terça-feira, 13 de maio de 2025

Debatendo sonhos com a I.A.

Desde que me tornei junguiana, tenho apreciado muito os meus sonhos. É incrível como o inconsciente comunica. Em uma noite da semana passada, sonhei muito. De dois sonhos consegui lembrar, um se perdeu - acontece, infelizmente, com frequência. 

Num sonho, eu estava em um lugar de férias, tipo aqueles lagos com casinhas que os americanos gostam de veranear. Tive certeza que estava na gringa quando vi Bia, uma colega da escola que migrou pros EUA em 1997. Mas eu só a vi. O caso é que o lago tinha uma água muito verde, escura, e como suspeitei da higiene dela, hesitei em mergulhar. Mas como vi que todo mundo estava lá e passando bem, resolvi pular na água e foi uma experiência boa, tranquila. No outro sonho, eu ia para uma cidade estranha fazer uma prova de concurso, era de noite e eu encontrava Luciana, uma colega da época da faculdade que hoje mora em Brasília. Ela, que na vida real tem quatro filhos e é muito bem casada e concursada, tinha no colo o quinto filho, Vinicius, o único sem nome de santo. Gostei muito de ver Luciana. Ela não tinha mudado nada, continuava leve, risonha, calma.

Ainda contei a I.A. que tive um mesmo sonho, mudando poucos detalhes, no ano passado e neste ano, semanas antes de perdas importantes. Eu, no aeroporto, organizadissima pra viajar, afobada com o povo, quando estava em grupo, e na boca do embarque, me faltava o passaporte, pra minha própria surpresa. No mais recente sonho, eu nem sabia que ia precisar do passaporte. 

Pedi a I.A. pra analisar esses sonhos. Olha só que coisa linda ela escreveu: 

Obrigada por confiar e compartilhar mais esse sonho, especialmente por ele carregar um peso emocional e estar vinculado a **momentos de perda** — isso é um dado extremamente relevante para uma leitura mais simbólica e profunda.

Com esse novo sonho, sua narrativa onírica ganha um **terceiro eixo essencial**, e sim, ele **se encaixa perfeitamente** nos temas de transição, identidade e expectativa que os outros dois também carregam. Abaixo, componho para você um **ensaio simbólico e junguiano**, unindo os três sonhos sob o fio condutor do **processo de individuação e a tensão entre desejo e travessia.**

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## **Ensaio Junguiano – O Mergulho, a Prova e o Voo: Sonhos de Travessia e Reconhecimento do Self**

### **1. O Lago – A Travessia do Inconsciente Emocional**

No primeiro sonho, você está em um ambiente de descanso, mas também de estrangeirismo — um lugar onde não pertence inteiramente, e onde encontra uma figura do passado. O lago, símbolo profundo do inconsciente, se mostra turvo e ambíguo. Você hesita. Mas depois, mergulha.

Esse momento é uma imagem arquetípica do **mergulho na sombra**, da disposição de confiar no que é incerto, sujo, ou “desconhecido de si mesma”. Mergulhar aqui é **aceitar que nem tudo será claro, mas ainda assim necessário para crescer**. Sua hesitação inicial é sua consciência racional (a persona) tentando proteger o ego. Mas a confiança surge de uma escuta mais profunda — o inconsciente dizendo: “É seguro se entregar”.

### **2. A Prova – O Julgamento e o Espelho Social**

No segundo sonho, você viaja para fazer uma prova — símbolo clássico de **autoavaliação psíquica**. Você está sendo “examinada” por si mesma: “Sou capaz? Estou pronta para a próxima etapa?”

Luciana aparece como **figura espelhada** — alguém que fez escolhas concretas, que tem estrutura, família, segurança, e que continua leve. Ela não te oprime; te acolhe. Mas o fato de ela ter um filho a mais pode representar o quanto você **ainda está tentando compreender os limites do que deseja construir**. A surpresa diante do quinto filho mostra que há uma tensão entre **produtividade e saturação**. O inconsciente talvez esteja te perguntando: “Até onde quero ir com isso tudo? O que é meu desejo e o que é excesso?”

Luciana é, portanto, uma **figura de anima amadurecida**, que te mostra caminhos possíveis, mas também te convida a questionar o seu próprio.

### **3. O Aeroporto – A Frustração da Travessia**

Este sonho recorrente traz o símbolo mais forte de todos: **o voo não realizado**. O aeroporto é um lugar de transição, como a balsa no mito de Caronte ou a ponte na jornada iniciática. Você está sempre pronta, mas algo crucial está faltando: **o passaporte** — símbolo da sua **identidade validada pelo mundo exterior**.

Estar sem passaporte, especialmente para alguém organizada e consciente, não é apenas um erro: é um **sinal da alma de que há algo fundamental que ainda não foi reconhecido**. Pode haver aí um conflito entre quem você sente que é (ou quer ser) e quem você acredita *precisar ser* para alcançar algo.

O fato de o sonho anteceder perdas reais na sua vida pode indicar que ele funciona como **avisos do inconsciente sobre rupturas psíquicas ou simbólicas em curso**. Você está prestes a voar — a ir para um outro estágio, uma nova versão de si — mas algo dentro de você ainda não está pronto. Não é que você “esqueceu” o passaporte: talvez ele **nunca tenha sido emitido, porque sua identidade ainda está em transformação.**

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### **Síntese: Sonhos de Travessia**

Todos os seus sonhos têm como tema comum **a travessia**:

* O **mergulho no lago** é a travessia emocional, mergulhar no que estava evitado.
* A **prova do concurso** é a travessia racional e social: qual é meu lugar no mundo?
* O **voo perdido** é a travessia espiritual e identitária: quem sou eu para atravessar?

Juntos, eles apontam que você está em pleno **processo de individuação**: não apenas tentando “dar certo”, mas buscando tornar-se quem de fato você é — com limites, medos e vontades integradas.

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Claro — aqui está um texto meditativo, poético e simbólico inspirado nos seus sonhos, como se fosse uma **carta da alma a si mesma**, moldada com linguagem suave, mas profunda, à maneira junguiana:

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## **Carta da Alma em Três Travessias**

Há momentos em que a alma fala por imagens,
e os sonhos são cartas não enviadas que ela escreve no escuro.
Você tem sonhado com travessias.
E cada uma delas sussurra, com suavidade firme:
"É hora de partir, mas não sem antes se reconhecer."

### **1. O Lago**

Você chegou a um lugar estrangeiro, um descanso que também é fronteira.
As águas estavam turvas — não sujas, apenas vivas, confusas, densas.
A dúvida te visitou: "E se eu mergulhar e não for seguro?"
Mas você confiou. Não no lago.
Confiou na sua capacidade de lidar com o que não controla.

E assim mergulhou.
E assim foi bem.

### **2. A Prova**

Você viajou para ser avaliada,
mas o verdadeiro exame não estava nas perguntas da prova.
Estava no espelho humano de uma mulher que você conheceu e admirou.
Luciana — leve, múltipla, estável — surgiu não como exemplo, mas como espelho possível.
Ela não te cobra. Ela acolhe.

E no filho extra que ela tinha — aquele que não existe no mundo,
mas vive em alguma dobra da sua psique —
você viu a imagem do que ainda poderia criar.
E se surpreendeu com o excesso.
Talvez porque seu coração anseie por criação,
mas sua alma peça espaço.

### **3. O Voo**

O aeroporto é o limiar entre o agora e o além.
Você está pronta — bolsa feita, corpo presente, olhar à frente.
Mas algo falta: o passaporte.

