terça-feira, 1 de julho de 2008

O pobre e o mar

Post em homenagem a antropóloga Ruth Cardoso.

Se vocês acompanham o blog - direitinho, né, dr. Alosa! -, sabem que, há pouco, me reconciliei com o mar. Ou melhor, com a areia. E mais: com as areias da Sereia de Itapuã. Briiiinque! Isso é que é revolução espiritual!
No meu niver, pra fechar o ciclo, resolvi abrir o dia com as duas melhores companhias: minha mãe e o "senhor mar".
Pois bem, sentei na minha "pedra de estimação" e comecei a pegar sol, a ouvir o movimento... A sentir as criancinhas de Nova Brasília pularem por cima da minha barriga, gritando que nem umas loucas, brincando de pique-pega em cima das pedras (definitivamente, pobre é um tipo de ser "duro de matar", que não é por falta de oportunidade!... risos)... Tento ver a "pelada" que nos ameaça, a mistura farofa/areia que, de vez quando, chega aos nossos olhos (impossível saber qual das duas está entrando!...), as conversas com vocabulário sujo como uma celebração da diversidade, da democracia no espaço público urbano, mas em determinadas horas eu sou apenas gente. Gente demais!...
Houve um fato gravíssimo que tem me afastado da praia por mais de três meses. Minha Vênus em Touro anda ofendidíssima com isso até hoje! (risos)
Estava eu lá, de boa, quando chegou uma família. Muito numerosa, por sinal! Pobres à beça, poucos tinham roupa de banho, acho que só os mais velhos. Bate uma certa estranheza nessas horas, mas a gente tem que segurar os preconceitos e entender as limitações alheias. Ninguém nasce pedindo pra ser miserável. Ok, tiveram muitos filhos, mas já que eles existem, precisam se divertir, e nada melhor pra criança do que natureza, praia. Xápralá!...
Em dado momento, ouve-se o grito desesperado da mãe para uma das crianças. "Pronto! Se afogou!" - pensei. Mas, confirmando a minha teoria acima, foi alarme falso. O menino menor só queria um algodão doce, e o sacana do vendedor estava prestes a lhe dar, para que a mãe não tivesse como se esquivar de pagá-lo.
Fiquei com uma dó danada do guri! Até hoje não me esqueço de uma boneca que eu queria muito e vi no zoo de BSB com uma menina, que não quis emprestá-la pra eu segurar. Era maiorzinha que o menino da praia (na verdade, ele era um bebê de uns dois aninhos, três, no máximo), mas chorei muito, fiquei mal com o meu desejo frustrado. A diferença é que a minha boneca estava escondida em casa, esperando pelo dia do meu aniversário. Ser pobre e ter filho pequeno deve ser de cortar o coração!...
Mas o motivo do alarme não foi esse; foi algo mais universal: o menino estava se tratando de verme, e a mãe gritou isso em alto e péssimo som, pra praia toda ouvir. (Neste instante, segurei um monte de areia e tive meu momento Scarlett O´Hara: "Nunca mais ei de voltar a essa praia!". Quem merece?)
Foi então que tive mais uma epifania - Ingrid, so sorry but... O mal estar do pobre não está exatamente na pobreza em si, mas fundamentalmente na impossibilidade de fazer barulho. Fiquei lembrando de cenas de quando estive rodeada da periferia, e me toquei que o simples ato de correr atrás do ônibus - que é feito com a máxima discrição pela classe média -, por exemplo, é quase uma ópera para o pobre:
I Ato - O pobre corre. Desesperadamente. Não só corre, como sai derrubando tudo e todos com o balançar frenético dos braços.
II Ato - Ele quer reter o busú no grito - o que também serve como uma espécie de apelo ao "público presente".
III Ato - Ele suspira (forte) e resume seu drama aos colegas na escadinha de acesso ao transporte público (tucanei a porta do busú! hahaha).
As pessoas estranham o motivo do brasileiro ser pobre mas feliz. Agora, eu não. Aqui, apesar de viver numa das piores condições de vida do planeta, ele não vai pra cadeia se fizer barulho. Sem neve, com direito a Carnaval de graça, cachaça falsificada e podendo fazer barulho à vontade, pra quê melhor?

Ô, dona Ruth, mas teve algo que o seu marido fez pros pobres e que acabou com uma das minhas alegrias de classe média: popularizou o frango (e, nesse processo, jogou areia - adeus, farofa! - no meu almoço de domingo!). Na boa, desde que virou o símbolo do real, nunca mais comi um que não tivesse gosto de borracha! Tá certo que, no passado, tive uma antipatia com essa ave, por conta de uns pintinhos que peguei emprestados para brincar, mas doutor FHC acabou de vez com o que havia restado dessa já estremecida relação. "Assim não pode, assim não dá!". ;)


Nenhum comentário:

Postar um comentário