certo. Ted é intenso demais, eles nunca seriam um casal. Querendo muito encontrar alguém, os três confundem carinho com amor.
Na verdade, apesar de ser um fofa, Robin é o pior tipo de gente para se relacionar porque ela não se apega a ninguém. Ela uma hora acha que gosta de A, depois acha que gosta de B... Gente que não se vincula é melhor cair fora. Ted deveria se tocar disso. Mas a indústria cultural prega que você tem que correr atrás (eu concordo, contanto que haja uma chance real, né? ficar no vai e volta é coisa de quem não sabe o que quer e nem tá muito a fim de verdade de querer alguma coisa), que o que vale a pena é sofrido e muita gente se lasca nessa.

ps.: ainda estou na sexta de nove temporadas.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Dizer ou não dizer... Eis a questão!

Dois amigos meus costumam discutir bastante, mais por conta de questões da profissão. Um nunca aceita as correções e o outro sabe disso, mas insiste em dizer. Quase tudo que ele fala está correto, pelo menos me parece coerente, mas do que adianta se o outro não tem disposição de ouvir?
Eu fico neutra e sinceramente dividida. Um lado meu questiona por que achamos que temos que sempre dar a nossa opinião? Claro, tô falando da opinião não solicitada. Não faria como uma amiga que me deu uma cortada me perguntando por que eu queria saber a opinião dela. Óbvio: porque você quer que seus amigos mais íntimos deem opinião; você confia no discernimento deles e quer ver se a sua opinião é justa, coerente, comparando-a com outras respeitáveis na sua opinião. Eu não perguntaria certas coisas ao pipoqueiro. Mas se a pessoa não se interessa pelas suas questões, não custa nada respeitar. Por outro lado, minha Lua em Sagitário (risos) acha que onde minha expressão não é aceita não me interessa ficar. Não sou elegante, não sou discreta, detesto pisar em ovos e tenho ódio secreto de situações/pessoas que me forçam a isso. Eu nunca amaria realmente alguém que me cerceasse na minha autoexpressão. Isso é básico. Love it or leave it.
O caso é que há vários meios de silenciar a pessoa: não prestando atenção na figura, diminuindo a validade da opinião dela, contestando cada coisa que a pessoa diz, valorizando mais quando outra pessoa dá uma opinião ou até mesmo não dizendo nada. Claro que, eventualmente, essas coisas acontecem. Eu estou falando de hábitos na conversação. É muito chato conversar com gente que desdenha a sua opinião, mais ainda se for gente próxima. Porque se há intimidade, há vontade de trocar ideias. Mas o que fazer se o outro acha que você só fala bobagem (alguém que nunca concorda com você, por inferência, acha que você não fala o que preste)? É tenso. O julgamento/silenciamento está ali, implícito, e ninguém ousa falar sobre isso. Aliás, se falar, acabará a amizade. Meus dois amigos não discutem isso, mas uma hora, receio, o conflito virá. Ninguém é criticado longamente sem desenvolver mágoas. A seguir cenas...  E eu continuo na dúvida. hehe...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quando a Síria deixou de ser longe demais de mim



Essa foto foi tirada há um ano e meio, com um colega muito especial da excursão pela Cidade do México, Munir, um sírio-venezuelano que bem poderia ser brasileiro. Munir foi a primeira pessoa, numa excursão da terceira idade (risos), a falar comigo na van. Sentou do meu lado e começou a falar mal do governo de Maduro, apontando para um meme de internet no celular, de um prato de comida em que a proteína animal, um pedaço de frango, estava desenhada em um pedaço de papel. Eu fiquei assustada com a abordagem à queima roupa, mas também achei engraçado. Munir seguiu o discurso indignado, contando que a Venezuela estava pior do que quando chegou ao país, no final dos anos 50. Ficamos best friends durante a viagem (com direito a ponga em várias das minhas fotos! hahaha). Uma pena que nunca mais a gente vai se ver.
Munir é comerciante, pelo visto muito bem sucedido, porque ele e a esposa viajam umas quatro vezes por ano para destinos nada baratos. Ela é mais fechada, foi se chegando aos poucos, até porque viu que estava sozinha (para uma mulher árabe, estar solteira e sozinha numa viagem deve ser o fim da picada, um atestado de forever alone, rs) e que Munir e eu havíamos estreitado laços. Ele tem alma de cachorro vira lata e conversa com to-do mun-do, fica alegre ao te ver como se fosse a pessoa mais importante do universo falando com ele. Virou o mister simpatia da viagem, xodó de guias e garçons - nem tanto assim de um dos guias, Carlos, sujeito seríssimo que perdia a paciência com as interrupções e intervenções sem noção de meu amigo, hehe.
Lembro muito dele quando ouço coisas sobre Aleppo. No último dia no México, ele falou que, se a situação melhorasse, visitaria seus parentes de lá. Não melhorou. Será que a família dele na Síria ainda está viva? Como está a situação dele na Venezuela? Toda a alegria de Munir não merece esse duplo bombardeio. Será que ele continua feliz? Tomara. Odiaria saber que, depois de uma vida que me pareceu tão bonita, meu amigo da van está sofrendo em sua velhice e não por culpa dele. Mundo, na boa, você está precisando melhorar.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Quando o passado volta (e ele não é nada gatinho)

