domingo, 10 de junho de 2007

Aritimética Younguiana

Para a outra escorpiana leitora cativa deste blog não ficar com ciúmes...

"Sabe qual é meu sonho secreto? Que um dia você perceba que poderia ter aproveitado melhor a minha companhia. Que um dia imagine o quanto teria sido ótimo estar ao meu lado, mesmo quando eu estava gripada. No entanto, sei que você está a cada dia que passa mais fugidio. E eu me limito a me surpreeender com as circunstâncias da vida. Que me levaram a viver esse papel: o da mulher que quer mais um pouquinho. Contrange-me existir nesse personagem Chico Buarque, dolorida, bonita sendo assim, meio tonta, meio insistente, até meio chata. Nunca precisei aborrecer ninguém antes, então atuo por instinto, cansando-me facilmente. E que fique claro que não é por estar você dessa forma, tão esquivo, que o desejo tanto. Desejo-o porque desejo. Estúpida. Latina. Bethânia. Ainda creio que você, quando eu menos esperar, possa me chegar com um verso em atitude".

(Fernanda Young - Aritimética)

Prece árabe

Em homenagem à Vossa Santidade, Ô Ingrid, que tem, entre seus objetos de reflexão, a influência dos árabes na Península Ibérica (wow!).

"Deus, não consintas que eu seja o carrasco que sangra as ovelhas, nem uma ovelha nas mãos dos algozes. Ajuda-me a dizer sempre a verdade na presença dos fortes, e jamais dizer mentiras para ganhar os aplausos dos fracos. Meu Deus!Se me deres a fortuna, não me tires a felicidade; se me deres a força, não me tires a sensatez; se me for dado prosperar, não permita que eu perca a modéstia, conservando apenas o orgulho da dignidade.Ajuda-me a apreciar o outro lado das coisas, para não enxergar a traição dos adversários, nem acusá-los com maior severidade do que a mim mesmo. Não me deixes ser atingido pela ilusão da glória, quando bem sucedido e nem desesperado quando sentir insucesso. Lembra-me que a experiência de um fracasso poderá proporcionar um progresso maior.Ó Deus! Faz-me sentir que o perdão é maior índice da força, e que a vingança é prova de fraqueza. Se me tirares a fortuna, deixe-me a esperança. Se me faltar a beleza da saúde, conforta-me com a graça da fé. E quando me ferir a ingratidão e a incompreensão dos meus semelhantes, cria em minha alma a força da desculpa e do perdão. E finalmente Senhor, se eu Te esquecer, te rogo mesmo assim, nunca Te esqueças de mim!”

Reflexão da meia-noite

Lula já teve o dedo preso, tem a língua presa e, há cinco anos, o rabo preso. Agora só falta ele mesmo ir preso...

Rumo à santidade!

Ingrid Campos aproveitou o feriado de Corpus Christi para distribuir sopão em Aracaju.
Com mais este ato de fé e bondade, Gri caminha rumo ao PAN, digo, rumo ao Vaticano.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Reflexão da meia-noite - O brilho da feiúra

Estava dentro do busú, quando avistei um chico guapo. Quer dizer, até ele sorrir e exibir aquele sorriso metálico do aparelho ortodôntico fixo. Lembrei dos meus cinco anos com aquilo na boca e tive um momento de epifania. Meus Deus, ô treco que "encãozeia" um cidadão é esse tal de aparelho!

segunda-feira, 4 de junho de 2007

As perigosas frágeis

Gosto muito de Danuza Leão. Mulher de classe média, conseguiu se destacar na high society. Mas isso não é nada; o melhor foi que construiu uma trajetória interessante, fez parte da história. Não foi bela, mas sempre soube ser charmosa. Escreve muito bem. E ainda tem uma característica, que é o que também me cativa em Oscar Wilde: é profunda mas se faz passar por fútil.

Fiquem com Danuza! (pra variar, descobri mais uma coisa que minha mãe me ensinou errado!... tsc tsc)

Beijos...

DANUZA LEÃO

02/06/2007

Quem não quer ser forte? É o que todos desejamos, sobretudo, de um tempo para cá, nós, mulheres. E como seria essa mulher? Independente, capaz de se manter, que jamais vai atormentar seu homem com inseguranças nem ciúmes, capaz de segurar qualquer tranco (inclusive os dele) e com quem a família e os amigos sempre contam, em qualquer circunstância. É isso que qualquer homem quer, certo? Errado; homem não gosta de mulher assim.
Pode até admirar, mas de longe, e não na vida dele. Vamos combinar: os amores que eram para ser eternos -e qual não é?- se acabam cada vez com mais freqüência, e uma separação é sempre complicada e dolorosa, mesmo sendo de comum acordo. Depois dos primeiros tempos de sofrimento a vida continua, e cada um vai encontrar alguém para namorar, quem sabe até se apaixonar de novo.
Nessas separações de consenso, em que -teoricamente- ficam amigos, às vezes saem para almoçar (nunca jantar), conversam sobre a vida em geral (nunca a deles mesmos) e se acham muito civilizados. Mas logo, logo o homem arranja uma namorada, e adeus almoços e telefonemas para saber como vão as coisas. E quando a ex sabe, por mais que seja cuca fresca, moderna e esclarecida, sofre, e é aí que mostra se é forte ou frágil.
As fortes sofrem, mas como não demonstram, ninguém percebe (sobretudo eles); já as frágeis desmoronam com o fato de ele ter tão rapidamente se esquecido delas, como se houvesse um prazo estabelecido para poder viver de novo. E aí, começa. São telefonemas, cobranças e um princípio de depressão que não só assustam o ex como atrapalham o novo namoro, que é no fundo a finalidade subjetiva de tudo.
Algumas vão esperar o ex na porta de casa e são capazes de armar um barraco de tal ordem que chegam a assustar. E o homem geralmente se sensibiliza com a 'coitada' e começa a ter medo que ela cometa um ato tresloucado. Os novos encontros com a namorada passam a ter um único assunto: a ex. O que ela fez, que procurou um analista, que está tomando antidepressivos; ele fica tão preocupado que tem que ir vê-la depois do trabalho para dar um apoio -afinal, trata-se da mãe dos filhos dele. É uma preocupação sincera, mas nenhum namoro resiste a esse assunto, e um dia a namorada dá um tchau e vai procurar outro, mais livre e menos bobo, que não caia nesse joguinho de mulher frágil. Porque homem adora mulher frágil, que precise deles, que não possa viver sem eles.
De uma mulher forte é fácil esquecer; das outras é impossível, até porque elas não deixam. Como ser feliz se existe alguém sofrendo por nós? Por tudo isso, chego a pensar que as verdadeiras mulheres fortes são as fracas, que conseguem atrapalhar a vida de seus ex durante anos, até que encontram um novo homem e aí -e só aí- vão tratar de suas vidas e deixar em paz o que foi o passado.
Portanto, muito cuidado com as mulheres frágeis; elas são capazes de qualquer coisa, e pobres dos homens que se enganarem com sua aparente fragilidade. Porque um dia eles vão perceber que, ao contrário do que sempre pensaram, os verdadeiros frágeis são eles. E um conselho às fortes: se quiserem ter um homem na vida, finjam-se de fracas, pois são raros os homens que suportam ter ao lado uma mulher forte.

