sábado, 6 de dezembro de 2014

Coração de gente é terra de ninguém

Essa semana, uma amiga de longa data, pessoa não só querida como figura que admiro muito, assumiu um relacionamento lésbico no Facebook. Ainda não falei com ela sobre isso, mas me pareceu tão plena nas fotos com a namorada que, claro, não dá para não ficar feliz pela pessoa - e essa amiga merece muito ser feliz -, embora eu confesse alguma estranheza em ver duas mulheres em vez de um homem e uma mulher. Mas vai passar. É questão de costume. Precisamos, nessa fase da sociedade, nos acostumar, juntar consciência e coração. E nisso eu admirei muito essa minha amiga. Ela passou por um câncer e disse que algumas pessoas se afastaram dela por causa da doença. Outras pessoas vão se afastar depois disso. É preciso ter coragem para bancar esse tipo de reação. Bem, ela é ariana, rs.
Coincidentemente, desde o ano passado histórias de casais controversos vêm acontecendo perto de mim. Essa aí que contei é light, é puro amor que ousa dizer, inclusive, seu nome.
A primeira que me apareceu foi punk. Muita traição, muita agressividade, uma boa dose de perversidade e de falta de amor próprio. A parte, digamos, mais fraca do triângulo amoroso saiu muito humilhada. Quem mais aprontou foi justamente meu amigo. Fiquei revoltada com ele. Claro, você, como mulher, se põe no lugar. Parei quando vi que eu mesma já estava ficando constrangida de passar o sermão nele. Um dia, eu espero, ele para com esse tipo de comportamento que, eu sinto, também faz mal a ele. A história continua, mas eu resolvi apenas me divertir na companhia dele falando amenidades, seguindo o conselho de uma amiga em comum que também não concorda com as coisas que ele apronta. Não falo mais disso para não me aborrecer e perder o amigo.
Depois me entreti com uma cama de gato hetero-lésbica, rs. Teve gente machucada nessa história e alguns comportamentos nada cuidadosos e éticos da parte dos envolvidos. Mas era gente menos próxima de mim, por isso não me choquei tanto. Confesso, agradeci por isso.
Depois de tanto ver esse tipo de situação, houve uma hora em que comecei a pensar que não gostaria de saber o que as pessoas fazem na vida privada, pois, ao que parecia, ninguém agia bem com o outro, cada um estava preocupado com os seus próprios interesses e, o mais chocante para mim, ninguém sofria um pingo por isso.
Uma nova amiga me diz que gosta muito de sexo, mas não se vincula a ninguém. É feliz assim. É muito diferente do que eu sou, mas eu acho que deve ser legal, também, ser assim desapegada. Enfim, tudo tem seus prós e contras. É clichê, mas é isso aí.
Porém, o que me fez pensar mesmo foi a Parada Gay desse ano. Cobri pela primeira vez. A Parada é cheia de "bichas pão com ovo", como as beeshas bem-humoradas gostam de chamar as coleguinhas mais pobres, rs. Pense em como aquilo é importante para elas. É o momento de viver a fantasia sexual em segurança, sendo até admirada pelos simpatizantes.
Bingo. Esse é o ponto: viver a fantasia. Isso tem um peso muito grande na experiência humana. Enfim, essa vivência na Parada começou a despertar a minha percepção de que coração de gente é terra de ninguém. Amor e sexo, esses fios da vida, quando chegam com força, tem que ser vividos até o fim. Se mal resolvidos causam muito sofrimento. Jabor, aliás, tem um texto interessante sobre isso (http://arteymanhas.blogspot.com.br/2008/05/amor-mal-resolvido-arnaldo-jabor.html).
Mas, sabe, eu continuo achando que realizá-los a qualquer preço também causa muita dor. Nunca acreditei em felicidade na qual se passa por cima dos outros. Não falo de passar por cima dos caprichos, chantagens e teimosias. Ninguém deve ficar refém da birra alheia. Falo de atos que realmente prejudicam alguém. Essa conta pode vir um dia. É preciso estar ciente disso e não se revoltar quando chegar, afinal estamos aqui para tudo e quem não aguenta, que não desça pro play.
Enfim, o que aprendi é que, se alguém estiver a fim de pagar essa conta, quem somos nós? A gente nunca sabe mesmo o que se passa dentro do outro. Vai que aquilo tem uma importância que não conseguimos alcançar? A vida é curta, muito curta...
Como diz Fernando Pessoa, em uma frase que tirei em um sorteio essa semana: "Nada se sabe, tudo se imagina". É preciso perceber que realmente não sabemos.

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