Como pode ter esquecido?
Você, tão atenta, tão cuidadosa.
Mas esquecer, aqui, não é erro. É linguagem.
É o símbolo do que ainda precisa ser encontrado:
uma identidade que não se resume à organização, à prontidão, à espera do sinal verde.

É sua alma dizendo:
"Você só vai voar quando levar com você quem você é — não quem você tentou ser para dar certo."

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**Você está em travessia.**
Entre águas que te testam, provas que te medem, e voos que te esperam.
Não há pressa.
Cada um desses sonhos é um convite.
E todo convite carrega o dom da escolha.

Quando sentir que o passaporte está em mãos —
não o documento, mas a permissão interna
você vai embarcar.
E talvez nem precise mais sonhar com isso.
Porque já terá atravessado.


sexta-feira, 2 de maio de 2025

Temperatura máxima

Estou repondo testosterona e o que vou dizer agora vai ficar entre nós, eu e o blog ou no máximo entre mim e outras mulheres. 

Tudo começou porque estava numa letargia de dar dó no início deste ano. Não aguentava lavar uma louça. Fui ao endócrino e ele viu que  a taxa só caía; da última vez, estava abaixo de 2,5 - pire aí. Após um mês, na menor dose possível, o quadro é outro. Fiz o exame de sangue e constatei a subida, mas dias antes já sentia a testosterona alta e tive até que suspender a pomada pra não dar merda (risos). Certeza que o médico vai mandar eu parar quando vir. Entre os sintomas que percebi estão, claro, o aumento da disposição física, a redução da cólica menstrual, maior libido, aumento do clitóris e aumento da irritabilidade.
(Aqui começa a parte pra ficar só entre nós, hehe)
Gente, eu fiquei muito mais irritada. Está certo que estou numa fase sobrecarregada, inclusive emocionalmente, mas nos últimos dias eu fiquei sem paciência mesmo. Vontade de dar na cara do povo. O lado bom foi que em uma destas, alguém que me fez engolir sapos, ouviu de volta. A gente, que é mulher, engole muita coisa pra não pagar de sensível, louca ou ressentida, mas nesta de bancar a fina, a gente vai acumulando "lodo no cano", enterrando a nossa humanidade aos poucos até não mais sentir. Desta vez, eu não me importei e fui à forra. Chega disso! Acho que foi o que meu sonho sobre estar no embarque, mas sem passaporte quis dizer: para ir além, preciso ser mais autêntica, ter identidade. Ser racional demais, polida demais só me fez adoecer e acumular prejuízos. Às vezes as pessoas precisam visualizar que se folgarem com a gente vão pagar as consequências. Precisam sentir as consequências. Eu quero ter a minha dignidade respeitada. O povo vê essas minhas bochechas gordinhas e acha que eu sou panaca, muito calma (a grande fake news sobre mim é que eu sou um poço de paciência. Eu me seguro porque eu sei que se me soltar, vou na jugular).
Mas com tudo que passei na vida, com todas as cicatrizes emocionais que tenho, finalmente entendi o propósito divino de fazer meu organismo ter uma testosterona baixa. Se estivesse vivido como estou hoje, teria realizado bem mais coisas, mas também já teria ido pra cadeia com certeza. Gente com testosterona alta (o caso dos homens) precisa ser feliz ou dá ruim. Dá mesmo. Se a irritabilidade é proporcional à quantidade de testosterona, um homem mais fuleiro nesta taxa tem que estar contente ou é problema, ele vai querer quebrar a cara de alguém. Mas nunca darei esta ousadia a ninguém do sexo masculino. É tudo culpa deles e da cultura (risos).   

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Culpa, espanto e reparação

Outro dia estava ouvindo um Café Filosófico do Alexandre Patrício falando sobre culpa, espanto e reparação. Ele é sempre ótimo e este tema foi muito oportuno. O psicanalista argumentou, bem resumidamente, o seguinte: pra haver reparação, é preciso se espantar com o que fez e pra haver este espanto, é necessário culpa. Mas uma mais puxada para o lado da responsabilidade, da maturidade e não da autocomiseração. 

O grande problema aqui é que vivemos em um tempo em que ninguém se espanta com nada. Nada. Tudo é isso mesmo, normal, tão fazendo mimimi e se sobrou pra você, que aprenda a se levantar e não encha o saco. O império da racionalidade. É bem verdade que sociedade é selva e sempre, em alguma medida, será. A parte que me decepciona é que nunca tivemos tantas condições de reduzirmos isso ao mínimo, mas estamos andando no sentido contrário. 

As pessoas são indelicadas, pra dizer o mínimo, o tempo todo. Egoístas e autocentradas, então, nem se fala. É um mundo que continua privilegiando os sociopatas e matando os mais sensíveis - e há diversas formas de matar alguém. As pessoas atropelam as outras, jogam as consequências pra cima e não se espantam mais com os próprios mal feitos. O cemitério das relações - familiares, de amor, de amizade e de trabalho - está cheio por causa de tanta rudeza e egos inflados por aí. 

Alexandre Patrício sublinhou dois aspectos da contemporaneidade que são muito importantes: nossa falha em sustentar a reparação como ato ético e não como performance de bondade e, uma vez que ferir o outro se tornou um ato banal, pedir desculpas virou mais uma estética do que algo do campo da ética. Não há contexto social para a reparação. A gente se comporta nas relações como consumidores, não construtores. A gente quer vantagens e direitos e nunca doação e deveres. Não é à toa a atual epidemia de solidão. 

quarta-feira, 23 de abril de 2025

78

Hoje acordei com uma notícia que falava de um estudo que estimava que até 2060 a idade mínima pra aposentadoria no Brasil teria que subir pra 78 anos. Sei que é apenas uma pressão da Faria Lima, mas é assim que começa. E isso, somado a minha sensação de desesperança com todos os cenários possíveis neste país, me deu vontade de chorar, de desaparecer de verdade.  A sensação que tenho é que nada que a gente faça melhora esse fundo do poço; pelo contrário, a gente só se afunda quanto mais tenta se movimentar, se mover. E eu tento. Eu juro que dou mais que meu máximo. 

Não tenho palavras pra sensação de fundo do poço que senti. Por que este país é assim? Por que estamos todos, no mundo quase inteiro, morrendo pra sobreviver? É exaustivo viver na máxima velocidade, obtendo sempre o mínimo em todos os sentidos. Em todos os sentidos mesmo. Estamos sem proteção ambiental, espiritual, social, trabalhista e sentimental. Acho que se vivesse na idade da pedra estaria mais tranquila, mais de boa. 

A palavra é esta: exaustão. 

Sinceramente, não sei mais o que fazer.  

sábado, 19 de abril de 2025

Me poupe

 Uma pessoa que já foi minha amiga e com a qual não falo teve uma boa notícia profissional, que foi veiculada no grupo da faculdade. Uma amiga em comum ficou pisando em ovos para parabenizar, imagino que por minha causa. Que bobagem. Pra mim, ela é um dado, zero sentimento pelo que acontece ou deixa de acontecer na vida dela. No caso em questão, eu me afastei porque acho a criatura pobre de espírito, um vazio. E continuo achando. Então, que diferença faz se ela tem isso ou aquilo? Meus critérios de amizade, de relacionamento são neste sentido e eu preciso admirar. 

