
Após dois ônibus, com direito a uma traumática passagem pela Faixa de Gaza soteropolitana* - saving private Ryan -, e uma boa caminhada desde a esquina da Delirius até o final da Rua São Jorge, finalmente chego ao almoço de aniversário da Ingrid. Na verdade, ela fez anos dois dias antes da comemoração, em 03/11. Seu primeiro ato de respeito ao catolicismo, aliás, foi ainda na barriga da mãe: como boa cristã, guardou o Dia de Finados, vindo ao mundo somente no dia seguinte.
Espero até que alguém atenda a porta e, pela milésima vez desde que o colaram no portão da casa, dou risada do adesivo com a caveira da Delta Segurança. É engraçado ver o ícone do perigo e da morte justo na residência de uma das famílias mais pacatas e cristãs que eu conheço.
A própria me dá as boas-vindas. Ninguém chegou ainda. Sem-graça, me desculpo por ter ido tão cedo. “Humm...” – e ela dá a sua típica pausa ingridiana, como quem diz “Deixe-me refletir sobre isso” – “Acho que as pessoas é que estão atrasadas”, e me convida a entrar com o ar melancólico de quem começa a pensar que ninguém virá.
O tempo passa e algumas pessoas com quem contava encontrar não aparecem (Luize, Don, Deb´s, Liu e Cláudio). Fernanda eu sei que não virá por causa das bodas dos pais no interior – mas com certeza ela compareceria. Chega o namorado da Renata, o Marcus (“com ‘u’”, ele ressalta), e como Salvador é uma provinciazinha, logo descobrimos uma amiga em comum. Por sorte tratava-se de uma pessoa querida, por isso não tive que me policiar. Aliás, tenho percebido que a cada dia fica mais arriscado falar mal de algum conhecido nessas reuniões.
Sandra também se junta ao grupo, e com tanto sono que chega a me dar alívio o fato de estarmos comendo algo sólido e não pastoso, pois, se assim fosse, teríamos grande chances de ver “ao vivo” uma daquelas cenas típicas de filme B de comédia com a convidada afundando a face no prato. O tempo passa e estranho a ausência de Cláudio – a única que me causa espanto, na verdade, porque mais do que no “furo jornalístico”, a nossa turma é chegada num “furo de compromisso”.
Acho que também contando com a provável presença de Cláudio, Lico resolveu aparecer para nossa (boa) surpresa. Só se levantou para ir embora quando o sol começou a nos incomodar e falou apenas meia dúzia de frases, como sempre. Mas tudo bem, o nosso amigo tem alma de cowboy (mas nada parecido com "Brokeback Mountain", é bom dizer), e a gente já se acostumou com isso.
A Paixão de Ingrid
Diante de uma farta mesa de carne de churrasco, cerveja e refrigerante, em pleno domingo à tarde, o mais natural a fazer é jogar conversa fora e filosofar sobre a vida. Assim, trouxemos à tona a má-fé da imprensa paulista com o presidente Lula; reclamamos do mercado de trabalho (o substituto, enquanto somos solteiros, dos cônjuges e filhos); comentamos as ascensões meteóricas de Alosa e Padre Pinto no candomblé e a rápida ascensão econômica pós-A Tarde de Camarada Lília; discutimos o mercado fonográfico, a origem do samba, a credibilidade do noivado de Beyoncé e Jay-Z e as estrelas da black music; e divagamos sobre o mal-estar da alta burguesia no século XXI, especialmente nas Américas, onde, segundo Ingrid, o culto ao self-made man é fortíssimo e por isso opressor para quem nasceu com privilégios de nobre - eu concordo com ela e relato a minha teoria de que os lugares tendem a cristalizar o espírito de seus pioneiros. O que foi o continente americano, especialmente o seu norte, se não a esperança de ascensão econômica e social dos rejeitados da Europa, o espaço de uma elite que assim se tornou por esforço próprio, a exemplo, nos EUA, dos Kennedy? (tristes tempos esses em que os herdeiros têm que trabalhar! em solidariedade, ofereci silenciosamente e simbolicamente o último pedaço de carne da mesa a essa elite que perdeu um de seus direitos mais antigos e fundamentais: o de se coçar)
A conversa avança até a maior paixão da aniversariante depois de Rick Martin e da música: o catolicismo.
Parágrafo único – A este blog compete o dever de registrar tudo o que no futuro, durante o processo de canonização de Ingrid, possa constituir prova de que a candidata ao posto de santa da Igreja Católica Apostólica Romana, com sede no Vaticano, Itália, teve uma vida prévia de pecados, condição sine qua non para a constituição e, portanto, a comprovação da santidade pleiteada**.
