
Hoje é dia de... Cacau Baixaria (rima com Maria, perceberam? Será que esse personagem também valeria uma microssérie?!). Como o aniversariante já virou o cabo dos 25, não é elegante da parte do blog ficar divulgando a velhice alheia – embora isso contrarie um dos pilares da nossa página, a revista Caras, que, duela a quién duela, sempre divulga a idade daqueles que estampam suas páginas. Ele avisa que, a exemplo da sua musa máxima, Danuza Leão, vai deixar para revelar a idade quando publicar a sua autobiografia, "Confesso que ri".
Cláudio Leal é o rebento do meio de uma típica família da Cidade Baixa. Seguindo a tradição dos filhos nesta posição, sempre quis ser o diferente da ninhada, o independente. Se o irmão é com o pai, ele é com o avô. Se a irmã gosta de axé, ele é Bossa Nova e nada rock´n´roll. E assim é esse menino, um quereres ambulante.
Diria mais: há um quê de iconoclastia nele. Donde hay unanimidad, él es contra. Claudinho faz questão de destruir até as suas próprias afirmações. Coerência até que ele tem, mas não espere constância, que aí já é demais (Não é coincidência que tenha nascido no Dia do Fico...). Quando estava de mudança para Brasília, ele dizia: “Juliana, não sei o que você ainda faz aqui na Bahia. Vá e faça como Carlota Joaquina: bata as sandálias uma na outra e determine-se: ‘Dessa terra, não quero nem o pó!’”. Meses depois da minha volta à terra do Acarajé, o discurso foi outro: “Juliana, o que você foi fazer em Brasília, pelo amor de Deus?”. Se não fosse pelo caráter, diria que Claudinho está pronto para entrar na política (risos).
Se você é um dos seus desafetos e quer desfazer esse nó em 2008, receita de Mãe Juju para começar o ano na paz: adule-o durante uma semana e o rancor será que nem jornal de ontem: completamente esquecido. Esse meu amigo é minha dupla no segmento da falta de vergonha na cara! (risos) Pra quê, né, Baixá?! Só serve pra pagar taxa por “excesso de bagagem” nessa vida! hahaha
Dignidade, no fundo, é a gente que se dá e a retira; ele intui isso. E é bom que seja assim, imprevisível, pois é justamente esse o segredo.
Espírito felino – Gatos são espertos. Gatos observam. Mas gatos só são mesmo gatos na rua porque gostam de liberdade e só são realmente gatos se fazem o que querem. Cláudio tem espírito de gato.
“Claudio, gato!...” A autora dessa pérola faconiana é Elen Vila Nova, que foi pedir um favor ao amigo e acabou vítima da tpm claudiana. Aqui cabe um o.b.: a moça é uma espécie de bichinho de estimação do homenageado deste post que, na frente dos outros, finge que tá chutando a mascote por debaixo da mesa e que se incomoda com o carinho recebido, mas logo que percebe que ninguém está vendo, faz um afago no topo da cabeça, lhe sorri e reparte com ela o biscoito. Cão e gato são opostos, mas, por isso mesmo, se atraem - nem que seja pra brigar. Elen persevera, através do seu poodle-power, diante das (falsas) ameaças de unhadas hostis do Dr. Leal. E assim eles continuam, Deus sabe até quando... (Atenção: estou organizando o bolão, e quem quiser...)
É um sujeito desconfiado; desconfio que desconfia até da existência de Deus. Em todo caso, é justamente com Ele que abre mão da ética e vira lobista em causa própria. Simplesmente não se mete com Ô Ingrid, louva as suas virtudes e, sempre que pode, acende uma vela no pé da santa. Por via das dúvidas, espera contar com o certificado de horas de extensão assinado por ela para ganhar o Céu, caso esse exista mesmo.
Out of time - Numa Facom cheia de almofadinhas cuja “grife” preferida é a do conhecimento status quo, confesso que não soube o que pensar quando ouvi falar de Cláudio, pela primeira vez, na ocasião em que uma amiga cursava Semiótica com a galera de 2000.1. Não vou ser injusta, pois conheci “exemplares” mais ou menos desse tipo (inteligente e engraçado) no meu próprio semestre - Tenaflae e Jorge. A diferença é que era mais fácil entender o “desvio” desses garotos; são caras de inteligências mais pragmáticas, que se dão bem no campo da teoria mas não têm amor a ela, não são o tipo de inteligência que curte o mundo da intelectualidade, da academia. O humor “desce redondo” nesses casos. Mas acadêmico com humor?!... Humm...
Demora até perceber que, pra pegar o espírito de Cláudio, é preciso vê-lo como um ser anacrônico.
Há acontecimentos que definem uma vida. Acho que não seria a mesma, por exemplo, se não tivesse nascido em Brasília nos anos 80 e não fosse a caçula de uma família de funcionários públicos – de cabo a rabo. Cláudio certamente não seria Cláudio sem o avô e sem o Bonfim. O primeiro transmitiu-lhe o passado, o gosto pelo conhecimento clássico e pela tradição. O segundo o fez livre, um homem das ruas. Morar longe tem essa vantagem: te faz perder tempo no trânsito, mas te preserva de muitas das chatices desse mundo moderno. Não cresceu em playground, com medo do mundo, e se criou aprendendo o que é se virar, entrando em contato com os tipos mais “exóticos”, que só se vê na parte baixa dessa cidade e que necessitam de olhos mais sensíveis que possam enxergar o seu valor.