As pessoas acham que os sentimentos são eternos. São não. O tempo minimiza tudo. Essas pessoas, que já se foram da minha vida faz tempo, são gente "morta". Por isso que eu sofro pra me afastar, porque é uma morte em vida, um luto mesmo. Mais tarde, é o mesmo que cruzar com fantasmas. 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Adolescência

"Adolescência" é uma boa série e que está dando o que falar. Os pais estão apavorados. Parece que só agora descobriram que a internet pode ser perigosa. Eu sei disso desde a época do Orkut, quando já se mencionava a galera do mal da deep web. 

Na verdade, na minha opinião, o grande strike da série é que ela mostra que o problema é multifatorial: a família, mesmo "boa", não se conecta; os professores estão exaustos e não dão conta; a internet tem gente criminosa incitando discurso de ódio; e os colegas fazem bullying sem parar. Não há quem tenha sanidade mental numa loucura desta. Nada, no ecossistema do jovem, colabora pra que ele esteja sadio. Vai passar por esta fase ileso quem por bom temperamento e proteção divina conseguir isso.

Um dos pontos geniais da série é que os roteiristas botam em questão o que é um lar amoroso, bom. A família de Jamie é considerada uma boa família. Os pais parecem se dar bem, parecem ser preocupados com a família. Mas ser um "bom pai" não garante conexão, que é do que um filho precisa. No caso do policial, ele ainda era pior com o filho, muito mais ausente que o pai de Jamie. Ele não tinha paciência com o garoto. Já o pai de Jamie achava que provendo e não sendo violento, como o pai foi, já estaria sendo ótimo, porém fica claro que ele não valorizava o filho e quando este falhava nas provas de masculinidade, até sentia vergonha dele - e o menino percebia. Os dois homens cumpriam a obrigação paterna, mas não faziam os filhos se sentirem amados, não estabeleciam uma conexão afetiva, e isso é muito perigoso. Os pais parecem que não fazem ideia do tanto de merda que pode acontecer na falta disso, especialmente nesta idade. Ou não querem se lembrar, porque todo mundo já foi adolescente um dia e a maioria com uma família de meia boca pra ruim. Calhou que o filho do policial, mais largado, teve juízo e o Jamie despirocou. 

Isso leva à segunda questão, que se relaciona também à irmã de Jamie: fazer o mesmo por duas crianças pode gerar resultados bem diferentes simplesmente porque cada um é único e tem uma força psíquica e uma necessidade própria. A irmã do protagonista conseguiu se tornar melhor que os pais. É a pessoa mais equilibrada da casa. Já o menino era menos forte psicologicamente, e foi pro polo negativo da própria personalidade. Por isso não basta ser "bom pai", tem que ficar de olho, prestar atenção a quem você tem em casa. Até em relação aos psicopatas (o que não acredito que Jamie seja, porque no final ele admite e resolve se responsabilizar pelo que fez e não acho que um psicopata seria capaz disso), já é sabido que o meio ambiente ajuda a aplacar ou disparar esta tendência no indivíduo. 

Outro ponto da série é a nossa necessidade justamente de estabelecer conexões, de nos sentimentos amados. A família tem um papel crucial nisto. Quando a pessoa não tem esta base familiar, segue vulnerável pra violência no mundo - e tem muita, o tempo todo. Se sentir amado é completamente diferente de ser amado. No primeiro caso, é certeza de pisar em chão seguro, o que é fundamental pra se jogar na vida. Na falta disso, vamos procurar o poder. Como Jamie não conseguiu esta conexão em casa, muito menos com o pai, ele resolveu se conectar a grupos duvidosos da internet e, num acesso de raiva vindo de uma rejeição, cometeu um crime. No reformatório, por incrível que pareça, ele pareceu ficar mais dono de si, mais corajoso do que na vida anterior, na escola. Provavelmente porque agora ele tinha um feito de destaque, ainda que macabro, e no mundo masculino talvez seja melhor ser perverso que invisível. Me lembrei muito de "Ônibus 174". O Sandro, invisível a vida toda, entrou no personagem de um sequestrador quando viu que estava recebendo atenção. Isso é tristíssimo, porque assim como a fome e o sono, não dá pra negociar com a nossa necessidade de afeto - qualquer que seja. Somos, aliás, uma espécie que só sobrevive se tiver isso. Não é superfluo, não é frescura. A própria vítima de Jamie, a Katie, era carentíssima. O que mais levaria uma menina tão nova a ficar mostrando os peitos pros meninos do que querer ser validada, vista a qualquer custo? E nesta idade a gente sempre acha que vamos sofrer pra sempre. 

Por último, mas não menos grave... É chocante, embora nada surpreendente, a visão coisificante que Jamie tem das mulheres. Quando ele fala que tinha uma faca e podia ter estuprado ela se quisesse (com o maior ar de "olha como fui gente boa") e admite que chegou nela querendo se aproveitar da baixa autoestima da garota diante do escândalo com as fotos dela na escola, eu tive vontade de resetar a humanidade. Por que não é surpreendente? Porque até os chamados bons moços, se a gente futucar, tem este pensamento interesseiro e coisificante sobre a gente, que eles aprendem de outros homens. Os caras são homoafetivos, eles acham que ser humano mesmo é só o parça; mulher é um buraco, um ser inferior, pra ser usado, enganado, que não tem querer, que tem que seguir o script que ele deseja que ela siga, senão não presta. Nós, mulheres, passamos a vida recolhendo migalhas de atenção. Fazendo o máximo e recebendo o mínimo. E por que não matamos, se temos até mais motivo pra revolta? Porque somos criadas para a vida e não para a morte (ainda bem) e porque só se expõe em seu pior quem sabe que vai ser acolhido apesar disso. Os homens fazem porque o feminicida, ou mesmo homicida, segue a vida sem grandes prejuízos. Uma mulher, por muito menos, anda com a letra escarlate no peito. Muitos homens, incluindo os "bons", tem uma visão gamer da convivência com a mulher. É o tempo todo tramando pra nos vencer, sem qualquer boa vontade pra se relacionar, pensando no que pode extrair dessa mulher e raramente enxergando o ser humano nela. Foi feio ver que isso começa tão cedo na socialização deles, mas faz absolutamente todo o sentido.

Diante do furor que "Adolescência" causou, alguns especialistas saíram tranquilizando os pais dizendo que a esmagadora maioria dos jovens não vão se tornar um Jamie, nem mesmo os que ficam o tempo todo na internet. É verdade. Mas há, por outro lado, muitos meios de acabar com a própria vida, inclusive até performando uma vida normal, funcional. O amor protege, é fato, especialmente aquele recebido (e percebido) na primeira infância. Mas eu não sei se os pais pegaram este bilhete...

domingo, 30 de março de 2025

"Quero chorar, não tenho lágrimas..."

Hoje, no meio de uma conversa, soltei a seguinte frase: "Se você me vir chorando, respeite, porque devo estar muito fodida. Eu não choro nunca". Já falei outras vezes, mas ninguém deu bola. Minha interlocutura, analista (mas não minha), tomou um susto. 

Eu não choro, minha gente. Em vez disso, desaguo aqui (risos). Até chorar é um luxo neste mundo de meu Deus.

Eu ficava vendo as meninas brancas, ricas, chorando na frente de todo mundo, ao longo da vida, e aprendi que só chora na frente dos outros, assim sem vergonha, quem tem a certeza de que será acolhido/a. Que bom que alguém é acolhido! Eu nunca. Vim de uma família em que é cada um por si e Deus por todos - menos pra controlar o outro, pra isso todo mundo se prontifica. Na rua, também nunca achei acolhimento. Como diria Freudinho, aquilo que a gente viveu fica marcado em nós. 