Reflexão da meia-noite

Assim caminha o capitalismo:

Os norte-americanos criam
Os japoneses encolhem
Os franceses teorizam sobre
A África recebe com 20 anos de defasagem
Os asiaticos produzem a mesma coisa por menos de cinco dólares
E os sul-americanos contrabandeiam

domingo, 3 de junho de 2007

There she goes...


Flávia foi embora hoje para Paris. Despedir-me dela, por mais "mala" (sem alça e sem rodinhas) que ela seja, não foi tão fácil quanto pensei que seria. Foi agridoce. É estranho olhar para uma irmã sem saber quando vai ser a próxima vez que vai vê-la; bate uma certa apreensão. Racionalmente sei que ela vai ter uma experiência de vida transformadora, quer seu objetivo vingue ou não. Mas no fundo senti como se tivesse dando a um estranho um cachorro que eu criei por anos (e quem me conhece sabe que essa comparação não é pejorativa uma vez que gosto pra caramba de cães).


PS: E como nada na minha casa se dá de forma tranqüila, o vôo da criatura de Madrid para Paris atrasou, deixando todo mundo aqui no Brasil - que não sabia que havia atrasado - com a orelha em pé. Mas já ligou e está tudo ok. Agüenta essa, Cláudio: ela disse que Paris é uma cidade veeeelha e cinzenta. Pobre é foda!kkkk



quarta-feira, 30 de maio de 2007

Fernandinho navega no meu mar

Não sei quantas almas tenho
Cada momento mudei
Continuamente me estranho
Nunca me vi nem achei

De tanto ser só tenho alma
Quem tem alma não tem calma
Quem vê é só o que vê
Quem sente não é quem é

Sou minha própria paisagem
Assisto à minha passagem
Diverso, móbil e só
Não sei sentir-me onde estou

Por isso, alheio vou lendo
Como páginas meu ser
O que segue não prevendo
O que passou a esquecer

Fernando Pessoa

Sigam-me os bons...

... amigos. Cansei da falta de companheirismo.
Agora vou me mandar pros lugares, e quem quiser, que me siga!

sábado, 26 de maio de 2007

Admiração, inveja e amor

Não gosto muito de postar textos dos outros por aqui. Sinto que deste jeito contrario o objetivo de ter um blog, que é mostrar a visão de mundo do seu dono - se bem que se você posta um texto com o qual se identifica, de um certo modo esse objetivo é confirmado.
O texto a seguir é do psicoterapeuta Flávio Gikovate. Pessoalmente, me identifico mais com o modo de pensar do Contardo Calligaris. FG é meio radical, mas talvez por isso mesmo goste do que escreve: mais do que confortar, ele procura provocar seu leitor. Esse artigo, por exemplo, diz coisas que eu também penso, mas não assinaria 100% embaixo. Como assim? Bem, nem tudo se resume a admiração, amor ou inveja; ele esqueceu de considerar também a indiferença e o desprezo - por que "esquecem" sempre de agregar essas duas hipóteses? hummm...


Admiração, Inveja e Amor


A busca de destaque social através do sucesso em alguma área de atividade (que é a forma usual da manifestação adulta do exibicionismo e que chamamos de vaidade) teria por finalidade atenuar a sensação de desamparo, solidão e insignificância, sensações geradoras de brutal desespero, especialmente para aquelas pessoas que, em virtude de sua inteligência, são mais conscientes destas propriedades da condição humana. Apenas algumas observações serão suficientes para demonstrar que este caminho não leva a parte alguma, a não ser para uma relativa neutralização da sensação de insignificância que, ainda assim, necessita permanentemente de reforços derivados de novos feitos, capazes de chamar a atenção das outras pessoas.
Se a intenção inicial das pessoas que buscam o destaque é, através dos seus desempenhos, acima da média, obter admiração e o amor dos que lhe são próximos, o resultado na prática é bastante diverso deste. O sentir-se amado pode efetivamente representar uma importante atenuação do desamparo original, sendo um remédio eficaz para o desespero que deriva da consciência da solidão, de modo que seria legítimo buscar esta solução, ainda mais que ela estaria na mesma direção da que determina o prazer erótico ligado ao sucesso. O que perturba esta solução, aparentemente muito boa porque resolve os dois anseios - afetivo e erótico -, é que a admiração determina o surgimento da inveja e não do amor.
Amor e inveja derivam da mesma fonte: a admiração. Porém, na prática, a inveja é a emoção que mais frequentemente se manifesta, especialmente quando as diferenças entre as pessoas são mais marcadas. Para que a admiração resultasse em amor seria necessário que as pessoas em geral estivessem relativamente bem consigo mesmas, de modo a não se sentirem humilhadas, agredidas pelas competências especiais das outras.
Acredito que a maioria das pessoas que buscam o destaque social só percebe muito tardiamente que seu sucesso desperta muito mais frequentemente a inveja do que o amor; e, mais, que vive esta constatação surpreendente como profundamente decepcionante e geradora de uma grave crise íntima. Não é fácil aceitar que o resultado de tanto esforço e dedicação a uma causa qualquer - desde as mais nobres até o simples sucesso material - seja a hostilidade sutil, manifestada principalmente pelas pessoas mais chegadas, amigos e familiares. E agora, o que fazer? Abandonar tudo e iniciar uma nova vida? Com que forças? E para onde dirigir essas energias, se o resultado de uma mudança de rota pode ser o mesmo, ou seja, a inveja?
Na maior parte das vezes, não há mais como existir uma reversão do processo, principalmente porque as pessoas já estão muito habituadas às gratificações eróticas derivadas do sucesso social. A vaidade funciona, nestes casos, como um vício qualquer: o indivíduo percebe que ela lhe é nociva - por causa da inveja que sua condição desperta - mas não consegue mais abrir mão dos prazeres que dela advém. O sentir-se hostilizado agrava a sensação de solidão e desamparo, o que costuma determinar um agravamento do desespero, agora acrescido de revolta contra as pessoas invejosas. O desespero e a revolta geram uma energia ainda maior, que é usada na direção de se obter um destaque mais acentuado, que agrava a solidão. A inveja é um sinal da admiração e do destaque obtido, de modo que passa a ser buscada ativamente, apesar da mágoa íntima que possa causar. Para continuar a ser admirado e destacado, terá que se comportar cada vez mais de acordo com o que o grupo social valoriza - ainda que já tenha percebido seu caráter absolutamente ilusório e, na prática, insatisfatório.
Desta forma o grau de liberdade individual se torna mínimo, ao mesmo tempo em que o indivíduo fica cada vez mais sozinho, apenas se gratificando - em doses cada vez maiores, como em qualquer vício - dos prazeres eróticos ligados ao exibicionismo.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Reflexão da meia-noite

Fazer aulas de teatro é como passar uma temporada na prisão: depois do que os seus companheiros fazem com você lá dentro, é impossível manter pudor de alguma coisa lá fora.

(Amigo, Alosa! Amigo!...)

sábado, 12 de maio de 2007

Ninguém tem paciência comigo!...

Tenho três traços de personalidade que, se pudesse, descreveria por escrito e entregaria às pessoas do meu convívio, como se fosse uma bula. Quem sabe assim elas teriam mais paciência comigo e me ajudariam, por tabela, a ser mais paciente comigo mesma.
O primeiro deles é a minha tendência à paranóia. E a minha paranóia mais acentuada é a de pegar doença (é, os sintomas me perseguem; sou o que chamam de hipocondríaca). Sempre digo aos amigos: podem até me contar os seus problemas, mas, pelo amor de JC, não me contem as suas doenças ("hoje eu quero paz, eu quero amoooor...").
Minha paranóia/hipocondria, com o perdão do trocadilho, tem nos meus 2 graus de miopia e 1 de astigmatismo a sua "menina dos olhos". Há um mês venho usando um par de lentes tão legal que nem percebo que são lentes. Mas é aí que vem o problema: justamente por isso, mesmo com elas, continuo me sentindo míope. Aliás, descobri que meu problema de visão transcende a questão física. Só isso explica o fato de não enxergar de frente para um livro e no computador, sendo que miopia é dificuldade para enxergar de longe e não de perto.
Sinta a minha agonia: não há um corpo físico perceptível, como é o caso de um par de óculos, então fico desconfiada de que as lentes caíram e não estão nos meus olhos. Por isso continuo a me sentir míope. E tomo susto quando percebo que estou vendo à distância, principalmente em pontos de ônibus. Num determinado momento, me convenço de que as lentes têm que estar nos meus olhos, e que me sinto míope porque devem estar desajeitadas. E daí fico metendo o dedo nos olhos para "estancar" a miopia - ou com a ajuda do espelhinho ou sem ele mesmo. A personagem de Scarlett Johansson em "Scoop" tem razão: é estranhíssimo meter o dedo no olho. Fico pensando o que uma pessoa do sec. XIX diria da imagem de alguém como eu, que fica metendo o dedo no olho enquanto anda na rua (e morrendo de medo de estar infeccionando a córnea por conta disso). No lugar dessa pessoa, diria ser um comportamento excêntrico, pra dizer o mínimo...
Por último, mas não menos importante, vivo imaginando besteiras o tempo inteiro, como essa com a pessoa do século retrasado. Isso nos leva ao meu terceiro traço: sou uma "viajante" crônica.
Conhecem aquela piada que conta como os signos reagem à falta de energia em casa, e Peixes responde "Como assim??! Acabou a luz, é??!". Eu não acho graça, pois já passei por isso e é mortificante. Meu pai é quem fica mais chocado com essa minha capacidade de me desligar da realidade. Minha mãe tenta fazer coro a indignação dele, mas acho que ela bem deveria ser mais humilde, pois essas coisas são genéticas e, se bem lembro, uma vez quase saiu de casa deixando a mala e levando para o aeroporto, no lugar dela, o saco de ração do cachorro. Fico chateada com a falta de paciência dele, mas no fundo compreendo sua frustração: é difícil para um geminiano, plugado em mil coisas ao mesmo tempo, entender como alguém, cujo corpo ocupa um considerável espaço no mundo, consegue estar em 90% do tempo ausente dele.
O povo pensa que é onda, mas não me canso de pedir: se assegurem de que me deram todas as informações que preciso para fazer o que querem que eu faça (para que não me sinta tão desesperada quando minha mente voltar a Terra e perceber que perdeu uma parte fundamental da história). E por escrito, que minha memória não é boa desde os 20 anos (pois é, eu sofri o temido bug do milênio; antes tivesse sido no meu computador!); dependo de agenda, bloquinho e gravador há muito tempo (antes dos 50 anos, tenho quase certeza que a filmadora vai integrar esse meu esquema de memória artificial)!

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Pardón, periferia!...







Hoje bateu saudade do meu amigo Claudinho Baixaria. Deve ser porque 1) Não o vejo "ao vivo" desde o ano passado e 2) Sem ele por aqui para contar histórias c/ deboche, distribuir alfinetadas e semear a discórdia, tudo fica muito monótono.

Nosso amigo finalmente pôs os pés na Europa - e dessa vez esperamos que seja de verdade, ao contrário daquela fraude da Argentina (por que vocês acham que eu pedi que me enviasse um cartão postal, hein?). Saiu do Aeroporto 2 de Julho que nem Madonna em "Evita": de braços abertos e cantando "Don´t envy me, periferia! Turururururururu...".

O roteiro da viagem de Baixá começou por Paris - onde encontrou Samuel, o francês. Ele vai passar ainda por Roma e um outro lugar que esqueci o nome, mas garanto que não é na Espanha, onde meia Facom se encontra no momento (e ninguém merece viajar tão distante para passar por isso, né! faz até mal ao coração se assustar com a presença repentina de conhecido brasileiro nas ruas do primeiro mundo). A comparação com o ícone argentino, agora vendo, veio a calhar, já que segundo Ôôôô Ingrid - editora do jornal Ôôôô Aurora da Rua - os argentinos nada mais são que italianos que falam espanhol e se acham franceses. (Desculpe, Gri, mas minha língua estava coçando para contar sua última grande tirada)

Intelectual que é, Cláudio fez dos comícios presidenciais na França sua EuroDisney. Tentou dar um flagra em Ségolène a la Lilian Ramos, mas foi em vão. Ségolène sim, Piriguetelene jamais! (Na França "Tudo pelo esporte" e slogans do tipo não funcionam muito, não...) E vejam bem, a candidata anda tão longe da esquerda que até está usando calcinha (longe de mim querer generalizar, mas tirando por uma certa pessoa que uma vez viajou comigo para Pernambuco - bate na madeira, que Deus é mais!... -, não é o forte da mulherada da esquerda ter certos "pudores" femininos - se bem que os sobreviventes das décadas de 60/70 dizem que o quadro melhorou muito de lá pra cá, e algumas até passaram a fazer as axilas).
Noveleiros, cá entre nós, a candidata francesa não é a cara da Renée de Vielmond, a Ana Luiza de "Paraíso Tropical"???

Apesar de ter feito até uma mulçumana desesperada segurar uma plaquinha de apoio - aonde que ela faria isso na terra de Maomé???... -, Ségô perdeu feio. É o machismo na terra de Simone de Beauvoir, minha gente! Mas esse menino, Gregório - o Ryan Phillippe dos Alagados -, que também é francês (eleitor de Sarkozy), disse que o problema não era Ségô, mas a sua base de aliados que anda em conflito. Ele achou melhor, na condição que o país se encontra, votar em Sassá, que tem mais experiência política e melhores propostas para a nação, a seu ver.


Pois bem, pobres (messsmo) mortais, se deliciem com as fotos de Ségolène Royal, do nosso enviado Cláudio Leal!!!

Até o próximo boletim sobre a ida de Baixá à França!
PS: E a pergunta que não quer calar: por onde anda Jacques Dupont?

domingo, 22 de abril de 2007

A alma do outro

Eu não me chamo Silvia Poppovic nem Sônia Abrão, mas, confesso, não perco a oportunidade de chamar o especialista (risos). Achei lúcido à beça esse texto da Luft, publicado na Veja desta semana.

Beijo!

Ju


"No relacionamento amoroso, familiar ou amigo acredito que partilhar a vida com alguém que valha a pena é enriquecê-la. Permanecer numarelação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida"


