quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A arte de abraçar

Eu adoro abraçar e amo mais ainda quando encontro uma pessoa boa de abraço. Mas como é raro achar gente que saiba abraçar. 
Meu tio Hugo sabia e nunca mais ninguém me abraçou com a energia dele; ele manjava deste paranauê. Batman, meu colega do colégio, sabia abraçar. Taurino, né, more?
Tá aí: homem hétero é ruim de abraço. Ou é aquela coisa de lado, sem graça, com os bróders, ou é aquela coisa maliciosa de quando quer pegar mulher. Mas aquela coisa gostosa, de aconchego, "homem sofá", é mais com as bichas.
Tem uma, assessor de imprensa em Salvador, que eu fui abraçar na despedida de uma pauta (tenho essa mania, que eu quero até parar, de beijar e abraçar o povo, pois nem todo mundo gosta, né?). Genteeeeee... O homem parecia que tinha uma almofada no corpo. Que pessoa gostosa de abraçar! Quase pedi mais cinco minutos de abraço. "Peraê, binho, só mais um pouco. Que que custa?"
As pessoas deveriam aprender a abraçar direito. Não custa nada, rei. É uma caridade fácil que se faz ao outro.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Por que algumas pessoas não vão embora de relacionamentos ruins?

Eu tenho uma amiga que sempre quando a gente conversa sobre relacionamentos, ela faz a mesma observação: "Ah, se A não deixa B é porque pelo menos um carinho há". Discordo quase totalmente.
Você não vai ficar num relacionamento em que não há nada para você, mas não necessariamente o que há é algo bom. Às vezes, o outro ativa um complexo seu e você fica justamente porque tem tendência a se maltratar, tem baixa autoestima e acha que é isso que merece, e então encontra esse outro que joga perfeitamente esse jogo vítima-algoz com você. 
Eu tenho 37 anos de janela, vi vários relacionamentos ruins acontecendo perto de mim (infelizmente, só uma minoria é boa, mas, graças a Deus, eles existem para nos dar um pouco de esperança). Na minha visão, há três motivos para as pessoas ficarem em relacionamentos disfuncionais:
1) O medo do desconhecido. Deixar o outro é quebrar um hábito, uma rotina, uma certeza, indo rumo a algo que não se sabe o que será; é fazer uma aposta na felicidade que pode não se concretizar. Ir embora causa mais apreensão, esse medo do que não se pode controlar é maior do que a repulsa à situação insatisfatória. Isso tem muito mais a ver com a incapacidade de lidar com o desconhecido do que vontade de ficar. Tem gente que está na merda e acha que se jogar pra cima poderá ficar pior ainda. Neste caso, quando a pessoa consegue reagir, é porque a situação já chegou ao extremo do extremo e ela finalmente sente que não tem mais nada a perder. Isso quando ela consegue, porque tem gente que vai morrer em agonia, infelizmente. 
2) Baixa autoestima. Com o tempo você se convence que merece aquilo, que não vai achar nada melhor e até arranja uns jeitos de se autoenganar quanto à situação, encontrando pretextos para desculpar pessoas e amenizar violências. Essa é a trilha que leva ao feminicídio, por exemplo. Muitas mulheres são mortas porque arrumam desculpas para as situações de maus tratos e confiam que o marido vai mudar um dia, ignorando a autodegradação e o perigo iminente. Quando convém, a mente mente pra gente. Hay que ficar ligado/a nisso.
3) A pressão social. Mesmo quando você tem certeza sobre o que sente e vê, não é fácil ir contra a sociedade. É pra quem tem muita personalidade e, sobretudo, pra quem suporta uma dose de solidão e rejeição, o que também não é confortável já que somos seres sociais e nos sentimos muito à deriva sem uma rede de apoio. Aliás, o problema é até mais fundo. Rede de apoio a gente pode até encontrar por aí, mas o fato é que não queremos a validação de qualquer pessoa, queremos a validação das pessoas que nos importam. Na verdade, esse 3 é a relação entre 1 e 2, tendo mais a ver com 1. Voltando ao exemplo da violência contra a mulher, muitas vezes, quando a mulher quer sair de casa, ouve de outras mulheres que lhe são próximas que ela está sendo errada, questionam a criatura sobre o que vai ser dela sem o marido (questionar é modo de dizer, pois essas pessoas são fatalistas quanto a isso) e etc. Nessas horas, muita gente boa desiste, com medo da rejeição do grupo, da culpa e da incompreensão. Tem que ficar muito atento/a a esse tipo de reação porque quando as pessoas reagem assim, no fundo elas estão falando mais delas do que de você. É o medo, provavelmente inconsciente, de que você saia do relacionamento ruim, seja mais feliz e prove a elas que tem jeito sim, jogando na cara delas que é preciso se movimentar pras coisas acontecerem.

