segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

While my eyes...

"... go looking for flying sources in the sky"

Elogiam Gil, babam por Chico, mas eu prefiro Caetano.
Alosa se gaba de fazer aniversário na mesma semana que o mais ilustre filho de Santo Amaro. The Fraud não andou verificando o calendário direito: tá mais perto de Ney Matogrosso que de Caê. Hummmm!... hahahaha
Mas deixemos Alosa para uma outra hora...

Para variar, estava pensando à toa [preciso, urgentemente, aprender a meditar!]. Pensava sobre esse tal de livre-arbítrio. Já acreditei muito nisso, mas, sinceramente, hoje acho que isso não tem nada de arbítrio muito menos de livre - eu, pelo menos, sinto que apito pouquíssimo nesse jogo.
Viver não é uma experiência a la carte assim como dizem. Não mesmo.
Às vezes você quer, faz uma força dos diabos e morre na praia. E quando você força a barra e consegue, paga mais na frente. Enfim, temos liberdade mas não somos livres. "Os deuses vendem quando dão. Melhor saber...".
A melhor metáfora da vida em que já pensei é a Porta dos Desesperados do programa do Sérgio Mallandro. Ahhh, eu achooo! Sem tirar nem pôr!... Você tá lá, com uma platéia barulhenta e imbecil na sua frente [a sociedade], um apresentador presepeiro do seu lado [a consciência] e três portas cara a cara com você, das quais podem sair desde uma tevê de plasma até um macaco horroroso. As portas são iguais; sua única ferramenta de escolha é a intuição. [Chamem os reclames do plim-plim!]
Eu queria deixar de mão e, como pregava Osho, viver somente no presente, sem esperar, sem julgar, sem desejar. Mas me disseram que eu tenho que fazer alguma coisa com a minha vida. E essa alguma coisa presume um plano. Esse plano, estratégias e metas. E essas estratégias e metas, ação, algum domínio da situação e expectativas. Mas se eu faço isso, às vezes sou impedida [em certas horas, vê-se claramente a mão do destino te desviando do seu plano], quando não também desiludida. E se eu não tenho mais ilusão, como ter expectativa? E se eu não tenho mais isso, como entrar em ação? Alguém me explica como alguém faz para agir sem esperar nada, eliminando o ego e a ansiedade?

Racionalmente, poderia despejar aqui um monte de frases que suportariam essa afirmação acima. Mas sendo realista, acho quase impraticável. Osho, Chico Xavier, Buda, todos esses caras, aposto!, não viveram plenamente o que pregaram. Eles são, acima de tudo, humanos, e portanto, não são muito melhores que eu ou você. Até Jesus Cristo resmungou contra Deus na cruz!... Complicado! Tá difícil... O despojamento da individualidade é, dizem, a chave da felicidade, porém essa é, definitivamente, uma modalidade existencial cronicamente inviável.

O que, afinal, Deus espera de mim, de nós?

É. A vida é feita para não-humanos – e tenho dito!




domingo, 21 de dezembro de 2008

Um país sem valores

Justificar

Não, talentos não nos faltam, basta ver o Kaká, o Cielo, a Maurren, a Fofão, o Giba. Só faltam valores


JUCA KFOURI

A MELHOR imagem do Brasil em 2008 é a pior imagem do Brasil em 2008: a imagem do roubo de mantimentos enviados para socorrer os flagelados de Santa Catarina.
Até então, quem sabe, a melhor imagem era a de César Cielo emocionado no lugar mais alto do pódio em Pequim. Ou a de Maurren Maggi, na mesma altura. A das meninas do vôlei também era forte candidata, por tudo o que significava de virada, assim como a da saltadora. Mas não.
Nada mais revelador da alma brasileira do que aquele pessoal surrupiando o fruto da generosidade de alguns em proveito próprio. E, não tenha dúvida, na complexidade da alma brasileira, alguns dos larápios seriam também capazes de fazer doações para serem apropriadas por outros semelhantes. Ora, afinal, pensou um deles, "este tênis aqui é bacana demais para dar para um desabrigado que está precisando mesmo é de uma galocha".
Já o outro achou que "esta camisa é muito elegante para quem não tem nem onde morar e dá pena pensar em vê-la toda amarfanhada. Nem vai durar...". Mais ou menos como achar legal ganhar um jogo com gol de mão, em impedimento e no último minuto.
Ou não se importar que as pessoas se perpetuem no poder, ainda mais se fizerem algo de bom, mesmo que roubem. Porque fazem, né não? Pois não é que neste país se assiste num ano ao escândalo do Pan-2007 e se aplaude a candidatura olímpica na temporada seguinte? Até se bajula a filha do cartola que virou cartolinha para fazer a Copa do Mundo com o nosso dinheiro!
Talvez por isso a melhor frase do esporte nacional em 2008 tenha ficado praticamente inédita até hoje, dita, em Pequim mesmo, pelo jornalista Roberto Salim, da ESPN Brasil, ao ministro do Esporte, Orlando Silva Jr.: "Você envergonha a sua raça, o seu partido, o esporte brasileiro e todos os que acreditaram em você".
Porque também são raros os brasileiros capazes de externar sua indignação com tamanha clareza. A regra é ficar inconformado com o que houve em Santa Catarina, mas fechar os olhos quando em troca de um privilégio, seja de que ordem for, algo que os meios de comunicação também fazem.
Tanto que, por exemplo, Dunga apanha mais por suas qualidades do que por seus defeitos, embora tenha trocado algumas delas para sobreviver na função. E que ninguém imagine que aqui esteja sendo feita a apologia do brasileiro perfeito, ou do homem perfeito, porque certas ilusões, nestas alturas, não cabem mais.
Apenas se constata que de nada adiantam surtos de indignação quando a prática diária é a de empulhação. A de levar vantagem. A de mentir. De se juntar com quem não presta para se dar bem, porque o mundo é assim mesmo. A de querer o cara no time, não para casar com a filha. Só que esses caras são tão envolventes em sua falta de compromissos morais que terminam se casando com as filhas dos espertos e acabam por fazer um país. Um país de Macunaímas.

Que Deus é este?

Especial Artigo Reinaldo Azevedo

"Em Auschwitz, no Gulag ou em Darfur, vê-se, sem dúvida,
a dimensão trágica da liberdade: a escolha do Mal. E isso
quer dizer, sim, a renúncia a Deus. Mas também se
assiste à dramática renúncia ao homem"

Boa parte das nações e dos homens celebra, nesta semana, o nascimento do Cristo, e uma vez mais nos perguntamos, e o faremos eternidade afora: qual é o lugar de Deus num mundo de iniqüidades? Até quando há de permitir tamanha luta entre o Bem e o Mal? Até Ele fechou os olhos diante das vítimas do nazismo em Auschwitz, dos soviéticos que pereceram no Gulag, da fome dizimando milhões depois da revolução chinesa? E hoje, "Senhor Deus dos Desgraçados" (como O chamou o poeta Castro Alves)? Darfur, a África Subsaariana, o Oriente Médio... Então não vê o triunfo do horror, da morte e da fúria? Por que um Deus inerme, se é mesmo Deus, diante das "espectrais procissões de braços estendidos", como escreveu Carlos Drummond de Andrade? Que Deus é este, olímpico também diante dos indivíduos? Olhemos a tristeza dos becos escuros e sujos do mundo, onde um homem acaba de fechar os olhos pela última vez, levando estampada na retina a imagem de seu sonho – pequenino e, ainda assim, frustrado...

Até quando haveremos de honrá-Lo com nossa dor, com nossas chagas, com nosso sofrimento? Até quando pessoas miseráveis, anônimas, rejeitadas até pela morte, murcharão aos poucos na sua insignificância, fazendo o inventário de suas pequenas solidões, colecionando tudo o que não têm – e o que é pior: nem se revoltam? Se Ele realmente nos criou, por que nos fez essa coisa tão lastimável como espécie e como espécimes? Se ao menos tirasse de nosso coração os anseios, os desejos, para que aprendêssemos a ser pedra, a ser árvore, a ser bicho entre bichos... Mas nem isso. Somos uns macacos pelados, plenos de fúrias e delicadezas (e estas nos doem mais do que aquelas), a vagar com a cruz nos ombros e a memória em carne viva. Se a nossa alma é mesmo imortal, por que lamentamos tanto a morte, como observou o latino Lucrécio (séc. I a.C.)? Se há um Deus, por que Ele não nos dá tudo aquilo que um mundo sem Deus nos sonega?

Galeria Doria Pamphilj/divulgação

Vida e arte
As cenas das mulheres de Darfur fugindo com suas crianças, empurradas pela barbárie, remetem, é inevitável, à fuga de Maria e do Menino Jesus para o Egito, retratada por Caravaggio (1571-1610)

Evito, leitor, tratar aqui do mistério da fé, que poderia, sim, responder a algumas perplexidades. O que me interessa neste texto é a mensagem do Cristo como uma ética entre pessoas, povos e até religiões. Não pretendo, com isso, solapar a dimensão mística do Salvador, mas dar relevo a sua dimensão humana. O cristianismo é o inequívoco fundador do humanismo moderno porque é o criador do homem universal, de quem nada se exigia de prévio para reivindicar a condição de filho de Deus e irmão dos demais homens. É o fundamento religioso do que, no mundo laico, é o princípio da democracia contemporânea. Não por acaso, a chamada "civilização ocidental" é entendida, nos seus valores essenciais, como "democrática" e "cristã". Isso tudo é história, não gosto ou crença.

Falo das iniqüidades porque é com elas que se costuma contrastar a eventual existência de uma ordem divina. Segundo essa perspectiva, se o Mal subsiste, então não pode haver um Deus, que só seria compatível com o Bem perpétuo. Ocorre que isso tiraria dos nossos ombros o peso das escolhas, a responsabilidade do discernimento, a necessidade de uma ética. Nesse caso, o homem só seria viável se isolado no Paraíso, imerso numa natureza necessariamente benfazeja e generosa. O cristianismo – assim como as demais religiões (e também a ciência) – existe é no mundo das imperfeições, no mundo dos homens. Contestar a existência de Deus segundo esses termos corresponde a acenar para uma felicidade perpétua só possível num tempo mítico. E as religiões são histórias encarnadas, humanas.

