Quando cheguei a Salvador, no início
da década de 90, morei na Rua K, em Itapuã. Minha vizinhança era de
elite: à minha esquerda, o dono da antiga Alimba; atrás, o humorista
Juca Chaves e, do lado, uma família ítalo-brasileira, com uma casa
incrível de dois andares, dois filhos e um dog que eu amava.
Fiquei
muito amiga de Danilo, um menino uns dois anos mais velho, e da filha
da empregada, que, como nunca mais tive contato, esqueci o nome - a mãe
de Danilo é meu contato até hoje.
Gostava muito de brincar com os dois, até porque eram as únicas crianças
dali. Mas um evento me marcou nessa convivência. Foi quando a menina,
mais criança que eu, pediu para usar o banheiro. Estávamos na minha casa jogando algum jogo de tabuleiro e ela fez o pedido. Indiquei o banheiro da casa. Quando ela saiu da sala, Danilo não se conteve e revelou o incômodo mais ou menos assim:
Ele ficou mudo, puto da vida, uma reação típica de playboy contrariado. Mas nunca mais me disse nada. E sorte dele que meus pais não estavam em casa. Se conheço minha mãe, daria uma resposta muito mais cortante que a minha.
Um amigo meu escaldou publicamente uma colega de faculdade por causa disso. A menina teve a cara de pau de dizer que não era racista porque almoçava com uma menina negra, a única do local onde ela trabalhava, e disse que até foi dançar com ela em alguma festa da rua da menina. Rainha do camarote total, gente! Ela acha que não é racista porque deu a garota negra o prazer de sua companhia. Afinal, ela, branquinha, agrega ao fazer isso. Resultado: meu amigo, negro e muito "nigrinha", esperou um seminário da turma da faculdade, escolheu o tema "racismo" e relacionou a teoria às coisas que a menina falou, citando o nome dela. Ela chorou, provavelmente de raiva e não de remorso. Tá com pena? Eu não. Gente idiota tem que levar esse tipo de escalde para ver se começa a se humanizar um pouco. Isto é, nos casos em que a pessoa tem essa capacidade no DNA; desconfio que a maioria não tem.
E essa elite, se precisar fuder com quem precisa - leia-se, os mais pobres - para se beneficiar, não sente culpa alguma. Afinal, eles agregam. O pobre é que deveria estar muito feliz em servi-los.
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