sexta-feira, 18 de julho de 2008

Antes tarde do que nunca

Há seis meses, li uma entrevista muito bacana com Mônica Martelli (atriz que interpreta Helena/"Mateus" em "Beleza Pura"), na qual ela contou os percalços que enfrentou até fazer sucesso. Achei uma grande história; gostei do modo como ela interpreta os fatos.
Aliás, falando em atores e pensamento, há alguns dias, Manoel Carlos deu um puxão-de-orelha na "tchurma". Segundo o novelista, esses vêm falando muita bobagem na mídia.
Realmente, espera-se do artista algo mais. Espanta-me - não consigo evitar! - que um ator, uma atriz não tenha uma visão mais diferenciada da realidade, ou ao menos das emoções humanas, que são sua ferramenta de trabalho. Lógico, não estou generalizando, mas as "aberrações" não são raras. O blog de Luana Piovani, por exemplo, é, para mim, um dos melhores... na categoria "humor".
Ator é realmente um bicho esquisito. Às vezes pondero que não poderia ser diferente: O que esperar de alguém que empresta a sua emoção para transmitir a de gente que quase sempre nem existe? Esse não é um ser com uma sensibilidade ordinária, convenhamos. Mas, apesar disso, dá pra ser normal, se quiser. Monica Martelli é um bom exemplo.

Segue a entrevista para a Marie Claire, de janeiro de 2008.

Mônica Martelli estava perdida, desestimulada e deprimida. Sem trabalho, sem um grande amor, semperspectivas e prestes a fazer 40 anos, parecia a protagonista de uma louca tragicomédia de fracassos. Então, escreveu um monólogo e se atirou em empreitada solo. Agora, prepara-se para abraçar o estrelato.

É preciso perder o medo de se expor, de se debochar. O sucesso vem nessa hora'

Fama? Poder? Dinheiro? O que você quer da vida? Para o escritor suíço Alain de Botton, a única resposta possível é esta: amor. Porque, ao sairmos em busca de fama, dinheiro e poder, tudo o que buscamos, na verdade, é receber amor em doses proporcionais ao status elevado. Nessa linha de raciocínio, a jornada da atriz carioca Mônica Martelli poderia facilmente render um livro de auto-ajuda para quarentões frustrados.

Rotulada informalmente por amigos e familiares como 'a fracassada', Mônica só conseguiu preencher as exigências sociais de uma vencedora à beira dos 40. Depois de muitas derrotas, rejeições, falta de grana, fases de dúvidas e melancolia, juntou os caquinhos e resolveu protagonizar a própria vida.

Assim, aos 37, largou tudo -que não era muito- e sentou em sua quitinete em Ipanema para escrever um monólogo. Passava dez horas, todos os dias, digitando no computador, ainda sem saber exatamente o que fazer com o material. Decidiu então dar a cara para bater: alugou uma pequena sala de teatro no Rio, arrecadou um dinheirinho com familiares, chamou amigos para ajudar na produção e, em 2005, estreou 'Os Homens São de Marte... e é para Lá que Eu Vou', monólogo divertido que narra as aventuras amorosas e sexuais de uma balzaquiana à procura do grande amor.

O resto é história. Uma história que a atriz, que está no elenco de 'Beleza Pura', a nova novela das sete da Globo, conta aqui em detalhes tragicômicos.

Hoje, aos 39 anos, sua criação ganhou vida própria: vai ser representada em outros países, virar filme, e, depois, talvez, série de TV. Os anos de amargura ficaram para trás e Mônica, que agora tem fama, poder e dinheiro, concorda com Botton. 'Nada disso importa: a redução de tudo é o amor.' Diz isso com a segurança de quem encontrou o seu ao lado do produtor musical Jerry Marques, 50, marido, amigo, parceiro de trabalho e, acima de tudo, cúmplice.

Aqui, ela explica por que os verdadeiros fracassados são aqueles que, com tanto medo de sair derrotados, sequer chegam a tentar.