Em Auschwitz, no Gulag ou em Darfur, vê-se, sem dúvida, a dimensão trágica da liberdade: a escolha do Mal. E isso quer dizer, sim, a renúncia a Deus. Mas também se assiste à dramática renúncia ao homem. Esperavam talvez que se dissesse aqui que o Mal Absoluto decorre da deposição da Cruz em favor de alguma outra crença ou convicção. A piedade cristã certamente se ausentou de todos esses palcos da barbárie. Mas, com ela, entrou em falência a Razão, humana e salvadora.

Fé e Razão são categorias opostas, mas nasceram ao mesmo tempo e de um mesmo esforço: entender o mundo, estabelecendo uma hierarquia de valores que possa ser por todos interiorizada. As cenas das mulheres de Darfur fugindo com suas crianças, empurradas pela barbárie, remetem, é inevitável, à fuga de Maria e do Menino Jesus para o Egito, retratada por Caravaggio (1571-1610) na imagem que ilustra este texto – o carpinteiro José segura a partitura para o anjo. As representações dessa passagem, pouco importam pintor ou escola, nunca são tristes (esta vem até com música), ainda que se conheça o desfecho da história. É o cuidado materno, símbolo praticamente universal do amor de salvação, sobrepondo-se à violência irracional que o persegue.

Nazismo, comunismo, tribalismos contemporâneos tornados ideologias... São movimentos, cada um praticando o horror a seu próprio modo, que destruíram e que destroem, sem dúvida, a autoridade divina. Mas nenhum deles triunfou sem a destruição, também, da autoridade humana, subvertendo os valores da Razão (afinal, acreditamos que ela busca o Bem) e, para os cristãos, a santidade da vida. Todas as irrupções revolucionárias destruíram os valores que as animaram, como Saturno engolindo os próprios filhos. O progresso está com os que conservam o mundo, reformando-o.

Pedem-me que prove que um mundo com Deus é melhor do que um mundo sem Deus? Se nos pedissem, observou Chesterton (1874-1936), pensador católico inglês, para provar que a civilização é melhor do que a selvageria, olharíamos ao redor um tanto desesperados e conseguiríamos, no máximo, ser estupidamente parciais e reducionistas: "Ah, na civilização, há livros, estantes, computador..." Querem ver? "Prove, articulista, que o estado de direito, que segue os ritos processuais, é mais justo do que os tribunais populares." E haveria uma grande chance de a civilização do estado de direito parecer mais ineficiente, mais fraca, do que a barbárie do tribunal popular. Há casos em que é mais fácil exibir cabeças do que provas. A convicção plena, às vezes, é um tanto desamparada.

Este artigo não trata do mistério da fé, mas da força da esperança, que é o cerne da mensagem cristã, como queria o apóstolo Paulo: "É na esperança que somos salvos". O que ganha quem se esforça para roubá-la do homem, fale em nome da Razão, da Natureza ou de algum outro Ente maiúsculo qualquer? E trato da esperança nos dois sentidos possíveis da palavra: o que tenta despertar os homens para a fraternidade universal, com todas as suas implicações morais, e o que acena para a vida eterna. O ladrão de esperanças não leva nada que lhe seja útil e ainda nos torna mais pobres de anseios.

O cristianismo já foi acusado de morbidamente triste, avesso à felicidade e ao prazer de viver, e também de ópio das massas, cobrindo a realidade com o véu de uma fantasia conformista, que as impedia de ver a verdade. Ao pregar o perdão, dizem, é filosofia da tibieza; ao reafirmar a autoridade divina, acusam, é autoritário. Pouco afeito à subversão da autoridade humana, apontam seu servilismo; ao acenar com o reino de Deus, sua ambição desmedida. Em meio a tantos opostos, subsiste como uma promessa, mas também como disciplina vivida, que não foge à luta.

Precisamos do Cristo não porque os homens se esquecem de ter fé, mas porque, com freqüência, eles abandonam a Razão e cedem ao horror. Sem essa certeza, Darfur – a guerra do forte contra o indefeso, da criança contra o fuzil, do bruto contra a mulher –, uma tragédia que o mundo ignora, seria ainda mais insuportável.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Madonna mia!

Alexandre Xavier
De São Paulo

Sabe quando tem festa do peão de rodeio em cidade do interior? Todo mundo tem que ir pra ver e ser visto, é o evento social do ano e a cidade inteira comenta.

Pois a Madonna é a nossa festa de rodeio. É quando Rio e São Paulo mostram que são provincianas. Porque essa "babação de ovo", "lambeção de saco" (com o perdão do termo) em torno da Madonna é injustificável.

O vídeo que mostra o Sérgio Cabral tietando a "diva" resume a ópera (coloque no YouTube: madonna, governor, rio). É vergonhoso, pra não dizer patético. Ela o agradece por ter desviado o trânsito para a equipe dela. E ele se orgulha. E a presenteia com uma camiseta do Ronaldinho (futebol e subserviência, somos mestres!).

A Madonna é chefe de Estado? A Madonna nem gosta de futebol. E pergunta se o prefeito de Amsterdã parou o trânsito para a Madonna ir até a Arena do Ajax se apresentar. Não parou.

Somos um povo estranho. Tem hora que somos ufanistas sem limites, tem hora que endeusamos os gringos sem o menor comedimento.

No Brasil, ou é Galvão ou é Madonna. Meio termo ou bom-senso é bobagem.

"Karina Bacchi 'persegue' Madonna em shows"
Olha essa manchete aí em cima! Como assim? O tombo no palco é notícia, os dois mil energéticos que ela pediu é notícia, o divórcio é notícia, o panaca que ficou duas horas em frente ao Copacabana Palace esperando ela sair na janela é notícia...

Não é injusto que a mídia embarque nessa turnê caça-níquel da Madonna quando tem um monte de banda brasileira boa por aí que não ganha nem uma resenhazinha na imprensa?

Falaram à exaustão até dos caras que armaram barraca no portão do estádio. Cadê a notícia? Até os fãs do Iron Maiden (que já veio 3742 vezes pro Brasil) acampam toda vez pra conseguir ficar na grade. Não tem nada de novo aí.

Mas o espírito "festa do peão" foi bem disseminado. Um amigo meu vai levar a mãe no Morumbi só porque ela quer ver do que se trata esse fuzuê. Ela conhece umas 5 músicas famosinhas, mas topou pagar R$100 num ingresso. Os VIPs também vão, mas de graça, porque os patrocinadores querem que os fãs os vejam. Ou querem que os fotógrafos os vejam com a camisa dos patrocinadores... É muita sofisticação, ave maria.

Cadê a música?
Não é ranzinzisse. A Madonna tem um monte de fã, é justo que ela lote o Morumbi. Mas trata-se de um evento de música onde o que menos interessa é a música. Ela é uma cantora e o que menos se falou nesses dias foi da voz dela (que não é mais a mesma). É a realidade do oba-oba de massa, da sociedade oca do espetáculo. Mesma coisa no rodeio. O peão de boiadeiro, dane-se. O que importa para a maioria é estar presente na "festa".

Se bem que o caso da Madonna é mais provinciano ainda. A "diva pop" (título que, pense bem, não quer dizer nada) pára o trânsito, fecha hotel, exige mundos e fundos e cobra um fortuna pra cantar "La Isla Bonita" e "Hung Up" e as pessoas vão em peso. E a mídia acha bonito.

É bom lembrar que o último CD dela nem é grande coisa. O "Back to Black" da Amy Winehouse (que, diga-se, canta mais que a Madonna) vendeu mais que o dobro que o "Hard Candy" esse ano.

Like a virgin
Por outro lado, há de se reconhecer. O show que vi da Madonna ano passado foi divertido, ela daria uma boa cheerleader.

A ressalva no tocante à apresentação da "diva" é só que você não sabe de onde vem o som. É tanta parafernália visual no palco que a banda fica em segundo plano (se é que a "banda" toca alguma coisa mesmo). E fica patente que ela usa um monte de playback durante o show inteiro. Mas quem for vê-la no Morumbi vai ter um "good time".

Minha indignação é apenas que não há nada que justifique o auê social e midiático em torno de uma cinquentenária que não faz mais as músicas que fazia nos anos 80 (quando ela tinha razão de ser).

E o fato de ter sobrado ingresso para todos os setores no segundo dia da turnê no Maraca prova que esse oba-oba é exagerado.

A primeira apresentação da Madonna em solo estrangeiro foi no Haçienda, em Manchester, Inglaterra. Tinha umas 200 pessoas lá em 1983. Foi histórico, não tinha puxa-saco, ela não era ainda um produto pop e fazia música do fundo da alma. Mal sabia ela que um dia iria transformar São Paulo e Rio numa Barretos.

Generosidade

No Tibete do Dalai-lama, reconhecidamente uma das figuras mais solidárias do planeta, há um ditado segundo o qual ninguém está isento de ser sensibilizado pela dor alheia. Talvez porque seja assim mesmo que aconteça na vida real – não somente na província asiática. Mesmo o mais cínico dos mortais fica incomodado e vira o rosto ao presenciar o sofrimento de alguém estirado no chão. Esse exercício de se colocar na pele do outro, conhecido como compaixão, é natural do ser humano. E está em alta, segundo a percepção de especialistas no assunto. Grandes corporações têm adotado o discurso da sensibilidade social para agregar valor às suas marcas porque perceberam que a sociedade considera isso cada vez mais importante. A recente enchente em Santa Catarina, que matou 127 pessoas e desalojou 27 mil, comprovou o fato ao colocar sob o holofote, além da tragédia, um outro dado: a generosidade do povo brasileiro.

Seis mil pessoas, aproximadamente, abandonaram seus afazeres em diversas partes do Brasil e desembarcaram em Santa Catarina para oferecer auxílio. A mobilização foi tanta que a Defesa Civil do Estado chegou a pedir para que a população parasse momentaneamente de fazer doações, porque os estoques já não comportavam a quantidade de objetos que chegavam. Ao todo, foram arrecadados R$ 25 milhões, 4,3 milhões de quilos de alimentos, 2,5 milhões de litros de água, um milhão de quilos de roupa, além de brinquedos, materiais de higiene pessoal e outros utensílios. “Foi impressionante o desprendimento das pessoas. Havia milhares delas dispostas a dedicar seu tempo, e até correr riscos, pelos outros”, avalia Márcio Luiz Alves, diretor da Defesa Civil do Estado. No meio dessa mobilização exemplar, porém, descobriu-se ovelhas negras furtando as doações (leia quadro à pag. 63).