"A alma do outro é uma floresta escura", disse o poeta Rainer Maria Rilke, meu único autor de cabeceira. A vida vai nos ensinando quanto isso é verdade. Pais e filhos, irmãos, amigos e amantes podem conviver décadas a fio, podem ter uma relação intensa, podem se divertir juntos e sofrer juntos, ter gostos parecidos ou complementares, ser interessantes uns para os outros, superar grandes conflitos – mas persiste o lado avesso, o atrás da máscara, que nunca se expõe nem se dissipa.
Nem todos os mal-entendidos, mágoas e brigas se dão porque somos maus, mas por problemas de comunicação.
Porque até a morte nos conheceremos pouco, porque não sabemos como agir. Se nem sei direito quem sou, como conhecer melhor o outro, meu pai, meu filho, meu parceiro, meu amigo – e como agir direito?
Neste momento escrevo, como já disse, um livro sobre o silêncio. Começou como um ensaio na linha de O Rio do Meio e Perdas & Ganhos, mas acabou se tornando um romance, em pleno processo de elaboração. Isso me faz refletir mais agudamente sobre a questão da comunicação e sua por vezes dramática dificuldade, pois nos mal-entendidos reside muito sofrimento desnecessário.
Amor e amizade transitam entre esses dois "eus" que se relacionam em harmonia e conflito: afeto, generosidade, atenção, cuidados, desejo de partilhamento ou de vida em comum, vontade de fazer e ser um bem, e de obter do outro o que para a gente é um bem, o complicado respeito ao espaço do outro, formam um campo de batalha e uma ponte. Pontes podem ser precárias, estradas têm buracos, caminhos escondem armadilhas inconscientes que preparamos para nossos próprios passos em direção do outro. O que está mergulhado no inconsciente é nosso maior tesouro e o mais insidioso perigo.
Pensar sobre a incomunicabilidade ou esse espaço dela em todos os relacionamentos significa pensar no silêncio: a palavra que devia ter sido pronunciada, mas ficou fechada na garganta e era hora de falar; o silêncio que não foi erguido no momento exato – e era o momento de calar.
Mas, como escrevi várias vezes, a gente não sabia. É a incomunicabilidade, não por maldade ou jogo de poder, mas por alienação ou simples impossibilidade. Anos depois poderá vir a cobrança: por que naquela hora você não disse isso? Ou: por que naquele momento você disse aquilo?
Relacionar-se é uma aventura, fonte de alegria e risco de desgosto. Na relação defrontam-se personalidades, dialogam neuroses, esgrimem sonhos e reina o desejo de manipular disfarçado de delicadeza, necessidade ou até carinho. Difícil? Difícil sem dúvida, mas sem essa viagem emocional a existência é um deserto sem miragens.
No relacionamento amoroso, familiar ou amigo acredito que partilhar a vida com alguém que valha a pena é enriquecê-la; permanecer numa relação desgastada é suicídio emocional, é desperdício de vida. Entre fixar e romper, o conflito e o medo do erro.
Somos todos pobres humanos, somos todos frágeis e aflitos, todos precisamos amar e ser amados, mas às vezes laços inconscientes enredam nossos passos e fecham nosso coração. A balança tem de ser acionada: prevalecem conflitos ásperos e a hostilidade, ou a ternura e aqueles conflitos que ajudam a crescer e amar melhor, a se conhecer melhor e melhor enxergar o outro? O olhar precisa ser atento: mais coisas negativas ou mais gestos positivos? Mais alegria ou mais sofrimento? Mais esperança ou mais resignação?
Cabe a cada um de nós decidir, e isso exige auto-exame, avaliação. Posso dizer que sempre vale a pena, sobretudo vale a pena apostar quando ainda existe afeto e interesse, quando o outro continua sendo um desafio em lugar de um tédio, e quando, entre pais e filhos, irmãos, amigos ou amantes, continua a disposição de descobrir mais e melhor quem é esse
outro, o que deseja, de que precisa, o que pode – o que lhe é possível fazer.
Em certas fases, é preciso matar a cada dia um leão; em outras, estamos num oásis. Não há receitas a não ser abertura, sinceridade, humildade que não é rebaixamento. Além do amor, naturalmente, mas esse às vezes é um luxo, como a alegria, que poucos se permitem.
Seja como for, com alguma sorte e boa vontade a alma do outro pode também ser a doce fonte da vida.

Lya Luft é escritora


segunda-feira, 2 de abril de 2007

Como detonar meio mundo (e se autopromover) em 8 respostas

Auto-retrato
Eumir Deodato

Eumir Deodato trabalhou com artistas consagrados como Frank Sinatra, Kool & the Gang e Björk. Às vésperas de embarcar de Nova York, onde mora, para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro, o maestro falou ao repórter Sérgio Martins sobre sua carreira e disparou farpas contra os ex-companheiros de bossa nova.

NOS ANOS 60, O SENHOR FOI TENTAR A SORTE NOS ESTADOS UNIDOS, JUNTAMENTE COM ARTISTAS COMO TOM JOBIM, JOÃO GILBERTO E LUIZ BONFÁ. ELES VOLTARAM, MAS O SENHOR FICOU E INVESTIU EM OUTROS GÊNEROS. ESTAVA CANSADO DA BOSSA NOVA?
O pessoal daquele período costuma dizer que foi um tremendo sucesso nos Estados Unidos. A verdade é que fizeram um punhado de shows para brasileiros expatriados e voltaram rapidinho para casa. Eu queria ficar aqui de fato, e portanto não podia tocar só bossa. Aprendi a ampliar meus horizontes musicais.

COMO FOI TRABALHAR COM FRANK SINATRA?
Ele era uma estrela e se cercava de um pessoal bem mal-encarado. Foi por preguiça que não gravou um disco inteiro com a obra de Tom Jobim. Não estudava as canções. Por isso, acabou registrando apenas cinco.

O SENHOR ACOMPANHA OS ARTISTAS DA BOSSA NOVA ELETRÔNICA, COMO BEBEL GILBERTO?
A bossa se popularizou tanto que hoje você depara com artistas de tango que se acham bossa-novistas. Entre os que fazem música eletrônica, não é muito diferente. Olhe, quase trabalhei com a Bebel num tributo ao Ennio Morricone. Mas levei três canos dela e agora só a chamo de Torre de Bebel. Tive de chamar Daniela Mercury às pressas para fazer o disco. Ela não conseguiu acertar o tom, e tive de usar um afinador eletrônico para consertar a voz dela.

NO COMEÇO DA CARREIRA O SENHOR TOCOU COM MAYSA, UMA CANTORA FAMOSA PELO GÊNIO FORTE. DAVA MEDO TRABALHAR COM ELA?
Sabe que não tive problemas? As pessoas que mais sofriam numa apresentação de Maysa eram aquelas que insistiam em conversar. Maysa jogava água nelas.

SÉRGIO MENDES É OUTRO BOSSA-NOVISTA DE PRIMEIRA HORA QUE DESENVOLVEU UMA CARREIRA AMERICANA. VOCÊS COSTUMAM CONVERSAR?
Não com freqüência. Sérgio demitiu uma banda inteira porque eles tiveram a ousadia de lhe pedir aumento. Eu gosto de grandes instrumentistas e pago a eles muito bem. Somos pessoas diferentes.

COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA À FRENTE DA BANDA KOOL & THE GANG?
Musicalmente, muito boa. O único problema é que o dono da gravadora deles era ligado à máfia. O filho do sujeito tinha problemas com drogas e eu morria de medo de ele ter uma overdose no meu estúdio. Eu ia acabar pagando o pato. Escapei na primeira oportunidade. O selo do Kool & the Gang se chamava Delightful ("Maravilhoso") Records. Para mim, era Pesadelo Records.

