domingo, 23 de julho de 2017

Admiração e indiferença

Era uma vez uma amiga, muito amiga, mas que tinha valores/atitudes incompatíveis com o que eu acho certo e despertava meu pior lado (sim, isso existe. tem gente que aciona seu melhor lado, tem gente que traz à tona seu pior e esse era o caso dela). A pessoa se aproveita da intriga de outra, que não gostava de você, para piorar a situação, ainda se fazendo de vítima (pior do que estar errado é ainda querer tirar onda de certo. eu me recuso a conversar, a negociar, com quem não consegue nem fazer o exercício da autocrítica). Você decide puxar o carro e procurar sua turma, e acaba realmente achando pessoas mais afins. Anos mais tarde, com a mágoa superada, resolve reativar a amizade. O tempo prova que "pau que nasce torto, nunca se endireita", e você perde de vez a admiração. Na verdade, se toca que a pessoa é pobre de espírito, não lhe acrescenta nada e só lhe aborrece. Lógico, como a criatura é difícil, o fim se dá de forma infantil e turbulenta. No fundo, você lamenta, porque não quer mal a ninguém, apenas não quer mais, como canta Lulu Santos, no entanto, mais no fundo ainda, até que vê serventia nisso, porque a coisa ficou tão feia que é impossível cair na tentação de dar uma terceira chance que, obviamente, ia acabar em briga de novo, porque a incompatibilidade é latente.
Dei essa volta toda para contar que, realmente, percebi que funciono, preciso, tenho que admirar quem tenho por perto. Eu, quando perco o respeito, fico desaforada; a língua vira chicote. Eu, sem qualquer pingo de admiração, estou lidando com o outro como se fosse um morto vivo: não escuto, não vejo, não sinto. É bizarro, mas vou te confessar: é libertador. Ainda mais para uma pessoa como eu, apegada, que sofro pra me desligar, mesmo de coisas/pessoas das quais preciso me afastar, apenas pela força do hábito, pela exigência interna de conciliação e resiliência (tô ficando de saco cheio dessa última parte). A pessoa do parágrafo anterior lançou um trabalho. Mandou trailer no grupo da turma. O marido me marcou na página do tal trabalho - nunca saberei se por descuido ou para provocação, mas isso não importa. E eu? Nem aquela curiosidade raivosa, de quem tem no outro um desafeto, eu tive. Nem pra ver se é ruim eu quis abrir o link. Indiferença total. Pode ir para Hollywood, que não me interessa. A pessoa, em si, já é broxante, nada mais a salva.
Outro dia, uma "mulé" que quis disputar um cara comigo há muitos anos atrás (coisa que eu não faço nem morta, me recuso a dar esse cartaz todo a quem quer que seja), me viu em um bar depois de muito, muito tempo. Faz anos que ela não está mais com o Fulano, mas fez questão de "ir duas vezes ao banheiro", em menos de 30 minutos, para ver como eu estava, se estava pior ou melhor que ela. Eu fingi que nem estava vendo. Nem comentei com minhas amigas. Ela sacou e, por fim, quietou a bunda na cadeira. Comportamento bem típico da pessoa pequena que ela é, o que passa batido por causa do status social que acumula e que as pessoas, ao que parece, valorizam (aquele velho papo sobre privilégio de raça e classe). Uma coitada; por dentro é mesquinha, bobinha, feita de vaidade. Olha a que a criatura se presta! Não dá, gente, nem para brigar com uma pessoa dessa. É muita mesquinhez, não tá no meu nível. Aliás, ela mesma, com a atitude dela, concorda com isso. Se não se sentisse por baixo perto de mim, não se daria ao trabalho de ficar me medindo. Fiquei feliz com a constatação, naquele dia, que aquele passado, aquela pessoa, já não me mobiliza. Só quero distância.
Gente, isso é muito legal. Recomendo a todos essa libertação. Indiferença rules!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

domingo, 16 de julho de 2017

Estamos separando demais as coisas?

Nunca li a biografia de Winston Churchill, ex primeiro ministro do Reino Unido, mas adoro as frases de efeito dele. De ouvir dizer, admiro o vigor e a força mental dele diante de uma das épocas mais turbulentas do século 20. Tem que ter o espírito de um cavalo de corridas mesmo. Separei duas para compor esse post:
"As três coisas mais difíceis são: guardar segredo, tolerar injustiça e utilizar o tempo".
"Um homem faz o que precisa - apesar das consequências pessoais, apesar dos obstáculos, perigoso e pressões - e isso é a base de toda a moralidade humana".