O analista de sistemas carioca Brunno Pessoa pediu férias da multinacional em que trabalha para prestar socorro em Santa Catarina. Aos 27 anos, ele decidiu se engajar em projetos sociais meio do ano, depois de sofrer com a falta de solidariedade das pessoas que o cercavam no momento em que descobriu uma doença neurológica. “Esta será a primeira de muitas empreitadas”, conta ele, que descarregou caminhões e fez a triagem de alimentos que chegavam a Blumenau. Brunno está pagando do próprio bolso a estadia, o transporte e a alimentação no Sul.

Ajudar pessoas cujos destinos não afetariam a vida de quem estende a mão a elas, como faz Brunno, é ser solidário pelo apelo ético. Trata-se de um processo que demanda aprendizagem, uma vez que a tendência do ser humano é ser egocêntrico – somos acostumados a ser generosos apenas com a nossa rede de convivência. Há ainda um outro conceito de solidariedade presente no mundo moderno e que nasce da interdependência. A idéia básica é “cuide do terreno do lado porque, se ele ficar sujo, sua casa se desvaloriza”.

O humanismo aflora quando percebemos que o que acontece com os outros nos afeta. Nesse caso, a solidariedade abrange a idéia de cuidar para garantir o próprio futuro – discurso comum dos ecologistas. “Mas preocupar-se com quem não vai devolver nada imediatamente, que é a generosidade além do cálculo, nasce com a compaixão”, explica o coordenador de pós-graduação em ciência da religião da Universidade Metodista de São Paulo Jung Mo Sung, autor de Competência e sensibilidade solidária: educar para a esperança.

Escolha de vida

Somente a compaixão é capaz de transformar a comoção diante de uma tragédia em altruísmo contínuo. Muita gente faz o bem e esquece. A solidariedade, no entanto, é um modo de ver e viver. É mais do que uma ação de caridade. “Escolhi ser médica para ajudar os mais pobres”, conta a catarinense Zilda Arns, 74 anos, que fundou a Pastoral da Criança há 25 anos. Como ela, a socialite carioca Gisella Amaral, 68 anos, formou-se em enfermagem, depois de já ter o título de jornalista, por achar que com a segunda carreira seria mais útil.

Graças a sua rede de relacionamentos, Gisella auxilia 39 instituições a captar recursos por meio de eventos beneficentes. “Meu trabalho são as obras sociais. Sempre me fez muito bem”, diz. Premiada pelo Unicef, pela Unesco e indicada ao Nobel da Paz em quatro ocasiões, Zilda, hoje, auxilia dois milhões de gestantes e crianças menores de seis anos e 1,4 milhão de famílias pobres por meio de 270 mil voluntários distribuídos em 17 países. “Minha família inteira sempre esteve envolvida com atividades solidárias. Então, era natural que eu me envolvesse também”, afirma.

A generosidade pura está em ações como as de Zilda e Gisella, não em doações que garantam abatimento no Imposto de Renda. Quem também se vale do discurso de “dar aos pobres é emprestar a Deus para garantir um pedaço no céu” igualmente não está sendo solidário. “Isso é investimento, caderneta de poupança”, critica o teólogo Fernando Altemeyer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), que tratou do tema compaixão em sua tese de doutorado em ciências sociais. Mais: vai contra a teologia cristã, que prega que Deus não precisa de barganha para salvar alguém.

Empresários do bem

O empresário João Doria Jr., que na semana passada organizou em São Paulo o evento beneficente Natal do Bem, não faz distinção quando o assunto é generosidade. “A pessoa que oferece sua contribuição em forma de tempo, talento, nome ou dinheiro é generosa, independentemente da contrapartida, que pode ser melhorar sua imagem pessoal, marketing ou desconto no imposto”, diz.

Com o Natal do Bem, João Doria e outros empresários arrecadaram em uma noite R$ 3,7 milhões em prol de oito entidades carentes. Para participar da sexta edição do evento, o interessado tinha de desembolsar entre R$ 20 mil e R$ 250 mil por uma mesa que lhe dava o direito de desfrutar de um jantar e um show de Ivete Sangalo. De abastados como Ivan Zurita, presidente da Nestlé, que contribuiu com R$ 1 milhão, estiveram no hotel de luxo que sediou a ação cerca de mil pessoas, entre autoridades e celebridades.

Mas por que a generosidade muitas vezes traz consigo outras intenções? A explicação é cultural. Diferentemente da espécie animal, que socorre o outro por instinto, o ser humano segue um determinismo moral e não biológico na hora de estender a mão a quem precisa. Ou seja, podemos direcionar uma atitude nobre de forma egoísta ou egocêntrica, como, por exemplo, presentear a empregada doméstica no fim do ano com uma cesta de Natal para camuflar o salário pífio pago a ela durante o ano. Ser correto, no entanto, é prover a ela um ordenado justo.

Exercício de cidadania

Justiça, aliás, é a palavra que traduz em hebraico o ato de fazer caridade, vocábulo que não existe no dicionário judaico. “O bem tem de ser feito pelo bem em si, não contando com algo em troca”, diz o judeu Meyer Joseph Nigri, presidente do conselho da construtora Tecnisa, que pagou R$ 80 mil por uma mesa no Natal do Bem. “Muitos fazem uma boa ação achando que Deus vai ajudá-lo lá na frente. Eu penso diferente.” Nigri faz parte do conselho de uma dezena de instituições, das quais é presidente em quatro. A Tecnisa destina 0,1% das vendas para doações, o que se traduz, este ano, em R$ 1 milhão. Conta ainda com projetos sociais, como alfabetização em obras, por meio do qual cerca de 1.500 funcionários aprendem a ler e escrever em uma sala de aula improvisada no terreno da construção.

Presidente da empresa de contact center Avaya, o mineiro Cléber Morais também faz gestão imbuído do espírito de generosidade. Além de implantar um comitê voluntário no trabalho, ele espalhou pela empresa caixas para a arrecadação e seus funcionários podem passar um dia fora da sede, a cada três meses, oferecendo treinamento voluntário. Foram arrecadados na Avaya, até o momento, 3,4 toneladas de alimentos, centenas de livros, cobertores, leites e 400 brinquedos, que serão entregues em uma instituição de caridade por funcionários vestidos de Papai Noel. “Colocar o funcionário frente a frente com o semelhante necessitado é importante para que ele sinta o espírito da ação”, diz Morais. “A sensação de paz, o retorno espiritual que um ato desses dá é inexplicável.”

Há, porém, uma explicação médica. A moeda de troca emitida pelo corpo humano ante o stress verdadeiro de ajudar outra pessoa são neurohormônios como serotonina e dopamina, ligados à sensação de bem-estar. “Faz bem ser bom”, diz Ricardo Monezi, psicobiólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, estudos apontam que o exercício da cidadania promove ainda a produção de endorfina, que possui função analgésica. Daí decorrem o alívio e a leveza relatados. “Me sinto no paraíso quando consigo ajudar alguém”, afirma Vasti Gomes Macedo, 75 anos. Ex-bóia-fria que trabalhou como babá e empregada doméstica, ela sustenta hoje o Lar Beneficente de Vasti, uma creche comunitária que cuida de 112 crianças em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Faz isso com a renda que recebe da aposentadoria (R$ 830) e doações.

Especialista em medicina comportamental, Monezi explica que todo ser humano é programado para se preocupar com o semelhante. Quando, então, ele presencia uma situação de adversidade, o cérebro elabora o sentimento da compaixão e ativa o sistema límbico cerebral, espécie de QG dos aspectos emocionais. Este, por sua vez, passa a funcionar como um centro de logística, distribuindo tarefas para diferentes partes do corpo, que se transformam em ações na prática. “A complacência com o próximo parte da molécula e vai até o divino”, reforça o teólogo Altemeyer.

Faz sentido, uma vez que para um ser estar vivo é necessário que dois tenham um vínculo sexual, amoroso, conjugal. Senhor do universo em termos de consciência, o homem, porém, é frágil: depois do nascimento, ele é totalmente dependente de outras pessoas por cerca de dois anos. Um animal, por sua vez, já é dotado de autonomia horas ou semanas depois de vir ao mundo. “Não dá para pensar ser humano sem vínculos. A solidariedade é o que nos define e distingue”, completa o filósofo Eulálio Figueira, da PUC.

Tão logo pôde fazer uma escolha na vida, o psiquiatra paulista Otávio Prado Alabarse, 32 anos, optou por ser solidário. Aos 16, distribuía alimentos, agasalhos e brinquedos, enquanto seus pais davam aulas em escolas públicas como voluntários. Aos 22, cursando medicina, passou nove semanas prestando atendimento e pesquisando doenças e infecções em Rondônia, no Vale do Ribeira, entre São Paulo e Paraná, e no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Após a conclusão do curso, inscreveu-se em um projeto da Marinha e, durante um ano, prestou serviços de vacinação e atendimento às comunidades ribeirinhas do rio Amazonas, de Belém à Colômbia.

No ano passado, formado psiquiatra, realizou o sonho de integrar o grupo Médicos Sem Fronteiras e passou cinco meses em uma missão no Iraque. Alabarse não se esquece do calor de 55ºC e de ataques a refugiados que deixaram 400 mortos e 650 feridos. No hospital para vítimas de guerra, atendeu pacientes em estado de choque que perderam parentes, mutilados e desfigurados pelo fogo das explosões. As tentativas de suicídio também eram comuns. Segundo ele, os iraquianos estavam acostumados a receber apenas atendimento de emergência e não tinham acesso à psicoterapia.

“Muitas mulheres não se curavam da depressão por não ter o direito de se expressar”, conta Alabarse, que, hoje, se dedica ao projeto de tirar os pacientes dos manicômios e integrá-los às famílias. “No Iraque, vivi a experiência mais marcante. É um exercício único a inserção no mundo deles.” Solidariedade é isso: reconhecer o valor do outro e arregaçar as mangas sempre.

Colaborou: João Loes


sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Una canción de verano

Post nº 300, ao som de Fórmula V e sua "Eva María"!Uhuuuuuu!...
Aposto que Fernanda, que é totalmente metida a espanhola, não sabia dessa: no verão de 73, os espanhóis balançaram seus esqueletos e foram "a la playa" ouvindo a história da moça que se foi atrás do sol, "con su maleta de piel y su bikini de raya", deixando para trás um coração partido pela sua ausência. Ohhh!... Bonitinhos! (by Ronnie Von)

Pois é, Juliana María se despede de ustedes ["buscando el sol en la playa, con mi maleta de piel y mi bikini de raya"!]... "¿Qué van a hacer, se Juliana María se fue?"