EXISTE ALGUM OUTRO PAÍS ONDE O SENHOR GOZE DE TANTO RESPEITO QUANTO NOS ESTADOS UNIDOS?
Sou adorado na Europa. Em Londres, o pessoal da velha-guarda leva meus discos para autografar – junto com os filhos, que também são fãs. Por incrível que pareça, também gostam de mim nas Filipinas. Eu me apresentei por lá em 1975, por causa de uma versão dançante que fiz da Ave Maria de Schubert. Quando voltei, anos depois, encontrei um monte de meninos batizados de Eumir ou Deodato.

NOS ANOS 90, O SENHOR FOI TRABALHAR NA BOLSA DE VALORES. POR QUÊ?
Eu havia me desiludido com a música, queria fazer algo diferente. Foi bom, mas o trabalho na bolsa exige muita disciplina – qualidade que eu não tenho. Também sofro da "síndrome do jogador". Ou seja, tinha dificuldade em parar na hora certa e por causa disso perdi um bom dinheiro.

Fonte: revista Veja, 04/04/2007

quinta-feira, 15 de março de 2007

Fama e narcisismo




Na falta do que dizer, vamos de novo de Contardo Calligaris!

Em uma "sociedade narcisista", a invisibilidade é mais intolerável que a prisão

NA CONVERSA leiga, "Fulano é narcisista" significa que ele adora se ver no espelho e nunca pensa nos outros.Na clínica, o sentido da expressão é diferente: o traço dominante da "personalidade narcisista" é a insegurança. Narcisista é quem está sempre se questionando: "O que os outros enxergam em mim? Será que gostam do que vêem?".
Em ambos os casos, o narcisista se preocupa com sua imagem. Mas, na conversa leiga, ele seria apaixonado por ela (como o Narciso do mito), enquanto, segundo a clínica, ele seria dramaticamente atormentado pelo sentimento de que sua imagem depende do olhar dos outros. De fato, a clínica tem razão: no espelho, enxergamos sempre e apenas o que os outros vêem (ou o que imaginamos que eles vejam). O mesmo mal-entendido aparece quando a gente constata que vive numa "sociedade narcisista".
Na conversa leiga, essa constatação soa como uma queixa moral: estaríamos vivendo no mundo do "cada um por si". A clínica sugere o contrário: numa sociedade narcisista, cada um depende excessivamente dos outros. Somos desprovidos de essência: sou filho SE meus pais me amam, sou pai SE meus filhos gostam de mim, sou psicanalista SE pacientes e colegas me reconhecem, sou colunista SE você agüentou ler até aqui. O espelho que nos define não é o de Narciso, é o da bruxa de Branca de Neve, um espelho que interrogamos, ansiosos.
Ora, recentemente, assisti, fascinado, ao processo de seleção da sexta temporada do programa "American Idol" (no canal Sony). É um programa parecido com "Fama", da Globo de dois ou três anos atrás, e com "Ídolos", do SBT. Trata-se de descobrir novos cantores e cantoras.
O vencedor é eleito pelo público da TV, mas o que me cativou foi a longa fase inicial, em que os finalistas são selecionados por um júri, entre milhares de jovens concorrentes.
Todos os candidatos parecem entusiasticamente certos de que serão o futuro ídolo, mas a audição da grandíssima maioria é propriamente constrangedora.
No mesmo canal, há outro programa parecido: "American Inventor", em que desfilam inventores convencidos de que seu achado mudará o mundo, mesmo que se trate da máquina acariciadora de cachorro para dono preguiçoso (uma das invenções propostas).
O que leva milhares de sujeitos a encarar uma espécie de humilhação pública? Será que eles são narcisistas à moda da conversa leiga, enamorados de si mesmos a ponto de perder toda autocrítica? Por algum milagre do amor materno, eles guardariam uma imagem de si positiva e imperturbável: "Deixe o mundo falar, pois eu fui, sou e sempre serei o ídolo da minha mãe" (alguns concorrentes, aliás, compareciam acompanhados por uma mãe embevecida).
É possível. Mas, nas palavras de muitos candidatos entrevistados, aparecia outra coisa: uma vontade dolorosa de despertar um olhar de reconhecimento não só no público, mas nos seus familiares, ausentes e indiferentes. Era como se eles estivessem dispostos a qualquer coisa para deixar, enfim, de ser invisíveis: "Riam de mim, mas ao menos me vejam". Pode parecer paradoxal que alguém tente chamar a atenção (do pai, da mãe, da irmã e do mundo) expondo-se ao ridículo e ao fracasso.
Mas, aparentemente, acontece que escárnio e zombaria são um preço aceitável por um (triste) momento de fama.
Uma analogia talvez nos ajude a entender. As estatísticas dizem que há mais jovens que adultos delinqüentes. Justificação tradicional (além da "testosterona" da adolescência): os jovens andam em grupo.
Portanto, é freqüente, no caso deles, que haja mais de um réu por crime.
Certo. Mas também tudo indica que os jovens delinqüentes são presos mais facilmente que os adultos. Não é imperícia: parece que, de uma certa forma, eles se deixam prender, como se seu gesto transgressor tivesse como finalidade última o encontro com a polícia e o juiz. Por quê?
Para a dramática insegurança do narcisismo (aqui no sentido clínico), uma condenação ou um fracasso humilhante apresentam uma vantagem parecida: ambos são preferíveis ao silêncio do outro. Num mundo em que a gente só existe pelo olhar alheio, a invisibilidade é mais intolerável do que o escárnio ou a prisão.
PS.: Na semana retrasada, comentei o filme "Pecados Íntimos". Li, nestes dias, o livro no qual ele se inspira, "Criancinhas", de Tom Perrotta (Objetiva): é tão tocante e forte quanto o filme, se não mais.

