domingo, 22 de abril de 2007

A alma do outro

Eu não me chamo Silvia Poppovic nem Sônia Abrão, mas, confesso, não perco a oportunidade de chamar o especialista (risos). Achei lúcido à beça esse texto da Luft, publicado na Veja desta semana.

Beijo!

Ju


"No relacionamento amoroso, familiar ou amigo acredito que partilhar a vida com alguém que valha a pena é enriquecê-la. Permanecer numarelação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida"


"A alma do outro é uma floresta escura", disse o poeta Rainer Maria Rilke, meu único autor de cabeceira. A vida vai nos ensinando quanto isso é verdade. Pais e filhos, irmãos, amigos e amantes podem conviver décadas a fio, podem ter uma relação intensa, podem se divertir juntos e sofrer juntos, ter gostos parecidos ou complementares, ser interessantes uns para os outros, superar grandes conflitos – mas persiste o lado avesso, o atrás da máscara, que nunca se expõe nem se dissipa.
Nem todos os mal-entendidos, mágoas e brigas se dão porque somos maus, mas por problemas de comunicação.
Porque até a morte nos conheceremos pouco, porque não sabemos como agir. Se nem sei direito quem sou, como conhecer melhor o outro, meu pai, meu filho, meu parceiro, meu amigo – e como agir direito?
Neste momento escrevo, como já disse, um livro sobre o silêncio. Começou como um ensaio na linha de O Rio do Meio e Perdas & Ganhos, mas acabou se tornando um romance, em pleno processo de elaboração. Isso me faz refletir mais agudamente sobre a questão da comunicação e sua por vezes dramática dificuldade, pois nos mal-entendidos reside muito sofrimento desnecessário.
Amor e amizade transitam entre esses dois "eus" que se relacionam em harmonia e conflito: afeto, generosidade, atenção, cuidados, desejo de partilhamento ou de vida em comum, vontade de fazer e ser um bem, e de obter do outro o que para a gente é um bem, o complicado respeito ao espaço do outro, formam um campo de batalha e uma ponte. Pontes podem ser precárias, estradas têm buracos, caminhos escondem armadilhas inconscientes que preparamos para nossos próprios passos em direção do outro. O que está mergulhado no inconsciente é nosso maior tesouro e o mais insidioso perigo.
Pensar sobre a incomunicabilidade ou esse espaço dela em todos os relacionamentos significa pensar no silêncio: a palavra que devia ter sido pronunciada, mas ficou fechada na garganta e era hora de falar; o silêncio que não foi erguido no momento exato – e era o momento de calar.
Mas, como escrevi várias vezes, a gente não sabia. É a incomunicabilidade, não por maldade ou jogo de poder, mas por alienação ou simples impossibilidade. Anos depois poderá vir a cobrança: por que naquela hora você não disse isso? Ou: por que naquele momento você disse aquilo?
Relacionar-se é uma aventura, fonte de alegria e risco de desgosto. Na relação defrontam-se personalidades, dialogam neuroses, esgrimem sonhos e reina o desejo de manipular disfarçado de delicadeza, necessidade ou até carinho. Difícil? Difícil sem dúvida, mas sem essa viagem emocional a existência é um deserto sem miragens.
No relacionamento amoroso, familiar ou amigo acredito que partilhar a vida com alguém que valha a pena é enriquecê-la; permanecer numa relação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida. Entre fixar e romper, o conflito e o medo do erro.
Somos todos pobres humanos, somos todos frágeis e aflitos, todos precisamos amar e ser amados, mas às vezes laços inconscientes enredam nossos passos e fecham nosso coração. A balança tem de ser acionada: prevalecem conflitos ásperos e a hostilidade, ou a ternura e aqueles conflitos que ajudam a crescer e amar melhor, a se conhecer melhor e melhor enxergar o outro? O olhar precisa ser atento: mais coisas negativas ou mais gestos positivos? Mais alegria ou mais sofrimento? Mais esperança ou mais resignação?
Cabe a cada um de nós decidir, e isso exige auto-exame, avaliação. Posso dizer que sempre vale a pena, sobretudo vale a pena apostar quando ainda existe afeto e interesse, quando o outro continua sendo um desafio em lugar de um tédio, e quando, entre pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes, continua a disposição de descobrir mais e melhor quem é esse
outro, o que deseja, de que precisa, o que pode – o que lhe é possível fazer.
Em certas fases, é preciso matar a cada dia um leão; em outras, estamos num oásis. Não há receitas a não ser abertura, sinceridade, humildade que não é rebaixamento. Além do amor, naturalmente, mas esse às vezes é um luxo, como a alegria, que poucos se permitem.
Seja como for, com alguma sorte e boa vontade a alma do outro pode também ser a doce fonte da vida.

Lya Luft é escritora


segunda-feira, 2 de abril de 2007

Como detonar meio mundo (e se autopromover) em 8 respostas

Auto-retrato
Eumir Deodato

Eumir Deodato trabalhou com artistas consagrados como Frank Sinatra, Kool & the Gang e Björk. Às vésperas de embarcar de Nova York, onde mora, para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro, o maestro falou ao repórter Sérgio Martins sobre sua carreira e disparou farpas contra os ex-companheiros de bossa nova.

NOS ANOS 60, O SENHOR FOI TENTAR A SORTE NOS ESTADOS UNIDOS, JUNTAMENTE COM ARTISTAS COMO TOM JOBIM, JOÃO GILBERTO E LUIZ BONFÁ. ELES VOLTARAM, MAS O SENHOR FICOU E INVESTIU EM OUTROS GÊNEROS. ESTAVA CANSADO DA BOSSA NOVA?
O pessoal daquele período costuma dizer que foi um tremendo sucesso nos Estados Unidos. A verdade é que fizeram um punhado de shows para brasileiros expatriados e voltaram rapidinho para casa. Eu queria ficar aqui de fato, e portanto não podia tocar só bossa. Aprendi a ampliar meus horizontes musicais.

COMO FOI TRABALHAR COM FRANK SINATRA?
Ele era uma estrela e se cercava de um pessoal bem mal-encarado. Foi por preguiça que não gravou um disco inteiro com a obra de Tom Jobim. Não estudava as canções. Por isso, acabou registrando apenas cinco.

O SENHOR ACOMPANHA OS ARTISTAS DA BOSSA NOVA ELETRÔNICA, COMO BEBEL GILBERTO?
A bossa se popularizou tanto que hoje você depara com artistas de tango que se acham bossa-novistas. Entre os que fazem música eletrônica, não é muito diferente. Olhe, quase trabalhei com a Bebel num tributo ao Ennio Morricone. Mas levei três canos dela e agora só a chamo de Torre de Bebel. Tive de chamar Daniela Mercury às pressas para fazer o disco. Ela não conseguiu acertar o tom, e tive de usar um afinador eletrônico para consertar a voz dela.

NO COMEÇO DA CARREIRA O SENHOR TOCOU COM MAYSA, UMA CANTORA FAMOSA PELO GÊNIO FORTE. DAVA MEDO TRABALHAR COM ELA?
Sabe que não tive problemas? As pessoas que mais sofriam numa apresentação de Maysa eram aquelas que insistiam em conversar. Maysa jogava água nelas.

SÉRGIO MENDES É OUTRO BOSSA-NOVISTA DE PRIMEIRA HORA QUE DESENVOLVEU UMA CARREIRA AMERICANA. VOCÊS COSTUMAM CONVERSAR?
Não com freqüência. Sérgio demitiu uma banda inteira porque eles tiveram a ousadia de lhe pedir aumento. Eu gosto de grandes instrumentistas e pago a eles muito bem. Somos pessoas diferentes.

COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA À FRENTE DA BANDA KOOL & THE GANG?
Musicalmente, muito boa. O único problema é que o dono da gravadora deles era ligado à máfia. O filho do sujeito tinha problemas com drogas e eu morria de medo de ele ter uma overdose no meu estúdio. Eu ia acabar pagando o pato. Escapei na primeira oportunidade. O selo do Kool & the Gang se chamava Delightful ("Maravilhoso") Records. Para mim, era Pesadelo Records.

EXISTE ALGUM OUTRO PAÍS ONDE O SENHOR GOZE DE TANTO RESPEITO QUANTO NOS ESTADOS UNIDOS?
Sou adorado na Europa. Em Londres, o pessoal da velha-guarda leva meus discos para autografar – junto com os filhos, que também são fãs. Por incrível que pareça, também gostam de mim nas Filipinas. Eu me apresentei por lá em 1975, por causa de uma versão dançante que fiz da Ave Maria de Schubert. Quando voltei, anos depois, encontrei um monte de meninos batizados de Eumir ou Deodato.

NOS ANOS 90, O SENHOR FOI TRABALHAR NA BOLSA DE VALORES. POR QUÊ?
Eu havia me desiludido com a música, queria fazer algo diferente. Foi bom, mas o trabalho na bolsa exige muita disciplina – qualidade que eu não tenho. Também sofro da "síndrome do jogador". Ou seja, tinha dificuldade em parar na hora certa e por causa disso perdi um bom dinheiro.

Fonte: revista Veja, 04/04/2007

quinta-feira, 15 de março de 2007

Fama e narcisismo




Na falta do que dizer, vamos de novo de Contardo Calligaris!

Em uma "sociedade narcisista", a invisibilidade é mais intolerável que a prisão

NA CONVERSA leiga, "Fulano é narcisista" significa que ele adora se ver no espelho e nunca pensa nos outros.Na clínica, o sentido da expressão é diferente: o traço dominante da "personalidade narcisista" é a insegurança. Narcisista é quem está sempre se questionando: "O que os outros enxergam em mim? Será que gostam do que vêem?".
Em ambos os casos, o narcisista se preocupa com sua imagem. Mas, na conversa leiga, ele seria apaixonado por ela (como o Narciso do mito), enquanto, segundo a clínica, ele seria dramaticamente atormentado pelo sentimento de que sua imagem depende do olhar dos outros. De fato, a clínica tem razão: no espelho, enxergamos sempre e apenas o que os outros vêem (ou o que imaginamos que eles vejam). O mesmo mal-entendido aparece quando a gente constata que vive numa "sociedade narcisista".
Na conversa leiga, essa constatação soa como uma queixa moral: estaríamos vivendo no mundo do "cada um por si". A clínica sugere o contrário: numa sociedade narcisista, cada um depende excessivamente dos outros. Somos desprovidos de essência: sou filho SE meus pais me amam, sou pai SE meus filhos gostam de mim, sou psicanalista SE pacientes e colegas me reconhecem, sou colunista SE você agüentou ler até aqui. O espelho que nos define não é o de Narciso, é o da bruxa de Branca de Neve, um espelho que interrogamos, ansiosos.
Ora, recentemente, assisti, fascinado, ao processo de seleção da sexta temporada do programa "American Idol" (no canal Sony). É um programa parecido com "Fama", da Globo de dois ou três anos atrás, e com "Ídolos", do SBT. Trata-se de descobrir novos cantores e cantoras.
O vencedor é eleito pelo público da TV, mas o que me cativou foi a longa fase inicial, em que os finalistas são selecionados por um júri, entre milhares de jovens concorrentes.
Todos os candidatos parecem entusiasticamente certos de que serão o futuro ídolo, mas a audição da grandíssima maioria é propriamente constrangedora.
No mesmo canal, há outro programa parecido: "American Inventor", em que desfilam inventores convencidos de que seu achado mudará o mundo, mesmo que se trate da máquina acariciadora de cachorro para dono preguiçoso (uma das invenções propostas).
O que leva milhares de sujeitos a encarar uma espécie de humilhação pública? Será que eles são narcisistas à moda da conversa leiga, enamorados de si mesmos a ponto de perder toda autocrítica? Por algum milagre do amor materno, eles guardariam uma imagem de si positiva e imperturbável: "Deixe o mundo falar, pois eu fui, sou e sempre serei o ídolo da minha mãe" (alguns concorrentes, aliás, compareciam acompanhados por uma mãe embevecida).
É possível. Mas, nas palavras de muitos candidatos entrevistados, aparecia outra coisa: uma vontade dolorosa de despertar um olhar de reconhecimento não só no público, mas nos seus familiares, ausentes e indiferentes. Era como se eles estivessem dispostos a qualquer coisa para deixar, enfim, de ser invisíveis: "Riam de mim, mas ao menos me vejam". Pode parecer paradoxal que alguém tente chamar a atenção (do pai, da mãe, da irmã e do mundo) expondo-se ao ridículo e ao fracasso.
Mas, aparentemente, acontece que escárnio e zombaria são um preço aceitável por um (triste) momento de fama.
Uma analogia talvez nos ajude a entender. As estatísticas dizem que há mais jovens que adultos delinqüentes. Justificação tradicional (além da "testosterona" da adolescência): os jovens andam em grupo.
Portanto, é freqüente, no caso deles, que haja mais de um réu por crime.
Certo. Mas também tudo indica que os jovens delinqüentes são presos mais facilmente que os adultos. Não é imperícia: parece que, de uma certa forma, eles se deixam prender, como se seu gesto transgressor tivesse como finalidade última o encontro com a polícia e o juiz. Por quê?
Para a dramática insegurança do narcisismo (aqui no sentido clínico), uma condenação ou um fracasso humilhante apresentam uma vantagem parecida: ambos são preferíveis ao silêncio do outro. Num mundo em que a gente só existe pelo olhar alheio, a invisibilidade é mais intolerável do que o escárnio ou a prisão.
PS.: Na semana retrasada, comentei o filme "Pecados Íntimos". Li, nestes dias, o livro no qual ele se inspira, "Criancinhas", de Tom Perrotta (Objetiva): é tão tocante e forte quanto o filme, se não mais.

Legendas:
Foto 1: William Hung, estudante de engenharia civil da Califórnia, promoveu um dos momentos mais humilhantes do American Idol
interpretando "She Bangs", de Rick Martin. O bizarro cover lhe rendeu a gravação de 3 discos.
Foto 2: Big Brother: a intimidade dilacerada pela mídia em troca de 15 minutos de fama.

domingo, 11 de março de 2007

É possível estar mal e pensar direito?


São Paulo, quinta-feira, 29 de setembro de 2005
CONTARDO CALLIGARIS


É possível estar mal e pensar direito?
Uma das questões mais interessantes da psicologia das últimas décadas é a seguinte: em que medida o sofrimento psíquico de um sujeito deve ser relacionado com um defeito de sua percepção e de seu entendimento do mundo? Obviamente, a pergunta é relevante só quando o sofrimento é uma condição severa e duradoura. Tomemos, por exemplo, a depressão, um estado patológico que, em princípio, não nos torna delirantes nem alucinados. "Ser" depressivo (diferentemente de "estar" deprimido) significa passar, ao longo da vida, por vários episódios de depressão profunda e sofrer de uma constante dificuldade em encontrar a vontade de viver.
Pois bem, será que ser depressivo implica (como causa ou como efeito) um erro de percepção e de pensamento? Qualquer terapeuta gostaria que fosse assim: bastaria corrigir o erro e, com isso, quem sabe a depressão fosse "curada". Se você é depressivo e enxerga o mundo como a brincadeira sádica de um deus maléfico, talvez você seja vítima dessa visão "errada". Ao corrigi-la com as palavras certas, a gente transformaria seu humor de vez, faria de você outra pessoa. Mas sobra a pergunta: será mesmo que, por você ser depressivo, sua percepção do mundo está errada?
Em 1979, foi publicada uma experiência (Abramson e Alloy, "Journal of Experimental Psychology", vol. 108, nº 4), na qual dois grupos de sujeitos (os deprimidos e os "saudáveis") deviam descobrir se suas ações tinham ou não alguma influência sobre uma lâmpada que, de fato, se acendia e se apagava ao acaso. Os não-deprimidos, apesar dos desacertos, concluíram que suas ações eram eficazes. Os deprimidos concluíram (corretamente) que suas ações não tinham eficácia nenhuma e que não havia como fazer a cabeça da maldita lâmpada.
Para alguns críticos, a experiência demonstrava apenas o pessimismo dos deprimidos. Mas resta que, no caso, a conclusão dos deprimidos foi certeira; portanto caberia salientar o extravagante otimismo que extraviou os não-deprimidos e constatar o realismo dos deprimidos. Aliás, a questão levantada pela experiência de 79 entrou para a história da psicologia como problema do "realismo depressivo" (há novas experiências publicadas no recente vol. 134 do "Journal of Experimental Psychology").
O interesse desse debate não é só clínico. Acaba de sair um livro imperdível, "Lincoln's Melancholy: How Depression Challenged a President and Fueled His Greatness" (a melancolia de Lincoln: como a depressão desafiou um presidente e alimentou sua grandeza), de Joshua Wolf Shenk. Shenk se baseia nos relatos dos que foram próximos de Abraham Lincoln para confirmar que ele foi clinicamente deprimido durante a vida toda. Logo, o autor se pergunta se essa depressão grave e crônica constituiu um impedimento ou se, ao contrário, foi uma vantagem na conduta do presidente americano durante a Guerra de Secessão.
Ora, Shenk argumenta de maneira convincente que a depressão de Lincoln foi responsável por suas qualidades de estadista. A seguir, alguns exemplos: 1) A depressão clínica é sempre acompanhada por um intenso processo de pensamento: reavaliação contínua da realidade, dúvidas sobre a ação certa, exame constante de consciência e por aí vai. Esse processo leva o sujeito a um conhecimento especial das contradições de sua própria alma e da dos outros. Na vida pública, isso permite negociar sem desprezo pela parte adversa. 2) O deprimido que ultrapassa suas crises sem sucumbir tem, em regra, a coragem e a capacidade de encontrar motivações sem recorrer a grandes princípios (o que pediria um entusiasmo que é impossível na depressão). Lincoln, embora convencido de que a abolição da escravatura fosse moralmente correta, nunca invocou a certeza de que Deus estaria do seu lado, mas alegava (inclusive por escrito) que, quanto a Deus, cada lado podia considerá-lo seu aliado. É uma outra qualidade crucial para a vida pública, a não ser que a gente prefira entregar as rédeas do governo a iluminados e fundamentalistas. 3) A adversidade, para o deprimido, é, por assim dizer, natural (nada existe sem antagonismo). Deparar-se com oposição e derrota é, para ele, uma travessia normal. O resultado é a perseverança.
Recentemente, uma psiquiatra (Kay Redfield Jamison, "Touched with Fire: Manic Depressive Illness and the Artistic Temperament", tocados pelo fogo: a doença maníaco-depressiva e o temperamento artístico) mostrou que uma cura apressada da depressão nos privaria de inúmeros talentos artísticos e literários. Shenk estende o mesmo princípio a uma figura política; ele mostra que, no caso de Lincoln, a depressão não foi "uma falha de caráter que desqualificaria a liderança de um sujeito". Longe de comprometer o pensamento e as decisões do presidente, ela foi o traço de caráter que fez dele o estadista lúcido e necessário num momento sombrio da história de seu país.
Em suma, muitas aventuras dolorosas da mente são partes da subjetividade de quem sofre e, às vezes, partes irrenunciáveis, cuja "cura" deixaria o mundo mais pobre e mais estúpido.

* Imagem extraída do site Porto do Céu

segunda-feira, 5 de março de 2007

A loira de Chico

A vicking da foto acima é Albinatuxa (Mari Albinati, a quem eu chamo pelo sobrenome, que depois do corte de cabelo à la Rainha dos Baixinhos, adaptei para o presente apelido). Esse click com Chico Buarque é fruto de uma de suas inúmeras viagens ao Rio de Janeiro para tratar de negócios com sua colega de profissão e fã confessa, Maria Clara Diniz.
Aliás, se você está com seu ingresso da turnê "Carioca", de Chico, no bolso, provavelmente deve tal dádiva não só a Deus e a Caetano - a quem devemos tudo na Bahia -, mas a nossa competentíssima produtora cultural. Quer saber como? Acompanhe mais uma fantástica aventura de Albinatíssima.

Aviso: A história a seguir é baseada em fatos reais, e o conteúdo pode ser impróprio para quem ainda ruboriza.

Há cerca de dois anos, Albinati viajou ao Rio em companhia do seu amado-amante, A Voz de Brotas. Fã incondicional do autor de "A banda", a dupla baiana deu o ar da graça, como quem não queria nada (e o pior, como quem não sabia de nada), no Politheama, local onde Chico Buarque de Holanda tradicionalmente joga futebol com os amigos.

