sábado, 9 de agosto de 2008

Minha Tia

Aproveitando que segunda, 25/08, é aniversário da minha tia e que ela foi professora por muitos anos, publico, aqui, minha "redação de volta às férias", intitulada "Minha tia"! hihi

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É uma terça-feira, tarde da noite. Chego na casa da minha tia. Ela está vendo “Big Brother”, e não há surpresa nisso. Toda edição, lá vai ela comprar o tal pacote da Sky. Torna-se praticamente a sucursal do programa em Salvador. E ai de quem cair na besteira de perguntar algo sobre o BBB! Ela, que certamente viu tudo, fará questão de contar os casos nos mínimos detalhes e defenderá seu ponto de vista com unhas e dentes. Naquela noite, teceu elogios rasgadíssimos a Mariana Felício. Ao final do fervoroso resumo da trajetória da moça no programa, tentou amenizar o próprio entusiasmo com a atração global: “Para mim, como educadora, o Big Brother é um estudo e tanto!”. Ã-hã!... Sei!... risos


A casa de minha tia é uma espécie de QG. Todos os amigos dos filhos passam por ali: aqueles que conheceram seus meninos no colégio, os amigos da faculdade... O bonito é que agora eles levam, também, seus filhos.

Isso sem contar os sobrinhos – alguns deles criados dentro da sua casa -, que também começam a freqüentar o apartamento com a terceira geração. Ela mesma ainda não realizou o sonho de ter um neto, então acho que os “netos tortos” vão quebrando esse galho, por enquanto. Mas ainda que os tivesse, acho que não faria diferença no trato com aqueles que não são de seu sangue.
É muita gente em torno dela - e sempre cabe mais um!


Um dia, vendo as fotos de algumas das suas "netas adotivas”, observou que uma delas ficava, digamos, aquém das outras no quesito beleza. Comentou, daquele seu jeito espontâneo e único: “Olha, elas vão crescer juntas e isso vai dar problema. Eu me preocuuuupo!”, e deixou a foto sob a mesa, saindo, em seguida, com a testa um pouco franzida. Hilário! Que figura ela é!...


No sofá dela, muita gente já se conheceu, já chorou as pitangas da separação, já perguntou o que fazer em situação tal, já comemorou a boa nova. Minha tia não é tão procurada à toa: ouve com atenção, sempre tem algo a dizer e se mostra sinceramente envolvida com a questão alheia. Acolher é o seu maior dom. Ô!... Brinco que minha tia tem “Complexo de Mulher Maravilha”. Se alguém lhe conta um problema e ela sente que pode mexer seus pauzinhos, “veste a capa” e move céus e terra, quer você tenha lhe pedido ou não. E apesar de ser uma mulher de atitude, é incapaz de ser indelicada ou invasiva. É incrível como tem consideração pelos outros!... Eu admiro!


Quando o filho mais velho passou num vestibular em Minas, o coração apertou. Acho que ela desejou tão forte que ele retornasse, que um mês depois, o garoto ligou e confessou que queria voltar à Bahia. A mãe foi bater na sala do reitor da UCSal, que ficou meio atônito com aquela senhora baixinha mas simpatizou tanto com o empenho dela, que liberou a transferência.
O filho ficou morrendo de vergonha, apesar de feliz à beça com a volta pra casa. Eu bem o entendo: também já fui “vítima” dos pedidos emotivos de minha tia. A gente fica sem saber onde enfiar a cara! risos

Ela é extremamente sensata, é prática, mas quem bate o martelo, no final, é o coração. É pura passionalidade, sua expressão por vezes é inflamada! hehe... Certa feita, na época em que tinha um cargo importante na Secretaria da Educação, foi com muita má vontade receber Luís Eduardo Magalhães - nunca gostou de ACM. “Minha tia, a senhora é louca de ficar de cara feia pro filho de ACM?!”. Ela foi com essa intenção mas se desarmou diante da gentileza e da simplicidade com que foi abordada pelo filho de Toninho Malvadeza. Toque no nome do filho do ex-governador e prepare-se para uma enxurrada de adjetivos positivos.

