quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Feminicídio

Na mesma semana em que a lei Maria da Penha completou 12 anos, 4 feminicídios aconteceram em pontos diferentes do país.
Um amigo meu, homem de bom coração, criticou uma das vítimas, que era independente financeiramente mas ficou tolerando os abusos do marido.
Cada caso é um caso, portanto vou falar de modo geral, da minha impressão a partir dos casos que já vi, li e da minha própria educação como mulher. A questão é que o buraco é bem mais embaixo.
Dinheiro é um fator importantíssimo para que as mulheres possam sair desse tipo de abuso que pode culminar em feminicídio, mas, pra mim, o fator crucial nesta equação é a (des)educação de meninas. E de meninos, mas como somos nós que morremos, a urgência na mudança é nossa, para que a gente saiba reconhecer e abandonar essas circunstâncias.
Mulheres não são coitadas, mas equivocadas em suas relações. Esse equívoco por vezes custa as suas vidas. São dois a meu ver os erros de compreensão: achar que seu autovalor está atrelado ao fato de ter (e manter a qualquer custo) parcerias, o que produz dependência emocional; que precisam sempre perdoar, aceitar as pessoas "como elas são", o que atrapalha que deem nomes às coisas e detona o amor próprio. Mas e se elas são cretinas e abusivas? O perdão nunca deveria vir na frente da nossa dignidade. Olhe os homens: ninguém dá mais ou menos valor a eles por conta de serem casados, bons amigos ou pais presentes; nem são estimulados a tolerar, muito pelo contrário.
Demorei décadas para retirar, sem culpa, quem não me trata bem da minha vida. Eu, que não sou das mais melosas, que não sou das mais frágeis, mas tinha guardadas em mim essas duas premissas que tanto me foderam a vida. Perdi muito tempo com quem não devia, em todos os âmbitos das relações afetivas. Hoje procuro ser melhor nos meus relacionamentos e busco pessoas melhores, que não precisam ser perfeitas, apenas me respeitarem. Regra de ouro na vida: quem é incapaz de reconhecer minha humanidade é impróprio para estar na minha vida íntima. Mas ensinam às mulheres que é virtude ser capacho.
Precisamos educar melhor as meninas. Abuso é o contrário do amor, não tem nada a ver "com o jeito dele". Amor não é luta, não deve ser um calvário; o que é bom pra gente apenas flui. Quem faz uma vez, se não fizer um trabalho interno, faz de novo. Coisas assim, que apelam à racionalidade, precisam ser ensinadas às meninas.

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