quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Confessions of a dangerous (and armed) hair









Armado e, por isso mesmo, perigoso. Com esses dois adjetivos, descrevo o meu cabelo. Mestiça, como quase todos os brasileiros, sofro as conseqüências de um cabelo "em cima do muro", ou seja, ondulado, que nem é liso (para não precisar fazer nada) mas também não é cacheado (para ter "cara" de alguma coisa). (Muita gente acha que o meu cabelo é cacheado. Não, não é. Eu colocava aqueles cremes sem enxagüe e não ousava penteá-los, senão os cachos iam embora e o cabelo armava automaticamente)
Quem tem cabelo ondulado sabe: a cabeleira fica com aspecto de nada e ainda por cima, te transforma em Bozo ao menor vento, só melhorando com o crescimento dos fios, pois o peso - pelo menos no meu caso - ajuda a diminuir o volume.
Há milênios sem cortar os cabelos, na esperança de vê-los menos volumosos, ontem me vi diante de um dilema capilar: deixava as pontas "embuxadas" e "queimadas" e preservava o comprimento ou permitia que alguma "papa cabelo" metesse a tesoura e assim me livrava do aspecto ruim? Olhei-me no espelho e vi que o caso era sério, muito sério. Seríssimo. Fui ao salão como quem vai ao IML identificar um corpo. Recomendei mil vezes à menina que não tirasse o comprimento. Claro, foi em vão. Fiquei com um aspecto civilizado, mas, por outro lado, ganhei uma cabana anexada ao meu couro cabeludo.
Deprimida, comecei a refletir sobre o impacto do cabelo na vida humana. Percebi, então, que vários dos grandes homens, para se tornarem grandes, tiveram que sacrificar a cabeleira. Cabelo é mais que a moldura do rosto; é um divisor de águas no destino da humanidade - que o diga Deborah Bloch.
Esqueça Sansão, pois esse exemplo é batido demais. Pense em grandes ícones da música contemporânea, como Tina Turner, Maria Bethania, Vanessa da Mata, Caetano, James Brown, Elvis e até mesmo Bob Dylan. Pense também nos gênios da música clássica. Pense no Ronaldinho da Copa de 2002 e no Guga ao final de cada partida. Reflita sobre as carreiras de Michael Jackson, Bon Jovi e Julia Roberts antes e depois da chapinha, e, seguindo na indústria do cinema, faça uma lista dos cineastas mais bacanas. O que todos eles têm em comum? Nenhum deles possui/ía um cabelo legal, embora sejam/fossem pessoas admiradas por uma multidão sem fim.
Vou adaptar Nelson Rodrigues mais uma vez: não se pode ter um cabelo bonito e ser feliz ao mesmo tempo. Hay que sacrificar algo. No meu caso, sinceramente, que se dane a felicidade, a genialidade ou o sucesso! Do que adianta ter isso e possuir um cabelo com aspecto de algodão doce mal feito, que nem o do Lynch?! De que serve um Oscar se você se parece com um poodle molhado, que nem o Almodovar?!
Legal mesmo é ver a cabeleira no "shape" e, de preferência, baixinha, baixinha!

Woman on top Foto by Alex Oliveira, que registrou toda a minha "jubilescência".
Lá eles O cientista Albert Einstein e os cineastas Pedro Almodóvar e David Lynch: sacrifícios estéticos-capilares em nome da genialidade.

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