sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Quem disse?

Tomando uma cerveja com o povo do Póscom, uma colega, muito gente fina, começou a contar sua trajetória profissional, que incluía artista nacionalmente conhecida, um programa esportivo, intercâmbio na Europa e uma oportunidade na África. Todo mundo, com os seus 20 e tantos anos e vida praticamente acadêmica, ficou boquiaberto... e meio melancólico, do tipo: "E eu? Que merda fiz da minha vida?".
Confesso que até eu fiz uma retrospectiva mental, mas me livrei rápido porque essa coisa andarilha não é algo genuíno meu, embora eu goste muito de viajar, de conhecer coisas novas. Mas até nas viagens, tem uma hora que quero voltar pra minha casa, pro meu aconchego, pra minha rotina. Sair por aí, pra mim, é uma fuga no meio da rotina, algumas vezes no ano, mas não é o que me preenche. E é bem por aí: a coisa vista como a mais maravilhosa do mundo pode não te preencher. 
Já me deparei com gente muito agitada e com um vazio enorme, latente. Já vi gente muito tranquila e que de tão preenchida, transbordava. O movimento pelo movimento não é interessante. Claro, ele vai te levar a algum lugar, mas pode ser um lugar que não te interessa, que não te acrescenta grande coisa frente ao desgaste que você vai ter. Às vezes evoluímos mais na quietude. É possível ter uma vida ordinária e cheia de significado.
Por isso, só vale a pena ir ou ficar se for algo do seu coração, genuíno. Minha colega fofa e experiente do início da história, inclusive, ressaltou isso ao final: se for seu sonho, se for seu sentimento, batalhe. É isso. O caso é que nem todos vão querer a mesma coisa e isso precisa ser respeitado. O caso é que nem todos vão descobrir isso e vão correr como o cão atrás do caminhão.
Quem disse que existe uma receita pra felicidade?

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Você não precisa namorar (ou noivar, ou casar ou qualquer coisa assim)

PS.: Eu, que adoro uma teoria, achei o argumento do texto muito bom. Sentimento é um negócio difícil de botar na caixinha.

Talvez seja culpa do instinto humano que busca categorizar e taxonomizar tudo, talvez seja resultado de séculos de doutrinação social, talvez seja até influência de todas aquelas madrugadas viradas jogando Super Mario, mas a verdade é que crescemos acreditando na vida como um sistema de fases.
Sim, fases. Etapas.
Aspectos da vida que se seguem e obrigatoriamente levam um ao outro, como em uma progressão natural definida antes mesmo de nascermos e que estamos obrigados a, no decorrer da nossa existência, seguir. Escola leva pra faculdade, que leva para um trabalho, que leva para a luta por um cargo, uma sala, uma mesa de frente pra uma vista que pode ser a do fundo descascado do outro prédio, mas que é sua.
Casa dos seus pais leva pra sua casa, que leva pra sua casa de casado, que leva pra uma casa com seus filhos, que leva talvez pra um sítio ou casa de praia, se tudo der certo, se você tiver conseguido aquela sala e aquela mesa do parágrafo anterior. A bicicleta de moleque vai te levar pra um carro que vai te levar pra um carro maior, que vai te levar para aquela picape de levar os meninos para o sítio -- também, tudo depende daquela sala -- e por aí vai.
Essa visão de etapas, de progressão lógica, que existe em todos os aspectos da sua vida também se aplica, é claro, ao aspecto pessoal dela. Sua ficada deve, em tese, se for boa, resultar em um namoro, namoro esse que deve chegar a um noivado que, claramente, vai virar um casamento, uma família padrão, em perguntas do tipo “mas e quando vocês vão dar pra gente um netinho, hein?” feita por tias idosas para quem você quer responder “e quando você vai cuidar da sua vida?”, mas não responde porque fica chato, ia destruir o clima da festa de final de ano, não ia ser bacana.
E essa progressão não faz, é claro, o menor sentido.
Primeiro porque, como bem sabemos, é sempre uma péssima ideia organizar pessoas, que são seres complexos e absolutamente distintos entre si, dentro de categorias ou processos rígidos e comuns. Conforme o tempo foi passando, descobrimos que quase todas as caracterizações e dicotomias que conhecíamos são restritivas, cruéis ou apenas erradas.
São mais de duas orientações sexuais, nem todo mundo precisa de 8 horas de sono pra ficar legal de manhã, não é todo relacionamento que precisa ser composto por duas pessoas, tem gente que acha os Beatles uma banda bem merda, uma série de dogmas e definições que a gente tinha como claras, mas com o tempo foi aprendendo que eram bem mais fluidas do que poderíamos imaginar.
Mas ainda assim, e mesmo sendo a nossa umas das gerações que mais lidou com quebras de paradigmas sociais até hoje, ainda é fácil ver que muitos de nós se sentem num certo nível propensos a tomar decisões na vida pessoal menos por sentirem genuinamente o impulso necessário e mais porque acreditam que seja isso que se espera deles.
Experimente falar com seus amigos casados e ver quantos deles não casaram “porque já estavam juntos fazia um tempo” ou porque “já tava passando da hora”. Veja quantos casais de namorados você não conhece que brotaram da mais pura inércia: “ah, a gente ficou duas vezes, ele continuava voltando aqui em casa, achei mais fácil dar uma cópia da chave pra ele”, ou porque queriam continuar apenas ficando mas se sentiam desconfortáveis em admitir isso, já que “se tá ficando esse tempo todo então é um namoro”.
Vai ser um número maior do que você imagina, mais do que gostaria e avantajado perante o que aqueles filmes do Telecine Touch tentaram fazer você acreditar.
Porque a verdade é que sentimentos são únicos, particulares e, por isso mesmo, impossíveis de categorizar. Você pode gostar muito de alguém e querer essa pessoa por perto, mas não querer ser exclusiva, e isso não invalida o seu sentimento e nem quer dizer que um goste menos do outro, apenas quer dizer que -- querendo os dois o mesmo tipo de relacionamento -- ele vai ser diferente do que se considera padrão.
Uma boa ficada não precisa necessariamente se desenvolver num namoro, da mesma maneira que um ótimo namoro não precisa resultar em casamento. Existem pessoas que poderiam ficar juntas para sempre se morassem em casas diferentes, mas um arrancaria a cabeça do outro em dois dias se resolvessem viver juntas.
E muitas vezes é essa necessidade de categorizar e de “progredir” nos relacionamentos que acaba fazendo com que as pessoas percam coisas boas.
Se ele não quer namorar contigo, não presta. Se ela não se sente pronta pra casar depois de 5 anos, não te ama. Se vocês estão ficando desde abril, mas ninguém falou em namoro, é porque não se gostam e mais diversas outras conclusões que tentam encaixar o que as pessoas sentem dentro de fórmulas e de necessidades que as vezes não são reais nem mesmo para aquele que saiu magoado da jogada.
Não, não estou dizendo que, para namorar ou para casar, você precisa estar sentindo níveis x de vontade ou y de necessidade de estar perto daquela pessoa, porque isso seria tentar também categorizar os relacionamentos alheios e me tornar uma versão romântica daquela tia chata da festa, coisa que acho melhor evitar.
Mas apenas que, em um assunto tão absolutamente pessoal quanto nossas decisões de teor romântico, é sempre importante lembrar que as vontades que realmente importam são as nossas e as das pessoas de quem gostamos e não algum ideal de relacionamento de amigos, conhecidos ou parentes. Mesmo porque, se a sua tia ficar te importunando com coisas assim, você sempre pode apenas acelerar o passo e ir pra outro cômodo da festa, dificilmente ela vai te alcançar naquele andador.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Mestrado

