terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"Dá a César o que é de César..."

"... E a Deus o que é de Deus.""

Tá vendo? Nem Ele pediu mais do que o devido, e tem gente aí que... Enfim, deixa pra lá.

... Ou não.

Acabo de ver um comentário no Facebook sobre um livro que comprei há muito tempo chamado "Homens Invisíveis", de Fernando Braga. O sujeito é psicólogo, o título me interessou à beça, então eu esperava ler "o" livro, mas me deparei com um blá, blá, blá dos infernos, mera descrição de mauricinho que nunca deu bom dia a pobre na vida. Sim, porque se ele fosse acostumado a pelo cumprimentar a moçada do "baixo clero", não teria tido o espanto que teve. Típico aluno da USP, posso apostar, mesmo sem nunca ter pisado nessa universidade. Deu vontade de dizer:

- "Meu", seu livro é vergonhoso. Você deveria ter sabido da existência deles muito antes da pesquisa. Fala sério que você nunca notou a passagem dessa galera de uniforme? Tenha dó!

Não que eu fique batendo papo com todo mundo. Não faço isso, pra dizer a verdade, nem com os meus superiores. Sou bicho do mato mesmo. Mas cumprimentar é básico. Faço isso. Sei quem são as pessoas da limpeza, do transporte, da copa, etc.

Outro dia, uma dupla do industrial ficou constrangida quando eu os notei. Estávamos no restaurante da empresa - eles costumam comer bem antes de nós. Olhei porque queria ver quem estava ao meu lado, claro, e como se tratavam de dois moços bonitos - coisa rara naquele prédio -, reparei por dois segundos a mais. Tive a impressão de que tinham vergonha do uniforme de operário. No dia seguinte, na máquina de café, cheguei quando o mais bonito deles estava tirando um copinho pra beber. Novamente notei o constrangimento, como se ele se achasse muito desarrumado por estar de uniforme. Deu vontade de brincar:
- Ô, filho, você tá muito mais gatinho que muita figura dessa redação, pode apostar. E, afinal, somos todos trabalhadores, chão de fábrica. (E não é? Eu me sinto operária total, glamour zero!)
Fiquei calada com medo de soar estranha. Perdi a chance de amenizar o constrangimento (indevido) dele. O mesmo, aliás, que percebi nas manicures do salão que frequento, que recentemente ganharam um uniforme.
Há algo de errado na nossa cultura que precisa ser revisto. É um algo da mesma família do preconceito que os estudantes têm com os cursos técnicos. Caramba, o que tem de gente que não tem um pingo de dom para a vida acadêmica "comprando" diploma por aí...

Permissividade
Por outro lado, me irrita a síndrome de coitadinho. Que muitas vezes nem parte das pessoas  desfavorecidas, vale frisar. Uma coisa é você reparar o acesso às oportunidades, como acontece com a política de cotas. Mas odeio esse estímulo a permissividade de nossa sociedade.
Aquele episódio com a atriz Zezé Polessa e o motorista que morreu de infarto é emblemático. A mulher foi demonizada só por ser famosa e rica. Se ela gritou com ele ou algo que o valha, esqueça o que vou dizer a seguir, que falta de educação é inexcusável em qualquer circunstância. Mas por que ela não deveria dizer que não quer mais os serviços dele? Se ela pode dizer isso a alguém para quem ela trabalha porque não pode dizer a alguém que trabalha para ela?
 "Ah, porque ele precisa". "Ah, mas ele era muito humildezinho".
Muita gente discordaria de mim, mas eu não concordo com essas justificativas. Se ele quer ser motorista, precisa conhecer a cidade. Ou então arranje outra ocupação mais adequada.
Se o empregador ficar com pena e quiser manter um mau funcionário, massa. É bacana dar o tempo do aviso prévio para a pessoa se organizar e procurar outra colocação, sem aquela coisa brusca de estar sem ocupação logo no dia seguinte. Mas não acho desumano o empregador dispensar o empregado por não estar satisfeito.
Você é obrigado a sofrer porque alguém mais pobre que você está fazendo mal o papel a que se dispôs? É lindo a curto prazo, mas é ruim no longo, e é até uma deseducação. A pessoa nunca vai progredir porque é tratada eternamente como "café com leite". Quantos passos você já deu à frente porque alguém te deu uma boa dose de realidade?
É colocar quem emprega numa posição de refém. A pessoa morre de vontade de se livrar do peso morto, mas tem medo de posar de insensível.
Minha irmã demorou meses para demitir uma empregada que trabalhava mal e era mãe solteira de três filhas. Evangélica, a mulher tinha uma relação mega protetora com as filhas, as meninas ligavam para confirmar tarefas rotineiras (até aí é perdoável. apesar de não concordar com essa educação "autonomia zero", é normal que mães solteiras mimem por culpa), e ela, que já era beeem lentinha no serviço, mal conseguia dar conta de uma casa onde moravam apenas duas pessoas.
A figura dava pena, mais pela cara de Madalena arrependida do que pela situação real. Por isso, minha irmã sempre que dava uma limpeza no guarda-roupa ou algo do tipo lembrava dela. Meu ex-cunhado vira e mexe dava uma contribuição. Mas a figura ficava o tempo todo contando que precisava disso e daquilo. Era chato. Porque ela fazia qualquer um se sentir um vilão de filme mexicano ao ignorar o comentário dela. A esse tipo de gente desejo muito boa sorte - de coração mesmo -, mas não gosto. É muita falta de dignidade. Não respeito.

Voltando à vaca fria, no caso da Zezé, os próprios filhos do sujeito disseram que ele já estava se sentindo mal antes. Mas nesses casos, rico já nasceu errado.

Desculpem-me os mais melindrosos, mas é que eu, apesar de saber da importância da generosidade e gostar de praticá-la, tenho problemas sérios com imposições neste sentido. Se alguém me força a algo - tanto faz que seja indiretamente, pela via do constrangimento moral -, no meu conceito já não merece recebê-lo. "É dando que se recebe", como dizem. E qual é o motivo que tenho para ser generosa com quem é impositivo comigo? Faça por merecer, ora.

Enfim, sinto falta de um olhar mais horizontal nas relações humanas. Para o bem e para o mal, merecemos todos o mesmo tratamento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário