segunda-feira, 5 de junho de 2017

Morre um panda...

... Toda vez que eu descubro que há assuntos que me tocam muito e esses são evitados por meus amigos mais próximos. Acho que sou uma mente doente, que gosta de olhar certos aspectos da vida que todo mundo dá dez reais só pra evitar.
Solidão existencial, mas, enfim, é a vida. 😒

sábado, 3 de junho de 2017

Clarificando

Estou gostando do mestrado em Comunicação e ando até orgulhosa da relevância das pesquisas que andam sendo produzidas aqui na Bahia. 👏👏👏
Mas está ficando cada vez mais claro que, apesar de eu gostar de Comunicação, de Jornalismo, não é meu meio, eu não me identifico com os valores, com as pessoas, com o tipo de vaidade. É hora de mudar de barco.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Meritocracia, o apego nacional

Acho difícil a gente se livrar do mito da meritocracia. É porque afeta o ego de quem não está no lado desvantajoso da história admitir que há desvantagem. Tem que ter um controle do ego que não é o comum. As pessoas costumam ler que se há desvantagem pra alguém, há vantagem pra outros, pra si, e isso tira o brilho da trajetória pessoal. Ninguém gosta de se ver ajudado. Todo mundo gosta de se pensar como o foda. Isso não existe, não como regra.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Orange is the new white

A gente segue a vida tentando ser boa e não arruma nem resfriado. Esse povo que mata e fica famoso sempre arranja quem casa, já reparou?

Visões

Um colega, gente gentil, comentou que parou de dar parabéns às pessoas no Facebook porque acabava caindo no vazio de parabenizar gente que ele não via há séculos. Entendo. A pessoa se sente até meio falsa.
Mas eu tenho outra visão dessa mesma situação. Eu dou parabéns a todo mundo, só não pra quem tranca a página para recados ou quem realmente não tem significado. Da esmagadora maioria dos meus contatos, eu gosto. Tem gente que eu não vejo há muito tempo. Justamente por isso, dou os parabéns, aumento o coro do "Feliz Aniversário": faço tão pouco por aquelas figuras, que as felicitações são uma das poucas oportunidades.

domingo, 28 de maio de 2017

Sagitário

Amo o signo de Sagitário, mas ele traz um problema: muitas vezes, sagitarianos acreditam que os fins justificam os meios, pois os fins interessam muito. Aliás, por isso se equilibra bem com Gêmeos (os meios). Outros pares do zodíaco significam (na minha interpretação, ao menos):

- Áries (eu) - Libra (outro): A difícil arte de amar.
- Touro (estabilidade) - Escorpião (intensidade): O equilíbrio dos prazeres.
- Gêmeos (meios) - Sagitário (fins): Tudo vale a pena, SE a alma não é pequena.
-  Câncer (intimidade) - Capricórnio (sociedade): Razão e Sensibilidade
- Leão (ego) -  Aquário (grupo): É dando que se recebe.
- Virgem (prática) - Peixes (fé): A fé sem razão fica cega e a razão sem fé, louca.

Fazer atenção

Como dizem os parisienses, é preciso fazer atenção. As pessoas levam as máximas espirituais muito ao pé da letra, quando na verdade são ideais que apenas alguns iluminados vão alcançar.
É o caso dessa história de que a gente tem que se resolver por dentro, se bastar. Sim, temos que caminhar neste sentido, porque ninguém vai assumir a tarefa da nossa felicidade, não há nem condição. Quanto mais nos fortalecemos por dentro, menos vulneráveis seremos ao externo. Faça isso mesmo, é uma excelente direção. Mas a eficácia dessa atitude tem limite, ninguém se basta em si mesmo, até porque só somos em relação ao outro. Vá você tentar manter-se firme no seu centro em meio a guerra e em meio a um ambiente em que tudo flui. Será a mesma coisa? Claro que não. Portanto, não saia por aí mentindo pra si mesmo e jogando missões impossíveis nas costas dos outros. Apenas.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Caso Ticiana

É chocante ver como o dinheiro pode insensibilizar um ser humano. Mas sabe o que mais me entristece nesse caso? Saber, ter quase certeza, que vários amigos e conhecidos da Facom seriam iguais ou piores nas mesmas circunstâncias.

domingo, 21 de maio de 2017

O que nos faz valorizar o bem?