POLITHEAMA - DIA - INTERNA
Albinati: Peraí, o senhor não é aquele cantor, o Chico Buarque de Holanda?... Você é aquele que ganhou o festival da Record de 1966 com "A Banda", é autor de "Olhos nos olhos", de "Construção", do álbum homônimo de 1971, e que ficou exilado na Itália, foi marido da Marieta Severo, é filho do Sérgio Buarque e escreveu aquele livro "Benjamin", que inspirou aquele filme com a Cléo Pires, né?... Desculpe, mas é que eu não acompanho muito o seu trabalho...
Chico (sorrindo timidamente): É. Deu pra perceber... Pois é, sou eu mesmo.
Albinati: Oh!... O senhor por aqui! Que surpresa!...
A Voz de Brotas (dando tapinhas nas costas de Chico): Poxa, Mariana, veja que feliz coincidência: Nós viemos de Salvador até o Rio, cruzamos a cidade para vermos uma legitima pelada carioca, e tivemos a felicidade de encontrar por acaso o Chico Buarque!... O Faustão tem razão: o destino é realmente uma caixinha de surpresas!
A Voz de Brotas: O senhor se incomodaria de tirar uma foto?
Chico: Não, claro.
(Foto tirada...)
Albinati: Chico, não querendo abusar, mas você sabe onde podemos pegar um táxi para a Zona Sul?
Chico: Bem, eu vou pra lá...
Albinati: Ótimo! - e vira-se pra A Voz - Preto, se demo de bem: o Chico Buarque vai dar carona pra gente!

CARRO DE CBH - DIA - EXTERNA
(Conversa vai, conversa vem, e Albinati resolve fazer a pergunta que não queria calar, aproveitando-se da cara de gente inocente - aonde?!... - e da voz mansa made in Minas Gerais)
Albinati: Chico, posso te fazer uma pergunta?
Chico: Claro, Baiana.
Albinati: É verdade que você não faz show na Bahia por causa da grande quantidade de carteirinhas de estudante?
A Voz de Brotas (cantarolando baixinho): Vaaaai passar... Esse constrangimento que sinto agora vai passaaaar!...
Chico: É isso que dizem de mim por lá?
Albinati: É... Eu ouvi dizer... Não sei...
Chico: Bem, na verdade o que complica é que em Salvador só há um espaço para se apresentar, que é o TCA. (Pausa) Mas dizem mesmo isso de mim na Bahia?

E foi assim, caros amigos, que Chico Buarque resolveu incluir a capital baiana na rota de shows de "Carioca". Não fosse nossa amiga ter mexido com os brios do ex de Marieta Severo, talvez estivéssemos a ver navios.

ALBINATINHA, FELIZ ANIVERSÁRIO!!!
(O3/03/198*)


***

E dia de show de MPB no TCA é dia de encontrar Marlon Mar! Siiim! Como não!?... Já estou até imaginando o nosso encontro:
Passo 1: Marlon me vê e aperta os olhos, tentando focar a visão. Ele sabe que sou ex-colega da FACOM mas nem faz idéia de qual é o meu nome. Caminha até onde estou.
Passo 2: Ele segura os meus ombros com as duas mãos, aperta novamente os olhos em sinal de contentamento pelo nosso encontro fortuito, abre o sorriso mais simpático da face da Terra e,
como mentiras sinceras nos interessam, exclama "Pô, bicho! Que booom lhe ver!..."
Passo 3: Neste momento, apesar da certeza de que ele nunca soube nem saberá com quem exatamente está conversando, vou me emocionar com o cumprimento supercarinhoso de Marlon e sentir as pipocas imaginárias emitidas por ele caindo sobre a minha cabeça. Considerando-me abençoada por tão terna criatura, vou abrir um sorriso, perguntar como vai sua vida, sorrir quando disser que está tudo bem, achar graça do sincero e imenso entusiasmo dele pelas figuras da MPB e, por fim, vou desejar-lhe, de coração, um bom show.

Esse é o Marlon!... Que figura! hehe...

domingo, 4 de março de 2007

Javier, Javier




Dia 1º de março foi aniversário de Javier Bardem, ator espanhol de 38 anos, astro de filmes como "Antes do anoitecer", "Jamón, Jamón" e "Mar adentro". Feliz cumpleaños!
Certos artistas me arrastam para o cinema, e Javier é um deles. Há dois anos, fiz meu pai cruzar Brasília inteira só porque queria ver "Mar adentro" - e olha que esse sim, Cláudio, não dá carona nem a pneu! É que era a semana do meu aniversário, eu tinha esse "bônus" pra torrar...

JB é um grande ator e tem uma aparência fantástica, cuja melhor definição que já ouvi foi essa: "A cara de boxeador no corpo de um touro". Bardem só tem um defeito (que não é físico nem artístico, gracias): é muito amigo de Caetano e Paula Lavigne. hehe...

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Lâminas da verdade (sobre um camarote no circuito Barra-Ondina)


Vamos dar continuidade, neste blog, ao resumo da folia. Recebi da minha piolhinha Nandy - drama: macaco tem pulga ou piolho? - a resenha do que rolou no camarote da Contigo! (pois é, antes da edição de Carnaval sair nas bancas, saiba de tudo em primeiríssima mão aqui, no Monkey´s Pee!). Faltou um pouco mais de "pimenta" (quem é mal-educado, quem é gentil, quem tem celulite - além da ex de Latino -, quem é bonito de verdade, quem é "ilusão de ótica", quem mente a altura na imprensa e é baixinho pessoalmente, quem bebeu demais e deu vexame e etc... tá vendo por que esse camarote ne-ces-si-ta-va da minha presença?! é todo um conhecimento técnico que não é adquirido da noite para o dia...). Mas o que você, caro leitor, poderá conferir, a seguir, é um relato franco e direto, algo inédito no jornalismo baiano. "Prepare o seu coração para as coisas que Nandy vai contar"... É revelador! É chocante! "A casa vai cair!" - como diria Zé Bim.
Antes de irmos ao que interessa, quero registrar aqui a minha imensa - e por que não dizer intensa? - mágoa para com Donaldson. Por que ninguém me oferece nada? Eu moro longe, mas também poderia chegar até o circuito da folia, viu! Itapuã não é uma cidade do Sul do México... Don, só porque ela é chic, loira e puede, tem dinheiro e um decote... Como pôde?! Você me esnobou! (copyright by Mamonas Assassinas, adaptation by Juliana-News) Ó paí ó, Alosa!...

A seguir, invada a la boate com Nandy Christal!!!


Bravata! Bravata! Bravata!
De “Baixaria”, só as típicas do Carnaval e de um camarote suuuuuuuuuper sem noção como o da Contigo! (a ponto de expulsar quase todos os convidados da ala vip para dar lugar a Caetano Veloso). Portanto, registro a primeira “barrigada” do Xixi de Macaco: tal qual em seu aniversário, nem de longe vi a sombra de “Craudio”, o repórter baixaria, no camarote. Aliás, não vi nada nesse Carnaval, a não ser elos, pingentes e sementes de açaí...Ahh, claro, vi as celebridades!...

De frente com as estrelas!
Todos os globais e “quase” globais passaram pelo stand da Gillette (sobre isso, mereço um "mea-culpa" num tópico à parte). Tirando Gianecchini, Cléo Pires e Júnior Lima - o que talvez Freud ou Juliana explique -, o resto esteve tête-à-tête comigo - sorry, periferia!
Entre os que me vêm à lembrança: passou por lá mais da metade do elenco de “Amazônia”, uns menininhos de “Malhação” e de “Alta Estação” (pra quem não sabe, essa é a cópia feita pela Record), os músicos de Papas da Língua, Carla Perez, Sharon Menezes, Kelly Key, Flávia Alessandra, Otaviano Costa, Paulinho Vilhena, Samara Felippo, Cissa Guimarães, Mônica Carvalho, Juliana Baroni, Rafaela Mandelli, Lázaro Ramos, Davi Moraes, Zezé de Camargo, Nívea Stelmann, Miguel Thiré... Sem falar em Caetano Veloso - a polêmica do camarote. E até o “Bloco dos Fracassados” marcou presença, capitaneado por Sidney Magal, Emmanuele Araújo e Sarajane (a disputa estava grande!).
Não poderia deixar de registrar também, em homenagem aos nossos colegas Don e Alosa (sobre esse último, tenho minhas dúvidas, pois tamanha é a sua agilidade que nunca sei quem assina sua carteira no momento), a presença “mais festejada” da última noite de Carnaval: o prefeito João Henrique. Não é que ele compareceu ao camarote Contigo! com a primeira dama do município??! A pergunta é: como ele ainda apareceu por lá depois de ter embargado o mesmo camarote por três vezes?

Matando a cobra, mostrando o pau!
Aproveito para mandar umas fotos comprobatórias para quem, como Juliana, só funciona na base do São Tomé. Na primeira, Otaviano visita o pequeno inferninho (digo pelo calor... e que calor!!!) onde o “quadrado mágico” (Mônica, Taís, Malu e eu) fez muuuuitos “truques” para customizar centenas de colares por dia, depois de uma semana produzindo broches de flor e patuás para um povo que adora levar lembrança da Bahia pro gato, pro cachorro, pro papagaio e pro periquito... No final, já estávamos no ritmo de Charles Chaplin em “Tempos Modernos”.
Na segunda foto, o garoto propaganda da Gillette, Paulinho Vilhena, visita o stand na companhia da nova namorada - só não me pergunte o nome da pessoa! Quem estava lá (e garanto que nem as pulguinhas do Leão Lobo viram isso) não pôde deixar de reparar no botox e na calça “santrocoxa” que a criatura estava usando... Que salto de Sandy para isso, hein, Paulo Vilhena!...

Essa vai para o trono ou não vai?!
Já que estamos citando o Leão, vamos aos mexericos típicos de suas pulguinhas: o que são aquelas celulites em Kelly Key??? (Para não fugir ao estilo bloguiano de Juliana...) “Traaaaaa, traaaaaaaa, tá toda metralhada!”... Agora o troféu revelação. Esse, sem dúvida, vai para Zilú Camargo (mulher de Zezé e mãe de Wanessa). Acho que colocam tanto agouro na mulher, tanto olho gordo... Mas depois da experiência de vê-la pessoalmente, de frente para uma luz que não escondia nem o respirar dos poros e muito menos os resquícios das plásticas, cheguei à conclusão da má vontade de seus críticos... Ela é bem melhor pessoalmente!

Cada bijú, um flash!
Acho que fui a única jornalista das "citações julianas” ("Nos batuques da folia") que não estava a serviço, digamos assim, do jornalismo no Carnaval. Don, como bom amigo, bem que tentou me doar um crachá de imprensa pra cobrir a folia em algum ponto da cidade. Luciana Silva me passou todos os contatos da equipe “Eeeeeeu tô na Baaaaand”. Elen me deu todas as dicas de ângulos e entonações necessários na TV... Mas não foi dessa vez. Se serve de consolo para meus amigos desempregados ou subempregados, acreditem, tá mais vantajoso fazer bijuteria pra Gillette! Sem contar que, em anos a fio como jornalista, talvez nunca fizesse o mesmo sucesso (me perdoem a falta de modéstia aqui, mas foram muitos flashes!). Agora, passado o Carnaval, só me resta recuperar a credibilidade jornalística.