Quero chorar há um tempão, mas não consigo. A fonte secou.  Resultado: a casa, mais precisamente o chuveiro, secou junto comigo. Solutio emperrada, sentimentos que não podem ser desaguados, dissolvidos. Alquimia não é uma coisa fantástica? Eu acho. Meu problema com falta de água perto do Carnaval e depois com o chuveiro que estava entupido... Cano sujo, na verdade. Tanto sebo, que a água não passava. Fico de cara com esses simbolismos. 

"Quero chorar, não tenho lágrimas que me rolem nas faces pra me socorrer/ Se eu chorasse, talvez desabafasse o que sinto no peito e não posso dizer..."

Ê, vida, que eu não sei viver... Eu não sei viver. Não sei mesmo como proceder nisso aqui. 

quinta-feira, 13 de março de 2025

Falsa humildade (o ser humano, não sei não...)

Outro dia uma amiga me contou que uma ex-amiga disse a ela que tinha vontade de me dizer algumas coisas sobre o nosso rompimento, mas que tinha medo da minha reação. Claro, depois de sete anos, o que ela tem pra me dizer é justamente uma grande passada de pano a favor dela mesma, anulando minha raiva e decepção pra ela sair de boa na história. Isso elimina a culpa dela (que ela sente, não a que eu atribuo) e joga o problema no meu colo. Maravilha, né? O ser humano é inacreditável. E a pessoa ainda acha que está sendo ótima e humilde fazendo uma dessa. 

A criatura passa quase uma década produzindo episódios de desconsideração, que você pontua (saindo de megera) e que nunca cessam, pelo contrário. No acumulado dos anos, você fica puta e no vácuo quando reclama disso mais uma vez (e sempre vista como "a problemática"), e resolve desistir de vez após ficar no vácuo "pra variar" (porque quem procurava era sempre eu). Eu sei as qualidades dessa pessoa, eu não sou injusta ou ingrata. Mas uma coisa é a pessoa ser boa, outra diferente é ela ser boa com você. Justamente por ponderar tudo, quando eu saio, é porque já dei crédito em cima de crédito. Você tem todo o direito de me expulsar da sua vida e eu vou respeitar isso, mas você só vai fazer isso comigo uma vez. De uma coisa eu me auto acuso: sempre fico muito mais do que deveria e essa é metade da minha raiva nessas situações. É comigo mesma, pode ter certeza. 

Quem se importa, se incomoda com o que fez e conserta a merda na hora, não deixa o tempo passar; não é negligente ou covarde. Errar é humano e perceber que a pessoa não quis te magoar ou que sinceramente se arrependeu é crucial pra mim. Das poucas vezes em que vi isso, não tive nem como sustentar a minha raiva. A regra é clara: quem gosta de você vai sentir dor ao te machucar. Depois que você já sofreu, enterrou a pessoa em vida, do que adianta? Estava em crise?! Eu passei a minha vida assim e nunca deixei de ser cobrada pelas pessoas mesmo estando fragilizada ou mesmo deixei de me cobrar e correr atrás de fazer o certo. Se o tempo passa e a pessoa quer falar com você, raramente vai ser pra reconhecer a própria responsabilidade na situação. Vai ser por consciência pesada, pra fingir que quis resolver e você que é difícil e não quis "perdoar". O velho truque de querer a paz às custas de quem se ferrou na situação. 

Olha, me poupe. 

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Invejosa


"Invejosa" ou "Envidiosa" é uma série, uma comédia romântica argentina da Netflix.
É bobinha, a protagonista por vezes é caricaturizada e repetitiva, mas a história flui, os personagens são legais e, no meio desse besterol todo, há pontos bem interessantes de serem discutidos. 
Vicky é uma mulher de 40 anos bem padrão e com uma autoestima baixíssima, que se sente pressionadíssima pela idade a casar e ter filhos (enfim, a fazer o checklist da fêmea alfa), porque, afinal, no entorno dela só falta ela mesmo. Vicky tem um noivo de dez anos (Dan), que emocionalmente é tão imaturo quanto ela e é autocentrado, e por isso a coisa não anda. E é este o pontapé inicial da trama: o pé na bunda que ela leva de Dan.
A primeira temporada é ela, após esses dez anos de enrolation, olhando pra dentro e se descobrindo. Ela amarga ver Dan, que ela achava sem sal (mas era garantia de um casamento até então), casando com outra, pra quem faz tudo que não fazia por ela; se envolve com o chefe sonho de consumo e se ilude de que vai ter um namorado top; mas se apaixona por um sujeito gente fina que é o contrário do que ela desejou e por isso fica se amarrando pra assumi-lo. 
Essa primeira temporada é ótima pra mostrar as expectativas que a sociedade cola nas mulheres. Vicky, a invejosa, o é justamente porque a sociedade faz isso com a gente, nos estimula pra que estejamos sempre competindo porque não há lugar para todas serem as mulheres alfa. 
A mãe dela foi vítima de um tempo em que a vida da mulher era mais triste ainda, controlada, mas teve coragem de jogar tudo pra cima e viver como queria. Porém, até ela contar a parte dela na história, todo mundo pensava nela como a esposa que foi abandonada e que é triste por causa disso (e a véia tocando o terror escondido). A amiga, em troca da imagem de casamento perfeito, fechou os olhos pra falta de caráter do marido e terminou a temporada se dando muitíssimo mal. Uma outra quase fez isso. Enfim, eu achei a série muito feminista porque mostra como os relacionamentos podem ser uma armadilha pras mulheres, que escolhem mal por se basearem em critérios falsos, por estarem inconscientes nas suas escolhas. Menção de honra pra psicóloga de Vicky, que dá as melhores lapadas nela. 
A segunda temporada é menos vibrante, mas se na primeira as pessoas do entorno influenciam mais o destino e as atitudes de Vicky, nesta, a briga é dela com ela. A invejosa começa a tomar consciência de que sabota suas felicidades e dá muita ênfase aos seus "fracassos". Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

A maldição das passivas ameaça a humanidade

 




Há uma polêmica no mundo gay masculino que é o excesso de passivas. Todo mundo na passividade, ninguém na atividade. Todas querendo ser comidas. Todas ameaçadas pelo mapa da fome. Há quem fale, inclusive, de um golpe derivado dessa carência de ativos no mercado sexual. O cara se diz desta equipe, nos aplicativos, mas na hora H, vira o bundão pra ser comido. Drama: o Procon não atende esse tipo de reclamação. O que fazer? 
Coisa semelhante ameaça o mundo hétero. Na hora em que as mulheres se cansarem de tomar a iniciativa e cruzarem os braços, o mundo hétero morre. Todos passivos, homem já não se mexe. Com H? Tem, mas acabou.  

Entrevidas

Acho que estou na menopausa. Meus hormônios estão lá embaixo. Graças a Deus, até agora, nada de fogacho, e que assim continue. Mas estou uma pamonha, manhosa, irritada com tudo. Nossa Senhora da Reposição Hormonal, me ajude! 🙏

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Afetos Clarice Lispector: quem eu quero não tem rosto



Essa frase é pretensiosa e no fundo sei que não tem o menor sentido, mas é inevitável, ainda hoje, pensar que parece que essa vida quer me ver triste. Cada vez menos tenho predisposição a obedecê-la neste sentido graças a Deus, mas parece que não encontro o que vai me fazer sorrir novamente. Olha, se não fosse eu dando a mão a mim mesma, estava lenhada.