Estou lendo agora (e deveria continuar fazendo isso, mas quero escrever antes que esqueça) um texto de psicologia social que fala do ego e da identidade. O texto diz que as nossas motivações vêm mais de dentro. Então posso supor que o que faz uma pessoa querer ser boa é a tendência à culpa, que vem quando não atingimos nossas idealizações sobre nós mesmos. O texto diz que para determinado grupo de pessoas, a recompensa está no controle e no destaque. Essas pessoas não estão interessadas em competência e boa perfomance. Interessante, porque elas ignoram o eu contanto que recebam atenção da sociedade. Isso esclarece muita coisa, muita gente.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Indiferença aguda

Graças a Deus (já era hora!), começo a dar menos importância ao que os outros acham de mim e a querer entender os outros. Acho que isso tem a ver com a proximidade dos 40, com a consciência que meu tempo é finito, que a juventude tá quase me dando adeus e que não há sentido em me desgastar com frivolidades. Isso me faz, curiosamente, mais generosa (de não me meter tanto nas questões dos outros) e também mais egoísta (estou menos inclinada a me preocupar com os outros).
Ser generosa custa muito. Mas, paradoxalmente, acho que, para muitas pessoas, custa mais cuidar da própria vida (e isso não é ser egoísta, pois esse tipo de sujeito quer, na verdade, que os outros se encarreguem das coisas que deveria cuidar sozinho). Não é o meu caso. Eu tendo a fazer, e por qualquer um, aquilo que entendo que tá na minha mão e que a pessoa precisa de mim. Raramente vou ceder em algo se eu entender que é pura preguiça de quem me solicita. Serei muito grosseira se resolver me fazer de cabide da sua bolsa enquanto andamos no shopping ou se me mandar buscar água na geladeira quando está mais perto dela do que eu e não está fazendo nada de importante nem está doente. Isso é egoísmo, é humilhar o outro, é querer folgar às custas dos outros. Tenho ódio mesmo. E, creio, não costumo fazer isso com os outros; evito.
Mas existe um tipo de generosidade que não custa nada e que, particularmente, gosto de praticar: de dar dicas e articular pessoas e situações. Se eu sei que você está procurando emprego e vejo uma vaga compatível, o que me custa avisar? Se eu sinto que duas pessoas combinam, por que não apresentá-las? A vida é trabalhosa para quase todo mundo, eu sei, mas fico triste porque vejo que a maioria das pessoas nem a isso se disponibilizam. Não custa nada, ainda mais em tempos de redes sociais, quando duas linhas já resolvem o caso. O que fazer quando a moda é a pura indiferença? Não sei e não quero saber, viu? Enquanto a resposta não cai no meu colo, vou cuidando do meu jardim.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Visão além do alcance!

Modéstia à parte, eu sei reconhecer potenciais. Pena que ninguém me escuta. Gente, não é porque eu não sei o que fazer da minha vida que não vejo direito as de vocês. :(
Há umas duas semanas, fui no show de um colega que eu não via, muito menos tocando, faz dez anos. No final, além de ficar surpreso de me ver ali, ele lembrou das coisas que dizia a ele, naquela época, quando me apresentou à namorada. "Amor, essa é Juliana. Ela foi uma das pessoas que mais insistia pra eu gravar quando eu morava em Salvador". Poxa, fiquei feliz em ouvir aquilo. Ganhei meu dia. Eu enchia o saco mesmo dele, mas a criatura só se convenceu quando recebeu um elogio público do ídolo na música.
Mas boa parte das pessoas não analisa esse tipo de informação, porque a opinião, se não tiver segundas intenções, é informação e às vezes pode ser da boa. Pena, pena, pena...

Presos pelo estômago


9 verdades e uma mentira

Salvatore fez a melhor lista, contando só babados com celebridades. Mas, apesar de abalada, farei também a minha lista de 9 verdades e uma mentira. Segura na percussão!

1- Já me convidaram para ser backing vocal de uma banda de forró
2- Troquei uma ideia com Collor, quando ele ainda era presidente
3- Assisti uma autópsia
4- Fui surpreendida por Alexandre Borges, enquanto estava distraída
5- Meu pai produziu show de Roberto Carlos
6- Minha mãe bateu a porta de casa na cara de Luiz Gonzaga
7- Ganhei um prêmio de melhor escultura no colégio
8- Fui sorteada 3 vezes no Show da Xuxa
9- Tenho pavor de galinha ou de qualquer animal que bique
10- Sei jogar tarot

domingo, 9 de abril de 2017

Pra debaixo do tapete (ou botando a culpa no espelho pela imagem refletida)


