terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Manifesto 08 de março

Fiz um teste hoje que perguntava qual era o meu tipo junguiano. Deu "o rebelde". Bem, se você olhar pela descrição clássica, estereotipada da coisa, não vou ter nada a ver com isso. Mas se considerar que eu sempre me esforço a pensar por conta própria e sigo um caminho bastante próprio, apesar das cartilhas sociais... Nada mais subversivo nesse século 21 de performances sem substância e repetitivas facilmente aplaudidas nas redes sociais e de confrontos de "facções" ideológicas.
Eu vejo dois grupos distintos, basicamente, disputando o palco da esfera pública, atualmente: um, dito mais progressista, defende avanços nos Direitos Humanos e quer parecer civilizado; o outro deseja preservar as tradições e quer soar sério, sólido e imaculado, à prova de "modismos". Dá vontade de dizer aos "apocalipticos" que a liberdade também tem as suas armadilhas, como tudo na vida, e que é um processo, portanto não adianta querer que as coisas aconteçam de uma hora para outra. Mesmo as pessoas de coração aberto vão levar tempo, porque, a propósito, não existe desconstrução, como andam dizendo por aí. Existe é a construção de novos pensamentos e valores e isso não se faz usando varinha de condão, mas aprendendo, confrontando saberes e assimilando aos poucos os novos hábitos. Dá vontade de lembrar, ainda, que defender ideais de liberdade não faz ninguém automaticamente melhor, até porque tem um monte de gente "desfilando nesse bloco" sem saber quem é e o que quer, apenas seguindo a manada porque, justamente, estar nesse roll confere uma aura de civilização, sofisticação, um selo que vale muito para quem quer fazer parte de alguns meios e ser considerado por um certo tipo de gente. Olhando algumas dessas pessoas atentamente, é impossível não notar que, na prática, a teoria é outra. Para o grupo que anda mais magoado, ressentido e deprimido (pela recente exposição das suas mesquinharias e agressões ao longo da História... Bem, um dia a casa tinha que cair mesmo...), o recado é mais breve: Migos, ninguém quer mexer com vocês, não pirem na batatinha achando que há complô gayzista, cristofóbico, maconheiro e feminazi. Ninguém estaria nem aí para vocês se não quisessem tanto atrapalhar as decisões dos OUTROS, que nada tem a ver com vocês. Acho bem razoável que cada um viva como quer. Problema seu se os seus valores estão caindo em desuso e parecem menos atraentes ao longo do tempo, se seus privilégios estão diminuindo, como, aliás, tem que ser. Você não deveria se indignar tanto quando uma minoria aponta a sua opressão histórica, as vantagens que arrancou à força, porque essa história não é só dos privilegiados, mas dos oprimidos e, portanto, é bastante razoável que eles tenham o direito de contá-la. Uma dica: faz parte da experiência humana, é pra frente que se anda (às vezes), mesmo que seja pra dar topada. Assim como pra turma dos "apocaliptícos", é conveniente destacar que ser um "integrado" não te faz automaticamente uma pessoa melhor, séria e respeitável. Isso é conquista de uma vida, um esforço contínuo e existem vários modos de viver uma determinada faceta, não há fórmula pronta como vocês acham que existe.
Minha sensação é que estou entre dois mundos. Porque eu tenho valores e sentimentos que são considerados anacrônicos, antiquados, segundo a cartilha dos civilizados. Sabe, acho legal ser vegano, mas não vou me violentar, se eu sinto falta de produtos de origem animal, para parecer um ser humano melhor, até porque - ok, parabéns para quem consegue - não é isso que faz alguém ser melhor. Por outro lado, acho doentio esse apego ao passado, à tradição, vejo mais sentido em lutar pelo que ainda não se experimentou - embora a mudança pela mudança às vezes não seja interessante, não represente ganho - do que ficar abraçado ao que está limitado, por costume, por medo, por teimosia. Só sei que eu já aceitei que não adianta me forçar a nada. As coisas vão acontecer no meu tempo e do meu jeito. Eu gosto muito de pensar com a minha própria cabeça, odeio me ver pressionada a ser como alguém (ns) espera(m).
E é isso que para mim é ser uma pessoa do meu tempo. É, diante da gama de informações e possibilidades, saber pensar por conta própria e agir conforme a minha cabeça/natureza. Só assim, acho, poderei dar alguma contribuição, criar algo, transformar as coisas, nem que seja só para mim mesma - há muito tempo eu já me liberei da utopia de salvar o mundo; se conseguir só comigo, já haverá tido revolução e das grandes.
No Dia Internacional da Mulher, numa época em que está tão em voga a questão do empoderamento das minorias, eu gostaria que as mulheres saíssem um pouco do "discurso pronto de caixinha" e se conectassem mais com as suas almas e, através dessa singularidade, fossem mais solidárias às buscas e recusas das outras e outros. Outro dia, conversando sobre isso com uma amiga, ela reproduziu uma interessante observação feita por uma amiga dela, que disse mais ou menos assim: "Quando eu passei batom vermelho, as pessoas comentaram que eu estava empoderada, elogiaram. Mas no dia em que eu saí sem batom, sem maquiagem, ninguém comentou meu empoderamento". Tá vendo aí como até gente que se acha "pra frentex" pode ter uma visão óbvia, decepcionante? Um mundo livre é um mundo onde todo mundo tem a mesma dignidade, qualquer que seja o "cardápio" escolhido. Como se vê, estamos bem longe disso. Por isso, meu povo, é "lutai e vigiai" sempre, até as hierarquias se afrouxarem de vez. Com sorte e perseverança, quem sabe daqui a uns três séculos a gente chega lá.

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