Antes de falar do que eu quero falar, quero fazer uma ressalva aqui: não é que eu ache bobagem tudo que está acontecendo, todos os novos comportamentos, pelo contrário. Me preocupa não estarem fazendo o caminho de volta com essas ideias, não estarem problematizando elas também. O entusiasmo cego é que me incomoda.

Eu acho ótimo que a gente esteja se importando com os nossos sentimentos. Acho mesmo, porque eu sempre fui sentimental e tive muita dificuldade de ter essa minha característica acolhida. Saindo dos personalismos, é importante desconstruir as hipocrisias. Quando todo mundo finge que não sente nada, abre-se a porta para a violência, para a dor e a falsidade. Mas a gente pode construir uma vivência só baseada nisso? Porque às vezes fazer o melhor para todo mundo nem é fazer o certo, nem é fazer o que é mais fofo, nem o que a gente queria; é fazer o que tem que ser feito e que se engula o choro enquanto não atravessamos o inferno.

Bem, apenas posso pensar o mundo a partir da minha própria vivência, do meu próprio repertório. Eu digo que não. Gosto muito de ser alguém capaz de sentir, de ter empatia, mas amo a racionalidade que ganhei nos últimos oito anos, quando fiz terapia. Eu não estaria viva para escrever agora se não fosse por isso, eu não teria sabido lidar com as provações e as angústias. Eu não saberia me forçar a caminhar pelo inferno até chegar num lugar melhor. Por isso, acho que é importante a gente reconhecer emoções, mas não podemos parar nelas. Eu conheço muita gente boa que acha que bandeira social, por exemplo, é terapia em grupo. Que porque sofreu na carne, pensa que todo mundo tem que ouvi-la, concordar com ela, mas não é assim que a banda toca. Políticas dependem de coração, de ideais, de doação, mas muito também de estratégias, de sangue frio, de racionalidade em momentos decisivos.

E é nesse ponto que surge a minha questão: com essa onda de "abra seu coração" e "mostre-se como for", ainda vão sobrar os bons que serão capazes de fazer o que tiver que ser feito em tempos difíceis? Ou essa raça está entrando em extinção? Meu medo é que isso fique nas mãos dos psicopatas da vida, que terão coragem, mas nenhum coração. Aliás, nem faço questão exatamente de coração, de bondade, mas pelo menos de ideais e de valores, enfim, de alguma ambição de grandeza, de legado.



sábado, 15 de julho de 2017

Biologices

Outro dia, lendo uma entrevista de Camille Paglia, concordei com o ponto de vista dela sobre o uso de hormônios por pessoas trans, que seria uma luta inglória dado que o corpo daquela pessoa nasceu em um sexo. Ela mesma hoje se reconhece enquanto homem trans, mas acredita que hormônios e cirurgias não são a solução e que a biologia interfere, sim. Eu nem sei direito, para falar a verdade, se concordo mesmo. Acho que o mais razoável é dizer que o lado biológico tem que ser levado em conta. Isso a gente não zera. Entendo esse tipo de argumento do ponto de vista político, mas não do existencial. Por outro lado, acho que as pessoas merecem ter o direito de tentar. Se não for a escolha mais saudável pro corpo, que pelo menos seja a mais feliz pra alma.

Melhor, pior, pior, melhor

Fabrício Carpinejar 


Aquele que convive com pais mais velhos entenderá o que digo.
Eles são representantes da contraespionagem.
Podem falar a verdade em qualquer área da vida, menos quando abordam a própria saúde. Não há como confiar literalmente em seu estado. Pregam peças em abundância.
Tendem a piorar quando não é nada e subestimar quando é grave. Engrandecem o alarme falso e boicotam os chamados sérios.
Se têm uma enxaqueca agem com o acento de um derrame. Se têm uma indisposição já convocam uma coletiva com os filhos para adiantar o testamento. Se sofrem de uma gripe tapam o rosto com cobertor aguardando a caveira encapuzada e a sua foice.
Colocam uma lupa na letra miúda das bulas. Dor de garganta é câncer. Dor nas costas é osteoporose. Dor no ouvido é surdez.
Eu até prefiro o exagero ao menosprezo. Melhor um fóbico a um cético. A prevenção, ainda que errada, continua sendo um cuidado.
Os pais me complicam mesmo ao negar os seus ataques mais contundentes e menosprezar a autenticidade do quadro clínico. Encontram-se à beira da morte e fingem que é uma fraqueza passageira.
A pressão dispara acima dos 23 e procuram me convencer que é normal e que só precisam descansar um pouco. "É apenas uma tontura, vou tirar um cochilo e melhoro".
A desidratação avança no Saara da testa e a crise se reduz a um desconforto momentâneo, resultado de algo que se comeu no almoço.
Quando não estão mal querem correr ao hospital. Quando estão mal querem ficar em casa a todo custo. É enlouquecedor. No primeiro caso, julgam os filhos como omissos. No segundo, os filhos são autoritários e pretendem forçar internações.
Não tenho problema com o teatro, não me irrito com a invenção dos sintomas, desgastante é ter que provar a doença para o doente.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