Marie Claire Seu nome começa a ser nacionalmente conhecido às vésperas dos 40. Onde você estava antes de fazer 'Os Homens São de Marte...'?
Mônica Martelli
Trabalhando, trabalhando. Já fiz tanta coisa: 'Por Amor', novela do Manoel Carlos, fiz 'Chico Total', fiz 'Zorra Total', mil e uma peças de teatro… mas eu era sempre aquela que ficava no fundo, desfocada, ou era a secretária, sabe como é? Eu estava ali, mas ninguém via.

MC O que não é uma situação rara nesse mundo das artes. Para cada Mônica que estoura, existem outras 100 que jamais conheceremos.
MM É mais ou menos isso. Junto com esses trabalhos que citei, ia fazendo um milhão de testes e sofrendo um milhão de rejeições. Até 'Os Homens São de Marte…', ou seja, até meus 37 anos, sempre precisei de ajuda financeira da família. Não conseguia me sustentar sozinha.

MC E o que fez você insistir tanto até vencer o bloqueio?
MM No fundo, algo me dizia que ia rolar. Em 2001, me chamaram para fazer 'Os Maias', a minissérie. Nessa hora, falei: 'É a minha vez! É agora que eu vou bombar'. Fui para a gravação animadíssima. Primeira cena: eu desfocada lá atrás. Na seqüência, o núcleo do qual eu fazia parte não foi para frente, e a autora teve que se concentrar nos protagonistas para tentar aumentar a audiência. Mico.

Para pagar as contas, eu fazia de tudo. Já fiz até uma tartaruga no programa da Angélica

MC Era uma frustração atrás da outra e você já não era mais uma iniciante.
MM Pois é. Para pagar as contas, fazia tudo o que me chamavam para fazer. Fiz até uma tartaruga no antigo programa da Angélica. O programa era aquele videokê de bichos, sabe? Isso há seis anos, por aí. O produtor me ligou e falou: 'Mônica, queria te chamar para fazer um bicho no programa da Angélica'. Cheguei lá e vieram com um casco enorme de tartaruga para eu vestir. Dentro dela, só dava para ver os meus olhinhos. Lá fomos, o macaco e eu, para a gravação. Para chegar lá, a gente tinha que entrar numa van, e o casco da tartaruga não passou pela porta. Eu falei: 'Vou ter que me jogar de lado na van para poder passar pela porta'. Tomei distância e me joguei. Caí dentro da van, mas a roupa começou a me enforcar, e eu só conseguia falar baixinho: 'Macaco, não tô legal. Me ajuda'. Eu não sabia o nome do ator que fazia o macaco, mas precisava de ajuda, não estava conseguindo me mexer. E o macaco achou que era sacanagem minha. Histórias como essa, tem várias. Se você não aconteceu pelo caminho tradicional até os 25, não acontece mais. Está na hora de buscar uma outra saída.

MC E qual foi a chacoalhada que fez você sair desse ciclo?
MM Foram duas. Em 2002, eu estava melancólica, cabisbaixa, nada rolava. Um dia, tocou o telefone e uma voz falou: 'Mônica Martelli? Estou selecionando atrizes bacanas da Globo para fazer uma festa agropecuária. É o seguinte: mulheres bonitas que vão chegar montadas em um cavalo'. E eu: 'Mas não tenho que falar um texto?'. 'Não, não, é só entrar montada.' Amor, aí eu vi que o negócio tinha desandado. Eu era a alegoria no cavalo. Parei e falei: 'Bom, aqui é o fundo do poço. Trinta e cinco anos e minha carreira não decolou. Solteira, perdida, sem ser chamada para nada'. Foi uma época dura demais. A uma certa altura, passei a ter duas opções: ficar melancólica e recalcada, como existem vários profissionais por aí, que gastam o tempo deprimidos e reclamando de quem está fazendo sucesso. Ou outra opção: mudar o foco da minha vida. E nisso minha mãe foi muito importante. Um dia, me vendo triste e desanimada, ela disse: 'Querida, muda a história da tua vida! Pega os seus textos, vai para a praça, sobe num caixote e fala. Eles são teus'. Nessa hora, a ficha caiu! E foi o que fiz. Isso aconteceu em 2002. Eu estreei 'Os Homens São de Marte…' em 2005.