Infelizmente, em muitos casos, o hábito é um motivo mais forte pra ficar na merda que o amor. Aliás, em casos como esses nunca há amor. Como dizia Jung, amor e poder não ocupam o mesmo recinto e onde há um necessariamente não há o outro. O nome disso que chamam de amor é dependência emocional, que é algo completamente diferente, disfuncional. Quando a gente ama, a prioridade é a felicidade do outro, não a presença, a posse dessa pessoa. Conheço poucas pessoas nesta vibe, até porque somos criados para a dependência e não para a generosidade.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Fêmeas e feministas

Várias mulheres de Hollywood e também de outras áreas de destaque resolveram romper o silêncio e denunciar casos de abuso e assédio. Claro, em meio a avalanche, há casos em que você percebe que tá rolando algo estranho, mas não são também a maioria, embora as feministas devam se ligar nisso, porque é tudo que algumas pessoas querem pra dizer que mulheres são histéricas e não sabem o que estão dizendo.
Alguns anti-feministas enrustidos, aliás, saíram do armário a partir de um manifesto de francesas, cujo nome mais famoso era o de Catherine Deneuve. A meu ver, são três as falhas desse documento:
A) Ao pedir empatia com os homens, elas não demonstraram nenhuma com as mulheres que denunciaram os casos, com as mulheres de modo geral. Por que diabos ter cuidado com eles seria prioridade?
Deneuve percebeu a mancada e depois se desculpou com as vítimas.
B) Elas demonstraram total desconhecimento da discussão em curso, o que pega muito mal, já que a carta é uma resposta à movimentação das americanas. Isso se reflete na confusão entre censura da arte, paquera e assédio. A pior parte da carta foi ter insinuado que assédio é uma paquera insistente, desajeitada. Chegar a essa altura da vida confundindo as duas coisas é de lascar, quer por ignorância ou cinismo. Só tem uma parte da carta que presta e é nisso que elas deveriam ter ficado, ao invés de tentar cagar regra errada sobre o quanto de abuso uma mulher deve aceitar de um homem: os limites dessa discussão em relação a arte. Eu, particularmente, acho que independente do caráter do artista, a arte dele deve ser consumida por quem quiser. Eu não gosto de Roman Polanski como figura, ele é a cara do homem asqueroso, estuprador. Mas contanto que ele não faça um filme fazendo apologia a isso, por que não?
C) Essas fêmeas defendendo os machos amigos não estão preocupadas com liberdade. Tão preocupadas com os caras, com a patotinha delas, com a própria imagem, já que estão atreladas a eles de alguma forma. Por favor, né!
E digo mais: se cavar um pouquinho, vai ver que tem homem por trás desse manifesto das francesas.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Parei

Eu estou muito cansada, são muitas atividades, muita gente falando, eu tô esgotada e de mau humor.
Vou tentar parar, vou procurar cortar tudo de superfluo.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

"Ninguém aqui é puro, anjo ou demônio..."

Só ouvi verdades neste trecho do hit de Sandra de Sá. Mas nem por isso:

1)  É justo botar todo mundo no mesmo saco. Tem gente que é semi-demônio e ainda bate no peito com orgulho disso;

2) Nem por isso deixa de ser legal quando as máscaras de certas pessoas que não se assumem caem. hehe

domingo, 7 de janeiro de 2018

bode expiatório

A hipocrisia é uma coisa que pula de tudo quanto é lugar. Como o ser humano gosta de ser inconscientemente e também deliberadamente hipócrita!... Cada dia é um exemplo diferente.
Um amigo meu ontem desabafava sobre a atitude de uma Fulana do trabalho dele. Ele disse algumas verdades inconvenientes no grupo do trabalho, sem endereçá-las a ninguém em particular, e essa colega falou, privadamente, a outro colega de trabalho que não era para ter colocado aquele "ser pesado" no grupo.
Isso é a cara da sociedade de hoje: todo mundo só consegue operar na superficialidade e fica evitando tratar de certas coisas, encarar o que é podre e evidente, mas não conveniente. Essa história é um exemplo claro de quando alguém procura outra pessoa para ser um bode expiatório. A pessoa não aguenta lidar com a situação, finge que ela não existe, vem outro e joga luz na coisa e ruim é quem jogou a luz e não a coisa em si ou quem a criou.  Sei... Tem jeito, não. Por isso que a humanidade não vai pra frente. 

seletividade

Ontem, falando de uma personalidade baiana negra que não faz nada sem postar nos stories das redes sociais, um amigo, ao admitir que tomou ranço dela, também ponderou que isso pode ser efeito do racismo.
Eu fiquei indecisa na hora, mas agora acho que é. Somos mais tolerantes com quem tem características aristocráticas e quase nunca percebemos isso, reproduzindo esse tipo de injustiça vida afora. Não que você não possa tomar ranço de uma pessoa porque faz parte de um grupo historicamente discriminado, mas porque uma outra figura semelhante, por ser branca ou homem ou hétero, não causa a mesma reação? Eis aí a injustiça.

Relationship

Vira e mexe, quando estamos comentando sobre um terceiro que está ausente, de alguma situação vexatória pela qual passou, falamos que "Fulano não tem autoestima". Mas eu acho que, na verdade, apesar de ter mesmo uns casos bem graves disso e até "crônicos", ninguém tem realmente autoestima. Soa até afetado à beça quando a gente diz que alguém não tem autoestima porque ninguém é bem-resolvido de fato.
Qualquer relação é difícil e há dois dentro de cada um de nós: o que é e o que deveria ser; o que executa e o que julga. E como em qualquer relação, há oscilação entre o descontentamento e o encantamento e a gente continua porque sente que ainda vale a pena ou porque é covarde mais até para ir embora.

Roda Gigante

Assisti ontem o novo filme de Woody Allen. Achei razoável, tenho a sensação de que ele anda se repetindo demais desde Blue Jasmine.
O filme, a meu ver, se segura na personagem e na interpretação de Kate Winslet, maravilhosa como sempre. Ginny, interpretada por ela, causa uma tragédia por uma omissão cometida por ela, movida a rancor, carência e ciúmes. Na verdade, não foi exatamente culpa dela. O crime aconteceria mais cedo ou mais tarde. Mas, ao querer atingir terceiros, ela acabou na verdade fazendo algo contra si mesma. Produziu mais uma culpa gigantesca para lhe esmagar pelo resto da vida - a personagem já havia se destruído amargando uma por anos.
Ter tido vontade de fazer o que ela fez foi completamente humano. Quase todo mundo teria se sentido tentado. Dada a irreversibilidade da consequência, a maioria teria se censurado, mas na maioria das situações desse tipo que surgem na vida, sem risco de morte, em que você tem a oportunidade de ferrar com alguém que te prejudicou ou de se dar bem às custas do revés do outro, a maioria, infelizmente, vai fazer que nem a personagem de Kate Winslet e fingir que não foi com ele/a, vai se omitir e deixar a bomba estourar.
Fazer o que é certo não é natural e muito menos fácil. Mas garante uma consciência tranquila e, eu acredito, evita a mão pesada da lei do retorno.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Estranho

