
Minha família já virou piada entre os parentes e velhos amigos por conta das inúmeras vezes que nos mudamos (cinco mudanças Brasília-Salvador e 20 de residência, em 20 anos). Não há nada de errado conosco que justifique tantas idas e vindas, exceto a nossa dificuldade de tomar decisões importantes
A
Aqui vale um parêntese: a minha própria experiência, somada a outras que vi ao longo dos anos, me rendeu uma teoria sobre "forasteiros": "desconfie" deles. Ninguém (ou pelo menos 90%) larga a sua terra natal, por iniciativa própria, a troco de nada! Não raro, por trás de motivações banais e compreensíveis, há alguma outra forte e secreta impulsionando a mudança. Já descobri cada história!... Como dizia minha professora de italiano, quem vai embora de sua terra, das duas, uma: ou está buscando algo, ou está querendo deixar para trás.
Apesar de ter nascido e crescido numa das superquadras da Asa Sul e possuir, desde que me entendia por gente, os mesmos amigos de escola e de vizinhança, pensei que seria divertidíssimo viver em Salvador. Afinal, a cidade era minha velha conhecida, nós costumávamos veranear aqui, todos os anos, desde 1981, e eu era fascinada pela capital baiana, ainda que fosse muito feliz em Brasília. Entretanto, o resultado desse meu excesso de expectativa foi a total decepção.
Terra Estrangeira
O Brasil só é o mesmo país para quem nunca saiu do lugar onde vive, mas quem já se deslocou por um considerável período entende o quão estrangeiros podemos nos sentir a apenas
O dia-a-dia numa localidade durante as férias não é de jeito algum similar a vivência nele. As cidades litorâneas costumam iludir muito os seus turistas neste aspecto. Como tudo na vida é uma questão de perspectiva, aquilo que me encantava nos dias de verão irritava-me sobremaneira no cotidiano, desde o sol escaldante ao jeito espontâneo-invasivo dos soteropolitanos.
Eu mais que entendo o povo de outros estados que fala mal da Bahia e reclama de tudo, quando ainda são recém-chegados. Já passei por isso e sei como é. Lembro de mim e de um vizinho da minha idade, goiano, resmungando, cada um num lado da pilastra do prédio, o fato de estarmos aqui e não no nosso querido Centro-Oeste. Patético! (risos) Ele, aliás, após ter voltado para Goiânia, morado nos EUA e residido em Sampa, acabou voltando pra onde, hein?! Quem adivinha?! Ele, que odiava pra caramba isso aqui, tem dois filhos nascidos na Bahia. Soube que ainda sonha em voltar para Goiânia...
Não é exatamente uma rejeição à nova terra; no fundo, é mais a decepção consigo mesmo/a por ter se enganado com a imagem paradisíaca que se vende daqui. É, sobretudo, o sr. Vazio cantando novamente no ouvido do/a cidadã/o. Não pegou? Bem, minha vó tem uma frase melhor que essa explicação, que ela até disse a minha mãe quando a gente se mudou: "Para onde você for, não se iluda: o urubu continuará sendo preto". (risos)
O ser humano tem a mania de ver o que não existe; muita gente boa, vira e mexe, força a barra a favor dos seus quereres (que, não raro, também são igualmente forjados). Portanto, baianos, muita calma nessa hora; tenham paciência com os forasteiros desiludidos. hehe
Mudar-me para Salvador e residir em Itapuã me proporcionou uma dupla transição de ambiente: não mudei de cidade, apenas; fui da cidade para o interior.
Aliás, abro aqui um outro parêntese: agradeço a Facom por ter me "apresentado" à cidade, por ter me mostrado Salvador em "larga escala" (ainda que isso fosse acontecer uma hora ou outra). Pois, até então, não saía de Itapuã para quase nada; a cidade, pra mim, existia só até a Pituba. Quase morri de susto, na 7ª série, quando um amigo sugeriu que fizéssemos uma pesquisa na Biblioteca dos Barris e me mostrou onde isso ficava, no mapa da cidade! Naquele dia, descobri não apenas que morava longe mas que residia no extremo do extremo de Salvador. Senti-me traída pela latitude e pela longitude. Fiquei anos bloqueada por conta daquela "proposta indecente" de ir de Itapuã aos Barris; por muito tempo, meu limite foi o Iguatemi.
Era muito caipira! Noooossa!... (risos)
Aprendi cedo, com essa experiência que tive na capital da Bahia, que "nem tudo que reluz é ouro". Quando fui embora, no final de 1990, de tão entediada, dei graças a Deus por estar voltando à "civilização". É certo que não cheguei ao ponto de Carlota Joaquina, ao partir do País – faltou-me coragem para bater as sandálias e berrar que "Desta terra, não levo nem o pó!", no aeroporto de Salvador, embora ainda tivesse o “álibi” de ser “apenas uma criança”.
