domingo, 7 de setembro de 2014

"Não é não!"

Se para você soou a frase dita para criança rebelde, sinto lhe dizer que a maioria de nós, então, morre sem nunca ter crescido.
É muito difícil receber um "não" sem ficar com a mente nos "porquês" disso. Aceitar uma negativa aos nossos desejos, assim, de pronto, não é para gente como a gente.
Uma amiga que acabou de romper com o namorado, de quem ela gosta muito, sofre, ainda que calada, tentando aceitar a negativa do ex. Não é fácil, dói muito...
Pensando nisso, lembrei de uma amiga que teve o pior término de relacionamento que já testemunhei. E ela gostava muito dele, estava empolgada em casar em breve, além de ser uma pessoa fofa, incapaz de fazer mal a uma mosca, apesar de ser uma loira gigantesca. Digo que tem alma de labrador, e ela se acaba de rir com a comparação. Como magoar uma criatura dessa, né?
A história dela não vai influir no restante do texto, mas é tão vil que quero compartilhar. No final de 2011, voltando das férias radiante como nunca, minha amiga me conta que encontrou o ex da época da faculdade; eles ficaram e, em poucos dias, o sujeito a pediu em casamento, combinando com ela que a cerimônia seria no ano seguinte. Ele morava em São Paulo, tinha quase 40 anos e ainda era solteiro. Havia terminado, há pouco, um namoro longo com uma ex que ele pintou como louca-problemática. Apesar do pedido de casamento ter sido "à queima roupa", minha amiga não o estranhou porque, afinal, eles já se conheciam há anos e tiveram um relacionamento, interrompido por causa da profissão dela. Era apenas questão de concluir. O reencontro teve ares de comédia romântica, de presente do destino.
Minha amiga passou o ano seguinte cuidando dos detalhes, mas o noivo, por sua vez, além de pouco vir a Salvador - geralmente com a passagem bancada por ela -, não se envolvia com a cerimônia. Todo mundo achava que alguma coisa estava acontecendo, mas ninguém fazia ideia. Remarcaram a data do casamento para o ano seguinte, quase no dia do meu aniversário. 
Eu não lembro exatamente o que a fez chamá-lo para uma conversa, mas ele reagiu muito mal. Eles terminaram. Dias depois, também não lembro a circunstância, o sujeito encontrou com o tio dela - parte da família de minha amiga mora na mesma cidade -, e ele foi ridículo: disse que nunca tinha falado de casamento - uma mentira deslavada, desmentida por qualquer um que já esteve com o casal -, que ela era louca. Uma total falta de consideração, ainda mais porque ele conhecia aquela família há uns 15 anos.
Mas lembrei dessa história de minha amiga pela fantástica reação dela, na minha opinião: não discutiu, não correu atrás, pouco falava disso e não chorava em público nem quando a história era relembrada. Tocou a vida como se nada tivesse acontecido. Como temos intimidade, perguntei como ela conseguiu superar "tão fácil" (mas a vontade era de pedir um autógrafo). Como não bateu boca depois do que ele disse ao tio? E como segurava a curiosidade de saber se estava com alguém? Eu mandaria metade da conta do casamento para ele pagar, pelo menos! 
Ela me respondeu:
- Ju, está doendo, mas eu aprendi com a minha terapeuta a aceitar o não, a não procurar os motivos e seguir em frente.
Eu fiquei chocada. E acho que ela percebeu que a maturidade da resposta havia agredido a minha longa trajetória de desespero existencial, inconformidade com as negativas da vida e tentativas frustradas de controlar os acontecimentos.
- Não foi do dia para a noite que aprendi isso, sabe? Foi um aprendizado de mais de dez anos, desde que comecei a terapia. Já sofri muito em outros términos de relacionamento.
Veja, uma década sendo "treinada" para aprender a reagir sem desespero. Mas isso tem os seus efeitos colaterais. A própria terapeuta briga com ela por "agir que nem homem", ou seja, "pegando sem se apegar". Diz a psi que isso sinaliza aos caras que ela não quer nada sério. Quem são os loucos, minha gente, nós ou eles? Ai, ai!...
Se tudo fosse só amor, estava até bom, como diz a minha mãe. A gente pode escolher, em último caso, não amar, afinal esse tipo de relacionamento é uma aposta quase como a loteria, feito para "perder" mesmo (embora sempre se ganhe algo).
Mas e quanto às coisas práticas da vida? Quando você investe em uma carreira e tudo dá errado, quando você quer um emprego e não rola. Ou que nem esse pianista famoso que tem problemas nas mãos e não pode mais tocar. 
E há coisa que é insubstituível. Uma colega ficou muito abatida quando perdeu a mãe por erro médico. Senti que a causa, o erro, ficou martelando ali, no coração. A pessoa não conseguia disfarçar a tristeza, perdeu o viço. Ela não conseguiu aceitar que não é não, que a mãe nunca mais estaria ali.
E, sabe, nem a sensatez é capaz de salvar totalmente a cena. Um religioso famoso na cidade tem um argumento muito bom para essa hora: por que se lamentar, se acontece a tanta gente no mundo? Vá fazer o coração se aquietar com isso, vá, e depois volte para me contar... Só o tempo e muita resiliência podem ajudar. 
Ainda bem que minha amiga - a que sofre agora - também sabe disso. 


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