Há três dias, fiz a temida entrevista do mestrado da Facom. Eu nem deveria querer falar disso, mas há uma sabedoria por trás do episódio, então vamos lá (risos).
Depois de um susto com uma professora que saiu berrando da sala (por motivo justo até, mas a cena me deixou mais apavorada ainda), estava lá eu sozinha, sentada no banco à espera da minha vez, pensando que cazzo eu queria voltando pra Facom. Vi um professor que uma vez me disse algo negativo passando pelo corredor e, de repente, a bad vibe daquele lugar voltou à memória. Lembrei também de ter dito na cara de um professor da especialização, oriundo da Facom, ainda esse ano, que pretendia fazer mestrado, mas não na Facom, Deus que me livrasse disso. Então, lá estava eu, sentada, tensa de ter que ficar de frente pra aquele povo de novo, sendo avaliada, traumatizada pelo passado, sem saber direito se eu queria voltar pra ali ou não. Até regredi aos cinco anos de idade e mandei mensagem para um amigo que adoro, ansioso crônico, desabafando: "Véi, quando é que a gente vira adulto de verdade nessa vida e para de se apavorar?". Ele ainda se deu ao trabalho de responder: "Nunca. Relaxe, menina".
Então, chegou o moço que seria entrevistado depois de mim. Um doce de criatura, mas mal sabe ele que contribuiu pra meu mal estar quando disse que havia perdido a seleção ano passado justo na entrevista. Eu entrei, passei sufoco, achei que não fui bem, saí e avistei uma conhecida, que seria entrevistada depois do rapaz. Precisava desopilar a mente e resolvi puxar papo com ela.
Nos sentamos e uma terceira moça chegou. Concentradíssima, cara séria, de quem faz o que faz - jornalismo corporativo - enquanto nós duas, de gerações diferentes da Facom, falávamos sobre as mudanças dela. Por duas vezes, a moça pediu desculpas e nos interrompeu, dizendo que havia se identificado com as nossas histórias. Como mulher às vezes é um bicho graciosamente doido, acabamos trocando as três confidências. Eu me senti tão identificada com a experiência dela que tá difícil não chamá-la de Juliana, apesar de saber que o nome dela começa com uma das últimas letras do alfabeto. Foi aquela coisa, né: menina classe média baixa, mestiça, se mete na Facom, acha aquilo o inferno em vida, muita humilhação, mas pensa duas vezes porque já foi um feito e tanto chegar ali, segue em frente, quer sair o mais rápido possível dali, luta por cada oportunidade na vida profissional, cresce, mas, quando volta ao velho lugar de deslocamento, se sente indefesa de novo, novamente. Ela também estava se perguntando que cazzo fazia ali?
Bem, ao contrário de mim, ela se fez essa pergunta antes de entrar nessa barca. A análise dela, que vou levar pra vida, é que está voltando para o mesmo lugar, que pode, infelizmente, ainda continuar o mesmo lugar ruim, mas o caso é que ela mudou, evoluiu. E é nisso que pretende se segurar. Sim, que bom que a gente evolui (em alguns casos).

Decisão

Apesar de discordar aqui e acolá, eu gosto de ouvir as palestras de Medrado, da Cidade da Luz. Eu não devo ser lá muito inteligente pra vida, mas tento buscar orientação, rs.
Dia desses, ele palestrou sobre força de vontade. O argumento dele era muito bom - pelo menos eu penso assim, já que comprovei isso na prática esse ano: para ter força de vontade é preciso decidir.
Se você fica em dúvida, não vai conseguir ir em frente. Uma vez que você decide, a coisa anda. Pode até demorar a se concretizar, mas anda, se direciona.
Dois dias depois, li algo, no Insta, que achei interessante e dizia assim: "Equilíbrio é pensar com a emoção e sentir com a razão".
Para decidir, portanto, tem que haver um equilíbrio. Refletindo sobre algumas coisas que disse a uma amiga e que acredito que foram bons conselhos, me perguntei se o que eu disse foi oportuno. Sim, porque posso estar coberta de razão, mas se eu digo certas coisas a quem não está preparado pra digerir aquilo, em vez de ajudar, estou implantando mais elementos de angústia para a criatura. Melhor mesmo é deixar que cada um siga na sua, por mais que doa, às vezes, ver a pessoa indo ladeira abaixo. Vou procurar não ajudar quem não me busca. Essa é uma decisão e dificílima. Vamos ver se haverá força de vontade.

Relacionamentos tóxicos

"E, se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó de vossos pés."
(Mateus 10: 14)

Como escrevo com pouca frequência ultimamente, nem lembro direito o que já falei aqui esse ano.
Eu contei que, com muito tempo livre para pensar, passei por uma revisão interna e tentei zerar questões que ainda estavam pendentes? Pois é, pelo sim, pelo não, deixarei pra lá essa história. Apenas é importante dizer (ou relembrar) que foi um completo fracasso. Tomei na cara em todas as tentativas. Antes tivesse ficado quieta no meu canto. Mentira. Foi decepcionante, mas foi ótimo para derrubar ilusões e me dar a real, uns insights significantes: quando um não quer, dois não se dão bem. Melhor deixar ir quem não faz e nunca fez esforço pra ficar. A vida é assim mesmo, cíclica e o natural é que o que já foi próximo um dia se afaste. Ah, se eu tivesse essa consciência há dez anos, vinte anos... Não tinha perdido tanto tempo, não tinha sofrido tanto, não tinha me prestado a ser saco de pancada de gente egoísta, não teria dito tantas coisas que não (me) fizeram bem e que, pior, não resolveram nada.
Eu comecei a ter amor próprio. Então, mesmo que alguém goste muito de mim, se essa pessoa não me trata bem, eu não sou ruim por ir embora. Essa sempre foi a minha maior dificuldade de sair de relacionamentos tóxicos (é perverso o modo como as meninas são criadas, forçadas a passar sempre por cima de si mesmas para satisfazer os outros). Meu maior compromisso é me proteger. Amar não pode ficar só na teoria - sim, pra quem não sabe, afeto abandonado à míngua morre de fome. Não, não. E eu sou uma pessoa muito da prática. Acho até que minha dificuldade em sair de Salvador é essa: amor, pra mim, é presença e a distância afasta mesmo, a não ser que os dois lados tenham amor pra valer e força de vontade. Eu preciso de interação, interesse. Meu afeto não se satisfaz com gente calada, ausente, não dura na unilateralidade. "All I want is a little reaction...".
Vendo TV agora, Dr. Oz discute relacionamentos tóxicos. Mãe que humilha a filha gorda, o marido que sabe que a mulher está doente, mas não ajuda no tratamento... Um horror! Eu acho que de certas mágoas não dá pra se recuperar. Quer dizer, até dá, o que não dá pra recuperar é o relacionamento. Esse nunca mais será o mesmo. Enfim, amar e não falar a mesma língua é muitíssimo complicado. Tem que ter química, não tem jeito.
Curioso que ontem eu assisti um filme muito bonitinho e que tratava desse tema: "As vantagens de ser invisível". Em determinado momento, o protagonista, um menino fofo e inocente apaixonado pela personagem de Emma Watson, pergunta ao professor por que gente legal namora gente ruim. O mestre responde: "Cada um tem o amor que pensa merecer". Bingo!
Deus me ajude a pensar direito.