Post dedicado à Ingrid, à Luize e à Julia.Na foto, Jorge Amado, que apesar de comunista, nunca deixou de crer em milagres. Homem cuja fé, aliás, inspirou a letra abaixo.
"Quem é ateu
E viu milagres como eu
Sabe que os Deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar"
[Milagres do Povo - Caetano Veloso]*
"Para quem acredita, nenhuma palavra é necessária; para quem não acredita, nenhuma palavra é possível".
[Dom Inácio de Loyola]
"Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é que tudo é um milagre."
[Einstein]
Assim sendo, na identificação da perda de si mesmo estaria a cura de várias enfermidades, o que de milagre não teria nada, a seu ver, uma vez que a solução não viria do acaso, mas sim da recomposição da "trilha" que nos leva de volta a nós mesmos.
Em meio a explanação, a doutora deu uma definição para a palavra "pecado" que, garanto, para mim vai se tornar inesquecível. Ela contou à platéia que, na verdade, significa "perda do alvo". Assim, quando Jesus curava um enfermo e lhe dizia "Vá e não pequeis", ele não ordenava à criatura que não mais errasse [eis a palavra "pecado" no sentido que nós conhecemos], que vivesse em santidade, mas que não mais se perdesse de si mesma. Eu achei isso tocante, belo, e muito mais condizente com a figura de Jesus que eu tenho na minha mente.
Ontem mesmo assisti a cinebiografia de Maria Madalena. Ela foi uma mulher sofrida, traída e usada por algumas das pessoas de quem gostava. Em meio a algumas situações de sua vida, se encontrava, por acaso, com João Batista, por quem sentia uma simpatia instintiva. No primeiro encontro, ele a convidou para que se juntasse a ele e a seus seguidores. Ela recusou. Depois, o primo de Jesus sempre lhe perguntava se ela estava bem, o que Maria respondia afirmativamente, mesmo que fosse mentira. João Batista insistia: "Tem certeza que encontrou o que procurava?". Ela se calava porque sentia, no seu íntimo, que não, que havia se perdido de si mesma. Houve épocas em que até viveu muito bem, como quando morou no palácio de Herodes e era amante de um general por quem nutria um amor verdadeiro e vice-versa. Mas no fundo não era feliz. Daí veio aquela cena que todo mundo conhece, a que Jesus expulsa seus demônios. Por demônios, podemos entender o ódio que ela nutria pelos seus malfeitores, a sede de vingança, a vontade de ser amada por um homem, enfim, tudo aquilo que a movia mas que a fez se perder de si mesma, da sua essência, e que não lhe fazia bem. "Vá e não pequeis". Ela, ao que parece, não voltou a pecar, mas não se foi. Fiel como um cão, seguiu Jesus até o fim.
Quando era pequena, não acreditava em Deus. Achava que Ele era um amigo imaginário dos adultos, quase como as minhas bonequinhas de papel eram minhas amigas. Como nunca botei muita confiança nos discursos de minha mãe, mulher de fé fervorosa que adorava me falar - ou melhor, me amedrontar - de um tal Deus proprietário de um caderninho no qual tudo que eu havia feito constava, aí mesmo que me custava acreditar nesse chefe do universo, uma espécie de Rambo cósmico, precursor de Stallone e cia.
A rejeição era tão forte que não suportava nem entrar na igreja. Toda segunda-feira, minha mãe ia à missa, à noite, e, antes disso, acendia uma vela na capela. Adorava acender a tal vela, mas dava no pé e voltava para o carro assim que ela ia rumo à igreja. Meu pai tentou até me levar à catequese, mas eu apenas comia o lanche do início da aula e me mandava. O velho desistiu, claro. Não era vantajoso para ele acordar sábado cedinho só para eu tomar café da manhã pela segunda vez no dia. Na cruzada em prol da minha alma, ainda tinha minha vizinha, Glória, mais ou menos da minha idade, que tentava me arrastar para a missa matinal, domingo após domingo, da qual eu fugia mais que o Diabo da cruz! Lembro-me de uma cena patética: eu presa pelos braços à cabeceira da cama de minha mãe enquanto Glória me puxava pelas pernas para ir à missa. Não foi comigo que a pequena Glória fez jus a seu nome e alcançou a glória de arrebanhar mais uma alma perdida para o Senhor. :D
A parte curiosa é que, intuitivamente, sabia que estava perdendo com isso. Não falo de religião, de freqüentar igreja ou de fazer primeira comunhão. Não, não. Eu perdia por não crer; queria ter fé! Minha prima Fernandinha sempre foi, a despeito de qualquer coisa, uma pessoa de muita fé. Ela sempre falou de Deus de uma forma muita vigorosa, convicta, e isso desde muito pequenininha. Eu achava aquilo bonito demais, me impressionava com o fervor do discurso dela, mas não conseguia sentir o mesmo.