My "tyager"

Pra quem não entendeu o trocadilho do título, é uma troca do prefixo "teen", que forma a palavra inglesa "teenager" (adolescente), usado para falar dos anos de adolescência, pelo "ty", usado na escrita das idades adultas. Neste caso, trata-se do processo de adolescência de pais idosos. Sim, eles não regridem apenas na altura, mas também no comportamento. E assim como acontece com adolescentes, é difícil lidar com os da terceira idade. E sem nem ao menos ter tido filhos, você se verá, de repente, pai de seus pais.
Fui a única a acompanhar esse processo de minha mãe, já que estamos as duas sós há 21 anos. Mais do que as coisas que ela poderia mas não fez por mim, me doem as que ela poderia e não fez por ela. Tudo isso se reflete numa autoestima frágil na terceira idade. Lição número 1: viva bem para envelhecer bem, porque você vai ter muito tempo para pensar no que fez ou no que não fez quando chegar lá.
Minha mãe tem uma saúde e um pique invejáveis e às vezes é até difícil se convencer de que ela já tem 70. Lição número 2: seja produtivo e ativo e tenha uma saúde de ferro. Ela e meu pai fizeram boas escolhas profissionais/financeiras que deram segurança material. Mas minha mãe meio que dormiu no ponto porque ela envelheceu ficando à mercê da boa vontade de meu pai. Lição número 3: viva o presente, mas não esqueça que a velhice vem aí e que, a priori, ela é só sua. No entanto, essa autonomia também tem seus efeitos colaterais: a falta de humildade, a dificuldade de compreender que, assim como uma criança, vão precisar dos cuidados dos outros para passar por isso. As coisas terminam como começam. Há alguns meses fiquei muito irritada com a rebeldia de uma senhora, perto dos 80, que fugiu do Barra, na pressa de voltar pra casa, sem avisar a filha, sem dinheiro e sem nem conseguir enxergar os ônibus. Mas esse é o comportamento comum de quem acumulou o orgulho de não depender de ninguém, pelo contrário. Lição 4: É preciso cultivar uma docilidade que lhe capacite a reconhecer que precisa de ajuda, que todo mundo, uma hora, precisa de ajuda.
Na velhice, eles ficam tão cheios de manias e rabugices quanto alguém de 15 anos. Pior: minha mãe, pelo menos, acredita que tem que ter privilégios porque é idosa. Eu tento explicar a ela que é confiar demais na sorte demais atravessar a rua com o sinal aberto confiando que os carros vão parar porque uma idosa está atravessando. E as coisas só prestam se forem feitas exatamente como eles querem, mesmo que isso não faça o menor sentido.
Idosos gostam muito de crianças. Não sei se é pelo efeito rejuvenescedor desse contato, que faz a gente lembrar da gente mesmo no passado, não sei se é porque essa gente pequena é que nem cachorro e aceita e retribui amor a troco de muito pouco, só sei que crianças, em especial os netos, dão outro sentido para a vida deles. Eu não devo ter filhos, mas já estou planejando dar o golpe nos netos de minha irmã. Ah, não tem diferença entre ser tia avó e ser vó, hehe.
Em relação às idosas (e desconfio que isso é absolutamente cultural, típico de sociedades machistas, como o Brasil), algumas coisas apertam meu coração de filha e mulher.
1) A solidão. Muitas delas são largada pelos companheiros por volta dos 50, 60 anos e nem encontram outro parceiro. Homens mais velhos encontram guarita em mulheres mais novas. Muitas nem conseguem se separar, por causa de dificuldades financeiras, e sacrificam a vida amorosa em troca de teto e comida, enquanto o "marido", com o aval da sociedade, curte todas da porta pra fora. E se a pessoa não se tornou uma pessoa interessante, não cultivou interesses e afetos, fica pior ainda. Sabe aquele idoso que fala um monte de abobrinhas e as pessoas fingem que escutam por obrigação, por pena? Não queira não, que é triste demais. Lição 5: Invista em você, pra não ter que encarar a solidão compulsória.
2) Beleza. Minha mãe não aceita que está envelhecendo. Ela, que nunca nem passou um batom, agora vive no dermatologista, passa creme no rosto, criou pânico de engordar um quilo. Meu pai tá mais detonado que ela e, como os homens da idade dele, se brincar, ainda tá se achando delícia. Essa prisão estética das mulheres brasileiras tem que chegar ao fim. Nessas horas, gostaria de ter nascido na Alemanha, onde ser interessante é mais valioso que ser jovem.
3) A sociedade. A turma é cruel e vai querer impor o que deve ou não deve ser feito. Graças a Deus isso já está melhorando muito, mas ainda temos episódios como o de Betty Farias, 73 anos, sendo hostilizada por ir até a praia de biquíni. Minha mãe também vai e irá até quando ela quiser. O problema é que o machismo não deixa ela em paz. Sempre tem um velho que começa a assedia-la por interpretar que uma senhora de biquíni e sozinha na praia quer "safadeza". Lição 6: mulheres, resistam. Ser é também um ato político.
4) Filhos canalhas. Sim, eles existem e mais do que a gente imagina. Abusam da carência dos pais pra jogar os netos pra cima deles, pra pegar o pouco dinheiro deles em próprio benefício. Alguns simplesmente esquecem que eles existem. Se for mãe, a ingratidão pode ser mais certeira: há filhos que a mãe faz 99%, mas eles se atêm ao 1%, fazendo o contrário com os pais, que serão endeusados por qualquer migalha que tenham jogado para a família. Isso quando, após anos de relacionamento abusivo, os filhos ainda pressionam a mãe a cuidar do pai canalha.
Enfim, folks, envelhecer não é bolinho, mas podemos fazer diferente. Se Deus quiser, vou ser dessas velhas que embarcam com as amigas em cruzeiros!🙌