Engraçado como o afeto afeta sua capacidade de se emocionar com as pessoas.
Outro dia, uma pessoa de quem já gostei e que hoje está bem mais para a indiferença que para a amizade, fez uma piada que em mim não produziu nem cosquinha. Em outros tempos, teria achado bacana.
Essas "mortes" são estranhas. Eu me surpreendo comigo mesma.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Incrível Huck (ou verde de raiva)

Eu juro que não é arrogância ou simples impulsividade. De vez em quando, eu pondero e me pergunto se eu não estou exigindo demais, sendo dura, esperando por coisas irreais, mas sempre que estou à beira da compaixão, aparece alguma história de egoísmo e crueldade pra me fazer perder de novo a fé no ser humano e querer explodir todos os idiotas em uma ilha só.
É gente sacaneando quem sempre estendeu a mão.
É gente sendo escrota de 1001 maneiras. Acabei de descobrir que havia uma página no Facebook chamada "Gostosas que amamentam". O que esperar? Como não perder a paciência com a humanidade?


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Letargia

Um dia, uma amiga minha foi questionada sobre como se deixou permanecer em determinada situação por tanto tempo. Ela disse que estava ocupada tentando sobreviver, o que já é muita coisa de fato, ainda mais em tempos de falta de solidariedade e neoliberalismo.
A questão é que conseguir sair de situações adversas é possível, mas exige um nível de energia e persistência sobre-humanos. Quem sustenta essa atitude durante anos a fio, sem nada acontecer, sem resultado? É psicologicamente insustentável. Hollywood faz filmes sobre gente que excepcionalmente consegue justamente porque elas são poucas.
Eu entendo a letargia, só não entendo que isso dure uma vida inteira.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Juízo (final)

Olha, se eu fosse falar sinceramente, 90% dos homens que eu conheço não me inspiram como parceiros em relacionamentos (ainda bem que cada um tem seu padrão e há sempre preferência pra tudo nessa vida); alguns eu já vi agindo com as namoradas/esposas e me deram certeza mesmo.
De tanto relacionamento ruim, cheguei à conclusão que um bom par é loteria e acho mesmo que minhas chances nela são mínimas, até porque não sou das mais empenhadas. O amor é para os otimistas, coisa que cada vez sou menos.
Mas às vezes boto malícia em relação a mim mesma e fico me perguntando se, sendo a vida traiçoeira como ela é, não corro o risco de um dia me envolver com um "the best of" tudo que mais detesto em um homem. Sendo humana e estando viva, claro que sim. Sinceramente, quando mais jovem, tive mais medo disso, mas hoje sabe que nem tanto? Quer dizer, contanto que seja por desejo, porque por carência é triste demais.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Eu não disse?

Um amigo, puto com uma colega do jornal, finalmente descobriu que, na prática, a teoria é outra dentro das relações travadas naquela redação. Eu sempre disse isso. Na mesa de bar, é todo mundo ótimo e sensível, mas, no frigir dos ovos, cada um só quer ver o seu lado. Sem remorso, sem nem ao menos considerar o lado do outro, nem que seja pra constar. É nesse tipo de comportamento que reside a dificuldade em lidar com o ser humano hoje em dia.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

24 horas

Ouvi falar muito mal de Andrea Dworkin, radfem americana, cuja máxima mais famosa é: "Mulheres, endureçam seus corações e aprendam a matar". Mas, lendo algumas frases dela, gostei de muitas, confesso. Encontrei até um discurso muito bom.
Lógico que ninguém gosta da ideia de uma Ramba, alguém que sai com uma bazuca exterminando qualquer potencial inimigo. Mas acho importante que as mulheres se defendam, que percam o medo de revide. E isso começa com as próprias mulheres. Experimente você, mulher, dizer a outra que está com raiva de algo. Vão dizer que isso é feio, que você tem que compreender, perdoar e etc. Ninguém acolhe a dor e a raiva feminina. Mas todo mundo passa do ponto de compreender esses sentimentos nos homens, mais até do que deveria.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Entendendo Paglia