MC Parece fácil falando, mas não é assim tão simples executar essa virada que, cedo ou tarde, todos buscamos, é?
MM Principalmente porque, de uma maneira geral, queremos a virada nas fases ruins, quando estamos para baixo, sem auto-estima. Nessa época, por exemplo, eu estava mal. Via meus amigos se dando bem, com grana, estabilidade, muita gente que veio depois de mim se dando bem, e essa coisa começou a pegar num lugar muito forte. Tem gente que faz oficina da Globo e, no começo da oficina, aparece um diretor e fala: 'Eu quero você na novela das oito'. E a menina bomba depois de alguns meses. Eu vi acontecer. Mas comigo não foi assim. Olha, nada tem regra, em nenhum mercado de trabalho. Tem gente que acontece com 20, outros com 40, alguns depois disso. Cada um tem um caminho. Tudo o que se pode fazer é ajudar o destino. Se tivesse ficado naquele meu caminho, estaria frustrada, talvez tivesse aberto uma loja, sei lá.

MC A peça é baseada nas suas experiências amorosas?
MM Fiquei sem namorado dos 30 aos 33 anos. Antes disso, tive um casamento e, depois, alguns namorados. Nessa época de solteira, comecei a escrever os contos, sem pretensões. Contava minhas aventuras amorosas e sexuais. As histórias da peça são inspiradas nesse período da minha vida. Eu escrevia os contos e, lá no fundo, sabia o que queria fazer com eles, mas eu não tinha coragem de dizer nem de mostrar a ninguém. A gente tem medo de se expor, de ser rejeitada, de fracassar, né? Aí, teve um dia que eu li as histórias para minha mãe, que é muito crítica, e ela adorou. Foi quando ela falou: 'Pára de se lamuriar. Pega seus textos e vai ler na praça'.

Em nossos almoços de família, alguém sempre dizia:'Sabia que abriram concurso no Banco
do Brasil?'

MC Nessa sociedade que mede sucesso por dinheiro arrecadado e propriedades adquiridas, como é ser vista como 'a fracassada' da família por tanto tempo?
MM Eu sempre fui considerada 'a diferente' da casa. Meu pai é comerciante, minha mãe é professora, minha irmã é médica e meu irmão é matemático. Imagina. Todos bem encaminhados e bem-sucedidos muito cedo na vida. E eu, que tinha feito seis meses de Direito, trancado, me mandado para ser babá na Califórnia, voltado e me formado em Jornalismo, querendo viver da arte aos 30 e lá vai. Nos almoços de família, sentia que todo mundo tinha pena mim. Sabe aqueles comentários baixinhos?, 'Meu Deus! A Mônica não aconteceu ainda'. As pessoas me falavam: 'Sabe, tem um jornal em Cabo Frio que está contratando'. Ou: 'Querida, abriram concurso para o Banco do Brasil'.

MC Como contos despretensiosos de uma atriz frustrada se transformaram em um dos espetáculos mais bem-sucedidos dos últimos anos?
MM Aí entra em cena o Jerry. Conheci o Jerry exatamente como na situação que narro na peça: no [restaurante] Spot, em São Paulo. Um amigo tinha me levado para sair com amigos dele, e todo mundo na mesa era gay. Achei, naturalmente, que o Jerry fosse também. Aí relaxei total e falei loucuras. Falei que ia comer o gatinho que estava servindo os drinques, altas barbaridades. No meio do papo, o Jerry mencionou que era hétero. Na hora que ele falou, perdi a espontaneidade imediatamente e comecei a mexer no cabelinho assim [faz o tipo sexy, joga a cabeça para trás, dá uma risada de canto de boca]. Fiquei maluca por ele. Ele morava no Rio, mas estava em São Paulo produzindo o show do Ed Motta. A gente clicou na hora e foi morar junto pouco tempo depois. Aí, tive coragem e mostrei os textos para ele. Era tudo meio caótico, escrito à mão. O Jerry falou: 'Vamos produzir isso!'. Resgatou meu computador que ficava escondido debaixo da mesa, porque eu não usava para nada, e disse: 'Olha, hoje, quando eu chegar do trabalho, quero ver a primeira história digitada'. Eu tinha encontrado um homem para produzir a minha vida, você tá entendendo? Ele me organizou. Isso é importantérrimo. Passei oito meses escrevendo durante dez horas por dia.

