segunda-feira, 3 de março de 2014

"Porque sim!"

Outro dia, um colega, que está num relacionamento complicado com uma mulher que se separou há alguns meses de um modo conturbado, estava se perguntando se ela era uma pessoa bacana já que ficou casada com um maluco - segundo ele e ela - por oito anos.
Ele tem alguma razão: as nossas escolhas falam sobre nós. Já me perguntei muito por que gente boa se associava a gente ruim. Até agora, só encontrei duas respostas: talvez sejam farinha do mesmo saco, no fundo; falta de autoestima da pessoa boa, que não acredita merecer coisa melhor.
Sabe, eu nunca fui casada, mas acho que posso entender essa gente que fica presa a relacionamentos ruins. Eu estou em um, de certo modo. Mal "casada" com a profissão há 15 anos, como disse o meu terapeuta.
Eu poderia dizer que isso é culpa da minha mãe, que me fez crescer ouvindo que a profissão é o meu marido. Eu comprei a ideia porque nunca quis ser dependente do dinheiro de um homem, como ela foi de meu pai. Hoje sei que isso não é verdade. Mas cadê que eu consigo me desapegar dessa crença errada?
Desde 1999 eu me sinto desconfortável nesse meio. Eu sei, no fundo, que se eu realmente quisesse, poderia ir mais longe nessa profissão. Mas apesar de gostar de vários elementos dela, não é "o homem da minha vida". Meu coração nunca esteve 100% ali. Eu sei que nem todos nós vamos ser extraordinários, mas eu sofro porque eu sei que eu tenho mais para dar do que o que até agora tem saído de mim, que enquanto o resto da humanidade mostra um fake melhor do que a realidade, eu sou aquele 3% que mostra um eu piorado. Minha primeira angústia é essa: será que realmente pode vir algo melhor ou eu estou me enganando?
Então eu vejo um monte de gente que ainda gosta de trabalhar nisso, embora se lenhe na vida pessoal por causa da profissão. Alguns permanecem por pura vaidade, mas um monte não. Então eu me questiono se não estou projetando na profissão problemas internos, que são mais fundos, e que a rotina apertada do jornalismo apenas potencializa. Ok, eu me sinto outra pessoa quando estou de folga, descansada, mas quem garante que não terei a mesma sensação em outra carreira?
(Acho que é por isso que, no fundo, eu tenho medo de relacionamentos. Porque se já é essa "guerra" com uma coisa que só envolve a mim, que deveria ser mais simples, imagine quando incluir um parceiro, um filho, uma casa e um cachorro? Será que eu vou aguentar a culpa de mexer no destino de toda essa gente se as coisas saírem mal? Sim, porque eu enrolo, mas não faz nem um pouco meu estilo permanecer ad aeternum numa situação ruim; sou meio rebelde, contestadora, sim, apesar de odiar o desgaste que isso me traz)
É extremamente difícil separar o meu do seu quando estamos em relacionamentos, em situações subjetivas. Eu apenas sei que estou prestes a abandonar a profissão porque meu corpo anda dando sinais. Ele está me tirando de uma situação que, emocionalmente, me sobrecarrega, me dá culpa, me deixa confusa para resolver. É o similar, em um casamento, a repulsa sexual do parceiro. Estou me isolando no trabalho, assim como as pessoas vão ficando distantes em uma relação. O fim de todo relacionamento é como câncer: há uma certa melhora (é você tentando dar um gás para ver se salva a situação), que provoca uma desesperada alegria, mas não se engane, o fim é certo e vem logo depois.
Desistir, embora muitas vezes seja a deixa para algo melhor, traz uma sensação de fracasso muito grande. Ninguém aposta para perder. É difícil ficar em paz com isso. Eu estou nesse ponto: tentando ficar em paz com uma decisão que já está tomada, mas que - eu sei - vai ser duro bancar.
Enfim, a gente demora muito tempo para sair dessas situações simplesmente "porque sim", como diz a propaganda da marca de cerveja. Porque cada um tem o seu próprio tempo. 

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