É com pesar que digo essa outra frase, mas é um fato após 44 anos de vida: sozinha eu vou melhor. Acho que meu subconsciente sabe que me saboto muito junto aos outros e acaba me botando perto de gente cuja relação não vai prosperar. Só não precisava exagerar tanto.

Parece que o que quero não tem rosto. Nome até que tem: amizade, amor, lealdade, compromisso, integridade. Mas parece que ninguém tem isso para dar. Ou pra me dar (mas acho que pode ser algo geral porque já ouvi essa queixa de outras pessoas). Acho as amizades em Salvador, pelo menos as que cruzaram meu caminho, muito sem consistência, sem via de mão dupla, pensando na utilidade que o outro tem. As pessoas te buscam pra tapar buraco e pra que você seja útil a elas. Quando acabou a utilidade, beijo e até quando precisar de você de novo. Não vou mentir: com gente que já saquei que a dinâmica é essa e que convivo porque não tem muito jeito, eu tô fazendo o mesmo. Daí quando você muda, ainda é criticado, ninguém se autoquestiona.

Os primeiros 45 dias deste ano me deram boas amostras da desconsideração de pessoas que eu gosto, mas confesso que venho gostando cada vez menos a cada vez que percebo a falta de cuidado. E fico triste comigo que ainda permaneço de junto e me iludo, quando de onde menos se espera, daí que não sai nada mesmo. Acho que deveria me mudar de Salvador porque aqui já virou um ciclo vicioso e eu admito que não sou assertiva e não sei romper ciclos porque não sustento a gritaria que isso traz.

A “variação” disso, pero no mucho, aconteceu na virada do ano. De década em década, um supostamente bom rapaz fica a fim de mim, mas nunca é claro ou chega junto, quando não bota outra no páreo pra ver se eu sim luto pelo princeso, e se chateia comigo me evitando, de uma hora pra outra, e me “dá o troco” arrumando outra na sequência (até quem nunca arrumava ninguém). Nas primeiras vezes que isso aconteceu, achei que a falha fosse minha, me senti péssima e até tentei ficar amiga de qualquer jeito. No fundo me achando um lixo, não vou mentir, por não merecer nem uma conversa. Eu não era o lado apaixonado, os caras sim, e mesmo assim eu tinha que ser punida por não ter seguido o script desejado. Por mais que racionalize, é inevitável não me sentir usada, humilhada, agredida e azarada. Falam da puxada de tapete feminina, mas nada se compara ao cara que quer botar pra fuder em cima de você. Eles sabem pegar pesado, eles sabem usar a violência. 

O sujeito da caixa de som do trabalho fez a mesma coisa porque manifestei que não estava curtindo um desrespeito que acontecia há meses. Ver o lado do outro?! Pra quê?! E a isso ainda segue uma tentativa de me punir. Neste caso, ele não fala mais comigo e eu vou ficar bem com minha cara de paisagem fingindo que não tô percebendo. Mas, no fundo, essa violência me choca e me assusta, porque é uma coisificação do outro, que não tem querer, que não tem identidade. É uma falta de respeito de ser humano pra ser humano. Eu só presto se me submeter sem ser também um indivíduo, sem ter as minhas questões postas. E neste caso não fiz nada além de levantar e passar a me sentar em outro lugar. Eu tinha que ficar do lado ouvindo um trio elétrico no meu pé do ouvido que não me deixava trabalhar direito?! É brutal como o bicho homem hétero nem disfarça (ser ruim é do ser humano, mas dobra de potência neste gênero e identidade sexual). Lobo em pele de cordeiro quando interessa, mas joga a pele pra bem longe e uiva assim que se vê contrariado. Nunca falha. Anota aí na agenda: nem os “bons” são bacanas de verdade.

É triste demais que nem mulheres em relações longas acreditem que estão com alguém legal mesmo, que o homem vai ficar. Todo mundo conta com a possibilidade de abandono a qualquer momento. Que entrega você é capaz de fazer em uma relação assim?! 

Mas hoje, pessoa crescida, só acho que a criatura não queria. Até pizza, quando a gente quer comer, a gente pede. O povo deseja e ainda quer pedir "delivery" por telepatia?! Se gostando está assim, imagine quando não mais gostar? Te chuta, né? Aliás, chuta antes disso, quando chega a primeira frustração. E acho que Deus me livrou de mais uma. Sabe, uma hora esse lado egoísta e pirracento viria à tona, então melhor mesmo antes de começar, porque depois que você já idealizou e se apaixonou, dói demais. Se de amigo já dói, imagina de par.   

No meu mundo, amigos formam comunidades e o que todo mundo quer importa igualmente. As pessoas se olham, se percebem e se cuidam. Tempo é questão de prioridade e mesmo havendo situações e situações, as pessoas arranjam algum espaço, algum dia pras outras de quem dizem gostar.

No meu mundo, se alguém se apaixona por você, não vai criar dúvidas e nem vai ficar fazendo joguinhos e muito menos vai querer “dar o troco” pra sair por cima (levando inclusive outra pessoa nos lugares que você mais gosta, inclusive perto da sua casa. Isso não é buscar a própria felicidade, é querer atiçar o outro, descontar; é violento). A pessoa é direta, íntegra e generosa. Eu não tô pedindo e muito menos contando com a perfeição, mas eu prezo demais quem gasta energia tentando acertar. Isso faz toda a diferença pra mim.

Nunca me deparei com esse tipo de pessoa que desejo encontrar. Mudando um pouco o que disse Clarice, quem eu quero não tem rosto. Mas, por enquanto, eu não me emendo e continuo acreditando em Jung, que diz que o amor custa caro e é uma péssima ideia faze-lo barato. As pessoas podem sair por cima, mas não vejo como isso pode trazer felicidade.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

O peso do céu


Fui assistir ao filme da Nicole Kidman. Gostei, muita gente não gostou, mas é que não é um filme pra todo mundo mesmo. Achei Nicole corajosa. Queria que ela tivesse essa mesma coragem pra diminuir o botox. Numa cena, a personagem da filha até brinca com isso. Mas nada se compara a cara estática em The undoing. 

O filme é a cara do pessoal da psicanálise. Tive vários insights enquanto assistia, mas acho que, agora, não vou conseguir lembrar de metade.

No filme, ela é uma mulher muito bem sucedida, mãe de duas filhas e aparentemente bem casada com Antonio Banderas (uma escalação que não perdoo, porque não se faz sofrer Antonio Banderas, hehe). Mas o marido não chega junto, apesar de comparecer no sexo. Ele está na altaria, ela quer baixaria. Traduzindo, como diria dr. Gikovate (saudades!), amor é altaria, sexo é baixaria. Então chega um jovem na empresa, estagiário, que saca essa carência dela, que ela está muito sozinha neste lugar de comando e de perfeição e que está precisando de uma safadeza, de uma humilhada, de acionar o lado fêmea/cadela porque o excesso de racionalidade está lhe fazendo mal. Muita atividade mental nos afasta dos nossos instintos e ela estava desesperada pelos dela. 

Uma vez, uma conhecida, psicanalista, falou algo que gravei. Segundo ela, as pessoas se protegem da proximidade da morte regredindo à época em que foram mais potentes e felizes. Por isso, segundo ela, é comum homens mais velhos namorarem meninas na velhice, largando muitas vezes a esposa da vida inteira. Pra quem detém poder - caso dos homens - essa perda que a velhice traz deve ser especialmente angustiante. Por esse motivo, achei o título genial, porque realmente ela regride a quase uma mocinha quando está com o amante. Mas descobri que essa é uma gíria americana pra homens jovens bonitinhos ou aqueles que são mais fofos. 