Estou cursando uma disciplina do Neim sobre Gênero e Sexualidade que está sendo muito boa. 
Como tem muito texto de antropologia, várias certezas vão sendo dissolvidas através de informações históricas, inclusive provenientes de diversas culturas. Uma das coisas tristes de ver é o papel disciplinador, culpabilizador da medicina, da biologia.
Sim, amigos, não há essencialismos, não há culpas. Mas a medicina tenta fazer parecer que sim.
Enfim, consegui compreender meu incômodo com Camille Paglia: ela considera pontos do feminismo que, por conveniência, ninguém quer tocar, mas esbarra num erro de achar que homens e mulheres (e as demais "gavetas" da sexualidade derivadas dos dois sexos) têm uma essência e que as diferenças são explicadas pela biologia, pelos hormônios.
Basicamente Camille diz que as mulheres estão atrapalhando as relações com os homens, pois mulher é assim e homem é assado. Genteeee... Por que eu demorei de entender isso? Vergonha de mim. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Vingança pedagógica

Conversando com um amigo com quem ando conversando muito, ele falou que o namorado, escorpiano (risos), acha que a vingança é pedagógica. Na verdade, ele falou "vingança", mas não é disso que se trata. Ele quis dizer "lei do retorno", o famoso "sentir na própria carne".
Eu também super defendo essa tese de que o ser humano só aprende quando ele mesmo experimenta na pele. Tanto que, hoje em dia, eu não acredito que alguém vai me entender a não ser que passe por situação semelhante. Poderia acontecer sem isso, mas quem se dá o trabalho? Então muitas vezes é se fudendo que a pessoa vai lembrar de você, daquilo pelo qual você chorou, mas na época a pessoa achou (escondido, porque é feio dizer) que era manha de gente fraca, abestalhada. Toma, distraído!rs... Eu sou danada pra estar nesse tipo de situação. Eu falo, ninguém me entende, o povo me ignora, eu me sinto injustiçada. Mais pra frente, a pessoa passa igual. Alguns pedem desculpas pela falta de empatia no passado, outros ficam sem graça, mas calados. Mas a gente vê na cara que a pessoa se lembrou do que houve com a  gente. Eu não tenho prazer em ver ninguém sofrendo, embora lave a minha alma provar que eu tinha razão (injustiça não é algo fácil de lidar). Na verdade, quando vejo alguém no sufoco, apenas torço pra que o azar seja ao menos pedagógico, para que a pessoa aprenda um pouco. É o mínimo, já que sofrer é invariavelmente uma merda.