Sérgio Buarque De Holanda fala de Chico


Depoimento originalmente escrito para o nº1 da revista "Pais e Filhos", em setembro de 1968

A imagem que o público fixou de meu filho não é correta. Para o público, Chico é tímido (antes de tudo, tímido), bonzinho, retraído. Nada disso. Pelo menos em família e com os amigos, é completamente diferente, um rapaz brincalhão, extrovertido, bem para fora. Quando ele aparece em público, torna-se diferente. Talvez seja o medo de parecer ridículo. Mas podem crer, ele não é tímido, nem bonzinho. É, sem dúvida, uma boa pessoa. Mas não bonzinho, no sentido em que esta palavra é interpretada.
Quando criança, jamais foi um rebelde. Posso assegurar que se tratava de uma criança normal. Procurava sempre ser independente. E essa independência ele afirmava, procurando fazer tudo o que faziam os irmãos mais velhos. Nem um "amor de criança", nem um "enfant terrible". Normal. Não era nem ligado ao pai nem à mãe. Dava-se bem com todos. Com as irmãs, tias e avós. Quando viajamos para a Itália (nesse tempo tinha 8 anos), deixou para avó um bilhete: "Avó, vou para Itália. Quando eu voltar, provavelmente a senhora estará morta. Mas não se preocupe. Eu vou me tornar um cantor de rádio. É só a senhora ligar o rádio do céu que vai me escutar".
Desde menino, sempre se interessou por música e futebol. Jogo, não perdia uma irradiação. Seus ídolos eram Telê, do Fluminense, e Pagão, do Santos. Na Itália, torcia pelo Genoa. Da música popular, seus ídolos eram Ismael Silva, Caymmi e Ataulfo Alves. Mas tarde, João Gilberto, de quem procurava imitar o estilo. Não acredito que Noel exerça influência sobre Chico. A maior semelhança entre os dois é a temática: urbana. Caymmi, Ataulfo e Ismael marcaram mais que Noel.
Chico também não é um compositor de classe média, como afirmam por aí. Não há dúvida, Noel e Chico também se assemelham um pouco, porque ambos enfocam temas urbanos. Nada mais. Aliás, há no Brasil uma mania de Noel! Qualquer compositor que surge é imediatamente comparado com o grande criador carioca. Creio que há um pouco de exagero em tudo isso. Quando surgiu a bossa-nova, Chico se encontrou com ela. Apreciava muito João Gilberto e ouvia-o seguidas vezes. Vinícius, muito amigo da família, aparecia sempre em festas e Chico ficava a ouvi-lo, com grande admiração.
Desde cedo, Chico já tinha namorada. Sempre foi muito vivo e alegre. Jogava futebol nas ruas, como todos os garotos de sua idade. Quanto aos estudos, dedicava-se a eles principalmente às vésperas de exame. Estudava duas ou três horas seguidas, depois cansava e ia se divertir. Em 1962, quando terminou o curso científico, foi orador da turma, provocando muitas risadas com seu discurso cheio de humor.
O sucesso não o mudou essencialmente, chateia-o um pouco, apenas. Hoje, não pode sair às ruas sem que lhe venham pedir autógrafos. Para ir à praia, há dificuldades, só em São Conrado. Bem longe. Continua fiel aos amigos, embora não tenha muito tempo para se dedicar a eles. Assim que chega a são Paulo, telefona para todos, organiza noitada com eles. Chico sempre viveu em bando, com muitos amigos, uma verdadeira turma. Sua formação é, sem dúvida, paulista. Nasceu no Rio, mas quando completou 2 anos, mudamos para São Paulo. Aqui, passou toda sua infância.
Preferiu fazer o científico porque achava que o curso clássico era coisa de mulher. Dado momento, escolheu um ramo bem aproximado do artístico: arquitetura. Ficava em casa criando cidades imaginárias. Todas tinham uma fonte no meio da praça: lembrança das fontes de Roma, onde moramos algum tempo.Chico, em vez de começar a falar, cantou.
Desde que tentou se expressar foi através da música. Mas tarde, ficava com as irmãs aí pela sala, inventando música. Dizia que já que não conhecia de cor música de outros compositores, era obrigado a inventar aspróprias. O sucesso veio de repente, sem que ninguém esperasse. Recebi a notícia de que Chico tinha ganho o Festival de Música Popular Brasileira com "A Banda", quando estava em Nova York. Um jornal norte-americano publicou a notícia. Claro que me senti muito orgulhoso. Cheguei à conclusão - o que uma revista publicou na época - de que, antes, ele era meu filho. E depois do festival eu passei a ser o pai dele. Não há posição melhor. Têm surgido boatos por aí, de que eu componho as músicas para ele. Mas, meu Deus, quem sou eu para ter tanto talento? Se eu soubesse escrever músicas como ele, há muito tempo não seria eu mesmo, mas Chico Buarque de Holanda. São boatos sem fundamentos, como muitos que vão por aí. Como essas notícias que circulam, afirmando coisas que jamais afirmamos. Um jornal carioca publicou que, após ver a peça "Roda Viva", eu tinha dito: "eu sabia que havia tudo isso aí dentro do meu filho". A frase talvez pudesse ter sido dita por mim, mas que não disse, não disse.
Das suas músicas todas, gosto mais de "A Banda", "Pedro Pedreiro", "Roda Viva" e "Carolina". Nunca me esquecerei do dia em ouvi "A Banda" pela primeira vez, em Nova York, na casa de um amigo. Foi uma grande emoção. Não obstante todo o sucesso, o qual não lhe provoca muito prazer, é bem capaz de Chico largar tudo isso e partir para uma outra coisa qualquer, bem diferente. Ele é bem capaz disso.
Muito inquieto. Muito inteligente. Sempre gostou muito de ler. Guimarães Rosa é um de seus autores preferidos. Quando fez "Pedro Pedreiro", inventou uma palavra: penseiro. Talvez inspirado em Guimarães Rosa, que também era dado a inventar palavras. Tolstoi e Dostoiévski também eram seus favoritos. Assim como Kafka. Em geral, ele ia lendo tudo o que caía em suas mãos.
A música é responsável por ele ter abandonado o curso de arquitetura, decisão que tomou sozinho. O sucesso abriu uma impossibilidade de estudar. Excesso de compromissos, solicitações. Creio que, na música, ele se realiza mais, se torna muito mais feliz. É preferível um compositor realizado, que um arquiteto frustado, como todo mundo sabe. Quando vai compor, geralmente fica isolado, no quarto, sozinho. A música e a letra sempre nascem juntas, uma ligada à outra, indissoluvelmente. Encontrou grande dificuldade em musicar "Morte e Vida Severina", porque a letra não era sua. Desde que aprendeu a tocar violão, com sua irmã Heloisa, hoje casada com João Gilberto e morando em Nova York, nunca mais deixou de compor.
Sua adolescência foi normal, sem nenhum conflito especial. Posso considerá-lo um rapaz feliz. Suas primeiras composições falavam de amor. Mais tarde, quando ingressou na faculdade, passou a fazer música de participação, sendo que a primeira foi "Pedro Pedreiro". A família ficou um pouco tonta com o sucesso tão fulminante, tão rápido. Mas já nos acostumamos. Chico é que não se habituou a ele. Ficou muito contente de ter ido a Paris, porque ninguém o conhecia por lá. Talvez o sucesso tenha provocado uma espécie de defesa, tornando-o um pouco retraído.
De fato, meu filho não é tímido. É bem diferente a imagem que temos dele. Trata-se de uma pessoa normal, alegre, sem problemas graves de personalidade. Eu sei o que eu estou falando. Sou seu pai há 23 anos.

No bloco do Chico

Carnaval chegando ao fim, hora de voltar à vida normal...
Aliás, um protesto antes de dizer a quê este post veio: Sou mil vezes a música do Motumbá ("Bororó") que a do Asa de Águia ("Quebra aê")! Fiquei decepcionada porque perdeu o título de música do Carnaval 2007 (sinceramente!)... Tanto que interrompi a concentração espiritual da minha CTS (Consultora para Temas Sortidos), que se prepara para receber cinzas na testa na Paróquia do IAPI nesta quarta-feira, e levei a minha indignação ao seu conhecimento. Ela sabiamente concordou comigo: "Exato. O merengue do Motumbá é muito melhor". Olha, houve fraude. Ó paí ó, Alosa!... Neste caso, te apóio a chiar, em alto e bom som, um "Só porque Alexandre é preto!...". "Cachaça" também foi vítima de racismo, e poucos tiveram a sensibilidade - e quiçá a boa vontade - de viajar na poesia do refrão. Se fosse música de branco...
Por falar na CTS, ela está magoadíssima com o esquecimento sofrido pelo seu amigo Riachão neste Carnaval (ele é - ou melhor, seria - o homenageado de 2007):
- Na boa, a culpa é de Ze Bim (repórter trash da igualmente trash TV Aratu, que é filiada da trash das trashes, SBT) que acabou roubando a cena! - responsabiliza.
(Alosa, tá vendo aí? Este blog é feito de você e pra você: em três parágrafos, te dei de bandeja três casos de racismo entre artistas baianos - e, atenção, no caso de Zé Bim, vai ter que modificar para "Só porque ele é menos preto!...")

Luxo Quero elogiar o apresentador da TV Bahia, Casemiro Neto. Além de ter (finalmente) acertado o tom de loiro nos cabelos, Casemiro está visivelmente de bem com a vida, em paz, com a pele boa... CN, o povo quer saber: qual é o "pente" que te "penteia" ultimamente?
Lixo Ninguém mais (pelo menos eu) agüentava Carla Perez falando grosso e chamando todos os artistas que passavam no circuito de "irreverente" - Bel Marques "irreverente"?! - na transmissão diurna da Band. Isso é mais uma prova de que a campanha do desarmamento foi um engodo. Dicionário, na mão de brown, também pode ser arma!