Hoje eu tenho fé, mas como quase tudo em minha vida, isso não me veio de mãos beijadas. Muito pelo contrário. Batalhei por cada centímetro dela, por mais de 20 anos. E valeu a pena. É a maior ferramenta de um ser humano, o maior presente que se pode ganhar na vida. A fé te dá a serenidade para enfrentar o que for [vide Ô Ingrid! :P]. Só vivendo isso para saber do que estou falando.
Mas mesmo antes da criatura aqui se unir ao Criador, a figura de Jesus já me dizia muita coisa [aliás, as pessoas nunca me entendiam quando dizia que não sabia se Deus existia mas que acreditava muito em Jesus Cristo. Era um tal de "Como pode?! Ou acredita nos dois ou em nenhum, ora!"]. Para começar, nunca vi nele aquela criatura linear nas emoções, zen, que as pessoas vêem. Jesus, pra mim, sempre foi muito humano. Digo humano no melhor sentido da palavra, claro. Jesus se zangava com as pessoas [os fariseus que o digam!], tomava partido ["Quem nunca pecou que atire a primeira pedra!"] e até resmungou, ao carregar a cruz ["Pai, por que me abandonaste?"]. Aliás, sempre sacava da cartola esse argumento quando minha mãe vinha com aquelas frases by Bíblia Sagrada, tentando me forçar à perfeição. hihihi...
Falando sério, sinto muito que muita gente, ainda que com as melhores intenções, insista nessa abordagem errada dos ensinamentos bíblicos. No que se mata a humanidade do seu interlocutor, mata-se, de quebra, a credibilidade do próprio discurso.
Minha sorte é que, apesar de ser uma extremista [basta dizer que quando saí do Farol de Itapuã, fui parar no Farol oposto, o da Barra! hehehe], sempre soube aproveitar a parte boa das experiências e discursos ruins. Eu não me disvirtuei apesar do discurso desastroso de minha genitora na tentativa de me pôr no caminho do bem e da fé. Eu apenas sempre soube respeitar a minha humanidade. O que Jesus diz é o ideal, é a meta final. Responder ao mal com o bem [o famoso "dar a outra face"], por exemplo, é o comportamento ideal. Mas quero ver aquele que, ao ser sacaneado, não vai sentir o impulso de revidar, na mesma moeda! Claro, com um pouco de calma, a pessoa prejudicada vai se livrar da idéia de vingança, vai chegar a sábia conclusão de que isso não é o melhor a ser feito, que o revide não leva ninguém a lugar algum que seja bom. Mas, a princípio, vingar-se é o que quase todo mundo vai desejar fazer.
A evolução interior de um ser humano, para mim, é comparável aos aprendizados básicos da infância: quando uma criança aprende a escrever, espera-se que em 10 anos, ela esteja escrevendo em sua língua com perfeição ou o mais próximo disso, mas até lá, erra-se um monte. Um bebê que dá os seus primeiros passos, eventualmente cai, tropeça, mas um dia estará correndo, andando perfeitamente. É preciso não perder de vista o ideal, fazer o máximo para atingi-lo, mas é preciso reconhecer e respeitar os próprios limites. O contrário disso é o orgulho, é a vaidade, e a principal lição do Cristo tem justamente a ver com amor, humildade e solidariedade. Pequenos e consistentes passos rumo à virtude são mais valiosos que grandes rasgos de "perfeição moral" que mais têm de exibicionismo que de perfeição e de evolução espiritual. Como dizem os italianos, chi va piano, va sanno e va lontano. A parte dos meus genes que vem de Minas acredita plenamente nisso.