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Mc Noite Feliz

Ontem tivemos o evento de encerramento do ano: o amigo-oculto do Edf. Juanes [ou melhor, da porta direita do 3º andar do Edf. Juanes]!
Organizado por Fernanda Braga-Fraga, o sorteio foi um dos mais secretos que já vi em minha vida! Só conheci meu amigo um par de dias antes da comemoração [e, cá entre nós, suspeito de marmelada, pois as combinações foram muito certinhas. Ai, ai, dona Nandy!...].
Mas o melhor da noite foi a animação da galera. De Malu a Nelsão, nunca vi tanta gente radiante, vibrante e alegre junta na vida! Nossa Senhora!... A noite terminou, como não poderia deixar de ser, com a chegada solar de Gutão. Aliás, ele foi o nosso sol da meia-noite - literalmente!
Enfim, o amigo-oculto foi um su-ces-so!!! Lícia Fábio que se cuide, que Fernanda é um talento nato da promoção de eventos!

Brincadeiras à parte, a noite foi massa porque, afinal, essa turma é maraaaaa! ;)

Calculando os danos

Contardo Calligaris


Todo crime é também crime contra a confiança, sem a qual qualquer coletividade se desfaz



A confiança, como mostrou Francis Fukuyama em livro de 1995 ("Confiança", Rocco), é a pedra angular da sociedade moderna, o que faz com que a convivência social seja minimamente harmônica, próspera e capaz de garantir o bem-estar (não só econômico) dos que vivem sob um mesmo céu. Confiança no quê? A confiança recíproca entre os cidadãos alimenta a confiança de todos na existência de uma coletividade.
Pois bem, nestes dias, a Justiça italiana levou a sério Fukuyama e o espírito natalino, reconhecendo oficialmente que, numa sociedade moderna, o crime não prejudica apenas suas vítimas imediatas, mas lesa muito concretamente a própria coletividade. Aqui vão os fatos, relatados pelo "Corriere Della Sera".
Em junho passado, em Milão, foi decretada a prisão de um grupo que dirigia uma clínica particular: o dono da clínica, médicos, cirurgiões etc. A gangue efetuava procedimentos médicos e cirúrgicos desnecessários, mesmo se danosos e cruéis, nos pacientes mais indefesos, idosos, doentes terminais etc.
Com isso, os criminosos da clínica Santa Rita inflavam o volume dos reembolsos que lhes eram devidos pelo Estado.
Até aqui, nada que nos surpreenda, não é? Mas eis que a procuradoria italiana acaba de apresentar a conta dos danos que os acusados (cujos bens já foram bloqueados) deverão compensar. Trata-se de dinheiro que eles devem à Fazenda -fora a reparação dos danos morais e materiais das vítimas diretas.
A clínica Santa Rita recebeu do Estado italiano, por tratamentos desnecessários, pouco menos de 2,7 milhões (R$ 8,5 milhões), que devem ser devolvidos. Mas a procuradoria pede também o valor de 10,8 milhões (R$ 32 milhões, quatro vezes o valor da falcatrua) não como punição abstrata, mas como compensação pelo dano que foi sofrido pela imagem do sistema sanitário italiano, pela imagem da própria Itália e pela comunidade dos cidadãos italianos.
Claro, a gangue da clínica Santa Rita infligiu perda financeira à coletividade sanitária, pois é presumível que o escândalo desencoraje os clientes estrangeiros que, sem isso, escolheriam se curar na Itália. Além disso, é possível que a notícia, circulando, desgaste a imagem do país, com conseqüências nefastas para o valor do "Made in Italy".
Da mesma forma, um assaltante da orla carioca produz um dano que vai além do relógio ou da carteira que ele rouba. A reputação da cidade piora, o turismo diminui, e, enfim, o crime prejudica a imagem do Brasil, cujo apreço internacional afeta o valor de tudo o que é brasileiro: pessoas, objetos manufaturados, investimentos possíveis etc.
Mas o pedido da procuradoria milanesa vai mais fundo; ele tenta quantificar também outro prejuízo, menos material, mas não menos importante: o prejuízo que a própria comunidade sofre pela erosão da confiança que é a condição de sua existência.
Cada crime, além dos danos quantificáveis que produz, também destrói aos poucos a confiança que permite que haja comunidade. O assalto na esquina nos rouba a todos a confiança necessária para passear na rua numa noite de verão ou para manter os vidros do carro abertos e conversar com a criança que vende chicletes no farol.
O crime da clínica Santa Rita roubou aos milaneses a confiança na medicina à qual eles devem recorrer a cada dia.
O administrador e o político corruptos nos roubam a confiança na existência de uma coisa pública e na possibilidade de inventarmos formas melhores de convivência.
Em suma, o pedido da procuradoria italiana nos lembra de que todo crime contra as pessoas ou o contra o patrimônio é também (se não sobre tudo) um crime contra a confiança, sem a qual, a longo prazo, qualquer coletividade se desfaz.
Para todos, meus votos de boas festas, ou seja, de ao menos uma semana durante a qual possamos fazer de conta que é possível confiar.



quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

È vero...

"O dinheiro compra tudo. Até amor verdadeiro" (Nelson Rodrigues)

Quem puder, dê uma passada de olho na matéria do Correio* dessa quarta, escrita por Herbem Gramacho e Miro Palma, sobre a coletiva de imprensa do novo presidente do Esporte Clube Bahia, Paulo Carneiro ("Pressão muda de lado"). Texto muito legal (e bem melhor do que o publicado por A Tarde sobre o mesmo assunto)!
Já tinha visto essa pessoa (Paulo Carneiro) na tv, mas como não sou nada amante da bola manchada, não sabia que ele é ele e muito menos da sua história no Vitória. Quer dizer, eu sabia que era Paulo, mas não sei por qual motivo, cismei que seu sobrenome era Maracajá. Mas esse é outro Paulo na história do Bahia, né...
Li o perfil do cidadão, na matéria dos meninos, e gostei. A torcida para o Esporte Clube Bahia, que até agora não passava de um mero ato solidário para levantar o moral de um amigo querido fanático pelo clube, ganhou um contorno pessoal. A "novela" promete ser boa! hehe

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Ronaldo, o Corinthians, Monique Evans e as baleias...

Na festa de Ronaldo: anões, cachaça, Monique Evans


Claudio Leal

"Fora de campo são palavras, muitas palavras..."

Ronaldo, o Fenômeno, rege a TV do Parque São Jorge. O discurso maneiro, pausado, concentra os torcedores do Corinthians. "Olha a feira!" - clamam o silêncio das crianças, para ouvir o mantra do atacante: "Sou mais um louco num bando de loucos".

Nos jardins, fora do auditório em que ele se apresenta à sanha dos jornalistas, os corintianos aguardam a saída do louco recém-contratado. Na rua, centenas são impedidos de entrar; desde o dia anterior os ingressos se esgotaram. Ainda assim, gritam, apóiam: "Ronaldo chegou-ô-ô...".


"Festa igual a essa, só a do Quarto Centenário, em 1954", diz o papai noel Rodrigo Pereira. "Achei que a vinda dele foi uma boa. Seje campeão ou não seje". Em seu saco natalino há apenas sacos e mais sacos plásticos. De Natal.

Adiante, a hora e a vez da Miss Fiel - ela, Ana Paula Minerato, 18 anos, loira, olhos azuis, baixinha que só. Diante da câmera, sente-se obrigada a responder qual é o jogador mais bonito do Corinthias. A Miss embatuca, mas a mãe ajuda:

- Paulinha, ô, Paulinha, é o Ronaldo, o Ronaldo!

- O Ronaldo - escolhe, a fórceps, "a" Paulinha.

A mãe pisca o olho: "Ela sempre esquece... Mas tem que dizer: o Ronaldo."

Salve o Corinthians... E a Miss, outra vez acuada pelo humorista do programa Pânico e seus dois anões. "Filha, se cuide, pra não ficar igual à mamãe!", berra o bolinho humano.

Nestor Bertolini, o anão que interpreta o goleiro Felipe, prefere não condenar Ronaldo pelo recente confronto com travestis, no Rio de Janeiro. "Penso tanta coisa... Nem sei o que dizer. Quer tirar uma foto de mim?".

De cedo, os bordões da Gaviões da Fiel invadem os recintos e os jardins do clube:

"Nunca vou te abandonar! Te amo!".

"Sou maloqueiro, corintiano sofredor!"

"Ronaldo é mais um louco que chegou no Coringão!"

Outros gritos de guerra, nada elegantes com o Flamengo - ultrapassado pelo Corinthians na contratação -, também ecoam no Parque São Jorge.

Um instante, maestro. O Ômega CD que transporta Ronaldo costura a imprensa e a fiel torcida. Atravessa o portão do estádio. Os perseguidores comem poeira. Vidro fumê, o craque é apenas uma sombra.

O gramado fervilha para recebê-lo. Uma passarela preta em contraste com o verde. Crianças seguram balões. Costeando o alambrado - dá licença, Brizola? -, em blusa de oncinha, a modelo e apresentadora Monique Evans. Mas os seguranças não respeitam suas capas na Manchete. Barradinha da silva, se indigna à brinca e mostra a pulseira de jornalista: "Eu tenho a coisa roxa!".

A direção do Corinthians barrou o acesso dos repórteres ao gramado; somente os cinegrafistas podem arrancar fatias de Ronaldo. Monique Evans apalpa as nádegas do seu câmera: "Você pode entrar! Eu narro em off".

Às 12h, o ídolo corintiano cruza a passarela, ladeado pelo presidente Andrés Sanchez, em plena campanha para continuar à frente do clube. Estouram confetes. Ronaldo acena, timidamente, assustado com as bombas. Público estimado: seis mil. Loucos.

Discursos protocolares, até mesmo frios. Sanchez declara à torcida e aos eventuais eleitores:

- Eu vim daí! (aponta para a Fiel) Não sou, estou de passagem. Este é um sonho realizado da grande Nação corintiana!

Ronaldo, sorridente, retribui a aclamação. Preserva o tom seco, calculado:

- ... Sou mais um louco...

A festa não dura dez minutos. O atacante põe-se a chutar bolas para os corintianos. "Dá a volta olímpica!", pedem. Um molequinho ironiza a "boa forma" do jogador: "Ainda não dá não, né gente?".

