domingo, 30 de julho de 2017

Preguiça

"A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda."
(Mario Quintana)

Família goiana não é família baiana, eu sempre digo aqui em casa e para algumas seletas pessoas de fora. Pense nos mineiros, naquela coisa conservadora, temerosa, quieta, exigente. Sim, somos nós, os suplentes dos filhos da terra de Aleijadinho. 
Entre os valores que nós temos, está o trabalho. Duro, que seja. Pecado é ter preguiça. Virtuoso é quem é humilde e trabalhador. Em minha casa, nunca vi minha mãe parar de trabalhar, com exceção de quando ela teve problemas hormonais e teve depressão severa. Nem a empregada trabalhava direito lá em casa, pois minha mãe achava que tinha que dar o exemplo. Meu pai nunca admitiu faltar um dia de trabalho na vida. Em 15 anos, eu não me lembro. Doente, manco, em coma, com a mulher doente, ele ia. Aliás, minha mãe odiou quando ele se aposentou justamente por isso, porque ela não gostava daquele homem improdutivo. Dizia abertamente que ele tinha se tornado um preguiçoso.
Nem as pessoas mais tortas da minha família ousam ter a preguiça, de tanto que isso está incrustrado na nossa criação. Os agregados "boa vida" são mais apedrejados pelas línguas ferinas que Madalena na passagem bíblica.
Só me senti melhor que os outros, aqui na Bahia, uma vez na vida, quando meu professor de História, filho de espanhóis, confessou que dormia no carro, entre uma escola e outra, porque seus pais interpretariam esse descanso como vadiagem.
O lado bom disso é que me deu um senso de compromisso, mas, por outro, eu acabo levando a cabo coisas que eu não quero por causa desses "Tem que". E se não estou produzindo, me sinto culpada. Vadia. Menor. Eu não sei descansar, não tenho ócio, tô sempre arrumando alguma coisa para fazer. Como são mais coisas intelectuais, me sinto, indiretamente, julgada pela família, porque eles, que não sabem o que é estudar hoje em dia, pensam que é fácil. Ninguém nunca me disse frontalmente, mas todo o discurso aqui em casa leva a crer que estudar é luxo, esnobismo e coisa de gente preguiçosa, que não quer encarar a vida. Resultado: estou sempre cansada, fazendo mais do que meu corpo suporta (meu corpo, porque, pela mente, faria o triplo) e sempre frustrada com a minha preguiça.
Paradoxalmente, acho as pessoas da minha família preguiçosas. Eles são ótimos em sobreviver, mas não querem nada além de casa e comida. Mesmo minha irmã que ficou rica. Mesmo a outra irmã, que está morando na Europa, com muitas facilidades culturais. Mesmo minha tia com mestrado, só fica bitolada em miudezas, não tem vontade de se expandir. Mesmo minha prima mais ambiciosa, a ambição dela é totalmente externa, não prevalece a vontade de se tornar um ser humano melhor.
Eu preciso e adoro ser produtiva, mas odeio me sentir máquina, um bicho, um burro de carga, explorada, sem vida, sem subjetividade. Mas tenho que confessar: eu detesto as coisas do dia a dia, odeio atividade mecânica, odeio ter que dar manutenção ao corpo toda hora, queria viver no mundo dos Jetsons em que as máquinas até escovam os nossos dentes. Entre outros motivos, esse é um dos que me fazem não querer ter filhos. Crianças exigem muito isso, rotina, coisinhas pra fazer, eternas atividades de manutenção daquele pequeno corpo. Eu não aguento nem com o meu. Vou ficar pra titia. Quero me ocupar, ser produtiva, nas coisas importantes. Não me venham com mesquinharias. Em parte, além de natureza, acho que tomei pavor disso por causa das neuras de minha mãe com casa, com isso e aquilo.
Não tem jeito, vou andar com essa culpa da preguiça para sempre. Mas vou começar a fazer a "oração" de Mário Quintana, pra ver se me consolo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário