terça-feira, 8 de julho de 2008

O Iluminado

Post dedicado às "Paralamaníacas" de ontem, Laís, Ana Paula e Erica, e a meu ex-professor de violão, Felipe - meio Tande, de alma, meio Herbert, na vocação, e, coincidentemente, carioquíssimo da gema como ambos!



Sempre detestei panelinhas. Além delas restringirem participações, limitam a personalidade de quem a integra. Se todos nós já somos rotulados sem elas, imagine dentro delas... Conforme fui ficando mais crescida, percebi que têm uma certa utilidade prática na vida. Quem faz parte de uma, dificilmente se decepciona com quem traz para perto de si. Porque é todo mundo tão igual, que se um pergunta "Aleija?", o outro responde "Mata, então!". Enfim, é uma garantia de ter eco nas relações pessoais.
Para não dizer que não há exceção, gosto muito da máfia, e desconfio que isso tenha a ver com os talentos de Mario Puzzo e de Marlon Brando (risos). Acho que simpatizo com a passionalidade da coisa: os solenes beijos na mão, o respeito aos vínculos parentais, os batizados como forma de gratidão e de ganhar proteção e as ofensas repartidas. Astrologicamente falando, temos similaridades. Já ouvi dizer que a Máfia é escorpiana com ascendente em Câncer. Eu tenho o Sol na casa de Escorpião e ascendente em Câncer, portanto nos entendemos bem. risos
Voltando à vaca fria, não sei se por masoquismo ou por conta de uma fé infantil que insisto em nutrir, nunca gostei de barrar quem é diferente de mim. Isso já me trouxe muita, mas muita mesmo, dor de cabeça, de eu, em algumas situações, começar a me relacionar com alguém já tendo a forte sensação de que aquilo ia dar em dor e confusão, e deixar rolar só para não ser covarde e preconceituosa.
Apesar das troletadas, eu continuo insistindo nisso. Gosto de pagar pra ver. Até porque, eu nunca gostei de caminhos muito fáceis - desconfio de tudo que me vem, assim, de bandeja. "Zona de conforto não gera crescimento", já gosta de dizer o meu tchê-amigo jornalista, Nobre. Definitivamente, minha vaidade não passa pela unanimidade e pelo deslumbramento alheio com a minha pessoa. Assim, eu continuo permitindo, apanhando, ganhando e seguindo em frente. "Crer, cair - se for o caso - e levantar..." Essas pessoas podem ter acrescentado muito pouco na minha vida, mas a própria decepção me deu conhecimentos valiosos sobre mim mesma e sobre o mundo, e por isso não me arrependo de nenhuma delas. São coisas hoje tão distantes... Xápralá!... Mas eu não vim aqui para "filosofar" sobre isso.

Vim falar sobre um tipo específico de panelinha: fãs-clubes. Quer dizer, vim falar dos meus dois ídolos: Tande e Herbert Vianna. Nunca gostei de idolatrar ninguém - até porque isso é uma grande bobagem que, entre outras coisas, tira a humanidade, a alma, do objeto de idolatria -, mas é inegável que esses caras me afetaram - não só no gosto por vôlei e pop-rock, que com isso eu tenho muitos altos e baixos, mas me inspiraram pra vida. O ídolo é benéfico e até necessário, na minha opinião, sob esse prisma.
O primeiro foi Tande, jogador da Seleção de Vôlei. Ao contrário de minhas amigas da escola, minha admiração por ele não começou naquele 9 de agosto de 1992, quando ganhamos da Holanda por 3x0. Ouço minha irmã mais velha falar de Tande desde a época em que ele jogava no AABB, namorava uma xará minha e visitava a vó, que morava na mesma cidade-satélite que minha tia, o Cruzeiro. Bote nisso aí uns 20, 21 anos.
Lógico que naquele agosto, eles pareciam homens mesmo. Achava, do alto dos meus 12 anos, que Talmo, Giovane, Negrão, Paulão, Carlão, Maurício, Pampa e Tande eram veeelhos. Hoje, quanto mais eu olho para aquele grupo, mais orgulho eu tenho dele. Porque já faz algum tempo que eu tive 20, 22 anos, e hoje eu sei o que é isso e o quão meninos somos ainda nessa idade. Aquilo ali, sem tirar o mérito da trajetória prévia de cada um e do José Roberto Guimarães, foi um milagre impulsionado pela fé cega de 12 garotos. Eles não tinham motivos concretos que sustentassem tamanha energia e crença na vitória. Foi pura ingenuidade de juventude, fé de corações ainda pouco maculados pela vida. Talvez se tivesse ido a Barcelona um grupo com média de idade maior, mais "vivido" e portanto cético, não teríamos, hoje, a primeira medalha de ouro em esportes coletivos. Tem coisas, na vida, que a gente só faz mesmo quando é muito inocente para não ter a devida noção do desgaste.
Naquele grupo, tal atitude infelizmente não se sustentou pelos anos seguintes, mas ela jamais se perdeu no Tande. Nunca, em nenhum jogo, o vi menos vibrante que em Barcelona. Pelo contrário. Quanto maior era a ruína interna da Seleção, mais ele se sentia na obrigação de mostrar energia positiva e fazer o resto, ao redor, vibrar junto com ele. Era tocante; por vezes dava vontade de entrar dentro da tv e dizer uma palavra de consolo pra ele, que ficava devastado quando se dava conta de que não havia mais nada a fazer.
Quando repatriaram os "brasilianos", enquanto Negrão voltou ao Brasil xingando, Tande era a felicidade em pessoa. Mostrou-se totalmente grato e otimista com a iniciativa do Nuzman. Ficou num dos piores times da época, o Flamengo, mas agradeceu muitíssimo só pelo fato de estar de volta ao seu amado Rio de Janeiro e tinha fé no time carioca, que se por um lado nunca conseguiria estar entre os primeiros da Liga - era fato -, melhoraria muito, pois, inclusive, estava formado por "uma garotada muito promissora", a quem ele podia servir de inspiração.
Em ambas as situações - na seleção em decadência e no time decadente -, ele não conseguiu "salvar a pátria", como pretendia, mas foi premiado nos campeonatos e elogiadíssimo pelos seus pares. Certamente, saiu de cabeça erguida por ter tentado tudo que estava ao seu alcance.
Todo mundo no meio o adora. Dizem que ele é gente boa pra caramba, mas também já ouvi dizer que é franco demais, meio enrolado e que está sempre atrasado - coisas que geram muito estresse no meio esportivo, mas que nunca trouxeram conseqüências mais graves por ele ser o ser humano que é.
O ex-camisa 14, por sua vez, sempre tem coisas positivas a dizer sobre os outros - e isso não quer dizer que nunca o tenha visto criticar alguém. Tande já brigou com Negrão, com Giovane, por exemplo, e ambos o adoram. Meus amigos que já tiveram perto dos jogadores da Seleção, dizem que ele é o mais disponível e simpático. Tande diz que nunca seria menos atencioso com os fãs, por um episódio que aconteceu em sua infância, quando um jogador de futebol negou um autógrafo a um amigo dele, que chorou muito, e porque a mãe ficaria muito decepcionada com ele (ohhhhhh!... é um argumento meloso, mas eu gosto de gente família).
Tande lê Paulo Coelho, é um sujeito altamente clichê em suas declarações, enfim, é superprevisível e ordinário, intelectualmente. Admiro-o porque, pra mim, sempre foi a personificação da pureza de coração - quer melhor motivo? Um menino no corpo de um gigante e com a determinação de homem feito. Meus pais diziam, de gozação: "Não sei o que você vê nesse altão careca!...". Em primeiro lugar, para quem não sabe, até 20 e alguns anos ele tinha cabelo, sim, e independente disso, tem um rosto bem feito. Humpf! (risos)
Mas nem toda menina que guarda um poster de um homem famoso na porta do armário o faz pela beleza do cidadão. Há meninas e meninas.
Os artistas que admiro, geralmente têm qualidades morais que eu queria trazer para a minha vida. Gosto da força expressiva, da coragem, da lealdade aos próprios valores e da consistência das opiniões de Susan Sarandon. O mesmo sinto sobre Fernanda Montenegro e Toni Ramos (!!!). Gosto do jeito caloroso e da ambição profissional de Tom Cruise. Agrada-me o ar de boa moça inteligente de Katie Holmes. Simpatizo com o jeito como Brad Pitt se joga na vida e de como ele não leva a indústria a sério demais. Acho charmosa a preocupação em ser fiel a si mesma de Kirsten Dunst. Aprecio a determinação de ser leve e simples de Ivete Sangalo (pra quem já perdeu metade da família, é um esforço e tanto), apesar dos exageros. Admiro a integridade e a militância de Soninha nas causas que acredita. Gosto da honestidade, duela a quien duela, do senso de humor e da independência de Mel Gibson. Apesar da futilidade sem fim, admiro a inabalável alegria de dona Hebe Camargo.
Admirava e admiro Tande pela fé e energia que deposita nas pessoas e nas circunstâncias, inclusive nas mais desfavoráveis.
Quando migrou para o vôlei de praia, por diversas vezes fui na esperança de vê-lo de perto. Vi todo mundo do meio e até tenho guardada uma camisa que ganhei da irmã dele, Adriana Samuel, mas Tande que é bom, nunca. Aliás, por conta dessa camisa, que caiu sem querer no meu colo (um lance espetacular de sorte, que depois eu narro), cheguei no colégio zoando com a galera da sala, disse que havia ganhado um presente da minha cunhada. Minha amiga-gêmea, Fernanda, ficou me olhando, e daí eu expliquei que a "cunha" era a irmã de meu ídolo Tande. hehe
Acho que vou dar uma olhadinha na Seleção Feminina só para ver como é que ele se sai em Pequim.

