Antonio Banderas não foi só o ator que me apresentou Pedro Almodóvar; foi também o cara que me fez repensar o conceito de felicidade (risos). Banderas, numa entrevista, disse que a felicidade é para os fracos; que o que lhe interessava na vida é cultivar a alegria, o entusiasmo. Enfim, que ao invés de investir numa meta, ele preferia alimentar uma atitude. Fiquei pensando nisso, e vi que ele tem toda a razão.
Tem gente cuja energia, a alegria, é uma lição de vida. Algumas delas já passaram em minha vida e me mostraram que, como disse o poetinha, "é melhor ser alegre que ser triste/ a alegria é melhor coisa que existe/ é assim como a luz no coração".
Nunca esqueci de Tia Iara, uma vizinha pernambucana, de olhos azuis que mais pareciam duas bolas de gude, ex-garota propaganda do Toddy, em 19...! (risos) Chamava todo mundo de "Seu Menino" ou "Dona Menina". Que figura!... Teve o azar de casar muito cedo com Seu Pereira, um senhor todo cheio de maneirismos e classe, mas que passou a vida sem fazer absolutamente nada. Com ele, teve 3 filhos, que sustentou praticamente sozinha. A quem perguntasse sobre a ocupação do marido, Tia Iara respondia, com o seu inabalável bom-humor: "Seu Pereira é arquiteto: vive de projetos".
Tia Iara, certamente, tinha um parafuso a menos. Uma vez, sua casa foi assaltada, e os ladrões mandaram Seu Pereira entregar o par de sapatos brancos - eram a marca registrada dele. Vendo o olhar de desapontamento do marido, ela negociou com os assaltantes, que devolveram os estimados sapatos brancos de Seu Pereira! haha
No ano em que fomos vizinhas, passava a novela "O Dono do Mundo". Ela (e a torcida do Flamengo!) era apaixonada pelo Antonio Fagundes. Não é que, um dia, num dos bicos que fazia, esbarrou com o homem em meio a gravação de um comercial?! Fez aqueeele escândalo de fã emocionada e o Fagundes caiu na gargalhada. Doida, doida, doida!... kkk
Na mesma linha, agia Tia Edna. Pense numa mulher que sofreu!... Mas sempre fazia piada de tudo. Por alguns motivos que, claro, não vou dizer aqui, não sou muito chegada nela, mas o alto-astral dessa pessoa é admirável (ainda mais tendo o marido que teve!pschiiii!...). Como dizia o Érico, pai do Luís Fernando Veríssimo, às vezes não é nem o amor mas o humor que salva a gente.
Tia Marinalva foi outra. A sorte é que ela não teve filhos com o marido, mas comeu também o pão que o diabo amassou com o rabo e assou no tridente por causa dele. Mas estava sempre de bom-humor. Nunca a vi triste. Quando ele morreu, a vizinhança toda meio que a adotou. Hoje ela vive lá, no seu adorado Rio de Janeiro, com as suas vizinhas e cachorros. Pra quê melhor?!
Mas não são só as mulheres mal-casadas que cultivam essa arte. Tem gente jovem que também merece uma salva de palmas.
Na adolescência, duas amigas minhas, num espaço de menos de três anos, perderam o pai e a mãe. Olha, que meninas fortes! No dia seguinte ao enterro, já estavam tocando a vida como se nada tivesse acontecido.
Minha mãe sempre diz que quem não sabe rezar, xinga Deus, mas elas não ficaram nem um pouco revoltadas com a vida. Pelo contrário. Sofreram, claro, mas acho que quando você percebe que isso aqui é tão efêmero e que não chegar a envelhecer é também uma possibilidade, passa a cultivar a alegria, a valorizar pequenas coisas. Elas são muito animadas, se adoram, e são as pessoas com mais amigos que conheço.
Por último, mas não menos fofo, meu "irmão" Fábio, que nos deixou aos 18 anos, em setembro de 1991, dias antes de seu aniversário. Fábio era amigo do primeiro namorado de minha irmã. Foi lá uma vez, ficou tímido por meia hora e depois se chegou quase que de mala e cuia. Loiro, magro, olhos verdes e melancólicos, sorriso sempre na boca. Tinha a expressão de um filhote de cachorro, sei lá, um ar meio levado/carente. Era um tagarela entrão, que adorava comer todo o saco de pão lá de casa. Nessa época, eu estudava à tarde. Sabia se dr. Fábio estava na área a depender do volume de pães em cima da mesa. rsss... Em pouco tempo, já chamava minha mãe de mãe, meu pai de pai, e já detonava o que tinha na geladeira sem pedir licença. Ninguém se importava. Fábio, como se diz lá no Sul, era um querido. O sorriso de Fábio foi um dos mais genuínos que já vi.
Tinha uma história familiar complicadíssima, pais separados, várias mudanças de estado nas costas. Enfim, nenhuma estabilidade. Era um solitário. Teve uma morte esquisita. Todo mundo prefere pensar que foi acidente, mas pode ter sido suicídio. Duas músicas sempre me lembrarão Fábio: "Maior abandonado", do Cazuza, e "Pais e Filhos" do Legião ("É preciso amar as pessoas/ Como se não houvesse amanhã/ Por que se você parar/ Prá pensar/Na verdade não há...."). Foi embora muito cedo, mas deixou, para os seus amigos, o legado da alegria.