Confesso, me deu vontade de desistir.
Eu sempre tendo a resistir, mas a carne tá ficando mole, é a PVC (Porra da Velhice Chegando). Faltam as forças, a motivação. Quero deitar em posição fetal.
Quero uma vida mais tranquila. Agosto nunca é fácil e agosto de final de semestre promete ser muito menos. Deus me ajude!
É a última vez que me meto numa dessa. 😠

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Game Over

Perdi minha consulta, na última sexta, mas ganhei uma longa e proveitosa conversa com um velho amigo. E uma epifania: uma determinada relação da minha vida chegou ao fim. Não tem nada a ver. É hora de tirar o time de campo.

domingo, 30 de julho de 2017

Preguiça

"A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda."
(Mario Quintana)

Família goiana não é família baiana, eu sempre digo aqui em casa e para algumas seletas pessoas de fora. Pense nos mineiros, naquela coisa conservadora, temerosa, quieta, exigente. Sim, somos nós, os suplentes dos filhos da terra de Aleijadinho. 
Entre os valores que nós temos, está o trabalho. Duro, que seja. Pecado é ter preguiça. Virtuoso é quem é humilde e trabalhador. Em minha casa, nunca vi minha mãe parar de trabalhar, com exceção de quando ela teve problemas hormonais e teve depressão severa. Nem a empregada trabalhava direito lá em casa, pois minha mãe achava que tinha que dar o exemplo. Meu pai nunca admitiu faltar um dia de trabalho na vida. Em 15 anos, eu não me lembro. Doente, manco, em coma, com a mulher doente, ele ia. Aliás, minha mãe odiou quando ele se aposentou justamente por isso, porque ela não gostava daquele homem improdutivo. Dizia abertamente que ele tinha se tornado um preguiçoso.
Nem as pessoas mais tortas da minha família ousam ter a preguiça, de tanto que isso está incrustrado na nossa criação. Os agregados "boa vida" são mais apedrejados pelas línguas ferinas que Madalena na passagem bíblica.
Só me senti melhor que os outros, aqui na Bahia, uma vez na vida, quando meu professor de História, filho de espanhóis, confessou que dormia no carro, entre uma escola e outra, porque seus pais interpretariam esse descanso como vadiagem.
O lado bom disso é que me deu um senso de compromisso, mas, por outro, eu acabo levando a cabo coisas que eu não quero por causa desses "Tem que". E se não estou produzindo, me sinto culpada. Vadia. Menor. Eu não sei descansar, não tenho ócio, tô sempre arrumando alguma coisa para fazer. Como são mais coisas intelectuais, me sinto, indiretamente, julgada pela família, porque eles, que não sabem o que é estudar hoje em dia, pensam que é fácil. Ninguém nunca me disse frontalmente, mas todo o discurso aqui em casa leva a crer que estudar é luxo, esnobismo e coisa de gente preguiçosa, que não quer encarar a vida. Resultado: estou sempre cansada, fazendo mais do que meu corpo suporta (meu corpo, porque, pela mente, faria o triplo) e sempre frustrada com a minha preguiça.
Paradoxalmente, acho as pessoas da minha família preguiçosas. Eles são ótimos em sobreviver, mas não querem nada além de casa e comida. Mesmo minha irmã que ficou rica. Mesmo a outra irmã, que está morando na Europa, com muitas facilidades culturais. Mesmo minha tia com mestrado, só fica bitolada em miudezas, não tem vontade de se expandir. Mesmo minha prima mais ambiciosa, a ambição dela é totalmente externa, não prevalece a vontade de se tornar um ser humano melhor.
Eu preciso e adoro ser produtiva, mas odeio me sentir máquina, um bicho, um burro de carga, explorada, sem vida, sem subjetividade. Mas tenho que confessar: eu detesto as coisas do dia a dia, odeio atividade mecânica, odeio ter que dar manutenção ao corpo toda hora, queria viver no mundo dos Jetsons em que as máquinas até escovam os nossos dentes. Entre outros motivos, esse é um dos que me fazem não querer ter filhos. Crianças exigem muito isso, rotina, coisinhas pra fazer, eternas atividades de manutenção daquele pequeno corpo. Eu não aguento nem com o meu. Vou ficar pra titia. Quero me ocupar, ser produtiva, nas coisas importantes. Não me venham com mesquinharias. Em parte, além de natureza, acho que tomei pavor disso por causa das neuras de minha mãe com casa, com isso e aquilo.
Não tem jeito, vou andar com essa culpa da preguiça para sempre. Mas vou começar a fazer a "oração" de Mário Quintana, pra ver se me consolo.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Trauma

Além de tudo, tenho a "sorte" de ter epifanias sobre mim mesma. Só esta semana, descobri que realmente sou back trank na hora de dizer as coisas, quando perco a paciência e, há algumas horas, que tenho tendência ao trauma. Take a look na definição: 

É um tipo de dano emocional que ocorre como resultado de um algum acontecimento. Pressupõe uma experiência de dor e sofrimento emocional ou físico.

Glória Perez tem que botar um personagem psicopata em toda novela dela. É o trauma com Guilherme de Pádua. Ok, perder um filho é uma dor imensurável, mas ela perdeu outro. A diferença é que foi por doença, como Deus quis. A dor de Daniela não se resume à morte, mas inclui a traição, a mentira e, graças ao sistema brasileiro, a injustiça. Eu nunca passei por algo do tipo na vida, mas nunca aprendi a lidar com traição, mentira e especialmente injustiça. La reina del trauma. Deus, me poupe, que a pele, o coração aqui se ouriça fácil.


terça-feira, 25 de julho de 2017

Ressignificar

Gisele* postou uma homenagem ao marido, que morreu há dois anos e meio. Hoje completariam 37 anos de casados. Linda homenagem... aos olhos de quem não conheceu o casal. Não consegui curtir justamente porque eles fizeram um dos piores casamentos que já vi, muito abusivo, pura depreciação da mulher. Ele só não bateu nela, mas de resto... Por fim, ele ficou muito doente, mas mesmo assim ele não parou de torturar. Só que ela descobriu muita coisa errada que ele fez. A raiva desceu e ela não soube lidar. Foi a vez dela de humilhar, torturar ele. Por fim, morreu e ela se viu sozinha (já viu relacionamento abusivo gerar amizades, afetos ao redor?). A solidão e o arrependimento das grosserias ditas e feitas nos últimos meses desceu para o coração e ela caiu no fundo do poço. Chorava sem hora nem lugar. Hoje está bem, refez contatos, fez amizades, enfim, está tocando bem a vida.
Ouvir ela falando bem de um cara sádico me fez ficar com raiva. Eu, que curto até a mosca que passa no Facebook, não consegui. Me desculpe, mas não dá para ratificar tamanha falsidade. Ela ainda não entendeu o que fizeram com ela? Ou ela não quer dar o braço a torcer? Ou, quem sabe, ela está se forçando a ressignificar a experiência ruim, focando nas coisas boas? Eu não sei, não perguntarei e nunca saberei. Mas, apesar de gostar da ideia da compaixão, não gosto nem um pouco dessa mania feminina de querer perdoar a qualquer custo. Não é justo.

* nome fictício

domingo, 23 de julho de 2017

Admiração e indiferença

Era uma vez uma amiga, muito amiga, mas que tinha valores/atitudes incompatíveis com o que eu acho certo e despertava meu pior lado (sim, isso existe. tem gente que aciona seu melhor lado, tem gente que traz à tona seu pior e esse era o caso dela). A pessoa se aproveita da intriga de outra, que não gostava de você, para piorar a situação, ainda se fazendo de vítima (pior do que estar errado é ainda querer tirar onda de certo. eu me recuso a conversar, a negociar, com quem não consegue nem fazer o exercício da autocrítica). Você decide puxar o carro e procurar sua turma, e acaba realmente achando pessoas mais afins. Anos mais tarde, com a mágoa superada, resolve reativar a amizade. O tempo prova que "pau que nasce torto, nunca se endireita", e você perde de vez a admiração. Na verdade, se toca que a pessoa é pobre de espírito, não lhe acrescenta nada e só lhe aborrece. Lógico, como a criatura é difícil, o fim se dá de forma infantil e turbulenta. No fundo, você lamenta, porque não quer mal a ninguém, apenas não quer mais, como canta Lulu Santos, no entanto, mais no fundo ainda, até que vê serventia nisso, porque a coisa ficou tão feia que é impossível cair na tentação de dar uma terceira chance que, obviamente, ia acabar em briga de novo, porque a incompatibilidade é latente.
Dei essa volta toda para contar que, realmente, percebi que funciono, preciso, tenho que admirar quem tenho por perto. Eu, quando perco o respeito, fico desaforada; a língua vira chicote. Eu, sem qualquer pingo de admiração, estou lidando com o outro como se fosse um morto vivo: não escuto, não vejo, não sinto. É bizarro, mas vou te confessar: é libertador. Ainda mais para uma pessoa como eu, apegada, que sofro pra me desligar, mesmo de coisas/pessoas das quais preciso me afastar, apenas pela força do hábito, pela exigência interna de conciliação e resiliência (tô ficando de saco cheio dessa última parte). A pessoa do parágrafo anterior lançou um trabalho. Mandou trailer no grupo da turma. O marido me marcou na página do tal trabalho - nunca saberei se por descuido ou para provocação, mas isso não importa. E eu? Nem aquela curiosidade raivosa, de quem tem no outro um desafeto, eu tive. Nem pra ver se é ruim eu quis abrir o link. Indiferença total. Pode ir para Hollywood, que não me interessa. A pessoa, em si, já é broxante, nada mais a salva.
Outro dia, uma "mulé" que quis disputar um cara comigo há muitos anos atrás (coisa que eu não faço nem morta, me recuso a dar esse cartaz todo a quem quer que seja), me viu em um bar depois de muito, muito tempo. Faz anos que ela não está mais com o Fulano, mas fez questão de "ir duas vezes ao banheiro", em menos de 30 minutos, para ver como eu estava, se estava pior ou melhor que ela. Eu fingi que nem estava vendo. Nem comentei com minhas amigas. Ela sacou e, por fim, quietou a bunda na cadeira. Comportamento bem típico da pessoa pequena que ela é, o que passa batido por causa do status social que acumula e que as pessoas, ao que parece, valorizam (aquele velho papo sobre privilégio de raça e classe). Uma coitada; por dentro é mesquinha, bobinha, feita de vaidade. Olha a que a criatura se presta! Não dá, gente, nem para brigar com uma pessoa dessa. É muita mesquinhez, não tá no meu nível. Aliás, ela mesma, com a atitude dela, concorda com isso. Se não se sentisse por baixo perto de mim, não se daria ao trabalho de ficar me medindo. Fiquei feliz com a constatação, naquele dia, que aquele passado, aquela pessoa, já não me mobiliza. Só quero distância.
Gente, isso é muito legal. Recomendo a todos essa libertação. Indiferença rules!

segunda-feira, 17 de julho de 2017

domingo, 16 de julho de 2017

Estamos separando demais as coisas?

Nunca li a biografia de Winston Churchill, ex primeiro ministro do Reino Unido, mas adoro as frases de efeito dele. De ouvir dizer, admiro o vigor e a força mental dele diante de uma das épocas mais turbulentas do século 20. Tem que ter o espírito de um cavalo de corridas mesmo. Separei duas para compor esse post:
"As três coisas mais difíceis são: guardar segredo, tolerar injustiça e utilizar o tempo".
"Um homem faz o que precisa - apesar das consequências pessoais, apesar dos obstáculos, perigoso e pressões - e isso é a base de toda a moralidade humana".

Antes de falar do que eu quero falar, quero fazer uma ressalva aqui: não é que eu ache bobagem tudo que está acontecendo, todos os novos comportamentos, pelo contrário. Me preocupa não estarem fazendo o caminho de volta com essas ideias, não estarem problematizando elas também. O entusiasmo cego é que me incomoda.