No dia da estréia, Miguel Falabella foi ao camarim e gritou, todo empolgado: 'menina, me diz quem você é!'

MC Hoje, olhando em retrospectiva, parece tudo bonito e romântico. Mas, naquela época, não dava para ter idéia de que você estava dedicando todo o seu tempo a escrever uma peça de sucesso.
MM Exatamente. Pedi a uma diretora conhecida para ler meus textos. Fui para a casa dela, li os contos e ela falou: 'Olha, Mônica, teatro é uma coisa que tem que ser bem pensada, não é assim'. Saí de lá arrasada. Depois ela me escreveu uma carta dizendo: 'Me desculpa, não sei como não tive olhos para você'. Então tem isso também. Tem gente que não tem olhos pra gente. Temos que ir atrás de quem tem. Essa mulher é uma puta diretora, mas ela não me viu. Agora, imagina se eu saio de lá e penso: 'Puxa, melhor desistir, isso aqui não vai dar certo'. Depois, Jerry ligou para o Victor Peralta, diretor e amigo dele, e o Victor entrou no barco. Em abril de 2004, num papo que durou a noite inteira, a gente delineou o espetáculo. No dia seguinte, fui ao teatro Cândido Mendes, no Rio, e marquei a data da estréia: abril de 2005. Me dei um ano. Zero de dinheiro. Saí pedindo. Minha mãe deu 4 mil, meu pai, 9, o Jerry, 2... juntei 18 mil. O negócio é marcar a estréia.

MC Você também estava desempregada nessa época?
MM Estava fazendo 'Zorra Total'. Não era contratada, só ganhava cachê. Era só para pagar contas, não sobrava nada. O Jerry falou: 'Sai do 'Zorra' para se dedicar ao projeto'. Pedi demissão, fiquei sem ganhar nada. E eu e o Jerry morando num apartamentinho de quarto e sala, ele me bancando. Começamos a ensaiar em janeiro. Hoje a gente sabe que eu estava me preparando para estrear um sucesso, mas, naquela época de perrengue e improviso, eu estava ensaiando o nada. Eu falava para o Jerry: 'Amor, e se for uma merda?'. E ele falava: 'Se for uma merda, você já saiu de onde estava. Você já é uma realizadora, porque nem todo mundo realiza, tem muita gente com idéia em mesa de bar. É muito mais do que a maioria das pessoas faz'. E eu meti a cara.

MC Você tem mágoas de quem te recusou ou não te viu?
MM Nenhuma. Olha, faz um tempo, deram um livro para eu ler e adaptar para uma peça. Eu até agora não li esse livro. Daqui a pouco alguém lê, adapta, e a peça é um sucesso. Aí o autor vai dizer: 'Eu dei para a Mônica ler e ela não fez nada com isso'. Entende? É assim a vida. As ondas passam e você perde muitas, uma hora pega a sua. O que não podemos fazer é terceirizar nossa felicidade, terceirizar nossa iniciativa. Sua vida e seus sucessos e fracassos são problemas seus, de mais ninguém.

Vivemos soterrados em mentiras. Por isso, quem joga a verdade na sua
cara faz sucesso

MC E a estréia?
MM A estréia foi o único dia até hoje que não foi lotado. No Rio, 14 de abril de 2005. Era só para convidados. Sabe, um monólogo de uma atriz desconhecida, dia de semana… quem se arrisca? O [Miguel] Falabella se arriscou. Ele e o Edwin Luisi. São caras que adoram conhecer o novo. Mas o teatro estava vazio. No final, o Edwin foi ao camarim e falou: 'Sua vida muda a partir de hoje'. E o Miguel entrou no camarim falando: 'Amor, quem é você?'. Duas semanas depois, apareceu a crítica mais temida do Brasil, a Barbara Heliodora. Chamei minha família inteira para ir e falei: 'Gente, ri bem alto, tá?'. Durante a peça, eu olhava para eles e eles não estavam olhando pra mim, todo mundo olhava para a Barbara. No final, meu irmão matemático falou: 'Mônica, ela riu 13 vezes' [risos]. A crítica foi excelente. Depois disso, lotou a ponto de eu ter que fazer duas apresentações por dia e mudar para um teatro maior.

