Às vezes coisas aparentemente idiotas nos fazem pensar na vida. Fui preencher meu perfil no Facebook, e acabei escolhendo, como manda a página, cinco pessoas que me inspiram. Depois, fiquei pensando no por que delas me inspirarem e constatei que, não por acaso, essas pessoas cultivam posturas que prezo bastante.
Lázaro Ramos - Simplicidade
Pessoalmente, sinto muita falta de referências jovens. Quase todo mundo que admiro não é da minha geração. Não concordo com algumas das posturas dos meus contemporâneos. Mas, como sempre existem as exceções, gosto muito de Lázaro Ramos. Primeiro porque foi contra todas as expectativas. Lembro de um comentário de uma colega de faculdade um pouco antes dele ganhar fama nacional: "É um ótimo ator, pena que nunca vai ser escalado pra fazer o galã da novela", foi mais ou menos o que ela disse. Alguns anos depois, esse baiano interpretou um pegador em plena novela das oito. O talento quebra regras, isso é fato.
Geralmente quando uma pessoa não corresponde aos estereótipos de seu meio, acaba sendo criado um rancor, uma espécie de mágoa por conta da rejeição. Sinto que esse ator é bem-resolvido consigo mesmo; ele me transmite simplicidade e dignidade. Creio que ter vindo do Bando de Teatro Olodum tenha a ver com isso. Aliás, a Bahia é um raro reduto da autoestima afro (talvez se Lázaro fosse gaúcho sentisse diferente). Está aí uma coisa que, a propósito, faz mais ainda a diferença no caso dele: apesar de ter orgulho da sua raça, ele não é panfletário e tem a elegância de não encher o saco da audiência com "pregação"; deixa a mensagem fluir na sua própria postura pública.
Susan Sarandon - Integridade
Sempre que digo que admiro essa atriz, o povo me pergunta a razão. Pra mim não tem dúvida, é só olhar para a face dela (embora acredite que "quem vê cara, não vê coração"). Susan faz parte de uma geração de atores (internacionais e nacionais também, claro) que cultiva ideais, estrelas cujas escolhas profissionais são coerentes com o que pregam.
Ela tem um tom firme, que eu aprecio e transmite dignidade. E, sabe, mais do que exatamente defender boas ideias, admiro gente que acredita no que fala e no que faz, que pensa as suas ações e escolhas. Isso demonstra critério na vida e integridade.
Hebe Camargo - Alegria
Nem todo mundo que você admira, admira por inteiro. Estranhamente, quando é assim o caso é mais notável, pois para continuar admirando alguém que te desagrada em parte, é preciso que o motivo de admiração seja maior que o usual.
Assim é a alegria de viver de Hebe. Nunca esqueci de uma declaração de Sílvio de Abreu sobre a Madrinha da Tv Brasileira, em que ele dizia que a coisa que mais o impressionou no tempo em que trabalhou com a loira foi o seu entusiasmo em exercer seu ofício, que não variava - quer o ibope marcasse 100 ou 0 pontos.
Eu acredito que felicidade é um dom (e não muita gente o possui hoje em dia). Hebe é inabalável neste quesito. É a personificação da máxima de uma outra loira, Marilyn Monroe: "Sei que nunca serei feliz, mas sei que posso ser muito alegre". E por que não?
Oprah Winfrey - Confiança
Oprah, como apresentadora, não me fascina. O que me impressiona nela é o exemplo de vida, a postura "para o alto e avante". Pire aí na bio dessa figura: mulher, negra e pobre, em um país preconceituoso como os EUA (lembrando aqui que ela foi jovem nos anos 60/70, época em que as coisas ainda eram muito difíceis para as minorias), veio de uma família desestruturada, e como se não bastasse, foi estuprada na infância e ainda jovenzinha perdeu um filho. Seria normalíssimo que uma mulher dessa não desenvolvesse autoestima e tampouco tivesse futuro. Oprah conseguiu os dois. Contra todas as probabilidades, ela confiou no próprio taco e, de quebra, acabou influenciando um monte de gente por aí.
Pois é, outra tendência que ela pôs por terra foi a de que celebridades são perfeitas, ao se mostrar acessível e vulnerável como qualquer ser humano. Geralmente quem chega ao topo não deseja compartilhar. Mesmo que ela não seja aquilo que demonstra, as confissões de Oprah ajudam a validar a humanidade da audiência.
Bethany Hamilton - Aceitação
Jovem, talentosa, bonita, atlética. Com tais características, essa menina poderia ser incluída no hall dos invejados. Mas eis que um dia, quando ela ainda tinha apenas 13 anos, essa mocinha passou a despertar a piedade de todo EUA ao ter um braço arrancado por um tubarão enquanto surfava no Havaí, na manhã de 31 de outubro de 2003. Mas não durou muito, pois a menina, ao invés de se lamentar, tocou a bola pra frente, tanto que hoje é uma das surfistas mais bem-sucedidas e participa de disputas com adversários sem qualquer deficiência.
Uma forte paixão pelo surfe? Certamente. Uma família que deu suporte? Sem dúvida. Mas, acima de tudo, uma alma forte. Porque não é fácil sustentar uma opinião sobre si mesma ("Eu ainda posso") quando todo mundo pensa o contrário de você ("Coitada dela, que tinha um futuro promissor pela frente"), ainda mais quando se tem 13 anos - isso fora o trauma de ser atacada por um tubarão, que ela logo superou.
A história de Bethany é uma aula de doçura, autoaceitação e, sobretudo, de dignidade. Um tapa na cara de uma sociedade de gente apegada (quase sempre a coisas sem a mínima importância), que adora uma reclamação.
(Quem quiser saber mais sobre a história dela, indico o filme Soul Sister.)
A história de Bethany é uma aula de doçura, autoaceitação e, sobretudo, de dignidade. Um tapa na cara de uma sociedade de gente apegada (quase sempre a coisas sem a mínima importância), que adora uma reclamação.
(Quem quiser saber mais sobre a história dela, indico o filme Soul Sister.)

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