***

Minha folia não é de fevereiro mas de março. Dia 16, às 21 horas, estarei na fila Z1000 do TCA para ver o segundo dia da turnê Carioca, de Chico Buarque, em Salvador. Olha, eu estava sabendo que ele ia passar por aqui faz um tempão - não sabia quando -, mas conseguir comprar o ingresso foi coisa de Deus!
Primeiro porque fiquei sabendo quando, acidentalmente, li uma parte do jornal que eu nunca leio (quase todos os ingressos se esgotaram no primeiro dia de bilheteria, e eu li o jornal na véspera, à noite). Segundo, excepcionalmente não estava com a conta zerada. Terceiro - e mais excepcional ainda -, não enfartei depois de ter sacado o valor do ingresso. Sobre isso, claro, no começo, foi como aquele trecho da canção de Alexandre Pires ("Tá doendo, sim/Tá doendo em miiiiim"), mas, em situações como essa, o segredo para preservar a saúde é não tirar o extrato/saldo bancário, nem antes nem depois.
Acho que o que aliviou a minha consciência foi a convicção de que Chico nunca mais fará um show aqui. É oportunidade única. Ponto. Também não queria me sentir responsável por uma possível morte de CBH. Já chega os Mamonas Assassinas e Cássia Eller. Nunca tinha ido ao show desses artistas. Quase fui quando os dois estiveram aqui pela última vez e desisti dizendo que no próximo iria. Logo em seguida, eles morreram... Mas fica frio, Chico! Dessa vez, vou estar lá!

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Elvis - eternamente Rei





Com um mês e dez dias de atraso, posto aqui minha pequena homenagem ao eterno rei do rock, Elvis Presley. "The King" é um affair antigo, dos tempos da Sessão da Tarde* (risos). Não só a beleza, o charme e o raro talento vocal me impressionam em Elvis. Ele foi - e até hoje ninguém desmentiu isso - o último dos simplórios** e o primeiro dos grandes no show business mundial.
Sempre tive uma queda pelos "fracos e oprimidos", e Elvis me remete um pouco a um dos meus personagens favoritos da literatura, o Zé do Burro de O pagador de promessas, de Dias Gomes. O Zé só queria pagar uma promessa e um circo inteiro de gente aproveitadora se formou em torno dele. Elvis só queria cantar...
O menino é o pai do homem - A vida do rei do rock se divide em antes e depois da morte da mãe, Gladys Love Presley, em agosto de 1958. Para entender a profundidade e a extensão dessa perda, é preciso saber que a mãe era o eixo da vida de Elvis, e isso desde o berço. Na infância do cantor, um apenas podia contar com o outro.
Elvis Aaron Presley*** nasceu em 08 de janeiro**** de 1935, no Mississipi. Seu irmão gêmeo, Jessie Garon, não sobreviveu. Dois anos mais tarde, o pai, Vernon Elvis Presley, foi preso por estelionato e, como não bastasse, a família foi despejada de onde morava, sendo obrigada a se mudar para a casa dos avós paternos de Elvis. Na tentativa de sanar as carências afetivas e materiais, Gladys acabou superprotegendo o filho único. A forte dependência permaneceria até (e após) a morte da matriarca.
Primeiros passos - O pai sai da prisão quatro anos mais tarde, e dá a Elvis o seu primeiro violão, por volta dos 11 anos de idade.
A família se muda para Memphis, Tennessee, em 1948. É lá que os Presleys se estabelecem definitivamente. Nessa cidade está a famosa mansão de Elvis, Graceland, visitada por milhares de fãs após a sua morte.
Até os 18 anos, quando gravou seu primeiro single num estúdio - na verdade era um presente de aniversário para dona Gladys***** - e, a partir daí, teve o seu talento descoberto pelo dono do estabelecimento, Elvis viveu de modo muito simples. Como todo adolescente americano, ganhava um dinheiro extra fazendo alguns bicos modestos como lanterninha de cinema e motorista de caminhão******.
O mais negro dos brancos - Nascido e criado na negra, pobre, religiosa e racista região Sul dos Estados Unidos, Elvis foi sempre orientado pelos pais para ser respeitoso com todas as pessoas, quer fossem negras, homossexuais, pobres, etc. Essa educação inusitada para a época criou um jovem bastante "esquisito": uma bela aparência de branco, um visual de negro, um entusiasmo pela música popular digno de um "transviado" e as boas maneiras de um coroinha de igreja.
Seu primeiro chefe e sua primeira namorada disseram que, à primeira vista, tiveram medo de Elvis por conta do visual black, mas contaram que ele derrubava a resistência de qualquer um assim que começava a falar e mostrava ser um sujeito muito bem educado.
Aquelas costeletas e roupas berrantes, das quais hoje em dia todo mundo debocha, causavam, no conservador Tennessee dos anos 40/50, um estranhamento mais ou menos como o que a "branquitude" de Michael Jackson causa em nós, hoje em dia - claro, guardada as devidas proporções, que empatar em esquisitice com MJ, ninguém empata. Pouca gente sabe, mas Elvis, inclusive, tingia os cabelos de preto, pois eram, na verdade, loiros - não se sabe se para parecer negro, mas, em todo caso, não gostava de ser loiro. E como toda ação é um ato político, podemos dizer que, mesmo sem querer, Elvis foi o primeiro artista a levantar a bandeira da igualdade racial - e isso desde quando nem sonhava em cantar profissionalmente.
Nasce uma estrela - O dia 05 de julho de 1954 é o marco zero da elvismania e do rock. É quando ele grava, num dos braços da Sun Records, em Memphis, That´s all right, mama. Ganhou fama levando o som negro à América branca. Não sem causar polêmicas em ambos os lados. Os negros se ressentiam de ter sido necessário um branco fazer sucesso usando o que já era sensação nos guetos para que sua música (e cultura) estourasse. Os brancos menosprezaram a origem pobre do cantor, o consideraram um "caipira sulista", e aqueles mais moralistas diziam que os movimentos com a pelvis eram coisa do demônio. Elvis se ressentia profundamente dessas críticas. Sobre ser "indecente", ele se defendia dizendo que nunca faria na TV algo que tivesse vergonha de fazer na frente da sua própria mãe*******.
Mama isn´t right - Dona Gladys faleceu em 1958, poucos anos após ver o filho virar febre nacional. Aconteceu de um modo que, se não fosse triste, seria até patético: ela teve complicações por conta das pílulas para emagrecer que vinha tomando. Na sua cabeça provinciana, mãe de famoso não podia ser gorda, e, para não fazer o filho "passar vergonha", ela se afundou em dietas e medicamentos malucos (imagine a composição dessas bombas naquela época!...).
Depois da morte de Gladys, Elvis nunca mais foi o mesmo, vivendo uma lenta e constante depressão, que foi se agravando com o uso de drogas e a pressão do sucesso, imposta, em parte, pelos sangue-sugas que o cercavam, entre eles uma parte da conhecida Máfia de Memphis - é aquela história de se sentir só mesmo rodeado por uma multidão, muito comum entre os famosos. E depressão não tratada, dá em suicídio. É um engano achar que pessoas inteligentes podem se cuidar sozinhas. A história está aí para provar que muito pelo contrário...
Daí em diante, a trajetória é bem conhecida (foi para o exército, casou-se, Lisa Marie Presley nasceu, gravou um especial pra tv que entrou para a História e etc...). Ela tem, infelizmente, um final triste, culminando na morte do astro por overdose, em 16 de agosto de 1977. Detalhe: Elvis foi encontrado no banheiro pela "mãe negra", sua cozinheira, e Lisa Marie estava no andar de baixo. Foi ela quem avisou à primeira pessoa, a namorada de Elvis à época, que o pai havia morrido. Depois perguntam por que esse povo cresce problemático...
Elvis, the voice - Hoje em dia muita gente se baseia na caricatura da fase conturbada para menosprezá-lo, exaltando, em contrapartida, os Beatles. Ok, o grupo inglês tinha melhores letras e arranjos - Elvis gravou vários sucessos da música pop do séc. 20, mais do que a maioria tem conhecimento, mas gravou também muita porcaria -, no entanto, nem todos eles juntos possuíam o talento vocal de E.P. Ele era versátil em estilos (cantou rock, r&b, blues, country, gospel e romântico). Além disso, se interessava por instrumentos (tocava guitarra, violão, baixo e piano).
Pouca gente sabe, mas, segundo especialistas em canto, o alcance da voz de Elvis era fenomenal, especialmente se for considerado que nunca teve aulas de técnica vocal na vida. Sua voz conseguia atingir 3 oitavas e, por vezes, alcançava o registro vocal de tenores e baixos - ele era barítono. De acordo com quem é da área, uma das notas mais difíceis de se atingir é o "dó acima do dó central", e ele várias vezes fez isso. Outra coisa que pouca gente consegue e Elvis fazia muito bem era estender a voz sem desafinar.
Enfim, pense num cara que saiu do nada, da pobreza absoluta, e que se destacou dançando, cantando, tocando, atuando e compondo - e nem tinha genes africanos para nascer sabendo tudo isso. hehe...
Uma questão de integridade - Elvis nunca posou de "moderninho" para agradar: começou chacoalhando os quadris como fazia em sua igreja local, vestia-se do jeito que lhe agradava se vestir (mesmo sendo ridicularizado por isso, até hoje), não escondia sua fé em Deus e por isso mesmo nunca teve medo de ser chamado de brega porque gostava de cantar gospel.
Morreu incompreendido e virou um mito ridicularizado********, como todo aquele que ousa ser ele mesmo colocando a autenticidade à frente das expectativas dos outros. Isso, pra mim pelo menos, é que é ser rebelde. Ninguém depois dele fez mais ou melhor. Como os próprios americanos dizem, "Before anyone did anything, Elvis did everything" ("Antes de qualquer um ter feito qualquer coisa, Elvis fez tudo"). Talvez se ele tivesse tido consciência do que estava fazendo, não o teria feito tão bem. Ele foi o Zé do Burro da música do século 20. Tudo começou porque Elvis só queria cantar.