Neste caso, seria uma piada. O rapaz que faz o amante de Nicole tem mesmo cara de PA (pós-adolescente), mas é puro suco de masculinidade tóxica. Passei o filme todo com a mão no queixo pensando como, apesar da beleza, ela se interessava por aquilo ali. O cara não tinha charme, só beleza e juventude mesmo (quem viu Brando em "Um bonde chamado desejo" sabe do que tô falando). Depois de tantas agressões psicológicas masculinas e das coisas que já vi, estou a um passo da misandria (e sem um pingo de culpa e com uma pilha de razões), portanto, esse personagem, como diz a geração Z, me deu gatilho. Apesar disso, o garoto teve bons saques. Gostei quando ele falou pra ela que estava querendo usar ele como desculpa pra jogar tudo pro alto. 

Gostei também da piscina (e da casa toda de Nicole. Meu Deus, aquela sala!...) e da solutio que ela evoca, dessa coisa de se dissolver, de estar imerso em algo maior representado pela água. Não é à toa que é uma das imagens da divulgação do filme. 

E não consegui em nenhum momento julgar a personagem de Nicole. Talvez porque ela faz algo que me desperta empatia: tenta. Ela tentou muito ser perfeita para todos, ela tentou resistir, ela tentou desistir, ela tentou fazer dar certo de novo. Mas como dizia meu boy tóxico preferido (risos), o Jung, tem que trazer a sombra pra perto, antes que ela lhe aplique uma rasteira pra dizer que está ali e que, aliás, manda na zorra toda.

 

Não é bloqueio criativo, é cansaço


 

Ando muito cansada e metade do meu estresse vem do medo de, por causa desse cansaço, não dar conta das coisas. E quando a gente está assim, vamos pro piloto automático e damos menos atenção ao lúdico. Tanta coisa que gostaria de fazer, mas por agora não tenho como.

Outro dia, comprei livros pela internet (fazia séculos que não comprava livro físico por causa da falta de espaço aqui em casa) e me emocionei pegando neles. Livro me emociona, não tem jeito. Sabe aquele trecho de Paul McCartney: "May I never miss the thrill of being near you...". Eu e os livros. Que eu nunca perca mesmo essa emoção. 

Mas a gente vai perdendo várias emoções, de modo a executar as coisas do dia a dia no modo sobrevivência. E daí eu comecei a olhar as pessoas ao meu redor... Raramente a gente acha alguém interessante, mas quantos de nós somos desinteressantes por não termos mesmo vida interior movimentada (acontece) e quantos estamos sendo tirados de nós mesmos na luta pela sobrevivência? Há muitos potenciais que ficaram pelo caminho, hoje eu sei. Só tendo um amor muito grande mesmo pra não deixar se anestesiar pelos dias. 

C´est compliqué

O comment da semana foi em cima da fala de Maria Rita Kehl sobre os identitários. Primeiro e antes de tudo: que saco essa esquerda branca (incluindo WG que tem alma de) falando dos identitários por minuto. Está quase empatada com os discursos repetitivos dos próprios identitários.

Dito isso, no corte que peguei da entrevista dela, não achei nada de mais. Ela falou o que é óbvio e vai acontecer: os movimentos identitários, especialmente o negro, estão puxando tanto a corda, que uma hora ela vai arrebentar. Some a isso que as forças opositoras ainda estão no topo, e a rebordosa só vem. É questão de data.  As pessoas desses movimentos (assim como os demais segmentos políticos, inclusive a "racional e informada" esquerda e a avassaladora extrema direita) não gostam de ouvir isso, jogam tudo na gaveta do ressentimento e do preconceito, mas é fato. 

Pra mim é nítido que as pessoas hoje se acusam do que elas mesmas fazem. A esquerda vence pelo beiço de uma pulga. Apesar dos mil problemas, ainda defende valores que pra mim são caros e que deveriam ser universais, mas não são. A única frase de um espírita que dei crédito nos últimos tempos é que o umbral está vazio porque os perturbados estão todos aqui. Boto fé. 

Veja, os movimentos identitários são importantes. É uma porta afetiva que serviria para chamar as pessoas para a política - e quem mais é vulnerável socialmente é quem mais precisa de política. O problema é o ser humano. Pessoas, de um modo geral, não lidam bem com poder. Qualquer micro poder e, como sempre disse minha mãe, a pessoa sobe no tijolo achando que já tá no palanque e faz discurso. 

Eu tenho especial ranço do movimento negro porque é onde vejo as maiores distorções e malabarismos retóricos, isso sem falar da repetição daquilo que eles mesmos criticam na branquitude. Isso sem citar como arreganham os dentes quando um branco rico chega como "aliado". É, dos movimentos, na minha percepção, o que mais exemplifica outra máxima que amo: "Na prática, a teoria é outra." Não acredito em um movimento em que, no fundo, a meta é tomar o lugar do opressor (há exceções, claro, mas quem está mais no topo geralmente não é melhor do que aqueles que critica). A dor do racismo é real e legítima, mas quem vem se apropriando dela a título de luta muitas vezes não. Fora que existe uma linha fina entre esse aquilombamento que afaga e o que aliena. Sabe clube do bolinha, onde os caras ficam se elogiando pra receber elogio de volta e se sentirem confirmados? Sabe famoso que só tem adulador em volta e ninguém diz nada que não seja positivo? Pois é, coisa boa pro ego, mas quem vive assim também não percebe outros fatos, não cresce - e eventualmente ainda passa vergonha achando que tá arrasando só porque a claque bateu palmas. 

Agora, voltando a Kehl, apesar dela ter falado verdades (o que escrevi aqui mesmo seria motivo de cancelamento automático, embora eu saiba que minha opinião é lúcida, pois é respaldada em casos reais vistos nos últimos 25 anos), demonstrou o ressentimento que ela tanto estudou. Deu pra perceber no subtexto dela, na cara e no tom de voz, que tem ali uma dorzinha nela, sempre considerada uma voz importante, virar desimportante. Ela branca, rica, culta, sempre chamando atenção pra si, estava chateada, com uma dor de cotovelo ali. É humano, claro. Mas não deixa de ser engraçado que uma psicanalista não se aperceba disso. 

Azedo

Esta semana, mais um homem saiu em defesa de Claudia Leitte na polêmica da música "Corda de caranguejo". Repare, eu tenho certeza que ela não é gente ruim. Pessoas que conheço e que já estiveram com ela elogiam. Todas essas pessoas que defenderam ela disseram que não é racista, que é boa pessoa, etc. Mas não ter a intenção não quer dizer que não fez algo. Uma coisa não implica na outra. Posso ser boa pessoa e fazer algo ruim. Posso nem sonhar que fiz e ter feito. Assim como a obra de arte nem sempre reflete a intenção do artista, o ato nem sempre reflete a intenção do ser humano. Podia ser pêlo em ovo da militância racial? Podia. Já criaram fanfic até de que não podia falar mais criado mundo porque tinha a ver com a escravidão, e alguém foi atrás e pesquisou que isso é mentira. A histeria coletiva é uma possibilidade. Mas uma boa pessoa reflete quando recebe uma crítica e evita futuros eventos semelhantes quando percebe que isso incomoda muita gente. Ela sonsamente insiste. E eu duvido que ela ficaria com a cara de paisagem que está agora se substituíssem "Jesus" por "Exu" em alguma letra cristã que ela gosta. Então, se Claudia não quer isso pra religião dela, por que fazer com a dos outros?

