quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Em busca do pote de ouro no fim do arco-íris

Fim de ano chegando, é hora de fazer um balanço da vida e prometer que daqui para frente, tudo vai ser diferente, que aprenderemos a ser gente, de lembrar que o bom é ser feliz e mais nada (copyright by Roberto Carlos - O Rei!) ... Sim, fazemos tudo isso na esperança de sermos mais "felizes", como as heroínas e heróis da TV. Mas será que a felicidade é uma coisa tão à mão assim, que depende somente - e totalmente - de nós mesmos? Eu acho que não, pois eu acredito na influência do destino e da sorte. Experimentamos o poder deles logo no nascimento (ou melhor, após isso): pobre ou rico; inteligente ou burro; feio ou bonito; carismático ou sem-graça; animado ou desanimado; ambicioso ou acomodado; saudável ou doente...Lá vem o Sr. Acaso moldando as nossas possibilidades. Há quem consiga virar o jogo; e existe quem passa a existência nadando e morrendo na beira da praia mesmo. Que me desculpem os self-made e as heroínas de Sidney Sheldon, mas sorte é fundamental. Claro, é aquela história batida: não espere ganhar na loteria sem antes ir à lotérica apostar. A sorte tem uma regra de ouro: ela só beneficia quem se preparou para recebê-la; do contrário, vira azar (e que azar!...Da série "Se mate, véio!"...kkk).
Na verdade, eu não acredito em felicidade mas em alegria, que diferentemente da felicidade - esta é um estado imaginário, como bem disse o Barão Vermelho numa canção -, é uma atitude constante. Há coisas que ajudam a melhorar ou a piorar a existência humana - não há como negar -, mas do que adianta possuir boas circunstâncias se não se tem o dom/determinação de ser alegre, de ver com bons olhos e ânimo o mundo?...Aliás, ter tudo deve ser um veneno para a alma, tanto quanto deve ser não ter nada. Ambas as situações levam à indiferença, ao tédio, e o tédio é uma teia da qual é muito difícil sair, por vezes.
Dr. Calligaris (o da Folha, não confundir com o do filme alemão - que é "Calligari" -, pelo amor de J.C.!) diz que a felicidade tem a ver com a sensação de estar vivendo uma vida que se julga valer a pena. Acho perfeita essa definição (é incrível como as melhores opiniões são geralmente as mais simples!). Mas quando reflito sobre isso, muitas vezes penso que meu conceito de felicidade é um pouco diferente do que creio ser o da maioria. Geralmente, a felicidade do povo é cumprir todas as etapas de uma vida "normal", ser admirado pelos outros, ter poder no grupo no qual vive. Minha idéia de satisfação pessoal (em "julianês" é o mesmo que felicidade, felicità, hapiness, etc) tem muito mais a ver com exercer poder sobre mim mesma que sobre os outros.
Bem, vou parar por aqui com esse blá, blá, blá à la Mais Você. Deixo-os com o texto de João Pereira Coutinho, publicado na Folha de São Paulo por esses dias.

Bom 2007, amigos!!!

Olha o passarinho!

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Pela primeira vez na história, sentimo-nos infelizes por não sermos felizes e interpretamos a felicidade como obrigatória
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A REVISTA "The Economist" dedicou o seu número de fim de ano ao único tema que apaixona as sociedades modernas: a felicidade. Pena que as conclusões da "Economist" não sejam propriamente felizes. Vivemos mais. Vivemos melhor. Mas, apesar de tudo, as sociedades ocidentais não se sentem mais felizes do que nossos antepassados.
Entendam: a "Economist" não nega que os ricos são mais felizes do que os pobres. O problema está no interior do clube afortunado. A nossa riqueza não se traduz necessariamente em maior felicidade. Vamos chorar?
Um momento, por favor: chorar não resolve a questão; e as respostas da "Economist", também não. Para a revista britânica, o problema está na natureza insaciável da natureza humana: atingimos um patamar material de satisfação e começamos logo a invejar o próximo.
Talvez seja. Mas a melhor resposta ao paradoxo da felicidade moderna encontra-se em livro de Darrin McMahon -um tratado de 500 páginas que é, opinião pessoal, o livro do ano. O título é expressivo: "The Pursuit of Happiness: A History from the Greeks to the Present" (a busca da felicidade: uma história dos gregos ao presente). E a tese de McMahon é singular: o nosso conceito de felicidade seria ininteligível para nossos antepassados.
A diferença começa logo na palavra: como acontece em todas as línguas indo-européias, "felicidade" envolve uma dimensão de sorte, às vezes de destino, como aliás acontece com o prefixo latino "felix", que construiu o termo em português, ou espanhol, ou italiano.
Por outras palavras: para nossos antepassados, a felicidade era algo que acontecia e não um produto de nossas vontades. Verdade que Sócrates inaugurou uma sensibilidade "racionalista" que procurava depositar nas mãos dos homens a possibilidade de suas próprias virtudes. Mas mesmo Sócrates e seus herdeiros entenderam sempre que a sorte tinha uma palavra decisiva em nossos arranjos e desarranjos.
Foi o Iluminismo continental do século 18 a quebrar seriamente essa herança: não apenas a herança helênica que concedia à sorte um papel de relevo; mas também a herança medieval, para quem a felicidade humana, literalmente, não residia neste mundo. Se o projeto iluminista se define por um traço comum, talvez seja por essa emancipação do conceito de felicidade de mãos divinas para mãos humanas.
Hoje, no meio da afluência ocidental, nós esquecemos os ensinamentos dos antigos e acreditamos que a felicidade depende exclusivamente de nós. Mais: pela primeira vez na história, sentimo-nos infelizes por não sermos felizes e interpretamos a felicidade como um projeto individual e obrigatório. Darrin McMahon propõe uma experiência: comparem as fotografias de hoje com as fotografias de nossos avós. A principal diferença está no sorriso: nós sorrimos por obrigação e convenção; eles limitam-se a olhar para a lente.
Não existem fórmulas. Mas existem conselhos. O primeiro é regressar aos clássicos e deixar que a sorte também tenha uma palavra em nossos destinos. E o segundo é aliviar a cláusula totalitária de ser feliz. Na noite de Réveillon, acreditem, não é obrigatório sorrir para o retrato.

Um comentário:

  1. Anônimo5:20 PM

    juju, o xixidemacaco tá muito condescendente com o ser humano. Jogue mais duro! Veneno! Veneno!

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