Eu acho ótimo que a gente esteja se importando com os nossos sentimentos. Acho mesmo, porque eu sempre fui sentimental e tive muita dificuldade de ter essa minha característica acolhida. Saindo dos personalismos, é importante desconstruir as hipocrisias. Quando todo mundo finge que não sente nada, abre-se a porta para a violência, para a dor e a falsidade. Mas a gente pode construir uma vivência só baseada nisso? Porque às vezes fazer o melhor para todo mundo nem é fazer o certo, nem é fazer o que é mais fofo, nem o que a gente queria; é fazer o que tem que ser feito e que se engula o choro enquanto não atravessamos o inferno.

Bem, apenas posso pensar o mundo a partir da minha própria vivência, do meu próprio repertório. Eu digo que não. Gosto muito de ser alguém capaz de sentir, de ter empatia, mas amo a racionalidade que ganhei nos últimos oito anos, quando fiz terapia. Eu não estaria viva para escrever agora se não fosse por isso, eu não teria sabido lidar com as provações e as angústias. Eu não saberia me forçar a caminhar pelo inferno até chegar num lugar melhor. Por isso, acho que é importante a gente reconhecer emoções, mas não podemos parar nelas. Eu conheço muita gente boa que acha que bandeira social, por exemplo, é terapia em grupo. Que porque sofreu na carne, pensa que todo mundo tem que ouvi-la, concordar com ela, mas não é assim que a banda toca. Políticas dependem de coração, de ideais, de doação, mas muito também de estratégias, de sangue frio, de racionalidade em momentos decisivos.

E é nesse ponto que surge a minha questão: com essa onda de "abra seu coração" e "mostre-se como for", ainda vão sobrar os bons que serão capazes de fazer o que tiver que ser feito em tempos difíceis? Ou essa raça está entrando em extinção? Meu medo é que isso fique nas mãos dos psicopatas da vida, que terão coragem, mas nenhum coração. Aliás, nem faço questão exatamente de coração, de bondade, mas pelo menos de ideais e de valores, enfim, de alguma ambição de grandeza, de legado.



sábado, 15 de julho de 2017

Biologices

Outro dia, lendo uma entrevista de Camille Paglia, concordei com o ponto de vista dela sobre o uso de hormônios por pessoas trans, que seria uma luta inglória dado que o corpo daquela pessoa nasceu em um sexo. Ela mesma hoje se reconhece enquanto homem trans, mas acredita que hormônios e cirurgias não são a solução e que a biologia interfere, sim. Eu nem sei direito, para falar a verdade, se concordo mesmo. Acho que o mais razoável é dizer que o lado biológico tem que ser levado em conta. Isso a gente não zera. Entendo esse tipo de argumento do ponto de vista político, mas não do existencial. Por outro lado, acho que as pessoas merecem ter o direito de tentar. Se não for a escolha mais saudável pro corpo, que pelo menos seja a mais feliz pra alma.

Melhor, pior, pior, melhor

Fabrício Carpinejar 


Aquele que convive com pais mais velhos entenderá o que digo.
Eles são representantes da contraespionagem.
Podem falar a verdade em qualquer área da vida, menos quando abordam a própria saúde. Não há como confiar literalmente em seu estado. Pregam peças em abundância.
Tendem a piorar quando não é nada e subestimar quando é grave. Engrandecem o alarme falso e boicotam os chamados sérios.
Se têm uma enxaqueca agem com o acento de um derrame. Se têm uma indisposição já convocam uma coletiva com os filhos para adiantar o testamento. Se sofrem de uma gripe tapam o rosto com cobertor aguardando a caveira encapuzada e a sua foice.
Colocam uma lupa na letra miúda das bulas. Dor de garganta é câncer. Dor nas costas é osteoporose. Dor no ouvido é surdez.
Eu até prefiro o exagero ao menosprezo. Melhor um fóbico a um cético. A prevenção, ainda que errada, continua sendo um cuidado.
Os pais me complicam mesmo ao negar os seus ataques mais contundentes e menosprezar a autenticidade do quadro clínico. Encontram-se à beira da morte e fingem que é uma fraqueza passageira.
A pressão dispara acima dos 23 e procuram me convencer que é normal e que só precisam descansar um pouco. "É apenas uma tontura, vou tirar um cochilo e melhoro".
A desidratação avança no Saara da testa e a crise se reduz a um desconforto momentâneo, resultado de algo que se comeu no almoço.
Quando não estão mal querem correr ao hospital. Quando estão mal querem ficar em casa a todo custo. É enlouquecedor. No primeiro caso, julgam os filhos como omissos. No segundo, os filhos são autoritários e pretendem forçar internações.
Não tenho problema com o teatro, não me irrito com a invenção dos sintomas, desgastante é ter que provar a doença para o doente.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

My "tyager"