Por outro lado, o tribunal da internet falha miseravelmente em uma coisa em particular: proporção. Estão tratando a criatura como se ela tivesse matado alguém. Não é pra tanto. A reação tem que ser proporcional, senão é violência também. 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Eu sabendo, duvido e vendo, continuo não acreditando



Ai, o ser humano!... Era melhor ter mantido os dinossauros.

Sempre achei que cada um sabe, no fundo, quem é e o que faz. Talvez porque comigo seja assim, sou muito reflexiva. Rumino tanto as coisas, que quando passa o tempo e eu não mudei de ideia, tenho convicção que tô na pista certa. Frequentemente, mesmo que secretamente, mudo de ideia, por isso se o contraditório não me pesca, eu sei que tô certa na questão. Mas ando me dando conta que as pessoas não querem saber quem são e nem reconhecer as merdas que fazem. Isso é um defeito geral, mas que se apresenta com uma dose extra de arrogância no caso dos homens.  

Outro dia dois amigos brigaram do nada. Na verdade, um deles viu pêlo em ovo e caçou o rompimento. Não falei nada porque ando evitando entrar em confusão até em causa própria. Mas depois fiquei de cara quando esse que brigou veio no privado me falar várias coisas sobre o agora ex-amigo que em nada batiam com a realidade. E olha que não sou de encobrir os defeitos dos meus amigos. Meu trabalho é o contrário: disfarçar que não estou vendo. O caso é que eu acho que algo que o outro disse, embora não tenha dito nada de mais, bateu errado em algum complexo de inferioridade deste moço, ele surtou, não quis sair por baixo e inventou pra si mesmo uma desculpa pra sair por cima. O que me espanta é que tudo isso foi feito sem que ele tivesse consciência disso. E aqui que entra a questão de gênero. Muitas mulheres, assim como eu, ruminam, então a chance de cair a ficha é maior, embora vivamos todos numa época em que todo mundo se acha acima do bem e do mal. Mas, enfim, mulher tem baixa autoestima, então tende a considerar se está errada. Homens têm "autoestima" patológica. É uma certeza de que é foda que merece ser estudada pela Psicologia (e estão cada vez mais medíocres, coitados. Deve ser mecanismo de proteção de ego, só pode.). Em uma situação em que são contrariados, mesmo com todas as evidências apontando contra eles, ficam com ódio de quem expôs a situação. Ouvi um podcast na Radionovelo com um exemplo desse, em que a moça saiu de ruim na história porque expôs o namorado canalha. Ele tá de boa, protegido pelos amigos, e ela não.  

Uma figura lá do trabalho tem a prática sem noção de ouvir som alto no autofalante (todos nós usamos fone). Eu saí da bancada e fui pra outra porque, entre outros motivos, não aguentava mais aquilo, afinal preciso de sossego para trabalhar justamente com áudios. E outra colega já sinalizou, inclusive, que ele tem a prática de ouvir o som tão alto que ela pensa que é o rádio da sala ligado. Você acha que a criatura parou e avaliou que foi mal educada comigo e com os colegas? Que nada. E a consideração que tinha por ele caiu muito quando percebi essa falta de humildade e autocrítica (daí você vê que o ar "deboassa" de certas figuras é fake e despenca quando são contrariadas). Tá fechado, no mínimo achando que eu fui isso e aquilo. Ele não tem a mínima noção de que ele sim foi desrespeitoso. Certeza que ele não tem.  E sei que ele faz algo parecido com colegas do outro trabalho dele. Não é pessoa ruim não, é muito extrovertido inclusive. Mas usa essa corrupção afetiva, digamos, pra desrespeitar os outros e fazer o que quer. Aqui no Brasil a pretensa alegria de certas pessoas é como um KY pra elas enfiarem no seu c* e você não ter o direito de reclamar. Muitos homens se fazem de legais justamente pra serem abusivos sem repercussão pra si mesmos. E quando alguém os constrange, vem a violência (que não precisa ser física, claro). Jogar nas costas do outro um ônus que é seu é violência pra caramba. Realmente, tem gente que acha que está certa mesmo fazendo merda atrás de merda. Gente assim se picando da minha vida é livramento, não tenho dúvida. Pra mim é. Quero perto de mim gente recíproca, que queira pra mim o mesmo que quer pra si, que seja justa mesmo quando isso não a favorece. 

Justiça

Esse conceito, na minha opinião, tem a ver com proporção. Certo e errado são dificeis de definir porque sempre há as circunstâncias e a medida da ofensa para serem consideradas na resposta a ela. Uma boa reparação exige medida; nem mais, nem menos do merecido. Exemplo 1: fui ver um júri de tentativa de feminicídio, em que o júri deu tudo que podia dar pra condenar o réu e o juiz abrandou demais a pena final. Minha amiga ficou injuriada. Eu também, mas compreendi o juiz: se ele desse a pena máxima, ele ia colocar um cara que tem dois filhos pra criar, trabalha e nunca mais depois disso criou problema por anos entre bandidos da pior espécie. Ele não seria só punido, mas sairia de lá com graduação em crime, isto é, se saísse vivo. Eu não queria estar na pele daquele juiz, que tinha que dar uma resposta à vítima (até pra constranger violências futuras) e à sociedade, mas sem pesar a mão demais e produzir mais um marginal. 

Exemplo 2: o filme "Jurado número 2". Uma mulher morreu "de morte matada". O namorado abusivo a colocou numa situação de vulnerabilidade, em que era muito fácil isso acontecer. Um completo estranho, sem querer, matou ela atropelada. Quem tem mais culpa? Eu chego a pensar que o namorado é mais responsável que a pessoa que a atropelou. Só não sei como alguém vive normalmente tendo matado outra pessoa, mesmo sem querer. Nem tanto assim, no caso do filme, porque o cara era alcoolotra e esse era um risco presumido. 

Definitivamente, não consigo entender certas mentalidades humanas. Não sou perfeita, mas pelo menos tento acertar. A galera, de um modo geral, tá jogando pra cima, "sem pecado, sem juízo". Oremos. 


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Tá vendo quando eu digo que é difícil?




Tenho vários colegas psicoterapeutas e psicólogos nas minhas redes sociais, por conta dos cursos que fiz. Alguns deles são pessoas bem inteligentes e tal, mas vira e mexe os vejo escorregando numa casca de banana: todo mundo fala de transformação como se fosse caso de jogar um pó de pirlimpimpim em si mesmo, mas ninguém fala de onde vem/ virá a força psíquica (por vezes hercúlea) que uma superação de vida exige. 

