sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Pactos de sangue


Eu, vira e mexe, comento com Alex que acho engraçado como as semanas, por vezes, apresentam um tema, assim como nos seriados da TV. O meu, nesses dias, foi "Parentes".
Nunca tive uma relação muito calorosa com os meus; não que eu tenha indiferença ou algo contra a instituição "família" - muito pelo contrário. Mas é que além de viver sem nenhum por perto há mais de 15 anos, fui criança numa família à moda antiga, onde poucos davam ouvidos aos pequenos - e até surgir a 3ª geração, eu era a menor de todos. E os nossos valores têm muito pouco a ver hoje em dia.
A proximidade de valores, numa relação, qualquer que seja ela, não é pouca coisa mas absolutamente o que conta dentro dela. Você pode ser católica fervorosa e ser esposa de um ateu, contanto que seus valores sejam os mesmos. Dois da mesma tribo mas que não sejam "farinha do mesmo saco" não terão vida longa - vide as separações entre membros de bandas (risos).
Enfim, sabem o que quero dizer, não? Essa é a história de muitos, de quase todos, na verdade; poucos são os que conseguem uma coesão sadia quando se trata deste ramo da vida: a família.
Essa semana, redescobri meus primos, ou melhor, as minhas primas, porque nessa família só dá mulher (risos). Figuras que de longe não me inspiravam nenhuma simpatia extra - além daquela que naturalmente temos por quem é filho/a de nossos tios e tias, ou em último caso, neto/a de nossos queridos avós -, ganharam corpo e alma e, de quebra, um acréscimo considerável na minha estima por elas. Umas eu redescobri; outras, as mais novas, que nem eram nascidas quando saí do Cerrado, eu descobri mesmo. Literalmente e fuçando o Orkut (viu, Ingrid, como minha fuçação serve para algo útil?!). Nanda e Gabi saíram de minhas mais apagadas lembranças adolescentes direto para a minha tela do computador.
Relações de sangue, principalmente as virtuais, tem um quê de "Jogo dos Sete Erros": "esse olhar lembra minha irmã mais velha", "a perna é da minha prima", "o humor é o do tio", e por aí vai... Nossa, as duas estão a cara da mãe delas, minha prima (que é a mais velha por parte de pai e também minha madrinha)! Fernanda, a filha adolescente, herdou a cara e o jeito maternos (é um pouco mais sociável que a mãe, pessoa gentil mas muito reservada). Uma verdadeira Sandy, a típica menina de família de antigamente. E isso é engraçado, pois a última e maior lembrança que tenho de Fernanda é de vê-la, criancinha, dividindo na maior felicidade a tijela de água com o meu cachorro - para desespero e constrangimento da minha mãe. É o que eu digo: toda paty teve seu dia de brown, não adianta negar! hehe
Vou abrir um parêntese, aqui: gostaria de vê-la ao lado da nossa outra prima, da mesma idade dela. São 3 meses de diferença entre um nascimento e outro, e que produziram seres opostos. Uma é baixinha, medindo um pouco mais de 1.60m; a outra já está batendo "humildes" 1.75 m, e isso a duas semanas de completar 15 anos. Uma é a inteligência ordinária que se aplica para ser mais; a outra é a inteligência acima da média que se sabota. Uma gosta de chamar atenção, em público; a outra é discreta. Como pode, né? Eu sei como é que pode (risos). Fecha parenteses.
Gabriela, a menor, é ainda mais parecida fisicamente com a mãe, ou melhor, é a cara do avô materno, que é a versão branca do meu pai. Tem dez anos, é quase uma adolescente, mas continua espoleta. Digamos que Gabi é a versão vivaz da minha prima. (esse é o lado bom de ter filhos: os pais também podem produzir uma versão 2.0 deles mesmos!) Tenho uma simpatia gratuita por ela, quer dizer, não tão gratuita porque me amarro em gente genuinamente expressiva.
Gabi se ama como ninguém na família até hoje se amou (risos): criou uma comunidade... em homenagem a ela mesma; mas não esquece de tecer elogios a sua melhor amiga... ela, claro, em suas próprias palavras; tira fotos experimentando lentes verdes e observa que seria "mais bonita" com aquela cor de olhos. Apesar da egolatria, ela ainda encontra coração para amar a Deus, os pais, os avós, as primas, as amiguinhas, a irmã, o cachorro, a dança e, claro, Mia e Miguel de "Rebeldes" e os demais adolescentes fofuchos de Disney Channel. Para ela, mais uma previsão do futuro by Madame Juju: a máfia (como apelidei, de brincadeira, a família da avó materna dela) vai ganhar sua doce rebelde. Ela vai quebrar o controle dos mais velhos - que é fortíssimo naquele clã, pois eles são muito, muito unidos - e fazer o que quer, sem que eles nem se dêem conta de que estão sendo enrolados por uma guria esmirrada que tem o triplo do próprio tamanho em lábia. Sinto que corro o risco de ter minha primeira parente vinda do teatro! (risos) ... Se bem que uma outra prima, também Fernanda, é meio dada aos palcos, mas o estilo dela é mais celebridade instantânea, é uma coisa mais hollywoodiana, meio Paris Hilton. Ela me contou ontem, em primeira mão, que viu Alinne Moraes e Dalton Vigh jantando juntos no restaurante Mangue, em São Paulo. haha... [Nandy Braga, por que em família onde só dá mulher, elas tendem a ser "pau de dar em doido"? (risos) Ainda bem que eu escapei das estatísticas e sou normal!cof! cof!]
