sexta-feira, 18 de julho de 2008

Antes tarde do que nunca

Há seis meses, li uma entrevista muito bacana com Mônica Martelli (atriz que interpreta Helena/"Mateus" em "Beleza Pura"), na qual ela contou os percalços que enfrentou até fazer sucesso. Achei uma grande história; gostei do modo como ela interpreta os fatos.
Aliás, falando em atores e pensamento, há alguns dias, Manoel Carlos deu um puxão-de-orelha na "tchurma". Segundo o novelista, esses vêm falando muita bobagem na mídia.
Realmente, espera-se do artista algo mais. Espanta-me - não consigo evitar! - que um ator, uma atriz não tenha uma visão mais diferenciada da realidade, ou ao menos das emoções humanas, que são sua ferramenta de trabalho. Lógico, não estou generalizando, mas as "aberrações" não são raras. O blog de Luana Piovani, por exemplo, é, para mim, um dos melhores... na categoria "humor".
Ator é realmente um bicho esquisito. Às vezes pondero que não poderia ser diferente: O que esperar de alguém que empresta a sua emoção para transmitir a de gente que quase sempre nem existe? Esse não é um ser com uma sensibilidade ordinária, convenhamos. Mas, apesar disso, dá pra ser normal, se quiser. Monica Martelli é um bom exemplo.

Segue a entrevista para a Marie Claire, de janeiro de 2008.

Mônica Martelli estava perdida, desestimulada e deprimida. Sem trabalho, sem um grande amor, semperspectivas e prestes a fazer 40 anos, parecia a protagonista de uma louca tragicomédia de fracassos. Então, escreveu um monólogo e se atirou em empreitada solo. Agora, prepara-se para abraçar o estrelato.

É preciso perder o medo de se expor, de se debochar. O sucesso vem nessa hora'

Fama? Poder? Dinheiro? O que você quer da vida? Para o escritor suíço Alain de Botton, a única resposta possível é esta: amor. Porque, ao sairmos em busca de fama, dinheiro e poder, tudo o que buscamos, na verdade, é receber amor em doses proporcionais ao status elevado. Nessa linha de raciocínio, a jornada da atriz carioca Mônica Martelli poderia facilmente render um livro de auto-ajuda para quarentões frustrados.

Rotulada informalmente por amigos e familiares como 'a fracassada', Mônica só conseguiu preencher as exigências sociais de uma vencedora à beira dos 40. Depois de muitas derrotas, rejeições, falta de grana, fases de dúvidas e melancolia, juntou os caquinhos e resolveu protagonizar a própria vida.

Assim, aos 37, largou tudo -que não era muito- e sentou em sua quitinete em Ipanema para escrever um monólogo. Passava dez horas, todos os dias, digitando no computador, ainda sem saber exatamente o que fazer com o material. Decidiu então dar a cara para bater: alugou uma pequena sala de teatro no Rio, arrecadou um dinheirinho com familiares, chamou amigos para ajudar na produção e, em 2005, estreou 'Os Homens São de Marte... e é para Lá que Eu Vou', monólogo divertido que narra as aventuras amorosas e sexuais de uma balzaquiana à procura do grande amor.

O resto é história. Uma história que a atriz, que está no elenco de 'Beleza Pura', a nova novela das sete da Globo, conta aqui em detalhes tragicômicos.

Hoje, aos 39 anos, sua criação ganhou vida própria: vai ser representada em outros países, virar filme, e, depois, talvez, série de TV. Os anos de amargura ficaram para trás e Mônica, que agora tem fama, poder e dinheiro, concorda com Botton. 'Nada disso importa: a redução de tudo é o amor.' Diz isso com a segurança de quem encontrou o seu ao lado do produtor musical Jerry Marques, 50, marido, amigo, parceiro de trabalho e, acima de tudo, cúmplice.

Aqui, ela explica por que os verdadeiros fracassados são aqueles que, com tanto medo de sair derrotados, sequer chegam a tentar.

Marie Claire Seu nome começa a ser nacionalmente conhecido às vésperas dos 40. Onde você estava antes de fazer 'Os Homens São de Marte...'?
Mônica Martelli
Trabalhando, trabalhando. Já fiz tanta coisa: 'Por Amor', novela do Manoel Carlos, fiz 'Chico Total', fiz 'Zorra Total', mil e uma peças de teatro… mas eu era sempre aquela que ficava no fundo, desfocada, ou era a secretária, sabe como é? Eu estava ali, mas ninguém via.

MC O que não é uma situação rara nesse mundo das artes. Para cada Mônica que estoura, existem outras 100 que jamais conheceremos.
MM É mais ou menos isso. Junto com esses trabalhos que citei, ia fazendo um milhão de testes e sofrendo um milhão de rejeições. Até 'Os Homens São de Marte…', ou seja, até meus 37 anos, sempre precisei de ajuda financeira da família. Não conseguia me sustentar sozinha.

MC E o que fez você insistir tanto até vencer o bloqueio?
MM No fundo, algo me dizia que ia rolar. Em 2001, me chamaram para fazer 'Os Maias', a minissérie. Nessa hora, falei: 'É a minha vez! É agora que eu vou bombar'. Fui para a gravação animadíssima. Primeira cena: eu desfocada lá atrás. Na seqüência, o núcleo do qual eu fazia parte não foi para frente, e a autora teve que se concentrar nos protagonistas para tentar aumentar a audiência. Mico.

Para pagar as contas, eu fazia de tudo. Já fiz até uma tartaruga no programa da Angélica

MC Era uma frustração atrás da outra e você já não era mais uma iniciante.
MM Pois é. Para pagar as contas, fazia tudo o que me chamavam para fazer. Fiz até uma tartaruga no antigo programa da Angélica. O programa era aquele videokê de bichos, sabe? Isso há seis anos, por aí. O produtor me ligou e falou: 'Mônica, queria te chamar para fazer um bicho no programa da Angélica'. Cheguei lá e vieram com um casco enorme de tartaruga para eu vestir. Dentro dela, só dava para ver os meus olhinhos. Lá fomos, o macaco e eu, para a gravação. Para chegar lá, a gente tinha que entrar numa van, e o casco da tartaruga não passou pela porta. Eu falei: 'Vou ter que me jogar de lado na van para poder passar pela porta'. Tomei distância e me joguei. Caí dentro da van, mas a roupa começou a me enforcar, e eu só conseguia falar baixinho: 'Macaco, não tô legal. Me ajuda'. Eu não sabia o nome do ator que fazia o macaco, mas precisava de ajuda, não estava conseguindo me mexer. E o macaco achou que era sacanagem minha. Histórias como essa, tem várias. Se você não aconteceu pelo caminho tradicional até os 25, não acontece mais. Está na hora de buscar uma outra saída.

MC E qual foi a chacoalhada que fez você sair desse ciclo?
MM Foram duas. Em 2002, eu estava melancólica, cabisbaixa, nada rolava. Um dia, tocou o telefone e uma voz falou: 'Mônica Martelli? Estou selecionando atrizes bacanas da Globo para fazer uma festa agropecuária. É o seguinte: mulheres bonitas que vão chegar montadas em um cavalo'. E eu: 'Mas não tenho que falar um texto?'. 'Não, não, é só entrar montada.' Amor, aí eu vi que o negócio tinha desandado. Eu era a alegoria no cavalo. Parei e falei: 'Bom, aqui é o fundo do poço. Trinta e cinco anos e minha carreira não decolou. Solteira, perdida, sem ser chamada para nada'. Foi uma época dura demais. A uma certa altura, passei a ter duas opções: ficar melancólica e recalcada, como existem vários profissionais por aí, que gastam o tempo deprimidos e reclamando de quem está fazendo sucesso. Ou outra opção: mudar o foco da minha vida. E nisso minha mãe foi muito importante. Um dia, me vendo triste e desanimada, ela disse: 'Querida, muda a história da tua vida! Pega os seus textos, vai para a praça, sobe num caixote e fala. Eles são teus'. Nessa hora, a ficha caiu! E foi o que fiz. Isso aconteceu em 2002. Eu estreei 'Os Homens São de Marte…' em 2005.


MC Parece fácil falando, mas não é assim tão simples executar essa virada que, cedo ou tarde, todos buscamos, é?
MM Principalmente porque, de uma maneira geral, queremos a virada nas fases ruins, quando estamos para baixo, sem auto-estima. Nessa época, por exemplo, eu estava mal. Via meus amigos se dando bem, com grana, estabilidade, muita gente que veio depois de mim se dando bem, e essa coisa começou a pegar num lugar muito forte. Tem gente que faz oficina da Globo e, no começo da oficina, aparece um diretor e fala: 'Eu quero você na novela das oito'. E a menina bomba depois de alguns meses. Eu vi acontecer. Mas comigo não foi assim. Olha, nada tem regra, em nenhum mercado de trabalho. Tem gente que acontece com 20, outros com 40, alguns depois disso. Cada um tem um caminho. Tudo o que se pode fazer é ajudar o destino. Se tivesse ficado naquele meu caminho, estaria frustrada, talvez tivesse aberto uma loja, sei lá.

MC A peça é baseada nas suas experiências amorosas?
MM Fiquei sem namorado dos 30 aos 33 anos. Antes disso, tive um casamento e, depois, alguns namorados. Nessa época de solteira, comecei a escrever os contos, sem pretensões. Contava minhas aventuras amorosas e sexuais. As histórias da peça são inspiradas nesse período da minha vida. Eu escrevia os contos e, lá no fundo, sabia o que queria fazer com eles, mas eu não tinha coragem de dizer nem de mostrar a ninguém. A gente tem medo de se expor, de ser rejeitada, de fracassar, né? Aí, teve um dia que eu li as histórias para minha mãe, que é muito crítica, e ela adorou. Foi quando ela falou: 'Pára de se lamuriar. Pega seus textos e vai ler na praça'.

Em nossos almoços de família, alguém sempre dizia:'Sabia que abriram concurso no Banco
do Brasil?'

MC Nessa sociedade que mede sucesso por dinheiro arrecadado e propriedades adquiridas, como é ser vista como 'a fracassada' da família por tanto tempo?
MM Eu sempre fui considerada 'a diferente' da casa. Meu pai é comerciante, minha mãe é professora, minha irmã é médica e meu irmão é matemático. Imagina. Todos bem encaminhados e bem-sucedidos muito cedo na vida. E eu, que tinha feito seis meses de Direito, trancado, me mandado para ser babá na Califórnia, voltado e me formado em Jornalismo, querendo viver da arte aos 30 e lá vai. Nos almoços de família, sentia que todo mundo tinha pena mim. Sabe aqueles comentários baixinhos?, 'Meu Deus! A Mônica não aconteceu ainda'. As pessoas me falavam: 'Sabe, tem um jornal em Cabo Frio que está contratando'. Ou: 'Querida, abriram concurso para o Banco do Brasil'.

MC Como contos despretensiosos de uma atriz frustrada se transformaram em um dos espetáculos mais bem-sucedidos dos últimos anos?
MM Aí entra em cena o Jerry. Conheci o Jerry exatamente como na situação que narro na peça: no [restaurante] Spot, em São Paulo. Um amigo tinha me levado para sair com amigos dele, e todo mundo na mesa era gay. Achei, naturalmente, que o Jerry fosse também. Aí relaxei total e falei loucuras. Falei que ia comer o gatinho que estava servindo os drinques, altas barbaridades. No meio do papo, o Jerry mencionou que era hétero. Na hora que ele falou, perdi a espontaneidade imediatamente e comecei a mexer no cabelinho assim [faz o tipo sexy, joga a cabeça para trás, dá uma risada de canto de boca]. Fiquei maluca por ele. Ele morava no Rio, mas estava em São Paulo produzindo o show do Ed Motta. A gente clicou na hora e foi morar junto pouco tempo depois. Aí, tive coragem e mostrei os textos para ele. Era tudo meio caótico, escrito à mão. O Jerry falou: 'Vamos produzir isso!'. Resgatou meu computador que ficava escondido debaixo da mesa, porque eu não usava para nada, e disse: 'Olha, hoje, quando eu chegar do trabalho, quero ver a primeira história digitada'. Eu tinha encontrado um homem para produzir a minha vida, você tá entendendo? Ele me organizou. Isso é importantérrimo. Passei oito meses escrevendo durante dez horas por dia.

No dia da estréia, Miguel Falabella foi ao camarim e gritou, todo empolgado: 'menina, me diz quem você é!'

MC Hoje, olhando em retrospectiva, parece tudo bonito e romântico. Mas, naquela época, não dava para ter idéia de que você estava dedicando todo o seu tempo a escrever uma peça de sucesso.
MM Exatamente. Pedi a uma diretora conhecida para ler meus textos. Fui para a casa dela, li os contos e ela falou: 'Olha, Mônica, teatro é uma coisa que tem que ser bem pensada, não é assim'. Saí de lá arrasada. Depois ela me escreveu uma carta dizendo: 'Me desculpa, não sei como não tive olhos para você'. Então tem isso também. Tem gente que não tem olhos pra gente. Temos que ir atrás de quem tem. Essa mulher é uma puta diretora, mas ela não me viu. Agora, imagina se eu saio de lá e penso: 'Puxa, melhor desistir, isso aqui não vai dar certo'. Depois, Jerry ligou para o Victor Peralta, diretor e amigo dele, e o Victor entrou no barco. Em abril de 2004, num papo que durou a noite inteira, a gente delineou o espetáculo. No dia seguinte, fui ao teatro Cândido Mendes, no Rio, e marquei a data da estréia: abril de 2005. Me dei um ano. Zero de dinheiro. Saí pedindo. Minha mãe deu 4 mil, meu pai, 9, o Jerry, 2... juntei 18 mil. O negócio é marcar a estréia.

MC Você também estava desempregada nessa época?
MM Estava fazendo 'Zorra Total'. Não era contratada, só ganhava cachê. Era só para pagar contas, não sobrava nada. O Jerry falou: 'Sai do 'Zorra' para se dedicar ao projeto'. Pedi demissão, fiquei sem ganhar nada. E eu e o Jerry morando num apartamentinho de quarto e sala, ele me bancando. Começamos a ensaiar em janeiro. Hoje a gente sabe que eu estava me preparando para estrear um sucesso, mas, naquela época de perrengue e improviso, eu estava ensaiando o nada. Eu falava para o Jerry: 'Amor, e se for uma merda?'. E ele falava: 'Se for uma merda, você já saiu de onde estava. Você já é uma realizadora, porque nem todo mundo realiza, tem muita gente com idéia em mesa de bar. É muito mais do que a maioria das pessoas faz'. E eu meti a cara.

MC Você tem mágoas de quem te recusou ou não te viu?
MM Nenhuma. Olha, faz um tempo, deram um livro para eu ler e adaptar para uma peça. Eu até agora não li esse livro. Daqui a pouco alguém lê, adapta, e a peça é um sucesso. Aí o autor vai dizer: 'Eu dei para a Mônica ler e ela não fez nada com isso'. Entende? É assim a vida. As ondas passam e você perde muitas, uma hora pega a sua. O que não podemos fazer é terceirizar nossa felicidade, terceirizar nossa iniciativa. Sua vida e seus sucessos e fracassos são problemas seus, de mais ninguém.

Vivemos soterrados em mentiras. Por isso, quem joga a verdade na sua
cara faz sucesso

MC E a estréia?
MM A estréia foi o único dia até hoje que não foi lotado. No Rio, 14 de abril de 2005. Era só para convidados. Sabe, um monólogo de uma atriz desconhecida, dia de semana… quem se arrisca? O [Miguel] Falabella se arriscou. Ele e o Edwin Luisi. São caras que adoram conhecer o novo. Mas o teatro estava vazio. No final, o Edwin foi ao camarim e falou: 'Sua vida muda a partir de hoje'. E o Miguel entrou no camarim falando: 'Amor, quem é você?'. Duas semanas depois, apareceu a crítica mais temida do Brasil, a Barbara Heliodora. Chamei minha família inteira para ir e falei: 'Gente, ri bem alto, tá?'. Durante a peça, eu olhava para eles e eles não estavam olhando pra mim, todo mundo olhava para a Barbara. No final, meu irmão matemático falou: 'Mônica, ela riu 13 vezes' [risos]. A crítica foi excelente. Depois disso, lotou a ponto de eu ter que fazer duas apresentações por dia e mudar para um teatro maior.

MC Por que você acha que a peça faz tanto sucesso?
MM Estamos vivendo soterrados em mentiras e hipocrisias. E a peça é muito verdadeira, e simples demais. Verdade e simplicidade estão em falta. Então, se alguém joga a verdade na sua cara, vira um sucesso.

MC Quem não curte?
MM Quem está solteira há muito tempo, por exemplo. Essa mulher ou entra no espetáculo da melhor forma possível ou se defende dele. Tem gente que sai deprimida.

Está na hora de sacar que nós, mulheres modernas, queremos, sim, um
grande amor

MC O tema é pertinente às mulheres, mas como os homens costumam reagir?
MM Os gays piram, amam, enlouquecem. E os héteros agradecem. Porque eles estão tentando entender essa mulher de hoje e a peça dá boas dicas a respeito dela. Vamos falar sério: esses caras estão por baixo, ficam tentando entender o que a gente é hoje, mas estão perdidos. Não sabem se devem abrir a porta do carro ou se isso será uma ofensa. Acabou aquele tipo de relação baseada na dependência financeira e na criação compartilhada de filhos, que dava uma tremenda segurança a eles. Hoje, é só o afeto. Grana não pega mais, e filho é opção. Eu, por exemplo, não tenho filho. Quero muito ter, inclusive. Aliás, preciso engravidar hoje à noite, não dá para esperar nem mais um dia, estou aos 44 do segundo tempo [risos].

MC O seu texto também permite uma leitura careta, machista e antifeminista. Essa coisa de procurar um homem desesperadamente, de não conseguir ser feliz sozinha, por exemplo.
MM Não tive preocupação em chocar feministas. Sou filha de uma feminista, mas acho que todo mundo tem que ter um amor na vida. Hoje, a mulher não precisa mais estar sozinha para ir abrindo caminho. O homem já não é mais o inimigo, o entrave. A gente pode ser independente e ter um homem do lado. A geração de nossas avós era a da mulher dependente, a de nossas mães, a da revoltada com essa situação, e hoje, o equilíbrio. Essa geração que hoje tem 40 ouviu a vida inteira: seja independente financeiramente. Minha mãe nunca pregou o casamento. Muito pelo contrário: ela dizia que a gente tinha que se virar sozinha. Os homens estão mais ligados na nova função, sabem que precisam ajudar, que o processo agora é de colaboração.

MC Não seria esse, então, um dos segredos do sucesso da peça?
MM Claro, claro. As pessoas me dizem: 'Nunca tinha visto uma mulher tão forte, moderna e inteira dizer que quer casar, que quer um amor'. Essa falta de vergonha de dizer: 'Eu quero casar!' é o que choca, e, por conseqüência, atrai. A gente cresceu achando que confessar que quer casar é uma tremenda caretice, quase uma babaquice. E essa personagem não tem vergonha de dizer isso. Minha mãe, feminista, 60 anos, separada, tá doida pra casar. Todo mundo quer um amor, um parceiro. Se alguém me pergunta se é impossível ser feliz sozinho, eu digo que não. Mas digo também que a vida a dois é infinitamente melhor. Ontem, passei o dia inteiro na cama vendo vídeo. Claro que eu poderia estar sozinha, ia ser bom. Mas, com alguém que eu amo do lado, é melhor. Essa é a libertação da peça. Se alguém achar que a peça é reacionária, eu digo que é o contrário. Essa mulher é independente, ganha sua grana, dá pra quem quer, é livre para ir e vir e tomar decisões, e quer desesperadamente casar. Talvez seja hora de a gente sacar que, depois de todas as conquistas, de tanta luta, de tanta revolução, nós, mulheres, queremos, sim, um grande amor. Admitir isso, mesmo que não consigamos chegar lá, não é vergonha alguma. É o que o Jerry me falou: tentar e não conseguir não constitui fracasso. Fracasso é não tentar.

MM Sua mãe ainda precisa ajudar financeiramente?
MM [Risos] Não mais. Acho que estou ficando rica.


quinta-feira, 17 de julho de 2008

A fita métrica do amor

Foto do filme "Elizabethtown"

Por Martha Medeiros

Como se mede uma pessoa? Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento. Ela é enorme pra você quando fala do que leu e viveu, quando trata você com carinho e respeito, quando olha nos olhos e sorri destravado. É pequena pra você quando só pensa em si mesmo, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade.

Uma pessoa é gigante pra você quando se interessa pela sua vida, quando busca alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto. É pequena quando desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos clichês.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas: será ela que mudou ou será que o amor é traiçoeiro nas suas medições? Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. Nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações. Uma pessoa é única ao estender a mão, e ao recolhê-la inesperadamente, se torna mais uma. O egoísmo unifica os insignificantes.

Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Frase do Dia

"Do what you feel in your heart to be right - for you'll be criticized anyway.
You'll be damned if you do and damned if you don't"

(Eleanor Roosevelt)

O último registro

Universidade se despede de Oldemar Vitor

Responsável pela formação profissional de várias gerações de fotógrafos e jornalistas, o o professor Oldemar Vitor Fonseca Santos, decano da Faculdade de Comunicação da UFBA morreu, aos 64 anos, entre domingo e segunda na casa onde morava com sua irmã Maria Lúcia Fonseca Santos. O sepultamento é logo mais às 16h no Campo Santo. Vitor se dedicou à fotografia por mais de 30 anos. O diretor da Facom, Giovandro Marcus Ferreira, ressalta seu talento. “Queremos agradecer a presença serena dele nos momentos turbulentos que enfrentamos. Oldemar sempre foi uma pessoa pronta a ajudar”. Além de docente, Oldemar Vitor foi repórter fotográfico do Jornal do Brasil, da Agência Estado, do extinto Jornal Bahia Hoje, dentre outros veículos e instituições.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

"Se teu amor foi hipocrisia..."


Minha família já virou piada entre os parentes e velhos amigos por conta das inúmeras vezes que nos mudamos (cinco mudanças Brasília-Salvador e 20 de residência, em 20 anos). Não há nada de errado conosco que justifique tantas idas e vindas, exceto a nossa dificuldade de tomar decisões importantes em grupo.

Não sei se lamento ou se comemoro o fato. Se por um lado, já chego sabendo que meu tempo de permanência é curto, do outro, tenho história pra contar. Na verdade, tudo seria ótimo se não fosse uma criatura tão apegada e sentimentalóide. Mas, aos trancos e barrancos, a mutabilidade de pessoas e cenários tem me "corrigido" muito neste sentido, nos últimos anos. "Gracias a la vida...".

Um dia, chego lá! hehe

O Ano em Que Meu Sorriso Saiu de Férias
A
primeira delas aconteceu no final de 1989, quando viemos para Salvador, por recomendação médica - mamãe havia adoecido bastante nos últimos dois anos e o ambiente de beira-mar, segundo o médico, a faria melhorar.
Aqui vale um parêntese: a minha própria experiência, somada a outras que vi ao longo dos anos, me rendeu uma teoria sobre "forasteiros": "desconfie" deles. Ninguém (ou pelo menos 90%) larga a sua terra natal, por iniciativa própria, a troco de nada! Não raro, por trás de motivações banais e compreensíveis, há alguma outra forte e secreta impulsionando a mudança. Já descobri cada história!... Como dizia minha professora de italiano, quem vai embora de sua terra, das duas, uma: ou está buscando algo, ou está querendo deixar para trás.

Apesar de ter nascido e crescido numa das superquadras da Asa Sul e possuir, desde que me entendia por gente, os mesmos amigos de escola e de vizinhança, pensei que seria divertidíssimo viver em Salvador. Afinal, a cidade era minha velha conhecida, nós costumávamos veranear aqui, todos os anos, desde 1981, e eu era fascinada pela capital baiana, ainda que fosse muito feliz em Brasília. Entretanto, o resultado desse meu excesso de expectativa foi a total decepção.

Terra Estrangeira
O Brasil só é o mesmo país para quem nunca saiu do lugar onde vive, mas quem já se deslocou por um considerável período entende o quão estrangeiros podemos nos sentir a apenas
1.500 km de casa: há vários "dialetos"; os valores e costumes definitivamente não são os mesmos; o clima e a paisagem mudam radicalmente; e nem o ensino é padronizado - o que, hoje, sei que não é bom nem ruim e nem neutro, mas um dia isso foi motivo de implicância (e desgastou a paciência de Jó do meu professor de português, Lúcio! hehe).

O dia-a-dia numa localidade durante as férias não é de jeito algum similar a vivência nele. As cidades litorâneas costumam iludir muito os seus turistas neste aspecto. Como tudo na vida é uma questão de perspectiva, aquilo que me encantava nos dias de verão irritava-me sobremaneira no cotidiano, desde o sol escaldante ao jeito espontâneo-invasivo dos soteropolitanos.

Eu mais que entendo o povo de outros estados que fala mal da Bahia e reclama de tudo, quando ainda são recém-chegados. Já passei por isso e sei como é. Lembro de mim e de um vizinho da minha idade, goiano, resmungando, cada um num lado da pilastra do prédio, o fato de estarmos aqui e não no nosso querido Centro-Oeste. Patético! (risos) Ele, aliás, após ter voltado para Goiânia, morado nos EUA e residido em Sampa, acabou voltando pra onde, hein?! Quem adivinha?! Ele, que odiava pra caramba isso aqui, tem dois filhos nascidos na Bahia. Soube que ainda sonha em voltar para Goiânia...

Não é exatamente uma rejeição à nova terra; no fundo, é mais a decepção consigo mesmo/a por ter se enganado com a imagem paradisíaca que se vende daqui. É, sobretudo, o sr. Vazio cantando novamente no ouvido do/a cidadã/o. Não pegou? Bem, minha vó tem uma frase melhor que essa explicação, que ela até disse a minha mãe quando a gente se mudou: "Para onde você for, não se iluda: o urubu continuará sendo preto". (risos)

O ser humano tem a mania de ver o que não existe; muita gente boa, vira e mexe, força a barra a favor dos seus quereres (que, não raro, também são igualmente forjados). Portanto, baianos, muita calma nessa hora; tenham paciência com os forasteiros desiludidos. hehe

Mudar-me para Salvador e residir em Itapuã me proporcionou uma dupla transição de ambiente: não mudei de cidade, apenas; fui da cidade para o interior.

Aliás, abro aqui um outro parêntese: agradeço a Facom por ter me "apresentado" à cidade, por ter me mostrado Salvador em "larga escala" (ainda que isso fosse acontecer uma hora ou outra). Pois, até então, não saía de Itapuã para quase nada; a cidade, pra mim, existia só até a Pituba. Quase morri de susto, na 7ª série, quando um amigo sugeriu que fizéssemos uma pesquisa na Biblioteca dos Barris e me mostrou onde isso ficava, no mapa da cidade! Naquele dia, descobri não apenas que morava longe mas que residia no extremo do extremo de Salvador. Senti-me traída pela latitude e pela longitude. Fiquei anos bloqueada por conta daquela "proposta indecente" de ir de Itapuã aos Barris; por muito tempo, meu limite foi o Iguatemi.
Era muito caipira! Noooossa!... (risos)

Aprendi cedo, com essa experiência que tive na capital da Bahia, que "nem tudo que reluz é ouro". Quando fui embora, no final de 1990, de tão entediada, dei graças a Deus por estar voltando à "civilização". É certo que não cheguei ao ponto de Carlota Joaquina, ao partir do País – faltou-me coragem para bater as sandálias e berrar que "Desta terra, não levo nem o pó!", no aeroporto de Salvador, embora ainda tivesse o “álibi” de ser “apenas uma criança”.

Silenciosamente, prometi a mim mesma que nunca mais deixaria Brasília. "Forças ocultas" me impediram, um ano após o nosso retorno, de cumprir tal promessa. Fui arrastada de volta à Bahia em 1992 e, de pés e mãos atados, que podia fazer? Esse é o lado ruim de ser criança: não há liberdade; você fica totalmente à mercê da consideração (ou da falta dela) dos adultos ao seu redor.

Estranhamente, o nosso retorno, em 1991, não cessou a minha sensação de deslocamento, adquirida no ano fora do DF. Parte dos amigos da quadra já residia em outras localidades e os que permaneceram haviam se acostumado com a minha ausência. Até a minha melhor amiga mudou comigo (se bem que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde). Vai soar vaidoso, mas para quem se foi, é duro ver que a vida, ali, continuou apesar da sua ausência. No fundo, deseja-se que quem ficou sinta a mesma saudade de quem foi.

Tão pouco tempo distante e foi mais ou menos como morar lá pela primeira vez. Tive que reconquistar tudo de novo. Menos o sotaque, que eu lutei bravamente para preservar!... Ou melhor, a falta de sotaque, que em Brasília isso não existe (risos). Sabe que isso era divertido? Quando cheguei aqui, ninguém sabia identificar de onde eu era. Gaúcha? Carioca? Paulista? "Que sotaque é esse?"

Às vezes observo meus primos, tão diferentes de minhas irmãs e de mim, e fico imaginando o que teríamos nos tornado, caso nunca tivéssemos ido embora de Brasília... Porque o modo como eu ia encaminhando minha adolescência por lá era bem diferente do que ocorreu pra mim aqui em Salvador. Às vezes viajo nisso, em quem seria caso tivesse permanecido e, no final, me consolo pensando que eu estive onde precisava estar para ser o que sou.

***

Cresci longe de meus avós, tios e primos e isso me deu muita liberdade de ser. Óbvio que minha "família nuclear" foi importante na minha formação; não surgi por "geração espontânea". Mas quando você é a caçula de 3 (no verão, a depender, de 4 e mais agregados), tem de aprender a se cuidar sozinha porque seus pais nunca terão muito tempo pras suas demandas - cheguei a Elias já PhD no "Te vira!". Os meus me criaram num esquema meio BBB: havia uma direção que tudo via, uma voz que às vezes dava algum comando mas não interfiria diretamente. Nunca nos ajudaram em um dever de casa. De encrenca, a gente tinha que dar um jeito de sair sozinha. Na verdade, toda a minha educação foi baseada num único conselho: "Você pode _____, mas quem vai estragar a vida é você. O máximo que vou poder fazer é lamentar". Demasiado prático - até frio -, não? É a realidade da vida! Sempre andei "certo" porque aprendi com eles que viver é "pessoal e intransferível".

Enfim, eu me criei; me eduquei observando os outros, refletindo "com os meus botões" e dando muita "cabeçada na parede". No final das contas, isso me rendeu um sistema de valores ao qual sou muito apegada, o que às vezes me atrapalha no terreno prático, mas, diante das coisas que ganhei, é o mínimo. Isso talvez não teria sido possível se eu tivesse todo mundo ao meu redor, palpitando, vigiando, me ajudando, enfim, fazendo todas essas coisas que os parentes sempre fazem.

Uma certeza essa experiência me deu: manter a família próxima é importante. Família, mesmo quando é ruim, significa identidade e amparo. Eu me dei bem "raising myself", digamos assim, porque tive a sorte de nascer com algum juízo e de ter pessoas de bom caráter ao meu redor, que me deram bons exemplos e me fizeram não querer decepcioná-las. Meus pais também tiveram essa mesma sorte (portanto não convém abusar dela fazendo o mesmo com a próxima geração). Mas poderia ter sido exatamente o contrário. Acredito piamente que os mais jovens precisam da orientação dos mais velhos. Não dá para pôr gente no mundo e esperar que as coisas saiam bem por um golpe de sorte. Nossa sociedade anda muito sem parâmetros. Cada vez mais, a família vai ser importante para o desenvolvimento do indivíduo, por incrível que pareça. De onde mais se poderá adquirir valores, em pleno séc. 21, se hoje tudo é relativo? Até mesmo para negá-los, é preciso tê-los.

Um dos meus maiores receios no ano em que estive em Brasília era ficar por lá de vez, e ver meus sobrinhos crescendo à distância (minhas irmãs estavam casadas, na ocasião, e o MSN não era tão desenvolvido em 2005 quanto é agora). Acho que a Nanda, que passou o ano seguinte no DF e já tinha uma sobrinha pequena naquela época, compartilhou dessa mesma sensação e, por essa e outras, acabou voltando. Nada mais esquisito que o fenômeno dos "estranhos conhecidos", né?

Posso estar no Alasca, meus pais em Goiânia e minhas irmãs na Sibéria e na China: se Valentina (ou Cecília) e João saírem "do papel" (risos), eles terão que dar as caras no Skype todo dia, pra dizer "Oi" aos avós e às tias... Mas não é a mesma coisa. O ideal é que possam crescer geograficamente perto mesmo, principalmente na infância, pois, com a distância, das duas, uma: 1) Ou você se adapta e mal lembra do que deixou para trás; 2) Ou você não esquece e fica com alguma dificuldade de se adaptar de verdade. Perder o contato com a origem ou ter pais que não se desligam dela, de um modo negativo, são duas situações ruins para uma criança/adolescente.

Ó vida!... Cada escolha, uma renúncia.

Destination Anywhere
Hoje, digo que sou soteropolitana - mais por convenção que por qualquer coisa. Mas ainda estranho quando me chamam de "baiana"; por outro lado, não consigo dizer que sou "brasiliense" ou "goiana"(ainda tem essa: Brasília é um quadrado rodeado pelo estado de Goiás). Desde que vim pra cá, nunca mais me senti pertencente a lugar algum. (Aliás, eis aí uma grande pergunta: como ser sem pertencer?) A Bahia me "desregionalizou" - é fato. Não tenho mais "impressão digital" cultural - se é que vocês me entendem. Ou talvez tenha é uma bruta hipermetropia existencial, e só consiga enxergar bem quando as coisas já se encontram à distância. Se bem que o ano que passei em Brasília, recentemente, não mudou nada nesse sentido.

Às vezes quero desesperadamente sair de Salvador, porque sei que o mundo é grande e que eu vou me amarrar em ver as coisas que existem longe do meu horizonte. Por outro lado, tenho medo do que posso sentir longe daqui. Como diz o povão, "Gato escaldado...". Em Salvador, o desconforto já ficou confortável. Mas às vezes pondero, também, que o pior já passou; mais difícil do que a primeira vez, não pode ser.

Já desisti, também, de esquecer Brasília. Não dá. Apesar de não tolerar mais que uma semana na “cidade que fabrica as suas próprias leis”, o lugar fez e sempre fará parte de mim. Na verdade, nunca saí de lá totalmente. Uma vez, lendo um livro de Kundera (!!!!!), consegui o mais próximo da tradução do que sinto por aquela cidade, que me causa repelência física mas que nunca abandonou meu pensamento: "Eu a desejava como se desejam todas as coisas perdidas para sempre".

Eu a perdi há 18 anos, e para sempre, porém isso não mais importa (aliás, a essa altura da vida de uma pessoa, se tem uma coisa de pouca relevância prática, essa é o passado). Mas, de fato, Brasília continua en piel... Porque, como me disse uma vez meu pai, a gente nunca deixa o lugar de onde viemos - ainda quando desejamos nunca mais pisar nele.

domingo, 13 de julho de 2008

Anti-Othelo

"Não conte que traiu"

Segundo terapeuta americana, nem quem deseja continuar com o parceiro nem quem quer abandoná-lo deve revelar o adultério

Thiago Cid

Filha de judeus sobreviventes de campos de concentração, a psicóloga Mira Kirshenbaum nasceu no Uzbequistão, em 1946, e viveu num campo de refugiados até os quatro anos, quando emigrou para os Estados Unidos com os pais. Os traumas da guerra ficaram enraizados em sua infância, mas sua reação diante do sofrimento não foi o rancor. Ela diz que o fato de sua família ainda estar viva a motivou a trazer alívio às pessoas. Em seu novo livro When good people have affairs (“Quando as pessoas boas traem”, ainda sem tradução no Brasil), Mira lista 17 motivos que levam as pessoas a procurar uma relação extraconjugal e conclui que, às vezes, a traição pode ser a chave para a reconstrução de um relacionamento. Ela garante que a infidelidade, e sim uma defesa do amor. "Na traição, procuramos o que nos falta. Se soubermos encontrar isso no parceiro, não teremos vontade de trair", diz. Nesta entrevista a ÉPOCA, Mira explica por que quase metade das pessoas trai e fala sobre o que fazer depois que uma terceira pessoa entrou no relacionamento.

ENTREVISTA MIRA KIRSHENBAUM

QUEM É Nascida no Uzbequistão, mudou-se para os Estados Unidos com 4 anos. Filha de judeus sobreviventes dos campos de concentração, morou em campo de refugiados no período pós-guerra. Casada, tem 62 anos, dois filhos e uma neta. É mestre em psicologia pela Universidade de Nova York e autora de dez livros sobre relacionamento.

ÉPOCA - Em seu livro, a senhora diz que ter um caso extraconjugal pode ser a melhor maneira de saber o que realmente queremos. Como?
Mira Kirshenbaum - A traição pode ter o poder de tirar a pessoa da inércia. Muitos acham seus casamentos sufocantes e, nesses casos, uma relação extraconjugal é a primeira oportunidade em muito tempo de explorar quem a pessoa realmente é e o que ela busca. Com essa experiência, o indivíduo percebe que é livre para fazer escolhas, que existem outras possibilidades. A traição é sempre uma investigação, uma tentativa de ver se as coisas poderiam ser melhores com outras pessoas.

ÉPOCA - A traição é positiva?
Mira - Trair seu parceiro é quase sempre destrutivo e doloroso demais para valer a pena. Em alguns casos, porém, pode ajudar as pessoas a se dar conta de que estão em um casamento ruim. Em outros casos, podem ajudar as pessoas a perceber que o companheiro é, de fato, a pessoa com quem devem ficar. Ter um caso fora do casamento é uma maneira confusa e desajeitada de as pessoas encontrarem seus caminhos.

ÉPOCA - A senhora disse que, se alguém quiser reconstruir o casamento, não deve contar ao parceiro sobre a traição. As mentiras são necessárias para manter a relação?
Mira - Quanto menos mentira, melhor. Um casal deve ser franco com o outro, mas existem certos segredos que devem ser mantidos. Imagine que um homem fantasie com a Gisele Bündchen quando faz amor com sua mulher. Que bem ele fará a ela se contar esse segredo? Qual seria o objetivo de contar que você se envolveu com outra pessoa? O critério para se contar segredos é avaliar a dor que a revelação pode causar. A regra moral é não machucar ninguém.

ÉPOCA - Mas revelar a traição não poderia ser um sinal de mudança ou confiança?
Mira - Se você está terminando o seu casamento, não fará diferença. Mas se você quiser reconstruir sua relação, contar a traição só irá atrapalhar. A pessoa não ficará tocada pelo seu gesto de revelar tudo. Ela ficará machucada pela traição, e você não precisa magoá-la. Apenas seja sincero consigo mesmo e aponte para qual caminho seguir. Nessas horas, é bom levar em conta que mais vale um divórcio a um casamento destrutivo.

ÉPOCA - Um dos tipos de adultérios que a senhora cita em sua lista é a traição acidental, em que a pessoa está no lugar errado na hora errada. Não haveria uma predisposições por trás desse “acidente”?
Mira - Quando digo acidental, me refiro a uma série de circunstâncias que, em conjunto, levam alguém a fazer algo que normalmente não faria. Mas não precisa dizer que haveria predisposições por detrás da traição. Afirmar isso é dizer que a pessoa agiu inconscientemente e que a traição foi “sem querer”. Os psicólogos estão cada vez mais céticos sobre o uso do inconsciente como fonte de explicações para as atitudes humanas.

ÉPOCA - Um outro tipo de traição mencionado em seu livro é o “banco ejetor”, quando o parceiro trai para acabar de vez com a relação. Além de ser um ato covarde, é uma forma rude de terminar uma relação. Como pode ser uma atitude de pessoas boas?
Mira - O banco ejetor é freqüentemente a melhor maneira que uma pessoa com medo de lidar com o parceiro encontra para terminar o casamento. Essas pessoas podem ser covardes e desajeitadas, mas isso não significa que sejam más.

ÉPOCA - Qual foi o objetivo de seu novo livro?
Mira - Há dois objetivos principais. O primeiro é o controle de danos. Quero mostrar que uma traição pode ser superada se o casal realmente quiser ficar junto. Quero também diminuir a dor nos corações mostrando que a traição não foi sinal de uma maldade. Muitas vezes é a forma que uma pessoa encontrou para lidar com uma situação desfavorável. Claro, descoberta a traição, o parceiro terá de se mostrar empenhado em reconstruir os laços de confiança e deverá compreender que a dor e a raiva do companheiro não se dissipam facilmente. A antiga visão sobre casos extraconjugais é que eles terminam como acidentes de carro, com sobreviventes feridos e sangrando. Não precisa ser assim. O segundo objetivo do livro é blindar a pessoa contra o remorso destrutivo, que a prende ao passado e a impede de seguir em frente. Após contabilizar os danos da traição, as pessoas têm que buscar a reconstrução. Essa é uma visão nova para muitas pessoas. Se você souber se fechar ao remorso, pode renovar sua vida com todo o amor que procura.

ÉPOCA - O seu livro é sobre pessoas boas que traíram. Quando uma pessoa boa trai, existe sempre um motivo nobre por trás, como autoconhecimento?
Mira - Não podemos ter a idéia que pessoas boas fazem apenas coisas boas e pessoas ruins, apenas coisas ruins. Todos fazemos coisas ruins e isso não significa que sejamos pessoas más. As pessoas boas traem quando não estão felizes no casamento. Elas estão confusas, oprimidas, e ter um caso é uma forma de trazer alívio àquela situação sufocante.

ÉPOCA - E o que são pessoas boas?
Mira - São aquelas que tentam ao máximo fazer as coisas certas. Elas erram, mas se arrependem verdadeiramente quando fazem alguma coisa ruim. Com a minha experiência clínica, sei que as pessoas boas são aquelas que estão realmente horrorizadas com a dor que causaram. Não tiveram um caso porque não ligam para o parceiro, mas porque estavam agoniados. Já uma pessoa ruim não se importa com a pessoa que machucou. Ela só faz o que vem à cabeça, seja lá qual for o custo para os outros.

ÉPOCA - Um caso breve é diferente de um longo?
Mira - Na minha opinião, quem mantém um caso longo não é pior do que quem trai por apenas uma noite. Não existem regras para apontar o que é mais ou menos grave. O que importa é que foi cruzada a barreira do trair ou não trair. Se o seu parceiro se sentiria mais machucado se soubesse que você teve um caso longo, não cabe a mim opinar a respeito. Também não posso dizer que a traição de apenas uma noite não é tão grave assim. O que posso afirmar é que você não pode dizer às pessoas que as duas traições são diferentes. Cada um lida da sua forma com o fato.

ÉPOCA - Quais seriam os limites da traição de uma pessoa boa?
Mira - O motivo é o aspecto crítico. Trair só porque está afim, sem nenhuma preocupação com os sentimentos do parceiro, está muito além do limite.

ÉPOCA - A senhora afirmou que uma das piores coisas para uma pessoa que traiu é a culpa. Mas ela não é um sinal de remorso?
Mira - Ter culpa é bom até um certo ponto. É um sinal de que a pessoa tem norteadores morais. Se você não se sentir culpado após trair, você pode ser um sociopata, alguém incapaz de se importar com os outros. Mas cegar-se pela culpa pode ser muito prejudicial. Pode levar as pessoas a fazerem coisas que não ajudarão. Como, por exemplo, se sentir tão culpado por trair e por isso permanecer no casamento mesmo que ele esteja claramente morto. Ou, então, sentir tanta culpa e não conseguir encarar o parceiro, mesmo que o casamento possa e deva ser salvo. Quando o sentimento de culpa o torturar, não ceda à tentação de contar sobre o affair. A melhor coisa a fazer é procurar um conselheiro sábio e experiente para ajudar a controlar os sentimentos e evitar atitudes precipitadas.

ÉPOCA - O sentimento de fazer algo errado e secreto estimula as pessoas a trair?
Mira - Para algumas pessoas isso pode ser excitante, mas não para a maioria. Na maior parte dos casos, as pessoas estão sufocadas, desesperadas, e podem fazer qualquer coisa. Por isso traem e correm tantos riscos.

ÉPOCA - Relacionamentos abertos são considerados adúlteros? Podem ser saudáveis?
Mira - Um relacionamento aberto não é adultério se realmente for uma escolha mútua verdadeira. Eu, pessoalmente, nunca vi um relacionamento aberto dar certo.

ÉPOCA - Muitos casais só se descobrem verdadeiramente com a convivência diária após o casamento e percebem que as expectativas são diferentes. Como salvar uma relação em que as necessidades dos parceiros são diferentes?
Mira - Com terapia conjugal. É a melhor maneira para casais com problemas conjugais encontrarem seu caminho de volta um para o outro. Sem mediação, os casais não conseguem sair de uma relação ruim, mesmo que eles próprios sejam terapeutas. Odeio ter que dizer que é a única maneira, mas não pode ser feito sem ajuda profissional. É como o trabalho de uma parteira: pode dar certo, mas há muitas maneiras de as coisas darem errado.

ÉPOCA - A senhora disse que cerca de 47% dos homens casados e 35% das mulheres casadas estão propensos a se envolver com outra pessoa. Essa taxa era diferente décadas atrás?
Mira - A grande mudança é a quantidade de mulheres traindo. Elas estão traindo mais. Isso ocorre porque agora elas têm mais oportunidade de trair: estão morando nas cidades e tendo vidas independentes. A natureza humana e a oportunidade são dois fatores determinantes nas taxas de adultério. A natureza humana é a mesma, elas agora têm a oportunidade. Mas se você quer mencionar números importantes, eu diria que há 50% de chance de uma pessoa ser afetada por uma traição durante sua vida afetiva. Como cada um reagirá a isso? É uma coisa terrível, mas que somos obrigados a lidar. Para piorar a situação: como você lida com a possibilidade de pegar uma doença com a traição? Por isso eu digo: não traia, por mais que em alguns casos a traição traga benefícios.

ÉPOCA - Como a traição é vista culturalmente?
Mira - Não existe cultura onde a traição não seja condenada. A diferença está na percepção dos aspectos mais importantes. Em algumas culturas, o mais importante é como a traição é vista pelas outras pessoas. É uma questão de vergonha. A vergonha vivida diante dos olhos da comunidade. Isso está enraizado na cultura mediterrânea, na cultura árabe. Alguns países muçulmanos ainda apedrejam as adúlteras. O que importa é a maneira como você é visto pela sociedade. Em outras culturas, a cultura ocidental principalmente, o conceito de traição está mais ligado à confiança, à capacidade de confiar em outra pessoa para construir algo em comum, à sensação de que a outra pessoa esconde segredos de você. Claro, as coisas não são pretas ou brancas (oito ou oitenta). O pesadelo de todos que conheço que foram traídos é a possibilidade de a comunidade descobrir e, daí, ter de lidar com a piedade deles ou com a sensação de fracasso e inferioridade. Mas a grande diferença multicultural é o senso de qual é o fator predominante.

ÉPOCA - Como a senhora vê os casos de Bill Clinton (ex-presidente americano que teve um caso com uma estagiária da Casa Branca) e Elliot Spitzer (ex-governador de Nova York que saiu com uma prostituta)?
Mira - Todos me perguntam sobre Spitzer. Mas não posso falar sobre a relação das pessoas a não ser que eu as tenha tratado. Não seria ético. O que aprendi em meus 33 anos de prática clínica é que o que você do lado de fora é muito diferente do que se passa por dentro. As pessoas encenam sua vida afetiva e mostram aquilo que querem. Creio que consigo ver com mais facilidade o que se passa dentro das pessoas, mas ainda assim sou consciente de que o que vejo é apenas uma versão. Não fui terapeuta dessas pessoas e o que sei está nos jornais. E assim como há comentários falsos sobre meus livros, sei que foram publicadas muitas coisas equivocadas sobre os dois.

ÉPOCA - A senhora já traiu? Como se sentiu depois?
Mira - Nunca. Sou incapaz de machucar alguém. Não estou me gabando, é a maneira como meu sistema nervoso foi construído. Mas meu marido teve um caso e eu fiquei arrasada. Senti na pele o terrível dano que a traição provoca. Desperdicei muito tempo e me machuquei muito presa à idéia de que ele era uma pessoa ruim. Com o tempo, percebi que ele era o homem bom que sempre conheci. Eu também não estava isenta de culpa no caso. Estava tão voltada para o meu trabalho que me afastei de meu marido e o fiz pensar que eu não ligava para ele. Teria nos ajudado muito se, em vez de brigar, tivéssemos nos esforçado para compreender o que o levou a me trair. Fizemos esse exercício de compreensão depois e estou muito orgulhosa.

ÉPOCA - E o que a senhora aconselharia a quem descobriu que o parceiro andou traindo?
Mira - Não faça ou diga nada em um primeiro momento. Acredito em amor verdadeiro e acho que uma relação amorosa pode ser recuperada. Por isso, ache uma pessoa sensata para conversar a respeito. Pense sobre o que você quer: você quer esta pessoa de volta se existir alguma maneira de perdoar e reconstruir a confiança? Depois entenda por que seu parceiro teve um caso. O motivo ajudará você a entender exatamente o que vocês dois devem fazer para melhorar o relacionamento.

sábado, 12 de julho de 2008

Decifrando Mafalda

Mafalda ou a Recusa por Umberto Eco, 1969

MafaldaA Mafalda não é apenas uma personagem dos quadradinhos: é talvez a personagem dos anos 70. Se para a definir se utilizou o adjectivo contestatária não foi para a alinhar a qualquer preço na moda do anticonformismo: Mafalda é, de facto, uma heroína zangada que recusa o mundo tal qual ele é. Para compreender a Mafalda é necessário estabelecer um paralelo com uma outra grande personagem, a cuja influência ela evidentemente não se subtrai: Charlie Brown. O Charlie Brown é norte-americano, a Mafalda sul-americana (o seu autor, Quino, é argentino). O Charlie Brown pertence a um país próspero, a uma sociedade opulenta na qual procura desesperadamente integrar-se mendigando solidariedade e felicidade; a Mafalda pertende a um país cheio de contrastes sociais que, no entanto, mais não pede que integrá-la e torná-la feliz, coisa que a Mafalda recusa, afastando todas as tentativas. O Charlie Brown vive no seu universo infantil de onde, em rigor, os adultos estão excluídos (apesar de as crianças aspirarem a comportar-se como adultos); a Mafalda vive em contínua dialética com o mundo adulto, que não estima nem respeita, antes pelo contrário, ridiculariza e rejeita, reivindicando o seu direito a permanecer uma menina que não quer assumir o universo adulterado dos pais. O Charlie Brown leu, evidentemente, os “revisionistas” freudianos e busca a harmonia perdida; a Mafalda leu, provavelmente, o “Che”.

Na verdade, a Mafalda tem ideias confusas em matéria politica, não consegue perceber o que se passa no Vietname, não sabe porque existem pobres, desconfia do Estado, mas preocupa-a a presença dos chineses. Uma única coisa ela sabe com clareza: não está satisfeita.

À sua volta uma pequena corte de personagens muito mais “unidimensionais”: Manelito, o menino de coro integrado num capitalismo de bairro, que tem a certeza absoluta que, no mundo, o valor essencial é o dinheiro; Filipe, o sonhador tranquilo; Susanita, beatificamente doente de amor maternal, perdida nos seus sonhos pequeno-burgueses. Finalmente, os pais da Mafalda, aceitando penosamente a rotina quotidiana (apesar do recurso ao paliativo farmacêutico do Nervocalm) e ainda por cima subjugados pelo tremendo destino que fez deles os guardiões da Contestatária…

O universo da Mafalda não é apenas o de uma América Latina metropolitana e evoluída; é também de um modo geral e em muitos aspectos, um universo latino, e isso faz que ela surja mais compreensível do que muitas das personagens da banda desenhada norte-americana; enfim, a Mafalda é, em qualquer caso, um “herói do nosso tempo” e isto não parece uma qualificação exagerada para a pequena personagem de papel e tinta que Quino nos propõe. Já ninguém nega que a banda desenhada seja (quando atinge um alto nível de qualidade) uma observadora de costumes: e na Mafalda reflectem-se as tendências de uma juventude inquieta, que assumem aqui o aspecto paradoxal de uma dissidência infantil, de um eczema psicológico de reacção à comunicação de massas, de uma urticária moral provocada pela lógica dos blocos, de uma asma intelectual causada pelo cogumelo atómico. Já que os nossos filhos se vão tornar - por escolha nossa - outras tantas Mafaldas, não será imprudente tratarmos a Mafalda com o respeito que merece uma personagem real.

Mafalda
Mafalda
Mafalda
Mafalda
Mafalda

Mafalda, a pessimista por Marcello Bernardi, 1978

Declarar-se optimista parece ser coisa muito cortês e de bom-gosto. Optimista no que respeita à actual condição do homem, entenda-se. Admite-se que muitas coisas não andam bem, é verdade. Mas outras andam muito bem. Há a tomada de consciência por parte das mulheres, o discurso dos trabalhadores, a participação das bases e o resto. E depois o golpe final, conclusivo: “Eu acredito no Homem!”.

A Mafalda não. É uma pessimista declarada, irredutível. Aterrorizada, vê o mundo afundar-se no abismo da catástrofe. Foi chamada “contestatária”. A mim parece-me que é muito mais. É a ideologia da revolução total. A sua crítica não poupa nada, nem a organização social nem as alquimias políticas, nem as leis económicas, nem a industrialização, nem a polícia, nem a escola, nem as instituições em geral. Nem o Homem. Nada. É o belo, mais ainda, o feio quem tem razão. Nós, os poucos que pensávamos e pensamos como ela, sempre nos atormentámos com o medo de não sermos serenos, de sermos influenciados por rancores pessoais, de não vermos as coisas como estão. A Mafalda tranquilizou-nos. As coisas estão mesmo assim. Mal. Mesmo pessimamente. E é para acreditar porque, na Mafalda, Quino conseguiu imprimir aquela lucidez de julgamento que é própria das crianças. Não sei como o fez, visto que Quino já não é criança há muito tempo. E não tem filhos. Mas, finalmente, conseguiu-o. Talvez por ser um génio.

É um palavrão, de acordo. Mas não tanto, creio. Freud disse que a inteligência de uma criança sã é extraordinariamente mais acutilante do que a de um adulto normal mediano. Foi uma afirmação que a muitos pareceu discutível. Quino conseguiu demonstrar irrefutavelmente a sua verdade com uma única vinheta. Laing escreveu que todas as crianças nascem inteligentes e que depois, à roda dos 15 anos, se tornam cretinas como os adultos por culpa dos seus educadores. Indignação entre os pouquíssimos bem-pensantes que conhecem Laing. Mas, sempre com uma vinheta Quino fornece-nos a prova mais macroscópica deste triste fenómeno. Fromm publicou um longo e belíssimo ensaio sobre “Autoridade e Família”. 40 ou 50 páginas. E Quino: “O problema da grande família humana é que todos querem ser o pai!”. Exactamente 13 palavras ditas por Mafalda a seu pai. A arrogante estupidez do homem autoritário e opressor, a desvairada propensão universal para interiorizar o poder e para projectar depois sobre o Chefe, o Pai-patriarca, a adaptação indecente a uma sociedade constituída sobre a violência institucionalizada, está lá tudo.

As associações dos Pais de Família não se escandalizam. Não é caso para isso. A Mafalda não tem problemas com o Papá, que ainda por cima ama com aquela comovida e tolerante ternura que muitas vezes as crianças reservam a esses estúpidos adultos não merecedores. A Mafalda tem-nos com o Pai, símbolo de uma cultura. O Pai que se ergue, nem sempre conforme aos modelos, sobre o duplo pedestal da devoção ao dinheiro e do medo do sexo.

Para quem, como eu, passa um bom bocado de tempo com as crianças, é claro que do confluir desta devoção e deste medo nasce a brecha incurável existente entre o mundo da criança e o mundo do adulto. A Mafalda, lapidar como sempre, concentra tudo: “Porque existem pobres?” e “Quando não sabem explicar-te uma coisa, há sempre uma cegonha pelo meio!”. Exacto. A dimensão da nossa sociedade é a económica, para as crianças conta apenas a afectiva. Por isso as crianças jamais poderão compreender porque existem pobres. E depois as crianças ainda não aprenderam a envergonhar-se com a própria sexualidade, e os adultos envergonham-se muito de a ter substituído pela cegonha. Substituição motivada, como sabemos, pelo senso comum do pudor.

O mundo, o dos grandes, está doente. Sofre de distúrbios da circulação monetária e de uma infecção galopante que é consequência directa do moralismo sexo-fóbico: a superpopulação. Não vem nada a calhar. E não se percebe porquê. Isto é, a Mafalda não percebe. Nem poderia. As crianças valem-se da lógica, as normas económicas e as repressivas nada têm de lógico. Dentro de alguns meses, quando tiver aprendido a ler, a Mafalda poderá consultar as publicações do Clube de Roma, os relatórios do MIT e os escritos de Reich Brown, Marcuse, Fromm. Então compreenderá. Compreenderá que não há nada a compreender para além da obtusidade dos homens, que é mesmo inexplicável e de proporções inconcebíveis, e compreenderá que as suas perguntas, pelo menos por agora, estão destinadas a continuar sem resposta. No entanto é das perguntas sem resposta que nascem as revoluções.

Puppy Power


A gente alimenta um totó, faz carinho na cabeça, joga o gravetinho pra ele brincar e eis que, um dia, ele se vai, atrás de um caminhão! Aiiii!... Eu devia ter prestado mais atenção em como terminam as histórias de Lessie, Rintintim e etc... risos
Pois é, meu mascotinho ("vulgo" Gabriel! hehe) tá indo embora (quem foi no meu aniversário, no ano passado, conheceu a figura). Não, não é para a cinzenta São Paulo que ele vai (acreditam que até a minha costureira se mandou pra lá? saco!...). Como sorte pouca é bobagem, Gab tá de mudança para o Rio de Janeiro, vai estagiar na ... Rede Gloooooooooooooooooooobo-bo!!! Ou seja, de agora em diante, qualquer pane nos comerciais da emissora, qualquer falha envolvendo a área de Publicidade, ou alteração criativa nas chamadas da "Sessão da Tarde", pode ter o dedo desse ítalo-baiano. Olha lá, viu, seu Gabriel!... hahaha
Já "ameacei": não sai daqui sem a gente dar "aqueleeee abraço". (Alô, Rio de Janeiro: em breve, estarei aí, sob o pretexto de visitar Ana e Gabri! hehehe)
Vou morrer de saudades da minha melhor companhia em cursos de idiomas e em conversas sobre Comunicação, do meu parceiro fixo de cappuccinos no intervalo do espanhol e valioso debatedor dos meus "planos infalíveis". Mas tô, mesmo, é com muito orgulho da pessoa! That´s my boy!!! ;)
Conheci Gabinho, ele tinha 16 anos (hoje está com 23, recém-completados). Por essas e outras, sinto-me culpada por, quem sabe?, ter influenciado esse menino a acreditar que Comunicação dá futuro para alguém. (risos)
Gabri é um doce de pessoa, prestativo, inteligente, ético, engraçado... Além de ser uma companhia leve e agradável, é um exemplo de que quem tem competência, se estabelece, sem pisar nos sentimentos de ninguém, sem se prestar a qualquer coisa, sem alterar a própria essência.
Anita, la prima donna, deve ser a próxima. "Puppy Power" total esse casal!... hihihi

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Blondie Ambition

Socooooooooooooooooooooooooooooooorro, Aloooooooooooooooooooooosa!
Afroblitz, urgente, na redação de A Tarde, meu amigo!!!!!!!
"Meninos, eu vi"! A Companheira está, desde sábado passado, com um novo penteado afro - belíssimo, por sinal -, e aproveitou para fazer várias mechas caramelo na cabeleira. Tô avisando, Alosa: corra, que Companheira Lília está ficando loira!!! - está, para ser precisa, apenas um tom a menos que a Marrom e que Beyoncé, meu caro!
É que eu sou uma jornalista ainda da era de Pacheco Filho, portanto meu celular não tem câmera digital, senão...
Ela vai negar, vai argumentar que quis dar uma inovada, mas nós sabemos que todas que hoje são loiras começaram assim - e tenho dito!
O que é isso, Companheira? Nem Glória Maria aprontou uma dessa! :)

Action, enquanto é tempo, viu, Alosa?
(Alosa, Alosa... Você não me responde nunca - embora jure que me lê -, mas tudo bem, baby. Nosso laço é impossível de ser desfeito! Afinal, quem já passou, junto, por um assalto (pseudo)comunista e uma sessão de tortura, de quatro horas, praticada por um motorista de ônibus fã de Wando, pode se considerar, quase, companheiro de front de batalha. Cê é minha corrente, rei - e tá dito!)

terça-feira, 8 de julho de 2008

O Iluminado

Post dedicado às "Paralamaníacas" de ontem, Laís, Ana Paula e Erica, e a meu ex-professor de violão, Felipe - meio Tande, de alma, meio Herbert, na vocação, e, coincidentemente, carioquíssimo da gema como ambos!



Sempre detestei panelinhas. Além delas restringirem participações, limitam a personalidade de quem a integra. Se todos nós já somos rotulados sem elas, imagine dentro delas... Conforme fui ficando mais crescida, percebi que têm uma certa utilidade prática na vida. Quem faz parte de uma, dificilmente se decepciona com quem traz para perto de si. Porque é todo mundo tão igual, que se um pergunta "Aleija?", o outro responde "Mata, então!". Enfim, é uma garantia de ter eco nas relações pessoais.
Para não dizer que não há exceção, gosto muito da máfia, e desconfio que isso tenha a ver com os talentos de Mario Puzzo e de Marlon Brando (risos). Acho que simpatizo com a passionalidade da coisa: os solenes beijos na mão, o respeito aos vínculos parentais, os batizados como forma de gratidão e de ganhar proteção e as ofensas repartidas. Astrologicamente falando, temos similaridades. Já ouvi dizer que a Máfia é escorpiana com ascendente em Câncer. Eu tenho o Sol na casa de Escorpião e ascendente em Câncer, portanto nos entendemos bem. risos
Voltando à vaca fria, não sei se por masoquismo ou por conta de uma fé infantil que insisto em nutrir, nunca gostei de barrar quem é diferente de mim. Isso já me trouxe muita, mas muita mesmo, dor de cabeça, de eu, em algumas situações, começar a me relacionar com alguém já tendo a forte sensação de que aquilo ia dar em dor e confusão, e deixar rolar só para não ser covarde e preconceituosa.
Apesar das troletadas, eu continuo insistindo nisso. Gosto de pagar pra ver. Até porque, eu nunca gostei de caminhos muito fáceis - desconfio de tudo que me vem, assim, de bandeja. "Zona de conforto não gera crescimento", já gosta de dizer o meu tchê-amigo jornalista, Nobre. Definitivamente, minha vaidade não passa pela unanimidade e pelo deslumbramento alheio com a minha pessoa. Assim, eu continuo permitindo, apanhando, ganhando e seguindo em frente. "Crer, cair - se for o caso - e levantar..." Essas pessoas podem ter acrescentado muito pouco na minha vida, mas a própria decepção me deu conhecimentos valiosos sobre mim mesma e sobre o mundo, e por isso não me arrependo de nenhuma delas. São coisas hoje tão distantes... Xápralá!... Mas eu não vim aqui para "filosofar" sobre isso.

Vim falar sobre um tipo específico de panelinha: fãs-clubes. Quer dizer, vim falar dos meus dois ídolos: Tande e Herbert Vianna. Nunca gostei de idolatrar ninguém - até porque isso é uma grande bobagem que, entre outras coisas, tira a humanidade, a alma, do objeto de idolatria -, mas é inegável que esses caras me afetaram - não só no gosto por vôlei e pop-rock, que com isso eu tenho muitos altos e baixos, mas me inspiraram pra vida. O ídolo é benéfico e até necessário, na minha opinião, sob esse prisma.
O primeiro foi Tande, jogador da Seleção de Vôlei. Ao contrário de minhas amigas da escola, minha admiração por ele não começou naquele 9 de agosto de 1992, quando ganhamos da Holanda por 3x0. Ouço minha irmã mais velha falar de Tande desde a época em que ele jogava no AABB, namorava uma xará minha e visitava a vó, que morava na mesma cidade-satélite que minha tia, o Cruzeiro. Bote nisso aí uns 20, 21 anos.
Lógico que naquele agosto, eles pareciam homens mesmo. Achava, do alto dos meus 12 anos, que Talmo, Giovane, Negrão, Paulão, Carlão, Maurício, Pampa e Tande eram veeelhos. Hoje, quanto mais eu olho para aquele grupo, mais orgulho eu tenho dele. Porque já faz algum tempo que eu tive 20, 22 anos, e hoje eu sei o que é isso e o quão meninos somos ainda nessa idade. Aquilo ali, sem tirar o mérito da trajetória prévia de cada um e do José Roberto Guimarães, foi um milagre impulsionado pela fé cega de 12 garotos. Eles não tinham motivos concretos que sustentassem tamanha energia e crença na vitória. Foi pura ingenuidade de juventude, fé de corações ainda pouco maculados pela vida. Talvez se tivesse ido a Barcelona um grupo com média de idade maior, mais "vivido" e portanto cético, não teríamos, hoje, a primeira medalha de ouro em esportes coletivos. Tem coisas, na vida, que a gente só faz mesmo quando é muito inocente para não ter a devida noção do desgaste.
Naquele grupo, tal atitude infelizmente não se sustentou pelos anos seguintes, mas ela jamais se perdeu no Tande. Nunca, em nenhum jogo, o vi menos vibrante que em Barcelona. Pelo contrário. Quanto maior era a ruína interna da Seleção, mais ele se sentia na obrigação de mostrar energia positiva e fazer o resto, ao redor, vibrar junto com ele. Era tocante; por vezes dava vontade de entrar dentro da tv e dizer uma palavra de consolo pra ele, que ficava devastado quando se dava conta de que não havia mais nada a fazer.
Quando repatriaram os "brasilianos", enquanto Negrão voltou ao Brasil xingando, Tande era a felicidade em pessoa. Mostrou-se totalmente grato e otimista com a iniciativa do Nuzman. Ficou num dos piores times da época, o Flamengo, mas agradeceu muitíssimo só pelo fato de estar de volta ao seu amado Rio de Janeiro e tinha fé no time carioca, que se por um lado nunca conseguiria estar entre os primeiros da Liga - era fato -, melhoraria muito, pois, inclusive, estava formado por "uma garotada muito promissora", a quem ele podia servir de inspiração.
Em ambas as situações - na seleção em decadência e no time decadente -, ele não conseguiu "salvar a pátria", como pretendia, mas foi premiado nos campeonatos e elogiadíssimo pelos seus pares. Certamente, saiu de cabeça erguida por ter tentado tudo que estava ao seu alcance.
Todo mundo no meio o adora. Dizem que ele é gente boa pra caramba, mas também já ouvi dizer que é franco demais, meio enrolado e que está sempre atrasado - coisas que geram muito estresse no meio esportivo, mas que nunca trouxeram conseqüências mais graves por ele ser o ser humano que é.
O ex-camisa 14, por sua vez, sempre tem coisas positivas a dizer sobre os outros - e isso não quer dizer que nunca o tenha visto criticar alguém. Tande já brigou com Negrão, com Giovane, por exemplo, e ambos o adoram. Meus amigos que já tiveram perto dos jogadores da Seleção, dizem que ele é o mais disponível e simpático. Tande diz que nunca seria menos atencioso com os fãs, por um episódio que aconteceu em sua infância, quando um jogador de futebol negou um autógrafo a um amigo dele, que chorou muito, e porque a mãe ficaria muito decepcionada com ele (ohhhhhh!... é um argumento meloso, mas eu gosto de gente família).
Tande lê Paulo Coelho, é um sujeito altamente clichê em suas declarações, enfim, é superprevisível e ordinário, intelectualmente. Admiro-o porque, pra mim, sempre foi a personificação da pureza de coração - quer melhor motivo? Um menino no corpo de um gigante e com a determinação de homem feito. Meus pais diziam, de gozação: "Não sei o que você vê nesse altão careca!...". Em primeiro lugar, para quem não sabe, até 20 e alguns anos ele tinha cabelo, sim, e independente disso, tem um rosto bem feito. Humpf! (risos)
Mas nem toda menina que guarda um poster de um homem famoso na porta do armário o faz pela beleza do cidadão. Há meninas e meninas.
Os artistas que admiro, geralmente têm qualidades morais que eu queria trazer para a minha vida. Gosto da força expressiva, da coragem, da lealdade aos próprios valores e da consistência das opiniões de Susan Sarandon. O mesmo sinto sobre Fernanda Montenegro e Toni Ramos (!!!). Gosto do jeito caloroso e da ambição profissional de Tom Cruise. Agrada-me o ar de boa moça inteligente de Katie Holmes. Simpatizo com o jeito como Brad Pitt se joga na vida e de como ele não leva a indústria a sério demais. Acho charmosa a preocupação em ser fiel a si mesma de Kirsten Dunst. Aprecio a determinação de ser leve e simples de Ivete Sangalo (pra quem já perdeu metade da família, é um esforço e tanto), apesar dos exageros. Admiro a integridade e a militância de Soninha nas causas que acredita. Gosto da honestidade, duela a quien duela, do senso de humor e da independência de Mel Gibson. Apesar da futilidade sem fim, admiro a inabalável alegria de dona Hebe Camargo.
Admirava e admiro Tande pela fé e energia que deposita nas pessoas e nas circunstâncias, inclusive nas mais desfavoráveis.
Quando migrou para o vôlei de praia, por diversas vezes fui na esperança de vê-lo de perto. Vi todo mundo do meio e até tenho guardada uma camisa que ganhei da irmã dele, Adriana Samuel, mas Tande que é bom, nunca. Aliás, por conta dessa camisa, que caiu sem querer no meu colo (um lance espetacular de sorte, que depois eu narro), cheguei no colégio zoando com a galera da sala, disse que havia ganhado um presente da minha cunhada. Minha amiga-gêmea, Fernanda, ficou me olhando, e daí eu expliquei que a "cunha" era a irmã de meu ídolo Tande. hehe
Acho que vou dar uma olhadinha na Seleção Feminina só para ver como é que ele se sai em Pequim.

Herbert foi uma paixão que veio aos poucos, e teve seu ápice na ocasião do cd "Vamo bater lata". Esse, inclusive, foi um dos primeiros que comprei pra mim, com o dinheirinho que sobrava do lanche. Na época da escola a gente é tão pobrezinho, né? Um bom motivo para comemorar a estadia na vida adulta - apesar dos pesares!
Eu gosto de tudo nele: das letras, dos arranjos, do jeito, dos solos de guitarra, da saudade que tem de Lucy, da relação com a família, da história do grupo, do amor pela Argentina, da energia no palco... De "Vamo...", gostava muito do tema de Carolina Ferraz em "História de Amor", "Saber amar". Grande letrista!... Aliás, Paula Toller sabe casar! Além de ter fisgado Herbert, ainda uniu a escova de dente com outro compositor de pop-rock que eu amo, dr. Leoni.
Eis que num desses shows dos Paralamas, minhas amigas e eu tiramos a sorte grande de conhecê-lo pessoalmente. Era um show pelo qual não dávamos nada, que por acaso foi do lado de minha casa, no Softel Quatro Rodas - onde também aconteciam as hilárias "Festas da Espuma" (risos) -, e a noite prometia ser um pouquinho melhor do que é geralmente uma noite de domingo.
Pois bem, a baixaria começou na casa de Paulinha, a fã número 1 do cara na nossa turma (ela, por si só, merecia um texto, mas deixa pra próxima). Todas animadas, entramos na kombi da padaria do pai da nossa amiga ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 1). Chegamos. Dignidade restaurada, nos encontrávamos já dentro do ginásio, quando vimos várias barraquinhas de souvenirs do show. Paulinha cismou com a camiseta e o boné oficiais da turnê, mas não tinha levado dinheiro para isso, nem imaginava que venderiam essas coisas no show. Raspasmos a grana, fizemos a vaquinha e compramos a tal camisa. Fiquei quase sem dinheiro pro refrigerante ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 2).
Minha amiga nos obriga a ficar praticamente grudadas no palco. Isso não significa somente ter uma visão privilegiada do show, mas estar do lado de toda a "fauna" que é fanática pelo artista. No show do Espanhol (Paralamas e Titãs), por exemplo, fiquei com os olhos vermelhos de tanta maconha que estava sendo fumada do meu lado. Meus amigos até levaram um susto quando me viram naquele estado! (risos)
Nesse, tive que disputar espaço com o (provavelmente) fã gay de Herbert, que pulava de um lado para o outro, segurando e mordendo a bandeira do Flamengo, enquanto sussurrava um desesperado "Herrrrrrrrberrrrrtttt"("Paulinha me paaaaga!" - vol. 3). Pensei: se no show ele já se comportava assim, imagine no banheiro de casa! (risos) E o pior é que toda platéia de show tem um doente desse, obrigatoriamente. Quem já não ouviu, em gravações ao vivo, o nome do artista ser gritado por um/a fã dessa forma desesperado/a? Deus nos defenda!...
Pra finalizar, Herbert, ao final do show, jogou uma toalha para a platéia. Paulinha fez aquela cara de cachorro pidão pra gente, e lá fomos nós brigar pela tal toalhinha vermelha onde Herbert derramara gotas do seu sagrado suor ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 4). Rodamos o estádio inteiro, segurando a toalhinha. Alguém pisou no meu Reebok preto novinho (lembram dessa moda?). Senti o sangue ferver ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 5). Mais um pouco, quando estávamos nos degladiando na direita do estádio, vejo meus colegas de inglês. Penso que, no dia seguinte, vou ser a resenha do bate-papo pós-aula ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 6). Finjo que não os vejo e me retiro da briga pela tal toalhinha vermelha. Cheeega!
Morrendo de fome, só penso em ir embora. São 12h20 mais ou menos, mas nossa capitã paralamaníaca quer tentar ver o ídolo de perto. "Ora, a vigilância do Softel não é lá essas coisas e, veja, tem gente entrando ali". Ficamos ("Paulinha me paaaaga!" - vol. 7). Na porta, uma fã de Bi Ribeiro se esgoela diante do segurança para tentar entrar no camarim. Até hoje não esqueci do desespero da menina, que parecia aquela personagem de "Confissões de Adolescente", a Carol:
- Olha, eu AMO o Bi!!! Eu aprendi a tocar baixo só por causa desse cara, moço! Eu já fui atrás do Bi não sei onde, etc, etc (começou a enumerar a lista de lugares), eu sou fanática por ele e NÃO VOU sair daqui sem encostar nele! (Choramingando) Por favor, vai, moço!...
O segurança - sacana! - não cedeu. E mais: continuou a deixar um monte de patricinha entrar, na cara da garota. A gente lá, só de butuca, olhando o "show" particular da fã do baixista do s Paralamas. Chega o cunhado. Ele avisa à fulaninha que ou ela vai com eles, ou vai embora de ônibus. Não estava brincando, e entregou-lhe um vale transporte. Ela bate o pé, choraminga, mas entre o conforto de ir pra casa de carro e o baixista, preferiu a possibilidade mais concreta. Dois minutos depois, o segurança liberou a nossa entrada ("Paulinha, graaaaande iniciativa, amiga!"). Eu fiquei tão em choque, que burlei as regras de educação, e tomei um cartão da turnê das mãos de uma menina, que ficou incrédula com a minha cara-de-pau, mas não fez nada. Entramos. No exato momento em que isso acontece, Bi Ribeiro cruza com a gente na porta. Está de saída. Nem sinal também do João Barone. Penso, com pesar, na fã que queria tanto ver o baixista... Resta, dentro do recinto, apenas Herbert.
O camarim. Pense numa fila! Só mulher, pra variar. Paulinha começa a neura do "Ai, meu Deus! O que Herbert vai achar de mim? Será que ele é legal?". A gente pensa o mesmo, mas seguramos a nossa onda. Chega o momento dela. Ele é um lord com Paulinha. Laís foi a próxima (ela é a fã número 2). Ela fica abismada com a beleza da pele do cantor, e sai da fila meio que ainda em transe. Hilário!
Na minha vez, confesso que também fiquei impressionada com o físico do moço. Foi a pele masculina mais bonita que já vi e um dos melhores corpos. Puxo papo com ele e um "ruído" na comunicação faz com que eu dê uma gafe sem querer. Saio vermelha de vergonha, fico do lado da fila, olhando com cara de besta para o nada, pensando que eu falei com o Herbert Vianna (!!!). Quando volto a mim, percebo que estou na fila novamente, mais precisamente cara a cara com Herbert, de novo. Gentleman que é, confessa que está na dúvida, porque tem a impressão de que já me deu autógrafo naquela noite. Eu confirmo, peço desculpas pela distração e dou o fora, morta de vergonha... e a essa altura, estou roxa de fome. Olho para as coxinhas da Perini, em cima de uma mesa na entrada do camarim, e penso que se eu roubasse uminha só, ninguém sentiria falta, mas me mete medo a possibilidade de ser levada pela segurança (risos). Torço para que na Kombi do pai de Paulinha haja um pão avulso, da última entrega, porque do contrário, eu não sei não... risos
Fim de noite, voltamos para casa. Mal podia esperar para mostrar ao povo da sala o meu postal da turnê com a dedicatória do Herbert.

Anos mais tarde, nosso ídolo sofreu um acidente que, como todos sabem, o deixou na cadeira de rodas. Continuamos gostando de Paralamas e de Herbert - e o admirando mais que nunca pela força de vontade -, mas, pelo menos para uma parte do grupo de fãs daquela noite (na qual me incluo), fica impossível encarar um show da banda com o vocalista na cadeira de rodas, depois de inúmeros nos quais o vimos correndo, de um lado para o outro, distribuindo sua energia sem fim para a platéia. Toda vez que cogito a possibilidade com Erica, ela balança a cabeça e responde: "Juli, não dá não". É, ainda por um bom tempo, não vai dar mesmo.

sábado, 5 de julho de 2008

Silvio & Silvia


"Ela vai volllllltaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar! Ela vai voltaaaaaaaaaaaaaaar!..." Pois é, Silvia Poppovic vai voltar à Band! Alô, Alosa: bora mandar uns e-mails pedindo pra produção dela convidar Bibi Ferreira. Quem sabe elas não revivem aquele barraco brabo dos tempos de "Silvia Poppovic" à tarde? hehe... Eu sou da paz. Juro! :)

Enquanto isso, Silvio Santos permanece na ativa. E mais "gagá-rotão" que nunca! Silvio sempre foi meio descarado, sem noção, mas agora, com a idade avançando e a "pilha" do Lombardi, que, vira e mexe, joga lenha na fogueira ("Se jogue, Silviooooo!"), o homem tá insano. Hello, Lombardi? Se jogar como, cara pálida? Lembra da marchinha de Carnaval que o Patrão gostava de tocar nos comerciais do SBT, na época da festa? Pois é, "a pipa do vovô não sobe mais!...". Do contrário, não teria deixado a mulher escrever novela - a lei da compensação, né.
Por falar nisso, com toda razão, Benedito anda p. da vida com o SBT. "A seguir, cenas dos próximos capítulos". Ou não... Confesso que fiquei tentada em rever "Pantanal", mas continuo magoada com Silvio. Encheu o saco, há uns dois anos, para que víssemos "Pássaros Feridos" pela milésima vez. Não cansava de dizer: "É a versão sem cortes da série e mais: re-mas-te-ri-za-da!". Que emoção! (zzzzzzz...) Mas porque Silvio estava insistindo tanto, eu fui conferir a tal versão remasterizada. Sabe que ele fez? Pra variar, suspendeu a série na metade. Desde então, fiquei de mal e, com ele, não brinco mais. Humpf!
Quem não fica de mal dele, nunca, é o povo do meio artístico. Rola um respeito, uma mitificação tão forte em volta da figura do dono do Baú, que ele pode falar o que quiser, sem maiores conseqüências. Há certas coisas que só Silvio Santos pode, e ninguém mais na televisão brasileira.
Uma vez, há algum - mas não muito - tempo atrás, Silvio recebeu o grupo Barão Vermelho. Ele teve a cara-de-pau de perguntar quem era o Barão, ali - nisso o grupo já tinha mais de 15 anos de carreira. Fosse qualquer outro artista, tal pergunta teria gerado um barraco, ou, no mínimo, caras amarradas no palco. Frejat e companhia caíram na risada e explicaram que é o nome da banda.
Recentemente, recebeu Scheila Carvalho no seu programa. Além de tê-la confundido com a outra Sheila, veio, ainda, com essa: "Não é você quem apanhava do Compadre Washington?". Resultado: todo mundo caiu na gargalhada e não se falou mais nisso.
Silvio é terrível! Tem cada coisa que ele diz pras velhinhas... E ninguém processa, reclama... É um carisma definitivamente a toda prova.

Da série "Meu passado me condena"... Há uns dois anos, participei de um quiz sobre o dono do Baú. O prêmio: ir para um dos programas dele e participar da platéia de Silvio em São Paulo (fraude total, mas xapralá). Achei o convite baixo-astral, no início, mas confesso que a idéia de vê-lo ao vivo me tentou. Ô!... E havia um outro apelo bem forte na ocasião: minha avó materna, que era apaixonada por Silvio Santos, havia morrido há menos de um ano. Pensei que ela gostaria de me ver lá. O representante do Baú insistiu e lá fui eu responder o tal quiz. Pergunta final: "O cabelo de Silvio Santos é... a) peruca; b) implante; c) natural". Pensei, pensei, pensei e cheguei a conclusão de que aquilo devia ser implante, mas que Silvio nunca admitiria, portanto, letra c. Bingo! Acertei. E até agora, nada de conhecer seu Silvio. Rai, ai... risos



sexta-feira, 4 de julho de 2008

O Favorito


Desde o primeiro capítulo, a nova trama das oito, "A Favorita", me causou uma impressão positiva. João Emanuel Carneiro, o favorito do horário das sete, chegou no topo da montanha e ousou fazer diferente: nada de cenas no exterior, de takes cinematográficos e essas coisas grandiosas as quais o telespectador das oito vem sendo acostumado. Como diria dona Glória Kalil, menos é mais...
A impressão foi a de que havia pegado a novela já em sua metade, digo, em relação ao ritmo da narrativa. Particularmente, mil vezes isso que os inícios "poéticos" de um Benedito Ruy Barbosa da vida, que depois caem num tédio miserável nas tais "segundas fases" (Pra quê ele foi inventar isso? Tão melhor as construções de "Cabocla" e "Sinhá Moça"... Se bem que, não vou mentir, sou apaixonada pelo início de "Renascer"! Estreou no dia do meu aniversário, e até esqueci que era minha festa e parei em frente a tv para conferir a estréia de Leonardo Vieira. Que primeiro capítulo foi aquele?!). Odeio que me prometam o que não vão, mais tarde, cumprir. Prefiro ver pouco, num primeiro momento, e me surpreender positivamente, mais tarde. Mentira é a senha para ter acesso ao meu pior lado... Nossa, e como o horário de novelas da Globo andava mentiroso, meu Pai!...
O espelho tem duas faces - "A Favorita" trabalha com um conceito interessante: numa sociedade em que os discursos são cada vez mais manipulados, como saber quem fala a verdade? Provavelmente não tem nada a ver, mas, coincidentemente, é o mesmo tipo de construção ambígua que vem fazendo sucesso nas séries americanas como "Desperate Housewives" e "Lost". Além de enriquecer os personagens - que se tornam mais "gente como a gente" -, mantém a atenção do público na trama.
Mas JEC - como os noveleiros o chamam, pra facilitar a comunicação - relativiza os caráteres não é de hoje. Mesmo em suas tramas anteriores, mocinhos e vilões tinham seus momentos no "lado oposto da força". Como esquecer do Afonso Lambertini, de Lima Duarte, em "Da cor do pecado"? O melhor personagem do mineiro em anos!...
Na verdade, suponho, desde "Central do Brasil" que JEC é adepto da idéia de que um homem é suas circunstâncias, e de que o dinheiro, ao invés de só facilitar as relações externas, às vezes corrompe a dinâmica interna das pessoas.
Ontem, em "A Favorita", vi uma cena que exemplificava muito bem isso. Lara (Mariana Ximenes) dava uma bronca no avô por ter, juntamente com Donatela (Claudia Raia), armado um seqüestro para Flora (Patrícia Pillar). São personagens considerados "do bem", na trama, mas a teia de proteção que o dinheiro (poder) lhes dá não é ignorada quando lhes convém. Ambos já declararam que, para atingirem seus objetivos (o da vez é o de "proteger" a família), são capazes de qualquer coisa.
Os defeitos do pessoal do núcleo negro, por exemplo, nada tem a ver com a cor da pele (se bem que é uma idéia meio estranha essa...), mas com o acesso ao poder, com o fato de serem ricos. Aliás, é até forçado dizer que é a família negra; é a família de ricos, de políticos da novela.
Os pobres de "A Favorita" têm mais preocupação com a ética que os afortunados, até porque são mais vigiados pela sociedade. Dinheiro = Poder = Liberdade (que pode ser = Abuso). Flora, que em tese deveria ser mais "livre" para cometer atos ilícitos, se vigia o tempo inteiro, pois sabe que, entre outras coisas, não dispõe nem de dinheiro, nem de boa reputação e nem de contatos que a protejam caso as coisas andem mal para o seu lado.
O dinheiro/poder foi, por falar nisso, o divisor nos destinos das duas protagonistas da história: Donatela era casada com o morto (Marcelo) e, portanto, era influente e rica na ocasião do crime; Flora, além de ser "remediada", era "a outra". São irmãs de criação, tiveram um passado similar e possuem personalidades próximas, mas a questão é: não basta ser; é preciso estar do lado certo, na hora certa. Donatela tirou a sorte grande.
"Central do Brasil", como bem dizia o nosso nada saudoso WG (risos), é um filme que fala basicamente sobre a solidão. Dora (Fernanda Montenegro) tenta suprir a aridez sentimental pela avidez por dinheiro, o que só começa a mudar quando o menino cai de pára-quedas em sua vida. Situação semelhante acontece com o personagem de Lima Duarte em "Da cor...". Em ambos os casos, nada como a alegria infantil para amolecer um velho coração endurecido pela vida (e pelo desamor).
Antes de continuar falando de "A Favorita", queria fazer um parêntese sobre "Da Cor do Pecado". Além de ter revelado o potencial de JEC como novelista, foi nesta novela que senti que Gianecchini havia se tornado um ator. Outro parêntese, antes disso: Luiz Fernando Carvalho fez - pra "variar" - um excelente trabalho com Giane em "Esperança". É como sempre digo: se a direção de Carvalho e o texto de Nelson Rodrigues não derem jeito, desista do ator, que ali não tem mais solução! Acho que, para a crítica, o ator Reynaldo Gianecchini nasceu ali, em "Esperança". Para mim, foi mesmo em "Da cor...". Sou da opinião de que quando um ator consegue transmitir a emoção, a idéia da cena, só com o olhar, ele já está "batizado" na profissão. Dali em diante, é só aparar algumas arestas.
Uma das cenas que mais me marcou na teledramaturgia recente foi a do (re)encontro de Germana e Apolo (que, na verdade, era Paco).
Resuminho para quem não viu a novela: Paco e Apolo são gêmeos, filhos de Edilásia ("Mamuska") com o Afonso Lambertini (na época, ela era empregada da casa dele). Como a esposa do milionário não podia engravidar, ele forçou a empregada a dar-lhe o filho. Só que Lambertini nunca ficou sabendo que eram, na verdade, gêmeos, pois Edilásia ficou com um deles (Apolo), desapareceu do mapa e criou o filho como se fosse do marido (Sardinha), que ela conheceu após ter saído da casa do ex-patrão. Só Germana sabia da existência do outro gêmeo. Anos depois, Paco resolve sair de perto do pai - cujo abuso de poder ele sempre detestou - e encontra, por acaso, com o irmão Ulisses no momento em que ele acabara de sair de um acidente onde o outro gêmeo (Apolo) havia desaparecido. Paco também havia sofrido um acidente e foi dado como morto. A partir daí, ele se aproveita da situação para esquecer o passado e é acolhido pela família Sardinha - mas se passando por Apolo.
Pois bem, voltando a cena... Germana e Paco se encontram e ela fica maravilhada ao ver como Apolo se parece com o seu "filho" morto. Nessa hora, as lágrimas vêm aos olhos de Paco; ele não consegue encará-la, evita tocá-la. Primeiro, acho, porque ele vê como a ausência dele dói naquela que foi, na prática, sua mãe. Segundo, porque a saudade que ele sentia dela veio toda à tona naquele instante. E porque está se passando pelo irmão e encontra-se diante de toda a família, tem que domar o impulso natural de chorar, abraçar e beijar a pessoa que mais gosta dele no mundo - o que deve ser "duro, muito duro, duríssimo". Gianecchini está perfeito na cena. Se eu não me cuido, quase pago o mico de chorar junto com ele! :)
Lindo momento da trama! Lindo o trabalho do Gianecchini! Lindo o Gianecchini! hehe... Revendo a cena, assim, isolada no You Tube, não fica tão bom. Mas, no contexto da novela, foi excelente! Para mim, a melhor cena de todas! Por coincidência, apesar de não ter visto a reprise, me deparei com ela novamente no "Vale a Pena Ver de Novo". Quase chorei... de novo! hehe
Gosto muito disso em JEC, da simplicidade e da verdade com que ele descreve os sentimentos humanos. Adoro o texto de Manoel Carlos, mas às vezes ele poetisa demais, e, pelo menos para mim, menos é quase sempre mais. Porque o audiovisual é um sonho que acontece fora da cabeça, qualquer excesso faz você sair dele e "despertar". Um sonho que temos enquanto dormimos, se for "enfeitado" demais, dá na cara que é sonho. Diga aí se os sonhos que geralmente te impactam não são aqueles mais simples, que de tão ordinários e banais parecem mesmo situação da vida real? Na tela, quanto menor for a intenção de aparecer do autor, maior a chance desse fazer um trabalho sincero, realista, bem-sucedido.
"Maneco" tá perdendo a mão. Mas já chuparam até o caroço da criatividade desses novelistas. Quem tem mais alguma coisa a dizer, a essa altura da carreira? E a Globo não pode se queixar, pois está tendo sorte: JEC, Carrasco e essa autora da novela das sete, a Andréa Maltarolli, estão fazendo bonito.

Aliás, por falar em "Beleza Pura", gostaria de fazer um apelo, senão ao Skank, às agências de publicidade, ou à Som Livre, ou a Santo Expedito, em última instância: parem de gravar músicas que vocês sabem que ou vão parar na novela das sete ou vão servir para o comercial da Rider! Jota Quest, isso é para vocês também!
"Não me amarra dinheiro, não..." Tá certo!... Sei!... (risos)

Carreira de JEC

Trabalhos solo na televisão

  • 2008/09 - A Favorita
  • 2006 - Cobras & Lagartos
  • 2004 - Da Cor do Pecado

Trabalhos como colaborador na televisão

  • 2002 - Desejos de Mulher
  • 2001 - Os Maias
  • 2000 - A Muralha

Trabalhos no cinema

  • Central do Brasil (1998)
  • O Primeiro Dia (1998)
  • Castelo Ra-tim-bum (1999)
  • Orfeu (1999)
  • Cronicamente Inviável (2000)
  • O Filho Predileto (2001)
  • A Partilha (2001)
  • Seja o que Deus Quiser” (2002)
  • Redentor (2003)
  • Cristina quer Casar(2003)
  • Deus é Brasileiro (2003)
  • A Dona da História (2004)
Fonte: Wikipedia.

ps.: tô gostando da trilha sonora sertaneja. altas recordações da fase goiana/brasiliense! kkkk

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Freeeeee-dom!

Pois é, Ingrid Betancourt finalmente saiu do cativeiro (e tá a cara da Heloísa Helena, rei!risos).
A Colômbia é bizarra, sob o aspecto da segurança pública. Quer dizer, o Brasil é uma droga também, mas "viva (a falta de persistência d)o povo brasileiro", que nunca seqüestra ninguém por mais de algumas semanas!
Na Colômbia, é costume esse tipo de crime durar anos a fio. Existe até um programa de rádio próprio para dar notícias dos familiares aos seqüestrado. Vi uma vez na televisão. Se não fosse algo supergrave, seria digno de uma comédia, de tão absurdo: era o dia do aniversário do ex-prefeito de uma cidade "x", e a família do cidadão compareceu em peso, no estúdio, para desejar-lhe um feliz aniversário e contar as novas. Falavam com ele como se deixassem um recado na secretária eletrônica do fulano.
A América Latina é, definitivamente, surreal.
Sempre digo a minha mãe que pior do que ter alguém morto, é não saber se a pessoa ainda vive. "Talvez"... Ô palavrinha angustiante, sô!... Daí que a gente tira a prova dos 9 de que o ser humano realmente sobrevive a tudo...
Por falar em seqüestro, bem que poderiam dar uma seqüestrada básica em Shakira. Não é pra manter a moça a vida toda em cativeiro, não. Só enquanto ela não tira aquela tintura loira e bizarra do cabelo!...hehehe



terça-feira, 1 de julho de 2008

O pobre e o mar

Post em homenagem a antropóloga Ruth Cardoso.

Se vocês acompanham o blog - direitinho, né, dr. Alosa! -, sabem que, há pouco, me reconciliei com o mar. Ou melhor, com a areia. E mais: com as areias da Sereia de Itapuã. Briiiinque! Isso é que é revolução espiritual!
No meu niver, pra fechar o ciclo, resolvi abrir o dia com as duas melhores companhias: minha mãe e o "senhor mar".
Pois bem, sentei na minha "pedra de estimação" e comecei a pegar sol, a ouvir o movimento... A sentir as criancinhas de Nova Brasília pularem por cima da minha barriga, gritando que nem umas loucas, brincando de pique-pega em cima das pedras (definitivamente, pobre é um tipo de ser "duro de matar", que não é por falta de oportunidade!... risos)... Tento ver a "pelada" que nos ameaça, a mistura farofa/areia que, de vez quando, chega aos nossos olhos (impossível saber qual das duas está entrando!...), as conversas com vocabulário sujo como uma celebração da diversidade, da democracia no espaço público urbano, mas em determinadas horas eu sou apenas gente. Gente demais!...
Houve um fato gravíssimo que tem me afastado da praia por mais de três meses. Minha Vênus em Touro anda ofendidíssima com isso até hoje! (risos)
Estava eu lá, de boa, quando chegou uma família. Muito numerosa, por sinal! Pobres à beça, poucos tinham roupa de banho, acho que só os mais velhos. Bate uma certa estranheza nessas horas, mas a gente tem que segurar os preconceitos e entender as limitações alheias. Ninguém nasce pedindo pra ser miserável. Ok, tiveram muitos filhos, mas já que eles existem, precisam se divertir, e nada melhor pra criança do que natureza, praia. Xápralá!...
Em dado momento, ouve-se o grito desesperado da mãe para uma das crianças. "Pronto! Se afogou!" - pensei. Mas, confirmando a minha teoria acima, foi alarme falso. O menino menor só queria um algodão doce, e o sacana do vendedor estava prestes a lhe dar, para que a mãe não tivesse como se esquivar de pagá-lo.
Fiquei com uma dó danada do guri! Até hoje não me esqueço de uma boneca que eu queria muito e vi no zoo de BSB com uma menina, que não quis emprestá-la pra eu segurar. Era maiorzinha que o menino da praia (na verdade, ele era um bebê de uns dois aninhos, três, no máximo), mas chorei muito, fiquei mal com o meu desejo frustrado. A diferença é que a minha boneca estava escondida em casa, esperando pelo dia do meu aniversário. Ser pobre e ter filho pequeno deve ser de cortar o coração!...
Mas o motivo do alarme não foi esse; foi algo mais universal: o menino estava se tratando de verme, e a mãe gritou isso em alto e péssimo som, pra praia toda ouvir. (Neste instante, segurei um monte de areia e tive meu momento Scarlett O´Hara: "Nunca mais ei de voltar a essa praia!". Quem merece?)
Foi então que tive mais uma epifania - Ingrid, so sorry but... O mal estar do pobre não está exatamente na pobreza em si, mas fundamentalmente na impossibilidade de fazer barulho. Fiquei lembrando de cenas de quando estive rodeada da periferia, e me toquei que o simples ato de correr atrás do ônibus - que é feito com a máxima discrição pela classe média -, por exemplo, é quase uma ópera para o pobre:
I Ato - O pobre corre. Desesperadamente. Não só corre, como sai derrubando tudo e todos com o balançar frenético dos braços.
II Ato - Ele quer reter o busú no grito - o que também serve como uma espécie de apelo ao "público presente".
III Ato - Ele suspira (forte) e resume seu drama aos colegas na escadinha de acesso ao transporte público (tucanei a porta do busú! hahaha).
As pessoas estranham o motivo do brasileiro ser pobre mas feliz. Agora, eu não. Aqui, apesar de viver numa das piores condições de vida do planeta, ele não vai pra cadeia se fizer barulho. Sem neve, com direito a Carnaval de graça, cachaça falsificada e podendo fazer barulho à vontade, pra quê melhor?

Ô, dona Ruth, mas teve algo que o seu marido fez pros pobres e que acabou com uma das minhas alegrias de classe média: popularizou o frango (e, nesse processo, jogou areia - adeus, farofa! - no meu almoço de domingo!). Na boa, desde que virou o símbolo do real, nunca mais comi um que não tivesse gosto de borracha! Tá certo que, no passado, tive uma antipatia com essa ave, por conta de uns pintinhos que peguei emprestados para brincar, mas doutor FHC acabou de vez com o que havia restado dessa já estremecida relação. "Assim não pode, assim não dá!". ;)


JUNO


Jason Reitman, Diablo Cody e Ellen Page fazem o filme independente do ano
21/02/2008
Érico Borgo

A história de Juno (2007) é simples: uma menina esperta acidentalmente engravida de seu melhor amigo, na única noite que passaram juntos. Ela decide entregar o bebê para adoção - e inicia uma convivência com o casal que vai adotá-lo enquanto segue com sua vida cotidiana, agora complicada pela barriga que cresce.

Diablo Cody, roteirista-sensação do momento, blogueira, ex-stripper, ex-operadora de tele-sexo, é dona de um estilo invejável. Os diálogos da menina Juno (Ellen Page) são espertíssimos, ácidos, com uma linguagem elaborada (que a legenda nacional destrói sem qualquer dó) e ao mesmo tempo inocente. Material excepcionamente bom, com um notável equilíbrio entre drama e comédia - e perfeito para o estilo do cineasta Jason Reitman, que havia mostrado as mesmas qualidades em sua estréia no cinema, no igualmente afiado Obrigado Por Fumar.

Juno é um filme de personagens. A história não tem grandes emoções ou surpresas (bom, tem uma) e nem tem a intenção de ser assim. A relação da personagem com o mundo é o que torna o filme memorável.

Obviamente, esse tipo de estrutura, que deixa a responsabilidade nos ombros dos protagonistas, exige um elenco à altura - e Reitman foi extremamente feliz na seleção do seu. Começando por Ellen Page (a Kitty Pryde de X-Men 3). A menina está simplesmente perfeita como Juno MacGuff, transformando aquelas linhas escritas por Cody em suas. E está em ótima companhia: J.K. Simmons (o J.J. Jameson de Homem-Aranha), Allison Janney (The West Wing), Michael Cera (Superbad), Jennifer Garner (Alias) e Jason Bateman (O Reino)... não há um só elo fraco na corrente e todos parecem partilhar do particular senso de humor da roteirista e do diretor. Sem falar em Olivia Thirlby, que vive a melhor amiga de Juno e dispara as melhores frases do filme.

Particularmente, acredito que o longa só erra ao fazer um juízo errado do "nerd moderno", representado ali por Mark (Bateman). Diablo Cody pode entender perfeitamente o universo feminino, mas faltou uma certa paciência com o pobre Mark - uma coisa que só entende quem, como ele, sofre com reclamações a respeito da pilha de gibis, o volume com que escuta Sonic Youth e precisa assistir ao seu "gorezinho" querido tarde da noite (sim, tomei as dores dele). Mas, novamente, é algo meramente particular, que não prejudica o todo.

Reitman acerta a mão também na trilha sonora - clássicos como Kinks e Buddy Holly dividem espaço com nomes alternativos da cena atual, como Belle & Sebastian e Cat Power, e tem até um Velvet Underground ali pro deleite dos fãs. Sinceramente, nunca imaginei que ouviria a voz de Maureen Tucker, que canta "I'm Sticking with You", na tela grande. A música, aliás, representa a direção da trilha. Tem um "quê" de canção de ninar - perfeito.

Sem exagero, Juno é o tipo de filme que eu gostaria de assistir toda semana. Sensível, honesto, inteligente e bacana como poucos. Um filme sobre comunicação, entendimento e escolhas. Uma nova pérola da cinematografia independente norte-americana, com uma pitada de esquisitice, um jovem herdeiro de Wes Anderson - e esse é o melhor elogio em que eu consigo pensar.

http://www.omelete.com.br/cine/100011029/Juno_.aspx