segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Os outros

"Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca" (Mateus 26:41)

***

O meu último ano foi, para dizer o mínimo, estafante. Quando isso acontece e você se vê no seu limite, é natural sair em busca de respostas, a fim de acabar com toda e qualquer "nebulosidade" e poder seguir em frente. Lá fui eu em busca das minhas...
Foi em meio a esse processo que descobri a eficácia da oração e da fé... e também a importância de nos protegermos das energias ruins.
Sim, isso existe e pega! Conversei com pessoas de diferentes crenças e todas elas me disseram basicamente a mesma coisa: independentemente do caráter, se a pessoa não é positiva/ espiritualizada e não busca proteção, fica vulnerável a energias ruins.
Energia positiva ou negativa não é papo de hippie. A natureza pode provar. Quem já não viu uma planta murchar quando fica aos cuidados de certa pessoa e florescer quando recebe os mesmos cuidados de outra? Quantas vezes você pediu muito uma coisa e ela se materializou na sua vida? Quem já não viu a vida de alguém mudar radicalmente de uma hora pra outra, sem um porquê? Tudo é energia. A física tá aí para explicar isso.
Pois bem, resolvi seguir os conselhos que me foram dados e, ainda meio cética, acendi uma vela de sete dias para o meu anjo da guarda, pedindo proteção - o que já se tornou um hábito a essa altura. Meu parecer: tem funcionado!
Com base nessa experiência e nas conversas que tive sobre o tema, formei minha opinião sobre ele. Penso que, independentemente da crença (ou descrença), não custa nada rezar um Pai-Nosso antes de dormir ou acender uma vela de sete dias para o anjo da guarda (que custa baratíssimo e pode ser comprada em qualquer esquina).
A realidade é que não temos idéia de quem nos cerca - seja aqui na Terra mesmo, no Além ou na longínqua Marte -, e se bem não fizer, mal também não fará. Vejo a oração pelo seguinte ângulo: mesmo que Deus não exista, é um momento em que quem ora está pensando positivamente e jogando energia boa sobre si mesmo(a). Por que não fazer?!
Não deixe de conversar com Ele e nem com você mesmo. "Orai e vigiai": Pedir proteção nunca é demais e o exercício da auto-avaliação é fundamental para que vivamos bem, com verdade e, portanto, em paz.
E, pelo amor de Deus, a qualquer sinal de que as coisas tão desandando muito e "misteriosamente", procurem auxílio espiritual, quer seja do padre, do médium, do pastor, do babalorixá, do monge, ou seja, de qualquer um que seja espiritualizado e ético e que, portanto, poderá te ajudar.

domingo, 3 de agosto de 2008

Wanted: dead or alive!


"I´m a cowgirl, on a steel horse I ride

I´m wanted... dead or alive
Wanted dead or alive"

sábado, 2 de agosto de 2008

"Só nós dois é que sabemos..."

(Pra Claudinho não ficar com ciúmes das minhas homenagens a Alosa)

Há cerca de um mês, fiz uma descoberta que revolucionou meus almoços aos finais de semana. Descobri a voz aveludada e máscula, com leve sotaque hispano, do ex-galã da Era do Rádio, Pacheco Filho. Emocionada, compartilhei minha mais nova paixão com Claudinho. Sem nenhuma surpresa, descobri que os dois são amigos.
Pra quê fiz isso?!
Foi então que Cacau escreveu ao ilustre amigo, pedindo que dedicasse uma música a mim. Acho que Pacheco levou mais além o termo "amiga" e nos dedicou uma canção de amor de abalar as estruturas! Ontem, estava ouvindo José Medrado na Metrópole FM, e adivinha o que ele começou a cantarolar no ar: "Só nós dois é que sabemos o quanto nos queremos bem...". Avisei a Claudinho. Disse-lhe: até o Além canta a nossa canção! (risos)
Só nós dois é que sabíamos, mas agora vocês também vão ficar sabendo. Segue a letra de nuestra canción:

Só nós dois

Só nós dois é que sabemos
O quanto nos queremos bem
Só nós dois é que sabemos
Só nós dois e mais ninguém
Só nós dois avaliamos
Este amor, forte, profundo...
Quando o amor acontece
Não pede licença ao mundo

Anda, abraça-me... beija-me
Encosta o teu peito ao meu
Esqueça o que vai na rua
Vem ser meu, eu serei tua
Que falem não nos interessa
O mundo não nos importa
O nosso mundo começa
Ca; dentro da nossa porta.

Só nós dois é que sabemos
O calor dos nossos beijos
Só nós dois é que sofremos
As torturas dos desejos
Vamos viver o presente
Tal-qual a vida nos dá
O que reserva o futuro
Só Deus sabe o que será.

Joaquim Pimentel

Sex Line

Se tem uma parte do jornal que sempre me surpreendeu por conta da criatividade é a dos classificados sexuais. As expressões são tão bizarras que tenho quase a certeza de que se trata de um dialeto a parte. Como diz o braun, "eu si divirto"! hahaha
Separei alguns exemplos, de um classificado que tava dando sopa por aqui. A "colheita" não foi das melhores, mas já dá para sentir o drama (risos).
Vamos lá:

"ALICE, gaúcha bonita, carinhosa, LOIRINHA, 21 aninhos, iniciante, olhos verdes"
Olha, em uma linha, a garota conseguiu reunir várias referências e fetiches. A começar pelo nome, que remete à loirinha das histórias infantis, perdida num mundo estranho, a mercê de um coelho meio mau caráter...Enfim, ela é frágil, tá perdida, é ainda uma menina... A Alice é uma gaúcha, portanto tem um tipo europeu, caucasiano, é p.a. (pós-adolescente), e se diz iniciante na profissão. Nessa descrição, ela abre o leque para quatro tipos de cliente: os que gostam de loiras, os que gostam de ninfetas, os que gostam das forasteiras e os fãs da Alice do conto de Lewis Carroll. Não é fantástico? Nota 10 para o texto de Alice!

"FERNANDA MORENA-CLARA, 19 aninhos, recém-chegada de São Paulo, corpo ESCULTURAL. Sem propaganda enganosa! R$ 200"
Eu acredito piamente que essa veio do centro do capitalismo tupiniquim. A primeira providência, aliás, seria deixar essa tabela no Sudeste, que - "helloooo, dona!" - não se aplica de jeito nenhum por aqui. A não ser que ela queira se restringir ao jet-set... Fernanda deve ser uma dessas descendentes de italianos do interior paulista. Realmente, é um povo bonito. Esse tipo caucasiano, pero no mucho, faz sucesso por aqui. Hummm, tô pescando a estratégia da moça... Pensando bem, Fernanda deveria fazer uma faculdade de Administração com ênfase em Marketing. Ela leva jeito pra coisa...

"ALDA, coroa, sigilosa"
Sinal dos tempos: olhem como anda acuada a nossa terceira idade! Dá pra perceber que a profissão não anda rendendo muitos frutos a Alda. O anúncio anterior tem por volta de 15 palavras; o de Alda, apenas 3. E ela logo avisa que é coroa, que é para não haver confusão no tête-à-tête. Também garante que é sigilosa - coisa que uma menininha dificilmente destacaria no seu anuncio, pois sair com jovenzinhas, mesmo nessas circunstâncias, dá status.
Que vergonha, Brasil!!!


"AIANE Faço Tudinho"
Na moral, Aiane, você precisa bater um papo com a sua colega Fernanda. Porque só alguém muiiiito desesperado vai ligar para quem diz, de cara e publicamente, que faz "tudinho". Tenha classe, menina!

"CRISTIANE completíssima, corpo violão, beijos provocantes, liberal"
Tá vendo, Aiane: Cristiane apenas sinaliza que faz tudo dizendo-se "liberal"!
Gostei do anuncio dela: vendeu-se tão bem quanto Fernanda e Alice e gastou muiiito menos com o texto. O "corpo violão" já resume logo a questão; é a preferência brasileira, a qual ela diz atender, e não precisa falar mais nada depois disso. Ela beija, portanto não é uma profissional mecânica, que só vai lá e pam! no sujeito.
Agora, confesso, dois termos sempre me intrigaram, quanto aos significados, nesses anuncios: "abafadinha" e "completíssima". O que Cris quer dizer com "completíssima": 1) que o cliente não vai dar de cara com uma aleijada?; 2) que ela faz tudinho, como disse a despudorada da Aiane?
O que é ser "abafadinha"? Alguém responde? Alosa, você sabe! Eu seeei que você sabe!!! risos

"ADRIELE bonita, carinhosa, R$ 15"
"ADRIELE boquinha quente, deliciosa, R$ 20"
"ADRIELLY loira, 100% liberal"
Alosa, você percebeu agora o que vocês fizeram com a pequena Adriele? Sua sobrinha é xará de metade das anunciantes. Pior: das que cobram mais barato!
Vai ter que jogar duríssimo na educação desta menina. Principalmente, vai ter que mantê-la beeem longe dos Classificados! (Amigo, Alosa, amigo!...)




"É a sua caaaaaaaaaaara!"

Andando pelo Yorkut, essa semana, encontrei um texto que achei a caaaaaaara de Alosa, o aniversariante deste final de semana. Por coincidência, o autor é amigo da Fraude e foi alguém que subiu no meu conceito após uma crise envolvendo essa pessoa que aniversaria hoje.

Parabéns, Alosa! Vida longa e sucesso (não muito né, André, pra não abalar a nossa relação! hahahaha)!!!


As pessoas sempre me perguntam de onde tiro tanta loucura, e eu respondo, como se explicasse a receita do mais frugal dos pratos: a piada está aí, na nossa cara, é só ficar atento e levar a vida com mais atenção e leveza. Se quiser se divertir e relaxar os músculos da cútis, esqueça o politicamente correto. O verdadeiro deboche não se nutre de mensagens edificantes ou construtivas. A verdadeira risada é cáustica e demolidora, não poupa nada nem ninguém. Por isso a comédia é tão perseguida através dos tempos, sempre considerada uma arte menor, sem profundidade, rasa como um pires. Rir demais é deselegante, revelador, pode trazer à tona verdades desagradáveis e, qualquer manual de etiqueta que se preze, condena a felicidade excessiva. É mais elegante o mau humor, a eterna cara de insatisfação, a suposta enxaqueca emocional, assim como é mais respeitável o teatro sério, cheio de mensagens e que faz pensar, sofrer... o chamado teatro poço, cheio de profundidade. [...] E pobre de quem não conhece a máxima diversão que é não se respeitar, saber rir de si próprio, ser humano imperfeito e muitas vezes patético nas tentativas de parecer sério e respeitável. E viva a esbórnia nossa de cada dia!

Fernando Guerreiro, diretor de teatro

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Os verdadeiros heróis

DANUZA LEÃO
(Ela é demais!)


E mais duro é pensar que quando uma dessas crianças nos pede um trocado, a gente passa direto, sem nem olhar

AQUI BEM perto de casa, num lugar onde eu passo toda hora, tem um vendedor ambulante com um tabuleiro, onde são vendidos todo o tipo de docinhos.
Tem brigadeiro, de ovos caramelados, outros com nozes picadinhas em cima, enfim, todos aqueles de aniversário de gente rica -e são uma delícia. Sabe quanto custa cada um? Um real. Aí, eu fico pensando: tem a mulher que faz os doces, e o material: os ovos, o açúcar, o chocolate granulado, as nozes, e ainda o papelzinho de celofane em volta de cada um. Um filho ou um amigo sai provavelmente lá do subúrbio, toma um trem, depois um ônibus, paga as passagens, monta sua mercadoria na Visconde de Pirajá e lá fica o dia inteiro, vendendo seus docinhos.
Mas este vendedor tem que almoçar, tem que ir ao banheiro; como é que ele faz? E se não vender todos, volta para casa com o que sobrou? E se vender, quanto deve ganhar em cada um? Um nada, claro; a R$ 1 cada um, o lucro não pode ser muito alto, até porque a quantidade de docinhos não é tão grande assim.
Como é que eles fazem? Como é que fazem as pessoas muito pobres? Fui comprar outro dia um colírio na farmácia e paguei R$ 25. Gente pobre também tem conjuntivite, dor na coluna, tosse, resfriado. Se uma criança cai, tem que botar mercúrio cromo, Band-aid.
O lucro dos docinhos não deve dar para essas mínimas coisas que precisamos comprar a toda hora e nem estou falando de comida.
Aquela sandalinha de borracha que se usa para ir para a praia não chega a ficar gasta e já damos para a empregada. A deles já está fininha, de tanto ser usada. E quando faz frio? E quando a criança cresce e a camiseta não serve mais? E o olhar dessas crianças desejando um brinquedo, o mais modesto deles, e não podendo ter? É duro pensar nessas coisas.
E mais duro ainda é pensar que quando uma dessas crianças nos pede um trocado, a gente passa direto, sem nem olhar, tantas elas são, até para não ter que abrir a bolsa, tirar a carteira e dar R$ 5 que não nos fariam a menor falta. É duro pensar nas coisas que a gente deixa de fazer por negligência, preguiça, e nas quais não pensamos nem tomamos o menor conhecimento, sobretudo pelo hábito de ver isso acontecer o tempo todo, em cada esquina.
É duro, pensar que somos assim.
E quando a empregada nos pede um dinheiro adiantado, R$ 50, R$ 100, e que no fim do mês temos a coragem de descontar, "para que elas não abusem", R$ 100 que se gasta comendo um sushi ou comprando uma sombra de olhos e um batom, não dá vergonha? Por coisas como essas e muitas mais, por mais que nossa vida esteja correndo bem, tem algo lá dentro que aperta o coração, que não se identifica, que não se sabe o que é, mas que nos impede de ser totalmente felizes -a não ser que se seja um Daniel Dantas ou um Naji Nahas.
Qual será o lucro da mulher que faz os docinhos? E o dos ambulantes que vendem panos de prato na porta dos supermercados, do pipoqueiro na porta do cinema, do homem que vende coco na praia? Quanto será que eles conseguem ganhar por mês para sustentar mulher e dois filhos? Sabe o que eu acho? Que são uns heróis.
E nós, francamente, nem sei o que somos.

danuza.leao@uol.com.br

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Edf. Juanes Idol

Churrasco no apê de Nandy, tudo muito bem, tudo muito bom e eis que no meio do processo, alguém deu a idéia de fazer um videokê. Foi o grid de largada para uma batalha de egos e de vozes. De um lado, Surama, com um repertório repleto do melhor da MPB. Do outro, Rei Nelsão, atacando de sertanejo. Na outra ponta, essa que vos escreve, repartindo o repertório caipira com Amigo Nelson (a playlist do videokê de Fernanda é tão castrante quanto a própria! risos).

Domingo que vem, haverá a grande final. Nelson x Juliana. Só um de nós sairá de lá consagrado(a) como o(a) ídolo(a) do Edf. Juanes! Não sei a razão, mas algo me diz que esse troféu vai pra orla! hehe

Alguém de muita fé pediu a Ingrid para trazer uns dvs de shows. Adivinha o que ela trouxe? O dvd de Beyoncé. Siiiiim, aquele mesmo em que a esposa de Jay-Z desce pendurada na corda, de cabeça para baixo!!! Quem merece??!!

Amigo Nelson botando pra quebrar com a melô do pobre apaixonado pobre: "Alô amor, tô te ligando aqui do orelhão. Tá um barulho, uma confusão..." (risos) Cantou direitinho o danado; vai me dar trabalho no gran finale!

O seleto juri feminino da tarde de cantoria julgando mais uma de minhas excelentes performances. Flagra: olha só Fraga me comediando literalmente pelas minhas costas! Coisa feia, rapazinho!...

Antes disso, na Sala de Justiça, "el asado"...
"E em determinado momento intuiu que estava fodido, que no seleto grupo de seus objetivos primários entraria manter aquela guria feliz do jeito que estava agora." Não entendeu? Mas não é para entender mesmo, ué! kkkk

Caça e Caçador

"Como uma deuuuuuusaaaaaaaaa
Você me mantééééééééééééééém
E as coisas que você me diiiiiiiiiz
Me levam alééééééééééééém..."
("O Amor e o Poder" - Rosana)

Ah! Eu adoro o tema de Nandy Braga... Aliás, eu adoro essas coisas bregas dos anos 80! Adriana me faz levitar (lembram da loira, a mãe das gêmeas?)! Zé Augusto, então!... E é dessa década uma das melhores canções de novela: "Dona", do Roupa Nova. "Seguindo o trem azul" também é ótima. Um dia, ainda vou aprender a tocar "Whisky a go go". A batida do refrão é massa de fazer na viola!... Roberto Carlos, Roupa Nova, Vinícius de Moraes e Legião Urbana são a trilha sonora da vida do brasileiro contemporâneo. Ou melhor, do coração do brasileiro contemporâneo. Ou melhor (acrescente aí): dos despudoradamente bregas!
Definitivamente, não posso com essas "drogas alternativas"! hahaha

Mas não vim aqui falar de Amor - embora o trânsito de Vênus por Leão crie um ambiente altamente propício a isso (risos). Vim para falar do Poder. Acho que fiquei inspirada por conta do aniversário de falecimento de ACM. Whatever... O caso é que o desejo desenfreado de algumas pessoas pelo Poder sempre me intrigou. Poderia pesquisar e escrever uma tese sobre isso, sem o menor receio de cair no tédio.

Não falo da busca pelo poder sobre si mesmo, que, aliás, deveria ser a meta principal de todo ser humano. Qualquer pessoa realmente inteligente sabe que, no final das contas, a briga que conta é aquela que travamos com nós mesmos.

Refiro-me a obsessão de alguns em dominar o ambiente. Posso estar falando besteira, mas o preconceito é inevitável e lá vai o meu palpite sobre o tema: esse tipo de atitude sempre me cheirou a uma auto-estima muito baixa, a uma carência afetiva enorme. Quero dizer, todo mundo passa por seus ciclos ou tem lá seus níveis de carência e baixa auto-estima, mas daí a se deixar dominar por isso, são outros quinhentos.

Há obsessões e obsessões. A de minha mãe por varrer a casa é útil e até simpática, mas esse tipo de obsessão por Poder, sempre achei, sei lá, sem fundamento, sem função prática. Chega num ponto em que o sujeito nem precisa mais disso, que não sabe nem mais o por quê de estar correndo atrás daquilo. É um negócio animal demais - no mau sentido. Para mim são uma gente tão nociva quanto um drogado, ou melhor, são tão pouco confiáveis quanto.

No cursinho, havia um professor com quem quase ninguém simpatizava, porque o cara era casca grossa e não era dado a fazer gracinhas para entreter os alunos. Um dia, chegou para um garoto e perguntou se ele era irmão de uma fulaninha "assim e assado" do Sartre. O rapaz disse que não. Olha a resposta dele: "Ah! Porque você tem a mesma cara de puta que ela". A criatura era terrível, mas era jeitão mesmo. Eu, particularmente, nunca fui "alvo" da língua dele, não me importava com a eventual rudeza (às vezes até me divertia) e adorava viajar nas coisas que ele dizia a respeito da vida. Pena que, por conta da "embalagem" pouco convidativa, muita gente passou batida pelas lições de sabedoria que ele nos deu naquele ano.

Uma década depois, ainda ressoam na minha mente as coisas que ele dizia em sala de aula. Não só elas, como a letra de uma música que ele adorava pôr a gente pra cantar. Se Kelly ou Erica estiver passando por aqui, vai lembrar, imediatamente, da letra de "Calix Bento" (risos). Imagine 200 alunos cantando e batucando nas carteiras ao mesmo tempo. Eiiiita tempo bom!

Um dia, ele nos disse: "Neném (chamava a gente assim), cuidado com o dinheiro e com o que você elege como necessidade. Porque a coisa funciona assim: no dia em que vocês receberem o primeiro salário, vão querer realizar alguns desejos com ele. E daí você vai achar que aquilo só não basta e vai correr atrás de mais dinheiro, para ter novas necessidades que te levarão a correr atrás de mais dinheiro para mantê-las e satisfazer outros desejos que vão aparecendo pelo caminho. Um dia - e isso se você for esperto o suficiente -, percebe que entrou na roda-viva de ter dinheiro pra ter necessidades, pra ter mais dinheiro e criar mais necessidades, e enfim, já cansado de correr atrás da grana, vê que não precisa de muitas das coisas que elegeu como necessidade e que se tornou, por causa delas, escravo do dinheiro".

Poucos meses depois de ter recebido meu primeiro dinheiro, lá na revista, eu já tinha minhas dívidas fixas - passei três meses trabalhando praticamente para pagar contas - e me encontrava infeliz com a bolsa que recebia. Lembrei das palavras dele. É assim mesmo que a coisa acontece, se a gente não se vigia.

Claro que ele não nos aconselhou a desprezar o dinheiro; apenas nos orientou a ter critério ao elegermos as nossas necessidades e a não nos tornarmos escravos do "vil metal". Ele mesmo, já avô e beirando os 60 anos, trabalhava num ritmo incessante. Entretanto, ele era apaixonado pelo que fazia e se permitia "loucuras" com a grana que recebia, como dar R$ 100 a um mendigo só para testar a reação dele. Que figura!...


"Eu não peço desculpas e nem peço perdão"
A viagem do Poder, imagino, é mais ou menos como uma montanha-russa: tem uma fase de subida, que geralmente é impulsionada pelo desejo de irradiar poder pessoal e que pode ser deliciosa e libertadora ou o início do fim, o começo do vício.

Quando chega-se ao topo, se já há muita gente no seu carrinho, talvez seu "eu" vá pras cucuias por falta de espaço, em queda livre, e então entra em cena uma imagem pública, amarrada a outras instituições e pessoas. Veja que os poderosos sempre irradiam uma imagem de onipotência, mas, se a gente prestar atenção, a última coisa que alguém assim pode fazer é ser ele/a mesmo/a. Talvez seja essa a condição mais insuportável para alguém que almeja o Poder: ser ele mesmo. Será que o poderoso não se tolera? "Mistéééério!..."

Percebi isso claramente quando estourou o escândalo do Mensalão, de Lula. Fiquei indignada com o ex-operário, odiei a atitude cínica dele; esperava uma posição mais corajosa, honesta. Ocorre que numa dessas mesas, Lúcia Hippolito fez cair a minha ficha: "É complicado para o Poder pedir desculpas". Lula não era Lula mas o ícone de toda uma máquina por trás dele. Até hoje piro na questão: como é que alguém faz pra ser indivíduo uma vez que está inserido numa estrutura dessa, que permite pouca mobilidade individual? Deve ser muito doido!... A alma dessa gente não "bate na porta"? Ou será que isso é fenômeno restrito aos meros mortais? "Mistéééério!..."

Convenhamos, o Poder é dado pela coletividade e só é conferido a alguém porque acreditamos que ali há mais perfeição que na média das pessoas, que em nós mesmos. Um sujeito muito sincero provavelmente não vai muito longe. O que aconteceria com Lula se ele se assumisse falível em seu caráter? Ou seja, o poder de alguns só existe por conta das fantasias infantis de um determinado grupo. Numa sociedade de gente bem-resolvida, provavelmente os poderosos entrariam em extinção.

Alguém aqui já leu "O Mágico de Oz"? Pois é, acho que ali há uma metáfora excelente do que é o Poder: o Mágico era apenas um mágico qualquer, nunca teve poderes especiais, como propagavam aos quatro ventos. Mas quando chegou naquele mundo, "caído do céu", as pessoas quiseram acreditar que o mágico os tinha, e então ele passou a se comportar como se os possuísse, embora tivesse plena consciência de que era uma fraude. Mas, àquela altura, não sabia mais como sair daquilo - e nem queria muito, apesar de se incomodar um pouco com a mentira em torno de si.

Numa situação ideal, alguém poderia chegar ao Poder sem "sujar as mãos", ou melhor, sem fazer concessões éticas severas e sem esmagar gente pelo caminho. Mas a vida real não é novela e essas coisas não rolam. É um clichê exagerado mas tem lá seu fundamento: ninguém chega até o topo sem estar disposto a vender a mãe. Como disse um amigo meu, quando falávamos do meio artístico, há uma seleção natural nessas coisas. Não basta ser o máximo; há de se ter uma personalidade que se encaixe no perfil médio daquele meio. Ou ter uma mente forte o suficiente para aceitar os incômodos sem sucumbir à descrença.

Fico pensando o que poderia fazer um certo tipo de gente gostar mais de uma posição social, de um objetivo, do que de princípios éticos e das pessoas ao redor. Trocando em miúdos, por que algumas criaturas são tão competitivas e obcecadas com prestígio e dinheiro? "Cartas à Redação". Ok, todo mundo quer vencer, todo mundo gosta de ser admirado. A questão é: a que preço? É nessa hora que separamos o joio do trigo.

Certo, haverá ocasiões em que algo precioso vai ter que ser sacrificado em prol de algo maior. Às vezes somos egoístas, mesmo, e vamos ter que dormir com um barulho desse. Mas há um certo tipo de gente para o qual nada, além do seu próprio objetivo, é igualmente ou mais precioso. O próprio ACM era um caso desse. O que me assustava nele era a facilidade para odiar e destruir. Tinha espírito de trator. O poder tem disso: "ele é fera, devora".

Eu não sei, não... Força é uma coisa muito relativa. Como disse a "toda poderosa" Madonna, às vezes ser forte é não fazer nada. Ainda não vi qual é a graça, o sentido, de querer ter poder absoluto sobre outro alguém. Talvez por ter um coração meio bumerangue, as pessoas que tiveram mais poder sobre mim foram justamente aquelas que nunca fizeram questão disso (meu ex-professor, por exemplo, aposto que ele nem sonha que me influenciou, nem lembra mais que existo). Pois o Poder não é uma questão de vertical e horizontal. Quando é real, se irradia por aí, sem saber direito em qual alvo vai acertar. Ele não se impõe; simplesmente acontece.

Pessoalmente, acho a caça um esporte vulgar. Prefiro a pesca! ;)


(guys, tô cansada. volto mais tarde pra corrigir isso aqui)

domingo, 20 de julho de 2008

Dia do Amigo

E neste dia feliz, olha o mico que Fernandinha me fez pagar (e eu já não gosto!... hehe)!

Feliz dia para todos os meus amigos (e também aos não muito amigos)!!!
O que seria da vida sem a amizade? A frase é tão clichê quanto verdadeira. Que graça tem passar pela vida sem "torcida", sem um "Conselho" particular?
Ser amigo pressupõe um certo talento, uma capacidade de se dar para outra pessoa, pelo menos um mínimo (o ideal é que se dê o máximo). Intimidade, cumplicidade e lealdade são indispensáveis na vida de um ser humano. Ninguém vive sem, até quem não tem isso pra dar aos outros (e como a vida sabe que sem amigo a coisa fica impraticável, sempre providencia a esses "desajeitados" um par de gente que não lhe deixa morrer na aridez sentimental).
Pois é, uma amizade geralmente depende, pelo menos pra "início de conversa", do fator sorte. A continuidade - pouca gente gosta de admitir - depende de muito, muito trabalho - o que não é trabalho nessa vida, afinal? Mas haverá sempre aqueles cuja presença, vez ou outra, fará esquecer anos de ausência. "Como se fosse a primeira vez". É ruim não tê-los por perto sempre, mas fico maravilhada com o poder que esse meu tipo de amigo tem, de me fazer sorrir como se o tivesse visto ontem (Alosa, tô falando de nós dois. Cê sacou, né? ;)).
Como disse o autor do texto abaixo, certa feita, "a vida é a arte do encontro". Se você acha que encontrou suas pessoas, agradeça; você tem muita, mas muita sorte mesmo na vida!
Beijão a todos os espíritos fraternos que passam, hoje, pelo blog!...
Um abraço especial para o meu "quarteto fantástico": Erica, Fernanda, Ingrid e Leco. Já passamos por poucas e boas!... "Só nós dois sabemos..." (risos)

PS.: Vou aproveitar a deixa pra ver se dr. Cláudio se comove com (mais) um apelo meu:
"Oh! Arlindo Orlando... Volte, onde quer que você se encontre! Ass.: Mariposa apaixonada de Guadalupe". (risos)



A foto dispensaria legendas, mas vamos lá: Manuela, Ticiana, Júlia, Alosa, Elen, Ingrid e Lu Silva.

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinícius de Moraes

sábado, 19 de julho de 2008

Maria Bonita (Título alternativo: "Explooooode Coraaaação")


Pois é, pois é, pois é... Tô chegando à conclusão de que julho é o mês da revolução!
Na França, comemora-se a Queda da Bastilha. Dois dias depois, em Itabuna, o aniversário do revolucionário reacionário Daniel Lisbôa. No A Tarde, foi a vez da Companheira Lília revolucionar na cabeleira - cada vez mais clara. Em julho passado, Don revolucionou no papel de pai de primeira viagem (atenção: Rafaelcito faz seu primeiro aninho na próxima segunda-feira!). Claudinho revolucionou no quesito "independência", alugando seu primeiro apê na 9 de Julho.
Nesse mês, também, nasceu a revolucionária Companheira Débora, que este ano resolveu passar sua Revolução Solar em São Paulo. Antes disso, andou revolucionando no corte de cabelo.
Ano eleitoral, e eu aqui falando na Companheira... Nossa, acho que Débora e política têm tudo a ver. A moça, entre outras coisas, ficou conhecida na Facom por ter feito um certo professor chorar duas vezes. E isso só na base do gogó! Utilizando sua "garganta (de persuasão) profunda", Debs, há algumas semanas, mobilizou um ônibus inteirinho, no horário das seis, em torno do seu cabelo. E veja: sem o auxílio de um 38 ou de algo que o valha! O próprio discurso da Companheira, sempre cheio de emoção, já é quase uma peixeira!
Certa feita, no ponto de ônibus em frente ao A Tarde, Débora fez o pipoqueiro e uma velhinha chorarem, ao tentar me convencer a aceitar o empréstimo de um vale para ir para casa mais depressa. Em outra ocasião, convenceu policiais de uma outra região da cidade (e de extrema má vontade) a ir atrás dos assaltantes de sua amiga. Quem mais poderia?!... Uma verdadeira cangaceira da justiça e da solidariedade!
Na minha humilde opinião, quem faz chorar de pipoqueiros a acadêmicos está destinado a liderar as massas!
Meu voto é da Companheira - e tenho dito! :)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Antes tarde do que nunca

Há seis meses, li uma entrevista muito bacana com Mônica Martelli (atriz que interpreta Helena/"Mateus" em "Beleza Pura"), na qual ela contou os percalços que enfrentou até fazer sucesso. Achei uma grande história; gostei do modo como ela interpreta os fatos.
Aliás, falando em atores e pensamento, há alguns dias, Manoel Carlos deu um puxão-de-orelha na "tchurma". Segundo o novelista, esses vêm falando muita bobagem na mídia.
Realmente, espera-se do artista algo mais. Espanta-me - não consigo evitar! - que um ator, uma atriz não tenha uma visão mais diferenciada da realidade, ou ao menos das emoções humanas, que são sua ferramenta de trabalho. Lógico, não estou generalizando, mas as "aberrações" não são raras. O blog de Luana Piovani, por exemplo, é, para mim, um dos melhores... na categoria "humor".
Ator é realmente um bicho esquisito. Às vezes pondero que não poderia ser diferente: O que esperar de alguém que empresta a sua emoção para transmitir a de gente que quase sempre nem existe? Esse não é um ser com uma sensibilidade ordinária, convenhamos. Mas, apesar disso, dá pra ser normal, se quiser. Monica Martelli é um bom exemplo.

Segue a entrevista para a Marie Claire, de janeiro de 2008.

Mônica Martelli estava perdida, desestimulada e deprimida. Sem trabalho, sem um grande amor, semperspectivas e prestes a fazer 40 anos, parecia a protagonista de uma louca tragicomédia de fracassos. Então, escreveu um monólogo e se atirou em empreitada solo. Agora, prepara-se para abraçar o estrelato.

É preciso perder o medo de se expor, de se debochar. O sucesso vem nessa hora'

Fama? Poder? Dinheiro? O que você quer da vida? Para o escritor suíço Alain de Botton, a única resposta possível é esta: amor. Porque, ao sairmos em busca de fama, dinheiro e poder, tudo o que buscamos, na verdade, é receber amor em doses proporcionais ao status elevado. Nessa linha de raciocínio, a jornada da atriz carioca Mônica Martelli poderia facilmente render um livro de auto-ajuda para quarentões frustrados.

Rotulada informalmente por amigos e familiares como 'a fracassada', Mônica só conseguiu preencher as exigências sociais de uma vencedora à beira dos 40. Depois de muitas derrotas, rejeições, falta de grana, fases de dúvidas e melancolia, juntou os caquinhos e resolveu protagonizar a própria vida.

Assim, aos 37, largou tudo -que não era muito- e sentou em sua quitinete em Ipanema para escrever um monólogo. Passava dez horas, todos os dias, digitando no computador, ainda sem saber exatamente o que fazer com o material. Decidiu então dar a cara para bater: alugou uma pequena sala de teatro no Rio, arrecadou um dinheirinho com familiares, chamou amigos para ajudar na produção e, em 2005, estreou 'Os Homens São de Marte... e é para Lá que Eu Vou', monólogo divertido que narra as aventuras amorosas e sexuais de uma balzaquiana à procura do grande amor.

O resto é história. Uma história que a atriz, que está no elenco de 'Beleza Pura', a nova novela das sete da Globo, conta aqui em detalhes tragicômicos.

Hoje, aos 39 anos, sua criação ganhou vida própria: vai ser representada em outros países, virar filme, e, depois, talvez, série de TV. Os anos de amargura ficaram para trás e Mônica, que agora tem fama, poder e dinheiro, concorda com Botton. 'Nada disso importa: a redução de tudo é o amor.' Diz isso com a segurança de quem encontrou o seu ao lado do produtor musical Jerry Marques, 50, marido, amigo, parceiro de trabalho e, acima de tudo, cúmplice.

Aqui, ela explica por que os verdadeiros fracassados são aqueles que, com tanto medo de sair derrotados, sequer chegam a tentar.

Marie Claire Seu nome começa a ser nacionalmente conhecido às vésperas dos 40. Onde você estava antes de fazer 'Os Homens São de Marte...'?
Mônica Martelli
Trabalhando, trabalhando. Já fiz tanta coisa: 'Por Amor', novela do Manoel Carlos, fiz 'Chico Total', fiz 'Zorra Total', mil e uma peças de teatro… mas eu era sempre aquela que ficava no fundo, desfocada, ou era a secretária, sabe como é? Eu estava ali, mas ninguém via.

MC O que não é uma situação rara nesse mundo das artes. Para cada Mônica que estoura, existem outras 100 que jamais conheceremos.
MM É mais ou menos isso. Junto com esses trabalhos que citei, ia fazendo um milhão de testes e sofrendo um milhão de rejeições. Até 'Os Homens São de Marte…', ou seja, até meus 37 anos, sempre precisei de ajuda financeira da família. Não conseguia me sustentar sozinha.

MC E o que fez você insistir tanto até vencer o bloqueio?
MM No fundo, algo me dizia que ia rolar. Em 2001, me chamaram para fazer 'Os Maias', a minissérie. Nessa hora, falei: 'É a minha vez! É agora que eu vou bombar'. Fui para a gravação animadíssima. Primeira cena: eu desfocada lá atrás. Na seqüência, o núcleo do qual eu fazia parte não foi para frente, e a autora teve que se concentrar nos protagonistas para tentar aumentar a audiência. Mico.

Para pagar as contas, eu fazia de tudo. Já fiz até uma tartaruga no programa da Angélica

MC Era uma frustração atrás da outra e você já não era mais uma iniciante.
MM Pois é. Para pagar as contas, fazia tudo o que me chamavam para fazer. Fiz até uma tartaruga no antigo programa da Angélica. O programa era aquele videokê de bichos, sabe? Isso há seis anos, por aí. O produtor me ligou e falou: 'Mônica, queria te chamar para fazer um bicho no programa da Angélica'. Cheguei lá e vieram com um casco enorme de tartaruga para eu vestir. Dentro dela, só dava para ver os meus olhinhos. Lá fomos, o macaco e eu, para a gravação. Para chegar lá, a gente tinha que entrar numa van, e o casco da tartaruga não passou pela porta. Eu falei: 'Vou ter que me jogar de lado na van para poder passar pela porta'. Tomei distância e me joguei. Caí dentro da van, mas a roupa começou a me enforcar, e eu só conseguia falar baixinho: 'Macaco, não tô legal. Me ajuda'. Eu não sabia o nome do ator que fazia o macaco, mas precisava de ajuda, não estava conseguindo me mexer. E o macaco achou que era sacanagem minha. Histórias como essa, tem várias. Se você não aconteceu pelo caminho tradicional até os 25, não acontece mais. Está na hora de buscar uma outra saída.

MC E qual foi a chacoalhada que fez você sair desse ciclo?
MM Foram duas. Em 2002, eu estava melancólica, cabisbaixa, nada rolava. Um dia, tocou o telefone e uma voz falou: 'Mônica Martelli? Estou selecionando atrizes bacanas da Globo para fazer uma festa agropecuária. É o seguinte: mulheres bonitas que vão chegar montadas em um cavalo'. E eu: 'Mas não tenho que falar um texto?'. 'Não, não, é só entrar montada.' Amor, aí eu vi que o negócio tinha desandado. Eu era a alegoria no cavalo. Parei e falei: 'Bom, aqui é o fundo do poço. Trinta e cinco anos e minha carreira não decolou. Solteira, perdida, sem ser chamada para nada'. Foi uma época dura demais. A uma certa altura, passei a ter duas opções: ficar melancólica e recalcada, como existem vários profissionais por aí, que gastam o tempo deprimidos e reclamando de quem está fazendo sucesso. Ou outra opção: mudar o foco da minha vida. E nisso minha mãe foi muito importante. Um dia, me vendo triste e desanimada, ela disse: 'Querida, muda a história da tua vida! Pega os seus textos, vai para a praça, sobe num caixote e fala. Eles são teus'. Nessa hora, a ficha caiu! E foi o que fiz. Isso aconteceu em 2002. Eu estreei 'Os Homens São de Marte…' em 2005.


MC Parece fácil falando, mas não é assim tão simples executar essa virada que, cedo ou tarde, todos buscamos, é?
MM Principalmente porque, de uma maneira geral, queremos a virada nas fases ruins, quando estamos para baixo, sem auto-estima. Nessa época, por exemplo, eu estava mal. Via meus amigos se dando bem, com grana, estabilidade, muita gente que veio depois de mim se dando bem, e essa coisa começou a pegar num lugar muito forte. Tem gente que faz oficina da Globo e, no começo da oficina, aparece um diretor e fala: 'Eu quero você na novela das oito'. E a menina bomba depois de alguns meses. Eu vi acontecer. Mas comigo não foi assim. Olha, nada tem regra, em nenhum mercado de trabalho. Tem gente que acontece com 20, outros com 40, alguns depois disso. Cada um tem um caminho. Tudo o que se pode fazer é ajudar o destino. Se tivesse ficado naquele meu caminho, estaria frustrada, talvez tivesse aberto uma loja, sei lá.

MC A peça é baseada nas suas experiências amorosas?
MM Fiquei sem namorado dos 30 aos 33 anos. Antes disso, tive um casamento e, depois, alguns namorados. Nessa época de solteira, comecei a escrever os contos, sem pretensões. Contava minhas aventuras amorosas e sexuais. As histórias da peça são inspiradas nesse período da minha vida. Eu escrevia os contos e, lá no fundo, sabia o que queria fazer com eles, mas eu não tinha coragem de dizer nem de mostrar a ninguém. A gente tem medo de se expor, de ser rejeitada, de fracassar, né? Aí, teve um dia que eu li as histórias para minha mãe, que é muito crítica, e ela adorou. Foi quando ela falou: 'Pára de se lamuriar. Pega seus textos e vai ler na praça'.

Em nossos almoços de família, alguém sempre dizia:'Sabia que abriram concurso no Banco
do Brasil?'

MC Nessa sociedade que mede sucesso por dinheiro arrecadado e propriedades adquiridas, como é ser vista como 'a fracassada' da família por tanto tempo?
MM Eu sempre fui considerada 'a diferente' da casa. Meu pai é comerciante, minha mãe é professora, minha irmã é médica e meu irmão é matemático. Imagina. Todos bem encaminhados e bem-sucedidos muito cedo na vida. E eu, que tinha feito seis meses de Direito, trancado, me mandado para ser babá na Califórnia, voltado e me formado em Jornalismo, querendo viver da arte aos 30 e lá vai. Nos almoços de família, sentia que todo mundo tinha pena mim. Sabe aqueles comentários baixinhos?, 'Meu Deus! A Mônica não aconteceu ainda'. As pessoas me falavam: 'Sabe, tem um jornal em Cabo Frio que está contratando'. Ou: 'Querida, abriram concurso para o Banco do Brasil'.

MC Como contos despretensiosos de uma atriz frustrada se transformaram em um dos espetáculos mais bem-sucedidos dos últimos anos?
MM Aí entra em cena o Jerry. Conheci o Jerry exatamente como na situação que narro na peça: no [restaurante] Spot, em São Paulo. Um amigo tinha me levado para sair com amigos dele, e todo mundo na mesa era gay. Achei, naturalmente, que o Jerry fosse também. Aí relaxei total e falei loucuras. Falei que ia comer o gatinho que estava servindo os drinques, altas barbaridades. No meio do papo, o Jerry mencionou que era hétero. Na hora que ele falou, perdi a espontaneidade imediatamente e comecei a mexer no cabelinho assim [faz o tipo sexy, joga a cabeça para trás, dá uma risada de canto de boca]. Fiquei maluca por ele. Ele morava no Rio, mas estava em São Paulo produzindo o show do Ed Motta. A gente clicou na hora e foi morar junto pouco tempo depois. Aí, tive coragem e mostrei os textos para ele. Era tudo meio caótico, escrito à mão. O Jerry falou: 'Vamos produzir isso!'. Resgatou meu computador que ficava escondido debaixo da mesa, porque eu não usava para nada, e disse: 'Olha, hoje, quando eu chegar do trabalho, quero ver a primeira história digitada'. Eu tinha encontrado um homem para produzir a minha vida, você tá entendendo? Ele me organizou. Isso é importantérrimo. Passei oito meses escrevendo durante dez horas por dia.

No dia da estréia, Miguel Falabella foi ao camarim e gritou, todo empolgado: 'menina, me diz quem você é!'

MC Hoje, olhando em retrospectiva, parece tudo bonito e romântico. Mas, naquela época, não dava para ter idéia de que você estava dedicando todo o seu tempo a escrever uma peça de sucesso.
MM Exatamente. Pedi a uma diretora conhecida para ler meus textos. Fui para a casa dela, li os contos e ela falou: 'Olha, Mônica, teatro é uma coisa que tem que ser bem pensada, não é assim'. Saí de lá arrasada. Depois ela me escreveu uma carta dizendo: 'Me desculpa, não sei como não tive olhos para você'. Então tem isso também. Tem gente que não tem olhos pra gente. Temos que ir atrás de quem tem. Essa mulher é uma puta diretora, mas ela não me viu. Agora, imagina se eu saio de lá e penso: 'Puxa, melhor desistir, isso aqui não vai dar certo'. Depois, Jerry ligou para o Victor Peralta, diretor e amigo dele, e o Victor entrou no barco. Em abril de 2004, num papo que durou a noite inteira, a gente delineou o espetáculo. No dia seguinte, fui ao teatro Cândido Mendes, no Rio, e marquei a data da estréia: abril de 2005. Me dei um ano. Zero de dinheiro. Saí pedindo. Minha mãe deu 4 mil, meu pai, 9, o Jerry, 2... juntei 18 mil. O negócio é marcar a estréia.

MC Você também estava desempregada nessa época?
MM Estava fazendo 'Zorra Total'. Não era contratada, só ganhava cachê. Era só para pagar contas, não sobrava nada. O Jerry falou: 'Sai do 'Zorra' para se dedicar ao projeto'. Pedi demissão, fiquei sem ganhar nada. E eu e o Jerry morando num apartamentinho de quarto e sala, ele me bancando. Começamos a ensaiar em janeiro. Hoje a gente sabe que eu estava me preparando para estrear um sucesso, mas, naquela época de perrengue e improviso, eu estava ensaiando o nada. Eu falava para o Jerry: 'Amor, e se for uma merda?'. E ele falava: 'Se for uma merda, você já saiu de onde estava. Você já é uma realizadora, porque nem todo mundo realiza, tem muita gente com idéia em mesa de bar. É muito mais do que a maioria das pessoas faz'. E eu meti a cara.

MC Você tem mágoas de quem te recusou ou não te viu?
MM Nenhuma. Olha, faz um tempo, deram um livro para eu ler e adaptar para uma peça. Eu até agora não li esse livro. Daqui a pouco alguém lê, adapta, e a peça é um sucesso. Aí o autor vai dizer: 'Eu dei para a Mônica ler e ela não fez nada com isso'. Entende? É assim a vida. As ondas passam e você perde muitas, uma hora pega a sua. O que não podemos fazer é terceirizar nossa felicidade, terceirizar nossa iniciativa. Sua vida e seus sucessos e fracassos são problemas seus, de mais ninguém.

Vivemos soterrados em mentiras. Por isso, quem joga a verdade na sua
cara faz sucesso

MC E a estréia?
MM A estréia foi o único dia até hoje que não foi lotado. No Rio, 14 de abril de 2005. Era só para convidados. Sabe, um monólogo de uma atriz desconhecida, dia de semana… quem se arrisca? O [Miguel] Falabella se arriscou. Ele e o Edwin Luisi. São caras que adoram conhecer o novo. Mas o teatro estava vazio. No final, o Edwin foi ao camarim e falou: 'Sua vida muda a partir de hoje'. E o Miguel entrou no camarim falando: 'Amor, quem é você?'. Duas semanas depois, apareceu a crítica mais temida do Brasil, a Barbara Heliodora. Chamei minha família inteira para ir e falei: 'Gente, ri bem alto, tá?'. Durante a peça, eu olhava para eles e eles não estavam olhando pra mim, todo mundo olhava para a Barbara. No final, meu irmão matemático falou: 'Mônica, ela riu 13 vezes' [risos]. A crítica foi excelente. Depois disso, lotou a ponto de eu ter que fazer duas apresentações por dia e mudar para um teatro maior.

MC Por que você acha que a peça faz tanto sucesso?
MM Estamos vivendo soterrados em mentiras e hipocrisias. E a peça é muito verdadeira, e simples demais. Verdade e simplicidade estão em falta. Então, se alguém joga a verdade na sua cara, vira um sucesso.

MC Quem não curte?
MM Quem está solteira há muito tempo, por exemplo. Essa mulher ou entra no espetáculo da melhor forma possível ou se defende dele. Tem gente que sai deprimida.

Está na hora de sacar que nós, mulheres modernas, queremos, sim, um
grande amor

MC O tema é pertinente às mulheres, mas como os homens costumam reagir?
MM Os gays piram, amam, enlouquecem. E os héteros agradecem. Porque eles estão tentando entender essa mulher de hoje e a peça dá boas dicas a respeito dela. Vamos falar sério: esses caras estão por baixo, ficam tentando entender o que a gente é hoje, mas estão perdidos. Não sabem se devem abrir a porta do carro ou se isso será uma ofensa. Acabou aquele tipo de relação baseada na dependência financeira e na criação compartilhada de filhos, que dava uma tremenda segurança a eles. Hoje, é só o afeto. Grana não pega mais, e filho é opção. Eu, por exemplo, não tenho filho. Quero muito ter, inclusive. Aliás, preciso engravidar hoje à noite, não dá para esperar nem mais um dia, estou aos 44 do segundo tempo [risos].

MC O seu texto também permite uma leitura careta, machista e antifeminista. Essa coisa de procurar um homem desesperadamente, de não conseguir ser feliz sozinha, por exemplo.
MM Não tive preocupação em chocar feministas. Sou filha de uma feminista, mas acho que todo mundo tem que ter um amor na vida. Hoje, a mulher não precisa mais estar sozinha para ir abrindo caminho. O homem já não é mais o inimigo, o entrave. A gente pode ser independente e ter um homem do lado. A geração de nossas avós era a da mulher dependente, a de nossas mães, a da revoltada com essa situação, e hoje, o equilíbrio. Essa geração que hoje tem 40 ouviu a vida inteira: seja independente financeiramente. Minha mãe nunca pregou o casamento. Muito pelo contrário: ela dizia que a gente tinha que se virar sozinha. Os homens estão mais ligados na nova função, sabem que precisam ajudar, que o processo agora é de colaboração.

MC Não seria esse, então, um dos segredos do sucesso da peça?
MM Claro, claro. As pessoas me dizem: 'Nunca tinha visto uma mulher tão forte, moderna e inteira dizer que quer casar, que quer um amor'. Essa falta de vergonha de dizer: 'Eu quero casar!' é o que choca, e, por conseqüência, atrai. A gente cresceu achando que confessar que quer casar é uma tremenda caretice, quase uma babaquice. E essa personagem não tem vergonha de dizer isso. Minha mãe, feminista, 60 anos, separada, tá doida pra casar. Todo mundo quer um amor, um parceiro. Se alguém me pergunta se é impossível ser feliz sozinho, eu digo que não. Mas digo também que a vida a dois é infinitamente melhor. Ontem, passei o dia inteiro na cama vendo vídeo. Claro que eu poderia estar sozinha, ia ser bom. Mas, com alguém que eu amo do lado, é melhor. Essa é a libertação da peça. Se alguém achar que a peça é reacionária, eu digo que é o contrário. Essa mulher é independente, ganha sua grana, dá pra quem quer, é livre para ir e vir e tomar decisões, e quer desesperadamente casar. Talvez seja hora de a gente sacar que, depois de todas as conquistas, de tanta luta, de tanta revolução, nós, mulheres, queremos, sim, um grande amor. Admitir isso, mesmo que não consigamos chegar lá, não é vergonha alguma. É o que o Jerry me falou: tentar e não conseguir não constitui fracasso. Fracasso é não tentar.

MM Sua mãe ainda precisa ajudar financeiramente?
MM [Risos] Não mais. Acho que estou ficando rica.


quinta-feira, 17 de julho de 2008

A fita métrica do amor

Foto do filme "Elizabethtown"

Por Martha Medeiros

Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.

Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Frase do Dia

"Do what you feel in your heart to be right - for you'll be criticized anyway.
You'll be damned if you do and damned if you don't"

(Eleanor Roosevelt)

O último registro

Universidade se despede de Oldemar Vitor

Responsável pela formação profissional de várias gerações de fotógrafos e jornalistas, o o professor Oldemar Vitor Fonseca Santos, decano da Faculdade de Comunicação da UFBA morreu, aos 64 anos, entre domingo e segunda na casa onde morava com sua irmã Maria Lúcia Fonseca Santos. O sepultamento é logo mais às 16h no Campo Santo. Vitor se dedicou à fotografia por mais de 30 anos. O diretor da Facom, Giovandro Marcus Ferreira, ressalta seu talento. “Queremos agradecer a presença serena dele nos momentos turbulentos que enfrentamos. Oldemar sempre foi uma pessoa pronta a ajudar”. Além de docente, Oldemar Vitor foi repórter fotográfico do Jornal do Brasil, da Agência Estado, do extinto Jornal Bahia Hoje, dentre outros veículos e instituições.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

"Se teu amor foi hipocrisia..."


Minha família já virou piada entre os parentes e velhos amigos por conta das inúmeras vezes que nos mudamos (cinco mudanças Brasília-Salvador e 20 de residência, em 20 anos). Não há nada de errado conosco que justifique tantas idas e vindas, exceto a nossa dificuldade de tomar decisões importantes em grupo.

Não sei se lamento ou se comemoro o fato. Se por um lado, já chego sabendo que meu tempo de permanência é curto, do outro, tenho história pra contar. Na verdade, tudo seria ótimo se não fosse uma criatura tão apegada e sentimentalóide. Mas, aos trancos e barrancos, a mutabilidade de pessoas e cenários tem me "corrigido" muito neste sentido, nos últimos anos. "Gracias a la vida...".

Um dia, chego lá! hehe

O Ano em Que Meu Sorriso Saiu de Férias
A
primeira delas aconteceu no final de 1989, quando viemos para Salvador, por recomendação médica - mamãe havia adoecido bastante nos últimos dois anos e o ambiente de beira-mar, segundo o médico, a faria melhorar.
Aqui vale um parêntese: a minha própria experiência, somada a outras que vi ao longo dos anos, me rendeu uma teoria sobre "forasteiros": "desconfie" deles. Ninguém (ou pelo menos 90%) larga a sua terra natal, por iniciativa própria, a troco de nada! Não raro, por trás de motivações banais e compreensíveis, há alguma outra forte e secreta impulsionando a mudança. Já descobri cada história!... Como dizia minha professora de italiano, quem vai embora de sua terra, das duas, uma: ou está buscando algo, ou está querendo deixar para trás.

Apesar de ter nascido e crescido numa das superquadras da Asa Sul e possuir, desde que me entendia por gente, os mesmos amigos de escola e de vizinhança, pensei que seria divertidíssimo viver em Salvador. Afinal, a cidade era minha velha conhecida, nós costumávamos veranear aqui, todos os anos, desde 1981, e eu era fascinada pela capital baiana, ainda que fosse muito feliz em Brasília. Entretanto, o resultado desse meu excesso de expectativa foi a total decepção.

Terra Estrangeira
O Brasil só é o mesmo país para quem nunca saiu do lugar onde vive, mas quem já se deslocou por um considerável período entende o quão estrangeiros podemos nos sentir a apenas
1.500 km de casa: há vários "dialetos"; os valores e costumes definitivamente não são os mesmos; o clima e a paisagem mudam radicalmente; e nem o ensino é padronizado - o que, hoje, sei que não é bom nem ruim e nem neutro, mas um dia isso foi motivo de implicância (e desgastou a paciência de Jó do meu professor de português, Lúcio! hehe).

O dia-a-dia numa localidade durante as férias não é de jeito algum similar a vivência nele. As cidades litorâneas costumam iludir muito os seus turistas neste aspecto. Como tudo na vida é uma questão de perspectiva, aquilo que me encantava nos dias de verão irritava-me sobremaneira no cotidiano, desde o sol escaldante ao jeito espontâneo-invasivo dos soteropolitanos.

Eu mais que entendo o povo de outros estados que fala mal da Bahia e reclama de tudo, quando ainda são recém-chegados. Já passei por isso e sei como é. Lembro de mim e de um vizinho da minha idade, goiano, resmungando, cada um num lado da pilastra do prédio, o fato de estarmos aqui e não no nosso querido Centro-Oeste. Patético! (risos) Ele, aliás, após ter voltado para Goiânia, morado nos EUA e residido em Sampa, acabou voltando pra onde, hein?! Quem adivinha?! Ele, que odiava pra caramba isso aqui, tem dois filhos nascidos na Bahia. Soube que ainda sonha em voltar para Goiânia...

Não é exatamente uma rejeição à nova terra; no fundo, é mais a decepção consigo mesmo/a por ter se enganado com a imagem paradisíaca que se vende daqui. É, sobretudo, o sr. Vazio cantando novamente no ouvido do/a cidadã/o. Não pegou? Bem, minha vó tem uma frase melhor que essa explicação, que ela até disse a minha mãe quando a gente se mudou: "Para onde você for, não se iluda: o urubu continuará sendo preto". (risos)

O ser humano tem a mania de ver o que não existe; muita gente boa, vira e mexe, força a barra a favor dos seus quereres (que, não raro, também são igualmente forjados). Portanto, baianos, muita calma nessa hora; tenham paciência com os forasteiros desiludidos. hehe

Mudar-me para Salvador e residir em Itapuã me proporcionou uma dupla transição de ambiente: não mudei de cidade, apenas; fui da cidade para o interior.

Aliás, abro aqui um outro parêntese: agradeço a Facom por ter me "apresentado" à cidade, por ter me mostrado Salvador em "larga escala" (ainda que isso fosse acontecer uma hora ou outra). Pois, até então, não saía de Itapuã para quase nada; a cidade, pra mim, existia só até a Pituba. Quase morri de susto, na 7ª série, quando um amigo sugeriu que fizéssemos uma pesquisa na Biblioteca dos Barris e me mostrou onde isso ficava, no mapa da cidade! Naquele dia, descobri não apenas que morava longe mas que residia no extremo do extremo de Salvador. Senti-me traída pela latitude e pela longitude. Fiquei anos bloqueada por conta daquela "proposta indecente" de ir de Itapuã aos Barris; por muito tempo, meu limite foi o Iguatemi.
Era muito caipira! Noooossa!... (risos)

Aprendi cedo, com essa experiência que tive na capital da Bahia, que "nem tudo que reluz é ouro". Quando fui embora, no final de 1990, de tão entediada, dei graças a Deus por estar voltando à "civilização". É certo que não cheguei ao ponto de Carlota Joaquina, ao partir do País – faltou-me coragem para bater as sandálias e berrar que "Desta terra, não levo nem o pó!", no aeroporto de Salvador, embora ainda tivesse o “álibi” de ser “apenas uma criança”.

Silenciosamente, prometi a mim mesma que nunca mais deixaria Brasília. "Forças ocultas" me impediram, um ano após o nosso retorno, de cumprir tal promessa. Fui arrastada de volta à Bahia em 1992 e, de pés e mãos atados, que podia fazer? Esse é o lado ruim de ser criança: não há liberdade; você fica totalmente à mercê da consideração (ou da falta dela) dos adultos ao seu redor.

Estranhamente, o nosso retorno, em 1991, não cessou a minha sensação de deslocamento, adquirida no ano fora do DF. Parte dos amigos da quadra já residia em outras localidades e os que permaneceram haviam se acostumado com a minha ausência. Até a minha melhor amiga mudou comigo (se bem que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde). Vai soar vaidoso, mas para quem se foi, é duro ver que a vida, ali, continuou apesar da sua ausência. No fundo, deseja-se que quem ficou sinta a mesma saudade de quem foi.

Tão pouco tempo distante e foi mais ou menos como morar lá pela primeira vez. Tive que reconquistar tudo de novo. Menos o sotaque, que eu lutei bravamente para preservar!... Ou melhor, a falta de sotaque, que em Brasília isso não existe (risos). Sabe que isso era divertido? Quando cheguei aqui, ninguém sabia identificar de onde eu era. Gaúcha? Carioca? Paulista? "Que sotaque é esse?"

Às vezes observo meus primos, tão diferentes de minhas irmãs e de mim, e fico imaginando o que teríamos nos tornado, caso nunca tivéssemos ido embora de Brasília... Porque o modo como eu ia encaminhando minha adolescência por lá era bem diferente do que ocorreu pra mim aqui em Salvador. Às vezes viajo nisso, em quem seria caso tivesse permanecido e, no final, me consolo pensando que eu estive onde precisava estar para ser o que sou.

***

Cresci longe de meus avós, tios e primos e isso me deu muita liberdade de ser. Óbvio que minha "família nuclear" foi importante na minha formação; não surgi por "geração espontânea". Mas quando você é a caçula de 3 (no verão, a depender, de 4 e mais agregados), tem de aprender a se cuidar sozinha porque seus pais nunca terão muito tempo pras suas demandas - cheguei a Elias já PhD no "Te vira!". Os meus me criaram num esquema meio BBB: havia uma direção que tudo via, uma voz que às vezes dava algum comando mas não interfiria diretamente. Nunca nos ajudaram em um dever de casa. De encrenca, a gente tinha que dar um jeito de sair sozinha. Na verdade, toda a minha educação foi baseada num único conselho: "Você pode _____, mas quem vai estragar a vida é você. O máximo que vou poder fazer é lamentar". Demasiado prático - até frio -, não? É a realidade da vida! Sempre andei "certo" porque aprendi com eles que viver é "pessoal e intransferível".

Enfim, eu me criei; me eduquei observando os outros, refletindo "com os meus botões" e dando muita "cabeçada na parede". No final das contas, isso me rendeu um sistema de valores ao qual sou muito apegada, o que às vezes me atrapalha no terreno prático, mas, diante das coisas que ganhei, é o mínimo. Isso talvez não teria sido possível se eu tivesse todo mundo ao meu redor, palpitando, vigiando, me ajudando, enfim, fazendo todas essas coisas que os parentes sempre fazem.

Uma certeza essa experiência me deu: manter a família próxima é importante. Família, mesmo quando é ruim, significa identidade e amparo. Eu me dei bem "raising myself", digamos assim, porque tive a sorte de nascer com algum juízo e de ter pessoas de bom caráter ao meu redor, que me deram bons exemplos e me fizeram não querer decepcioná-las. Meus pais também tiveram essa mesma sorte (portanto não convém abusar dela fazendo o mesmo com a próxima geração). Mas poderia ter sido exatamente o contrário. Acredito piamente que os mais jovens precisam da orientação dos mais velhos. Não dá para pôr gente no mundo e esperar que as coisas saiam bem por um golpe de sorte. Nossa sociedade anda muito sem parâmetros. Cada vez mais, a família vai ser importante para o desenvolvimento do indivíduo, por incrível que pareça. De onde mais se poderá adquirir valores, em pleno séc. 21, se hoje tudo é relativo? Até mesmo para negá-los, é preciso tê-los.

Um dos meus maiores receios no ano em que estive em Brasília era ficar por lá de vez, e ver meus sobrinhos crescendo à distância (minhas irmãs estavam casadas, na ocasião, e o MSN não era tão desenvolvido em 2005 quanto é agora). Acho que a Nanda, que passou o ano seguinte no DF e já tinha uma sobrinha pequena naquela época, compartilhou dessa mesma sensação e, por essa e outras, acabou voltando. Nada mais esquisito que o fenômeno dos "estranhos conhecidos", né?

Posso estar no Alasca, meus pais em Goiânia e minhas irmãs na Sibéria e na China: se Valentina (ou Cecília) e João saírem "do papel" (risos), eles terão que dar as caras no Skype todo dia, pra dizer "Oi" aos avós e às tias... Mas não é a mesma coisa. O ideal é que possam crescer geograficamente perto mesmo, principalmente na infância, pois, com a distância, das duas, uma: 1) Ou você se adapta e mal lembra do que deixou para trás; 2) Ou você não esquece e fica com alguma dificuldade de se adaptar de verdade. Perder o contato com a origem ou ter pais que não se desligam dela, de um modo negativo, são duas situações ruins para uma criança/adolescente.

Ó vida!... Cada escolha, uma renúncia.

Destination Anywhere
Hoje, digo que sou soteropolitana - mais por convenção que por qualquer coisa. Mas ainda estranho quando me chamam de "baiana"; por outro lado, não consigo dizer que sou "brasiliense" ou "goiana"(ainda tem essa: Brasília é um quadrado rodeado pelo estado de Goiás). Desde que vim pra cá, nunca mais me senti pertencente a lugar algum. (Aliás, eis aí uma grande pergunta: como ser sem pertencer?) A Bahia me "desregionalizou" - é fato. Não tenho mais "impressão digital" cultural - se é que vocês me entendem. Ou talvez tenha é uma bruta hipermetropia existencial, e só consiga enxergar bem quando as coisas já se encontram à distância. Se bem que o ano que passei em Brasília, recentemente, não mudou nada nesse sentido.

Às vezes quero desesperadamente sair de Salvador, porque sei que o mundo é grande e que eu vou me amarrar em ver as coisas que existem longe do meu horizonte. Por outro lado, tenho medo do que posso sentir longe daqui. Como diz o povão, "Gato escaldado...". Em Salvador, o desconforto já ficou confortável. Mas às vezes pondero, também, que o pior já passou; mais difícil do que a primeira vez, não pode ser.

Já desisti, também, de esquecer Brasília. Não dá. Apesar de não tolerar mais que uma semana na “cidade que fabrica as suas próprias leis”, o lugar fez e sempre fará parte de mim. Na verdade, nunca saí de lá totalmente. Uma vez, lendo um livro de Kundera (!!!!!), consegui o mais próximo da tradução do que sinto por aquela cidade, que me causa repelência física mas que nunca abandonou meu pensamento: "Eu a desejava como se desejam todas as coisas perdidas para sempre".

Eu a perdi há 18 anos, e para sempre, porém isso não mais importa (aliás, a essa altura da vida de uma pessoa, se tem uma coisa de pouca relevância prática, essa é o passado). Mas, de fato, Brasília continua en piel... Porque, como me disse uma vez meu pai, a gente nunca deixa o lugar de onde viemos - ainda quando desejamos nunca mais pisar nele.

domingo, 13 de julho de 2008

Anti-Othelo

"Não conte que traiu"

Segundo terapeuta americana, nem quem deseja continuar com o parceiro nem quem quer abandoná-lo deve revelar o adultério

Thiago Cid

Filha de judeus sobreviventes de campos de concentração, a psicóloga Mira Kirshenbaum nasceu no Uzbequistão, em 1946, e viveu num campo de refugiados até os quatro anos, quando emigrou para os Estados Unidos com os pais. Os traumas da guerra ficaram enraizados em sua infância, mas sua reação diante do sofrimento não foi o rancor. Ela diz que o fato de sua família ainda estar viva a motivou a trazer alívio às pessoas. Em seu novo livro When good people have affairs (“Quando as pessoas boas traem”, ainda sem tradução no Brasil), Mira lista 17 motivos que levam as pessoas a procurar uma relação extraconjugal e conclui que, às vezes, a traição pode ser a chave para a reconstrução de um relacionamento. Ela garante que a infidelidade, e sim uma defesa do amor. "Na traição, procuramos o que nos falta. Se soubermos encontrar isso no parceiro, não teremos vontade de trair", diz. Nesta entrevista a ÉPOCA, Mira explica por que quase metade das pessoas trai e fala sobre o que fazer depois que uma terceira pessoa entrou no relacionamento.

ENTREVISTA MIRA KIRSHENBAUM

QUEM É Nascida no Uzbequistão, mudou-se para os Estados Unidos com 4 anos. Filha de judeus sobreviventes dos campos de concentração, morou em campo de refugiados no período pós-guerra. Casada, tem 62 anos, dois filhos e uma neta. É mestre em psicologia pela Universidade de Nova York e autora de dez livros sobre relacionamento.

ÉPOCA - Em seu livro, a senhora diz que ter um caso extraconjugal pode ser a melhor maneira de saber o que realmente queremos. Como?
Mira Kirshenbaum - A traição pode ter o poder de tirar a pessoa da inércia. Muitos acham seus casamentos sufocantes e, nesses casos, uma relação extraconjugal é a primeira oportunidade em muito tempo de explorar quem a pessoa realmente é e o que ela busca. Com essa experiência, o indivíduo percebe que é livre para fazer escolhas, que existem outras possibilidades. A traição é sempre uma investigação, uma tentativa de ver se as coisas poderiam ser melhores com outras pessoas.

ÉPOCA - A traição é positiva?
Mira - Trair seu parceiro é quase sempre destrutivo e doloroso demais para valer a pena. Em alguns casos, porém, pode ajudar as pessoas a se dar conta de que estão em um casamento ruim. Em outros casos, podem ajudar as pessoas a perceber que o companheiro é, de fato, a pessoa com quem devem ficar. Ter um caso fora do casamento é uma maneira confusa e desajeitada de as pessoas encontrarem seus caminhos.

ÉPOCA - A senhora disse que, se alguém quiser reconstruir o casamento, não deve contar ao parceiro sobre a traição. As mentiras são necessárias para manter a relação?
Mira - Quanto menos mentira, melhor. Um casal deve ser franco com o outro, mas existem certos segredos que devem ser mantidos. Imagine que um homem fantasie com a Gisele Bündchen quando faz amor com sua mulher. Que bem ele fará a ela se contar esse segredo? Qual seria o objetivo de contar que você se envolveu com outra pessoa? O critério para se contar segredos é avaliar a dor que a revelação pode causar. A regra moral é não machucar ninguém.

ÉPOCA - Mas revelar a traição não poderia ser um sinal de mudança ou confiança?
Mira - Se você está terminando o seu casamento, não fará diferença. Mas se você quiser reconstruir sua relação, contar a traição só irá atrapalhar. A pessoa não ficará tocada pelo seu gesto de revelar tudo. Ela ficará machucada pela traição, e você não precisa magoá-la. Apenas seja sincero consigo mesmo e aponte para qual caminho seguir. Nessas horas, é bom levar em conta que mais vale um divórcio a um casamento destrutivo.

ÉPOCA - Um dos tipos de adultérios que a senhora cita em sua lista é a traição acidental, em que a pessoa está no lugar errado na hora errada. Não haveria uma predisposições por trás desse “acidente”?
Mira - Quando digo acidental, me refiro a uma série de circunstâncias que, em conjunto, levam alguém a fazer algo que normalmente não faria. Mas não precisa dizer que haveria predisposições por detrás da traição. Afirmar isso é dizer que a pessoa agiu inconscientemente e que a traição foi “sem querer”. Os psicólogos estão cada vez mais céticos sobre o uso do inconsciente como fonte de explicações para as atitudes humanas.

ÉPOCA - Um outro tipo de traição mencionado em seu livro é o “banco ejetor”, quando o parceiro trai para acabar de vez com a relação. Além de ser um ato covarde, é uma forma rude de terminar uma relação. Como pode ser uma atitude de pessoas boas?
Mira - O banco ejetor é freqüentemente a melhor maneira que uma pessoa com medo de lidar com o parceiro encontra para terminar o casamento. Essas pessoas podem ser covardes e desajeitadas, mas isso não significa que sejam más.

ÉPOCA - Qual foi o objetivo de seu novo livro?
Mira - Há dois objetivos principais. O primeiro é o controle de danos. Quero mostrar que uma traição pode ser superada se o casal realmente quiser ficar junto. Quero também diminuir a dor nos corações mostrando que a traição não foi sinal de uma maldade. Muitas vezes é a forma que uma pessoa encontrou para lidar com uma situação desfavorável. Claro, descoberta a traição, o parceiro terá de se mostrar empenhado em reconstruir os laços de confiança e deverá compreender que a dor e a raiva do companheiro não se dissipam facilmente. A antiga visão sobre casos extraconjugais é que eles terminam como acidentes de carro, com sobreviventes feridos e sangrando. Não precisa ser assim. O segundo objetivo do livro é blindar a pessoa contra o remorso destrutivo, que a prende ao passado e a impede de seguir em frente. Após contabilizar os danos da traição, as pessoas têm que buscar a reconstrução. Essa é uma visão nova para muitas pessoas. Se você souber se fechar ao remorso, pode renovar sua vida com todo o amor que procura.

ÉPOCA - O seu livro é sobre pessoas boas que traíram. Quando uma pessoa boa trai, existe sempre um motivo nobre por trás, como autoconhecimento?
Mira - Não podemos ter a idéia que pessoas boas fazem apenas coisas boas e pessoas ruins, apenas coisas ruins. Todos fazemos coisas ruins e isso não significa que sejamos pessoas más. As pessoas boas traem quando não estão felizes no casamento. Elas estão confusas, oprimidas, e ter um caso é uma forma de trazer alívio àquela situação sufocante.

ÉPOCA - E o que são pessoas boas?
Mira - São aquelas que tentam ao máximo fazer as coisas certas. Elas erram, mas se arrependem verdadeiramente quando fazem alguma coisa ruim. Com a minha experiência clínica, sei que as pessoas boas são aquelas que estão realmente horrorizadas com a dor que causaram. Não tiveram um caso porque não ligam para o parceiro, mas porque estavam agoniados. Já uma pessoa ruim não se importa com a pessoa que machucou. Ela só faz o que vem à cabeça, seja lá qual for o custo para os outros.

ÉPOCA - Um caso breve é diferente de um longo?
Mira - Na minha opinião, quem mantém um caso longo não é pior do que quem trai por apenas uma noite. Não existem regras para apontar o que é mais ou menos grave. O que importa é que foi cruzada a barreira do trair ou não trair. Se o seu parceiro se sentiria mais machucado se soubesse que você teve um caso longo, não cabe a mim opinar a respeito. Também não posso dizer que a traição de apenas uma noite não é tão grave assim. O que posso afirmar é que você não pode dizer às pessoas que as duas traições são diferentes. Cada um lida da sua forma com o fato.

ÉPOCA - Quais seriam os limites da traição de uma pessoa boa?
Mira - O motivo é o aspecto crítico. Trair só porque está afim, sem nenhuma preocupação com os sentimentos do parceiro, está muito além do limite.

ÉPOCA - A senhora afirmou que uma das piores coisas para uma pessoa que traiu é a culpa. Mas ela não é um sinal de remorso?
Mira - Ter culpa é bom até um certo ponto. É um sinal de que a pessoa tem norteadores morais. Se você não se sentir culpado após trair, você pode ser um sociopata, alguém incapaz de se importar com os outros. Mas cegar-se pela culpa pode ser muito prejudicial. Pode levar as pessoas a fazerem coisas que não ajudarão. Como, por exemplo, se sentir tão culpado por trair e por isso permanecer no casamento mesmo que ele esteja claramente morto. Ou, então, sentir tanta culpa e não conseguir encarar o parceiro, mesmo que o casamento possa e deva ser salvo. Quando o sentimento de culpa o torturar, não ceda à tentação de contar sobre o affair. A melhor coisa a fazer é procurar um conselheiro sábio e experiente para ajudar a controlar os sentimentos e evitar atitudes precipitadas.

ÉPOCA - O sentimento de fazer algo errado e secreto estimula as pessoas a trair?
Mira - Para algumas pessoas isso pode ser excitante, mas não para a maioria. Na maior parte dos casos, as pessoas estão sufocadas, desesperadas, e podem fazer qualquer coisa. Por isso traem e correm tantos riscos.

ÉPOCA - Relacionamentos abertos são considerados adúlteros? Podem ser saudáveis?
Mira - Um relacionamento aberto não é adultério se realmente for uma escolha mútua verdadeira. Eu, pessoalmente, nunca vi um relacionamento aberto dar certo.

ÉPOCA - Muitos casais só se descobrem verdadeiramente com a convivência diária após o casamento e percebem que as expectativas são diferentes. Como salvar uma relação em que as necessidades dos parceiros são diferentes?
Mira - Com terapia conjugal. É a melhor maneira para casais com problemas conjugais encontrarem seu caminho de volta um para o outro. Sem mediação, os casais não conseguem sair de uma relação ruim, mesmo que eles próprios sejam terapeutas. Odeio ter que dizer que é a única maneira, mas não pode ser feito sem ajuda profissional. É como o trabalho de uma parteira: pode dar certo, mas há muitas maneiras de as coisas darem errado.

ÉPOCA - A senhora disse que cerca de 47% dos homens casados e 35% das mulheres casadas estão propensos a se envolver com outra pessoa. Essa taxa era diferente décadas atrás?
Mira - A grande mudança é a quantidade de mulheres traindo. Elas estão traindo mais. Isso ocorre porque agora elas têm mais oportunidade de trair: estão morando nas cidades e tendo vidas independentes. A natureza humana e a oportunidade são dois fatores determinantes nas taxas de adultério. A natureza humana é a mesma, elas agora têm a oportunidade. Mas se você quer mencionar números importantes, eu diria que há 50% de chance de uma pessoa ser afetada por uma traição durante sua vida afetiva. Como cada um reagirá a isso? É uma coisa terrível, mas que somos obrigados a lidar. Para piorar a situação: como você lida com a possibilidade de pegar uma doença com a traição? Por isso eu digo: não traia, por mais que em alguns casos a traição traga benefícios.

ÉPOCA - Como a traição é vista culturalmente?
Mira - Não existe cultura onde a traição não seja condenada. A diferença está na percepção dos aspectos mais importantes. Em algumas culturas, o mais importante é como a traição é vista pelas outras pessoas. É uma questão de vergonha. A vergonha vivida diante dos olhos da comunidade. Isso está enraizado na cultura mediterrânea, na cultura árabe. Alguns países muçulmanos ainda apedrejam as adúlteras. O que importa é a maneira como você é visto pela sociedade. Em outras culturas, a cultura ocidental principalmente, o conceito de traição está mais ligado à confiança, à capacidade de confiar em outra pessoa para construir algo em comum, à sensação de que a outra pessoa esconde segredos de você. Claro, as coisas não são pretas ou brancas (oito ou oitenta). O pesadelo de todos que conheço que foram traídos é a possibilidade de a comunidade descobrir e, daí, ter de lidar com a piedade deles ou com a sensação de fracasso e inferioridade. Mas a grande diferença multicultural é o senso de qual é o fator predominante.

ÉPOCA - Como a senhora vê os casos de Bill Clinton (ex-presidente americano que teve um caso com uma estagiária da Casa Branca) e Elliot Spitzer (ex-governador de Nova York que saiu com uma prostituta)?
Mira - Todos me perguntam sobre Spitzer. Mas não posso falar sobre a relação das pessoas a não ser que eu as tenha tratado. Não seria ético. O que aprendi em meus 33 anos de prática clínica é que o que você do lado de fora é muito diferente do que se passa por dentro. As pessoas encenam sua vida afetiva e mostram aquilo que querem. Creio que consigo ver com mais facilidade o que se passa dentro das pessoas, mas ainda assim sou consciente de que o que vejo é apenas uma versão. Não fui terapeuta dessas pessoas e o que sei está nos jornais. E assim como há comentários falsos sobre meus livros, sei que foram publicadas muitas coisas equivocadas sobre os dois.

ÉPOCA - A senhora já traiu? Como se sentiu depois?
Mira - Nunca. Sou incapaz de machucar alguém. Não estou me gabando, é a maneira como meu sistema nervoso foi construído. Mas meu marido teve um caso e eu fiquei arrasada. Senti na pele o terrível dano que a traição provoca. Desperdicei muito tempo e me machuquei muito presa à idéia de que ele era uma pessoa ruim. Com o tempo, percebi que ele era o homem bom que sempre conheci. Eu também não estava isenta de culpa no caso. Estava tão voltada para o meu trabalho que me afastei de meu marido e o fiz pensar que eu não ligava para ele. Teria nos ajudado muito se, em vez de brigar, tivéssemos nos esforçado para compreender o que o levou a me trair. Fizemos esse exercício de compreensão depois e estou muito orgulhosa.

ÉPOCA - E o que a senhora aconselharia a quem descobriu que o parceiro andou traindo?
Mira - Não faça ou diga nada em um primeiro momento. Acredito em amor verdadeiro e acho que uma relação amorosa pode ser recuperada. Por isso, ache uma pessoa sensata para conversar a respeito. Pense sobre o que você quer: você quer esta pessoa de volta se existir alguma maneira de perdoar e reconstruir a confiança? Depois entenda por que seu parceiro teve um caso. O motivo ajudará você a entender exatamente o que vocês dois devem fazer para melhorar o relacionamento.