Midialandia

Minha mãe, aos 70, é a mais nova residente de Midialandia, que está longe do Landia da Disneylandia. É algo na vibe Cracolândia.
Ela é viciada nesses canais de notícias (fales) do YouTube. Acredita em tudo. E teima. Eu explico, e nada. É o dia todo nisso, ou melhor, a noite. Acompanha a vida (amorosa) dos artistas e as sujeiras dos "senhores" do Planalto.
Não vejo a hora desse tablet quebrar, hehe.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Para sempre é quase nunca

Quando eu tinha quinze anos, queria muito ir pra Disney. Enchi o saco de meu pai, que não estava nem aí, e sofri. Hoje, nem penso mais nisso e, pra falar a verdade, seria o último lugar onde eu iria hoje em dia. Com o tempo, a gente esquece, com os anos, a gente muda.
Então por que as pessoas ficam cobrando congruencia o tempo todo? O tempo parou, por acaso? Se a gente parar pra pensar, não faz sentido.
O caso é que isso nos poda na expressão. Não posso dizer, por exemplo, que quero ter uma casa branca no campo, muito mesmo, porque se não acontecer, vou ser considerada uma coitada.
Ledo e Ivo engano. Vou provar: de quantas coisas você desistiu ao longo da vida e de quantas delas você realmente se ressentiu? É raro.
Tá vendo? Não faz sentido. Mais um caso de "o que os outros vão dizer" nos fazendo fazer sacrifícios ao nada.

domingo, 9 de julho de 2017

Tá ligado?