Pra quem não entendeu o trocadilho do título, é uma troca do prefixo "teen", que forma a palavra inglesa "teenager" (adolescente), usado para falar dos anos de adolescência, pelo "ty", usado na escrita das idades adultas. Neste caso, trata-se do processo de adolescência de pais idosos. Sim, eles não regridem apenas na altura, mas também no comportamento. E assim como acontece com adolescentes, é difícil lidar com os da terceira idade. E sem nem ao menos ter tido filhos, você se verá, de repente, pai de seus pais.
Fui a única a acompanhar esse processo de minha mãe, já que estamos as duas sós há 21 anos. Mais do que as coisas que ela poderia mas não fez por mim, me doem as que ela poderia e não fez por ela. Tudo isso se reflete numa autoestima frágil na terceira idade. Lição número 1: viva bem para envelhecer bem, porque você vai ter muito tempo para pensar no que fez ou no que não fez quando chegar lá.
Minha mãe tem uma saúde e um pique invejáveis e às vezes é até difícil se convencer de que ela já tem 70. Lição número 2: seja produtivo e ativo e tenha uma saúde de ferro. Ela e meu pai fizeram boas escolhas profissionais/financeiras que deram segurança material. Mas minha mãe meio que dormiu no ponto porque ela envelheceu ficando à mercê da boa vontade de meu pai. Lição número 3: viva o presente, mas não esqueça que a velhice vem aí e que, a priori, ela é só sua. No entanto, essa autonomia também tem seus efeitos colaterais: a falta de humildade, a dificuldade de compreender que, assim como uma criança, vão precisar dos cuidados dos outros para passar por isso. As coisas terminam como começam. Há alguns meses fiquei muito irritada com a rebeldia de uma senhora, perto dos 80, que fugiu do Barra, na pressa de voltar pra casa, sem avisar a filha, sem dinheiro e sem nem conseguir enxergar os ônibus. Mas esse é o comportamento comum de quem acumulou o orgulho de não depender de ninguém, pelo contrário. Lição 4: É preciso cultivar uma docilidade que lhe capacite a reconhecer que precisa de ajuda, que todo mundo, uma hora, precisa de ajuda.
Na velhice, eles ficam tão cheios de manias e rabugices quanto alguém de 15 anos. Pior: minha mãe, pelo menos, acredita que tem que ter privilégios porque é idosa. Eu tento explicar a ela que é confiar demais na sorte demais atravessar a rua com o sinal aberto confiando que os carros vão parar porque uma idosa está atravessando. E as coisas só prestam se forem feitas exatamente como eles querem, mesmo que isso não faça o menor sentido.
Idosos gostam muito de crianças. Não sei se é pelo efeito rejuvenescedor desse contato, que faz a gente lembrar da gente mesmo no passado, não sei se é porque essa gente pequena é que nem cachorro e aceita e retribui amor a troco de muito pouco, só sei que crianças, em especial os netos, dão outro sentido para a vida deles. Eu não devo ter filhos, mas já estou planejando dar o golpe nos netos de minha irmã. Ah, não tem diferença entre ser tia avó e ser vó, hehe.
Em relação às idosas (e desconfio que isso é absolutamente cultural, típico de sociedades machistas, como o Brasil), algumas coisas apertam meu coração de filha e mulher.
1) A solidão. Muitas delas são largada pelos companheiros por volta dos 50, 60 anos e nem encontram outro parceiro. Homens mais velhos encontram guarita em mulheres mais novas. Muitas nem conseguem se separar, por causa de dificuldades financeiras, e sacrificam a vida amorosa em troca de teto e comida, enquanto o "marido", com o aval da sociedade, curte todas da porta pra fora. E se a pessoa não se tornou uma pessoa interessante, não cultivou interesses e afetos, fica pior ainda. Sabe aquele idoso que fala um monte de abobrinhas e as pessoas fingem que escutam por obrigação, por pena? Não queira não, que é triste demais. Lição 5: Invista em você, pra não ter que encarar a solidão compulsória.
2) Beleza. Minha mãe não aceita que está envelhecendo. Ela, que nunca nem passou um batom, agora vive no dermatologista, passa creme no rosto, criou pânico de engordar um quilo. Meu pai tá mais detonado que ela e, como os homens da idade dele, se brincar, ainda tá se achando delícia. Essa prisão estética das mulheres brasileiras tem que chegar ao fim. Nessas horas, gostaria de ter nascido na Alemanha, onde ser interessante é mais valioso que ser jovem.
3) A sociedade. A turma é cruel e vai querer impor o que deve ou não deve ser feito. Graças a Deus isso já está melhorando muito, mas ainda temos episódios como o de Betty Farias, 73 anos, sendo hostilizada por ir até a praia de biquíni. Minha mãe também vai e irá até quando ela quiser. O problema é que o machismo não deixa ela em paz. Sempre tem um velho que começa a assedia-la por interpretar que uma senhora de biquíni e sozinha na praia quer "safadeza". Lição 6: mulheres, resistam. Ser é também um ato político.
4) Filhos canalhas. Sim, eles existem e mais do que a gente imagina. Abusam da carência dos pais pra jogar os netos pra cima deles, pra pegar o pouco dinheiro deles em próprio benefício. Alguns simplesmente esquecem que eles existem. Se for mãe, a ingratidão pode ser mais certeira: há filhos que a mãe faz 99%, mas eles se atêm ao 1%, fazendo o contrário com os pais, que serão endeusados por qualquer migalha que tenham jogado para a família. Isso quando, após anos de relacionamento abusivo, os filhos ainda pressionam a mãe a cuidar do pai canalha.
Enfim, folks, envelhecer não é bolinho, mas podemos fazer diferente. Se Deus quiser, vou ser dessas velhas que embarcam com as amigas em cruzeiros!🙌