À beira do caminho

Hoje uma amiga da pós fez um texto bem autobiográfico falando da dor. Fiquei tocada, pois me pareceu um desabafo mesmo, um ato de vomitar uma emoção forte.
Concordo com ela que essa parece ser uma característica da vida; ao que tudo indica, vira e mexe vamos sentir dor. Nem todos vão conhecer o amor, mas a dor... Ô!... Em uma determinada hora a gente percebe que não é culpa de ninguém e que não há o que possa ser feito para exterminar - às vezes só para atenuar e olhe lá. Acho que a grande contribuição que a gente pode fazer para amenizar a dor do outro é não chutar cachorro morto, é não piorar mais. Por isso eu até concordo que se há alguém que pode fazer algo, é o dono da dor, mas às vezes é só Deus mesmo na causa. Nem todos são sortudos ou fortes ou espertos. É cruel culpar a pessoa pela própria dor. A gente erra por ignorância, não por vontade. De dor, ninguém gosta, mas alguns não conhecem outra coisa na vida.
Sei lá, me soa a uma economia neoliberalista da vida, é a mesma lógica de que todos precisamos criar nossos próprios empregos e sermos empreendedores só que aplicada à subjetividade. Empreender pode ser uma saída em situações de emergência, mas não é futuro de nenhuma coletividade, pelo contrário. Todos temos essa aptidão? Vá ver o ranking dos países mais empreendedores. Só tem países subdesenvolvidos. O que chamam de empreendedorismo é o antigo "vire-se". A esmagadora maioria dos empreendedores vão ter a subsistência, quase ninguém realmente criará um negócio. Do mesmo jeito nas coisas sentimentais: nascemos em circunstâncias que não escolhemos, enfrentamos circunstâncias que não controlamos e temos que ser responsáveis absolutos pelo que nos acontece, sendo que as nossas opções não são irrestritas assim: eu escolho entre as opções que me são apresentadas e não necessariamente há alguma boa; às vezes é o caso de escolher entre o menos pior. 
Então, acho cruel esse negócio de apontar o dedo pra pessoa, como se circunstância e sorte não fizessem parte da equação. Recebemos as coisas da vida na caixa dos peitos e fazemos o melhor que podemos - alguns com mais ou menos boa vontade, com mais ou menos sabedoria -, quase sempre com pouca ajuda, já que tá todo mundo tentando resolver as próprias questões. Somos os únicos "obreiros" dessa empreitada, mas discordo completamente que somos os únicos responsáveis.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Luzinha


Três anos de Luluzinha.
Dos meus sobrinhos, ela é a mais carismática, mas, ao mesmo tempo, a mais difícil de lidar. Bia e Felipe são quase unanimidade, não há o que reclamar.
Sempre ouvi dizer que quem ama não se importa com os defeitos. Quando Luísa nasceu, eu finalmente vivi isso. Ia até colocar isso numa legenda do Instagram, mas achei pessoal demais. (É isso, não dá pra acreditar muito em grandes declarações online, porque o que realmente importa não é fácil de ser dito, a não ser numa situação de êxtase/novidade, da qual futuramente a pessoa iria se arrepender ou no mínimo ponderar)
Uma vidente, uma vez, me disse que minha irmã não deveria ter o segundo filho, ou seja, Luísa. Ela veio. Não sei o que vai ser dela, mas acho difícil a gente lamentar. Criança não resolve a vida - pelo contrário, complica -, criança não te dá nada - ao contrário, demanda muito -, mas é uma presença poderosa. Eu não sei como seria sem Beatriz, Felipe e Luísa. Na verdade, o ganho pode ser abstrato, mas muito valioso, em forma de carinho, esperança e renovação. Acreditar que eles podem ser melhores já melhora a expectativa do futuro. E eu espero não estar errada. 😍🙏