MC Por que você acha que a peça faz tanto sucesso?
MM Estamos vivendo soterrados em mentiras e hipocrisias. E a peça é muito verdadeira, e simples demais. Verdade e simplicidade estão em falta. Então, se alguém joga a verdade na sua cara, vira um sucesso.

MC Quem não curte?
MM Quem está solteira há muito tempo, por exemplo. Essa mulher ou entra no espetáculo da melhor forma possível ou se defende dele. Tem gente que sai deprimida.

Está na hora de sacar que nós, mulheres modernas, queremos, sim, um
grande amor

MC O tema é pertinente às mulheres, mas como os homens costumam reagir?
MM Os gays piram, amam, enlouquecem. E os héteros agradecem. Porque eles estão tentando entender essa mulher de hoje e a peça dá boas dicas a respeito dela. Vamos falar sério: esses caras estão por baixo, ficam tentando entender o que a gente é hoje, mas estão perdidos. Não sabem se devem abrir a porta do carro ou se isso será uma ofensa. Acabou aquele tipo de relação baseada na dependência financeira e na criação compartilhada de filhos, que dava uma tremenda segurança a eles. Hoje, é só o afeto. Grana não pega mais, e filho é opção. Eu, por exemplo, não tenho filho. Quero muito ter, inclusive. Aliás, preciso engravidar hoje à noite, não dá para esperar nem mais um dia, estou aos 44 do segundo tempo [risos].

MC O seu texto também permite uma leitura careta, machista e antifeminista. Essa coisa de procurar um homem desesperadamente, de não conseguir ser feliz sozinha, por exemplo.
MM Não tive preocupação em chocar feministas. Sou filha de uma feminista, mas acho que todo mundo tem que ter um amor na vida. Hoje, a mulher não precisa mais estar sozinha para ir abrindo caminho. O homem já não é mais o inimigo, o entrave. A gente pode ser independente e ter um homem do lado. A geração de nossas avós era a da mulher dependente, a de nossas mães, a da revoltada com essa situação, e hoje, o equilíbrio. Essa geração que hoje tem 40 ouviu a vida inteira: seja independente financeiramente. Minha mãe nunca pregou o casamento. Muito pelo contrário: ela dizia que a gente tinha que se virar sozinha. Os homens estão mais ligados na nova função, sabem que precisam ajudar, que o processo agora é de colaboração.

MC Não seria esse, então, um dos segredos do sucesso da peça?
MM Claro, claro. As pessoas me dizem: 'Nunca tinha visto uma mulher tão forte, moderna e inteira dizer que quer casar, que quer um amor'. Essa falta de vergonha de dizer: 'Eu quero casar!' é o que choca, e, por conseqüência, atrai. A gente cresceu achando que confessar que quer casar é uma tremenda caretice, quase uma babaquice. E essa personagem não tem vergonha de dizer isso. Minha mãe, feminista, 60 anos, separada, tá doida pra casar. Todo mundo quer um amor, um parceiro. Se alguém me pergunta se é impossível ser feliz sozinho, eu digo que não. Mas digo também que a vida a dois é infinitamente melhor. Ontem, passei o dia inteiro na cama vendo vídeo. Claro que eu poderia estar sozinha, ia ser bom. Mas, com alguém que eu amo do lado, é melhor. Essa é a libertação da peça. Se alguém achar que a peça é reacionária, eu digo que é o contrário. Essa mulher é independente, ganha sua grana, dá pra quem quer, é livre para ir e vir e tomar decisões, e quer desesperadamente casar. Talvez seja hora de a gente sacar que, depois de todas as conquistas, de tanta luta, de tanta revolução, nós, mulheres, queremos, sim, um grande amor. Admitir isso, mesmo que não consigamos chegar lá, não é vergonha alguma. É o que o Jerry me falou: tentar e não conseguir não constitui fracasso. Fracasso é não tentar.

MM Sua mãe ainda precisa ajudar financeiramente?
MM [Risos] Não mais. Acho que estou ficando rica.


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