quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Na cova dos leões



Morreu Ana Carolina Reston, modelo de 21 anos, de insuficiência renal, ou melhor, de anorexia. Morte por anorexia me deixa triste porque indica mais do que um transtorno mental do morto quando era vivo; é a prova do estado de abandono e solidão em que se encontrava. Afinal, demora-se meses e meses até que a pessoa fique gravemente doente. E, nesse meio tempo, ninguém vê nada, não nota que a pessoa está definhando, é?! Depois todo mundo sabe chorar e se lamentar, mas ninguém quer ter um pingo de trabalho.
Essa menina certamente dava um bom lucro à agência e à família, e devia sofrer pressão para isso. Pra quê ajudá-la se quem está se dando mal com a doença é ela mesma e ninguém mais, né?
Isso me lembra, embora pareça que não tem relação alguma, um caso que aconteceu com a minha vizinha cega, há pouco. Ela comprou sozinha um produto numa loja de eletrodomésticos e foi lesada pelo maldito do vendedor (pode!?). Não foi a primeira vez que fez algo do tipo. Minha vizinha perdeu a visão aos 71 anos, e não aceita de jeito nenhum o fato. Vira-e-mexe tenta provar que não precisa de ninguém. É que com a capacidade de ver foi-se também a dignidade dela - acho até que essa foi a pior perda, na verdade -, e a dignidade neste mundo está demasiadamente atrelada à auto-suficiência. É feio e humilhante precisar dos outros, depender, "incomodar". Ninguém dá a ela mais atenção agora do que quando era vidente. Claro, não se trata de fazê-la de coitada (isso também tira a dignidade), mas não é a mesma pessoa, com a mesma capacidade de antes. É fato, e isso exige adaptações da parte dela e de quem a cerca. A questão é que a cegueira já não é novidade, assim como depois de amanhã não será mais a morte da garota.
Não é só a fama que dura 15 minutos hoje em dia. As emoções também.
Ana Carolina e minha vizinha foram "premiadas" com a falta de empatia e atenção. Haverá um dia, e acho que não está muito longe, no qual os bebês vão ter que se limpar, se alimentar. O horror à dependência é um valor muito forte em nossa sociedade, para todos nós, infelizmente. É horrível admitir isso, mas é verdade. E é mais forte que a gente, às vezes...Muitas vezes!

Passando pelo UOL, me deparei com este artigo de Rosely Sayão. Muito oportuno!

Onde estão os adultos?

Vocês devem ter lido a notícia da morte da garota Ana Carolina, 21 anos, modelo. Ela foi vítima de anorexia. Esse tipo de notícia sempre me faz pensar muito. Afinal, qual a parcela de nossa responsabilidade nessas mortes trágicas de jovens? Não dá para fazer de conta que não temos nada com isso, não é verdade? Será que não estamos jogando nossas crianças e nossos jovens aos leões?Nossos jovens buscam, hoje, um corpo perfeito. O índice de cirurgias plásticas praticadas em adolescentes em nosso país já é alarmante. O de distúrbios alimentares também, e as garotas são as vítimas preferenciais. A anorexia, por exemplo, é nove vezes mais comum em mulheres do que em homens. A idade em que mais ocorre é na adolescência, mas os médicos dizem que ocorre cada vez mais precocemente. Essa busca por uma aparência socialmente cultuada pode ser constatada facilmente por qualquer observador. As academias de ginástica estão repletas de jovens e consultórios de médicos que orientam dietas também, só para citar dois indicativos do fenômeno. E a fabricação e a comercialização de produtos diet e ligth, então? Alguém já parou em frente a uma banca de revistas e olhou atentamente para as capas delas? Mulheres magras, sempre muito magras.
Parece que ter um corpo magro, hoje, é fundamental. Os adolescentes que não são magros sabem muito bem o peso que é carregar um corpo que não se encaixa nesse padrão. Mas, precisamos saber que nós alimentamos cotidianamente esse conceito. Nós, os adultos. Quem paga as cirurgias desses jovens, quem estimula – mesmo sem perceber – o consumo de alimentos de baixas calorias, quem banca as mensalidades das academias, afinal? Quem consome as caras roupas mostradas em desfiles por essas modelos extremamente magras?Estamos tão ocupados na busca de nossa juventude permanente - tema que tem muito a ver com a aparência também - que estamos tratando de questões delicadas da vida dos mais novos com muita displicência. Outro dia, uma leitora reagiu a um texto meu e escreveu perguntando se eu não tinha compaixão pelos pais. Vou falar com franqueza: minha compaixão é dirigida às novas gerações. Os mais novos, crianças e adolescentes, precisam de nós. E, pelo jeito, estamos tão mergulhados em nós mesmos que o lugar de adulto perante eles tem permanecido vago. Não é à toa que a palavra educação tem sido tão usada – muitas vezes de forma inconseqüente – na atualidade. Educar exige a presença de adultos. Onde estão eles?

***

Às vezes há pessoas próximas a nós em situação delicada, mas não conseguimos ajudá-las por melhor que sejam os nossos esforços neste sentido. Quando fico sabendo de casos assim, lembro-me das palavras do Reverendo MacLean, personagem de A River Runs Through It/Nada é para sempre - filme de fotografia belíssima dirigido por Robert Redford:

Cada um de nós alguma vez na vida olhou para um ser querido que estava necessitando de ajuda e se fez a mesma pergunta: Nós estamos dispostos a ajudar, mas se há alguma coisa a ser oferecida, o quê? É fato que freqüentemente não podemos ajudar aqueles que nos são mais próximos. E que nem sabemos qual parte de nós devemos oferecer ou, com mais freqüência, a parte que temos que oferecer é recusada. E assim aqueles com quem convivemos e que deveríamos conhecer nos iludem. Mas nós ainda podemos amá-los - nós podemos amar completamente sem compreender por completo.

Massa, né?
Ah! Os americanos realmente são feras na arte de escrever diálogos para o cinema!

Um comentário:

  1. Anônimo12:07 PM

    Jú, tô sempre aqui, lendo seus post, mas não tinha deixado nenhum comentário.
    Bjão
    Alosa

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