quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Uma opinião impopular sobre um tema que me é caro

Sempre fui questionadora do machismo, das regras sociais para mulheres desde muito novinha. A primeira vez que me lembro de ter batido o pé pra defender meu direito de ser tratada como qualquer um foi com 4 anos. Peitei minha mãe que, por eu ser menina e ainda a caçula, sempre adorou fazer caridade às minhas custas, e eu nunca achei que deveria ceder para os outros só por ser mulher. Me desculpa, eu sou até generosa, mas antes disso, sou um indivíduo e, enquanto eu puder lutar, ninguém vai apagar isso. Aliás, se eu pudesse resumir o objetivo da minha vida em uma frase, seria assim: Luto para ser respeitada enquanto ser humano. Parece pouco, mas é muito. É uma labuta diária, esgotante, por vezes frustrante, mas é o sentido da minha vida. Acho que é por isso que me identifico tanto com a fala de Kirk Douglas em "Spartacus", "Eu não sou um animal" - se Deus quiser, até um dia os pobres animais serão respeitados.
Acho massa nessa nova onda feminista by redes sociais que se dê nome às coisas. Discursos ofensivos não são brincadeiras ou coisa de casal, são violência psicológica; agarrar não é brincadeira, é assédio. Isso é muito legal. Porém, apesar de conhecer bem o potencial que um homem nocivo tem de detonar a vida de uma mulher, meu lado "mulher viralata", que nunca coube muito bem dentro dos ideais de feminilidade, é bem pragmático e por isso contra uma ilusão das meninas de hoje: não é gritando "Xô, homens" que as coisas vão melhorar. Não mesmo. Nem contem com isso. Na vida real não é assim que a banda toca.
Daí então ontem, assistindo uma entrevista de Martha Medeiros, sempre sensata, ouvi ela dizendo o que eu penso: as coisas só vão mudar quando a autoestima da mulher for o foco, for trabalhada. O tapa na cara não vem no primeiro dia de relacionamento. Ele vem depois de muita humilhação psicológica, então é preciso focar naquilo que faz uma mulher ficar mesmo sendo abusada, ou seja, na baixa autoestima e na obrigação social de ter um relacionamento amoroso.
Se eu disser isso nas redes sociais, vou ser massacrada, mas sempre digo aos meus amigos: o homem só vai mudar quando a mulher mudar. E não vai ser fácil. Ser feminista, na prática, é a coisa mais difícil e dolorida que existe. Pense um ser que é criado pra agradar, pra ser gregário, pra ficar no backstage, de repente se impondo e perdendo pessoas por causa disso. Não é qualquer um que aguenta. Tem que, primeiro, gostar muito da própria companhia e nós não somos criadas para esse tipo de independência. A gente é criada para suportar o insuportável pelos outros, mas não por nós mesmas. E nesse ponto a sociedade é cruel: quanto mais você se esforça pra ser corajosa, mais as pessoas gostam de te humilhar, tentando mostrar o "seu lugar". Daí você escolhe se quer se colocar nele ou não. Durante a vida, eu simplesmente escolhi não me colocar em certos lugares. Fiquei sozinha, fui criticada, injustiçada, mas fiquei do meu lado. No fundo, é sobre como você se enxerga. Só um olhar justo e amoroso sobre si pode de fato mudar as coisas. Gostaria que todas soubessem disso. Gostaria que aquele menino de 9 anos que se suicidou por causa do bullying que sofreu por ser gay (outro desdobramento do machismo) soubesse disso. Pais deveriam criar suas crianças sem tanta dependência da aceitação social. Aliás, se pudesse iniciar uma cruzada, seria contra a dependência emocional, o verdadeiro câncer das relações humanas.

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