Faz uma semana, hoje, que conheci Adriana, em
um show no TCA. Estava com Anderson e Fla, na porta do camarim de Zélia
Duncan, aguardando para entrar - não que ligue para isso, mas, enfim, é
de bom tom acompanhar a maioria, quando se está em grupo. Adriana e
Janete estavam à nossa frente. Estranhei, não vou mentir, o visual
daquela moça - a acompanhante fazia um estilo "bicho grilo", bem mais
comum em shows como esse - com piercing nas narinas, corpo esguio e bem
negro, de modelo, e cabelo raspado. Essa última característica,
confesso, invejei. Ah, como gostaria de não ter que lembrar que meu
cabelo existe!... Mas não ficaria tão bem sem ele como Adriana, que,
aliás, já teve cabelo quadrado, loiro, raspado nas laterais, entre outros estilos inusitados. Vi tudo isso
enquanto ela nos mostrava fotos que tirou com outros artistas.
Havia, aliás, um
monte de gente como ela naquela fila do camarim. Coisa exótica é esse
povo "serial-celebrity"... Não é meu mundo, definitivamente.
"Zélia só vai atender a família",
disse um dos seguranças, provocando muxoxo na fila. O outro,
divertindo-se com o circo, informou para o meu grupo e para as duas moças - porque éramos os primeiros e estávamos, portanto, mais próximos dele - que
a artista sairia pela porta do outro lado. Migramos. Em seguida, toda a
fila surgiu atrás da gente. Zélia sai e, com uma paciência infinita,
tira foto com todo mundo. Eu pongo na de Janete, dando risada pela minha malandragem despercebida. Adriana sai majestosa
em algumas poses ao lado da cantora.
No pátio - ou foyer, como o
povo anda dizendo por aí - conversamos todos enquanto os fãs se
dispersavam. Adriana contou a sua história: órfã, lésbica, já foi
explorada em subtrabalhos, já foi agredida fisicamente quando se
relacionou com homens, sobreviveu muitas vezes bancando a estátua viva
nas ruas de Salvador. Agora estuda à noite, no Vieira, ganha um salário mínimo atualizando um
site de cultura (o que aprendeu a fazer observando colegas responsáveis pela função) e pensa em seguir na engenharia, pois gosta muito de física e matemática. Janete é, na verdade,
sua companheira. Beirando os 40 anos, ela também é órfã e é bonito de ver que, antes de serem
amantes, são grandes amigas.
Adriana
nunca deixa Janete contar as histórias. Diz - e tem razão - que
sabe narrar de forma mais engraçada. Ela frisa por diversas vezes
que tem 25 anos - muita idade e experiência acumulada, na perspectiva
dela. Nasceu em 3 de agosto; é leonina. E, seguindo aquilo que se diz
sobre signos de fogo e fixos, é impossível não notá-la. Ela conta, dando
risada, os elogios que já ouviu, por ser "estilosa", de gente como
Saulo Fernandes, Ivete Sangalo e Osvaldo Montenegro. E, como o mundo é pequeno, ela
conta também que acaba de servir de personagem para uma matéria de Luana
Ribeiro para a Revista Muito sobre negros estilosos.
Ela é intrigante por não se intimidar pelos fatos, muito pelo contrário. Um personagem? Só sei que funciona. É uma
criatura bastante expressiva. E gosta de falar sobre si mesma. Ô, se
gosta!... E acho que ficou feliz por falar de sua curta e movimentada vida para dois jornalistas. Diz ela que um dia vai escrever um livro sobre isso.
Por duas vezes, durante o papo, fomos interrompidos por
pedintes. Enquanto a gente se tremia de medo de assalto, ela resmungava
da falta de educação dos dois estranhos: "Ah, não deixam nem a gente
conversar em paz, poxa!".
Já no bar, pós-conversa, a gente comentava sobre a
nossa mais nova amizade. A alegria dela impressionou todo mundo.
Anderson ressaltou, sagazmente, que é uma das reações possíveis quando não
se tem nada a perder: se jogar. Eu fico feliz e de coração apertado. De
verdade. Gente assim tem que terminar bem, no meu mundo. Tomara que ela
não se canse. Tomara que ela tenha sorte. Tomara que um dia a sociedade
dê o devido valor a gente como Adriana, gente que, surgida no gueto, foi feita pra brilhar.
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