Faz alguns dias eu terminei "Os 13 porquês", série da Netflix que fala sobre bullying e suicídio. Há uma galera em campanha contra a série, dizendo que induz ao suicídio, e uma outra pirando na batatinha, fazendo projeções em cima da personagem. Ambos estão equivocados a meu ver. 
Não sei o que se passa na cabeça de quem se suicida, pois nunca tentei isso, embora já tenha pensado sobre. Mas imagino que a pessoa está imersa na dor. Guardadas as proporções, deve ser como um dente que dói demais, e você acaba arrancando em meio do desespero.
A série é real. Eu achei. Muita gente fica com a impressão de que Hannah não tinha motivos para se suicidar, que muita gente supera, mas a série justamente trabalha isso: as coisas podem bater diferentemente, a depender da personalidade de quem recebe a pancada, do contexto da vida dessa pessoa. Temos personagem que sofre e reage (Jessica); que sofre e tenta se matar, mas depois reage (Skye); que sofre e se mata (Hannah); que sofre e fica reativo com palavras (Clay); que sofre e quer atirar em todo mundo (Tyler... na segunda temporada, isso deve ser abordado); que finge que não sofre (Alex e Justin); que sofre e tenta reparar o erro (Sheri); e que nunca sofre porque é egoísta demais pra isso (Bryce). Enfim, tem para todos os gostos e tipos de personalidade. E também mostra o sofrimento de quem ficou e sofreu muito com a morte dela. Quem não teve vontade de chorar com a cena em que Clay, na imaginação dele, conversa com ela no dia da festa, ou quando chora debaixo do chuveiro, ou com a mãe dela encontrando-a morta na banheira, ou na outra cena em que quase abraça o sapato que a filha usou no baile da escola? De cortar o coração, sem dúvida. 
O único problema, apontado por uma amiga psicóloga, foi não ter mostrado nenhuma história em que a pessoa, com ajuda, conseguiu dar a volta por cima, embora a proposta ali seja claramente criar empatia com quem se mata, porque estigmatizamos e falamos muito mal de quem passa por tal sofrimento. A série é pra quem está fora e não dentro do problema. Talvez eles pudessem ter mudado o final, com Hannah tentando, mas não conseguindo se matar, se curando com ajuda das pessoas e de profissionais. Ficou faltando apontar saídas, embora esse não seja claramente o propósito dessa produção.
Gente que sente demais, mais sensível, é realidade em nossa sociedade. Só que o que impera, na prática, é a racionalidade. E como será que é sofrer num contexto desse, em que nem quem trabalha com saúde mental muitas vezes está disposto a se desapegar do deus da racionalidade, das respostas prontas que podem não caber a todos? Lógico que ninguém decide por ninguém, mas atitudes podem colaborar para engatilhar certas ações extremas. Efeito borboleta. As pessoas nem deveriam levar isso tanto para o pessoal, porque se estamos nesse mundo, é claro que temos efeito sobre os outros. As pessoas mais próximas, especialmente os pais, são os piores nesse sentido e muitas vezes não ajudam quem sofre não por não estar vendo, mas por preferir não encarar os fatos e a culpa que pode advir deles, por pura autoproteção. Foda. Não há invisibilidade maior do que não ser visto por quem você mais quer a atenção.  
E é com isso que a sociedade não aguenta lidar, porque vivemos numa era de desapego, em que ninguém quer ter trabalho com ninguém, muito menos ser exigido. O caso é que às vezes não é preciso nada além de sinceridade, reconhecer o que está acontecendo e, se for o caso, engatar um sincero "Me desculpe". Receber um pedido de desculpas, ser visto, às vezes resolve muita coisa. Qual é o custo real disso pra quem pede? Eu tenho antipatia por essa necessidade exagerada de atenção que as pessoas demonstram atualmente, mas, inegavelmente, somos seres relacionais, precisamos também de alguma validação do nosso entorno, ainda mais na idade dos personagens. O adolescente tem um funcionamento da mente, neurológico, inclusive, que difere do adulto. Nessa idade, a gente sente quatro vezes mais. Eu só conseguia pensar, ao ver a série, que eu sobrevivi. Mente de adolescente não é mole, não.
O intuito da série foi mostrar a realidade nua e crua, para que o choque realmente fizesse as pessoas pensarem, debaterem e se colocarem no lugar. Para que as pessoas vejam o potencial por trás de cada maldadezinha diária. Para que percebam que todos possuem seus sofrimentos e justamente quem faz sofrer também sofre (o único porquê que não dá pra perdoar, na história, é o Bryce, mas o restante todo se fode na vida em algum grau e o espectador acaba criando uma certa empatia por eles); gente feliz não sacaneia os outros. Casos como o de Hannah não são à toa: o bullying tende a ter como alvo quem visivelmente é frágil e essa pessoa é atingida não só por uma questão de temperamento, mas porque quem provoca o sofrimento geralmente é importante para ela. É a conjunção do desastre, de fato. Tem gente que não sabe se proteger do mundo externo e esse é um tema a ser enfrentado pela sociedade, por mais que seja doloroso, por mais que muita gente não entenda quem é diferente. Não dá mais pra varrer essas exclusões para debaixo do tapete, a não ser que a gente assuma logo (e consiga conviver bem, o que duvido) com o fato de que apenas certas vidas importam, não todas. 
Violências
Tem gente que ficou p. da vida com Hannah por ter tentado culpabilizar os outros colegas pela morte dela. Na boa, eu acho que quem disse isso, se identifica com quem fez o bullying na história, no sentido de não gostar de refletir sobre as consequências de suas ações com o próximo, de achar que cada um que se vire com suas dores.
O intuito primário da personagem, a meu ver, não foi esse. Ela quis ser vista, ser compreendida, não julgada. Se fosse uma fita com o intuito maior de se constituir em vingança, ela não teria feito ponderações aos personagens. Ela até pede desculpas, de certa forma, a Clay e confessa que gostava dele (ela poderia ter feito o que ele faz, ao ouvir as fitas: culpar ele). Ela não culpa os pais, por exemplo, que nada perceberam. Na medida do possível, já que está ferida, Hannah é justa. Só acho que ela pega pesado com Sheri, que não merecia ser colocada no mesmo balaio dos outros. 
E outra: vai querer comparar um desabafo em fita, que os destinatários poderiam muito bem nem ter escutado, com as violências físicas que ela sofreu, com todo mundo querendo meter a mão nela, trepar com ela a força, ou mentindo sobre a reputação dela pra todo mundo ouvir? Tirando Alex e Sheri, ninguém ali, mesmo depois de ouvir, nem se arrependeu. A dor foi pelo medo de ser descoberto, ser visto por todo mundo como realmente é, longe do modelo de perfeição que propaga. Só quem gostava dela se compadeceu e Clay foi longe demais na culpa, mas, enfim, coisa de gente apaixonada. 
A série sinaliza para uma segunda temporada, abordando dessa vez não as causas da mágoa, mas da raiva. Tyler promete fazer um Columbine, se vingando dos desafetos. 
Tyler é bem diferente, porque apesar de ter sido igualmente estereotipado, ele também é violento, um idiota, com os colegas, mas é incapaz de fazer uma autocrítica. Daí entra uma diferença de gênero, de como a cultura cria meninos e meninas: ao contrário delas que precisam falar, que querem colo, que tendem a se depreciar quando não são amadas, eles partem para o ataque externo, eles tiram a diferença com agressão física. Elas jogam pra dentro; eles, pra fora.
A seguir, cenas dos próximos capítulos...