Agarrada ao alambrado, Monique Evans se encontra naquele estado em que a deixamos, parágrafos atrás. Tenta furar o bloqueio para beijar e entrevistar o ídolo. Maldade dos seguranças: não dá. Vem a polícia. A "titia" exige: "Me prende! Prende! Prende!". Monique, La Pasionaria, conta com o apoio dos fãs.

- Vai, Monique! Entra, Monique!

Qual nada. Ronaldo tira fotos longe da musa. E some no túnel. Monique vai embora, quase aos prantos. Discute com a produtora:

- Você não viu a polícia me batendo? (pega nos pés, certamente maltratados) É meu trabalho me fazer de palhaça...

Um bando de loucos ainda zanza na entrada. O torcedor Washington - preferiu não dizer o sobrenome - discursa para a polícia: "Safados, não me deixaram entrar!". Bêbado, ergue uma bengala africana. Algumas palavras para a reportagem.

- Levei duas horas do Grajaú até aqui. Você tá me filmando? Não me filma. Não me deixaram entrar. O que era pra fazer? Trazer um quilo de alimento. Eu trouxe. Sou da periferia. Sou cachaceiro.

Para confirmar a veracidade de seu relato, tira da virilha (epa!) uma cachaça Cocote.

- Não quero fazer propaganda. Mas é boa. Paguei dois contos. Vim ver Ronaldo e não me deixaram! Fumo, cheiro e bebo. Só não roubo. Para voltar, levarei mais tempo. Porque vou passar ainda na Cracolândia. Eu não fumo uma pedra há muito tempo...

Enquanto Washington prega no deserto, as torcidas organizadas improvisam um sambão na Rua São Jorge. Ronaldo, o redentor, está oculto.

Terra Magazine


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Tédio

CONTARDO CALLIGARIS

Zoé e o demônio do meio-dia

O demônio do meio-dia é o tédio moderno, efeito de um mundo com poucos mistérios

DESDE PEQUENA, Zoé, 9 anos, adora filmes e histórias de terror. Seus pedidos espantam a moça da locadora de DVDs, que, provavelmente, duvida da sanidade mental dos pais.Justificar
De fato, Zoé assiste com prazer a filmes que, às vezes, deixam insones seu irmão mais velho, suas baby-sitters e mesmo sua mãe. Talvez Zoé seja cinéfila a ponto de assistir aos ditos filmes com o distanciamento de um crítico dos "Cahiers du Cinéma". Ela desmontaria os "truques" destinados a produzir espanto nos espectadores e, com isso, os filmes lhe proporcionariam uma experiência parecida com a de um bom exorcista: ela venceria o mal desvendando seus estratagemas.
Mas a paixão de Zoé pelas histórias de terror tem outra explicação possível, que me apareceu quando Zoé quis que sua festa de aniversário fosse o cenário de um filme.
Com a ajuda de um cineasta amigo da família, Zoé e seus convidados foram co-autores e protagonistas de um curta que, claro, é a história do aniversário de uma menina, durante o qual um monstro diabólico e sedento de sangue etc.
Graças ao filme (que, aliás, é bem legal) pensei o seguinte: talvez Zoé queira sobretudo convencer-se de que sempre, mesmo no dia ensolarado de seu aniversário, há zonas de sombra, por onde andam seres repugnantes e perigosos. Alguém perguntará: "Mas por que ela gostaria de pensar assim?"
Pois é, eu acho que essa idéia é, para qualquer um, uma fonte de alívio. Explico por quê.
O Salmo 90 (na numeração Clementina) expressa a esperança de que Deus nos guarde tanto das abominações "que circulam pelas trevas" quanto "do demônio do meio-dia". Sobre o tal demônio do meio-dia muito foi escrito e dito: diferente dos diabos que se escondem nos cantos escuros, o que será esse malefício que nos espreita justamente quando o sol está no zênite e o mundo nos aparece sem sombras?
Uma leitura moderna diz que o demônio do meio-dia não é um bicho do inferno, mas é um sofrimento insidioso, específico de uma época em que faltam cantos escuros.
Ele é nossa própria tristeza, a depressão e o tédio produzidos por um mundo com poucas sombras e poucos mistérios.
Em outras palavras, as luzes da razão e da ciência acabaram com aquele sentido que só uma transcendência (divina ou diabólica, benéfica ou maléfica, tanto faz) podia conferir à vida. Por excesso de luz, em suma, o mundo perdeu seus horrores, mas também seu encanto; com isso, é preciso que Deus nos proteja do demônio do meio-dia, ou seja, do tédio e da tristeza.
Ao inventar cantos escuros e ao povoá-los de "troços" inquietantes, Zoé está se protegendo contra o demônio do meio-dia -com toda razão, pois esse é provavelmente o mais pernicioso de todos. Muito melhor se deparar com Freddy Kruger do que não achar graça no mundo.
"Filosofia do Tédio", de Lars Svenden (Zahar), é uma brilhante meditação sobre a dificuldade moderna em nos interessarmos pela vida, uma vez que ela não é mais justificada pela palavra divina ou por nossa luta heróica contra os "troços" que circulam pelas trevas. Para Svenden, contra o tédio, ainda não inventamos nada melhor do que o remédio do Romantismo: uma mistura de anestesia (drogas lícitas e ilícitas) com transgressões que deveriam provar que estamos vivendo grandes aventuras e experiências "incríveis". Se for para escolher, prefiro os esforços de Zoé para repovoar o mundo de monstros e demônios.
Mas há uma terceira via. Li, nestes dias, "O Olho da Rua", de Eliane Brum (Globo). Brum, repórter especial da revista "Época", reúne dez grandes reportagens escritas entre 2000 e 2008. Fazia tempo que um livro não me tocava tanto. Que Brum fale das parteiras do Amapá, da guerra em Roraima, dos velhos da casa São Luiz para Velhice, ou mesmo que ela acompanhe o fim da vida de uma paciente terminal, seu texto é uma verdadeira alegria - pois ele nos lembra, simplesmente, que o mundo importa, que ele vale a pena. Como ela consegue?
O tédio moderno é uma forma de arrogância: a vida é chata porque nós seríamos maiores que sua suposta trivialidade insossa; tendemos a menosprezar o cenário onde nos toca viver, como se ele fosse demasiado banal para nossas façanhas. Pois bem, o segredo de Brum é o oposto disso, é uma extraordinária humildade diante do que existe.
Quando Zoé cansar de inventar monstros para dar sentido ao mundo e à vida, vou lhe sugerir o livro de Eliane Brum.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

LEONARDO


Depois do almoço, desço com a minha bicicleta Caloi vermelha que havia ganhado no meu 5º aniversário, na véspera. Debaixo do bloco, ele me espera. Olhos grandes e pretos, cabelo castanho e liso, magro, uma pele clarinha, clarinha. “Vamos, monte na minha garupa” - eu o convido e ele aceita, com o sorriso de orelha a orelha. Trocamos de lugares, depois de algum tempo. Um menino, desconhecido e um pouco mais velho, nos aborda. Pede para “dar uma voltinha” na bicicleta. Eu hesito, por ciúmes, mas ele olha para mim. Entendo, de pronto, o significado daquele olhar: ele, menino pobre, queria apenas que aquele outro menino, visivelmente mais pobre ainda que ele, tivesse a mesma satisfação de dar uma voltinha numa bicicleta. Cedi. E nunca mais vi a minha bicicleta vermelha...

Na calçada do nosso prédio, ele viu a noite chegando, esperando que estivéssemos enganados. As horas se passaram, um monte de gente saiu pelas redondezas atrás do tal menino, mas nenhuma notícia da minha bike. O veredito final: fomos roubados por um dos moleques da invasão próxima da quadra. Eu queria xingá-lo porque, afinal, era a frustração de algo pelo qual havia esperado por meses (e isso, aos cinco anos, é muita coisa!).

Mas Leonardo era Leonardo. Eu devia ter levado isso em consideração antes de emprestar. Ademais, como gritar, se a cara abatida da criatura já era “desarmadora” por si só? Por fim, reconheci que seria uma crueldade culpá-lo porque ele estava visivelmente mais arrasado que eu. Ele também sonhara com aquela bicicleta (eis uma coisa bela da infância: o que é de um, é de todos).

Vejo, nesse episódio, minha “expulsão do Paraíso”.

Não foi o caso de Leonardo. Ele seria enganado muitas e muitas vezes mais. Era uma criatura absurdamente inocente e boa. Você pode argumentar que as crianças geralmente são assim. Sim, mas Leonardo ia um pouco mais além da média. Ele era bom, acho, como só os animais podem chegar a ser. Sabe aquela coisa boa do cachorro, de você brigar com ele e daqui a dois minutos, se fizer festinha, ele vem?... Se me perguntarem qual o melhor ser humano que já conheci, sem pestanejar, direi que foi Léo, meu amigo de infância.

Nos conhecíamos desde as fraldas, suponho, porque não consigo lembrar do início de minha vida sem ele e sem outro amigo nosso, o Cebolinha (vulgo Leandro), o filho temporão de um radialista consideravelmente famoso em Brasília.

Léo era o filho do zelador do meu prédio, seu Antônio, homem quieto, ordeiro e trabalhador. Da mãe, dona Berê (de Berenice), não se podia dizer o mesmo. Mulher esquisita, dura, grossa, que depois descobriríamos ser também uma adúltera. No prédio, apenas a suportávamos em consideração a seu Antônio. Para completar o quadro, Léo tinha um irmão caçula, um bebê, de quem não lembro o rosto nem o nome. Vivia num quarto escuro no térreo, sem janelas, que só tinha um banheiro. Passava as noites lá, amontoado naquela espécie de caverna com os outros membros da família, porta aberta, vendo novela numa tv preto e branco.

Quando li “Vidas Secas” não precisei fazer esforço para sentir aquela família. Guardadas as devidas proporções, já tinha visto antes similar abandono e despersonalização com o meu amigo de infância, cuja família havia migrado do Norte (ou Nordeste, não lembro) para tentar a vida em Brasília. Era estranho perceber isso, mas Leonardo era mais gente na minha casa, onde passava de relance, que para seus próprios pais. Foi minha mãe quem o ensinou algumas das coisas básicas da infância, enquanto as ensinava para mim. Minto: seu pai era amoroso. O problema é que trabalhava demais (de dia, no prédio e à noite, freelava de vigia) e quase nunca estava em casa.