Legendas:
Foto 1: William Hung, estudante de engenharia civil da Califórnia, promoveu um dos momentos mais humilhantes do American Idol
interpretando "She Bangs", de Rick Martin. O bizarro cover lhe rendeu a gravação de 3 discos.
Foto 2: Big Brother: a intimidade dilacerada pela mídia em troca de 15 minutos de fama.

domingo, 11 de março de 2007

É possível estar mal e pensar direito?


São Paulo, quinta-feira, 29 de setembro de 2005
CONTARDO CALLIGARIS


É possível estar mal e pensar direito?
Uma das questões mais interessantes da psicologia das últimas décadas é a seguinte: em que medida o sofrimento psíquico de um sujeito deve ser relacionado com um defeito de sua percepção e de seu entendimento do mundo? Obviamente, a pergunta é relevante só quando o sofrimento é uma condição severa e duradoura. Tomemos, por exemplo, a depressão, um estado patológico que, em princípio, não nos torna delirantes nem alucinados. "Ser" depressivo (diferentemente de "estar" deprimido) significa passar, ao longo da vida, por vários episódios de depressão profunda e sofrer de uma constante dificuldade em encontrar a vontade de viver.
Pois bem, será que ser depressivo implica (como causa ou como efeito) um erro de percepção e de pensamento? Qualquer terapeuta gostaria que fosse assim: bastaria corrigir o erro e, com isso, quem sabe a depressão fosse "curada". Se você é depressivo e enxerga o mundo como a brincadeira sádica de um deus maléfico, talvez você seja vítima dessa visão "errada". Ao corrigi-la com as palavras certas, a gente transformaria seu humor de vez, faria de você outra pessoa. Mas sobra a pergunta: será mesmo que, por você ser depressivo, sua percepção do mundo está errada?
Em 1979, foi publicada uma experiência (Abramson e Alloy, "Journal of Experimental Psychology", vol. 108, nº 4), na qual dois grupos de sujeitos (os deprimidos e os "saudáveis") deviam descobrir se suas ações tinham ou não alguma influência sobre uma lâmpada que, de fato, se acendia e se apagava ao acaso. Os não-deprimidos, apesar dos desacertos, concluíram que suas ações eram eficazes. Os deprimidos concluíram (corretamente) que suas ações não tinham eficácia nenhuma e que não havia como fazer a cabeça da maldita lâmpada.
Para alguns críticos, a experiência demonstrava apenas o pessimismo dos deprimidos. Mas resta que, no caso, a conclusão dos deprimidos foi certeira; portanto caberia salientar o extravagante otimismo que extraviou os não-deprimidos e constatar o realismo dos deprimidos. Aliás, a questão levantada pela experiência de 79 entrou para a história da psicologia como problema do "realismo depressivo" (há novas experiências publicadas no recente vol. 134 do "Journal of Experimental Psychology").
O interesse desse debate não é só clínico. Acaba de sair um livro imperdível, "Lincoln's Melancholy: How Depression Challenged a President and Fueled His Greatness" (a melancolia de Lincoln: como a depressão desafiou um presidente e alimentou sua grandeza), de Joshua Wolf Shenk. Shenk se baseia nos relatos dos que foram próximos de Abraham Lincoln para confirmar que ele foi clinicamente deprimido durante a vida toda. Logo, o autor se pergunta se essa depressão grave e crônica constituiu um impedimento ou se, ao contrário, foi uma vantagem na conduta do presidente americano durante a Guerra de Secessão.
Ora, Shenk argumenta de maneira convincente que a depressão de Lincoln foi responsável por suas qualidades de estadista. A seguir, alguns exemplos: 1) A depressão clínica é sempre acompanhada por um intenso processo de pensamento: reavaliação contínua da realidade, dúvidas sobre a ação certa, exame constante de consciência e por aí vai. Esse processo leva o sujeito a um conhecimento especial das contradições de sua própria alma e da dos outros. Na vida pública, isso permite negociar sem desprezo pela parte adversa. 2) O deprimido que ultrapassa suas crises sem sucumbir tem, em regra, a coragem e a capacidade de encontrar motivações sem recorrer a grandes princípios (o que pediria um entusiasmo que é impossível na depressão). Lincoln, embora convencido de que a abolição da escravatura fosse moralmente correta, nunca invocou a certeza de que Deus estaria do seu lado, mas alegava (inclusive por escrito) que, quanto a Deus, cada lado podia considerá-lo seu aliado. É uma outra qualidade crucial para a vida pública, a não ser que a gente prefira entregar as rédeas do governo a iluminados e fundamentalistas. 3) A adversidade, para o deprimido, é, por assim dizer, natural (nada existe sem antagonismo). Deparar-se com oposição e derrota é, para ele, uma travessia normal. O resultado é a perseverança.
Recentemente, uma psiquiatra (Kay Redfield Jamison, "Touched with Fire: Manic Depressive Illness and the Artistic Temperament", tocados pelo fogo: a doença maníaco-depressiva e o temperamento artístico) mostrou que uma cura apressada da depressão nos privaria de inúmeros talentos artísticos e literários. Shenk estende o mesmo princípio a uma figura política; ele mostra que, no caso de Lincoln, a depressão não foi "uma falha de caráter que desqualificaria a liderança de um sujeito". Longe de comprometer o pensamento e as decisões do presidente, ela foi o traço de caráter que fez dele o estadista lúcido e necessário num momento sombrio da história de seu país.
Em suma, muitas aventuras dolorosas da mente são partes da subjetividade de quem sofre e, às vezes, partes irrenunciáveis, cuja "cura" deixaria o mundo mais pobre e mais estúpido.