Midialandia

Minha mãe, aos 70, é a mais nova residente de Midialandia, que está longe do Landia da Disneylandia. É algo na vibe Cracolândia.
Ela é viciada nesses canais de notícias (fales) do YouTube. Acredita em tudo. E teima. Eu explico, e nada. É o dia todo nisso, ou melhor, a noite. Acompanha a vida (amorosa) dos artistas e as sujeiras dos "senhores" do Planalto.
Não vejo a hora desse tablet quebrar, hehe.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Para sempre é quase nunca

Quando eu tinha quinze anos, queria muito ir pra Disney. Enchi o saco de meu pai, que não estava nem aí, e sofri. Hoje, nem penso mais nisso e, pra falar a verdade, seria o último lugar onde eu iria hoje em dia. Com o tempo, a gente esquece, com os anos, a gente muda.
Então por que as pessoas ficam cobrando congruencia o tempo todo? O tempo parou, por acaso? Se a gente parar pra pensar, não faz sentido.
O caso é que isso nos poda na expressão. Não posso dizer, por exemplo, que quero ter uma casa branca no campo, muito mesmo, porque se não acontecer, vou ser considerada uma coitada.
Ledo e Ivo engano. Vou provar: de quantas coisas você desistiu ao longo da vida e de quantas delas você realmente se ressentiu? É raro.
Tá vendo? Não faz sentido. Mais um caso de "o que os outros vão dizer" nos fazendo fazer sacrifícios ao nada.

domingo, 9 de julho de 2017

Tá ligado?

Minha mãe levantou a sobrancelha quando soube que uma atriz global largou a Medicina para ser atriz. Vocação, expliquei. Não adianta nada ir contra a própria natureza.
Bem, ela deu sorte. Porque só fazer o que gosta não basta. Amor com amor se paga, sacou?
O problema de apostar é que às vezes a gente não sabe direito o que está envolvido. A gente só vai enxergar mais para frente, quando tiver uma visão mais ampla. Mas, daí, paciência. Acho que é mais coerente estar ciente do que vai perder do que exatamente do que pode ganhar. De resto, é a vida.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Revolucionário é ser natural

No meu grupo de pesquisa acadêmica, há três grupos: os de 30 e tantos; os de 20 e tantos; os de 20. Desses três, o mais fechado, por incrível que pareça é o dos mais novos. São as pessoas menos simpáticas [só com quem interessa] e que agem como se fossem os fodões. Ok, Renato Russo já cantava "não sou tão criança a ponto de saber tudo", portanto talvez essa arrogância faça parte mesmo do jeitão de quem está chegando no mundo [embora não me lembre de ter sido assim]. Quanto mais a vida vai te desafiando, menos certeza [e prepotência] você cria. Bem, isso funciona para quem tem lucidez, coisa que nem todo mundo ganha conforme vai envelhecendo, infelizmente. 
Em todas as faixas, a minha impressão é de que é pior estar entre as pessoas se você é mulher. Minha sensação é a de que se você é um cara, basta você chegar e ficar como quiser, inclusive imóvel, que ainda haverá quem se preocupe se você está se sentindo bem ou não. Quando você é uma mulher, é obrigada o tempo todo a seduzir as pessoas, ou nem vai contar para elas. Tive essa epifania ontem enquanto estava no grupo de pesquisas. Ficaria eu tão preocupada em agradar If I were a boy, Beyonces? E quer saber? Foda-se. Começo a achar que o ato mais feminista, mais revolucionário que pode vir de uma mulher é se permitir ser como quiser. Essa ainda é a prerrogativa dos homens.  