domingo, 26 de março de 2017

Tia Má somos nós

Ontem Maíra Azevedo, vulgo Tia Má, estreou o espetáculo "Tia Má com a língua solta". Um amigo meu assistiu e disse que o texto é massa, que gostou muito. Ela praticamente faz o discurso da militância e fala das vezes em que foi rejeitada, desacreditada e desestimulada. 
Acho que a fama deve estar fazendo bem para a autoestima de Maíra. Sim, ela não é esse poço de segurança. Aliás, vaidade não significa autoestima e muita gente famosa está longe de ser um poço disso. Fato. Eu trabalhei com ela por quatro anos e posso dizer algumas coisas a respeito.
O jornalismo impresso gosta de gente com aparência de intelectual, e Maíra não é intelectual, embora seja uma mulher inteligente, com experiência de vida e que tem o que dizer. Ela nunca foi valorizada (mas também não precisa forçar a barra, agora, dizendo que é uma jornalista nacionalmente premiada, porque é uma meia verdade. Tira o sapatinho e põe o pé no chão, né, Bê?...). Enfim, Maíra era a pessoa com as qualidades erradas para o meio, embora seja competente como repórter, mas, de fato, o brilho dela está no carisma, no humor, na facilidade de se comunicar com o povão sem ser popularesca, sem nivelar por baixo, levando reflexão e informação. Acho que as mulheres, especialmente, tinham carência de alguém assim.
Gosto muito da definição de Wagner Moura sobre a fama, como aquilo que você sempre foi e, de repente, todo mundo descobre que você é. Muita gente extraordinária passa a vida sem que alguém tenha olhos para ela, até que vai lá, faz e prova que tem valor. Mônica Martelli, aliás, fala muito bem disso, sobre como foi muitas vezes rejeitada antes de fazer sucesso. É por aí: o mundo tem olhos para as coisas já consagradas, já batidas, conhecidas. Por isso alguns tem uma estrada mais curta enquanto outros precisam percorrer um longo caminho para se validar. Não dá para esperar pela sensibilidade dos outros, a motivação tem que ser interna, por mais que o caminho solitário doa às vezes.
As consequências psicossociais do machismo
Maíra sempre foi sensível às rejeições, que ela conta ter sofrido desde a infância. Quem nunca? Ser mulher é ser desacreditada, desestimulada o tempo todo, desde pequena, o que, se você não tomar cuidado, internaliza. Eu sei bem que minha sorte na vida foi ser antissocial, teimar mais em fazer as coisas do meu jeito do que em agradar os outros. Do contrário, estaria já a sete palmos, não suportaria tudo que já passei. Ninguém ganha esse jogo sendo mulher. Lógico, há gradações. Se você preenche os requisitos de boa fêmea, vai ser melhor tratada porque serve como mulher troféu. Mas nunca vai ter a sua humanidade reconhecida, de qualquer forma. Se você não preenche esses requisitos... Oh, meu Pai!... Deus te defenda, porque a lei dos homens, nesse caso realmente me referindo ao sexo masculino, vai te pegar de jeito e as melhores capitães do mato virão do seu próprio sexo. E eu não sou mulher?, você vai se perguntar a vida inteira, tendo como resposta apenas um eco.
Ser mulher é ser condicionada, desde bebê, a se pensar em relação ao outro, ao que ele acha de você, servindo aos outros antes de a si mesma, mas para passar a vida inteira tentando bastante e nunca sendo boa o suficiente. É inglório, é estressante, é humilhante, é desumano. Só quem passa e tem consciência (porque um monte delas prefere abafar isso, opta por se mutilar enquanto indivíduo para agradar) sabe. Os gays não saberão. Homens hétero... Para, vai!... Assim como eu nunca saberei o que é ser uma travesti, uma mulher trans. É um aprendizado de carne, de sangue e de nervos.
A sociedade precisa nos valorizar, até porque atuamos numa esfera altamente desgastante, essencial e pouco valorizada: a do cuidado. E ainda queremos ser reconhecidas como capazes de atuar em qualquer outra esfera. Queremos o direito à maternidade, que os homens sejam levados a assumir as responsabilidades deles e, no caso de mães sozinhas, que haja estrutura para elas e seus bebês. A falta de creches é umas das ações mais misóginas que um governo pode ter. Ah, sim: queremos ter o direito de não termos filhos e sermos tratadas com respeito.
Acho a fama de Maíra providencial, tanto numa microvisão, provando pra gente, do entorno dela, que tudo é possível, que coisas que nunca sonhamos podem acontecer. E numa abordagem macro, acho vital que mulheres comuns sejam valorizadas, mulheres suburbanas, com barriga +3, que cuidam de seus filhos sozinhas. Enfim, as heroínas do dia a dia precisam ser reconhecidas.

terça-feira, 14 de março de 2017

Sobre Mulheres e Dinheiro

Tenho uma prima exatamente da idade de minha irmã do meio. Ambas são bem parecidas na personalidade, até, mas diferem em uma coisa básica: carreira. Minha irmã sempre foi boa aluna, já a prima passava arrastada. As duas são tão parecidas que começaram a namorar na mesma idade. Pois é, minha irmã não se impressionou com o namorado rico e foi se formar, construiu carreira, sustenta a família. Minha prima continuou com o namorado rico, e vive uma vida, pela qual minha irmã tem que pagar, às custas do marido.
Pessoalmente, acho as duas situações inadequadas. Ninguém deveria sustentar ninguém, pois é um peso grande demais. Quem é sustentado também não vive uma boa situação porque está na dependência. Vai ficar obrigado a aceitar o que não quer porque precisa e pode perder o mantenedor a qualquer momento, afinal, toda relação pode acabar. O ideal é que homem e mulher dividam as coisas. Claro, há situações e situações. Se você é casado com alguém que dá duro e o ofício dessa pessoa não dá a mesma boa remuneração que você tem, é uma coisa. Sou contra alguém folgar enquanto outra pessoa se lasca. Isso só pode acabar em desrespeito, ressentimento. Em todos os casos, o fato é que se nenhum dos dois reclama, ninguém tem nada com isso.
Mas toda vez que o assunto surge aqui em casa, há um conflito de valores que envolve gerações e eu acho bem interessante. Minha irmã acha que minha prima é interesseira, afinal, quando namoravam, ela dava muito corno nele. E ela raramente publica fotos dos dois no Instagram. Enfim, ela acha que a fulana tá ali, "luxando", sem amar, mas pela boa vida que o marido proporciona. Afinal, sozinha, ela nunca poderia bancar a vida que tem. Minha mãe, que nunca trabalhou fora, se dói, diz que ela vive viajando porque entrou pra igreja e que o povo evangélico é corda de caranguejo e blá blá blá. Mas minha mãe, embora nunca tenha tido a responsabilidade de garantir o dinheiro, ficou com a maior responsabilidade na família: pela administração da casa, pelos cuidados com as filhas, especialmente os emocionais, oferecendo apoio emocional ao marido, que só tinha que se preocupar em trabalhar, um trabalho que ele só perderia se fizesse besteira, já que tinha estabilidade. Minha prima não tem o mesmo peso pra carregar. Bem, minha irmã é de uma geração que refuta esse modelo de mulher, que liga a falta de carreira à ociosidade, a problemas de caráter, realmente. Mas que acaba invertendo os papéis só para reafirmar poder, sem perceber o desequilíbrio.  
Eu sou da mesma geração de minha irmã e também tenho dificuldade de admirar dependências. Mas vamos falar francamente e de forma mais ampla: todo ser humano gosta de moleza (vide a quantidade de homens encostados em suas mulheres que vemos hoje), mas é fácil dizer que as mulheres são parasitas quando o mercado de trabalho ainda é ruim com elas, na medida em que os piores trabalhos ainda são feitos por elas, em que são mais exigidas que os homens e ganham 30% menos. É claro que num cenário assim, esse tipo de prostituição conjugal vai ser visto como uma boa opção. E não se engane, tudo tem um preço. Gente assim paga com o amor próprio e isso não é fácil, não.

