Faz alguns dias eu terminei "Os 13 porquês", série da Netflix que fala sobre bullying e suicídio. Há uma galera em campanha contra a série, dizendo que induz ao suicídio, e uma outra pirando na batatinha, fazendo projeções em cima da personagem. Ambos estão equivocados a meu ver.
Não sei o que se passa na cabeça de quem se suicida, pois nunca tentei isso, embora já tenha pensado sobre. Mas imagino que a pessoa está imersa na dor. Guardadas as proporções, deve ser como um dente que dói demais, e você acaba arrancando em meio do desespero.
A série é real. Eu achei. Muita gente fica com a impressão de que Hannah não tinha motivos para se suicidar, que muita gente supera, mas a série justamente trabalha isso: as coisas podem bater diferentemente, a depender da personalidade de quem recebe a pancada, do contexto da vida dessa pessoa. Temos personagem que sofre e reage (Jessica); que sofre e tenta se matar, mas depois reage (Skye); que sofre e se mata (Hannah); que sofre e fica reativo com palavras (Clay); que sofre e quer atirar em todo mundo (Tyler... na segunda temporada, isso deve ser abordado); que finge que não sofre (Alex e Justin); que sofre e tenta reparar o erro (Sheri); e que nunca sofre porque é egoísta demais pra isso (Bryce). Enfim, tem para todos os gostos e tipos de personalidade. E também mostra o sofrimento de quem ficou e sofreu muito com a morte dela. Quem não teve vontade de chorar com a cena em que Clay, na imaginação dele, conversa com ela no dia da festa, ou quando chora debaixo do chuveiro, ou com a mãe dela encontrando-a morta na banheira, ou na outra cena em que quase abraça o sapato que a filha usou no baile da escola? De cortar o coração, sem dúvida.
O único problema, apontado por uma amiga psicóloga, foi não ter mostrado nenhuma história em que a pessoa, com ajuda, conseguiu dar a volta por cima, embora a proposta ali seja claramente criar empatia com quem se mata, porque estigmatizamos e falamos muito mal de quem passa por tal sofrimento. A série é pra quem está fora e não dentro do problema. Talvez eles pudessem ter mudado o final, com Hannah tentando, mas não conseguindo se matar, se curando com ajuda das pessoas e de profissionais. Ficou faltando apontar saídas, embora esse não seja claramente o propósito dessa produção.
Gente que sente demais, mais sensível, é realidade em nossa sociedade. Só que o que impera, na prática, é a racionalidade. E como será que é sofrer num contexto desse, em que nem quem trabalha com saúde mental muitas vezes está disposto a se desapegar do deus da racionalidade, das respostas prontas que podem não caber a todos? Lógico que ninguém decide por ninguém, mas atitudes podem colaborar para engatilhar certas ações extremas. Efeito borboleta. As pessoas nem deveriam levar isso tanto para o pessoal, porque se estamos nesse mundo, é claro que temos efeito sobre os outros. As pessoas mais próximas, especialmente os pais, são os piores nesse sentido e muitas vezes não ajudam quem sofre não por não estar vendo, mas por preferir não encarar os fatos e a culpa que pode advir deles, por pura autoproteção. Foda. Não há invisibilidade maior do que não ser visto por quem você mais quer a atenção.
E é com isso que a sociedade não aguenta lidar, porque vivemos numa era de desapego, em que ninguém quer ter trabalho com ninguém, muito menos ser exigido. O caso é que às vezes não é preciso nada além de sinceridade, reconhecer o que está acontecendo e, se for o caso, engatar um sincero "Me desculpe". Receber um pedido de desculpas, ser visto, às vezes resolve muita coisa. Qual é o custo real disso pra quem pede? Eu tenho antipatia por essa necessidade exagerada de atenção que as pessoas demonstram atualmente, mas, inegavelmente, somos seres relacionais, precisamos também de alguma validação do nosso entorno, ainda mais na idade dos personagens. O adolescente tem um funcionamento da mente, neurológico, inclusive, que difere do adulto. Nessa idade, a gente sente quatro vezes mais. Eu só conseguia pensar, ao ver a série, que eu sobrevivi. Mente de adolescente não é mole, não.
O intuito da série foi mostrar a realidade nua e crua, para que o choque realmente fizesse as pessoas pensarem, debaterem e se colocarem no lugar. Para que as pessoas vejam o potencial por trás de cada maldadezinha diária. Para que percebam que todos possuem seus sofrimentos e justamente quem faz sofrer também sofre (o único porquê que não dá pra perdoar, na história, é o Bryce, mas o restante todo se fode na vida em algum grau e o espectador acaba criando uma certa empatia por eles); gente feliz não sacaneia os outros. Casos como o de Hannah não são à toa: o bullying tende a ter como alvo quem visivelmente é frágil e essa pessoa é atingida não só por uma questão de temperamento, mas porque quem provoca o sofrimento geralmente é importante para ela. É a conjunção do desastre, de fato. Tem gente que não sabe se proteger do mundo externo e esse é um tema a ser enfrentado pela sociedade, por mais que seja doloroso, por mais que muita gente não entenda quem é diferente. Não dá mais pra varrer essas exclusões para debaixo do tapete, a não ser que a gente assuma logo (e consiga conviver bem, o que duvido) com o fato de que apenas certas vidas importam, não todas.
Violências
Tem gente que ficou p. da vida com Hannah por ter tentado culpabilizar os outros colegas pela morte dela. Na boa, eu acho que quem disse isso, se identifica com quem fez o bullying na história, no sentido de não gostar de refletir sobre as consequências de suas ações com o próximo, de achar que cada um que se vire com suas dores.
O intuito primário da personagem, a meu ver, não foi esse. Ela quis ser vista, ser compreendida, não julgada. Se fosse uma fita com o intuito maior de se constituir em vingança, ela não teria feito ponderações aos personagens. Ela até pede desculpas, de certa forma, a Clay e confessa que gostava dele (ela poderia ter feito o que ele faz, ao ouvir as fitas: culpar ele). Ela não culpa os pais, por exemplo, que nada perceberam. Na medida do possível, já que está ferida, Hannah é justa. Só acho que ela pega pesado com Sheri, que não merecia ser colocada no mesmo balaio dos outros.
E outra: vai querer comparar um desabafo em fita, que os destinatários poderiam muito bem nem ter escutado, com as violências físicas que ela sofreu, com todo mundo querendo meter a mão nela, trepar com ela a força, ou mentindo sobre a reputação dela pra todo mundo ouvir? Tirando Alex e Sheri, ninguém ali, mesmo depois de ouvir, nem se arrependeu. A dor foi pelo medo de ser descoberto, ser visto por todo mundo como realmente é, longe do modelo de perfeição que propaga. Só quem gostava dela se compadeceu e Clay foi longe demais na culpa, mas, enfim, coisa de gente apaixonada.
A série sinaliza para uma segunda temporada, abordando dessa vez não as causas da mágoa, mas da raiva. Tyler promete fazer um Columbine, se vingando dos desafetos.
Tyler é bem diferente, porque apesar de ter sido igualmente estereotipado, ele também é violento, um idiota, com os colegas, mas é incapaz de fazer uma autocrítica. Daí entra uma diferença de gênero, de como a cultura cria meninos e meninas: ao contrário delas que precisam falar, que querem colo, que tendem a se depreciar quando não são amadas, eles partem para o ataque externo, eles tiram a diferença com agressão física. Elas jogam pra dentro; eles, pra fora.
A seguir, cenas dos próximos capítulos...

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