Tem gente cuja energia, a alegria, é uma lição de vida. Algumas delas já passaram em minha vida e me mostraram que, como disse o poetinha, "é melhor ser alegre que ser triste/ a alegria é melhor coisa que existe/ é assim como a luz no coração".
Nunca esqueci de Tia Iara, uma vizinha pernambucana, de olhos azuis que mais pareciam duas bolas de gude, ex-garota propaganda do Toddy, em 19...! (risos) Chamava todo mundo de "Seu Menino" ou "Dona Menina". Que figura!... Teve o azar de casar muito cedo com Seu Pereira, um senhor todo cheio de maneirismos e classe, mas que passou a vida sem fazer absolutamente nada. Com ele, teve 3 filhos, que sustentou praticamente sozinha. A quem perguntasse sobre a ocupação do marido, Tia Iara respondia, com o seu inabalável bom-humor: "Seu Pereira é arquiteto: vive de projetos".
Tia Iara, certamente, tinha um parafuso a menos. Uma vez, sua casa foi assaltada, e os ladrões mandaram Seu Pereira entregar o par de sapatos brancos - eram a marca registrada dele. Vendo o olhar de desapontamento do marido, ela negociou com os assaltantes, que devolveram os estimados sapatos brancos de Seu Pereira! haha
No ano em que fomos vizinhas, passava a novela "O Dono do Mundo". Ela (e a torcida do Flamengo!) era apaixonada pelo Antonio Fagundes. Não é que, um dia, num dos bicos que fazia, esbarrou com o homem em meio a gravação de um comercial?! Fez aqueeele escândalo de fã emocionada e o Fagundes caiu na gargalhada. Doida, doida, doida!... kkk
Na mesma linha, agia Tia Edna. Pense numa mulher que sofreu!... Mas sempre fazia piada de tudo. Por alguns motivos que, claro, não vou dizer aqui, não sou muito chegada nela, mas o alto-astral dessa pessoa é admirável (ainda mais tendo o marido que teve!pschiiii!...). Como dizia o Érico, pai do Luís Fernando Veríssimo, às vezes não é nem o amor mas o humor que salva a gente.
Tia Marinalva foi outra. A sorte é que ela não teve filhos com o marido, mas comeu também o pão que o diabo amassou com o rabo e assou no tridente por causa dele. Mas estava sempre de bom-humor. Nunca a vi triste. Quando ele morreu, a vizinhança toda meio que a adotou. Hoje ela vive lá, no seu adorado Rio de Janeiro, com as suas vizinhas e cachorros. Pra quê melhor?!
Mas não são só as mulheres mal-casadas que cultivam essa arte. Tem gente jovem que também merece uma salva de palmas.
Na adolescência, duas amigas minhas, num espaço de menos de três anos, perderam o pai e a mãe. Olha, que meninas fortes! No dia seguinte ao enterro, já estavam tocando a vida como se nada tivesse acontecido.
Minha mãe sempre diz que quem não sabe rezar, xinga Deus, mas elas não ficaram nem um pouco revoltadas com a vida. Pelo contrário. Sofreram, claro, mas acho que quando você percebe que isso aqui é tão efêmero e que não chegar a envelhecer é também uma possibilidade, passa a cultivar a alegria, a valorizar pequenas coisas. Elas são muito animadas, se adoram, e são as pessoas com mais amigos que conheço.
Por último, mas não menos fofo, meu "irmão" Fábio, que nos deixou aos 18 anos, em setembro de 1991, dias antes de seu aniversário. Fábio era amigo do primeiro namorado de minha irmã. Foi lá uma vez, ficou tímido por meia hora e depois se chegou quase que de mala e cuia. Loiro, magro, olhos verdes e melancólicos, sorriso sempre na boca. Tinha a expressão de um filhote de cachorro, sei lá, um ar meio levado/carente. Era um tagarela entrão, que adorava comer todo o saco de pão lá de casa. Nessa época, eu estudava à tarde. Sabia se dr. Fábio estava na área a depender do volume de pães em cima da mesa. rsss... Em pouco tempo, já chamava minha mãe de mãe, meu pai de pai, e já detonava o que tinha na geladeira sem pedir licença. Ninguém se importava. Fábio, como se diz lá no Sul, era um querido. O sorriso de Fábio foi um dos mais genuínos que já vi.
Tinha uma história familiar complicadíssima, pais separados, várias mudanças de estado nas costas. Enfim, nenhuma estabilidade. Era um solitário. Teve uma morte esquisita. Todo mundo prefere pensar que foi acidente, mas pode ter sido suicídio. Duas músicas sempre me lembrarão Fábio: "Maior abandonado", do Cazuza, e "Pais e Filhos" do Legião ("É preciso amar as pessoas/ Como se não houvesse amanhã/ Por que se você parar/ Prá pensar/Na verdade não há...."). Foi embora muito cedo, mas deixou, para os seus amigos, o legado da alegria.
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