Teses

Há coisas que deveriam pular fora de qualquer discussão. Um exemplo? A contestação chavão: "Ah, isso é uma generalização, comigo não é assim" (Zzzzzz...). Fica difícil pensar a sociedade sem considerar tendências gerais, apenas porque um grupo é assim ou assado. Não é porque acontece mais que vai ser a regra para todo mundo. Nada serve para todos. Pra mim, ressaltar isso é até dispensável de tão óbvio. Vou cortar na minha própria carne, pra dar um exemplo: as mulheres ainda ligam muito pra ter filhos e um casamento. Não é a minha preocupação número 1, embora eu realmente perceba essa tendência nas mulheres do meu entorno e na internet. Eu sou mulher e não tô contemplada por essa afirmação. Por isso, a tese está automaticamente errada? Eu posso partir da minha excepcionalidade para dizer, necessariamente, que a tese está errada? Aliás, há uma diferença entre ter um lugar de fala e se pensar como o sujeito universal. Uma mulher negra tem um lugar de fala, que pode não ser o majoritário, mas seu relato é mesmo assim real, é o que ela vive e percebe. Uma mulher branca contestando essa fala a partir da experiência dela é querer se pensar como o sujeito universal. Isso é, com ou sem ciência disso, desonesto.
E é isso: a gente avalia de acordo com um ponto de vista, de um lugar na sociedade e da nossa amostragem da realidade. Nenhum de nós, nem os mais preparados e especialistas, vai dar conta de toda a experiência humana. Outro exemplo: um amigo muito inteligente basicamente defendeu a tese de que crises existenciais se resolvem com bons e sensatos amigos, que não há necessidade de terapia. Ele resolve assim, graças a Deus, mas um monte de gente precisa e melhora a partir de terapia. Há controvérsias sobre a eficácia da psicanálise, por exemplo, e com fé, até pílula de açúcar cura. Esse é o tipo de discussão que, por mais que eu tenha uma opinião, de fato, ninguém ganha. Mas eu, pela amostragem que tenho e própria experiência, acho que terapia, se não resolve, traz mais avanços na autoconsciência do que um papo com amigos. Tem que ter a sorte de ter alguém bem atento a você, sagaz, com repertório compatível com a questão e que seja honesto na opinião. Eu acho que o terapeuta preenche mais esses requisitos que um amigo, mas eu não vou invalidar a tese dele só por isso, porque não é desprovida de sentido, mesmo pra mim, que tenho opinião contrária. Vejo uma argumentação boa. Vai que ele encontrou mesmo essas amizades iluminadas ou ele é melhor de captar conselhos do que eu? Mas as pessoas não debatem, elas não olham pra ideia, mas pra o que aquilo tem a ver com elas, confirmando-as ou negando-as. Somos muito autocentrados. Fato. Meta para 2018: parar imediatamente a conversa quando eu perceber que a pessoa não tá pescando meu ponto de vista e não tentar argumentar e me fazer clara. Eu saio de chata e a criatura vai continuar vendo apenas o que convém ou consegue ver. Improdutivo demais.
Enfim, ou eu sou uma idiota, sem noção, que tá pagando mico, ou tem uma galera que não consegue/quer ver além das aparências ou não está prestando atenção. Eu acho que em algum grau acontece a primeira, mas sinto que é muito maior o peso da segunda hipótese. Desde cedo eu convivi com um nível de sinceridade que as pessoas não estão acostumadas. Hoje eu percebo. E sinto que existem questões sobre as quais as pessoas nem ousam pensar sobre com sinceridade. Cada um tem um limiar de verdade. Quem sou eu pra dizer qual é o de quem? Nem eu conheço o meu. O que será que eu ainda não vejo, mesmo com uma sensibilidade mais alta que a média? Mas assim como a diferença entre "bons" e "maus" é quem tá a fim de ser melhor e quem tá se lixando, essa é a mesma diferença entre quem se acomoda e quem quer saber mais de verdade, por mais que seja desconfortável.
Como eu prezo pensar com a minha própria cabeça, como eu fico pra lá e pra cá pesando minhas percepções, tentando ser objetiva na medida do humanamente possível e da minha compreensão, até que realmente algo que pareça um bom argumento apareça, eu fico com a minha opinião. Já mudei de opinião várias vezes. Acontece. Mas isso não vai acontecer através de uma ressalva rasa do tipo "Ah, não é assim com todo mundo". Grow up e mostre serviço, né, baby.
Uma delas é que eu não me esforço mais pelo afeto de ninguém, e tudo bem. O que tiver que ser, será espontâneo. Não me esforçar não significa ser negligente, mas não forçar o que tá difícil. Tem que ser recíproco e fluir, sem sofrimento. Hoje, um colega com quem simpatizo muito não me chamou pra uma reunião na casa dele. Eu já convidei ele pra uma reunião comigo e outro amigo, mas ele não se mostrou muito animado. Ele é gentil, mas eu acabei aprendendo um dia desses que gentileza não é amizade. Gentileza é mais pra si que conexão com os outros. Até segunda ordem, eu só espero e opero na gentileza. E todo mundo se adora e a história termina bem. Essa é uma tese minha que eu defendo de todo coração. Sabedoria de vida, nem venha! #pas