Mas, como se vivesse numa bolha, Léo conseguia existir alheio a tudo isso. A única ocasião em que vi a sua realidade lhe afetando foi uma vez em que Cebolinha e eu fomos buscá-lo para brincar. Estava sentado na cama, quieto, cabisbaixo. Olhamos, de repente, para as suas pernas: estavam vermelhas, marcadas. Nunca tinha mirado algo parecido; não parecia com nenhum castigo físico que já havia visto. Perguntamos o que havia ocorrido. Dupla humilhação: o pobre teve o azar de pegar a mãe no flagra da infidelidade e recebeu, pela sua “inconveniência”, uma surra de toalha. Cebolinha e eu pegamos uma toalha, molhamos, demos umas batidinhas em nossas próprias pernas, para produzir marcas similares. Parece que a “igualdade” apaziguou-lhe um pouco mais o coração. Suas pernas marcadas já não mais chamariam tanta atenção na rua. Sorriu. Violência aparentemente esquecida, fomos brincar.

Léo era o meu parceiro de planos “infalíveis”. Um tremendo pé frio, vale dizer, e um tanto graças a sua total falta de esperteza. Aliás, foi com ele que comecei a suspeitar que a inteligência pode ser um empecilho ao desenvolvimento da bondade. Jamais saberei dizer se Léo era bom porque era burro, se era burro porque era bom, ou se era um menino bom com o azar de ser burro. Tanto faz. O caso é que nunca dei, mesmo, grandes bolas para essa tal de genialidade. Que venham os burros! - contanto que sejam de coração puro.

Só isso me fazia, no final das contas, perdoar Leonardo: o consolo de que não havia sido por mal. Mas se resolvesse brigar, também, não me guardaria o mínimo rancor. Difícil, na verdade, seria me perdoar por ferir alguém já tão indefeso e sem maldade.

Missão “Fugir de Casa”, edição XXV. Já fracassei outras vezes, e nessa não posso falhar (na vez anterior, apesar de ter jogado duro no pedal de meu triciclo, fui traída e pega na ladeira por minha irmã do meio). Dessa vez não!

Atravesso o bloco com a minha mochilinha vermelha dos Gremilins nas costas, com o andar apressado. Ele pergunta e eu conto o que vou fazer. Ele está de bobeira embaixo do bloco e, como não há nada mais interessante, resolve fugir de casa comigo.

No ponto da 11, ficamos esperando o tal “ônibus para fugir de casa” por minutos a fio. O caso é que se esse ônibus realmente existisse, entretanto, não faria diferença, afinal não éramos ainda alfabetizados.

Amauri, um dos amigos de minha irmã adolescente, passa e estranha nossa presença na parada de ônibus, sem adultos, com os rostos ansiosos e de mochila. Faz a pergunta óbvia e é igualmente óbvio que Leonardo não segurou a língua na boca e nos entregou. Fomos “escoltados” de volta para casa. Saldo da missão: projeto novamente fracassado e uma vontade enorme de dar um belo de um chute na besta do Leonardo! Grrr...

Mas a lerdeza de Léo não me fez só passar raiva na infância, não. Às vezes – sinto muito! -, ríamos disso também.

Uma vez, queríamos jogar bets. Daniel, nosso amigo, tinha uns blocos de madeira, tipo LEGO, que seriam perfeitos como casinha. Gritamos. Ele apareceu na janela. Com preguiça de descer três andares, avisa para nos afastarmos, que ele vai jogar os blocos dali mesmo. Leonardo ouve, vê o bloco caindo, continua no mesmo lugar e leva um deles na testa, que começa a sangrar. Ele chora copiosamente, põe a mão no machucado e olha o dedo sujo de sangue. Ninguém consegue ajudá-lo direito, pois a cena, de comédia B americana, foi tão incrível que só nos restou cair na gargalhada. Naquele dia, ficou zangado, e acho que não foi muito por causa da nossa reação, não. Suspeito que tenha se convencido, finalmente, de que era realmente um burro e não gostou nada nada dessa epifania![risos]

Um dia, quando a gente devia ter por volta de sete anos, Leonardo foi embora. O pai finalmente descobrira a infidelidade da esposa e resolveu se separar dela. Leonardo seguiria com um dos pais, o que duplicou o nosso nó na garganta: não só seria o nosso primeiro adeus a alguém, na vida, como aquilo significaria um destino incerto para o nosso amigo.

Nunca mais soube dele. Meses após a sua partida, Cebolinha se mudou e, meses depois disso, eu também me mudei. Por algum tempo, perguntei por ele a conhecidos do bloco, mas já sabendo que ninguém saberia me dizer algo a respeito. Sinceramente, das pessoas que já passaram e não deixaram rastro, é o único de quem gostaria de ter notícias (dos outros, não é que não queira mas tanto faz). Uma meia dúzia de vezes, desde então, pensei nele. Espero que tenha crescido bem, que venha tendo uma boa vida, que tenha conservado a boa índole e tido boas oportunidades para sair da pobreza. Se o menino é realmente o pai do homem, Léo deve ter se tornado um sujeito ultra do bem – apenas espero que um pouco mais esperto, porque do jeito que era, pô!, seria de lascar continuar! hahaha

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Baixaria em Buenos Aires

Bem antes da invasão faconiana à capital argentina, ele esteve lá - ou não!

* Pousar em Buenos Aires não provoca a sensação de ter encontrado a Europa, como espalham os argentinos. O desembarque nos causa, isto sim, decepção. No aeroporto, taxistas barbaças, grosseiros e implicantes, tentam agarrar sua mala à força. Disputam o cliente como aquelas moças da nossa rua da Ajuda.
* No avião, faltou-me sorte. Como fiz escala em SP, entrou no meu vôo a torcida do River Plate, que não sabe cantar Mi Buenos Aires Querido. Músicas impublicáveis, até lembram o repertório de minha amiga Ingrid Campos na festa do Divino. A aeromoça, uma paulista de Diadema, era chamada aos gritos de brasileña putona, causando a revolta dos passageiros. Sinceramente, dormi. Xiitas de qualquer área, esporte a política, causam-me aquele estranhamento de Montesquieu diante dos persas.
* É possível ser argentino?
* Comentadíssima a compra de deputados no Brasil. No "argentinês", é chamado de mensalón e, segundo li, o diário francês Le Figaro chamou-o de "pot-de-vin", o que revela, mais uma vez, a superioridade política dos franceses.
* Fui a três restaurantes e me senti furtado em todos eles. Las Violetas, especializado em comida mediterrânea, serve umas pastas ordinárias, que mais parecem vômito de navegador do mar Cáspio. El Mirasol de la Recova tem preço e comida mais palatáveis, é frequentado por estudantes, executivos e brasileiros fodidos em matéria de dinheiro. Gostei mais do Anima Bantu, na rua Armenia, num bairro antes ocupado por prostitutas e hoje muito bem aproveitado, com casas de shows. Serve comida típica argentina: carne de boi, saladas e atum. Não comi nada, detesto comida típica.
* Durante a noite, Buenos Aires se despe. Há poucos argentinos na rua, o que amplia a sua beleza. Recomendo um passeio pelo bairro Boca, onde, por acaso, vi Menem passar de carro. Num bar que estava aberto, dois velhinhos me perguntaram como o ex-presidente era visto no Brasil. "Ladrão e contrabandista", resumi. Os dois concordaram. Mas não quis perguntar o que achavam de Lula e Fernando Henrique.
* Jorge Luís Borges goza de boa fama literária, mas o argentino médio, como o brasileiro e americano médios, são aquilo que H.L. Menken qualificou de boobies. Uns bobões, jecas, ignorantes. Do Brasil, conhecem bem Paulo Coelho, Pelé e Xuxa, popularíssima por lá - cheguei a vê-la num programa de televisão, cercada de anões.
* Visitei a Biblioteca Nacional de Buenos Aires, onde Borges trabalhou. Ganhava quetiliquê, quase nada, trabalhava apenas para dar leite à mãe. Um dia, recebeu de presente uma garrafa de vinho, oferecida pelo governo argentino aos funcionários públicos. Saiu do trabalho humilhado - sonhava com Dante, Melville, Shakespeare, e se via perdido numa estrutura burocrática. Preferiu ser enterrado na Suíça. Se eu tivesse nascido em Feira de Santana, também preferiria um enterro justo em Genebra.
* Na Biblioteca Nacional, há de tudo sobre a cultura brasileira. Impressionante. Vi exposta a primeira edição de Braz Cubas, autografada para Nabuco. Não sei como foi parar lá. Sociologia, história e literatura são as áreas mais contempladas. Dá para fazer uma tese sobre Lima Barreto sem recorrer ao correio aéreo.
* Não se pode perder: a Plaza de Mayo, no cair da noite; a Recoleta, pela manhã; o bosque de Palermo, pela tarde; o Centro, à noite. Quase fui assaltado no bosque. Na Argentina, ao contrário da Bósnia, não é possível dizer "Sou da terra de Pelé". São capazes de levar a nossa cueca.
* Bomba! Perguntei a um jovem torcedor do Boca a impressão que lhe passava Maradona. "Quase não vem por aqui, está de caso com Fidel. Tenho um amigo que o conhece. Ele garante que Maradona e Fidel já...".

Depois eu conto.
Abraços,
Claudio.

(04/07/2005)

Para sempre, Dupont!

Do túnel do tempo... Je suis nostálgica, today!...

***

Máximas e Mínimas de Jacques Dupont
(ou frases para a coluna de July)



Pé que não anda, não dá topada. Mas faz as unhas na Jacques Janine.

Para medir a profundidade do rio, é preciso enfiar a vara até o fundo.

Nem tudo que reluz é ouro. Às vezes, é micheline.

A velhice vem depois da juventude. A juventude, antes da velhice. A celulite é full time.

Ouvir o Rockloco e morrer dignamente.

"O mundo é bonito
Graças a Benito
A vida tem vez
Com Fernandez" (Sílvio Lamenha)

Comprei o Correio da Bahia e descobri aonde a insustentável leveza do ser vai dar. É na frescura mesmo.

Não acredite em mulheres que cantam a Marselhesa.

Na dúvida, ouro sobre o azul.

Ma chère, o cinema baiano é como o abará: só se come quando o acarajé ainda está assando.

Nascer em Xique-Xique. Viver em Praga. Morrer em Paris.