* Imagem extraída do site Porto do Céu

segunda-feira, 5 de março de 2007

A loira de Chico

A vicking da foto acima é Albinatuxa (Mari Albinati, a quem eu chamo pelo sobrenome, que depois do corte de cabelo à la Rainha dos Baixinhos, adaptei para o presente apelido). Esse click com Chico Buarque é fruto de uma de suas inúmeras viagens ao Rio de Janeiro para tratar de negócios com sua colega de profissão e fã confessa, Maria Clara Diniz.
Aliás, se você está com seu ingresso da turnê "Carioca", de Chico, no bolso, provavelmente deve tal dádiva não só a Deus e a Caetano - a quem devemos tudo na Bahia -, mas a nossa competentíssima produtora cultural. Quer saber como? Acompanhe mais uma fantástica aventura de Albinatíssima.

Aviso: A história a seguir é baseada em fatos reais, e o conteúdo pode ser impróprio para quem ainda ruboriza.

Há cerca de dois anos, Albinati viajou ao Rio em companhia do seu amado-amante, A Voz de Brotas. Fã incondicional do autor de "A banda", a dupla baiana deu o ar da graça, como quem não queria nada (e o pior, como quem não sabia de nada), no Politheama, local onde Chico Buarque de Holanda tradicionalmente joga futebol com os amigos.

POLITHEAMA - DIA - INTERNA
Albinati: Peraí, o senhor não é aquele cantor, o Chico Buarque de Holanda?... Você é aquele que ganhou o festival da Record de 1966 com "A Banda", é autor de "Olhos nos olhos", de "Construção", do álbum homônimo de 1971, e que ficou exilado na Itália, foi marido da Marieta Severo, é filho do Sérgio Buarque e escreveu aquele livro "Benjamin", que inspirou aquele filme com a Cléo Pires, né?... Desculpe, mas é que eu não acompanho muito o seu trabalho...
Chico (sorrindo timidamente): É. Deu pra perceber... Pois é, sou eu mesmo.
Albinati: Oh!... O senhor por aqui! Que surpresa!...
A Voz de Brotas (dando tapinhas nas costas de Chico): Poxa, Mariana, veja que feliz coincidência: Nós viemos de Salvador até o Rio, cruzamos a cidade para vermos uma legitima pelada carioca, e tivemos a felicidade de encontrar por acaso o Chico Buarque!... O Faustão tem razão: o destino é realmente uma caixinha de surpresas!
A Voz de Brotas: O senhor se incomodaria de tirar uma foto?
Chico: Não, claro.
(Foto tirada...)
Albinati: Chico, não querendo abusar, mas você sabe onde podemos pegar um táxi para a Zona Sul?
Chico: Bem, eu vou pra lá...
Albinati: Ótimo! - e vira-se pra A Voz - Preto, se demo de bem: o Chico Buarque vai dar carona pra gente!

CARRO DE CBH - DIA - EXTERNA
(Conversa vai, conversa vem, e Albinati resolve fazer a pergunta que não queria calar, aproveitando-se da cara de gente inocente - aonde?!... - e da voz mansa made in Minas Gerais)
Albinati: Chico, posso te fazer uma pergunta?
Chico: Claro, Baiana.
Albinati: É verdade que você não faz show na Bahia por causa da grande quantidade de carteirinhas de estudante?
A Voz de Brotas (cantarolando baixinho): Vaaaai passar... Esse constrangimento que sinto agora vai passaaaar!...
Chico: É isso que dizem de mim por lá?
Albinati: É... Eu ouvi dizer... Não sei...
Chico: Bem, na verdade o que complica é que em Salvador só há um espaço para se apresentar, que é o TCA. (Pausa) Mas dizem mesmo isso de mim na Bahia?

E foi assim, caros amigos, que Chico Buarque resolveu incluir a capital baiana na rota de shows de "Carioca". Não fosse nossa amiga ter mexido com os brios do ex de Marieta Severo, talvez estivéssemos a ver navios.

ALBINATINHA, FELIZ ANIVERSÁRIO!!!
(O3/03/198*)


***

E dia de show de MPB no TCA é dia de encontrar Marlon Mar! Siiim! Como não!?... Já estou até imaginando o nosso encontro:
Passo 1: Marlon me vê e aperta os olhos, tentando focar a visão. Ele sabe que sou ex-colega da FACOM mas nem faz idéia de qual é o meu nome. Caminha até onde estou.
Passo 2: Ele segura os meus ombros com as duas mãos, aperta novamente os olhos em sinal de contentamento pelo nosso encontro fortuito, abre o sorriso mais simpático da face da Terra e,
como mentiras sinceras nos interessam, exclama "Pô, bicho! Que booom lhe ver!..."
Passo 3: Neste momento, apesar da certeza de que ele nunca soube nem saberá com quem exatamente está conversando, vou me emocionar com o cumprimento supercarinhoso de Marlon e sentir as pipocas imaginárias emitidas por ele caindo sobre a minha cabeça. Considerando-me abençoada por tão terna criatura, vou abrir um sorriso, perguntar como vai sua vida, sorrir quando disser que está tudo bem, achar graça do sincero e imenso entusiasmo dele pelas figuras da MPB e, por fim, vou desejar-lhe, de coração, um bom show.

Esse é o Marlon!... Que figura! hehe...

domingo, 4 de março de 2007

Javier, Javier




Dia 1º de março foi aniversário de Javier Bardem, ator espanhol de 38 anos, astro de filmes como "Antes do anoitecer", "Jamón, Jamón" e "Mar adentro". Feliz cumpleaños!
Certos artistas me arrastam para o cinema, e Javier é um deles. Há dois anos, fiz meu pai cruzar Brasília inteira só porque queria ver "Mar adentro" - e olha que esse sim, Cláudio, não dá carona nem a pneu! É que era a semana do meu aniversário, eu tinha esse "bônus" pra torrar...

JB é um grande ator e tem uma aparência fantástica, cuja melhor definição que já ouvi foi essa: "A cara de boxeador no corpo de um touro". Bardem só tem um defeito (que não é físico nem artístico, gracias): é muito amigo de Caetano e Paula Lavigne. hehe...