terça-feira, 7 de março de 2017

Nem todas as vidas são iguais

Aos 30 e quebrados (mais para uns, menos para outros), vejo que meus amigos já estão cansados, precisando, mas sem muita disposição para recomeçar.
Alerta: eu ando com o "baixo clero", gente de classe média baixa, classe média média, que vem superando os pais em escolaridade.
Meu amigo de 32 anos diz que se lenhou muito fazendo a faculdade, que não tem mais energia para recomeçar. E se fosse só a questão da profissão... A depender da sua configuração social, você vai sofrer duas vezes para conseguir, quem sabe, chegar lá, materialmente e subjetivamente. Não é só o ônibus de Lauro de Freitas ao Canela que cansa, mas ser invisível e subestimado de tantas formas.
Daí, quando você considera as dificuldades para se chegar a determinado objetivo (porque já está, afinal, cansado de ter subido outras "ladeiras"), sempre tem um escroto que vai dizer que quem quer, consegue. Sim, consegue, se houver uma determinação descomunal e ainda uma pitada de sorte. Mas, me diga, quem tem coração para sustentar, 40, 50 anos, assim? O corpo é de carne e a carne envelhece, se desgasta, cansa. Tem gente que não sabe o que fala. Ou melhor, não sabe nada da realidade ao redor.
A gente ignora coisas básicas como, por exemplo, que as qualidades não são exatamente dons de nascença. Elas precisam de contexto para florescer. Aprendi isso no trabalho, a propósito. Coragem, por exemplo, não é uma coisa para todos. Cada um tem uma situação na vida. Ali, no trampo, eu era corajosa porque não tinha apego demasiado ao trabalho, possuía a capacidade de ver os maus feitos e não tinha nenhum dependente pra sustentar. Para outras pessoas seria mais arriscado e, para outras, inconveniente. Outros eram incapazes de reconhecer os problemas.
Ser doce. Isso depende não só da personalidade, mas de condição social. A vida dura não produz muita gente meiga porque exige força, persistência resistência.
Não é possível que seja coincidência que mais gente violenta nasça na periferia que na classe média. Isso não é coincidência, é um problema, um padrão.
Só não vê quem não quer.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Deixem Ivete Sangalo em paz

Quase todo mundo gosta de Ivete Sangalo, mesmo quem acha um saco ela viver em cima do muro e desconfia que, como empresária, seja meio predadora pelas histórias que circulam por aí. É que ela tem carisma e, no meu caso, chama também a minha atenção a lucidez dela, que eu acho rara num meio em que as pessoas são vaidosas e sem noção.
Mas o Brasil pira a cada ato banal da cantora. Eu não entendo, porque acho natural fazer coisas normais, ainda que você seja rica e famosa. Isso não é ser especial, é ser lúcida, normal, equilibrada. Como muitas vezes acontece, a histeria fala mais sobre o histérico do que do objeto que a impulsionou. O brasileiro acha que poder não deve rimar com simplicidade, que quem tem dinheiro e fama nunca pode agir naturalmente. Não é só se ver nela (na condição de "pobre", hoje), mas reconhecer, ainda que inconscientemente, que, uma vez no lugar dela, não agiria do mesmo jeito que hoje. Ai, Brasil!...
Na moral, a única coisa que me choca em Ivete é ela ter tanta paciência com gente. Isso, sim, é impressionante para os dias atuais (risos).

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Nada a ver (ou O que querem as mulheres)

Mulheres, como os homens falam merda sobre a gente. Impressionante!... Estava lendo um texto bacana sobre o tal macho alfa e quanto homem falando babaquice nos comentários.
Homem se ilude que dinheiro e fama vão atrair qualquer mulher, por mais babaca que ele seja. Não é bem assim. Mulher que segura essa onda - pra mim, pelo menos, seria um martírio - quer um "homem troféu" assim como esse homem quer uma "mulher troféu". Parece que muitos cristalizam os traumas da adolescência. Mas muito do que eles nos acusam a gente também sofre. Você pode ser a melhor das mulheres, que se não tiver atrativos físicos vai dançar. Eu vejo muito mais mulheres com caras inferiores a elas que o contrário. O pior homem terá uma mulher, no mínimo, melhor partido que ele. É que nós nos esforçamos mais. Aliás, se a coisa não estivesse tão fácil para eles, elas não se sentiriam tão pressionadas a alcançar a perfeição.
Lógico, no começo da vida, quando você é adolescente e está tentando se testar, você vai ligar pra gente que é mais apreciada socialmente, querendo sugar esse prestígio. Mas, com o amadurecimento você percebe que isso conta pouco, que o que vale é a pessoa te valorizar, é o encaixe de personalidades e expectativas. Tá certo que eu sou um ser que tende a uma lógica pouco popular na sociedade, mas mesmo quando era adolescente, o modo como me tratava era preponderante para me despertar sentimentos. Olha, por um par de vezes eu percebi que despertei sentimentos em rapazes considerados bonitos, um deles era bastante disputado na escola, acho até que era o mais disputado (esse é o lado A de ser uma mulher estranha: a maioria não vai ter olhos para você, mas quem tem se impacta porque justamente há algo diferente ali que não se encontra fácil). Eu achei legal, claro, desse último eu até gostei muito, mas não fui atrás porque não demonstraram fazer questão de mim, além de não saber muito o que fazer nessas situações até hoje, confesso. Você pode dizer que isso é antiquado, mas para mim é muito importante. Sempre observei que, num relacionamento, as mulheres costumam tomar à frente depois que o namoro começa, então se um homem não está disposto nem a dar o primeiro passo, que posso esperar dele?
Não posso falar por todas, obviamente, mas creio que, como canta Tina Turner, o que toda mulher quer é "a little reaction". É ação, vontade de estar junto. Isso não tem nada a ver com agressividade, com ansiedade, com ser chato ou fake. Seja você mesmo, mas esteja presente. Apenas isso. Um homem bacana, que demonstre amar sua companheira, responsável e com quem ela possa contar. Simples assim (lembrando que a questão da química física também é importante, não dá pra ficar com quem você não sente tesão e ninguém é obrigado a isso, né?). Mulher, via de regra, se excita percebendo que atrai o homem. Bem, se a mulher é competitiva, vai gostar de tomar a iniciativa e, principalmente, de disputar o macho com outra. E isso tá mais para vaidade que para amor. Se for do meu clube, vai interpretar a falta de atitude como falta de interesse e vai brochar com isso, afinal, quem te quer de verdade não te põe em dúvida, em bola dividida.
Enfim, a coisa não tem e tem segredo ao mesmo tempo. Mas se nem todos são agraciados com beleza e status, a maioria pode se tornar charmosa, se se despuser a isso, claro.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Manifesto 08 de março

Fiz um teste hoje que perguntava qual era o meu tipo junguiano. Deu "o rebelde". Bem, se você olhar pela descrição clássica, estereotipada da coisa, não vou ter nada a ver com isso. Mas se considerar que eu sempre me esforço a pensar por conta própria e sigo um caminho bastante próprio, apesar das cartilhas sociais... Nada mais subversivo nesse século 21 de performances sem substância e repetitivas facilmente aplaudidas nas redes sociais e de confrontos de "facções" ideológicas.
Eu vejo dois grupos distintos, basicamente, disputando o palco da esfera pública, atualmente: um, dito mais progressista, defende avanços nos Direitos Humanos e quer parecer civilizado; o outro deseja preservar as tradições e quer soar sério, sólido e imaculado, à prova de "modismos". Dá vontade de dizer aos "apocalipticos" que a liberdade também tem as suas armadilhas, como tudo na vida, e que é um processo, portanto não adianta querer que as coisas aconteçam de uma hora para outra. Mesmo as pessoas de coração aberto vão levar tempo, porque, a propósito, não existe desconstrução, como andam dizendo por aí. Existe é a construção de novos pensamentos e valores e isso não se faz usando varinha de condão, mas aprendendo, confrontando saberes e assimilando aos poucos os novos hábitos. Dá vontade de lembrar, ainda, que defender ideais de liberdade não faz ninguém automaticamente melhor, até porque tem um monte de gente "desfilando nesse bloco" sem saber quem é e o que quer, apenas seguindo a manada porque, justamente, estar nesse roll confere uma aura de civilização, sofisticação, um selo que vale muito para quem quer fazer parte de alguns meios e ser considerado por um certo tipo de gente. Olhando algumas dessas pessoas atentamente, é impossível não notar que, na prática, a teoria é outra. Para o grupo que anda mais magoado, ressentido e deprimido (pela recente exposição das suas mesquinharias e agressões ao longo da História... Bem, um dia a casa tinha que cair mesmo...), o recado é mais breve: Migos, ninguém quer mexer com vocês, não pirem na batatinha achando que há complô gayzista, cristofóbico, maconheiro e feminazi. Ninguém estaria nem aí para vocês se não quisessem tanto atrapalhar as decisões dos OUTROS, que nada tem a ver com vocês. Acho bem razoável que cada um viva como quer. Problema seu se os seus valores estão caindo em desuso e parecem menos atraentes ao longo do tempo, se seus privilégios estão diminuindo, como, aliás, tem que ser. Você não deveria se indignar tanto quando uma minoria aponta a sua opressão histórica, as vantagens que arrancou à força, porque essa história não é só dos privilegiados, mas dos oprimidos e, portanto, é bastante razoável que eles tenham o direito de contá-la. Uma dica: faz parte da experiência humana, é pra frente que se anda (às vezes), mesmo que seja pra dar topada. Assim como pra turma dos "apocaliptícos", é conveniente destacar que ser um "integrado" não te faz automaticamente uma pessoa melhor, séria e respeitável. Isso é conquista de uma vida, um esforço contínuo e existem vários modos de viver uma determinada faceta, não há fórmula pronta como vocês acham que existe.
Minha sensação é que estou entre dois mundos. Porque eu tenho valores e sentimentos que são considerados anacrônicos, antiquados, segundo a cartilha dos civilizados. Sabe, acho legal ser vegano, mas não vou me violentar, se eu sinto falta de produtos de origem animal, para parecer um ser humano melhor, até porque - ok, parabéns para quem consegue - não é isso que faz alguém ser melhor. Por outro lado, acho doentio esse apego ao passado, à tradição, vejo mais sentido em lutar pelo que ainda não se experimentou - embora a mudança pela mudança às vezes não seja interessante, não represente ganho - do que ficar abraçado ao que está limitado, por costume, por medo, por teimosia. Só sei que eu já aceitei que não adianta me forçar a nada. As coisas vão acontecer no meu tempo e do meu jeito. Eu gosto muito de pensar com a minha própria cabeça, odeio me ver pressionada a ser como alguém (ns) espera(m).
E é isso que para mim é ser uma pessoa do meu tempo. É, diante da gama de informações e possibilidades, saber pensar por conta própria e agir conforme a minha cabeça/natureza. Só assim, acho, poderei dar alguma contribuição, criar algo, transformar as coisas, nem que seja só para mim mesma - há muito tempo eu já me liberei da utopia de salvar o mundo; se conseguir só comigo, já haverá tido revolução e das grandes.
No Dia Internacional da Mulher, numa época em que está tão em voga a questão do empoderamento das minorias, eu gostaria que as mulheres saíssem um pouco do "discurso pronto de caixinha" e se conectassem mais com as suas almas e, através dessa singularidade, fossem mais solidárias às buscas e recusas das outras e outros. Outro dia, conversando sobre isso com uma amiga, ela reproduziu uma interessante observação feita por uma amiga dela, que disse mais ou menos assim: "Quando eu passei batom vermelho, as pessoas comentaram que eu estava empoderada, elogiaram. Mas no dia em que eu saí sem batom, sem maquiagem, ninguém comentou meu empoderamento". Tá vendo aí como até gente que se acha "pra frentex" pode ter uma visão óbvia, decepcionante? Um mundo livre é um mundo onde todo mundo tem a mesma dignidade, qualquer que seja o "cardápio" escolhido. Como se vê, estamos bem longe disso. Por isso, meu povo, é "lutai e vigiai" sempre, até as hierarquias se afrouxarem de vez. Com sorte e perseverança, quem sabe daqui a uns três séculos a gente chega lá.