O título desse post te soou a de novela mexicana? Pois se você fez essa associação, chegou quase lá, porque eu vim mesmo falar de novela. Tava, agora há pouco, lendo o texto da Bia Abramo na Folha. A crítica foi em cheio numa questão que venho observando há muito tempo, nas tramas globais. Take a look: "'Beleza Pura' tinha médicos e médicas dermatologistas e clínicas de saúde, e dizia-se que discutiria a obsessão contemporânea pela beleza. Discutiu coisa nenhuma".
Houve uma época, antes de Dr. Sampaio me dar 1 x O com o e-mail do Jornal da Mídia - o que ele negaria, se estivesse lendo isso aqui! -, na qual recebia os boletins de apresentação das novelas. Com freqüência, os textos tentavam vender a nova trama como uma história com conteúdo, que veio a acrescentar ao público. "Coisa nenhuma".
Essa obrigatoriedade de ser responsável socialmente, como diria minha prima Fernandinha, é "meio paia". A gente sabe que os empresários não estão nem aí para o progresso social, que eles fazem isso para ganhar pontos, o dito "capital simbólico". "Beleza Pura" discutiu o quê? "Belíssima" discutiu o quê? "Celebridade" fez o quê? Como diria o Zé Galinha, ô, Rede Globo, "tá mangando di eu?". Uma coisa é a Faber Castel dizer que vai plantar árvores, mas a Globo querer me convencer de que ela mesma vai criticar aquilo que é o pilar do seu sucesso: a fogueira das vaidades? Como diria o time do Casseta & Planeta, "fala séééério". Certas afirmações deveriam vir acompanhadas de Sonrisal.
Existem autores e autores, nesse sentido. Gilberto Braga é o mais completo nessa categoria, a meu ver. Seus personagens, de cabo a rabo, defendem uma tese clara sobre a alma humana. A propósito, JEC tem tudo para ser seu sucessor ("A sucessora"! hahaha).
Outros, como Manoel Carlos e Benedito Ruy Barbosa, dizem mais nas entrelinhas que naquilo a que se propõem discutir abertamente. Aprendi mais com as Helenas e os coronéis através do que estava implicito neles que com as frases que os autores colocavam nas bocas de seus personagens.
Glória Perez não costuma muito discutir personalidades mas cenários. Eu, pelo menos, tenho tal sensação.
Um sujeito que ninguém dá nada por ele, cujas novelas sempre fornecem bom material para reflexão, é o Lombardi. Ok, já estou vendo os tomates sendo lançados em mim! hehe... Mas é verdade. Com alguma atenção, além de várias referências pop, o telespectador identificará nas novelas de Lomba discussões interessantes acerca da família, das relações amorosas e das representações do masculino e do feminino.
Foi em "Perigosas Peruas", por exemplo, que comecei a relativizar minha até então adoração cega a imagem da mulher independente, ou melhor, auto-suficiente. A vida de Leda era glamourosa, mas tinha lá os seus vazios, que não eram menores do que os da dona-de-casa Cidinha (aliás, ela, no geral, me parecia mais feliz que a outra). Gosto do tipo de herói que o Humberto Martins interpretou em "Quatro por Quatro". Bruno fez parecer fácil o grande dilema do homem do séc. 20/21: ser muito macho e, ao mesmo tempo, cultivar a sensibilidade. Bruno ia "para debaixo do edredom" com metade do Rio de Janeiro, mas ao contrário dos garanhões padrões, tinha respeito pelas mulheres da trama, inclusive por sua filha pré-adolescente.
Lombardi também gosta muito de brincar com essa concha de retalhos que é a família moderna nos grandes centros urbanos brasileiros. Em pelo menos três novelas, ele discutiu esse tema "pais biológicos x pais de criação".
De quebra, é um romântico assumido. Gostava muito, por exemplo, da mocinha de Viviane Pasmanter em "Uga! Uga!" (ok, ok, meio caminho estava andado só por ser Viviane a intérprete! hehe). Olha só que gracinha a história de amor dela e de Baldochi:
Pois é, por incrível que pareça, Lombardi é um dos autores mais românticos do horário nobre global. O mal é essa mania meio gay de expor os atores quase pelados em cena, principalmente os galãs... Acho que é coisa de ex-rapaz magro, que se projeta em seus atores saradões, assim como desconfio que o tema "paternidade" lhe toque tanto porque ele mesmo fez mil tratamentos até conseguir ter Renato, seu filho mais velho.
Enfim, se você conseguir abstrair esse tipo de detalhe, vai ver que se trata de um autor sensível e inteligente. In Lombardi, I trust. Quer dizer, eis um autor que cumpre o que promete. ;)
PS.: Por falar em novela mexicana, pensando bem, tô ficando velha. Sou do tempo em que as mocinhas das novelas da Televisa eram virgens, e o sinal de que deixaram de ser era a camisola caída no chão! E os tiros de revólver?! Gente, uma seqüência dessa não durava menos que 3´30´´ - 3 minutos só para que a bala cenográfica chegasse até o outro ator! hahahaha... Saudades do tempo em que a falta de recursos garantia "la canastrice". A modernidade fez muito mal às novelas latinas. Yo lo protesto! :(
Ah, eu confesso: tô na seca de assistir novela mexicana! Se brincar, até "Chispita", a essa altura do campeonato, eu encaro! (risos) Na minha tv não pega SBesTeira, então nunca mais assisti uma. :( A última "Juego de la vida".
Sei que vocês vão querer me bater depois disso, mas acho os pares românticos das novelas dos chicanos muiiiito melhores que os nossos (e o par central é o coração de uma telenovela, não tem para onde correr)! Passionalidade faz toda a diferença. Não são que nem esses romances das produções nacionais, totalmente "água de bidê" - trad.: devagar e sem força -, pra usar, aqui, a expressão da grande Isabel do Vôlei. Dizem que os casais das novelas globais não dão liga porque o público não gosta da ética, da bondade extremada dos personagens "do bem". Na minha opinião, o que falta é intensidade e até um pouco de ridículo. Se o mocinho e a mocinha se apaixonam, logo também se desejam, e o desejo é um impulso ridículo. Como fazer um romance sem ridículo? Nem eu nem Nelson Rodrigues entendemos um treco desse! Ora, pois, pois...
E não só eu penso assim, não. Uma vez, conversa vai, conversa vem, descobri que algumas muchachas descoladas de 2000.1 se amarravam na versão da Televisa de "Zorro". Eita, que a gente descobre é coisa do povo, viu! hehe...
Houve uma época, antes de Dr. Sampaio me dar 1 x O com o e-mail do Jornal da Mídia - o que ele negaria, se estivesse lendo isso aqui! -, na qual recebia os boletins de apresentação das novelas. Com freqüência, os textos tentavam vender a nova trama como uma história com conteúdo, que veio a acrescentar ao público. "Coisa nenhuma".
Essa obrigatoriedade de ser responsável socialmente, como diria minha prima Fernandinha, é "meio paia". A gente sabe que os empresários não estão nem aí para o progresso social, que eles fazem isso para ganhar pontos, o dito "capital simbólico". "Beleza Pura" discutiu o quê? "Belíssima" discutiu o quê? "Celebridade" fez o quê? Como diria o Zé Galinha, ô, Rede Globo, "tá mangando di eu?". Uma coisa é a Faber Castel dizer que vai plantar árvores, mas a Globo querer me convencer de que ela mesma vai criticar aquilo que é o pilar do seu sucesso: a fogueira das vaidades? Como diria o time do Casseta & Planeta, "fala séééério". Certas afirmações deveriam vir acompanhadas de Sonrisal.
Existem autores e autores, nesse sentido. Gilberto Braga é o mais completo nessa categoria, a meu ver. Seus personagens, de cabo a rabo, defendem uma tese clara sobre a alma humana. A propósito, JEC tem tudo para ser seu sucessor ("A sucessora"! hahaha).
Outros, como Manoel Carlos e Benedito Ruy Barbosa, dizem mais nas entrelinhas que naquilo a que se propõem discutir abertamente. Aprendi mais com as Helenas e os coronéis através do que estava implicito neles que com as frases que os autores colocavam nas bocas de seus personagens.
Glória Perez não costuma muito discutir personalidades mas cenários. Eu, pelo menos, tenho tal sensação.
Um sujeito que ninguém dá nada por ele, cujas novelas sempre fornecem bom material para reflexão, é o Lombardi. Ok, já estou vendo os tomates sendo lançados em mim! hehe... Mas é verdade. Com alguma atenção, além de várias referências pop, o telespectador identificará nas novelas de Lomba discussões interessantes acerca da família, das relações amorosas e das representações do masculino e do feminino.
Foi em "Perigosas Peruas", por exemplo, que comecei a relativizar minha até então adoração cega a imagem da mulher independente, ou melhor, auto-suficiente. A vida de Leda era glamourosa, mas tinha lá os seus vazios, que não eram menores do que os da dona-de-casa Cidinha (aliás, ela, no geral, me parecia mais feliz que a outra). Gosto do tipo de herói que o Humberto Martins interpretou em "Quatro por Quatro". Bruno fez parecer fácil o grande dilema do homem do séc. 20/21: ser muito macho e, ao mesmo tempo, cultivar a sensibilidade. Bruno ia "para debaixo do edredom" com metade do Rio de Janeiro, mas ao contrário dos garanhões padrões, tinha respeito pelas mulheres da trama, inclusive por sua filha pré-adolescente.
Lombardi também gosta muito de brincar com essa concha de retalhos que é a família moderna nos grandes centros urbanos brasileiros. Em pelo menos três novelas, ele discutiu esse tema "pais biológicos x pais de criação".
De quebra, é um romântico assumido. Gostava muito, por exemplo, da mocinha de Viviane Pasmanter em "Uga! Uga!" (ok, ok, meio caminho estava andado só por ser Viviane a intérprete! hehe). Olha só que gracinha a história de amor dela e de Baldochi:
"Baldochi, mais conhecido por Bernardo, é um ex-tenente da marinha que tem uma vida alucinante e foge constantemente de bandidos que ameaçam sua família. Ele é dado como morto pela família e pela noiva que ele abandonou na igreja para salvar a vida deles.Era muito legal: secretamente, Maria João comprava os tais livrinhos românticos, que Baldochi escrevia pensando nele e nela como heróis. Enquanto os lia, Maria João fazia o mesmo, sem nem desconfiar que era seu ex-noivo que escrevia as historinhas, e pensando nela. Nota de rodapé: o próprio Lombardi já escreveu esses livros tipo "Sabrina", "Julia", antes de ir para a Globo. Tirou sarro de si mesmo, pelo visto! (risos)
Sua noiva, Maria João, era uma mulher delicada e apaixonada por Baldochi, mas com o tempo e a notícia de sua morte, ela perde o interesse pela vida e praticamente toda sua feminilidade, vivendo sempre amargurada.
Maria João mora com seu pai e com um irmão que ela cuida como se fosse um filho, e esse é um segredo da trama que é revelado quando Baldochi retorna. O irmão de Maria na verdade é filho dela com Baldochi". (fonte: Wikipedia)
Pois é, por incrível que pareça, Lombardi é um dos autores mais românticos do horário nobre global. O mal é essa mania meio gay de expor os atores quase pelados em cena, principalmente os galãs... Acho que é coisa de ex-rapaz magro, que se projeta em seus atores saradões, assim como desconfio que o tema "paternidade" lhe toque tanto porque ele mesmo fez mil tratamentos até conseguir ter Renato, seu filho mais velho.
Enfim, se você conseguir abstrair esse tipo de detalhe, vai ver que se trata de um autor sensível e inteligente. In Lombardi, I trust. Quer dizer, eis um autor que cumpre o que promete. ;)
PS.: Por falar em novela mexicana, pensando bem, tô ficando velha. Sou do tempo em que as mocinhas das novelas da Televisa eram virgens, e o sinal de que deixaram de ser era a camisola caída no chão! E os tiros de revólver?! Gente, uma seqüência dessa não durava menos que 3´30´´ - 3 minutos só para que a bala cenográfica chegasse até o outro ator! hahahaha... Saudades do tempo em que a falta de recursos garantia "la canastrice". A modernidade fez muito mal às novelas latinas. Yo lo protesto! :(
Ah, eu confesso: tô na seca de assistir novela mexicana! Se brincar, até "Chispita", a essa altura do campeonato, eu encaro! (risos) Na minha tv não pega SBesTeira, então nunca mais assisti uma. :( A última "Juego de la vida".
Sei que vocês vão querer me bater depois disso, mas acho os pares românticos das novelas dos chicanos muiiiito melhores que os nossos (e o par central é o coração de uma telenovela, não tem para onde correr)! Passionalidade faz toda a diferença. Não são que nem esses romances das produções nacionais, totalmente "água de bidê" - trad.: devagar e sem força -, pra usar, aqui, a expressão da grande Isabel do Vôlei. Dizem que os casais das novelas globais não dão liga porque o público não gosta da ética, da bondade extremada dos personagens "do bem". Na minha opinião, o que falta é intensidade e até um pouco de ridículo. Se o mocinho e a mocinha se apaixonam, logo também se desejam, e o desejo é um impulso ridículo. Como fazer um romance sem ridículo? Nem eu nem Nelson Rodrigues entendemos um treco desse! Ora, pois, pois...
E não só eu penso assim, não. Uma vez, conversa vai, conversa vem, descobri que algumas muchachas descoladas de 2000.1 se amarravam na versão da Televisa de "Zorro". Eita, que a gente descobre é coisa do povo, viu! hehe...
Nenhum comentário:
Postar um comentário