Há uma época na vida em que queremos o mundo. Fazemos planos audaciosos, somos competitivos, tentamos a todo custo controlar os fatos, nos fiamos na razão (contraditoriamente, por vezes caímos aos pés de nossa vaidade, de nosso orgulho ferido - logo de nossas emoções mais baixas). Queremos, não raro desde cedo, é ter, ostentar, ganhar, enfim, gastamos boa parte da nossa existência correndo, sem nem saber pra quê, atrás de coisas mundanas e trabalhando pelo reconhecimento alheio. Ok, um pouco disso tudo é imprescindível, mas a proporção que isso ganha em nossas vidas é exagerada. Trata-se de uma generalização, mas o triste é ver que as pessoas preferem ter razão, "sair por cima", a serem felizes.
A vida é dividida entre a parte material e a espiritual. Dividida é apenas um modo de dizer, pois está tudo entrelaçado, na verdade.
Poucos nascem dando atenção às coisas do espírito; geralmente a espiritualidade nasce da dor, das dificuldades da vida adulta. E poucos, dentre os que exercitam esse lado, lidam bem com a fé, de fato. Muita gente, quando descobre o "outro prato da balança", volta a desequilibrá-la, o que é igualmente uma pena.
Outro dia uma amiga me disse que lhe faltava fé. Eu confessei a ela que, apesar de pensar muito em Deus, justamente por isso achava que também me faltava fé. Se realmente acreditasse, não me comunicaria tanto com Ele mentalmente - o que denuncia minha ansiedade, a falta de confiança na sabedoria da vida - e apenas deixaria as coisas acontecerem. Há até um trecho na Bíblia que fala mais ou menos sobre isso - a despeito da questão sobre a sua veracidade, eis um livro muito útil para se entender o ser humano. "Olhai os lírios do campo".
Não bastaria somente agir, estar no presente, e aceitar o resultado? Às vezes penso que essa mania de controle é mais inútil, mas muito mais mesmo, do que supõe a nossa vã filosofia. O que parece uma perda hoje pode se revelar um ganho amanhã. Quem garante que no nosso desejo está a chave para a felicidade?
"Amor Fati". "Ame o seu destino". Afinal, como me disse uma vez alguém, tudo que nos aconteceu fez de nós o que somos, e não há como se amar sem amar seu próprio destino, o que inclui também o seu fardo (eis outra tradução dessa expressão, a propósito). No final das contas, ao amar o seu destino, mesmo que não tome consciência disso, estará tornando-se automaticamente mais forte do que ele e a vida, que até então era um grande ringue de luta, começará a ganhar ares de aventura.
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