Há coisas que deveriam pular fora de qualquer discussão. Um exemplo? A contestação chavão: "Ah, isso é uma generalização, comigo não é assim" (Zzzzzz...). Fica difícil pensar a sociedade sem considerar tendências gerais, apenas porque um grupo é assim ou assado. Não é porque acontece mais que vai ser a regra para todo mundo. Nada serve para todos. Pra mim, ressaltar isso é até dispensável de tão óbvio. Vou cortar na minha própria carne, pra dar um exemplo: as mulheres ainda ligam muito pra ter filhos e um casamento. Não é a minha preocupação número 1, embora eu realmente perceba essa tendência nas mulheres do meu entorno e na internet. Eu sou mulher e não tô contemplada por essa afirmação. Por isso, a tese está automaticamente errada? Eu posso partir da minha excepcionalidade para dizer, necessariamente, que a tese está errada? Aliás, há uma diferença entre ter um lugar de fala e se pensar como o sujeito universal. Uma mulher negra tem um lugar de fala, que pode não ser o majoritário, mas seu relato é mesmo assim real, é o que ela vive e percebe. Uma mulher branca contestando essa fala a partir da experiência dela é querer se pensar como o sujeito universal. Isso é, com ou sem ciência disso, desonesto.
E é isso: a gente avalia de acordo com um ponto de vista, de um lugar na sociedade e da nossa amostragem da realidade. Nenhum de nós, nem os mais preparados e especialistas, vai dar conta de toda a experiência humana. Outro exemplo: um amigo muito inteligente basicamente defendeu a tese de que crises existenciais se resolvem com bons e sensatos amigos, que não há necessidade de terapia. Ele resolve assim, graças a Deus, mas um monte de gente precisa e melhora a partir de terapia. Há controvérsias sobre a eficácia da psicanálise, por exemplo, e com fé, até pílula de açúcar cura. Esse é o tipo de discussão que, por mais que eu tenha uma opinião, de fato, ninguém ganha. Mas eu, pela amostragem que tenho e própria experiência, acho que terapia, se não resolve, traz mais avanços na autoconsciência do que um papo com amigos. Tem que ter a sorte de ter alguém bem atento a você, sagaz, com repertório compatível com a questão e que seja honesto na opinião. Eu acho que o terapeuta preenche mais esses requisitos que um amigo, mas eu não vou invalidar a tese dele só por isso, porque não é desprovida de sentido, mesmo pra mim, que tenho opinião contrária. Vejo uma argumentação boa. Vai que ele encontrou mesmo essas amizades iluminadas ou ele é melhor de captar conselhos do que eu? Mas as pessoas não debatem, elas não olham pra ideia, mas pra o que aquilo tem a ver com elas, confirmando-as ou negando-as. Somos muito autocentrados. Fato. Meta para 2018: parar imediatamente a conversa quando eu perceber que a pessoa não tá pescando meu ponto de vista e não tentar argumentar e me fazer clara. Eu saio de chata e a criatura vai continuar vendo apenas o que convém ou consegue ver. Improdutivo demais.
Enfim, ou eu sou uma idiota, sem noção, que tá pagando mico, ou tem uma galera que não consegue/quer ver além das aparências ou não está prestando atenção. Eu acho que em algum grau acontece a primeira, mas sinto que é muito maior o peso da segunda hipótese. Desde cedo eu convivi com um nível de sinceridade que as pessoas não estão acostumadas. Hoje eu percebo. E sinto que existem questões sobre as quais as pessoas nem ousam pensar sobre com sinceridade. Cada um tem um limiar de verdade. Quem sou eu pra dizer qual é o de quem? Nem eu conheço o meu. O que será que eu ainda não vejo, mesmo com uma sensibilidade mais alta que a média? Mas assim como a diferença entre "bons" e "maus" é quem tá a fim de ser melhor e quem tá se lixando, essa é a mesma diferença entre quem se acomoda e quem quer saber mais de verdade, por mais que seja desconfortável.
Como eu prezo pensar com a minha própria cabeça, como eu fico pra lá e pra cá pesando minhas percepções, tentando ser objetiva na medida do humanamente possível e da minha compreensão, até que realmente algo que pareça um bom argumento apareça, eu fico com a minha opinião. Já mudei de opinião várias vezes. Acontece. Mas isso não vai acontecer através de uma ressalva rasa do tipo "Ah, não é assim com todo mundo". Grow up e mostre serviço, né, baby.
Uma delas é que eu não me esforço mais pelo afeto de ninguém, e tudo bem. O que tiver que ser, será espontâneo. Não me esforçar não significa ser negligente, mas não forçar o que tá difícil. Tem que ser recíproco e fluir, sem sofrimento. Hoje, um colega com quem simpatizo muito não me chamou pra uma reunião na casa dele. Eu já convidei ele pra uma reunião comigo e outro amigo, mas ele não se mostrou muito animado. Ele é gentil, mas eu acabei aprendendo um dia desses que gentileza não é amizade. Gentileza é mais pra si que conexão com os outros. Até segunda ordem, eu só espero e opero na gentileza. E todo mundo se adora e a história termina bem. Essa é uma tese minha que eu defendo de todo coração. Sabedoria de vida, nem venha! #pas