AS LIÇÕES DE JACQUES DUPONT PODEM SER OUVIDAS, ÀS QUINTAS, NA 103.5, "PRIMAVERA EU SOU". TODAS ESTAS FRASES SERÃO PUBLICADAS NO "LIVRO MARROM-BOMBOM DE JACQUES DUPONT", A SER LANÇADO PELA EDITORA "GIRAFA".


***

COLUNA DO JACQUES
Toujours avec elegance.

Bombons sabor tsunami for all. Vim correndo de New York, onde velava o corpo de Miss Sontag, com quem esperei Godot em Sarajevo (Ludugéria pronuncia Sarajêvo), para dar as dicas de fim de ano, a pedido de Sora Maia, Olivinha Barradas e Baby Pignatari (in memoriam). Recebi da Baronesa Crème de la Crème, Sora, uma carta very, very confidential:

Jacquito,
Venha fazer o necrológio de Sontag no Brasil. Estou rockloca por dicas de ano novo. Ouro sobre o azul ou branco sobre o preto? Roberto Pires d´A Tarde não me respondeu.
bisous,
Sora.

Devemos respeitar o Reveillon. É a única festa com nome francês em todo o Brasil. Fiquei assustado com a coluna de July desta terça-feira. Ela recomendou o reveillon do Quartier Latin e, no mesmo rol, incluiu a praia da Boa Viagem, Salvador, Bahia. Pára tudo. Ju, c´est la folie? Nada insano, querida. As mulheres devem ter medo da ciconídea ave daqui a nove meses. E os homens dos bozós espalhados ao longo do litoral. Jacques Dupont está aqui para orientar os frequentadores do boteco do Seta. Todo mundo merece um ano novo daqueles. Ofereço, pois, pois, dicas de lugares, plages, boites.


OUT (você não deve ir):

1. Tailândia.
2. Vale do Capão (fogueira, só no São João, darling).
3. Bairro da Paz.
4. Sri-Lanka (vamos poupar espaço: nada de Oceano Índico).
5. Farol da Barra.
6. Barraca do Lôro.
7. Praia do Bogary. Nada de subúrbio ferroviário, pois sua mãe morreu de morte natural e não de badogue.
8. Emergência do HGE.
9. Morro de São Paulo. Out, out, out.
10. Terreiro de Candomblé.

IN:
1. Cobertura do Macaco de Blair.
2. Copacabana Palace.
3. Edifício Chopin.
4. Mangue Seco.
5. Quinta Avenida, NY.
6. Praia do Cantagalo, Calçada.
7. UTI do Hospital Aliança.
8. Em qualquer festa planejada por Lícia Fábio.
9. Em qualquer praia com Sora Maia.
10. Jamaica, com Ana Valéria. Depois eu conto.

Depois das dicas de lugares, vale tecer comentários sobre a vestimenta.

Mulheres: calcinha azul com a inscrição "Se Deus é por nós, quem será contra nós?", shampoo Monange antes e depois, cigarrete Parlement, penteado dois andares, ou quelque chose comme ça, meia-calça vermelha, vestido longo, de crochê. Se te confundirem com a amante de Hugh Grant, ligue para mon avocat.

Homens: sunga bad-boy (quatro dedos), corrente vendida por algum rastafari picareta do Pelourinha, água oxigenada no cabelo e cigarro Free na orelha.

São os votos de Jacques Dupont.


Dupont e Mário Freitas não aceitam jabaculê. No mais, vale lembrar: Le jeudi, c´est jour de promo. Dans les hôtels Best Western. Deu no Monde.

(Lista "Boteco do Setaro". Dez/2004)

Keanu debaixo do nosso nariz!

Na moita
09/12 - 19:00 -
Esta só mesmo o Glamurama para descobrir. Quem está na Bahia desde quinta-feira passada abaixo do radar dos curiosos são as estrelas hollywoodianas Orlando Bloom e Keanu Reeves.

* Hospedados na Praia da Tiritica, os atores chegaram de van com um grupo animado de amigos para visitar a comunidade local Porto de Trás, em Itacaré. Keanu, que conversou com os locais falando português (isso mesmo!), fez aula até de capoeira junto com Orlando e os amigos. E já marcou mais outras.

* Lições de surfe também estão na agenda brasuca da dupla, que foi vista domando as ondas durante os últimos dias. Quem conversou com os astros conta que, além de simpáticos, eles fazem o tipo low profile, o que se comprova pelo fato de terem escolhido ficar em uma pousada em vez de optarem por um resort.

* Vale lembrar que esta é a segunda visita de Orlando ao Brasil, que esteve na Bahia e no Rio durante o Réveillon de 2004, junto com a ex-namorada Kate Bosworth e o casal de amigos Charlize Theron e Stuart Townsend.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Adiós, cariño!

Ohhh, Pacheco não está mais entre nós [ou nosotros]!... Meu locutor favorito era um doce! Não o conheci pessoalmente - por culpa de "Cláuuudio Liaalllll" -, mas só de perceber a sua educação e paciência em agüentar cada ouvinte chato do caramba entrando ao vivo... O povo lia poesia, relembrava coisas desinteressantes do arco da velha, reclamava da má vontade governamental com a Fonte Nova, e por aí ia... Pacheco tinha um sotaque meio portenho que me cativou muchísimo desde a primeira vez em que o sintonizei - coincidentemente, a caminho da minha aula de espanhol!
A matéria a seguir foi retirada do Jornal da Metrópole, de 05 de dezembro último. Nela, havia uma foto do lo más de la radio. Não consegui pegá-la na internet. Confesso, fiquei desapontada. Uma imagem tão certinha não combina com a dramaticidade da sua locução! Esperava Carlos Gardel e vi foi Ian McKellen. Sei lá, pintar o cabelo de negro - como Silvio Santos e Raul Gil fazem -, um bigodinho de vilão dos anos 40, um anel de ouro no dedo, isso seria mais a cara do meu cavalheiro radiofônico do que cabelho grisalho e camisa de botão! hehe... Bem, sem dúvida, Almoçando com Pacheco Filho vai fazer falta! :)

PS.: Sem saber que já havia falecido, me dei um "sesión de bolero", essa semana. E enquanto Pacheco via, pela última vez, "O corcunda de Notre-Dame", eu pesquisava sobre essa história no Google. Que sincronia! Que encaixe de almas! hahaha... Isso me lembrou a letra de um bolero do qual gosto muito, Sabor a mí: "Yo no sé si tenga amor la eternidad, pero alla, tal como aqui, el la boca llevarás... Sabor a mí".


Adeus, Pacheco Filho

Balbino Pacheco de Oliveira Júnior, conhecido como Pacheco Filho, nasceu em Salvador em 15/10/1926 e começou sua carreira no rádio aos 16 anos, depois de um concurso para locutores na Rádio Excelsior. Ele foi rapidamente afastado do cargo por conta de sua pouca idade, que não lhe permitia trabalhar. Quando o empresário Almeida Castro voltou à rádio como diretor, convocou Pacheco para retomar o cargo, visto que ele tinha quase 18 anos.
Com Humberto Santiago, Pacheco aprendeu a fazer radioteatro e foi galã da radionovela "A mulher inesquecível". Tempos depois, foi para Pernambuco trabalhar na Rádio Sociedade. Rapidamente, Pacheco se tornou produtor de programas, locutor e radioator. Dirigiu o setor artístico da Rádio Cultura, onde fazia diversos programas, sendo o mais conhecido deles o "Só para mulheres". Antes do lançamento do programa, a rádio costumava desligar os transmissores no horário entre 14 h e 16 h para que o "transmissor pudesse descansar".
O empresário Paulo Nacif começou a achar esta pausa um desperdício de dinheiro e convidou Pacheco para fazer um programa no horário, que seria baseado unicamente na interação com o público. Foi o primeiro programa brasileiro totalmente improvisado em conversas com os ouvintes. Para testar a audiência, Pacheco convocou os ouvintes a trazerem bolos para a emissora no aniversário de um mês do "Só para mulheres". No dia combinado, a polícia precisou conter a multidão. Pacheco Filho sempre foi conhecido por seu jeito cativante e extremamente polido que conquistava os ouvintes, sobretudo as mulheres.
A família de Pacheco era muito ligada à política. Seu pai havia sido vereador e deputado, seu tio idem e outro tio chegou a ser senador. Dois anos antes das eleições, seu pai morreu e começou a haver uma pressão familiar para que ele assumisse o lugar. Inicialmente, ele não queria, mas começou a se afeiçoar à vida pública e se tornou vereador em 1959.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Bolero só para Pacheco Filho

"Frio en el alma porque no estás conmigo..."
[Gregório Barrios]

Pacheco Filho, uma delicadeza. Coluna empertigada para honrar a voz. Vincos fundos no rosto, carteira no sovaco, camisa de botões. Homem de gotejar uma indignação diária. Erguia o dedo e um discurso iracundo. "Não leio mais esta porcaria!" - e estalava o jornal na mesa do café. "Já leu a história de Marina transar com Gal Costa? Pois publicaram!"

Dividia musicalmente as sílabas, esse Balbino Pacheco de Oliveira Júnior. Na década de 40, quando iniciou a carreira radiofônica, arrastava as fãs e os erres. Guapo, bigode à Orlando Silva, amaciava travesseiros no programa "Só para mulheres...", da Rádio Cultura. Seu charme nascia da respiração. E a popularidade o conduziu à Câmara de Vereadores de Salvador (1959-1962).

Não fez mal em largar o emprego para cortejar uma bailarina em Buenos Aires. Outro amor retornou nos anos da velhice, na Rádio Metrópole (única a abrigá-lo nos anos finais). A fã em idade provecta surgia no ar, e mordiscava. Pacheco, assim-assim, ressabiado, esboçava o desgrude. Mas a madame insistia em relembrar as noites de priscas eras. Longe dos microfones, ela segredou: "Aquilo que você me pediu há 30 anos, eu posso lhe dar agora..."

Pacheco se definia por canções e filmes. Conhecia profundamente a música brasileira e o cancioneiro espanhol. Nos últimos dias, sobraçava uma cópia do filme "O corcunda de Notre-Dame". Nem a versão de Anthony Quinn, nem a de Lon Chaney. Preferia Charles Laughton, da RKO.

Guardava as cerimônias dos locutores de antanho. O naufrágio do universo radiofônico imprimiu à sua voz uma cadência anacrônica. Alertei-o que uma amiga era sua fã. E ele se desfez, no microfone, em forma de música: "Só nós dois é que sabemos/ O quanto nos queremos bem/ Só nós dois é que sabemos/ Só nós dois e mais ninguém".