Só não vale usar essa de "respeitar a própria humanidade" como desculpa para cometer transgressões que facilitem a realização de desejos pessoais, para satisfazer caprichos. Isso não é humanidade; é esperteza, egoísmo, cinismo, isso sim! Muiiita calma nessa hora, minha gente. Nunca o tal do "orai e vigiai" foi tão necessário quanto em nossa época. Muito cuidado com as idéias que se vai comprar. Vivemos num tempo no qual "tudo é relativo". Para todo mal que se queira fazer, haverá uma boa desculpa para isso, uma idéia engenhosa - porém falsa - que a valide. É como a história do funcionário público corrupto que defende seu erro dizendo que se ele não roubar, outro o fará, e que, portanto, troca-se apenas o sujeito da ação.
Tive um insight sobre isso lendo "Lolita". O professor começa a narrativa justificando o seu "amor" pela garotinha através da História. Humbert Humbert argumenta que em determinadas culturas, as meninas se casam com 9, 12 anos, e que até pouco tempo atrás, no mundo ocidental, isso acontecia sem que qualquer homem que se casasse com uma menina fosse classificado de doente ou amoral. Ou seja, se até para a pedofilia conseguem arrumar um bom argumento... Ficou claro, agora, o meu ponto de vista sobre a tal "verdade relativa"?
Enfim, muito cuidado com as ações e especialmente com os pensamentos, a origem de tudo! Cuidado para não pecar, isto é, para não perder o alvo, para não se desligar de si mesmo! A vida passa muito rápido, hoje em dia, e é muito fácil viver, agir inconscientemente.
Deus só quer, a meu ver, uma coisa da gente: positividade, o que se traduz por pensamentos, palavras e ações de boa qualidade, verdadeiros, construtivos, de preferência, que reflitam também positivamente na vida do próximo. Algo próximo daquela frase de Gonzaguinha, batidíssima em Orkuts e MSNs: "Fé na vida, fé no homem, fé no que virá".
Há uns 15 anos, assisti, no Programa de Amaury Jr., uma entrevista com uma figura ligada à Igreja Católica. O sujeito dizia que, na verdade, o terceiro segredo de Fátima, que o Vaticano guardava até aquele momento a sete chaves, era mais ou menos isso, e se referia ao fato de que Deus não faz questão alguma que tenhamos uma religião. Ele apenas quer que pratiquemos o bem, que sejamos cristãos na alma. Está certo que ter Amaury Jr. como fonte tira um bocado da credibilidade da coisa [risos], mas acredito que seja esse mesmo o conteúdo do terceiro segredo e não aquela bobagem sobre o atentado contra João Paulo II.
Quando pequena, ia freqüentemente à casa de minha vizinha, Renatinha, na 11, pegar emprestado os livros, produzidos para o público infantil, que contavam histórias da Bíblia. Fantásticos! Grandes exemplos de conduta, de coragem, de persistência no "alvo". Belos milagres movidos pela fé dos homens.
Apesar das idéias da doutora da palestra terem sentido para mim, acredito na cura tanto quanto no milagre. Eu penso que milagres existem, sim. Mas, claro, eles não se originam exatamente do nada. Eles vêm da fé humana, da força da mente dos homens que crêem e que tudo pode tornar realidade a partir disso. E isso não quer dizer que é preciso necessariamente se encontrar ou algo do tipo para haver um milagre. Às vezes, a cura, ou melhor, o milagre, vem justamente da capacidade de se perder em Deus, no todo, no sentimento puro, por vezes inexplicável, e forte da fé. Os orientais mesmo dizem que o estado de plenitude tem justamente a ver com o não ser, com a capacidade de se livrar do ego e se fundir ao todo. Aliás, é muito ocidental essa crença de que tudo tem que ter uma razão, uma lógica, uma conexão egóica.
Eu sigo acreditando em milagres. Viver é um grande milagre. Eu mesma experimentei, há muito pouco tempo, o meu milagre fundamental - como, então, não acreditar em milagres?
* Ahhh, eu vou fazer uma declaração de amor, aqui: Eu amo a Bahia! Obrigada, meu Deus, pelo milagre de ter me tornado baiana [ou melhor, por ter me curado de ser brasiliense - brincadeira! hehe]!