Silenciosamente, prometi a mim mesma que nunca mais deixaria Brasília. "Forças ocultas" me impediram, um ano após o nosso retorno, de cumprir tal promessa. Fui arrastada de volta à Bahia em 1992 e, de pés e mãos atados, que podia fazer? Esse é o lado ruim de ser criança: não há liberdade; você fica totalmente à mercê da consideração (ou da falta dela) dos adultos ao seu redor.
Estranhamente, o nosso retorno, em 1991, não cessou a minha sensação de deslocamento, adquirida no ano fora do DF. Parte dos amigos da quadra já residia em outras localidades e os que permaneceram haviam se acostumado com a minha ausência. Até a minha melhor amiga mudou comigo (se bem que isso aconteceria, mais cedo ou mais tarde). Vai soar vaidoso, mas para quem se foi, é duro ver que a vida, ali, continuou apesar da sua ausência. No fundo, deseja-se que quem ficou sinta a mesma saudade de quem foi.
Tão pouco tempo distante e foi mais ou menos como morar lá pela primeira vez. Tive que reconquistar tudo de novo. Menos o sotaque, que eu lutei bravamente para preservar!... Ou melhor, a falta de sotaque, que em Brasília isso não existe (risos). Sabe que isso era divertido? Quando cheguei aqui, ninguém sabia identificar de onde eu era. Gaúcha? Carioca? Paulista? "Que sotaque é esse?"
Às vezes observo meus primos, tão diferentes de minhas irmãs e de mim, e fico imaginando o que teríamos nos tornado, caso nunca tivéssemos ido embora de Brasília... Porque o modo como eu ia encaminhando minha adolescência por lá era bem diferente do que ocorreu pra mim aqui em Salvador. Às vezes viajo nisso, em quem seria caso tivesse permanecido e, no final, me consolo pensando que eu estive onde precisava estar para ser o que sou.
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Cresci longe de meus avós, tios e primos e isso me deu muita liberdade de ser. Óbvio que minha "família nuclear" foi importante na minha formação; não surgi por "geração espontânea". Mas quando você é a caçula de 3 (no verão, a depender, de 4 e mais agregados), tem de aprender a se cuidar sozinha porque seus pais nunca terão muito tempo pras suas demandas - cheguei a Elias já PhD no "Te vira!". Os meus me criaram num esquema meio BBB: havia uma direção que tudo via, uma voz que às vezes dava algum comando mas não interfiria diretamente. Nunca nos ajudaram em um dever de casa. De encrenca, a gente tinha que dar um jeito de sair sozinha. Na verdade, toda a minha educação foi baseada num único conselho: "Você pode _____, mas quem vai estragar a vida é você. O máximo que vou poder fazer é lamentar". Demasiado prático - até frio -, não? É a realidade da vida! Sempre andei "certo" porque aprendi com eles que viver é "pessoal e intransferível".
Enfim, eu me criei; me eduquei observando os outros, refletindo "com os meus botões" e dando muita "cabeçada na parede". No final das contas, isso me rendeu um sistema de valores ao qual sou muito apegada, o que às vezes me atrapalha no terreno prático, mas, diante das coisas que ganhei, é o mínimo. Isso talvez não teria sido possível se eu tivesse todo mundo ao meu redor, palpitando, vigiando, me ajudando, enfim, fazendo todas essas coisas que os parentes sempre fazem.
Uma certeza essa experiência me deu: manter a família próxima é importante. Família, mesmo quando é ruim, significa identidade e amparo. Eu me dei bem "raising myself", digamos assim, porque tive a sorte de nascer com algum juízo e de ter pessoas de bom caráter ao meu redor, que me deram bons exemplos e me fizeram não querer decepcioná-las. Meus pais também tiveram essa mesma sorte (portanto não convém abusar dela fazendo o mesmo com a próxima geração). Mas poderia ter sido exatamente o contrário. Acredito piamente que os mais jovens precisam da orientação dos mais velhos. Não dá para pôr gente no mundo e esperar que as coisas saiam bem por um golpe de sorte. Nossa sociedade anda muito sem parâmetros. Cada vez mais, a família vai ser importante para o desenvolvimento do indivíduo, por incrível que pareça. De onde mais se poderá adquirir valores, em pleno séc. 21, se hoje tudo é relativo? Até mesmo para negá-los, é preciso tê-los.
Um dos meus maiores receios no ano em que estive em Brasília era ficar por lá de vez, e ver meus sobrinhos crescendo à distância (minhas irmãs estavam casadas, na ocasião, e o MSN não era tão desenvolvido em 2005 quanto é agora). Acho que a Nanda, que passou o ano seguinte no DF e já tinha uma sobrinha pequena naquela época, compartilhou dessa mesma sensação e, por essa e outras, acabou voltando. Nada mais esquisito que o fenômeno dos "estranhos conhecidos", né?
Posso estar no Alasca, meus pais em Goiânia e minhas irmãs na Sibéria e na China: se Valentina (ou Cecília) e João saírem "do papel" (risos), eles terão que dar as caras no Skype todo dia, pra dizer "Oi" aos avós e às tias... Mas não é a mesma coisa. O ideal é que possam crescer geograficamente perto mesmo, principalmente na infância, pois, com a distância, das duas, uma: 1) Ou você se adapta e mal lembra do que deixou para trás; 2) Ou você não esquece e fica com alguma dificuldade de se adaptar de verdade. Perder o contato com a origem ou ter pais que não se desligam dela, de um modo negativo, são duas situações ruins para uma criança/adolescente.
Ó vida!... Cada escolha, uma renúncia.
Destination Anywhere
Hoje, digo que sou soteropolitana - mais por convenção que por qualquer coisa. Mas ainda estranho quando me chamam de "baiana"; por outro lado, não consigo dizer que sou "brasiliense" ou "goiana"(ainda tem essa: Brasília é um quadrado rodeado pelo estado de Goiás). Desde que vim pra cá, nunca mais me senti pertencente a lugar algum. (Aliás, eis aí uma grande pergunta: como ser sem pertencer?) A Bahia me "desregionalizou" - é fato. Não tenho mais "impressão digital" cultural - se é que vocês me entendem. Ou talvez tenha é uma bruta hipermetropia existencial, e só consiga enxergar bem quando as coisas já se encontram à distância. Se bem que o ano que passei em Brasília, recentemente, não mudou nada nesse sentido.
Às vezes quero desesperadamente sair de Salvador, porque sei que o mundo é grande e que eu vou me amarrar em ver as coisas que existem longe do meu horizonte. Por outro lado, tenho medo do que posso sentir longe daqui. Como diz o povão, "Gato escaldado...". Em Salvador, o desconforto já ficou confortável. Mas às vezes pondero, também, que o pior já passou; mais difícil do que a primeira vez, não pode ser.
Já desisti, também, de esquecer Brasília. Não dá. Apesar de não tolerar mais que uma semana na “cidade que fabrica as suas próprias leis”, o lugar fez e sempre fará parte de mim. Na verdade, nunca saí de lá totalmente. Uma vez, lendo um livro de Kundera (!!!!!), consegui o mais próximo da tradução do que sinto por aquela cidade, que me causa repelência física mas que nunca abandonou meu pensamento: "Eu a desejava como se desejam todas as coisas perdidas para sempre".
Eu a perdi há 18 anos, e para sempre, porém isso não mais importa (aliás, a essa altura da vida de uma pessoa, se tem uma coisa de pouca relevância prática, essa é o passado). Mas, de fato, Brasília continua en piel... Porque, como me disse uma vez meu pai, a gente nunca deixa o lugar de onde viemos - ainda quando desejamos nunca mais pisar nele.
A Mafalda não é apenas uma personagem dos quadradinhos: é talvez a personagem dos anos 70. Se para a definir se utilizou o adjectivo contestatária não foi para a alinhar a qualquer preço na moda do anticonformismo: Mafalda é, de facto, uma heroína zangada que recusa o mundo tal qual ele é. Para compreender a Mafalda é necessário estabelecer um paralelo com uma outra grande personagem, a cuja influência ela evidentemente não se subtrai: Charlie Brown. O Charlie Brown é norte-americano, a Mafalda sul-americana (o seu autor, Quino, é argentino). O Charlie Brown pertence a um país próspero, a uma sociedade opulenta na qual procura desesperadamente integrar-se mendigando solidariedade e felicidade; a Mafalda pertende a um país cheio de contrastes sociais que, no entanto, mais não pede que integrá-la e torná-la feliz, coisa que a Mafalda recusa, afastando todas as tentativas. O Charlie Brown vive no seu universo infantil de onde, em rigor, os adultos estão excluídos (apesar de as crianças aspirarem a comportar-se como adultos); a Mafalda vive em contínua dialética com o mundo adulto, que não estima nem respeita, antes pelo contrário, ridiculariza e rejeita, reivindicando o seu direito a permanecer uma menina que não quer assumir o universo adulterado dos pais. O Charlie Brown leu, evidentemente, os “revisionistas” freudianos e busca a harmonia perdida; a Mafalda leu, provavelmente, o “Che”.













