segunda-feira, 3 de julho de 2017

Beauvoir

Se eu já gostava do (pouco) que li sobre Simone de Beauvoir, depois de ver no Youtube uma entrevista dela a um canal francês, em 1975, fiquei mais admiradora ainda dela. Que clareza e articulação de pensamento!
Bem, basicamente ela fala muita coisa que as feministas hoje defendem, que as mulheres já se conscientizaram (pelo menos uma parte da classe média). Em termos de conteúdo, não há novidade para alguém vivo em 2017. Mas vale sempre ressaltar que ela apontava isso desde 1949. Se hoje já dá treta, imagine há quase 70 anos. Coitada! Calculo o que não deve ter escutado...
Há duas coisas, que passam quase despercebidas diante do restante do conteúdo feminista da entrevista, que chamaram a minha atenção. A primeira delas é o valor que Beauvoir dá à experiência de leitoras do seu clássico, "O Segundo Sexo". Parece que ela só se convenceu, realmente, de sua própria tese depois de todo esse reforço das mulheres, que lhe escreveram relatando suas histórias, algumas com medo de serem descobertas pelos maridos. Ela mesma faz uma confissão bonita, já que é tão raro esse nível de autopercepção e mea culpa, de que nunca, antes dos 40 anos, havia se tocado da opressão masculina porque justamente conseguiu escapar dos espaços que promovem esse tipo de violência contra a mulher.  
Nesse mesmo sentido, e porque vinha pensando muito sobre isso ultimamente, gostei da segunda observação, na qual ela diz que é difícil um homem realmente ser feminista porque simplesmente algumas situações lhe são estranhas, não fazem parte da vivência deles. Um homem tem dificuldade de perceber, por exemplo, o medo de uma mulher de andar sozinha à noite. Só uma mulher sabe do alívio que é olhar para trás, numa rua escura, e perceber que o passo acelerado é de outra mulher. Os homens não têm o medo da violência sexual que ronda as mulheres, feias ou bonitas, crianças ou velhas. Eles nunca vão entender a dimensão desse pavor.
E onde quero chegar com isso? Eu acho que devemos apontar a falta de empatia, sim, mas não podemos exigir que os outros nos compreendam na integralidade, porque cada ser humano é dono de um repertório bem limitado. Se você faz parte de uma minoria, seu repertório vai ser menos compartilhado ainda. Não tem jeito, muitas vezes a gente só compreende experimentando. Se fosse possível internalizar apenas ouvindo os outros, não precisaríamos viver tanto, passar por tanta coisa. Abrindo, aqui, um parenteses, aconteceu há alguns dias uma coisa comigo nesse sentido. Quando falava de uma determinada situação com um amigo que fazia parte dela, pontuando que houve injustiça, ele nunca reconhecia, dava aquele velho cala a boca do tipo: "Não sei por que ficaram sentidos com isso. Acontece o tempo todo". Por quê? Porque, provavelmente, reconhecer que houve injustiça com uns, na cabeça dele, significava que não era merecedor de ter sido poupado da situação injusta. E não havia nada a ver uma coisa com a outra. Ter sido poupado de uma injustiça não quer dizer que, necessariamente, sua posição seja injusta e privilegiada. É injusta e privilegiada só se você estiver fora dos critérios que justificam ter sido poupado. Havia gente assim na situação em questão, mas não era o caso dele. Bem, eu havia me resignado, pensando que era a típica situação em que a pessoa, no fundo, acha que é mimimi seu apenas pelo fato dela nunca ter sentido aquilo na carne. No fundo, a classe média, em especial, adora pensar que só se fode quem de algum modo mereceu isso. Pois bem, o tempo passou e o conjuge dele quase passou por uma situação parecida com a minha. Ele, me relatando a situação, fez indiretamente um pedido de desculpas, dizendo que a criatura era "igual a mim, que não era de puxar saco, etc", enfim, que éramos o tipo de gente cuja integridade às vezes joga contra. Ou seja, precisou acontecer o mesmo com alguém que lhe afetava diretamente para a figura ampliar a percepção da situação da qual eu me queixei, sair do ego e exercitar a empatia. E olha que é alguém que eu sei que gosta muito de mim. Então, o que esperar de um estranho? É contar com a sorte, na boa. Djamila Ribeiro cita muito, aliás, uma frase genial de Beauvoir (que as feministas de Facebook acham que é dela) sobre feminismo, mas que serve para muitas outras discussões: "Se a questão feminina é tão absurda, é porque a arrogância masculina fez dela uma querela (disputa), e quando as pessoas querelam, não raciocinam muito bem".
Enfim, precisamos lutar pelo impossível, pelo ideal, claro, mas tendo consciência das limitações. Quase sempre, a gente é o que pode, não o que quer e às vezes a gente está muito distante sequer de compreender que devemos querer essa mudança. A consciência não chega ao mesmo tempo e da mesma forma para todo mundo. Não se nasce consciente, torna-se consciente. É um trabalho de uma vida inteira.

PS: Tem uma terceira coisa que ela fala ao entrevistador e que é muito legal, que é quando ele diz que essas cenas clássicas de opressão no casamento se aplicam mais à América Latina que à França, o que ela desmente citando a experiência da irmã dela na periferia de Paris. É isso, nem todo mundo tá no mesmo tempo apesar de compartilhar o mesmo espaço. Há gente, em lugares do Brasil, ainda vivendo no século 19. Não estamos todos no século 21. Até isso é um privilégio.

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