* Ao contrário do que a maioria pensa, Elvis era considerado pelas pessoas da indústria cinematográfica, à época, um ator de talento. Aliás, ter que pegar o lixão dos scripts de Hollywood foi uma das frustrações profissionais dele. O máximo que chegou perto de um bom filme foi com "Nasce uma estrela", onde dividiria a cena com a também cantora e atriz Barbra Streissand. Pra variar, deu errado. O problema da carreira de Elvis no cinema foi ter se tornado, como dizem os americanos, larger than life (maior que a vida). Aqueles filmes que nem estrelando Jesus Cristo dariam bilheteria, eram despejados em Elvis, considerado um Midas do entretenimento, uma máquina de fazer dinheiro - o pobre estava atado por um daqueles contratos "lê-rê-lê-rê" dos estúdios daquele tempo. O cantor também não tinha tempo para se aprofundar nos estudos, como muitos de sua geração fizeram. Pois é, nem o rei pôde tudo...
** Na própria formação dos Beatles, poucos anos depois, já dá para perceber a "perda da inocência" das estrelas dos show bizz. Sabe aquele visual mauricinho do grupo? Pois é, pura jogada de marketing do empresário. Ao ser perguntado se estaria disposto a abdicar das jaquetas pretas para ser lançado usando terninho e cabelo de cuia, John Lennon teria respondido ao empresário: "Pra ser famoso e ganhar dinheiro, se você quiser, me visto até de macaco". Os Beatles, aliás, reverenciavam Elvis, e Ringo se gabou de ser o único Beatle a ter jogado futebol com o ídolo.
***A família paterna tem origem irlandesa-escocesa; a da mãe é americana (Smith). A grafia original de Presley é Pressley, sendo o primeiro o resultado da americanização do segundo. Aliás, chego a conclusão de que todos os caras lindos dos EUA têm um pé na Escócia e/ou na Irlanda: John-John Kennedy, Mel Gibson, Elvis, Robert Redford, Ryan O´Neal etc.
**** 08 de janeiro é aniversário de outro mito do rock, David Bowie.
***** Na infância participava, eventualmente, de concursos, onde podia ganhar de brinde doces ou ingressos para o cinema. Nos dias de hoje, um garoto com metade da voz dele já seria explorado pela família desde pequeno - e teria plena consciência das suas possibilidades de estrelato.
****** Anos mais tarde, já um ícone, ele deu um caminhão novinho em folha para um amigo caminhoneiro. Com uma condição: de que o sujeito o deixasse dar uma volta no veículo. Para o espanto de quem viu a cena, a alegria de Elvis em relembrar os tempos de estrada foi enorme, uma alegria que não se via nele há tempos.
Conhecido por ser um cara generoso e até esbanjador, não era incomum que desse esse tipo de presente às pessoas. Morreu com 1 dólar na poupança e 1 milhão na conta corrente, o que, segundo o seu meio-irmão por parte de pai, expressa bem a relação de Elvis com o dinheiro.
Como não ligava a mínima pra isso, foi trapaceado à beça em vida, sem se dar conta. Depois da sua morte, Priscila Presley tomou a frente dos negócios e "moralizou" as finanças de Elvis, lutando para que a filha herdasse mais que o sobrenome.
******* Uma das coisas mais bacanas, pelo menos no Elvis do comecinho, é esse balançar meio desajeitado - e por isso espontâneo - de cadeiras. É meio malicioso, mas ao mesmo tempo lembra um daqueles transes que vemos em alguém em oração ou cantando no coro da igreja e há também nisso um quê de "dança no quarto com o som nas alturas e ninguém me vendo". Enfim, o balançar de Elvis é a imagem da pessoa dominada pelo corpo enquanto está fazendo algo que realmente mexe com ela.
Elvis é "ridículo" porque é genuíno. Maria Bethania canta que "cartas de amor são ridículas. E se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor". Pois eu digo que pessoas de verdade são ridículas. E se não fossem ridículas, não seriam pessoas de verdade. Eu adoro pessoas essencialmente e extremamente ridículas! Entre os meus famosos e ridículos favoritos estão Nelson Rodrigues, Gerald Thomas, Barbara Heliodora (que é ridícula por ainda dar importância às pragas que Gerald lhe joga), Ibrahim Sued, Leão Lobo, Hebe, Woody Allen, Almodóvar, Marlon Brando, Paulo Francis e por aí vai, que a lista é grande.
******** Seus covers têm uma boa parcela de culpa nisso!

LEGENDAS:
1
Elvis nos anos 70, já um mito do rock.
2 A neta de Elvis, Danielle Riley, filha de Lisa Marie. A adolescente, que é modelo, dizem, canta bem mas tem medo de arriscar algo nesta carreira sendo neta de quem é.
3 Elvis se apresenta com o Hound Dog (cão de caça).
4 Com pose de galã, no início da carreira.

Fontes: Wikipedia, E! e Google

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Nos batuques da folia

O Carnaval de Salvador já começou. É hora de ver os trios passando na TV, de ler a cobertura nos jornais e sites... E é hora também de acompanhar os colegas de profissão "entrando em campo" - aliás, jornalista sempre pega no pesado quando todo mundo está descansando ou curtindo (ó sina!...).

Da Facom, orgulhosamente, veremos uma boa galera: Mariana (Band), Leomary (Record), Luana "Minhas Bochechas Estão Gordas No Vídeo?" (Aratu), Elen (TV Salvador), Cláudio (A Tarde), Matheus (TV Bahia) e sabe-se lá quem mais - alguns eu não vou dar a ousadia de citar aqui, né, ainda que esse blog só seja lido por meia dúzia de gatos (bem) pingados.

Coloquei a foto da Elen neste post como uma forma de me desculpar. Ela sempre avisa que vai aparecer, mas eu nunca consigo vê-la trabalhando. Quando gravou pro Futura, eu até tinha tv a cabo, mas a Directv não transmitia o canal. Então, cobriu o Festival de Verão pelo IBAHIA, mas minha internet é ainda discada. Lá fui eu em busca de uma banda larga, no entanto, quando consegui o acesso, o link tava fora do ar. E agora não vai dar mais uma vez, já que a TV Salvador não pega aqui em casa. Bem, Elen, se servir de consolo, o Mar Shopping Show, pra mim, é inesquecível. hehe...

Eu quero aproveitar a ocasião para expressar a minha indignação. Nandy e Cláudio estarão no camarote da Contigo!. Daí eu fico pensando: Por que eles vão e justo eu - que leio People, bato ponto no Glamourama e já fiz análise do Babado e do O Fuxico (de Esther Roooocha. Lembra, Alosa?) - ficarei de fora?! Olha, a vida não é justa! : (~


O povo é ótimo I A ouvinte de uma famosa rádio soteropolitana dá a dica ao Rei Momo:
- Rei Momo, quando receber a chave da cidade, tranque ela muito bem, tranque direito para não deixar nunca mais esse traste deste prefeito João Henrique entrar - aconselhou a popular.

O povo é ótimo II Outro ouvinte dessa mesma rádio sugere a criação do Bloco dos Fracassados. Esse reuniria ex-estrelas do Carnaval e o bagaço da população soteropolitana. A ex-musa do Axé, Sarajane, estaria cotadíssima para ser uma das atrações principais do Bloco dos Fracassados, mas alguns analistas afirmam que seria difícil convencê-la a topar o projeto, pois o fracasso lhe subiu muito à cabeça nos últimos anos.

Confessions of a dangerous (and armed) hair









Armado e, por isso mesmo, perigoso. Com esses dois adjetivos, descrevo o meu cabelo. Mestiça, como quase todos os brasileiros, sofro as conseqüências de um cabelo "em cima do muro", ou seja, ondulado, que nem é liso (para não precisar fazer nada) mas também não é cacheado (para ter "cara" de alguma coisa). (Muita gente acha que o meu cabelo é cacheado. Não, não é. Eu colocava aqueles cremes sem enxagüe e não ousava penteá-los, senão os cachos iam embora e o cabelo armava automaticamente)
Quem tem cabelo ondulado sabe: a cabeleira fica com aspecto de nada e ainda por cima, te transforma em Bozo ao menor vento, só melhorando com o crescimento dos fios, pois o peso - pelo menos no meu caso - ajuda a diminuir o volume.
Há milênios sem cortar os cabelos, na esperança de vê-los menos volumosos, ontem me vi diante de um dilema capilar: deixava as pontas "embuxadas" e "queimadas" e preservava o comprimento ou permitia que alguma "papa cabelo" metesse a tesoura e assim me livrava do aspecto ruim? Olhei-me no espelho e vi que o caso era sério, muito sério. Seríssimo. Fui ao salão como quem vai ao IML identificar um corpo. Recomendei mil vezes à menina que não tirasse o comprimento. Claro, foi em vão. Fiquei com um aspecto civilizado, mas, por outro lado, ganhei uma cabana anexada ao meu couro cabeludo.
Deprimida, comecei a refletir sobre o impacto do cabelo na vida humana. Percebi, então, que vários dos grandes homens, para se tornarem grandes, tiveram que sacrificar a cabeleira. Cabelo é mais que a moldura do rosto; é um divisor de águas no destino da humanidade - que o diga Deborah Bloch.
Esqueça Sansão, pois esse exemplo é batido demais. Pense em grandes ícones da música contemporânea, como Tina Turner, Maria Bethania, Vanessa da Mata, Caetano, James Brown, Elvis e até mesmo Bob Dylan. Pense também nos gênios da música clássica. Pense no Ronaldinho da Copa de 2002 e no Guga ao final de cada partida. Reflita sobre as carreiras de Michael Jackson, Bon Jovi e Julia Roberts antes e depois da chapinha, e, seguindo na indústria do cinema, faça uma lista dos cineastas mais bacanas. O que todos eles têm em comum? Nenhum deles possui/ía um cabelo legal, embora sejam/fossem pessoas admiradas por uma multidão sem fim.
Vou adaptar Nelson Rodrigues mais uma vez: não se pode ter um cabelo bonito e ser feliz ao mesmo tempo. Hay que sacrificar algo. No meu caso, sinceramente, que se dane a felicidade, a genialidade ou o sucesso! Do que adianta ter isso e possuir um cabelo com aspecto de algodão doce mal feito, que nem o do Lynch?! De que serve um Oscar se você se parece com um poodle molhado, que nem o Almodovar?!
Legal mesmo é ver a cabeleira no "shape" e, de preferência, baixinha, baixinha!

Woman on top Foto by Alex Oliveira, que registrou toda a minha "jubilescência".
Lá eles O cientista Albert Einstein e os cineastas Pedro Almodóvar e David Lynch: sacrifícios estéticos-capilares em nome da genialidade.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Meu amado imortal


Eu não sou Beethoven, mas também tenho meu amado imortal.

Amanhã é Valentine´s Day no hemisfério norte, onde ele mora. Deixo aqui a minha homenagem a este que parece ter vindo de outro mundo para não mais me largar!

O que mais chama a minha atenção nele é a sua transparência, que é tanta que às vezes chega a me assustar.

Olha, gente, não é para me gabar não, mas algo me diz que essa relação é para além da vida!
"Ohhh! My love! My darling! I´m hungry for your touch, a long, long time..."

