quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A síndrome de "rei do camarote"

Quando cheguei a Salvador, no início da década de 90, morei na Rua K, em Itapuã. Minha vizinhança era de elite: à minha esquerda, o dono da antiga Alimba; atrás, o humorista Juca Chaves e, do lado, uma família ítalo-brasileira, com uma casa incrível de dois andares, dois filhos e um dog que eu amava.
Fiquei muito amiga de Danilo, um menino uns dois anos mais velho, e da filha da empregada, que, como nunca mais tive contato, esqueci o nome - a mãe de Danilo é meu contato até hoje. Gostava muito de brincar com os dois, até porque eram as únicas crianças dali. Mas um evento me marcou nessa convivência. Foi quando a menina, mais criança que eu, pediu para usar o banheiro.
Estávamos na minha casa jogando algum jogo de tabuleiro e ela fez o pedido. Indiquei o banheiro da casa. Quando ela saiu da sala, Danilo não se conteve e revelou o incômodo mais ou menos assim:
- Como você deixa ela usar o seu banheiro?! Ela pode ter muitas doenças e passar para vocês!
Eu respondi na lata, como até hoje eu costumo fazer, ainda mais quando alguém diz uma grande merda perto de mim:
- Você pode ter muito mais doenças que ela, afinal, já é rapaz, já namora, e ela é criança.
Ele ficou mudo, puto da vida, uma reação típica de playboy contrariado. Mas nunca mais me disse nada. E sorte dele que meus pais não estavam em casa. Se conheço minha mãe, daria uma resposta muito mais cortante que a minha.
Essa historinha toda é para explicar porque eu não gosto dessa chamada elite brasileira. Não é por inveja - que é o que alegam quando se toca nesse tipo de ferida, no classismo de uma certa parte da sociedade -, até porque não sou consumista. Se um dia tiver muito dinheiro, meus luxos serão ter uma casa confortável, estudar e viajar. É que eles são escrotos pra cachorro. Tem a síndrome de "rei do camarote", acham sempre que estão agregando valor por onde passam, por isso todos devem servi-los.
Um amigo meu escaldou publicamente uma colega de faculdade por causa disso. A menina teve a cara de pau de dizer que não era racista porque almoçava com uma menina negra, a única do local onde ela trabalhava, e disse que até foi dançar com ela em alguma festa da rua da menina. Rainha do camarote total, gente! Ela acha que não é racista porque deu a garota negra o prazer de sua companhia. Afinal, ela, branquinha, agrega ao fazer isso. Resultado: meu amigo, negro e muito "nigrinha", esperou um seminário da turma da faculdade, escolheu o tema "racismo" e relacionou a teoria às coisas que a menina falou, citando o nome dela. Ela chorou, provavelmente de raiva e não de remorso. Tá com pena? Eu não. Gente idiota tem que levar esse tipo de escalde para ver se começa a se humanizar um pouco. Isto é, nos casos em que a pessoa tem essa capacidade no DNA; desconfio que a maioria não tem.
 E essa elite, se precisar fuder com quem precisa - leia-se, os mais pobres - para se beneficiar, não sente culpa alguma. Afinal, eles agregam. O pobre é que deveria estar muito feliz em servi-los.
Um colega de trabalho conta que a sua ex-babá tinha verdadeiro horror à ideia de voltar a atuar como doméstica. O motivo: a antiga patroa colocou, uma vez, a figura para trabalhar numa festa sábado à noite, quando ela deveria estar folgando. Foi pega de surpresa, mas trabalhou. No dia seguinte, bem cedinho, se picou para casa para, afinal, gozar de uma parte restante da sua folga. A patroa escaldou a criatura, depois, porque ela saiu sem pôr o café da manhã do fulaninho, filho dela. A moça ficou tão humilhada que nunca mais quis atuar nessa função. Provavelmente não foi a única situação do tipo enfrentada por ela, mas foi uma bela gota d´água.
Enfim, eu nunca acreditei muito nessa tal de igualdade de classes. Quem tem dinheiro, só respeita dinheiro e os signos ligados a isso. É bem verdade que conheço algumas exceções, mas já vi muita gente pintar o diabo com os outros porque tinha dinheiro. Alguns se lascaram mais na frente e perderam tudo - precisando, inclusive, das figuras que haviam humilhado. Não gosto dessa gente. Usam perfume importado mas fedem na alma. Não respeitam as pessoas e usam critérios aristocráticos e fúteis para decidir sobre o valor de alguém. Até admito para a convivência eventual, mas trazer para perto, não mesmo. Ao contrário da crença deles, não agregam nada, pelo menos não moralmente e espiritualmente.

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