Minha mãe levantou a sobrancelha quando soube que uma atriz global largou a Medicina para ser atriz. Vocação, expliquei. Não adianta nada ir contra a própria natureza.
Bem, ela deu sorte. Porque só fazer o que gosta não basta. Amor com amor se paga, sacou?
O problema de apostar é que às vezes a gente não sabe direito o que está envolvido. A gente só vai enxergar mais para frente, quando tiver uma visão mais ampla. Mas, daí, paciência. Acho que é mais coerente estar ciente do que vai perder do que exatamente do que pode ganhar. De resto, é a vida.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Revolucionário é ser natural

No meu grupo de pesquisa acadêmica, há três grupos: os de 30 e tantos; os de 20 e tantos; os de 20. Desses três, o mais fechado, por incrível que pareça é o dos mais novos. São as pessoas menos simpáticas [só com quem interessa] e que agem como se fossem os fodões. Ok, Renato Russo já cantava "não sou tão criança a ponto de saber tudo", portanto talvez essa arrogância faça parte mesmo do jeitão de quem está chegando no mundo [embora não me lembre de ter sido assim]. Quanto mais a vida vai te desafiando, menos certeza [e prepotência] você cria. Bem, isso funciona para quem tem lucidez, coisa que nem todo mundo ganha conforme vai envelhecendo, infelizmente. 
Em todas as faixas, a minha impressão é de que é pior estar entre as pessoas se você é mulher. Minha sensação é a de que se você é um cara, basta você chegar e ficar como quiser, inclusive imóvel, que ainda haverá quem se preocupe se você está se sentindo bem ou não. Quando você é uma mulher, é obrigada o tempo todo a seduzir as pessoas, ou nem vai contar para elas. Tive essa epifania ontem enquanto estava no grupo de pesquisas. Ficaria eu tão preocupada em agradar If I were a boy, Beyonces? E quer saber? Foda-se. Começo a achar que o ato mais feminista, mais revolucionário que pode vir de uma mulher é se permitir ser como quiser. Essa ainda é a prerrogativa dos homens.  

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Beauvoir

Se eu já gostava do (pouco) que li sobre Simone de Beauvoir, depois de ver no Youtube uma entrevista dela a um canal francês, em 1975, fiquei mais admiradora ainda dela. Que clareza e articulação de pensamento!
Bem, basicamente ela fala muita coisa que as feministas hoje defendem, que as mulheres já se conscientizaram (pelo menos uma parte da classe média). Em termos de conteúdo, não há novidade para alguém vivo em 2017. Mas vale sempre ressaltar que ela apontava isso desde 1949. Se hoje já dá treta, imagine há quase 70 anos. Coitada! Calculo o que não deve ter escutado...
Há duas coisas, que passam quase despercebidas diante do restante do conteúdo feminista da entrevista, que chamaram a minha atenção. A primeira delas é o valor que Beauvoir dá à experiência de leitoras do seu clássico, "O Segundo Sexo". Parece que ela só se convenceu, realmente, de sua própria tese depois de todo esse reforço das mulheres, que lhe escreveram relatando suas histórias, algumas com medo de serem descobertas pelos maridos. Ela mesma faz uma confissão bonita, já que é tão raro esse nível de autopercepção e mea culpa, de que nunca, antes dos 40 anos, havia se tocado da opressão masculina porque justamente conseguiu escapar dos espaços que promovem esse tipo de violência contra a mulher.  
Nesse mesmo sentido, e porque vinha pensando muito sobre isso ultimamente, gostei da segunda observação, na qual ela diz que é difícil um homem realmente ser feminista porque simplesmente algumas situações lhe são estranhas, não fazem parte da vivência deles. Um homem tem dificuldade de perceber, por exemplo, o medo de uma mulher de andar sozinha à noite. Só uma mulher sabe do alívio que é olhar para trás, numa rua escura, e perceber que o passo acelerado é de outra mulher. Os homens não têm o medo da violência sexual que ronda as mulheres, feias ou bonitas, crianças ou velhas. Eles nunca vão entender a dimensão desse pavor.
E onde quero chegar com isso? Eu acho que devemos apontar a falta de empatia, sim, mas não podemos exigir que os outros nos compreendam na integralidade, porque cada ser humano é dono de um repertório bem limitado. Se você faz parte de uma minoria, seu repertório vai ser menos compartilhado ainda. Não tem jeito, muitas vezes a gente só compreende experimentando. Se fosse possível internalizar apenas ouvindo os outros, não precisaríamos viver tanto, passar por tanta coisa. Abrindo, aqui, um parenteses, aconteceu há alguns dias uma coisa comigo nesse sentido. Quando falava de uma determinada situação com um amigo que fazia parte dela, pontuando que houve injustiça, ele nunca reconhecia, dava aquele velho cala a boca do tipo: "Não sei por que ficaram sentidos com isso. Acontece o tempo todo". Por quê? Porque, provavelmente, reconhecer que houve injustiça com uns, na cabeça dele, significava que não era merecedor de ter sido poupado da situação injusta. E não havia nada a ver uma coisa com a outra. Ter sido poupado de uma injustiça não quer dizer que, necessariamente, sua posição seja injusta e privilegiada. É injusta e privilegiada só se você estiver fora dos critérios que justificam ter sido poupado. Havia gente assim na situação em questão, mas não era o caso dele. Bem, eu havia me resignado, pensando que era a típica situação em que a pessoa, no fundo, acha que é mimimi seu apenas pelo fato dela nunca ter sentido aquilo na carne. No fundo, a classe média, em especial, adora pensar que só se fode quem de algum modo mereceu isso. Pois bem, o tempo passou e o conjuge dele quase passou por uma situação parecida com a minha. Ele, me relatando a situação, fez indiretamente um pedido de desculpas, dizendo que a criatura era "igual a mim, que não era de puxar saco, etc", enfim, que éramos o tipo de gente cuja integridade às vezes joga contra. Ou seja, precisou acontecer o mesmo com alguém que lhe afetava diretamente para a figura ampliar a percepção da situação da qual eu me queixei, sair do ego e exercitar a empatia. E olha que é alguém que eu sei que gosta muito de mim. Então, o que esperar de um estranho? É contar com a sorte, na boa. Djamila Ribeiro cita muito, aliás, uma frase genial de Beauvoir (que as feministas de Facebook acham que é dela) sobre feminismo, mas que serve para muitas outras discussões: "Se a questão feminina é tão absurda, é porque a arrogância masculina fez dela uma querela (disputa), e quando as pessoas querelam, não raciocinam muito bem".
Enfim, precisamos lutar pelo impossível, pelo ideal, claro, mas tendo consciência das limitações. Quase sempre, a gente é o que pode, não o que quer e às vezes a gente está muito distante sequer de compreender que devemos querer essa mudança. A consciência não chega ao mesmo tempo e da mesma forma para todo mundo. Não se nasce consciente, torna-se consciente. É um trabalho de uma vida inteira.

PS: Tem uma terceira coisa que ela fala ao entrevistador e que é muito legal, que é quando ele diz que essas cenas clássicas de opressão no casamento se aplicam mais à América Latina que à França, o que ela desmente citando a experiência da irmã dela na periferia de Paris. É isso, nem todo mundo tá no mesmo tempo apesar de compartilhar o mesmo espaço. Há gente, em lugares do Brasil, ainda vivendo no século 19. Não estamos todos no século 21. Até isso é um privilégio.

Mas caramba!...

Se for parar pra pensar, 70% do sofrimento da gente vem do olhar dos outros. Tenha dó, viu? Por que o ser humano é carente assim? Arre!...

domingo, 2 de julho de 2017

Fade in

O tempo desbota tudo, ao ponto de, às vezes, a gente ter dificuldade de lembrar ou de reconhecer as imagens do passado. Já até comentei aqui que às vezes sinto que, dentro da minha própria vida, certas passagens são como memórias de outra encarnação.
Percebi isso na foto desse blog, que mal dá para ver a minha cara. Confirmei com as imagens que Talita enviou no zap da época da faculdade, há uns 15 anos. 
A vida é um rio, tudo passa e nunca um homem se banha duas vezes na mesma água. São tantos os banhos, que às vezes fica até difícil saber por qual ponto da margem já passamos, hehe.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

A gente pressente

Eu acho que a gente sabe mais sobre a nossa vida do que percebemos. Não vou entrar em detalhes, mas me lembro de dois momentos da minha infância, em que eu era pequena mesmo, e me arrepiei com duas coisas que pessoas falaram de brincadeira, sem nem se dar conta, mas que eu pressenti na hora que aquilo se realizaria na minha vida. Eu já sabia? Acho que até mesmo sem saber.
Pensei nisso olhando a foto de um ex colega meu de trabalho com a mulher dele, com quem ele está há algum tempo. Ele estava no auge da beleza quando o conheci, não tinha quem não desse em cima dele, era algo impressionante. Mas eu percebia que, a despeito de beleza física, ele tendia a se encantar por um tipo específico de mulher, que é exatamente o tipo de mulher que ele casou. Ele já farejava, acho, com que tipo de mulher ele ficaria. Eu, por exemplo, sempre gostei do tipo aplicado, gentil e quieto, moreno do cabelo liso. Enfim, acho que a gente não forma essas imagens na cabeça à toa; são premonições.  

