"A França é um país realmente socialista", foi o que pensei a princípio. Na primeira visita ao supermercado, achei fantástica a "ala dos pobres", e um cartaz que dizia assim: "Para quê pagar a mais por uma embalagem que vai parar no lixo, afinal?". "Uau!", pensei, "Ao consumidor é dada a oportunidade de comprar algo com uma embalagem mais 'fuleira' porém de valor menor. Isso é que é democracia (risos)".
Fiquei impressionadíssima, ainda, com a assistência que o governo oferece aos imigrantes, quer estejam legais ou ilegais. Minha irmã, residente aqui há mais de 4 anos, é um exemplo disso: o estado francês há quase um ano paga o tratamento dela para engravidar. Só uma injeção que ela precisa tomar custa mais de mil euros. Quando ela poderia ter uma assistência assim em sua terra natal? Uma amiga do Brasil, que descobriu a gravidez dela um mês após estar em solo francês, está recebendo um considerável amparo do governo, incluindo o pré-natal, o parto e auxílio moradia, etc. Incrível, não?
Mas se há uma coisa para a qual essa viagem serviu, certamente, foi para perceber que gente é tudo a mesma coisa nos quatro cantos do mundo - e assim são também os governos. O povo francês é simpático e educado com os estrangeiros, sejam turistas ou imigrantes. O problema é que nem sempre "simpatia é quase amor". No berço da república, a igualdade não implica de jeito algum em proximidade. O francês, pelo menos em Paris, não se mistura com a leva de árabes, latinos, portugueses, africanos e asiáticos que circulam em grande quantidade por aqui. "Cada macaco no seu galho".
Quando se tratam dos ciganos, então, a distância é o de menos, e entra em cena o preconceito e até uma dose de crueldade.
A princípio, me chamou a atenção o grande número deles mendigando pelas ruas. Pensava que se tratavam de espertalhões, afinal, haviam assim me dito, quem menos tem aqui na França é quem mais se beneficia dos auxílios governamentais. Mas pelo visto não é o caso desse grupo de imigrantes. Sarkozy já tentou se livrar deles dando-lhes dinheiro para que retornassem à Romênia, mas não deu certo. Tentou barrar a vinda pela Itália, e foi alvo de protestos. Pelo visto, a situação já ultrapassa a fase da mera implicância, e estão sendo aplicados a eles os mesmos métodos cruéis usados com os argelinos no início do século 20 (sim, a França tem histórico desse tipo, e recente!).
Sarkozy, um filho de imigrantes, não é bem visto por aqui. Um amigo francês de minha irmã (o único, por sinal, que ela conheceu, aliás, indo para o Brasil de férias), costuma dizer que o francês pensa como esquerda, mas acaba votando na direita. Sarkozy foi eleito assim e com o intuito maior de expulsar os imigrantes (o amigo francês admite que o povo responsabiliza, no fundo, a imigração pela crise em que se encontra o país, embora ela seja, evidentemente, um reflexo da crise mundial).
O problema dos franceses com o atual presidente é de "estatura política", dizem. "Muito aquém de outros presidentes que tivemos", ressalta o amigo francês, confessamente saudoso da era Miterrand.
Podem me chamar de paranóica, mas penso que isso tem a ver, também, com o fato de Sarkozy ser estrangeiro, no final das contas. Eles têm muito orgulho da história, da tradição política e da cultura deles. Assim como o francês nunca vai achar melhor qualquer baguete, croissant, queijo ou vinho que não seja legitimamente da terra, dificilmente vai dar a devida credibilidade para um estadista que não seja "puro sangue". Não é à toa que para os filhos de imigrantes se usa o termo "nascido em França", o que, vamos admitir, já deflagra a diferença entre esses e aqueles de linhagem familiar francesa.
Na antipatia por Sarkozy, aliás, imigrantes e franceses estão juntos. No táxi, assim que cheguei aqui, ouvi de um nigeriano, em tom de irritação: "Sarkozy não cumpre o que fala".
Reza a lenda que ao indicar um nome para o Pantheon, o atual presidente da França quis Albert Camus. A família negou o pedido, explicando claramente o motivo: "Não queremos que ele fique associado ao seu nome". (Scheeeelp!...) Tentou levar Aime Cesare para o rol dos homens ilustres do país, mas a família não quis que o corpo se mudasse da Martinica (colônia francesa) para Paris.
(Tadinho!... :P)
Enfim, a única que dá moral para o Sarkozy é a Carla Bruni. A ela, a propósito, fica a sugestão de gravar o hit de Zeca Baleiro, "Telegrama". Certamente, o marido vai se identificar com os primeiros versos da letra: "Eu tava triste, tristinho/Mas sem graça que a top model magrela da passarela/Eu tava só, sozinho...". (risos)
Enfim, a única que dá moral para o Sarkozy é a Carla Bruni. A ela, a propósito, fica a sugestão de gravar o hit de Zeca Baleiro, "Telegrama". Certamente, o marido vai se identificar com os primeiros versos da letra: "Eu tava triste, tristinho/Mas sem graça que a top model magrela da passarela/Eu tava só, sozinho...". (risos)
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