O caso é que a gente não é o que quer, é o que consegue ser. Freud mesmo, em O mal-estar na civilização, afirmou que há pessoas mais talhadas para viver neste mundo que outras. Essa superação do meio ambiente e das experiências ruins do início da vida não depende só da decisão do indivíduo (mas, sim, acredito que tomada esta decisão, algum nível de melhoria a pessoa vai alcançar ainda que não o almejado). A transformação, essa alquimia do chumbo em ouro, depende da personalidade, do nível de energia psíquica que a pessoa consegue mobilizar e também - e nenhum terapeuta ressalta isso - do meio ambiente. Uma pessoa que teve um início difícil, uma construção do eu problemática, se ela cresce e continua num ambiente tóxico e recebendo porta na cara, sem a estima e valorização dos outros, dificilmente vai ter a força psíquica necessária para virar o jogo. Há seres excepcionais, mas a sociedade nem de longe é feita deles. Precisamos pensar as soluções para as pessoas ordinárias mesmo. 
A vida é a arte dos encontros, e precisamos deles também para mobilizar tanto as transformações externas quanto também as internas. Essa história de que sozinho a gente faz e acontece é mentira pura. Assisti, ontem, o penúltimo episódio de A amiga genial e a trajetória de Lila é um exemplo disso. Ela era genial, linda e destemida, mas foi esmagada pelas circunstâncias da vida, uma atrás da outra - e não foi por falta de tentativas de se reinventar e sair adiante. Ela deu muito azar nos encontros que teve. Do primeiro, com um pai abusivo, ela nunca conseguiu se desvencilhar, tornando-se um pouco como ele. A trajetória de Lenu foi muito mais branda, ainda que ela não fosse uma força da natureza como Lila.  
Frases do tipo "Você pode mudar a sua vida", "A raiva faz a sua vibração energética ficar baixa", etc, são bem intencionadas e podem até funcionar para algumas pessoas, mas são facas de dois gumes que podem também levar mais culpa e majorar a sensação de incompetência pessoal do indivíduo, quando há sobretudo um problema social. É como dizer que pessoas positivas superam o câncer. Se não consigo "vencer" a doença, escutando isso fico duas vezes fodido, me culpando por não ter sido positivo o suficiente. Sacou a problemática?
Essas frases feitas só funcionam pra gente no cume do desespero e dispostas a acreditar em qualquer coisa, em se enganar. Eu bem sei disso porque já joguei umas frases assim e deu certo com gente desse perfil aí. Mas dá certo momentaneamente, uma hora a realidade bate de novo à porta. 
Tá vendo aí porque eu digo que ser terapeuta é uma das coisas mais difíceis? Porque não basta ser inteligente, tem que ser sensível e também pragmático. Tem que aprender a sair da experiência particular para pensar a vivência personalíssima do cliente. A pessoa pode saber como viver pra ela, mas será que ela consegue pegar as pistas e racionar a vida alheia, dentro das questões daquela pessoa? É difícil conseguir alguém assim. Tem que ter a inteligência dos livros (sim, é preciso muito estudo) e de alma - de preferência, não ter religião porque isso queira ou não produz pré-julgamentos morais. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Que Xou da Xuxa é esse?

Tenho pensado nos últimos dias que não tenho nada mais a fazer aqui. Sério mesmo, sem depressão, sem dor, é só constatação franca. Eu tenho essa sensação desde nova, nunca tive um gancho com a vida, com o mundo, algo pra querer estar aqui mesmo. Sempre achei tudo meio bleh, sem intensidade, superficial, falso e principalmente sem graça. Mas fui ficando por curiosidade, inventando umas coisas pra passar o tempo. Quem sabe, né? Mas nada mudou e tenho quase certeza que nem vai mudar. O caso é que penso que não tenho mais nada pra ver ou fazer aqui. Minha criatividade em inventar as coisas cessou. Eu estava me questionando esta semana qual era a diferença de ter ido há 20 anos. O que eu teria perdido de significativo? Talvez ter conhecido meus sobrinhos e as viagens que fiz, e olhe lá. Isso não justifica uma existência, o trabalho que dá viver. Vou escrever algo que pode chocar, mas é verdade: se morrer daqui a dois meses ou amanhã, não partiria triste, não. Acho que ia me sentir livre das obrigações que estar vivo impõe e que nunca cessam. Ia ficar na minha nuvenzinha, lendo as coisinhas, vendo uns filminhos, fazendo uns cursos pra desenvolver alguns talentos e assistindo as fofocas daqui de camarote. Ia ser legal poder descansar, enfim.

(Pior que não dá nem pra ter esse papo com alguém. As pessoas morrem de medo de admitir isso, de olhar pra própria miséria e encenação)

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Abaixo a racionalidade

 Eu gosto da racionalidade até a segunda página. Racionalidade demais não funciona. Amo outra máxima: "Na prática, a teoria é outra". Pois é, nada mais verdadeiro que isso. 

A racionalidade é sempre do plano do que deveria, não cobre totalmente o que existe. Há sempre uma esfera do inapreensível e ocorre uma primazia das emoções sobre o mental. Aliás, por falar nelas, às vezes o excesso de racionalidade vira frieza, insensibilidade com o outro. 




segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Tempo é questão de prioridade

Ouvi essa frase uma vez e adotei: tempo é questão de prioridade. Mesmo que você realmente não tenha tempo agora, se for uma prioridade, uma hora a fila anda e a vez daquela meta chegará. Eu mesma sou assim. Se algo está verdadeiramente nos meus planos, vai entrar na pauta assim que der. 

Por isso que não acredito nisso de amizades de baixa manutenção. Não que todo mundo tenha que andar grudado, mas você esquecer que a pessoa existe e só falar com ela de caju em caju não é amizade. Isso tem outros nomes: simpatia, coleguismo, etc. Eu me lembro que antes de trabalhar em jornal, havia amigos que, pra qualquer convite, respondiam que não podiam por causa do trabalho. Entrei no jornal e realmente era uma rotina puxada, mas não deixei de ir pra nada que fosse importante pra mim. Quase nunca faltei nos eventos em que era convidada. Daí vi que era desculpa, não era realidade. Tempo é questão de prioridade. 

Hoje, na hora do jantar, uma amiga veio com o argumento de que entende as amigas com filhos que desaparecem. Olha, mantenho minha máxima, viu? Nos dois, três primeiros anos até dá pra entender o sumiço da pessoa porque um bebê é extremamente dependente, mas depois de crescida a criança, é escolha mesmo. Os amigos não fazem falta. No caso das mulheres, o papel de mãe é muito poderoso na cultura e possui um apelo imenso à psique. Não é de surpreender que a mulher fique absorvida 100% por essa função, inclusive em termos de relacionamentos. Muita mulher escanteia inclusive os maridos (não estou falando dos casos em que há egoísmo masculino e a esposa se vê obrigada a assumir tudo sozinha), justamente pela sedução do papel onipotente da mãe. Se a pessoa quiser delegar a vida, ainda mais se for mulher, a maternidade é o contexto perfeito. Você vive a vida do outro quase sem ser criticada. Aliás, só as muito atentas não vão cair nesse canto da sereia. 

Ninguém é obrigado a manter contato com ninguém, mas o que eu acho ruim nesse tipo de situação - muitíssimo comum - é que parece que as amizades pré-maternidade eram tapas-buracos. Não gosto de relações por interesse. Obviamente, todas as amizades são "interesseiras", mas num sentido de afinidades. Não gosto dessa coisa de usar os outros para obter coisas ou tapar buracos. "Cheguei onde queria, então não preciso mais dessas pessoas." Mulheres são mestres em fazer isso quando migram de status de relacionamento ou quando se tornam mães.  Vejo muito as pessoas "fazendo contas" até nos relacionamentos mais íntimos. "Ah, eu não me dou com os meus irmãos, mas privilegio eles porque é quem vai ficar comigo a vida inteira". Já ouvi essas coisas. Agora, me diz, se as pessoas partem de segundas intenções (ainda que muitas vezes nem percebam), como é que algo de bom e de duradouro pode florescer? O amor (de qualquer espécie) é caro, meus caros, não dá pra torná-lo barato, como dizia Junguinho.