quarta-feira, 22 de novembro de 2006

É meu amigo! É meu amigo!*

Eu me lembro
OPINIÃO - A Tarde - sábado, 18/11/2006


CLAUDIO LEAL

Andávamos todos a perguntar: e o filme de Navarro, quando sai? Por que não sai o filme de Navarro? Você já viu Eu me lembro? Penso no quanto nos vulgarizamos a ponto de negar ao cineasta Edgard Navarro as condições materiais para realizar seu primeiro longa-metragem. A fita parecia um poema de Paul Éluard no casaco do pintor Cícero Dias, antes de chegar às mãos do General de Gaulle, na Resistência Francesa. Finalmente em cartaz o poema de Navarro: Eu me lembro.
Um navio abre o filme. Memória que abraça o transatlântico de Amacord, de Fellini, na noite de um vilarejo italiano – o mundo que nos passa distante; melancolicamente, aceitamos o nosso. Navarro desembarca do Vera Cruz as suas memórias de infância.Mas que as pinceladas autobiográficas não desbotem seu impulso recriador. Eu me lembro é o desenvolvimento de um homem em seu tempo. E a lembrança de Fellini não é ocasional: o menino Guiga imerso na educação religiosa, coagido pelo destempero do pai, cercado de paredes incestuosas, comovido com o universo felliniano, poético e grotesco.
O olhar do adulto não se intromete nas memórias infantis. Cá está um dos méritos do filme. Navarro reconstruiu as memórias sem a verborragia que o caracteriza. Alguma parte de seu desencanto, de seu humor destrutivo, transparece nas seqüências do vitral da escada. A irmã explica a Guiga que por trás dele há um céu, um Deus. Mais tarde, uma pedra é lançada contra o vidro. E o garoto percebe que, do outro lado, havia apenas a vizinha a ajustar as roupas no varal. Esse momento de apostasia não arranca dele todos os traços da formação cristã. Arrisco dizer que o diretor continua a olhar o mundo da perspectiva do vitral quebrado. Nada o fará, no entanto, restituir a fé.
O trabalho de direção dos atores ressaltou os talentos de Fernando Neves (Guilherme, o pai), Valderez Teixeira (Créu), Arly Arnaud (Aurora) e Lucas Valadares (Guiga) – que não se percam no vazio cultural baiano. Atores preciosos. Gosto menos quando surge a ditadura militar. Os personagens discursam platitudes. Vema intromissão de fotos de guerrilheiros mortos e o filme empaca na superfície. Mas a crise nervosa devolve Guiga aos fantasmas da infância. Bela a cena em que pergunta aos céus o que é que há. Nesse conflito, Navarro nos conduz ao fim. Mas terá apaziguado os tormentos de criador? As viúvas do pretérito que me perdoem, mas Eu me lembro supera qualquer filme do Ciclo Baiano de Cinema (1959-1963) – não desconsidero os momentos históricos, muito menos os avanços técnicos; falo da intensidade dramática, congregada ao humor, atingida por Navarro. Agora que nos iluminamos com seus horrores e libertinagens, passamos a ser também responsáveis pela concretização de seus próximos filmes.
Num artigo sobre Eu me lembro, o crítico André Setaro, estudioso pioneiro dos ciclos do cinema baiano, sintetizou no título um compromisso geracional: “Que toda a dor se transforme em luz”. Assim na terra como no inferno.
* O jornalista, e não o cineasta.

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