domingo, 25 de junho de 2017

Os que nos enxergam

Amor é bom, mas ser visto é tão bom quanto e, se brincar, é até mais raro. Quase nunca vão ter olhos para você, espontaneamente, mas quando isso acontece, é mágico. Gente que lhe olha, que lhe compreende. 
Surpreendentemente, das poucas vezes em que isso aconteceu, foi com gente estranha. Até entendo, em parte, a falta de curiosidade dos próximos: o dia a dia tira a visão e, de quebra, nos torna um pouco parte deles; convém não questionar.
A última pessoa que me abordou com revelações quase me fez chorar. O que foi, não vou contar aqui, né? Se a profecia se realizar, o mundo vai saber. :)

sábado, 24 de junho de 2017

"Você viu Fulano/a?"

O ser humano, se tiver 5% de maldade na cabeça e souber que A e B não se dão, ao mínimo sinal de "sucesso" de uma das partes vai lá provocar a outra, quem sabe dando a sorte de ser o pombo correio da nova, o primeiro a ver a cara de surpresa, constrangimento ou mesmo raiva do desafeto do sortudo da vez.
Isso não cola comigo, a não ser que eu ainda sinta, estime, em algum grau, a criatura. E fico retada com o correspondente não solicitado, que teve a intenção de tentar me aborrecer, me testar. Para que mais você vai dar notícias que não me interessam sobre gente que está fora da minha vida? Coisa de espírito de porco. Da única vez que me peguei fazendo isso - porque não foi premeditado -, pedi desculpas, fiquei realmente sentida.
Falei em "sucesso" lá em cima porque tudo depende do ponto de vista. O que é sucesso? Para mim, no fundo da alma e quase aos 40 anos, é ser sábio para a vida, é ser boa pessoa, ética e de valores, porque a gente sabe que manter uma essência amorosa e flexível, com tanta paulada que a gente leva da vida, é difícil, é pra quem é vocacionado, para quem realmente tem algo para dar. Ter todas as condições para aflorar amorosidade é fácil; quero ver ser maltratado e ter a grandeza de insistir em ser grande, não se apequenar. Dessa gente eu tenho inveja. Na próxima encarnação, troco fácil minha ansiedade e memória afetiva de elefante, típica de um ascendente em Câncer, por uma alma "sussa" de surfista. Pois bem, quando eu me afasto de alguém, pode ter certeza que é por um desses dois motivos: a) descobri que me envolvi com gente pobre de espírito, mesquinha, que não tem nada a oferecer a ninguém; b) descobri que o afeto era unilateral, que não contava, que fui confundida com um saco sem fundo. No segundo caso, é até possível eu me importar ainda com o que foi feito da pessoa, embora ache um pouco difícil, especialmente depois de muito tempo, porque eu tendo a não gostar do que me maltrata. Mas no primeiro caso, bicho... Alguém que eu classifico como pobre de espírito, na minha cabeça, é alguém que já é perdedor simplesmente pelo fato de ser quem é. Tem gente que já é o próprio castigo, que no fundo sabe que não vale muita coisa, apesar de conseguir enganar bonito um monte de gente, inclusive as boas.
E engana porque tem um monte de gente que acha, de verdade, que ser bem sucedido é, acima de tudo, ter grana e fama. Os suicidas do showbizz parecem não concordar muito com essa hipótese, né? Faltava o primordial e isso pouca gente tem, realmente, a oferecer. Enfim, se você se importa com a sorte de quem você despreza, ou você não despreza tanto assim, ou dinheiro e fama são o primordial na vida para você.

Segundas oportunidades

Se o mundo fosse meu, os sinceramente arrependidos teriam sempre uma segunda chance. O caso é que a vida é meio Jogos Vorazes, meio filme de Woody Allen, na melhor das hipóteses, onde qualquer absurdo pode acontecer, onde tudo é aleatório, fora do nosso controle ou mesmo merecimento em algumas ocasiões. 
Uma amiga minha está agradecida por ter surgido uma oportunidade na vida dela que julga ser uma segunda chance de aproveitar algo que, da primeira vez, ela não teve olhos para perceber. 
Minha tia, que já foi muito ruim nessa vida, mas perdeu muita coisa em um período recente de dez anos, parece que também encontrou uma segunda chance. Ela, que foi uma peste quando era executiva de uma multinacional, temida pelos funcionários, encontrou vocação e amor na docência, já na terceira idade. Quem diria, hein?
A vida é surpreendente e às vezes melhor do que a gente merece.

Será que vale a pena?

Acabei de ler uma matéria muito boa, muito foda da Piauí. Aliás, no Brasil, na minha opinião, só essa revista arranca elogios. A gente tem o Intercept, o Nexo e a Pública, mas é diferente. A Piauí, além de ser um projeto brasileiro, de apurar muito bem as histórias, sabe contá-las, sabe apresentar um personagem. 
Tá certo que nada se faz sozinho, portanto é leviano dizer que a revista é boa porque só tem repórteres geniais. Dá pra ver que existe uma certa estrutura e também trabalho de equipe ali. Coisa bem feita dificilmente sai de apenas duas mãos. Uma coisa que me ressinto, aliás, no jornalismo baiano é isso: a solidão na rotina produtiva e falta de orientação da reportagem, que se vira nos 30 diariamente. Bem, mas voltando à Piauí, é fato que ela conta com bons repórteres.
O caso é que esse tipo de gente corresponde a 5% da gama de jornalistas do mercado. Mas e aí? Vale a pena ser jornalista mesmo não pertencendo à nata? Sempre me perguntei isso, percebendo que uma boa parte da galera de assessoria meio que fica de olho comprido na redação, imaginando que deve ser melhor, mais emocionante. E é, mas é apenas a outra face de uma mesma cilada.
Sinceramente, depois de 17 anos nesse mercado, eu fico cada vez mais convicta de que sucesso depende mais de temperamento e relacionamento do que de talento. Qualquer carreira bem sucedida vai depender do nível de obsessão em construí-la e de ter os contatos certos. Só isso elimina uns 80% dos candidatos ao estrelato, para dizer o mínimo. As pessoas, sabiamente, privilegiam outras partes da vida que, muitos dizem por aí, é uma só. A parte do puxa saquismo e das amizades convenientes é mais fácil, tem muita gente com esse perfil por aí, infelizmente, e isso corresponde a pelo menos 15% dos que continuam no páreo rumo à glória.
Mas então por que tanta gente tenta e persiste, já que na primeira década - eu espero - a maioria saca que não vai ser o próximo Caco Barcellos, o próximo Bob Fernandes? Porque além da identificação, que eu não vou falar sobre isso aqui porque é uma coisa óbvia, existe a projeção.
Eu tiro por mim. Não me identifico com o Jornalismo, mas, pensando analiticamente, talvez tenha parado nisso por uma questão de projeção. O jornalista é atento, é rápido e é desinibido, três coisas que nunca fui. Mas gostaria de melhorar isso e acho que essa carreira me ajudou bastante, apesar de, claro, não ter feito milagres porque não se muda a essência. Mas eu só me toquei disso quando, encontrando pela primeira vez em 15 anos com um ex colega de faculdade, ele pontuou que eu estava muito mudada, que não se ouvia a minha voz na Facom e que agora estava mais falante. 
Ou seja, nem tudo na vida vai servir para lhe dar confirmação das suas habilidades. Algumas coisas simplesmente vão ter a função de lhe tirar da sua zona de conforto e lhe desafiar. 
Eu, de minha parte, se pudesse, teria umas cinco carreiras em uma vida só, mas isso dependeria de ter um vigor, uma estrutura financeira e um tempo que eu não tenho. Mas adoro aprender. Adoro, adoro, adoro. Sou curiosa. Essa é, talvez, a minha única identificação com o jornalismo.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

No armário

Vou pegar a gíria gay para falar de algo que percebo que acontece muito: o silenciamento dos sentimentos. Agora mesmo elogiam um colega por emitir um comunicado sobre a demissão tosca dele sem falar mal do empregador. Mas e se ele quisesse fazer isso? E daí? É o sentimento dele, a história dele, ora. Mas nunca permitem a gente falar sobre nada. Somos obrigados a nos tratar como produtos, não como gente, como experiências.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Morre um panda...

... Toda vez que eu descubro que há assuntos que me tocam muito e esses são evitados por meus amigos mais próximos. Acho que sou uma mente doente, que gosta de olhar certos aspectos da vida que todo mundo dá dez reais só pra evitar.
Solidão existencial, mas, enfim, é a vida. 😒