“Eu não compro livros de conteúdo religioso” (pec. 1), ela me disse rindo assim que viu um dos dois livros que dei de presente, uma reunião de mensagens do papa João Paulo II. Aproveita um comentário de Marcus para defender a Igreja Católica, alegando que é onde geralmente nascem os movimentos sociais, mas deixa claro seu pé-atrás com a Teologia da Libertação (pec. 2), que é uma corrente marxista da Igreja, fazendo uma cara que eu aposto ter sido a mesma de Elvis quando este foi pela primeira vez à uma reunião da Cientologia com a mulher Priscila - na ocasião, segundo os biógrafos, um ultrajado Elvis teria dito “It´s too much brain without a heart!”. Também aproveita uma deixa minha para criticar a renovação carismática (pec. 3): “Na boa, esse negócio de ir à igreja pra ficar cantando ‘E Maria?!' 'E Maria, lálálálá...' 'E Jesus?!' 'E Jesus, pápápápá...’ não me agrada. Eu gosto da missa tradicional, da reflexão”, explica. É. Não dá pra botar fé numa corrente que tem em “Chatelo” Rossi um dos seus principais representantes. Ingrid também nos deixa saber que largou a cáritas (pec.4). Por último, mais uma vez contestou o slogan da Igreja Universal (pec. 5), “Pare de sofrer!”. “Isso é irreal, é inclusive anticristão. O sofrimento faz parte da vida”, defende. Amparada nessa opinião, presenteei-a também com um livro autobiográfico, escrito por um deficiente físico espanhol que viveu em orfanatos na ex-URSS. Quer maior sofrimento do que escrever um livro com um só dedo!? Um presente supercristão. Nada cristão (pec. 6) foi ela ter confessado que quase comprou “Memórias de minhas putas tristes”, do GGM, para mim no meu último aniversário, mas que preferiu comprá-lo para si mesma.
Na carona
Assisti “Dança no Gelo”, comi, ouvi Célia Cruz, comi mais ainda – uau! é difícil fazer dieta naquela casa! - e, quando vi, todo mundo havia ido embora, menos eu.
A família, então, me deu carona até o Cabula CXXXVII. Santas pessoas!
Levei o dia inteiro na rua, estava cansada ao chegar em casa, mas o saldo foi superpositivo: encontrei os amigos (mais de um, usa-se “os”), comi e bebi muito e bem, bati bom papo durante horas e economizei os dois vales transportes da volta. Pra quê melhor!?
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Top 5: Frases memoráveis de Ingrid:
1) “Norah Jones é a resposta à ‘mariahcareyzação’ da música americana nos anos 90”.
2) “André, você votou em Luiz Alberto em 2002? Agora fiquei curiosa”.
3) “Sempre sobra para o Espírito Santo fazer o trabalho sujo que o Pai e o Filho não querem assumir”.
4) “A fé madura é para poucos”.
5) “Exato”.
Top 5: O que os outros dizem dela:
1) “É uma santa!” (Cláudio)
2) “É uma santa!” (Alosa)
3) “É uma santa!” (Lília)
4) “Ingrid é o cão!” (Nadja)
5) “Ela em primeiro lugar!” (Riachão)
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* Leia-se “Estação Iguatemi”, que depois da invasão de ambulantes mais parece uma praça de guerra. Isso vem me fazendo considerar a possibilidade de andar por lá munida de granadas – só assim será possível afastar aquela gente toda da frente e visualizar algum ônibus chegando.
** São Paulo perseguia católicos e Santo Agostinho foi dos mais promíscuos. Precisamos inventar um passado maculado para nossa candidata a santa.
Na ilustração Linus, que sempre teve fé na Grande Abóbora.
Ei!!!
ResponderExcluirQue legal esse seu Blog! Também pensei em criar um, mas no momento ando muito sem tempo! Estou terminando a pós, trabalhando feito uma maluquinha... Mas quem sabe um dia eu consiga! Parabéns, Ju! Agora estou indo para a aula, mas depois quero olhar com calma o seu blog!
Beijão!!!
Ahhh, estarei voltando para SSA em breve! :-)
Baixaria, quem acha vive se perdendo, por isso agora vou me defendendo: não estive no aniversário da Santa porque paguei uma missa em homenagem a ela na Igreja da Santíssima Trindade, onde moradores de rua me tomaram dez reais e o disco novo do Caetano. Senti-me livre de obrigações, portanto. Na coletânea de frases de Ingrid falta uma clássica: "Aaaaaaaaaaiiiiiii!", ouvida por Lico em conversa telefônica, quando a nossa amiga estava na Chapada Diamantina em aventura idílica. Faltou também outra: "Numa boa: esses caras sempre vencem!" - sobre a escolha do Cardeal Ratzinger (copyright by Ilze Scamparini) para Papa. Guardo, em segredo, os mistérios da santidade de Ingrid, por que ela foi eleita por Deus para representá-lo na Terra. Como diria Jesus Cristo: "Ingrid tem o dedo mindinho que falta a Lula".
ResponderExcluirE mais. A timidez de Lico é tão fraudulenta quanto a de Chico Buarque. Ele é de cantar "Singin'in the rain" na Fonte da Praça da Sé. Sem guarda-chuva. De leve. Gene Kelly ao ver o guarda.
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