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Beauvoir

Se eu já gostava do (pouco) que li sobre Simone de Beauvoir, depois de ver no Youtube uma entrevista dela a um canal francês, em 1975, fiquei mais admiradora ainda dela. Que clareza e articulação de pensamento!
Bem, basicamente ela fala muita coisa que as feministas hoje defendem, que as mulheres já se conscientizaram (pelo menos uma parte da classe média). Em termos de conteúdo, não há novidade para alguém vivo em 2017. Mas vale sempre ressaltar que ela apontava isso desde 1949. Se hoje já dá treta, imagine há quase 70 anos. Coitada! Calculo o que não deve ter escutado...
Há duas coisas, que passam quase despercebidas diante do restante do conteúdo feminista da entrevista, que chamaram a minha atenção. A primeira delas é o valor que Beauvoir dá à experiência de leitoras do seu clássico, "O Segundo Sexo". Parece que ela só se convenceu, realmente, de sua própria tese depois de todo esse reforço das mulheres, que lhe escreveram relatando suas histórias, algumas com medo de serem descobertas pelos maridos. Ela mesma faz uma confissão bonita, já que é tão raro esse nível de autopercepção e mea culpa, de que nunca, antes dos 40 anos, havia se tocado da opressão masculina porque justamente conseguiu escapar dos espaços que promovem esse tipo de violência contra a mulher.  
Nesse mesmo sentido, e porque vinha pensando muito sobre isso ultimamente, gostei da segunda observação, na qual ela diz que é difícil um homem realmente ser feminista porque simplesmente algumas situações lhe são estranhas, não fazem parte da vivência deles. Um homem tem dificuldade de perceber, por exemplo, o medo de uma mulher de andar sozinha à noite. Só uma mulher sabe do alívio que é olhar para trás, numa rua escura, e perceber que o passo acelerado é de outra mulher. Os homens não têm o medo da violência sexual que ronda as mulheres, feias ou bonitas, crianças ou velhas. Eles nunca vão entender a dimensão desse pavor.
E onde quero chegar com isso? Eu acho que devemos apontar a falta de empatia, sim, mas não podemos exigir que os outros nos compreendam na integralidade, porque cada ser humano é dono de um repertório bem limitado. Se você faz parte de uma minoria, seu repertório vai ser menos compartilhado ainda. Não tem jeito, muitas vezes a gente só compreende experimentando. Se fosse possível internalizar apenas ouvindo os outros, não precisaríamos viver tanto, passar por tanta coisa. Abrindo, aqui, um parenteses, aconteceu há alguns dias uma coisa comigo nesse sentido. Quando falava de uma determinada situação com um amigo que fazia parte dela, pontuando que houve injustiça, ele nunca reconhecia, dava aquele velho cala a boca do tipo: "Não sei por que ficaram sentidos com isso. Acontece o tempo todo". Por quê? Porque, provavelmente, reconhecer que houve injustiça com uns, na cabeça dele, significava que não era merecedor de ter sido poupado da situação injusta. E não havia nada a ver uma coisa com a outra. Ter sido poupado de uma injustiça não quer dizer que, necessariamente, sua posição seja injusta e privilegiada. É injusta e privilegiada só se você estiver fora dos critérios que justificam ter sido poupado. Havia gente assim na situação em questão, mas não era o caso dele. Bem, eu havia me resignado, pensando que era a típica situação em que a pessoa, no fundo, acha que é mimimi seu apenas pelo fato dela nunca ter sentido aquilo na carne. No fundo, a classe média, em especial, adora pensar que só se fode quem de algum modo mereceu isso. Pois bem, o tempo passou e o conjuge dele quase passou por uma situação parecida com a minha. Ele, me relatando a situação, fez indiretamente um pedido de desculpas, dizendo que a criatura era "igual a mim, que não era de puxar saco, etc", enfim, que éramos o tipo de gente cuja integridade às vezes joga contra. Ou seja, precisou acontecer o mesmo com alguém que lhe afetava diretamente para a figura ampliar a percepção da situação da qual eu me queixei, sair do ego e exercitar a empatia. E olha que é alguém que eu sei que gosta muito de mim. Então, o que esperar de um estranho? É contar com a sorte, na boa. Djamila Ribeiro cita muito, aliás, uma frase genial de Beauvoir (que as feministas de Facebook acham que é dela) sobre feminismo, mas que serve para muitas outras discussões: "Se a questão feminina é tão absurda, é porque a arrogância masculina fez dela uma querela (disputa), e quando as pessoas querelam, não raciocinam muito bem".
Enfim, precisamos lutar pelo impossível, pelo ideal, claro, mas tendo consciência das limitações. Quase sempre, a gente é o que pode, não o que quer e às vezes a gente está muito distante sequer de compreender que devemos querer essa mudança. A consciência não chega ao mesmo tempo e da mesma forma para todo mundo. Não se nasce consciente, torna-se consciente. É um trabalho de uma vida inteira.

PS: Tem uma terceira coisa que ela fala ao entrevistador e que é muito legal, que é quando ele diz que essas cenas clássicas de opressão no casamento se aplicam mais à América Latina que à França, o que ela desmente citando a experiência da irmã dela na periferia de Paris. É isso, nem todo mundo tá no mesmo tempo apesar de compartilhar o mesmo espaço. Há gente, em lugares do Brasil, ainda vivendo no século 19. Não estamos todos no século 21. Até isso é um privilégio.

Mas caramba!...

Se for parar pra pensar, 70% do sofrimento da gente vem do olhar dos outros. Tenha dó, viu? Por que o ser humano é carente assim? Arre!...

domingo, 2 de julho de 2017

Fade in

O tempo desbota tudo, ao ponto de, às vezes, a gente ter dificuldade de lembrar ou de reconhecer as imagens do passado. Já até comentei aqui que às vezes sinto que, dentro da minha própria vida, certas passagens são como memórias de outra encarnação.
Percebi isso na foto desse blog, que mal dá para ver a minha cara. Confirmei com as imagens que Talita enviou no zap da época da faculdade, há uns 15 anos. 
A vida é um rio, tudo passa e nunca um homem se banha duas vezes na mesma água. São tantos os banhos, que às vezes fica até difícil saber por qual ponto da margem já passamos, hehe.