É uma delícia ouvi-la sobre os tempos em que foi professora e atuou na Secretaria. É história da Bahia pura (neste sentido, meu ex-chefe, Sampaio, também é um bom papo)! Tão prazeroso quanto, é ouvi-la comentar as fotos das viagens que fez com meu tio. Já vi os álbuns umas três vezes, mas se ela se esquece de que já os mostrou e quer fazê-lo mais uma vez, não recuso. Felizmente ela sabe contar uma história! E vai falando dos lugares, segue pelos hotéis e navios, adentra nas amizades que fez... De repente, você (e ela!) se sente lá.


Numa dessas sessões, vimos tantas fotos que acabamos nas de sua juventude. Adorou lembrar como era “ajeitadinha de corpo”, “uma graça” (isso é sempre um consolo, quando se é uma senhora roliça de 60 e alguns anos! todas adoram falar essas coisas, fazer auto-elogio! haha).
Ela realmente era uma moça bonita e tinha cara de espevitada. Nessa hora, meu tio entrou quarto. Sempre circunspecto, dessa vez ele interveio na conversa: “Na verdade, você era uma bonequinha!”. Ahhhh!... O amor existe e ele é belo mesmo após quase 40 anos juntos!


Mas as melhores histórias que minha tia conta são sobre o pai dela. Ela foi uma dessas mulheres sortudas por terem tido um pai amigo, numa época em que o modelo patriarcal era inflexível. Toda vez que leio os textos de Lya Luft sobre o pai, lembro de minha tia. É a mesma admiração...Ela sempre se emociona quando lembra dele. Esse tipo de relação pai-filha é bem legal de se ver.


O pai dela já era bem maduro quando conheceu sua mulher - a mãe dela -, 20 anos mais nova. Viveu para a esposa e morreu um pouco depois que ela faleceu. O velho, pelo jeito, tinha uma visão interessante do casamento. Dizia que a mulher deveria ser muito bem tratada, pois dava a um estranho o que tinha de mais precioso: seu corpo (época em que a mulherada casava virgem, né) – para o sexo, para a reprodução e ainda no cuidado com a casa. A seu ver, o homem não dava a mulher nada de tão especial em troca, ao menos nada além do que deu a tantas outras. Quando minha tia me contou isso, claro, fiquei impressionada com esse pensamento um tanto a frente do tempo, isto é, se considerarmos que esse homem nasceu bem no início do século, no interior do Brasil, sua visão do feminino é fantástica... Adoro essas histórias de gente idosa que foi avant garden!


Foi olhando para minha tia que realmente me convenci de que mulheres podem ser meninas, ainda que tenham idade para serem avós. Mesmo já estando com todo aspecto de uma senhora de 60 e alguns anos, há algo na expressão dela que por vezes me lembra a de uma menininha. Seu sorriso é ainda muito vivo, e eu acho isso sensacional (nada mais belo que senhoras e senhores que sorriem como jovens!). Eis aí uma dica valiosíssima para combater o envelhecimento: a vitalidade! Minha tia, mesmo tendo tido uma vida tão movimentada e tendo passado por tanta coisa, ainda é uma pessoa inocente, que sempre pensa o melhor dos outros, que sempre procura ser útil a quem está ao seu redor.


A minha teoria para tal "fenômeno" é que se trata de uma pessoa muito amada: pelos pais, pelos irmãos, pelos sobrinhos, pelo marido, pelos filhos, pelos amigos dos filhos, pelos vizinhos, pelos ex-colegas de trabalho, etc. Teve muita sorte na vida, e pra ela é quase um ato involuntário ser generosa e afável com as pessoas. Poderia muito bem ter uma atitude oposta. Já vi muita gente afortunada (assim como muita gente de passado sofrido) usar isso para diminuir os outros. Ela, pelo contrário, é solidária, e eu acho isso muito bacana.


Enfim, minha tia não seria minha tia se não fosse a sua capacidade acima do normal de agregar pessoas. Admiro muito isso nela. Aliás, nunca vi alguém com menos de 40 anos chamando-a pelo nome. É tia, de sobrinhos de sangue e de vários outros de consideração. Sou, orgulhosamente, um deles.

Obrigada, minha tia, pela acolhida e pelo exemplo de vida! :)

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