Herbert foi uma paixão que veio aos poucos, e teve seu ápice na ocasião do cd "Vamo bater lata". Esse, inclusive, foi um dos primeiros que comprei pra mim, com o dinheirinho que sobrava do lanche. Na época da escola a gente é tão pobrezinho, né? Um bom motivo para comemorar a estadia na vida adulta - apesar dos pesares!
Eu gosto de tudo nele: das letras, dos arranjos, do jeito, dos solos de guitarra, da saudade que tem de Lucy, da relação com a família, da história do grupo, do amor pela Argentina, da energia no palco... De "Vamo...", gostava muito do tema de Carolina Ferraz em "História de Amor", "Saber amar". Grande letrista!... Aliás, Paula Toller sabe casar! Além de ter fisgado Herbert, ainda uniu a escova de dente com outro compositor de pop-rock que eu amo, dr. Leoni.
Eis que num desses shows dos Paralamas, minhas amigas e eu tiramos a sorte grande de conhecê-lo pessoalmente. Era um show pelo qual não dávamos nada, que por acaso foi do lado de minha casa, no Softel Quatro Rodas - onde também aconteciam as hilárias "Festas da Espuma" (risos) -, e a noite prometia ser um pouquinho melhor do que é geralmente uma noite de domingo.
Pois bem, a baixaria começou na casa de Paulinha, a fã número 1 do cara na nossa turma (ela, por si só, merecia um texto, mas deixa pra próxima). Todas animadas, entramos na kombi da padaria do pai da nossa amiga ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 1). Chegamos. Dignidade restaurada, nos encontrávamos já dentro do ginásio, quando vimos várias barraquinhas de souvenirs do show. Paulinha cismou com a camiseta e o boné oficiais da turnê, mas não tinha levado dinheiro para isso, nem imaginava que venderiam essas coisas no show. Raspasmos a grana, fizemos a vaquinha e compramos a tal camisa. Fiquei quase sem dinheiro pro refrigerante ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 2).
Minha amiga nos obriga a ficar praticamente grudadas no palco. Isso não significa somente ter uma visão privilegiada do show, mas estar do lado de toda a "fauna" que é fanática pelo artista. No show do Espanhol (Paralamas e Titãs), por exemplo, fiquei com os olhos vermelhos de tanta maconha que estava sendo fumada do meu lado. Meus amigos até levaram um susto quando me viram naquele estado! (risos)
Nesse, tive que disputar espaço com o (provavelmente) fã gay de Herbert, que pulava de um lado para o outro, segurando e mordendo a bandeira do Flamengo, enquanto sussurrava um desesperado "Herrrrrrrrberrrrrtttt"("Paulinha me paaaaga!" - vol. 3). Pensei: se no show ele já se comportava assim, imagine no banheiro de casa! (risos) E o pior é que toda platéia de show tem um doente desse, obrigatoriamente. Quem já não ouviu, em gravações ao vivo, o nome do artista ser gritado por um/a fã dessa forma desesperado/a? Deus nos defenda!...
Pra finalizar, Herbert, ao final do show, jogou uma toalha para a platéia. Paulinha fez aquela cara de cachorro pidão pra gente, e lá fomos nós brigar pela tal toalhinha vermelha onde Herbert derramara gotas do seu sagrado suor ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 4). Rodamos o estádio inteiro, segurando a toalhinha. Alguém pisou no meu Reebok preto novinho (lembram dessa moda?). Senti o sangue ferver ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 5). Mais um pouco, quando estávamos nos degladiando na direita do estádio, vejo meus colegas de inglês. Penso que, no dia seguinte, vou ser a resenha do bate-papo pós-aula ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 6). Finjo que não os vejo e me retiro da briga pela tal toalhinha vermelha. Cheeega!
Morrendo de fome, só penso em ir embora. São 12h20 mais ou menos, mas nossa capitã paralamaníaca quer tentar ver o ídolo de perto. "Ora, a vigilância do Softel não é lá essas coisas e, veja, tem gente entrando ali". Ficamos ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 7). Na porta, uma fã de Bi Ribeiro se esgoela diante do segurança para tentar entrar no camarim. Até hoje não esqueci do desespero da menina, que parecia aquela personagem de "Confissões de Adolescente", a Carol:
- Olha, eu AMO o Bi!!! Eu aprendi a tocar baixo só por causa desse cara, moço! Eu já fui atrás do Bi não sei onde, etc, etc (começou a enumerar a lista de lugares), eu sou fanática por ele e NÃO VOU sair daqui sem encostar nele! (Choramingando) Por favor, vai, moço!...
O segurança - sacana! - não cedeu. E mais: continuou a deixar um monte de patricinha entrar, na cara da garota. A gente lá, só de butuca, olhando o "show" particular da fã do baixista do s Paralamas. Chega o cunhado. Ele avisa à fulaninha que ou ela vai com eles, ou vai embora de ônibus. Não estava brincando, e entregou-lhe um vale transporte. Ela bate o pé, choraminga, mas entre o conforto de ir pra casa de carro e o baixista, preferiu a possibilidade mais concreta. Dois minutos depois, o segurança liberou a nossa entrada ("Paulinha, graaaaande iniciativa, amiga!"). Eu fiquei tão em choque, que burlei as regras de educação, e tomei um cartão da turnê das mãos de uma menina, que ficou incrédula com a minha cara-de-pau, mas não fez nada. Entramos. No exato momento em que isso acontece, Bi Ribeiro cruza com a gente na porta. Está de saída. Nem sinal também do João Barone. Penso, com pesar, na fã que queria tanto ver o baixista... Resta, dentro do recinto, apenas Herbert.
O camarim. Pense numa fila! Só mulher, pra variar. Paulinha começa a neura do "Ai, meu Deus! O que Herbert vai achar de mim? Será que ele é legal?". A gente pensa o mesmo, mas seguramos a nossa onda. Chega o momento dela. Ele é um lord com Paulinha. Laís foi a próxima (ela é a fã número 2). Ela fica abismada com a beleza da pele do cantor, e sai da fila meio que ainda em transe. Hilário!
Na minha vez, confesso que também fiquei impressionada com o físico do moço. Foi a pele masculina mais bonita que já vi e um dos melhores corpos. Puxo papo com ele e um "ruído" na comunicação faz com que eu dê uma gafe sem querer. Saio vermelha de vergonha, fico do lado da fila, olhando com cara de besta para o nada, pensando que eu falei com o Herbert Vianna (!!!). Quando volto a mim, percebo que estou na fila novamente, mais precisamente cara a cara com Herbert, de novo. Gentleman que é, confessa que está na dúvida, porque tem a impressão de que já me deu autógrafo naquela noite. Eu confirmo, peço desculpas pela distração e dou o fora, morta de vergonha... e a essa altura, estou roxa de fome. Olho para as coxinhas da Perini, em cima de uma mesa na entrada do camarim, e penso que se eu roubasse uminha só, ninguém sentiria falta, mas me mete medo a possibilidade de ser levada pela segurança (risos). Torço para que na Kombi do pai de Paulinha haja um pão avulso, da última entrega, porque do contrário, eu não sei não... risos
Fim de noite, voltamos para casa. Mal podia esperar para mostrar ao povo da sala o meu postal da turnê com a dedicatória do Herbert.

Anos mais tarde, nosso ídolo sofreu um acidente que, como todos sabem, o deixou na cadeira de rodas. Continuamos gostando de Paralamas e de Herbert - e o admirando mais que nunca pela força de vontade -, mas, pelo menos para uma parte do grupo de fãs daquela noite (na qual me incluo), fica impossível encarar um show da banda com o vocalista na cadeira de rodas, depois de inúmeros nos quais o vimos correndo, de um lado para o outro, distribuindo sua energia sem fim para a platéia. Toda vez que cogito a possibilidade com Erica, ela balança a cabeça e responde: "Juli, não dá não". É, ainda por um bom tempo, não vai dar mesmo.

Um comentário:

  1. Show de bola sua história com o Herbert! Queria ter visto mais shows com ele "de pé", mas me contento com ele sentado mesmo...e com os dvd's antigos (já tem o do Rock in Rio?? sensacional!!)
    Obrigado pela dedicatória, realmente na sua descrição do Tande achei algumas (muitas) coisas minhas. Confesso que na época que eu
    "tentava" jogar vôlei, eu sempre era o Tande! Isso quando eu n tinha completado nem uma década de vida!

    Bjs e vou add seu blog la no meu! (pra lembrar de ler posts futuros)

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