Era o radialista da palavra medida, da memória de almanaque; e não das ameaças veladas, da valentia contada na bandeira 2, dos achaques de outras bocas da Província. Gramou a pobreza, ao fim da glória que não consola. Um entre tantos náufragos da era de ouro.

Aos 82 anos, sentia a perda do fôlego, o desfazimento do corpo. Como haveria de reconquistar as fãs que lhe negaram o ouro há 30 anos? Para Pacheco, uma música a mais: "Frio en el alma", de Miguel Ángel Valladares, na voz de Gregorio Barrios. "Qué loco empeño/ de revivir las cosas/ de un pasado ya muerto,/ del fantasma de ayer."

Claudio Leal

Frase da Semana

"Abraço e punhalada a gente só dá em quem está perto."

Otto Lara Resende, jornalista e escritor mineiro.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

GINO

“Picaaaaaaaas, tchê!”. Ninguém nunca entendeu o que tão exótica saudação significava - mas também ninguém nunca se interessou em perguntar. Da figura em questão, esperava-se qualquer coisa, inclusive frases absurdas. Eu tenho a minha teoria sobre o bordão do personagem deste post, porém isso não vem ao caso... O “criativo” autor da frase acima é o vô Gino, amigo da família desde 1900 e lá vai fumaça, a quem minha irmã mais velha cresceu chamando de vô, e, por tabela, se tornou meu avô e de minha outra irmã, também.

Ginobaldo Simões dos Santos nasceu em Ilhéus, a 28 de abril de 1928. Aos 18 anos, mudou-se para São Paulo. Queria trabalhar com aviões e em não muito tempo, conseguiu realizar o seu sonho: virou mecânico de aeronaves. Casou-se, teve duas filhas. Separou-se e foi para Brasília levado por uma nova namorada. E depois arranjou, por lá, outra, que pra azar de tia Marinalva era ela, a própria.

Aqui vai minha primeira alfinetada em Gino – o Baldo: não o desejaria a minha pior inimiga. No duro! Com vô Gino e Tia Marinalva percebi, 15 anos antes de seu Marquinhos, pai de Julia, nos dizer que mulher namora qualquer um, “e só não investe na cobra porque não dá pra saber o sexo do animal”, que a falta de critério no amor é uma falha do cromossomo X.

Minha tia, que era uma mulher risonha, bem-sucedida e elegante, nos anos seguintes, com Gino, perdeu tudo... menos o bom-humor, graças a Deus! Mas todo mundo dizia, pelas costas: “Gino acabou com a Marinalva! Coitada!...”.

Um dia, já adolescente, e cansada de saber dos casinhos de dr. Gino, perguntei a minha mãe como é que um sujeito velho, barrigudo, chato, bruto, pobre, etc, etc, conseguia ter esposa e ainda amante. Minha mãe ficou muda. Realmente, era um afronto à lógica.

É. Não adianta querer discutir o sexo dos anjos. O caso é que, com o tempo, a gente entende que mulher ama diferente de homem, e no fim são eles que se dão bem: o cara pode ser um traste e a mulher o quer porque ele desperta nela “aquele sentimento”; o homem pode não sentir nada pela mulher, mas ele a quer porque “ela é conveniente na vida dele”... e só enquanto não surge outra melhor. Que diabos o Gino despertava na Marinalva, eu nunca entendi. Carma? Amarração para o amor? Autoflagelação? Falta do que fazer? Vá saber...

Baldo, o Gino, é a cara do Natal. Todos os de minha infância me trazem a lembrança dele. Uma vez, me perguntou o que queria ganhar. Tentei exercitar a minha humildade goiana, e num ato de hipocrisia pura, disse: “Ah, vô, qualquer coisa. O que você quiser me dar!”. E ele obedeceu, sem a menor cerimônia: me deu uns papéis de carta, que eu odiei, mas sorri, agradeci a lembrancinha, enquanto dizia, em pensamento, pra mim mesma: “Otááária! Toooma pra aprender!”. No ano seguinte, entretanto, me vinguei: pedi o LP do Bozo – e ele que se virasse pra achar essa “raridade” pelas lojas de Brasília. Pra minha surpresa, ele comprou.

Foi surpresa mesmo, porque Gino era conhecido pela sovinice crônica. Era padrinho de minha irmã do meio. Quase nunca dava presente. No seu aniversário de quatorze anos, lhe deu um cheque que deveria equivaler a uns R$ 20, hoje. Minha irmã nunca conseguiu descontá-lo. Quando chegava perto do dia combinado, ligava Gino [nessa época, já residindo no Rio de Janeiro]: “Ó, não desconta, não! Segura aí!”. Minha irmã passou várias semanas “segurando aí”. Um dia, mandou um recado via meu pai: “Diga ao vô que o que ele gastou de interurbano me mandando não descontar o cheque, já dá o dobro do valor”.

Suas férias, depois que a gente se mudou pra Bahia, passaram a ser total free. Olha que moleza: A Vasp dava direito às passagens, e ele ficava aqui em casa, de boa, sem fazer nada. Se fosse só isso...

Gino passava dois meses aqui – de março a maio – e eu demorava mais dois meses pra me recuperar psicologicamente disso. Primeiro, que ele grudava no banco da frente do carro de meu pai. Segundo, que o sujeito acordava às cinco da manhã e tomava uma chuveirada – que por vezes nos acordava -, de uns 40 minutos. Depois, pegava todas as verduras da geladeira, metia na centrífuga pra fazer um único copo de vitamina. Não é exagero, não: era uma cacetada de coisas pra render um misero copinho! E se a gente desse o azar de cruzar com ele na cozinha, nessa hora, ele sacava uma tabela com as “propriedades” de sua receita matutina e dava uma “aula” de nutrição.

Sim, ainda tinha essa: era metido a sabichão. Quando Renata e eu começamos no inglês, um dia foi nos buscar com meu pai. Tirou a maior onda:

- Porque quando eu estudava inglês, a gente não conversava em português nem no intervalo! Quero ver se vocês sabem: I am, you are, he is...

Não passava disso. Um dia, minha irmã não se agüentou e me puxou pela gola, no banco de trás:

- Ele sabe inglês coisa nenhuma! Já reparou que ele não sai nunca do verbo To Be?!

Era todo cheio dos apetrechos semi-inúteis. A primeira vez que vi uma mão de plástico [pra coçar as costas] foi na casa dele. Uma vez, nos presenteou com um “mexedor de bebidas”. Coisa “utilíssima”, afinal é uma tarefa e tanto mexer o café com leite, o toddy... Mas o pior é que o treco era viciante. Ganhei por volta de 96 e ele se foi mais ou menos em 2000. Gastei pilhas e pilhas só pra ver aquele trequinho mexendo os líquidos. Confesso: até que era massa! hehe

Ninguém merecia aquela criatura... Que, acima de tudo, nos fazia passar vergonha. A barriga de Gino podia ser vista a 10 km. Minhas colegas, na saída da escola - quando mais uma vez ele estava grudado no banco da frente -, ao ver tão extensa pança, me perguntavam, com um risinho de canto de boca:

- Aquele lá é o seu avô, é?

Eu só balançava a cabeça afirmativamente.

Durante uma temporada, a barriga tava tão grande que a turma da praia o apelidou de “Ginossauro”. Ainda assim, Gino se achava “o delícia”...

Ainda por cima, o figura era sonâmbulo. Morávamos em prédio, e havia uma italianada chata pra burro, dona de restaurante, que chegava muito tarde – coincidentemente, quando nosso agregado resolvia dar umas “voltinhas” debaixo do bloco, durante o sono. Perdi as contas de quantas vezes fomos “caçá-lo” pra que o povo não desse de cara com ele zanzando por aí [sabe-se lá em que traje!]...

Um dia, o mico foi dentro de casa mesmo.

Feira das Nações, sabem como é: vários detalhes para resolver de véspera. Minha irmã convidou a amiga para dormir lá em casa. Conversa vai, conversa vem, e eu vou no quarto. Quem eu encontro lá, no colchão onde ia dormir a menina? Gino, chutando o Baldo das boas maneiras: roncando pra caramba, deitado de bruços [quase uma gangorra humana, porque a pança, tocando o chão, criava um desequilíbrio tremendo entre as partes do corpo]. Chocada com a cena dantesca, chamei as meninas. Minha irmã caiu na risada. A amiga ficou toda sem graça. Eu fiquei refletindo sobre as implicações da posição gangorra de “seu” Gino – acordo ou não acordo ele pra se ajeitar nessa zorra?

Digo e repito: ninguém merecia aquela criatura de hóspede! Por isso, após anos comendo o pão que o diabo amassou, de março a maio, resolvi apelar a Deus, nosso Senhor. Rezei, rezei e rezei muito, dois meses antes da data fatídica. Um dia, toca o telefone. Era Gino avisando que não ia poder vir, que FHC havia tirado o direito a passagem, e blábláblá... Nossa, aquilo pra mim foi final de Liga Mundial! Desculpem-me os politicamente corretos, mas eu sambei no meu quarto, de felicidade! Dididipá!...

No ano seguinte, minha fé foi um pouco longe demais: Gino novamente não poderia vir, mas porque faleceu. Fiquei um pouco desconfiada. “Será que foi por que rezei pra ele não vir?” Minha mãe, impressionadíssima com a coincidência, ficou dizendo “Ta vendo! Ta vendo! Olha só o que você foi arranjar com essa sua brincadeira!...”. Meu melhor amigo, “chocado”, apenas perguntou: “Juliana, mas que porra foi essa que você fez?!”. Mas, claro, sarros à parte, Gino partiu dessa para a melhor porque abusou demais de seu organismo em vida – “prefiro não comentar”. O estrago que os maus hábitos fizeram em seu organismo foi tão grande, que nem “as propriedades” de sua "santa" vitamina matinal puderam evitar.

Anos mais tarde, eu que não sou nem um pouco de sonhar, sonhei com ele. O mesmo físico, mas uma expressão relaxada, feliz, que não batia muito com o Gino da vida real – um cínico de carteirinha. Ele estava muito bem. Fiquei feliz por ele e por mim - pelo visto, já liberada da maldição [rs]. E que ele não me escute, mas até que faz um pouquinho de falta sim - muiiito de vez em quando, mas faz. Só um pouquinho.