Pessoalmente, acho as duas situações inadequadas. Ninguém deveria sustentar ninguém, pois é um peso grande demais. Quem é sustentado também não vive uma boa situação porque está na dependência. Vai ficar obrigado a aceitar o que não quer porque precisa e pode perder o mantenedor a qualquer momento, afinal, toda relação pode acabar. O ideal é que homem e mulher dividam as coisas. Claro, há situações e situações. Se você é casado com alguém que dá duro e o ofício dessa pessoa não dá a mesma boa remuneração que você tem, é uma coisa. Sou contra alguém folgar enquanto outra pessoa se lasca. Isso só pode acabar em desrespeito, ressentimento. Em todos os casos, o fato é que se nenhum dos dois reclama, ninguém tem nada com isso.
Mas toda vez que o assunto surge aqui em casa, há um conflito de valores que envolve gerações e eu acho bem interessante. Minha irmã acha que minha prima é interesseira, afinal, quando namoravam, ela dava muito corno nele. E ela raramente publica fotos dos dois no Instagram. Enfim, ela acha que a fulana tá ali, "luxando", sem amar, mas pela boa vida que o marido proporciona. Afinal, sozinha, ela nunca poderia bancar a vida que tem. Minha mãe, que nunca trabalhou fora, se dói, diz que ela vive viajando porque entrou pra igreja e que o povo evangélico é corda de caranguejo e blá blá blá. Mas minha mãe, embora nunca tenha tido a responsabilidade de garantir o dinheiro, ficou com a maior responsabilidade na família: pela administração da casa, pelos cuidados com as filhas, especialmente os emocionais, oferecendo apoio emocional ao marido, que só tinha que se preocupar em trabalhar, um trabalho que ele só perderia se fizesse besteira, já que tinha estabilidade. Minha prima não tem o mesmo peso pra carregar. Bem, minha irmã é de uma geração que refuta esse modelo de mulher, que liga a falta de carreira à ociosidade, a problemas de caráter, realmente. Mas que acaba invertendo os papéis só para reafirmar poder, sem perceber o desequilíbrio.
Eu sou da mesma geração de minha irmã e também tenho dificuldade de admirar dependências. Mas vamos falar francamente e de forma mais ampla: todo ser humano gosta de moleza (vide a quantidade de homens encostados em suas mulheres que vemos hoje), mas é fácil dizer que as mulheres são parasitas quando o mercado de trabalho ainda é ruim com elas, na medida em que os piores trabalhos ainda são feitos por elas, em que são mais exigidas que os homens e ganham 30% menos. É claro que num cenário assim, esse tipo de prostituição conjugal vai ser visto como uma boa opção. E não se engane, tudo tem um preço. Gente assim paga com o amor próprio e isso não é fácil, não.
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