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

O grande mal do século


O sociopata, nosso vizinho

CONTARDO CALLIGARIS

FSP - 21/08/2005

Na semana passada, cheguei de volta a São Paulo vindo de Nova York. Todos de pé nos corredores da aeronave, esperávamos a abertura das portas. Eis que um jovem, que estava atrás de mim, disse, num inglês duvidoso, "Excuse me" e tentou me ultrapassar, para ele (só ele) avançar na fila.Fiz notar ao jovem que todos estávamos parados e indo para o mesmo lugar. Minha observação não produziu nele nenhuma vergonha: empurrou e se insinuou na minha frente, para repetir a mesma manobra com outros passageiros. Comentei com minha companheira: "É incrível como existem sociopatas".Justiça divina: na fila da alfândega, o jovem estava bem atrás da gente.
Resta explicar meu "diagnóstico". Sumariamente, o quadro da sociopatia (ou psicopatia, como dizia a psiquiatria clássica) é o seguinte: incapacidade de se conformar às normas sociais, aptidão para enganar e manipular, falta de preocupação com os outros, falta de remorso e de sentimento de responsabilidade. Ocasionalmente, qualquer um é capaz de comportamentos desse tipo. Mas o sociopata os adota como sua única maneira de ser e de se relacionar com o mundo: ele se impõe na vida desrespeitando os outros e as normas coletivas sem sentir culpa alguma. Os sociopatas não são necessariamente criminosos, e nem todos os criminosos são sociopatas. O membro de uma gangue pode agir como um sociopata entre nós, mas sentir-se responsável pela segurança dos outros membros da gangue e culpado por falhar em suas tarefas. Inversamente, um cidadão-modelo, de grande êxito profissional e social, pode dever seu sucesso a uma boa sociopatia. Detalhe: os sociopatas são numerosos; nos EUA, 4% da população.
Num livro recente, "The Sociopath Next Door" (o sociopata da casa ao lado), publicado pela Broadway Books, a psicóloga Martha Stout propõe uma interpretação valiosa da personalidade do sociopata.O pressuposto, com o qual todos concordam, é que o sociopata sabe fazer a diferença entre o bem e o mal, mas, ao optar pelo mal, não conhece remorso ou culpa, pois não tem consciência moral.Ora, em psicopatologia, ter consciência moral é uma qualidade problemática, pois uma boa parte do sofrimento neurótico é devida ao excesso de interdições auto-impostas e de culpas desnecessárias. Alguns diriam que um pouco de sociopatia ajudaria nossos neuróticos.
O problema, observa Stout, é que sobretudo os psicanalistas confundem a consciência moral com o superego, ou seja, com a instância psíquica herdeira das interdições que foram decisivas na formação do sujeito, desde a proibição de dormir com a mãe até a proibição de fazer cocô nas calças. A consciência moral aparece assim como uma guardiã encarregada de nos impor limites, dos quais o sociopata zombaria e com os quais o neurótico infernizaria a própria vida.
Ora, Stout propõe conceber a consciência moral de um jeito diferente: não como fonte das interdições que nos constrangem, mas como tesouro das condições que permitem nossos laços afetivos, ou seja, a consciência moral seria constituída pelas obrigações que acompanham nossos sentimentos positivos pelos outros. Se não mato, roubo, prevarico, não é porque obedeço a prescrições estabelecidas, mas é pelo vínculo afetivo que me liga aos outros que respeito e amo. Ajo corretamente porque desejo poupá-los dos desgostos que minha conduta imoral lhes acarretaria. Na visão de Stout, o sociopata é, antes de mais nada, um sujeito que não consegue estabelecer laços afetivos: ele não conhece obrigações morais porque não sabe se juntar aos outros pelo respeito, pela amizade ou pelo amor.
De fato, várias pesquisas mostram que as pessoas "normais" reagem de maneira diferenciada a palavras carregadas de emoção. Diante de palavras como "amor", "ódio", "dor", "felicidade", "mãe", a atividade cerebral dos "normais" é mais intensa e mais rápida do que diante de palavras neutras, como "mesa", "cadeira", "número 15". Os sociopatas, ao contrário, apresentam a mesma intensidade e o mesmo tempo de reação em ambos os casos. Seu déficit é afetivo, e sua falha moral é conseqüência desse déficit.
O jovem passageiro que descrevi foi capaz de uma pequena sociopatia porque não reconheceu seus companheiros de viagem como um grupo do qual ele fazia parte. O uso do inglês talvez lhe tenha permitido sentir-se estrangeiro a essa mínima simpatia coletiva. Nestes dias, o noticiário fala de uma sociopatia generalizada no coração das instituições republicanas. De acordo com a proposta de Stout, ela é efeito não de alguma fraqueza dos grandes princípios, mas da falta de um "nós", ou seja, de um laço coletivo nacional, em que o companheirismo e o sentimento de um destino comum implicariam um respeito recíproco básico.

Notas:1) Acabo de ler o novo livro de Flávio Gikovate, "O Mal, o Bem e Mais Além" (MG editores). Gikovate situa a moralidade de uma maneira análoga à escolhida por Stout: o que nos torna sujeitos morais é nossa capacidade de amar.2) Assisti, com atraso, a "A Queda! As Últimas Horas de Hitler". O Hitler do filme de Hirschbiegel, magistralmente interpretado por Bruno Ganz, é um sociopata perfeito.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

O mindinho é um dedo mau, muito mau!...


Há cerca de dois meses, lesionei o nervo dos dedos 4 e 5 da mão direita. Não era preciso nem dizer isso aqui já que, como boa hipocondríaca, chorei as pitangas do meu quase aleijamento com meia Salvador. Também, não era para menos: todo mundo que me encontrava na rua e me via com a ortese, arrematava, sem um pingo de semancol: "É L.E.R.?". Confesso que tinha vontade de matar! Grrr... E de chorar!
No auge do desespero, ligava para Ingrid, a assessora de Deus em Salvador e minha CTS (Consultora para Temas Sortidos), e implorava, quase entre lágrimas: "Por favor, reze pra minha mão direita ficar boa! Eu não posso ter L.E.R., eu comecei a pagar a previdência agora, nem posso me encostar!...Reze, viu, Ingrid! Snif, snif....". Já que estamos falando da santa, vamos de São Tomás de Aquino: "O homem é consciência e mão"*. Pessoalmente, se uma das duas tiver que dar o fora, que seja a consciência - e já vai tarde! Pense aí no desespero de ter a mão inutilizada!... Bate na madeira!...

Pois bem, alguns dias depois, quase todos eles (os dedos) haviam voltado, menos o anular e o tal do mindinho. Cara, esse último dedo me deu um trabalho na fisioterapia!...Para vocês terem uma idéia, só voltou a ter sensibilidade de uma semana para cá, e mesmo assim, de vez em quando, ele regride.

Durante as sessões, fiquei próxima de uma moça que havia fraturado o dito cujo. "Eu estou aqui porque conheço pessoas que não deram a devida atenção ao mindinho e estão com ele defeituoso até hoje", justificou. Fui pra casa p. da vida com esse dedo, refletindo sobre a sua falta de lealdade para com os seus companheiros de mão e seus respectivos donos: "Não é à toa que foi o dedo que pulou da mão de Lula! Mindinho miserável!...", resmunguei, voltando da fisioterapia, de buzú, para casa.
Sempre que podia, expressava nas sessões a minha indignação com o chamado "dedo 5". Um dia, a fisioterapeuta também resolveu abrir o coração e despejou toda a sua mágoa com o mindinho: "Olha, ele é um dedo tão ousado que às vezes o problema nem é com ele mas resolve se meter. Já cansei de atender gente que havia machucado, por exemplo, o dedo indicador, mas que estava, inexplicavelmente, com o mindinho também comprometido", relatou.

É ou não é um f%#@ esse dedo mindinho?

* Essa eu "pesquei" do blog do Setaro

Páginas (Amarelas) da Vida



Na foto: Fernanda, eu e Ingrid, no final do ano passado, na Doces Sonhos. Nandy vai ficar pirada comigo por causa desse post - afinal, segundo os padrões nandyanos, não estava adequadamente dressed for success nessa foto -, mas é que eu não poderia deixar o esforço do pobre do garçom da doceria morrer no ar. (Pensando bem, acho que Cláudio tem razão quando diz que eu não saí do século XIX: uma pessoa que é fã de Jane Austen, prefere se corresponder por carta, gosta de ler jornal impresso, acha os galãs do cinema da primeira metade do século passado os mais bonitos e marca encontro com os amigos no final da tarde, em docerias... Se eu chegar ao ponto de usar sombrinha na rua, por favor, chamem a carrocinha!)
Pois é... Um click da vida tão simples quanto agradável: entre grandes amigas, comendo uma fatia deliciosa de torta com capuccino, e jogando altas conversas fora... Isso após esperarmos, Ingrid e eu, por Fernanda durante quase uma hora - é bom registrar isso aqui, pois quando a gente se atrasa, ela fica uma fera! hihihi...

Coloco a gente no blog "sem traumas". Um pouco de exposição pública - nem tão pública assim... -, dosada de bom senso, não faz mal a ninguém. Gerald Thomas disse que a internet é uma imensa páginas amarelas. Eu concordo e acho natural que tenha se tornado isso, já que todo mundo gosta de receber atenção - ou melhor, como diria Nelson Rodrigues, "só os normais gostam. Os neuróticos reagem".

Ah, Fernanda, admita: a foto ficou "uma gracinha" (copyright by Hebe)!

domingo, 14 de janeiro de 2007

Let it flow...

Num mundo imperfeito - onde o ser humano é responsável, aliás, por toda imperfeição - é inútil querer ter uma vida perfeita. Melhor dizendo, é pedir pra cair num vazio desgraçado.
Ok, reconheço que o desapego é uma meta pessoal dificílima. Passamos séculos na posição de caçadores, portanto, até por uma questão biológica, é difícil abandonar essa insatisfação quase primitiva, essa possessão e esse orgulho naturais, que nos fazem sempre ir atrás de mais e "melhor".
Em todo caso, estou chegando à conclusão de que a coisa inteligente a fazer é deixar as expectativas e queixas de lado e aproveitar o melhor que cada um/coisa pode oferecer. Cinismo? Mediocridade? Pode ser. Ou não. Eu prefiro encarar essa alternativa pelo lado positivo, e, francamente, a experiência, ainda que bem incipiente, tem me rendido bons resultados.
Claro, "aproveitar o melhor" não quer dizer aceitar ser pisoteado e ficar procurando "o lado bom" para desculpar a falta de amor (às vezes de caráter) do outro. Esse é um crime que não compensa; não dá para gostar por muito tempo de quem não gosta da gente. Por mais boa vontade que se tenha, um dia a casa cai. Aliás, ouvi de alguém, há algumas semanas, algo que me fez refletir: "Desconfie do gostar de quem perdoa tudo e de quem não perdoa nada".
Não precisa encarnar Buda. Só tente descomplicar.
Claro, "descomplicar" não implica em ser falso. E não pense isso de si mesmo, pois seu sentimento é intimidade sua; você não é capa de Caras para revelar qualquer coisa*. Pode-se amar demais alguém e sem precisar declarar o fato publicamente, botando uma faixa na rua (it´s up to your "complexo de pavão"). Você pode não gostar de alguém e conviver com a criatura sendo "curta e educada". Ser educado é o dever de todo mundo com todo mundo - "até que se prove o contrário" - e ser curto condiz com a sua indiferença. Qual é o problema? Qual é a finalidade de sinalizar para Deus e o mundo o que pensa/sente? Só não vale, claro, mentir, mas omitir é um direito. Esse tipo de franqueza a gente só deve a quem nos é muito caro. Além do mais, brigar desgasta e, no fim das contas, é dar espetáculo pros outros, é pagar de palhaço (e crente que está abafando) sem levar cachê. Todo mundo já ficou alguma vez "de mal" de alguém, então diga aí: não dá um trabalho danado fingir que a pessoa não existe, ficar desviando e etc? Encontrou? Diga "oi" e siga adiante. É mais prático e menos patético. Em todo caso, se for difícil demais dizer "oi" sem pregar as duas mãos no pescoço da criatura, dispense o cumprimento (mas siga adiante).
Não precisa descomplicar. Só tente não matá-la.

* Eu admiro à beça quem é reservado, mas, cá entre nós, que isso é chato, é. Um pouco de falta de autocontrole humaniza as pessoas, ajuda a tornar alguém simpático.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Curtas



Os dias estão corridos, então nada de tratados sobre a vida, Deus, Roberto Carlos e as baleias. Mas vamos às curtas:

Daniel Lisbôa - vulgo Pereira -, após ter sido selecionado para os trainees da Folha e do Estadão, entrou na lista de jovens talentos de uma outra célebre empresa de comunicação. Daniel vai integrar a turma 2007 do Curso Abril de Jornalismo.
Há quem afirme que nem assim o moço desistiu do seu objetivo de ingressar no Instituto Rio Branco, este ano. Em 2006, nosso amigo "bateu na trave".
Fica a dúvida: Devemos ter mais receio de ver Lisboeta na Veja ou na diplomacia brasileira, a serviço dos tucanos? Cartas à redação!


Bomba! Este blog recebeu uma denúncia anônima esta noite. Além de assessor de imprensa, diretor, produtor e ator de teatro e ogan do Terreiro do Cobre, Alosa agora também faz parte de uma nova "catigoria": a dos jogadores de búzios. (Isso mesmo! Você não leu errado.)
De acordo com a fonte, o próximo projeto da afro-fraude é a Igreja Católica. Trema, Bento XVI!


Enfim, não mais 24. Cláudio completa seu 1/4 de século nesta terça, dia 09/01. A celebração acontecerá nesta quinta, 11, no Rio Vermelho. Várias presenças já foram confirmadas e o evento promete bater o record de comparecimentos da turma.
O aniversariante já declarou que não vai à comemoração, mas a assessoria do evento mantém o encontro confirmado, with or without him. "Copiou", Baixá?


Drama. O tchacanamutchaca de Cicarelli numa praia espanhola quase fez o You Tube sair do ar no Brasil. Aliás, aos amigos jornalistas, recomendo que leiam a nota divulgada pela MTV. Nada de extraordinário, mas ficou redondinha, o que é difícil de ver nessas assessorias de imprensa da vida.
Quero fazer um desabafo (que é a razão dessa nota) : guardo dentro de mim um ressentimento pessoal em relação a esse episódio. Ao contrário de 99,9% dos internautas brasileiros, não recebi o e-mail contendo o vídeo de "Canjarelli"*. "Por que não eu, ah-ah, por que não eu?!", eu me pergunto até agora. Dependi da bondade de estranhos para ver o que todo mundo - literalmente - já havia visto. A coisa é tão feia que no Orkut não existe a comunidade "Não me enviaram o vídeo da Cicarelli" ou "Eu não vi o vídeo da Cicarelli". Quer maior indício de exclusão do que não se encontrar numa das comunidades da rede, onde, by the way, tudo vira comunidade?!

* Canjarelli foi para efeito humorístico. Na verdade, fiquei com dó dessa pessoa. Ela foi deselegante de namorar na praia, mas a hipocrisia do povo... Meu Deus!

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Em busca do pote de ouro no fim do arco-íris

Fim de ano chegando, é hora de fazer um balanço da vida e prometer que daqui para frente, tudo vai ser diferente, que aprenderemos a ser gente, de lembrar que o bom é ser feliz e mais nada (copyright by Roberto Carlos - O Rei!) ... Sim, fazemos tudo isso na esperança de sermos mais "felizes", como as heroínas e heróis da TV. Mas será que a felicidade é uma coisa tão à mão assim, que depende somente - e totalmente - de nós mesmos? Eu acho que não, pois eu acredito na influência do destino e da sorte. Experimentamos o poder deles logo no nascimento (ou melhor, após isso): pobre ou rico; inteligente ou burro; feio ou bonito; carismático ou sem-graça; animado ou desanimado; ambicioso ou acomodado; saudável ou doente...Lá vem o Sr. Acaso moldando as nossas possibilidades. Há quem consiga virar o jogo; e existe quem passa a existência nadando e morrendo na beira da praia mesmo. Que me desculpem os self-made e as heroínas de Sidney Sheldon, mas sorte é fundamental. Claro, é aquela história batida: não espere ganhar na loteria sem antes ir à lotérica apostar. A sorte tem uma regra de ouro: ela só beneficia quem se preparou para recebê-la; do contrário, vira azar (e que azar!...Da série "Se mate, véio!"...kkk).
Na verdade, eu não acredito em felicidade mas em alegria, que diferentemente da felicidade - esta é um estado imaginário, como bem disse o Barão Vermelho numa canção -, é uma atitude constante. Há coisas que ajudam a melhorar ou a piorar a existência humana - não há como negar -, mas do que adianta possuir boas circunstâncias se não se tem o dom/determinação de ser alegre, de ver com bons olhos e ânimo o mundo?...Aliás, ter tudo deve ser um veneno para a alma, tanto quanto deve ser não ter nada. Ambas as situações levam à indiferença, ao tédio, e o tédio é uma teia da qual é muito difícil sair, por vezes.
Dr. Calligaris (o da Folha, não confundir com o do filme alemão - que é "Calligari" -, pelo amor de J.C.!) diz que a felicidade tem a ver com a sensação de estar vivendo uma vida que se julga valer a pena. Acho perfeita essa definição (é incrível como as melhores opiniões são geralmente as mais simples!). Mas quando reflito sobre isso, muitas vezes penso que meu conceito de felicidade é um pouco diferente do que creio ser o da maioria. Geralmente, a felicidade do povo é cumprir todas as etapas de uma vida "normal", ser admirado pelos outros, ter poder no grupo no qual vive. Minha idéia de satisfação pessoal (em "julianês" é o mesmo que felicidade, felicità, hapiness, etc) tem muito mais a ver com exercer poder sobre mim mesma que sobre os outros.
Bem, vou parar por aqui com esse blá, blá, blá à la Mais Você. Deixo-os com o texto de João Pereira Coutinho, publicado na Folha de São Paulo por esses dias.

Bom 2007, amigos!!!

Olha o passarinho!

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Pela primeira vez na história, sentimo-nos infelizes por não sermos felizes e interpretamos a felicidade como obrigatória
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A REVISTA "The Economist" dedicou o seu número de fim de ano ao único tema que apaixona as sociedades modernas: a felicidade. Pena que as conclusões da "Economist" não sejam propriamente felizes. Vivemos mais. Vivemos melhor. Mas, apesar de tudo, as sociedades ocidentais não se sentem mais felizes do que nossos antepassados.
Entendam: a "Economist" não nega que os ricos são mais felizes do que os pobres. O problema está no interior do clube afortunado. A nossa riqueza não se traduz necessariamente em maior felicidade. Vamos chorar?
Um momento, por favor: chorar não resolve a questão; e as respostas da "Economist", também não. Para a revista britânica, o problema está na natureza insaciável da natureza humana: atingimos um patamar material de satisfação e começamos logo a invejar o próximo.
Talvez seja. Mas a melhor resposta ao paradoxo da felicidade moderna encontra-se em livro de Darrin McMahon -um tratado de 500 páginas que é, opinião pessoal, o livro do ano. O título é expressivo: "The Pursuit of Happiness: A History from the Greeks to the Present" (a busca da felicidade: uma história dos gregos ao presente). E a tese de McMahon é singular: o nosso conceito de felicidade seria ininteligível para nossos antepassados.
A diferença começa logo na palavra: como acontece em todas as línguas indo-européias, "felicidade" envolve uma dimensão de sorte, às vezes de destino, como aliás acontece com o prefixo latino "felix", que construiu o termo em português, ou espanhol, ou italiano.
Por outras palavras: para nossos antepassados, a felicidade era algo que acontecia e não um produto de nossas vontades. Verdade que Sócrates inaugurou uma sensibilidade "racionalista" que procurava depositar nas mãos dos homens a possibilidade de suas próprias virtudes. Mas mesmo Sócrates e seus herdeiros entenderam sempre que a sorte tinha uma palavra decisiva em nossos arranjos e desarranjos.
Foi o Iluminismo continental do século 18 a quebrar seriamente essa herança: não apenas a herança helênica que concedia à sorte um papel de relevo; mas também a herança medieval, para quem a felicidade humana, literalmente, não residia neste mundo. Se o projeto iluminista se define por um traço comum, talvez seja por essa emancipação do conceito de felicidade de mãos divinas para mãos humanas.
Hoje, no meio da afluência ocidental, nós esquecemos os ensinamentos dos antigos e acreditamos que a felicidade depende exclusivamente de nós. Mais: pela primeira vez na história, sentimo-nos infelizes por não sermos felizes e interpretamos a felicidade como um projeto individual e obrigatório. Darrin McMahon propõe uma experiência: comparem as fotografias de hoje com as fotografias de nossos avós. A principal diferença está no sorriso: nós sorrimos por obrigação e convenção; eles limitam-se a olhar para a lente.
Não existem fórmulas. Mas existem conselhos. O primeiro é regressar aos clássicos e deixar que a sorte também tenha uma palavra em nossos destinos. E o segundo é aliviar a cláusula totalitária de ser feliz. Na noite de Réveillon, acreditem, não é obrigatório sorrir para o retrato.