Particularmente é essa junção do formal e do popular que eu mais gosto nesse amigo. Sei lá, dá mais consistência e credibilidade àquilo que transmite. Gente versátil me cansa, de um modo geral, mas sempre me encanta.
A corte - E por falar em encantamento, esse texto não estaria completo sem as “claudetes”. Com a mesma paixão que defendem o Socialismo, companheiras Débora e Lília admiram o neto do Dr. Luís. Nem Helena de Tróia foi tão bem defendida quanto Cacau por essas duas. Diria que Cláudio é até uma espécie de culto particular delas; uma igreja de duas pastoras. Disputam centímetro a centímetro a atenção do amigo. Já vi essa amizade de sangue ficar por um triz porque uma havia tirado uma foto a mais com “Cau”. “O que ela tem que eu não tenho?!”. Como diria Salomão, do Babado.Com, “Draaama!”.
Se tiver fé para crer, no problem, mas se você é um pingo racional, aviso: muita calma nessa hora, que você pode se assustar com a fantástica descrição de Lília do acervo pessoal de Cláudio. Até hoje lembro os números fornecidos pela Camarada: 1.500 livros (“Ele já leu todos!”) e centenas de cópias de clássicos do cinema. Como diria a Santa Santa, “na boa, Lília”, pondere isso, porque nem com um fôlego de sete gatos é possível dar conta de um trem desses, sô!
Poderia até incluir Alosa neste trecho, mas não tá merecendo (vá achando que sou Cleidiana!...). Deveria falar sobre Pereira, mas não quero provocar lágrimas de saudade em dia de festa. Vou "pular" para alguém bem mais importante nesse perfil: André Setaro.
O crítico é praticamente o Jorge Amado da Facom, ou seja, não nasceu para ter senso crítico contra os seus. Quer dizer, não em voz alta, pois preza as safenas que já não lhe restam mais. Ademais, a certa altura da vida, alguém cansa de bater boca (em vão), a fim de defender sua inteligência, e se toca de uma das mais fundamentais realidades deste mundo: é sempre melhor ser amado, ainda que não se chame Jorge.
Mas se saem elogios espontâneos de sua parte para gente off tela, esses vão para Cláudio, que, em contrapartida, se agarra a ele como uma criança ao ursinho de pelúcia. Ohhh!... É verdade. Aonde quer que vá, a presença de Setaro, nem que seja via coluna eletrônica (como é agora no TM), lhe confere o sentimento de estar em casa. Tê-lo por perto é tão reconfortante como pôr um pingüim em cima da geladeira. Quem dirá, depois disso, que não existe ali um lar?
Minhas pulguinhas me contaram, inclusive, que diante da mãodevaquisse dos grandes estúdios e dos meios de comunicação, a esperança setariana de volver a Hollywood é Cláudio assumir uma vaguinha no Los Angeles Time – e, vale a nota, os gringos é que sairão ganhando. Por Setaro, até engoliu, com todo o respeito, o salsichão de Reinhardt (?!)... (eu esqueci como se escreve!), aturou a poluição visual daquele colant horrível que o austríaco usava (valei-me!). Eles nem sabem que isso fez sucesso um dia, mas como dizia aquele clássico do Grupo Molejo, o espírito aí é da Dança da Vassoura.... “Diga aonde você vai, que eu vou varrendo”. Tenho dito!
Essa camaradagem vem de longe. Dizem que foram irmãos, nascidos em 1919, em Paris, e morreram anos depois, no front de guerra. Quase. Cientistas os congelaram e reaproveitaram os cérebros conforme o projeto foi avançando em suas etapas. O de Setaro foi entregue aos japoneses, que o compactaram e aumentaram a memória para imagens, e foi realocado em 1950; 32 anos depois, Cláudio voltou à vida. São meio ciborgs e, dizem, a voz baixa, que Setaro gosta tanto do "Encouraçado Potemkin" porque foi a sua primeira lembrança humana do cinema. Daquela época, Cláudio ainda preserva a atitude bélica que aprendeu no front. Digam aí se não há nele esse mesmo espírito de revide e de urgência?! haha Nem Freud mataria, com o perdão do trocadilho, essa! Yo soy fueda!
O fiel escudeiro - O Sundance Kid do Bonfim faz uma dupla imortal com o Butch Cassidy de Jaguaribe, Eliano Jorge, o que, de certo modo, mostra que Brasil e Argentina são como goiabada e queijo e têm tudo a ver. Se por um lado, Cláudio traz o mais simples e o mais sofisticado que há no homem brasileiro, seu fiel amigo tem alma de argentino, aliás, ele é quase um (e por último até resolveu deixar o cabelo crescer...), exceto pelos fatos de que fala português sem sotaque e de que acha Pelé melhor do que Maradona. (amigo, Lico, amigo!... se não levar na esportiva, só vai comprovar a minha tese. "ay, ay, ay..." ).
O caso é que, mesmo sem nada a ver, esse treco vem durando. Desconfio que na base do grito – how primitive! -, mas abafa que isso pode provocar uma indigesta reviravolta em todas as teorias sobre Psicologia das Relações Humanas. Foi na base do berro que Cacau “convenceu” o sempre pragmático Eliano a embarcar no Programa de Índio de 2007, eleito pelo bom senso e pelo público do blog: a visita (?) ao bebê de Paulo. Foi engrossando o gogó que Eliano fez o neurótico Cláudio tomar ar, reunir coragem (e a bagagem) e descer o morro rumo a São Paulo.
Mas nem tudo são flores. Quando entrou no A Tarde e descobriu que o silencioso Lico articulava frases de mais de quatro palavras com os colegas de Redação, sentiu-se mais traído que os maridos da ficção de Nelson Rodrigues. A quem pudesse interessar (ou não), resmungava:
- Eliano não fala comigo no trabalho e finge que não me conhece! E essa timidez dele é uma fraude; conversa que nem um papagaio na Redação, e blábláblá!
É lindo esse relacionamento fraternal, tem quase a densidade de um tango (“El día en que me quieras...”)!
Minha amada imortal – Pois é um idealista, que crê ser possível viver os valores em que acredita – ainda que sejam do século 18. Quer morrer em Paris, aliás, no Misérable Mundo de Cláudio, francês é ainda a língua oficial do Ocidente. Sonha, inclusive, em se casar com uma moça pura, daquelas que não abrem as pernas nem para a ginecologista! Tem fé no Senhor do Bonfim de que Fernanda é essa mulher (aonde?! hahaha... não me entendam mal, mas é que ela cuida muito da saúde), a sua donzela Dulcinéia banhada em dendê. (Se bem que, no comecinho, ela tava mais para Dona Bela, da Escolinha. Fernandinha, estoy muy orgulhosa de tu. Como evoluiu! Que desprendimento, hein?!...)
Uma coisa sempre me fará sentir em casa na turma: as intensas e cíclicas brigas de Cláudio e Fernanda, quase sempre por motivo fútil. Imagino a gente daqui a 12 anos, Cláudio pai de dois meninos levados e Fernanda mãe de uma menina com espírito de Maria Joaquina. De repente, ela apanha e começa a chorar, e os respectivos pais começam a bater boca entre si (“Olha, Cláudio, pare de falar da vida dos outros e dê educação aos seus filhos, que eles tão precisando, viu!”; ele vai se zangar: “Fernanda, essa sua filha é uma mimada, meu filho mal triscou nela!...”). Eu vou virar pros meninos e dizer: “Crianças, abstraiam, que eles são assim desde a época em que nem tinham licença pra dirigir”. Não sei se é porque assisti muito a Chaves, mas sinto uma vibe meio Seu Madruga e Dona Florinda nessas horas... (risos)
Às vezes o negócio pega fogo – no mau sentido – e por algumas horas vale aquela máxima de Ibrahim Sued: “Não convidem para o mesmo jantar Nandy e Claudinho”. Ela se cala e jura que, com ele, não fala mais. Ele fica à procura de alguém que confirme que tem razão na história. Quem tiver o azar de discar C para conversar, vai ouvir é crítica à dona do Albergue da Graça (“Porque Fernanda é sem noção, é maluca!...”, “Veja só o absurdo que Fernanda veio me dizer!...”, e por aí segue). Mas como o moinho de vento do orgulho não vale nada diante da presença da sua insuperável Dulcinéia (dizia ele, Macabéa), eis que nosso Dom Quixote volta tudo como era antes no quartel de Abrantes, às provocações e aos galanteios baratos com sua amada. Ela cede, ainda de braços cruzados.
E as caronas?... Disseram-me que crianças lêem esta página, portanto convém pular esta parte.
Ahhh!... O amor é uma frô roxa que nasce no corazón dos trôxa!... E essa, vale dizer aos mais crédulos, é uma flor de plástico. Amam-se como irmãos, mas brigam que nem casal (risos).
***
Claudio vai odiar isso, eu conheço o meu gado. Já estou ouvindo a reclamação daqui: “Sinceramente, Juliana, isso não teve nada a ver. Seu forte é o mundo pop, limite-se a escrever sobre isso”. Mas, na verdade, Cláudio odeia coisa nenhuma. Quer dizer, só a indiferença. Porque o contrário do amor não é o ódio, é essa palavrinha pavorosa aí. E pra alguém de tanto coração, esse é o único sentimento inadmissível de se ter por um semelhante. Essa consideração ele tem até com quem não merece.
Pra fechar, como disse a chata da Marisa Monte, Roberto Carlos tem a trilha sonora das nossas vidas. E pro Rei do Bonfim (sobe som), eu “desenterro”, aqui, um clássico refrão do Rei Robertão: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu viviiiiiiiiiiiii!”.
“Oh-yeah!!!!!”
Muitos anos mais de baixaria pra você, caríssimo!!!