quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A hora da verdade

Aos 25 anos a gente começa definitivamente a morrer. Seu colágeno começa a diminuir, sua produção de óvulos idem, e por aí vai. Essa introdução toda foi para convencer quem me lê de que estou ficando velha, e portanto tenho plena razão naquilo que vou dizer a seguir.

Acho que, a essa altura, algumas características minhas já são irreversíveis. Está chegando a hora da verdade, de desvendar o que é de minha natureza. O que não é meu e o que veio pra ficar. Eu já vi que:

1 - Eu sou uma pessoa séria. Fato. Gosto de ter ao meu redor gente confiável, com quem possa contar. Preciso de um mínimo de estrutura e organização. Não sei viver na inconsistência, no caos total.

2 - Aguento muita coisa de quem eu gosto, sou boa ouvinte, ajudo, tenho até bastante paciência, relevo mancada e tal, mas piro com falta de consideração. Quer me botar para correr? Eis a fórmula infalível.

3-  Até dou conta de tudo - e estar produtiva me deixa bastante satisfeita -, mas não ter um tempo para o ócio me deixa muito, muito mal. E quando estou assim, somatizo.

4 - Gosto de todo mundo junto, mas preciso de meus sagrados momentos de solidão.

5 - Não consigo amar entusiasticamente - meu estado natural, acredite - quem não admiro. Como tenho [um senso crítico afiado e] tenho um sistema de valores diferente da média, isso acontece com poucos. Com a maioria eu vou de amorzinho mesmo, aquela coisa que agrada mas não arrebata.

6 - E piora quando se trata do sexo oposto, já que generosidade não é o forte dos homens. Quando encontro essa qualidade, é batata: o sujeito é gay.

7 - E por falar em homem, nada como um "moreno, alto, bonito e sensual", rs. Meu olho cresce imediatamente. Homem pequeno e branquelo não me chama a atenção. Mas mesmo com um fenótipo privilegiado, se for mesquinho não rola [ver item 5].

8 - Para falar a verdade, tenho profundo desprezo por gente insensível ou fraca de caráter [já esbarrei com quem tem essas duas "qualidades" e foi mais que péssimo]. Gostaria de ter mais compaixão, mas emocionalmente não acontece e acho que dificilmente vou mudar. Enfim, penso que não sou má por não gostar de todo tipo de gente. Hoje me permito isso.

9 - E não tenho paciência com quem tem meus defeitos só que piorados. Sou meu "ponto de corte". Tô falando sério.

10 - Nunca serei popular. Simplesmente porque, apesar de afável, sou de difícil intimidade. Tem que ter paciência mesmo, chegar aos poucos.

11 - Preciso estar perto da natureza, de preferência de um lugar com mar.

12 - Preciso fazer exercício físico sempre. Sinto dor quando estou sedentária.

13 - Bebida não me dá barato: logo fico com sono e o máximo que me acontece é perder a coordenação motora. Nem fico extrovertida nem perco a memória.  

14 - Tempo frio faz mal pro meu humor. Odeio. Prefiro derreter debaixo do sol. Talvez por isso eu ame a cor amarela.

15 - Sou Felícia com criança pequena e sinto uma tremenda falta de ter cachorro em casa.

16 - Gosto de fazer minhas tarefas a pé. Odeio depender do que quer que seja.

 17 - Consigo ouvir uma crítica razoavelmente bem, mas me aborrece ter superiores desprovidos de bom senso. E eu sou péssima quando perco o respeito pelas pessoas (já melhorei muito, mas...).

18 - Não gosto de dormir muito cedo nem de acordar muito cedo. O ideal é dormir 7h por dia. O sono faz toda diferença para a minha concentração no dia seguinte.


19 - Sei que não é bacana, mas: 1) tomo o que for pra me livrar de uma dor; 2) não gosto de alface; e 3) embora não seja muito de comer carne, acho difícil banir isso de vez do meu cardápio, ainda que entenda o "não matarás" como extensivo a todos os seres vivos.

20 - Nunca passarei da qualificação "básica" em se tratando de visual. Não nasci com certas habilidades como fazer unha, cabelo, saber costurar ou achar uma bela roupa por um bom preço. Não tenho talento, nem disposição e muito menos grana. Quando começar a ganhar dinheiro é possível que melhore, mas nunca serei sofisticada. Fato. Já estou me conformando só em ser limpinha, rs.

21 - Não gosto de saia nem de salto alto. Não sei ficar vigiando se minha calcinha está aparecendo ou se tem buraco no chão.

22 - Detesto gato desde pequena e isso vai ser pra sempre, pelo visto.

23 - Jornalismo não é a minha. Até tenho algum talento, mas não é "a" vocação. Como disse alguém, amor é foco, e essa atividade nunca foi o meu. Acho que continuei nessa profissão mais por refutar o fato de não querer o mesmo que os meus amigos. Enfim, vou ter que começar tudo de novo. E tomara que dessa vez dê certo. Por outro lado, isso me dá medo. Digo, será que vai ser sempre assim, iniciando e nunca consolidando? Quero não. Vim aqui para construir. Início, meio e fim, tá certo?

24 - Nada melhor do que adquirir conhecimento e por isso amo viajar. Mas amo mais ainda voltar para a minha casa. E definitivamente detesto situações de desconforto, como acampamentos, ou atividades que envolvem perigo ou altura.

25 - Não tenho um pingo de atração por tecnologia. Ter o mais novo Iphone não me emociona.

26 - É difícil pra mim ficar com a boca fechada quando fico indignada. Já melhorei muiiiiiiiiiiiiiiiito nesse aspecto. Mas ainda sou dada a uma rabieta, infelizmente. A boa notícia é que logo passa. A má notícia é que ainda não aprendi a me manifestar no momento adequado e do modo oportuno. Às vezes tenho até razão mas a minha expressão estraga tudo. Ainda engulo elefantes e engasgo com formigas.

27 - Sou definitivamente possessiva. E isso é diferente de ser ciumenta, viu? Eu não me importo que alguém dê algo a outro alguém, contanto que conserve o meu. Já melhorei bastante em relação a paqueras - até porque não faz o mínimo sentido tratar as pessoas como "suas" -, mas em relação a outras situações, não. Até porque, cá pra nós, acho justo lutar pelo meu quinhão.

28 - Certamente eu tenho problema de déficit de atenção. Mas enquanto puder, vou evitar medicação.

29 - Pois é, falando nisso, decidi que não vou ser 100% como manda o figurino. Do mesmo modo que vou ter que dar o meu jeito pra lidar com as imperfeições do mundo, ele que também se vire com os meus limites e problemas.

***

É, quando eu era menor, achava um absurdo a minha mãe nunca querer me ouvir. Ela sempre foi ruim de crítica, mas, hoje entendo, a gente envelhece e vai perdendo a disposição de lutar consigo mesmo. Sim, porque os avanços que tive, que não constam nessa lista acima mas foram em boa quantidade e significativos, me custaram muito trabalho interno. "Samba, suor e suingue", como dizia a vinheta de um programa de rádio.

A coisa bonita dessa história é que essa condescendência tem a ver com um apreço crescente por si mesmo. A gente começa a se aceitar mais, inclusive nas limitações. Percebemos que dá para crescer e melhorar, mas que tudo tem o seu tempo e nós temos o nosso ritmo.


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