Como se fosse a primeira vez - As primas out Orkut continuam com os mesmo defeitos que me incomodam mesmo à distância e que me permeiam as lembranças. A questão é que, de perto, sei lá porque, a gente lembra que gosta muito dessas pessoas apesar de tudo e até desenterra meia dúzia de razões pelas quais tal fenômeno acontece, de supetão, a fim de não se sentir tão vira-casaca (não no sentido gostar-não gostar mas querer-não querer ter contato).
É um treco estranho, mas tem lá sua lógica. Para que você entenda, vou ter que fazer uma associação, a priori, de mau gosto, mas não consigo, agora, pensar em outro. Amar pessoas próximas mas em quem não nos reconhecemos é mais ou menos como ser mãe de bandido. Por mais que a imagem do presente seja desoladora e a distância entre os caminhos, a de um oceano, pra você, ver aquela criatura será sempre como se fosse a primeira vez - e essa remonta a um tempo geralmente de esperanças, onde tudo era apenas possibilidades, enfim, a tal época da inocência.
E por mais que aquela pessoa que te magoa hoje ou que simplesmente não faz parte da sua vida mais esteja diferente, muito diferente, do que já foi um dia, você possui muito vivo na memória ao menos meia dúzia de momentos marcantes passados e que servem de "viagra" para a relação agora.
Voltando à mãe do criminoso, ela deve ponderar: "Mas ele teve um péssimo pai", "Quando o irmão era bebê, uma vez se recusou a comer para que o irmão não passasse fome porque havia ouvido uma conversa onde o avô temia ser demitido", "Diziam que ele não ia nunca mais andar, mas ele se determinou e andou". Vê-se o outro não como um take de uma vida, um pedaço desgarrado do todo; você pegou esse filme do começo, embora às vezes trate de edita-lo conforme a própria conveniência.
A questão é que depois de ver o making of, o produto final nunca mais será o mesmo. Lembra daquele gordinho da 5ª série, que tomava tapa na cabeça e chorava à toa? Ele cresceu, malhou, "pegou todas" e hoje é um bem-sucedido advogado. Pois é, ele sempre será pra você aquele gordinho inseguro. Bem, se você for generoso/a o suficiente, vai admirá-lo hoje pelo poder de reinvenção demonstrado. Mesmo assim, você guarda um segredo dele do qual provavelmente nem ele mais quer lembrar: na essência, é um inseguro, e se futucar, isso vem à tona. Mas você é uma pessoa boa e fingirá que não se lembra disso, não é não? hehe... O contrário também acontece. Há gente que é tão luminosa quando mais jovem que dá até dó ver, anos mais tarde, como o fulano foi se apagando com o tempo. Essa parte é triste. Lília uma vez fez um comentário até engraçado. Disse que se decepcionara ao encontrar a mais paquerada do colégio toda "acabada". Não é maledicência da Companheira. É triste perder um herói - Cazuza até já compôs sobre isso. A boa notícia é que, considerando quem a pessoa já foi um dia, há esperança de que acorde aquele seu potencial novamente.
Sempre ouvi, antes até de entrar na Facom, que as amizades da faculdade são aquelas mais marcantes. Fora as razões óbvias (as afinidades - "enfim, gente igual a mim!" - e o acréscimo de liberdade individual nesta época da vida), a coisa finca raízes profundas, a meu ver, porque é o encontro no momento mais intenso da vida de todos os envolvidos, de escolhas sérias e que mudam vidas, às vezes radicalmente.
Tem gente que abandonou o curso e eu assisti os maus pedaços por que passou, e entendo a decisão. O fulano tenta me justificar, mas nem precisa; eu acompanhei. Há quem esteja mandando ver e eu até me lembro do dia em que a pessoa resolveu mudar de rumo dentro da profissão, fazendo a coisa tomar jeito, ganhar futuro. Vi casais que sei que serão pra sempre se formando logo no primeiro semestre.
Posso perdê-los de vista por 20 anos, eles podem dar um giro de 180º na própria personalidade, mas fico com a sensação de que não será nada difícil montar as peças que comporão esse abismo temporal.

Sabe quando você é criança e gosta muito de alguém, e daí resolve fazer um pacto de sangue, pra nunca deixar de ser "irmã/o"? Pois é, quando "adultecem", as pessoas param de acreditar nesse tipo de contrato eterno, mas os pactos não deixam de acontecer por causa disso e apenas se tornam menos melequentos (risos). Quem a gente vê brotar e desabrochar na vida, sempre vai nos parecer semente. Essa é a beleza e a grande ironia do passado.

Agora me deu vontade de cantarolar aquela música de Barbra: "Memories, like corners of my mind. Nothing but memories of the way we were...". Ah! Não se faz mais Redfords como os de antigamente! (risos)

(tô cansada. depois corrijo isso)

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